De e para Santiago com amor

A caminho de Santiago, e já bem perto, chega-nos uma mensagem dos três peregrinos de Peniche. Com imagens da jornada, aqui fica o texto recebido:

“Estamos a 12km de Santiago, partimos de Valga, estamos neste momento no concelho de Teo e partiremos dentro de minutos para a etapa final, a etapa esperada, o Santo esperado. Santiago de Compostela espera por nós, e para lá caminhamos com todos os que nos deram apoio no coração e com Deus no pensamento. 
                                                                 Assinado, Manuel, Daniel e Padre Ricardo”

Amigos, da nossa parte, a dos que por aqui temos acompanhado o difícil percurso, daqui vão os votos fraternos de um final feliz. Após a jornada do corpo, espera-vos a da alma, objectivo fundamental da peregrinação.
Uma boa estadia em terras de Santiago, completa recuperação e seguro regresso – eis o que do coração todos vos desejamos!

 

Anos XXX e XL – 02

Os anos 50 e 60 foram tempos muito complexos, mundialmente dominados pela denominada Guerra Fria que se seguiu ao II grande conflito bélico, findo em 1945. Ainda que “travada” sobretudo entre os blocos -o Ocidente liderado pelos Estados Unidos e o Leste com a União Soviética à cabeça- teve palco central na Europa mas alastrou a todos os confins do mundo.

Com polos nas Américas, sobretudo em Cuba, e no Extremo Oriente com a Grande Marcha e a Revolução Cultural na China ou as Guerras da Coreia e do Vietname, foram assumidos em África os protagonismos mais intensos com as sucessivas descolonizações e independências, na maior parte precedidas de violência. E esse fenómeno político e social atingiu-nos de forma brutal, sobretudo como consequência das intransigências teimosamente mantidas. O “orgulhosamente sós” que Salazar insistiu em prosseguir teve dramáticos ecos em todo o país e não apenas no Ultramar.

À morte do presidente Óscar Carmona, em 1951, sucederia Américo Tomás em 1958 após uma tímida passagem de Craveiro Lopes, em mandato cuja continuidade não seria “aprovada” pelos duros do regime.

O texto explicativo com que O Século justificou a sua edição extraordinária de 1956 é suficientemente claro como demonstração do espírito “oficial” do país.

Tem igual interesse lembrar a referência do mesmo jornal à sua visão, corporativa, do municipalismo e dos seus servidores.

O Império, porém, começou a abanar e os primeiros sintomas vieram da Índia, nessa década de 50. A nossa discreta entrada na ONU, num colectivo pacote de nove países, nada resolveu em nosso favor, tal como nada adiantara a adesão nacional à NATO, que estrategicamente convinha aos aliados ocidentais.

Cá por casa, eram abafados na medida do impossível os escândalos sociais e os conflitos internos, sobretudo os políticos. A morte de Catarina Eufémia, em 1954, as sucessivas manipulações orquestradas em épocas eleitorais contra toda e qualquer oposição democrática, tanto em pleitos legislativos como em presidenciais, foram criando uma aura de crescente desconfiança internacional em nosso desfavor, mesmo entre os países amigos ou aliados.

1960 começou com a carismática fuga de Álvaro Cunhal e dos seus companheiros de cárcere da Fortaleza de Peniche, golpe profundo no regime sobretudo pelo seu significado político. Depois, o Congo e o Katanga, mesmo junto a Angola, trouxeram enorme instabilidade à região.

O ano de 1961, situado a meio do período entre os dois jornais em apreço, marcou brutalmente a profunda diferença que se ia cavando pouco a pouco entre ambas as datas de referência. Foram em excesso os casos que afligiram Salazar e, por tabela, todos nós. Mesmo sem se ser exaustivo, basta recordar o caso do sequestro do paquete Santa Maria, o início da revolta angolana em Luanda e logo a seguir no Norte, um golpe de estado interno protagonizado pelo general Botelho Moniz, a invasão e ocupação dos nossos territórios na Índia, o desvio de um avião da TAP ou o assalto ao quartel de Beja. Foram muitos problemas juntos… e graves.

Nos anos imediatos, e em brevíssimo resumo, acontecerão sobretudo os alargamentos das nossas guerras coloniais à Guiné, em 1963, e a Moçambique, em 1964.

Lembrar os conflitos étnicos nos Estados Unidos ou na África do Sul, os assassinatos de Kennedy ou de Humberto Delgado, e tantos, tantos outros episódios ou casos de uma época densa em acontecimentos marcantes, lembrar tudo isso é apenas justificar a objectiva e abissal diferença entre 1956 e 1966.

Não precisamos para tanto de ser historiadores, sociólogos ou políticos; basta-nos ser testemunhas e dispor de suficiente memória e discernimento médio.

Aliás, ler agora com tranquilo distanciamento aquilo que dali sobrou por escrito, mesmo sob a forma de vulgares jornais, ainda que tendenciosos, pode ajudar-nos a perceber o fenómeno.

E foi isso que sobretudo me ocorreu, na partilha agora proposta.

Este material é mais um contributo para melhor ser entendida uma época febril que os mais velhos vivemos e que aos mais novos convém conhecer.

O passado, desde que reflectido, contém sempre lições para compreender o presente e para acautelar o futuro.