Emily Brontë nasceu há duzentos anos

Emily Jane Brontë nasceu em Thornton, na Inglaterra, no dia 30 de Julho de 1818, portanto há precisamente duzentos anos, hoje mesmo cumpridos.

Foi a quinta de uma família de seis filhos. A sua infância foi difícil e sofrida: primeiro a morte da mãe, depois a partida para um colégio interno em Cowan Bridge, onde dois dos seus cinco irmãos vieram a falecer devido a maus tratos, alimentação inadequada e noites sem dormir por causa do frio.

Depois destes trágicos acontecimentos, o seu pai resolveu trazer os filhos sobreviventes de volta para casa. O ambiente do lar, segundo a irmã Charlotte escreveu mais tarde ao recordar a infância, tinha poucos atractivos para as crianças: “Dependíamos totalmente de nós mesmos e uns dos outros, dos livros e do estudo para encontrar diversões e ocupações na vida. O estímulo mais elevado, bem como o prazer mais vivo, que conhecemos da infância em diante residia nos nossos primeiros esforços na composição literária“.

Desta forma, principalmente ela e suas duas irmãs, Charlotte e Anne, dedicaram-se ao mundo inventivo da escrita.

Emily não conseguiu o mesmo aparente progresso das suas irmãs, muito devido à sua sufocante timidez. Charlotte fora convidada a leccionar; induziu a sua irmã Emily ao mesmo caminho, mas esta, apesar de grande esforço, não conseguiu tornar-se professora, devido às timidez e impossibilidade de falar em público.

Levando uma vida doméstica e solitária e encontrando tempo suficiente para passar os seus pensamentos à escrita que tanto lhe agradava, Emily concluiu seu primeiro e único romance: Wuthering Heights, vulgarmente conhecido como O Monte dos Vendavais.

Foi publicado em 1847, mas Emily não teve tempo para ver o seu “filho único” conquistar o mundo, nem mesmo os críticos locais: faleceu um ano após a sua publicação, de tuberculose. Morreu em 19 de Dezembro de 1848, na cidade inglesa de Haworth.

Desde então, além das renovações editoriais, o romance teve também diversas adaptações cinematográficas, teatrais, musicais, etc.. No cinema podemos citar entre tantos um clássico de 1939 dirigido por William Wiler. No mundo da música, em 1978, Kate Bush ficou no topo das paradas do Reino Unido e Austrália com a música Wuthering Heights que, segundo ela mesma, foi inspirada nos 10 minutos finais da versão cinematográfica de 1970 do britânico Robert Fuest. A banda brasileira Angra também prestou sua homenagem regravando a música de Kate Bush. Estas, entre inúmeras outras manifestações artísticas, contribuíram para a imortalização daquela vigorosa história de amor.

Para perceber melhor a obra, é preciso estarmos cientes do período em que esta foi escrita antes de entrarmos na história. Nessa época, a literatura pretendia a formação e edificação moral de seus leitores; desta forma, o vilão haveria de ser punido enquanto o justo recompensado. Uma visão de moral literária que, juntamente com a submissão social do sexo feminino, levou a autora a originalmente publicar sob o pseudónimo masculino Ellis Bell.

A história trilha um caminho pouco explorado na sua época, descomprometido com os valores morais formativos tradicionais. É desde logo óbvio o lado virtuoso e sombrio das suas personagens, especialmente Heathcliff e Catherine Earnshaw, em torno das quais gira a trama.

Rico em detalhes – outra característica do tempo e que para os mais apressados pode vir a ser maçadora – o romance trata dos mais básicos conflitos humanos, desde a busca do amor até à criação do puro e incontrolável ódio.

Não há nesta história acontecimentos extraordinários nem um final inimaginável.

A força do livro estará mais na descrição das personagens, na carga emocional das intrigas, na tensão permanente, sobretudo na relação entre Catherine e Heathcliff, que a todos os momentos parece poder tornar-se um amor luminoso e absoluto, para logo cair na escuridão e na violência. A história desenrola-se numa atmosfera insuportável e densa, onde se espera por uma catástrofe a qualquer página que se vire.

A verdade é que a obra de Emily Brontë se tornou um clássico da literatura de todos os tempos, entendido como a maravilhosa história de um amor proibido.

Poético, complexo e grandioso, O Monte dos Vendavais é a surpreendente história desse amor impossível deixando um rasto de ira e vingança, que irá perdurar no tempo como uma maldição e afectar as vidas de todos em redor.

A história é empolgante, constituindo mesmo uma das obras mais intensas em língua inglesa.

Por tudo isto não quisemos que passassem em claro os duzentos anos do nascimento da genial e malograda Emily Brontë.

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