Velhos são os trapos mas os papéis não! – trinta e dois

AS TERMAS DE CASTELO DE VIDE

Com a devida vénia, recolhemos e transcrevemos o artigo seguinte do trabalho patente na Internet “Das termas aos ‘spas’: reconfigurações de uma prática terapêutica” – Projecto POCTI/ ANT/47274/2002 – Centro de Estudos de Antropologia Social e Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.
Serve este material para enquadrar o recorte – um papel antigo mas não velho! – acima reproduzido, retirado da edição de 4 de Abril de 1943 do jornal Diário de Notícias.

Na “Corografia Portuguesa” (1706, II: 562) é curta a referência a esta fonte “de excelente água dentro dos muros, e no arrabalde outra, que chamam da Mealhada com excelência de que os que nela costumam beber, são isentos de dor nefriticas”. O Aquilégio (1726) só menciona a fonte da Mealhada, repetindo a notícia da “Corografia”. A Gazeta de Lisboa, n.º 1, de 1756, noticia que a 1 de Novembro de 1755, entre as 9 e 10 h, se sentiu em Castelo de Vide o terramoto, durante o qual a Fonte da Vila cessou de correr e depois lançou água turva e a da Mealhada ficou correndo com maior quantidade.

O interesse pela aplicação terapêutica das fontes só terá começado no princípio do século XX. Em 1918 as suas águas foram analisadas por Charles Lepierre, que as classificou como mesossalinas, cloretadas sódicas, sulfo-carbonatadas, alcalina-terrosas. Nesta ocasião foi também estudada a captação da nascente.

Depois dos trabalhos para novas captações e construção do balneário, o edifício termal foi terminado em 1942. Nesse ano terá trabalhado em fase experimental, como se deduz dos valores apresentados por Acciaiuoli (1947: 179): 149 aquistas e 60 banhos, ou seja, com a ingestão de água como principal tratamento.

No Anuário (1963) são apresentadas três fotografias do balneário: o vestíbulo, num pátio em larga varanda em arcos aberta sobre a paisagem; a buvete, no mesmo pátio; uma outra fotografia mostra a inserção do edifício no tecido urbano. Foi neste cenário que o médico Amaro de Almeida fez a sua experiência como director clínico de termas, cremos que única na sua carreira como hidrologista, entre os anos de 1956 a 1962, dedicando-se posteriormente aos levantamentos hidrológicos do território nacional.

Nesse período escreveu e publicou os seguintes estudos: “Lugar de Director Clínico – achega para uma reforma legislativa (1956); “Os novos rumos da investigação Hidrológica” (1957); e “O valor actual da Crenoterapia na Diabetes” (1962). Estes três trabalhos reflectem os seus interesses e preocupações como investigador e director clínico termal, tanto a nível de reformas legislativas necessárias, como de reflexão sobre métodos de investigação da hidrologia médica: “Se estão postas, empiricamente, as indicações terapêuticas das Águas não devemos tomar atitudes extremas. Nem acreditar que o empírico não é científico e que portanto, está errado, nem aceitar integralmente o que o empirismo ensina sem alguma coisa fazermos para o confirmar […] Não há que procurar o «quid divino» da Água na tripinha do rato sem tentar averiguar, por exemplo, se uma determinada água sulfúrea é mais eficaz nas formas vertebrais reumáticas ou noutras formas articulares […] A investigação hidrológica tem que estar ligada a um plano de assistência para se dispor de hospitais devidamente apetrechados nas estâncias balneares.” (1957: 12).

Se os dois primeiros estudos são generalistas, no terceiro a reflexão recai sobre uma doença específica, a diabetes, e sua cura com as águas de Castelo de Vide. À falta de um hospital termal onde pudesse observar os doentes, recorreu a 43 “doentes hospitalizados no Departamento Termal do Hospital da Misericórdia”, que usaram estas águas combinadas com insulina e antidiabéticos, formando quatro grupos conforme o tratamento: A – Só ingestão de água; B – Ingestão de água e antidiabéticos orais; C – Ingestão de água e injecções de insulina; D – Um grupo que fez um tratamento misto.

Para os quatro grupos os valores das análises das glicemias e das glicosurias, antes e depois do tratamento, tinham diminuído substancialmente, concluindo-se que “a cura termal de Castelo de Vide é notavelmente benéfica para o diabético, baixando-lhe o açúcar no sangue e na urina e reduzindo a sua necessidade de insulina”.

As termas de Castelo de Vide encerraram no início da década de 90, por “inquinação das águas”, segundo vários informantes. Mas será mais credível que o seu encerramento seja fruto de uma gestão termal ultrapassada de uma água mineral que pela sua natureza é sobretudo para ingestão.

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