Corto Maltese – há 50 anos a apontar-nos rumos…

CORTO MALTESE: UMA VIAGEM COM 50 ANOS

Foi em Julho de 1967 que Hugo Pratt nos apresentou Corto Maltese, o lacónico, rapidamente icónico, capitão da Marinha Mercante Britânica, protagonista de uma das séries gráficas mais veneradas do século XX. Meio século depois do embarque na Balada do Mar Salgado, os ventos da realidade voltam a empurrar-nos para ele(s).

Em Corto Maltese na Sibéria, há um momento em que o famoso marinheiro, prestes a ser capturado pela divisão de cavalaria asiática do barão Von Ungern-Sternberg, se refugia num poema de Rimbaud. “Pelas tardes azuis do verão, irei pelas sendas, guarnecidas pelo trigal, pisando a erva miúda”, declama para dentro, rodeado de neve e a tremer de frio, a fitar uma espingarda a aproximar-se. “Sonhador, sentirei a frescura em meus pés. Deixarei o vento banhar a minha cabeça nua. Não falarei mais, não pensarei mais; mas um amor infinito invadir-me-á a alma. E irei longe, bem longe, como um boémio, pela natureza — feliz como com uma mulher.”

Corto não segue sozinho a caminho da provável morte. A seu lado vai Changai Li, a jovem chinesa que quer capturar antes dele o ouro do almirante Kolchark e vai Rasputin. Quem nunca leu a famosa BD de Hugo Pratt estará a questionar-se se esse Rasputin é “aquele”, o real, o místico louco que soprava conspirações ao ouvido de Nicolau II e que contribuiu para a queda do último czar da Rússia, faz este ano um século.

A versão ficcionada do Barão Sanguinário (como o verdadeiro Von Ungern-Sternberg ficou conhecido no pós-revolução russa) tem a mesma dúvida quando é apresentado aos três reféns. “Você que se parece com o infame do Rasputin, como se chama?” “Rasputin, excelência!

Utopia e pragmatismo

Hugo Pratt, que há cinquenta anos nos convidou a embarcar na Balada do Mar Salgado, nunca fez segredo das suas inspirações — de todas as personagens reais com quem Corto se cruza a partir dali, só Rasputin não é suposto ser o verdadeiro.

Na aventura de estreia de Corto Maltese, que o ilustrador italiano lançou em Julho de 1967, o oficial da Marinha Mercante britânica, nascido em Malta e com residência em Hong Kong, que se recusa a criar raízes em lugares ou em ideologias, já conhecia este outro Rasputin — seu companheiro de várias viagens na aclamada série gráfica, um homem de olhar cavado e longa barba negra mais dado a interesses e loucuras do que o marinheiro errante de brinco na orelha.

Na primeira aventura, perdidos no meio do Pacífico, em plena Primeira Guerra Mundial, Corto sobe a bordo de um catamarã onde Rasputin está a planear usar dois sobreviventes de um naufrágio para enriquecer — e assim se inaugura o imaginário de Pratt. Na segunda, o criador de Corto leva-o até aos confins da China e da Sibéria e põe-lhe nas mãos Utopia, de Thomas More. “Nunca conseguirei ler isto até ao fim”, lamenta-se o nómada dos mares, filho de um oficial da Marinha Real britânica e de uma cigana de Sevilha.

Acho que a coisa realmente importante sobre isto, que é hilariante e tão certa, é que Corto nunca acabou de o ler”, comentava em 2012 Hall Powell, realizador e guionista de televisão que, nesse ano, começou a traduzir a BD do anti-herói para inglês (foi o primeiro lançamento nos Estados Unidos em 20 anos). Não ler Utopia até ao fim, defendeu então Powell, “é a definição de um utópico verdadeiramente pragmático”.

A sofisticação da literatura e da política

Há quem diga que as palavras que abrem A Balada do Mar Salgado — “Sou o Oceano Pacífico e sou o maior de todos” — estão para os quadradinhos como “Chamem-me Ismael”, a primeira linha de Moby Dick, de Herman Melville, está para a literatura. Quando Pratt lançou a série com a revista Il Sergente Kirk em Itália, o protagonista ia ser o mar. Mas a complexidade literária e política que brotou do marinheiro acabaria por levar a melhor — o Pacífico foi relegado para segundo plano e Corto ganhou vida longa entre nós, levando-nos aos confins do mundo e da mente humana. Já dizia Umberto Eco: “Quando quero relaxar leio ensaios de Engels. Quando quero algo mais sério, leio Corto Maltese.”

Hoje, até quem nunca foi dado a BD já ouviu falar da personagem. Que é como quem diz, de Pratt. “Devemos lembrar-nos que as tiras reflectem as próprias experiências peripatéticas de Pratt”, explicava há alguns anos Dean Mullaney, fundador de uma das primeiras editoras independentes de BD nos EUA, a Eclipse Enterprises. “Da sua juventude na Etiópia aos muitos anos passados na Argentina, Pratt foi ganhando uma perspectiva humanista. As suas histórias ressoaram na audiência do fim dos anos 60 e do início dos anos 70, e ressoam ainda hoje em nós, porque ele escreve sobre a luta universal pela dignidade humana.”

Foi assim que Pratt trouxe ao mundo das novelas gráficas não só a sofisticação da literatura, mas a crítica social e política, com histórias em quadradinhos mais próximas da realidade do que da ficção, apesar de todo o esoterismo e magia.

Filho de um militar que apoiava Mussolini e da neta do poeta Eugenio Genero (citado na versão original de Corto Maltese na Sibéria em vez de Rimbaud), Pratt lançou o primeiro trabalho na Itália do pós-guerra, com críticas ocultas ao imperialismo e ao capitalismo. Foi isso e também o facto de Corto ser um aventureiro romântico que, ainda assim, desconstrói a forma como o mundo ocidental subjugou culturas e povos, que fizeram com que Pratt e o seu alter ego refletissem o activismo do Maio de 68 e até o movimento espontâneo anti-ideológico de 1977 em Itália antes de qualquer um deles eclodir.

Uma coincidência, dirão alguns, tão atraente como o facto de a obra celebrar meio século na mesma altura do centenário da Revolução Russa. Num novo momento de convulsões sociais e com as peças do xadrez mundial outra vez em movimento, faz sentido voltar a Corto Maltese. Como diziam o ilustrador Ruben Pellejero e o escritor de BD Juan Díaz Canales há dois anos, quando reinventaram Corto numa nova série fiel ao universo gráfico e literário de Pratt: “Corto convida-nos a viajar e a sonhar com ele.” E a mensagem de tolerância e de empatia mesmo quando há discórdia talvez seja o seu maior ensinamento — mais actual do que nunca.

Por: Joana Azevedo Viana
llustração: Ruben Pellejero
ESTANTE – Revista FNAC
10 Julho 2017

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