Pedagogia aos Quadradinhos – Memórias dos Outros Tempos – oito

Os anos do Liceu coincidiram com os da maior produção artística de toda a minha vida. Tanto o material de desenho e pintura que estava sempre à minha disposição como o tempo livre dos estudos aliaram-se ao permanente estímulo por parte da família e dos amigos que, unânimes, continuavam a prognosticar-me um futuro entregue às Belas Artes.

Enchi então cadernos e folhas soltas de criações. Não gostava de copiar, preferindo inventar e sobretudo reproduzir, à minha maneira, o natural.

Ia algumas vezes, com uma prancheta na mão, para sítios da cidade ou dos arredores onde podia estar mais à vontade, sem sofrer os indesejáveis efeitos da curiosidade alheia, para desenhar à vista.

Também me lembro, quase contraditoriamente, como em muitas oportunidades ficava largos minutos a admirar o trabalho ao ar livre do pintor Arsénio da Ressurreição…

Os quadradinhos continuaram a inspirar-me e, do cinema alusivo, passei ao teatro. De aventuras, claro, de capa e espada, mistério, espionagem, policiais, piratas e corsários, ficção científica e por aí fora. Agora, eram os palcos improvisados que iam substituindo as telas de “projecção”.

Fazia tudo, escrevendo as peças e representando-as, construindo as personagens articuladas do tipo marioneta, recortando o guarda-roupa, pintando os cenários. Foram alguns destes últimos que sobraram dos ecológicos efeitos do tempo, tendo-se perdido tudo o mais.

Quando comparo hoje o que fiz ao entrar no Liceu com aquilo que fui capaz de concretizar três ou quatro anos depois noto as claras diferenças. Provavelmente, terá sido o resultado do intensivo treino e, quem sabe, de alguma influência do mestre João Tavares. Por intermédio de um amigo da família, tive mesmo umas lições do pintor Renato Torres, professor na Escola Industrial, onde em certas tardes interpretei alguns complicados ornatos de gesso e outros modelos do género.

Enfim, a minha preparação estética foi, para o tempo, bastante apreciável. Para ser justo, devo acrescentar o contributo fornecido pelas construções de armar, em papel ou cartolina, a que me entregava com entusiasmo.

Jamais abandonei, bem pelo contrário, a atenta leitura dos jornais de quadradinhos, com especial relevo para o sempre amado Diabrete e também para O Mundo de Aventuras. O Mosquito e o Camarada completavam o elenco. Data desta época o início do meu interesse pela leitura de outros livros para além daqueles que os programas curriculares me impunham, porém quase sempre com a motivação que as suas adaptações me suscitavam. Recordo as obras fundamentais de autores clássicos como Alexandre Dumas, Jules Verne, Salgari, Charles Dickens, Walter Scott, Perrault, Edgar Allan Poe, Fenimore Cooper, Mark Twain, Hans Christian Andersen, os irmãos Grimm, Ponson du Terrail, Jonathan Swift, Robert Louis Stevenson, Rudyard Kipling e outros que entretanto esqueci.

Até Camões, Ramalho Ortigão, Júlio Diniz ou Eça de Queirós eu li, nos originais, a partir da curiosidade despertada pelas suas adaptações aos quadradinhos antes de isso me ser imposto pela disciplina de Português.

Mas, confesso, os meus ídolos criativos predilectos não eram propriamente estes. Preferia-lhes os que, pela sua arte, a eles me tinham conduzido. Destaco, entre os portugueses, Fernando Bento, Eduardo Teixeira Coelho, Jayme Cortez, Vítor Péon, José Garcês, José Ruy… Nem poderia adivinhar, nessa altura da vida, que com algumas destas admiradas personalidades viria a fazer sincera amizade.

Porém não poderia esquecer, entre todos, o “pai” de Tintin, meu ideal modelo: Hergé. Dos outros estrangeiros, por esses tempos, apenas lhe juntava Jesús Blasco, o criador de outra imortal personagem juvenil: Cuto.

Tintin e Cuto personificavam o melhor que eu poderia esperar do género humano. Para mim, eles eram mesmo de carne e osso e as suas aventuras eram simples episódios biográficos…

António Martinó de Azevedo Coutinho

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