FORÇA, CALDAS!!!

Dezoito autocarros personalizados vão levar o Caldas e os seus adeptos às Aves

O dia tão esperado está a chegar. É já quarta-feira, 28 de Fevereiro, que o Caldas se desloca à Vila das Aves para cumprir a primeira metade do sonho de um clube, de uma cidade, de uma região. A onda de apoio que se gerou à volta do Caldas vai transformar-se num verdadeiro tsunami que vai varrer todo o caminho entre as duas localidades. A festa será a rigor e verdadeiramente ímpar no futebol português. O Caldas vai ter um autocarro personalizado e em excursão seguem mais 17 para transportar a maioria dos cerca de 1.500 adeptos que vão querer fazer a festa na Vila das Aves. Nas Caldas, há um ecrã gigante para quem cá fica poder viver todas as emoções em comunidade.

Investimento de 35 mil euros garante segunda mão nas Caldas

O que também tem criado expectativas na cidade é a capacidade do Campo da Mata para receber o encontro da segunda mão, agendado para 18 de Abril. As dúvidas estão igualmente desfeitas, um investimento de 35 mil euros no Campo da Mata vai criar as condições necessárias para receber o encontro.

Havia três aspectos fundamentais a resolver, que consistiam em níveis de segurança, a iluminação para garantir a transmissão televisiva, e o estado do relvado do Campo da Mata, que tem sido um problema não só nos jogos da Taça, como do campeonato.

As intervenções estão já garantidas. A iluminação será reforçada por uma empresa credenciada pela Federação de modo a disponibilizar pelo menos os 1200 lux necessários para o desempenho das câmaras televisivas, que garantem também a viabilidade do video-árbitro, obrigatório nas meias-finais. Esta é a intervenção mais onerosa, cerca de 20 mil euros.

Ao nível da segurança, o controlo de entradas será garantido por um sistema de electrónico, através de PDA, que também é credenciado pela Federação, evitando assim a colocação de torniquetes. Este sistema vai também garantir que os adeptos não ultrapassam a capacidade de cada um dos sectores, que não terão cadeiras, mas serão pintadas as delimitações de cada lugar e o respectivo número, como a Gazeta das Caldas tinha já adiantado. Será ainda instalado um circuito de videovigilância.

No exterior serão ainda efectuados vários trabalhos nas acessibilidades para garantir a máxima segurança do acesso às bancadas e das zonas de convívio.

O Campo da Mata terá ainda uma intervenção ao nível do relvado, orçada em 7.500 euros. Esta será feita já perto da data do encontro e terá duração de três semanas, após a jornada com o Vilafranquense.

Nesse espaço de tempo o clube terá que arranjar alternativas para treinar, embora à partida a maior parte dos treinos se possa realizar na Quinta da Boneca, porque é lá que o Caldas receberá o Alcanenense, e o jogo com o Pêro Pinheiro também será em sintético.

O treinador do Caldas, José Vala, disse à Gazeta que a equipa se irá adaptar às condicionantes, até porque os jogadores e o futebol da equipa também serão beneficiados com os melhoramentos no tapete verde.

Jorge Reis, presidente do Caldas, salientou o esforço do município para que estes melhoramentos se realizem, possibilitando que esta jornada histórica se jogue na Mata. O clube irá recorrer a alguns apoios federativos para este tipo de intervenção e será também comparticipado pela autarquia. Tinta Ferreira afirmou que não deixará o clube ter prejuízo com esta operação.

Além do município, o Caldas deixou uma nota de agradecimento às autoridades de segurança, nomeadamente a PSP, os bombeiros e a Protecção Civil, e também à AF Leiria, que deram um contributo decisivo para que todas as garantias fossem reunidas. “A bola está agora do lado do Caldas”, concluiu.

GAZETA DAS CALDAS 13 Fevereiro 2018

A “decadente” Fortaleza de Peniche*

Bloco de Esquerda

Fernando Rosas: “Há pisos a abanar na Fortaleza de Peniche”
Uma mesa de pingue-pongue foi “a grande vitória” de Fernando Rosas e dos outros presos na Fortaleza de Peniche no marcelismo.
Agora, guiou os deputados do BE por um edifício a cair aos bocados.

Jorge Amaral/Global Imagens

Lá fora, a chuva miudinha não dá tréguas. Mas é o vento gélido que se faz sentir junto ao mar e que invade os corredores e as celas despidas da Fortaleza de Peniche que faz enregelar o corpo. Isso e os relatos de Fernando Rosas sobre o “regime tenebroso” que se viveu ali, na antiga cadeia da PIDE. “Durante as lutas dos presos nos anos 50 e 60, havia duras greves de fome e outras formas de luta. Os guardas entravam nas celas, paralisavam o preso, deitavam-no à força, agarravam-lhe a cabeça e espetavam-lhe os tubos pelo nariz. Era um acto de violência inaudita“. Um dos muitos que se cometeram ali, recorda o historiador.

