PORTALEGRE PERDEU-SE ALGURES ENTRE ALCÁCER QUIBIR E A LIXOSA

Portalegre é uma terra sem memória.

Talvez deva corrigir: Portalegre é uma terra com uma especial memória selectiva. O que é ainda pior. Lembra-se ou olvida-se o que em cada momento interessa ou convém.

A memória de uma terra é colectiva, mas funciona ao sabor de impulsos individuais. Depois, em permanência, a comunidade aceita ou rejeita a iniciativa.

Quando alguém, mais sensível, procura recordar figuras que por aqui viveram misturando ilustres bispos e modestos engraxadores, solenes governadores e simples cauteleiros, valentes guerreiros e habilidosos alfaiates, generosos sacerdotes e inspiradas doceiras, quando alguém o faz rompe as normas que prudentemente mandam colocar cada macaco no seu galho. E, portanto, isto das caras e dos nomes baralha, em muita gente, macacos e galhos.

A toponímia local é uma floresta onde se nota a confusão (ou será ignorância!?) em que nomes, datas, factos, figuras e memórias se encontram e se baralham. E se iludem ou se perdem…

Seria extensa a lista dos equívocos portalegrenses alusivos e por isso me escuso, por ora, da sua discriminação. Basta-me um exemplo, o que vem neste preciso momento mais a propósito.

Nasceu aqui bem perto embora tenha feito formação e vida pela capital, para onde cedo foram os pais. Alistou-se na tropa, optando pela vocação marítima, e comandou navios, onde logo deu nas vistas. Mas foi em terra, protótipo de fuzileiro, que mais se distinguiu, antecipando posteriores gestas guerreiras por antigas terras do nosso extinto Império.

Audaz, lutou com insuperável bravura e provocou iras e invejas, fustigando poderosos interesses, o que desencadeou dolorosa e rude intervenção estrangeira, impondo-nos a força dos seus canhões. O nosso hino nasceu daí, da impotente revolta nacional contra tão inaudita ofensa.

Reconhecendo a invulgar coragem do jovem marinheiro-soldado, saudaram-no as Cortes que o consideraram Benemérito da Pátria. Tinha ele apenas 25 anos.

Portalegre não ficou indiferente ao facto e repetiu aqui a iniciativa que Portugal assumiu em muitas outras localidades, atribuindo o nome do herói a uma das suas ruas. Depois, recebeu-o em delírio, como consta das crónicas do tempo. Acrescente-se que a oportunidade até foi facilitada pela frequente vinda do militar à nossa cidade, onde se enamorara de uma linda jovem.

Em África, onde voltaria, foi gravemente ferido num duro combate, passando largos meses em difícil mas bem sucedida convalescença. Pouco depois, a Portalegre viria para casar com a mulher amada.

A continuação da sua agitada vida seria repartida pela paz e pela guerra, escrevendo inspirados livros, governando terras, distritos e províncias, comandando duras e decisivas campanhas militares, desempenhando altas funções junto do seu Rei e do Estado. Foi Conselheiro e Ministro, devendo-lhe a Marinha e o Ultramar arrojadas, sábias e pioneiras iniciativas.

Recebeu as mais elevadas honrarias, entre as quais todos os graus da Ordem Militar da Torre e Espada. Raros portugueses, em todos os tempos, foram tão distinguidos e com semelhante justeza.

A implantação da República colocou-lhe o dilema de uma radical escolha alternativa e ele não hesitou no respeito pelos seus juramentos de honra perante o Rei e a Monarquia, o que lhe valeu inevitável demissão e temporário exílio. Lutou contra o Poder instituído e, em lógica consequência, foi o seu nome banido da sociedade. Também na sua terra, tal como em Portalegre, isso aconteceu. Aqui, o seu nome foi substituído por uma ignota datação, referência toponímica ao novo regime.

Mas Portalegre permaneceu para ele como local de preferência, tendo-lhe prestado valioso serviço público ao ser eleito senador monárquico pelo distrito. Aqui passou largos períodos, alternando com Lisboa, entregue à família, à escrita de memórias e ao combate político como Lugar-Tenente do pretendente ao putativo trono e como líder da Causa Monárquica.

Foi longo, por mais de trinta anos, o doloroso período que conduziu à justa e inevitável reparação pública, oficial, desse bravo português.

Foi então imediato e entusiástico o desencadear de sucessivas e vibrantes homenagens, porém lenta se processou a reposição das perdidas nomenclaturas toponímicas.

Em Portalegre nunca isso aconteceu, esgotando-se ingloriamente, sem remédio, as oportunidades mais adequadas para tal reparação, apesar de cíclicos alertas em tal sentido. Este absurdo fenómeno agora mesmo se repetiu.

Portalegre, de facto, é uma terra sem memória ou, pior do que isso, dotada da tal particular memória selectiva, ao sabor de conveniências ou fraquezas.

Ao mesmo tempo que aqui se evoca com invejável frequência e qualidade a gesta de um punhado de soldados combatentes na I Guerra Mundial, na Flandres e em África, sob a bandeira de dois gloriosos regimentos portalegrenses, persiste-se na deliberada e incoerente ignorância de um herói nacional, apeado de antiga e justa homenagem local. Inconfessáveis contradições!

Passa (passou!) neste exacto Domingo, 6 de Agosto de 2017, uma magnífica oportunidade para isso, na efeméride dos 125 anos do casamento, em Portalegre, do alterense João de Azevedo Coutinho com a portalegrense Maria Inês de Barahona Castel-Branco.

E os portalegrenses continuarão a ignorar o facto que as próprias escrituras confirmam, a histórica certeza de que a actual Rua 19 de Junho, antiga Rua da Carreira, entre 11 de Setembro de 1890 e 26 de Junho de 1911, se denominou Rua de Azevedo Coutinho.

Curiosamente, a localização patrimonial das Janelas Manuelinas do Palácio dos condes de Melo como Monumento Nacional, quer na Direcção-Geral do Património Cultural quer na própria Câmara Municipal de Portalegre, encontra-se oficialmente inscrita na Rua de Azevedo Coutinho, numa espécie de profética “fuga para a verdade”…

Falando de “profecias”, já afirmei por mais de uma vez o convencimento pessoal de que um dia Portalegre será liderada por alguém dotado da suficiente cultura, sentimento e respeito pela memória -a autêntica-, capaz de reparar as injustas ofensas para com os mortos ilustres e dignos de veneração, património colectivo da comunidade local.

O nevoeiro sebastianista que obscurece a visão de uns quantos, incapazes de identificar ou distinguir galhos e macacos, será um dia dissipado. Ver-se-á então mais claro aquilo que perdemos ou adiámos, caras e nomes de um passado de que nos deveríamos orgulhar.

Até quando persistirá Portalegre na sua deliberada amnésia?

António Martinó de Azevedo Coutinho

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s