João de Azevedo Coutinho – Memórias de vida – III

No dia do 27.º aniversário, a 3 de Fevereiro de 1892, João Coutinho recebeu a grata visita de um missionário amigo, o padre jesuíta Aloy, que lhe ofereceu um rico estojo de caça. Anos depois, João Coutinho entregá-lo-ia como presente ao rei D. Carlos. Nesse dia sentaram-no pela primeira vez, para assistir à missa celebrada pelo missionário.

Começando a custo a levantar-se, recebeu ainda em Fevereiro a comunicação da parte do Governador Geral, por ordem expressa do Ministro, de que deveria retirar para Moçambique. Todos os sipaios sobreviventes da coluna seriam licenciados.

João Coutinho, mal se sente com força suficiente, segue para Sena e dali para Quelimane. Nesta localidade, foi visitado pelo seu grande amigo Pedro de Almeida e Noronha, que acabara de chegar de Lisboa e ia trabalhar como arrendatário do prazo Madal. Nesse momento não poderiam sequer imaginar que o destino os iria tornar compadres, quando, em 1923, o filho de João e a filha de Pedro vierem a casar em Lisboa!

De Quelimane, partiu de seguida para Moçambique, onde o Governador pusera à sua disposição o palácio da Cabaceira. E aí se instalou durante os dois meses ainda considerados necessários à convalescença total.

Pouco depois de chegar a Lisboa, a bordo do paquete Malange, em Maio de 1892, e tendo-se apresentado ao serviço da Marinha, o 1.º tenente João de Azevedo Coutinho é nomeado ajudante de ordens do ilustre almirante José Baptista de Andrade, que então desempenhava as funções de Presidente do Conselho do Almirantado.

No dia 6 de Agosto de 1892, João de Azevedo Coutinho realiza o seu sonho de amor, casando com a noiva, em Portalegre.

O jornal O Distrito de Portalegre, na sua edição do dia 10, publica a breve e sugestiva notícia “Enlace Auspicioso”:

Na casa da magnífica habitação do ex.mo sr. Inácio Cardoso de Barros Caldeira Castel-Branco, celebrou-se no dia 6 do corrente o consórcio de sua filha a ex.ma sr.ª D. Maria Ignez de Barahona Caldeira Castel-Branco, com o ex.mo sr. João d’Azevedo Coutinho.

Ambos os noivos fidalgos por nascimento, não o são menos por suas acções:

Ele, o destemido oficial da nossa armada, faz lembrar por seus feitos heróicos na África, que lhe conquistaram o cognome de herói do Chire, as façanhas quase lendárias dos vultos épicos da história marítima de Portugal, das nossas descobertas e conquistas.

Ela, o anjo dedicado e consolador de seu bondoso pai, exemplo de austeridade nos costumes domésticos, boa, simples, esmoler, junta a todos estes predicados o de uma fisionomia simpática e atraente.

Foram testemunhas as ex.mas sr.as D. Inácia Ramalho Barahona e Viscondessa de Alter, tia e prima da noiva, e os ex.mos srs. Dr. Luís da Costa Azevedo Coutinho e Pedro d’Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira, tio e irmão do noivo.

À tarde reuniu-se muito povo à porta da habitação do sr. Inácio Caldeira e imediações da cidade como para se despedirem dos noivos, os quais acompanhados de grande número de pessoas de família seguiram, por sete horas, para a estação e daí em comboio especial para Lisboa, onde vão fixar a sua residência.

Que do céu lhe chovam todas as venturas de que por tanta maneira são dignos”.

O jovem casal foi então morar num rés-do-chão da Rua Alexandre Herculano, em Lisboa, rua em que nessa época havia construídas bem poucas casas.

Durante alguns meses, por estes tempos, publica umas singelas narrativas (é sua a expressão) nas páginas de O Mundo Português e da Revista do Exército e da Armada. O desafio de amigos e os seus apontamentos, colhidos durante momentos únicos da sua vida em Moçambique, motivaram-no para este trabalho emocionalmente reconfortante.

É notável o conjunto de crónicas que então produz, num estilo literário de qualidade, servindo temas onde a História, a Etnografia e o próprio romanesco confluem, num todo interessantíssimo onde se vai encontrar muito do material que informará, cinquenta anos depois, as suas Memórias.

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