From Scotland with Love – um

A primeira e lógica pergunta é a de como apareço a correr uma prova de 10 km na Escócia, o meu “baptismo” desportivo internacional. Tudo resulta das relações comerciais entre a empresa multinacional a que o meu filho, Tó Zé, está ligado e uma outra, escocesa, sua cliente.  Dos contactos pessoais ao mais alto nível aconteceu com naturalidade o conhecimento de que esta -a Baxters– patrocina desde há anos um conjunto de provas, uma maratona e um festival da corrida, no Norte da Escócia, em Inverness. Sabendo-se que tanto o Tó Zé como o pai são praticantes amadores da modalidade, logo surgiu a sugestão/convite para a participação.

Quando o meu filho, há largos meses, me deu conta disso, logo aderi com entusiasmo. Depois ficou tudo a cargo dele, sendo seu convidado para o efeito.

Foi-nos fornecida por via informática, regularmente, toda a informação alusiva ao evento, a qual deu para perceber a dimensão e o significado do conjunto de provas que culminaram no recente dia 24 de Setembro. Uma maratona, duas corridas de 10 e de 5 km, assim como uma outra dedicada a crianças, preencheram um dia inolvidável, Loch Ness Marathon and Festival of Running.

Viajámos com antecedência para o Reino Unido, o Tó Zé, a Teresa e eu, a fim de darmos conta de um plano cuidadosamente por eles preparado, onde tiveram lugar as ligações aéreas e rodoviárias, o alojamento e o veículo rent-a-car, os itinerários contemplado o turismo e a cultura, também a gastronomia e sobretudo o convívio. Naturalmente, cumprindo igualmente a componente desportiva, motivação essencial, não esquecendo ainda -pela minha parte- o Tintin, antiga e forte lembrança afectiva dos tempos da infância, que me escuso agora de repetir.

A chegada e estadia em Edinburgh foram excelentes, assim como a posterior ida para Norte pela fascinante região dos lochs (lagos em dialecto gaélico).À chegada a Inverness, na véspera da prova, fomos ao local marcado pela organização, coincidindo com a chegada de todas as provas, a fim de levantarmos os dorsais,  informações, documentação e outros materiais alusivos. Logo deu para avaliar a dimensão do evento e o elevado profissionalismo da organização.

Num vasto relvado, alinhavam-se diversas tendas de serviços e um completo parque infantil, já então frequentado, sob a protectora e inspiradora imagem simbólica de um insuflável “monstro” de Loch Ness, “padrinho” das provas. As burocracias foram fáceis de resolver, tendo nós recebido as indicações suficientes, personalizadas, para além das expeditas instruções em textos e esquemas gráficos, complementando o já anteriormente conhecido.

1917 – Há cem anos – quarenta e três

Pelo mês de Outubro de 1017, continua a troca de bilhetes e cartas entre o capitão José Cândido Martinó, na frente da Flandres, e a filha Benvinda, em Portalegre.

1 de Outubro – “França. Deverás alternar a fosfiodoglicina com o xarope iodotónico“.

Em 1 de Outubro, a Ordem da 1.ª Brigada de Infantaria da 1.ª Divisão determina que, até novas instruções, a banda de música tocará no Quartel General todas as 5.as feiras e domingos, das 14 às 16 horas.

2 de Outubro – “França. Manda dizer se já estás completamente restabelecida. (…) Pelas prendas, podes avaliar um pouco por onde tenho andado. O tempo continua magnífico“.

3 de Outubro – (dois postais) “França. O Avozinho há-de comprar e enviar-me, logo que haja à venda, uma agenda de algibeira – Edição Gonçalves, para 1918 (capa de oleado preto). (…) Já dão 20 dias de licença e com mais algumas vantagens, mas ainda não tomei uma resolução definitiva acerca de tal assunto. O tenente Maltez ainda não chegou.” “França. A tal agenda encontra-se à venda no Tiago Morgado. Ontem partiu para aí um músico de licença, mas não levou nada. O tempo, que  tem estado lindíssimo, apareceu hoje muito invernoso”.

22 de Setembro – Portalegre: “O Papá tem-se divertido muito em França; quase todos os dias grandes passeios, concertos e muitas coisas mais. Já sei que está mais gordo; eu também, segundo dizem, bastante crescida. (…) O tempo tem estado muito quente; as feiras estiveram muito animadas“.

26 de Setembro – Portalegre: “O tempo continua bom, mas muito quente.”, visado pela Censura.

4 de Outubro – “França. Tive ordem para música mas como o tempo estava mau ficou sem efeito e aproveitei a ocasião para passear. (…) Não entreguem nada a um músico que aí foi de licença para casar“.

5 de Outubro – “França. Hoje houve uma grande festa. Fiquei conhecendo mais uma village. Há sete anos estavas tu em Gião. Escrevi hoje ao Chambel e ao Cap. Piedade a quem também agradeci os parabéns que me enviou a propósito do teu exame“.

“No dia 5, comemorando o aniversário da República, o general Tamagnini passou em revista as Forças Portuguesas da retaguarda, havendo grande entusiasmo e assistindo vários oficiais ingleses” assim se relatou em História da Guerra Europeia.

29 de Setembro – Portalegre: “Na 5.ª feira passada estive em casa do Sr. Tenente Maltês, a despedir-me; dei-lhe um abraço e muitos beijos para ele os entregar aí ao Papá; creio que ele cumprirá o meu pedido. (…) Não tornei a sentir dores nas pernas e nos braços“.

6 de Outubro – “França. O tempo tem estado bastante mal. Ainda não vi o tenente Maltez. É natural que amanhã ou depois eu me encontre com ele“.

7 de Outubro – “França. Chegou hoje o tenente Maltez e deu cumprimento ao teu pedido, que eu muito agradeço. Como hoje choveu bastante, não houve música e aproveitei o tempo para dar um passeio de automóvel para assim melhor entreter o tempo“.

Na edição de 7 de Outubro do jornal “O Distrito de Portalegre”, o músico militar J. Vieira (Oádis) assina um artigo publicado na 1.ª página, intitulado “França. Rouen”, onde descreve a impressão causada por esta grande cidade francesa, próxima de Paris. E termina: “Oh, a França, o país da crença, da arte, da liberdade, do amor...” O estilo do texto e alguns tempos verbais usados revelam que o autor já não se encontra na Guerra…