A Banda Desenhada vista por Carlos Gonçalves – nove

OS GRANDES MITOS DO OESTE (I)

Já há muito tempo que foram desmitificadas todas as grandes lendas do oeste norte-americano. Quem não conhece já a verdade de todas as figuras que povoaram e engrandeceram o western e a sua literatura. Jesse James era afinal um bandido, como os irmãos Dalton, o Juiz Roy Bean era um bêbado e megalómano, Buffalo Bill teve rasgos de popularidade devido a vários factos que o ajudaram nessa vertente e o circo que montou, para o fim, iria ainda mais salientar essa farsa.

Poderíamos depois ir ao duelo do O.K. Corral, que pouco mais foi que uma troca de 30 tiros em 30 segundos, em que quase nenhum dos participantes possuía habilidade nas armas para tal, com excepção talvez do irmão Tom McLaury (segundo algumas versões este seria morto desarmado, mais tarde). No fim desta confusão toda, morreram os dois irmãos McLaury e Billy Clanton e houve ferimentos em Virgil e em Morgan, mais graves e mais ligeiros em Doc Holliday. No final seria o fim desta parceria de contornos confusos e em que os irmãos Virgil, Wyatt e Morgan acabaram acusados de assassinato e, na audiência do julgamento, Morgan seria assassinado e Virgil incapacitado do seu braço esquerdo, num tiroteio nessa altura. Depois não nos podemos esquecer do grande ego do General Custer, que por teimosia viria a levar para a morte quase 300 soldados.

Depois ainda temos Bat Masterson, o homem dos sete ofícios e que acabaria por morrer de ataque cardíaco e que pouco tinha a ver com a sua lenda, ainda que tivesse sido xerife e um fraco actor de teatro. O xerife Pat Garrett era afinal um assassino e matava à traição. Butch Cassidy era um assaltante de comboios e ladrão, mas pelo menos, tanto quanto se sabe, não matou ninguém. Calamity Jane não era uma senhora, antes pelo contrário… Era pior que os pistoleiros. Haverá ainda os índios, mas estes na sua maior parte sofreram por serem índios e, além de sujeitos a várias sevícias, muitas vezes acabavam assassinados. Esse seria o caso de Touro Sentado, bem como seu filho. Gerónimo, que seria preso por 22 anos até morrer, Cavalo Louco foi trespassado por uma baioneta de um soldado e, segundo a lenda, “Mão Amarela” seria morto por Buffalo Bill em duelo…depois teríamos sim o genocídio sistemático das populações.

Índias, velhos, mulheres e crianças que eram mortos à traição pelos soldados, quando os guerreiros se encontravam na caça ou em luta com outras tribos (o pior mal que acabaria por ainda dizimar mais estas tribos… era o ódio que tinham umas raças pelas outras, que chegava às raias da loucura e a sacrifícios e torturas terríveis contra os vencidos). Também não faltaram as doenças propagadas pelos brancos para ajudar a matar, cada vez mais, os poucos índios que ainda sobreviviam.

OS GRANDES MITOS DO OESTE CRIADOS NA BANDA DESENHADA                         

Um dos desenhadores a estudar e a documentar-se sobre esse tema seria o italiano Rino Albertarelli, o que resultou na criação de 10 volumes publicados em Itália nos anos de 1974 e 1975 (e reeditados em 1994), com o título “I Protagonisti”. A série nasceu de uma ideia de Sergio Bonelli, em retratar algumas personagens ligadas ao desenvolvimento do Oeste norte-americano, mas de uma forma realista. Assim, Albertarelli desenvolveu um trabalho de pesquisa extremamente detalhado, cujo resultado seria a publicação desses 10 títulos. São biografias ilustradas que oferecem ao leitor mais interessado a verdadeira face daqueles homens que criaram o mito do Oeste. A colecção teve apenas 10 volumes porque Albertarelli faleceu a 21 de Setembro de 1974, durante os trabalhos, e o último volume foi completado pelo Sergio Toppi. Os títulos são os seguintes: George A. Custer, Gerônimo. Billy The Kid, Jed Smith (vagabundo da pradaria), Touro Sentado, Wyatt Earp, Wild Bill Hickcok, Frank Canton (caçador de recompensas), Bill Doolin (membro do bando dos Dalton) e Herman Lehman (o índio branco), são as personagens incluídas nesta colecção. No Brasil, a série teve 5 volumes entre 1975 e 1977, publicados pela antiga EBAL, com capas feitas pelo artista brasileiro António Euzébio. Os escolhidos foram os mais conhecidos: Billy The Kid, George A. Custer, Gerónimo, Wyatt Earp e Touro Sentado.

Não seria só Rino Albertarelli a criar estas biografias destes lendários homens do Oeste. Outro artista, mas desta vez espanhol, acabaria também por se interessar pelo tema dos Grandes Mitos do Oeste e retratou também, nos inícios dos anos 70, antes de Albertarlli, uma série de personagens sobre esse tema, só que destinada a ser publicada nos Estados Unidos, através da Agência de Joseph Toutain.

O seu sucesso foi imediato, pois a qualidade dos trabalhos deste desenhador era de grande impacto, devido ao uso dos negros. O interessante é que Albertarelli era também um desenhador de negros, pelo que os dois trabalhos assemelham-se muito graficamente, embora cada um deles dentro do seus próprios estilos. Seus traços são harmoniosos e as pinceladas de negro conseguem emoldurar de uma forma elegante cada uma  das vinhetas.

E neste caso falamos dos dois artistas. As histórias embora tentando ser o mais fiáveis possível, em relação aos factos conhecidos, pondo de parte a lenda, desempenham um papel recreativo ainda que didáctico. Consideram que em primeiro lugar está a parte lúdica e em segundo a histórica, e temos que admitir que a mesma acabaria, na maior parte das vezes, deturpada, principalmente no que respeita a este tema. A Literatura, o Cinema e a própria banda desenhada acabariam por criar factos que nem sempre eram verdadeiros. Para isso viriam também a contribuir um género de folhetins, tão do agrado de milhares de leitores que se deliciavam a ler essas aventuras. Era a chamada Literatura de Cordel, onde por exemplo “Buffalo Bill” possuía um papel importante no desenrolar da acção de cada novela, ultrapassando muitas vezes o real.

Mas não era só ele, “Texas Jack”, que quase ninguém sabe quem é, chamava-se John Wilson Vermillion (1842-1911) e era um pistoleiro que talvez tenha passado por Tombostone e talvez tenha ajudado Wyatt Earp na sua sede de vingança, no rescaldo do duelo de O.K. Corral, mas não participou neste… seria mais tarde que a sua actividade estaria ligada à família Earp, mas nada da fama que granjeou como “O Terror dos Índios”… dada pelos escritores das suas aventuras. A alcunha de “Texas Jack”, seria dada pelos seus amigos. A data da sua morte está em dúvida (1910 ou 1911?).

Conseguir-se saber hoje os pormenores e a verdade de todos os factos é na verdade impossível e separar a lenda do que mais tarde seria escrito pelos intervenientes na acção, pior. E não poderemos esquecer que alguns dos episódios, mais tarde descritos por alguns escritores, foram conhecidos através daqueles que nem sequer muitas vezes assistiram aos acontecimentos, havendo por isso sempre tendência para deturpar a sua veracidade.

Carlos Gonçalves

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