O fundador do Bloco de Esquerda esteve esta segunda-feira com deputados do partido na Fortaleza de Peniche, enquanto membro da comissão instaladora, para dar conta do estado actual do futuro Museu Nacional da Resistência e da Liberdade. As obras deveriam estar concluídas em Abril de 2018, mas Fernando Rosas não conseguiu esconder o cepticismo em relação ao processo. Além do natural desgaste provocado pelo tempo, o estado de degradação da Fortaleza de Peniche é evidente — basta ver que bocados do tecto da sala onde decorreu a conferência de imprensa do Conselho de Ministros, em Abril de 2017, desabaram nos últimos meses.

“Não será por causa dos conteúdos que o Museu não abre, mas isto precisa de obras de fundo”, avisou Fernando Rosas. O projecto de intervenção no exterior do edifício já foi aprovado, mas o dinheiro ainda não chegou. Quanto às obras no interior, falta praticamente tudo: o concurso de arquitectura foi aberto apenas “há dias” e falta atribuir as verbas. “Há pisos que estão a abanar“, alertou o bloquista.

Sem conclusão do projecto à vista, sobram os relatos de Fernando Rosas, preso político em Peniche entre Fevereiro e Dezembro de 1972, já depois de a Primavera Marcelista ter trazido mais “humanismo” à Fortaleza. Anos antes, durante as décadas de 50 e 60, o regime era pensado e criado para “quebrar os presos“, proibindo tudo o que era imperativo proibir e limitando tudo o que era conveniente limitar: os contactos com os familiares, as conversas entre camaradas de prisão, os livros e até os jornais já censurados pelo Estado do Novo, “recensurados” para consumo interno — os jornais eram literalmente recortados, deixando espaços em branco. Todo e qualquer acto de insubordinação era travado à “paulada” e com uma violência brutal, recordou o historiador.

Mas os presos encontravam sempre uma forma de enganar o cárcere“, ia repetindo Fernando Rosas à medida que conduzia a visita guiada. Tudo servia para resistir: desde as mensagens cifradas colocadas estrategicamente nos chuveiros da prisão, aos contactos secretos com exterior, até à cumplicidade (e suborno) de guardas descontentes com o rumo do Estado Novo. Foi a conjugação deste e de outros estratagemas que permitiu a fuga de Álvaro Cunhal e de outros nove camaradas da Prisão de Peniche, a 3 de Janeiro de 1960, naquele que foi um dos golpes mais duros infligidos ao regime do Estado Novo.

Os passos desta evasão histórica iam sendo contados ao detalhe por Fernando Rosas, à medida que percorria o mesmo trilho percorrido pelo histórico líder comunista há mais de 58 anos: como Cunhal e os camaradas manietaram o guarda que estava de plantão, que, com o pânico, não resistiu às convulsões intestinais; como depois lhe roubaram as chaves, abriram a porta e seguiram sem olhar para trás com a ajuda de Jorge Alves, soldado da GNR que fora subornado pelo PCP. Uma história contada ao detalhe, aliás, pelo jornalista Pedro Prostes da Fonseca, no livro Porta para a Liberdade.

A cela individual de onde fugiu Cunhal e onde o histórico comunista quase consumiu a vista durante os quase quatro anos em que pintou, escreveu e leu na penumbra — “a luz era proibida depois das nove da noite”, lembrou Rosas — será um dos pontos de maior atracção do futuro Museu Nacional. O objectivo assumido pela comissão de instalação de conteúdos — e repetido pelo bloquista — é manter os traços originais da fortaleza-prisão, para que nunca seja possível esquecer o terror ali vivido às mãos da polícia política.

Só não será possível recuperar a “mesa de pingue-pongue” que os presos conseguiram já durante o período do marcelismo. “Foi a nossa grande vitória“, contou, divertido, Fernando Rosas. Conquistas de uma época em que Marcello Caetano tentava dar alguns sinais de abertura, para responder às pressões internas e externas que ameaçavam o regime. Não teria muito sucesso: dois anos depois, chegaria o 25 de Abril e, com ele, o fim da Fortaleza de Peniche enquanto prisão política.

Depois da Revolução, a fortaleza passou a funcionar como abrigo para os retornados dos ex-territórios ultramarinos portugueses em África. Os presos políticos, ainda assim, nunca foram esquecidos. No exterior, nasceu um cubo de aço gigante, que evoca aqueles que ousaram lutar pela liberdade mesmo encarcerados.

Miguel Santos CarrapatosoOBSERVADOR –  26/2/2018

*O título é da responsabilidade do blog