OKJA – a polémica

As primeiras informações fizeram-me lembrar a Heidi, porque parecia bater tudo certo, ou quase: uma menina órfã, isolada, a viver no campo apenas com o avô, afeiçoada a um animal de estimação, e até com um toque oriental na narrativa cinematográfica. Porém, mais de perto, sentiram-se as diferenças. E profundas.

Na modernidade a menina órfã chama-se Mija, vive num campo na Coreia do Sul em vez de nos Alpes Suíços, este seu avô é menos “tirânico”, o “bichinho” doméstico é agora não um felpudo São Bernardo mas uma fofinha e descomunal super-porca e, para terminar a lista das diferenças formais, o realizador do filme é sul-coreano e não japonês. Mas tudo isto não é o mais significativo nem lá perto.

Nestes quarenta e tal anos que separam a ternurenta Heidi da decidida Mija muito mudou no mundo. A forma e o conteúdo de Okja revelam isso com uma tremenda evidência.

Okja, o filme, desencadeou polémicas, e talvez mais a sua forma -ou contexto- do que o conteúdo. Vejamos por partes.

1 – Em poucos anos, a Netflix tornou-se uma das maiores produtoras de conteúdos televisivos do mundo. Sendo seguro que nem toda a produção da empresa é de qualidade, será justo elogiar a diversidade e variedade do catálogo da Netflix.

Para além de constituir uma plataforma do chamado “streaming” (distribuição digital de conteúdos multimédia através da Internet), a empresa decidiu conceder apoio financeiro para a experimentação no cinema e na televisão. E a verdade é que esta aposta está a revolucionar os meios tradicionais de distribuição dos filmes.

2 – O filme Okja desencadeou a polémica ao chegar no passado Maio ao Festival de Cannes. O facto constituiu um precedente que fez estremecer a comunidade cinematográfica.

Por um lado, ao evento convinha o destaque mediático que o filme iria proporcionar, porque serve tradicionalmente como rampa de lançamento para as salas de cinema. Mas os distribuidores revoltaram-se pois há um acordo legal que impede a disponibilização online dos filmes antes de um período de três anos depois de se terem estreado nas salas, e a Netflix insiste em disponibilizar os seus filmes simultaneamente online e nas salas. Aquando da exibição de Okja em Cannes não havia sequer contrato para o seu lançamento nos cinemas. Creio que a situação se mantém, excepto quanto às salas independentes…

3 – O escândalo atingiu o auge quando o próprio presidente do júri de Cannes, o realizador espanhol Pedro Almodóvar, declarou que não iria votar num filme como Okja. E afirmou publicamente numa conferência de imprensa: “Seria um enorme paradoxo que a Palma de Ouro ou qualquer outro prémio fosse entregue a um filme não possa ser assistido nas salas de cinema“.

No final, a Netflix acabou por ir para casa de mãos a abanar.

Parece que a organização até vai alterar as regras do festival, admitindo-se que no futuro os filmes só poderão ser integrados na competição se tiverem garantido contrato de exibição em sala.

4 – Como que em represália, a Netflix, criando a reputação de trabalhar com grandes cineastas em filmes com orçamentos de nível médio que Hollywood tem ignorado, admitiu que poderia não voltar a Cannes.

O realizador de Okja, o sul-coreano Bong Joon-ho, declarou que a Netflix lhe tinha permitido trabalhar sem qualquer interferência criativa, até mesmo ao nível da montagem final da obra.

5 – Não quero, deliberadamente, falar do filme propriamente dito em detalhe, afirmando que gostei muito dele, embora mantenha duas ou três reservas, uma das quais com real significado pela contradição ecológica que encerra.

A fotografia é belíssima e a criação da super-porca por Erik Jan De Boer, vencedor de um Óscar pelo fabuloso tigre de A Vida de Pi, constitui a estrela técnica do filme.

A temática central gira em torno da indústria dos alimentos geneticamente modificados, relatando a saga de uma pequenita que luta pela vida da sua super-porca contra uma poderosa corporação multinacional. Tendo como aliado um grupo de activistas, sendo alguns destes ambientalistas radicais, a jovem Mija vive uma acidentada aventura que lida com a clássica questão do capitalismo desenfreado versus o amor pelo ambiente e pelos recursos naturais.

O filme é emocionalmente bastante intenso, balanceando -como alguém justamente afirmou- entre a Disneylândia e Auschwitz. Achei nesta improvável aliança o melhor da sua mensagem.

Não é o consumo em si mesmo o centro da questão levantada, mas sobretudo a forma desse consumo e o modo de produção por ele influenciado. A distância entre o homem e a produção dos seus alimentos é o que permite ignorar, de forma cómoda, que a carne para consumo é quase sempre o fruto de uma actividade brutal. Os alimentos animais produzidos em larga escala são, por exemplo, responsáveis pelo crescente desmatamento das florestas e pelo uso indiscriminado de produtos agro-tóxicos.

Para todos nós, consumidores, torna-se mais fácil não prestar atenção à cadeia produtiva, preocupando-nos apenas com a aquisição do produto final, na prateleira de um super-mercado qualquer.

Porém, a brutalidade -ou o realismo- de Okja foi construída para que encararemos essa verdade, sem fundamentalismos que nos obriguem a sermos vegetarianos. Mija não o é, embora respeite a Natureza e os animais. No radicalismo é que está o erro e o filme de Bong Joon-ho contém essa mensagem.

Como fábula ecológica Okja funciona quase na perfeição.

Embora tenha ficado um pouco frustrado pela ausência de um final mais convincente, e ainda que não seja accionista da Netflix, recomendo vivamente a visualização do filme.

Num televisor ou num computador perto de si.

 

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