Pedagogia aos Quadradinhos – Memórias dos Outros Tempos – vinte e um

Antes de continuar a inédita descrição da minha relação pedagógica com os quadradinhos, que a entrada no Ensino Preparatório me proporcionou, creio ser útil uma breve abordagem -intercalar- ao panorama nacional da BD nessa mesma época. O que aconteceu nesses primeiros anos da década de 70 justificam-na.

O fim do Zorro, em meados de 1966, pusera termo à notável “trindade” formada com o Diabrete e o Cavaleiro Andante. Entre os finais da década de 60 e os princípios dos anos 70, com as edições nacionais do Tintin, do Jornal do Cuto, do Spirou e do Jacto iniciou-se a fase terminal das revistas semanais de historietas de continuação, sobretudo incidindo em material de arquivo de fontes francesas, belgas e espanholas. Alguns destes títulos, aliás, não iriam durar muito…

O Mundo de Aventuras, residual, transformado numa modesta edição semanal de aventuras curtas e integrais, mantinha certa nostalgia das escolas americanas da BD. Fenómeno similar acontecia com O Falcão.

Dos sucessivos títulos que a MP apadrinhara mantinha-se Fagulha.

É curiosa a comemoração que o regime consagra a esta revista, pois promove -em 1973- o festejo dos seus 30 anos. Acontece que estas três décadas se referem a Lusitas, surgida em 1943 e não a Fagulha, que sucedeu àquela. Enfim, uma confusão certamente deliberada!

Registe-se, como curiosidade, que a Fagulha atingiria em Abril de 1974 o seu número 391… e aí se extinguiria.

A conceituada Revista da Armada escolhia então a BD como privilegiado veículo para “contar as histórias verdadeiras” do seu domínio militar.

Em contrapartida, acentuava-se a publicação de álbuns, com obras completas, e alguns jornais procuravam manter a difusão de tiras diárias de histórias aos quadradinhos. Como novidade, a edição semanal de páginas dedicadas à problemática da BD e não apenas à sua produção começaria a atrair o interesse do grande público pelo seu contexto crítico, estético, social, pedagógico, etc. Os autores da BD, a cronologia e o enquadramento da evolução histórica do género tornaram-se populares através desses suplementos, alguns dos quais, começando pelo pioneiro Quadradinhos, em A Capital, representam hoje um precioso acervo demonstrativo das suas reais importância e dimensão.

O Diário de Notícias, então um dos nossos jornais matutinos de referência, seguira a sua tradição folhetinesca, adaptando-a aos quadradinhos. Assim, a partir dos finais de 1971, iniciou a publicação de As Aventuras de Tim-Tim, em tiras de fim de página. Foram assim divulgadas as histórias O mistério da orelha quebrada, A estrela misteriosa, Mistério no Tibete (Tintin no Tibete), O caso do invento Secreto (O caso Girassol), O segredo da «Flor do Mar» (O segredo do Licorne), O tesouro do pirata (O tesouro de Rackham, o Terrível) e A ilha negra.

Esta aventura seria terminada após o 25 de Abril de 1974. Depois, o DN ainda divulgaria: As 7 bolas de cristal, O templo do sol e O mistério das latas de conserva (O caranguejo das tenazes de ouro). Esporadicamente, em 1981/82 ainda publicaria Tim-Tim na Lua (Rumo à Lua).

Não se pense, no entanto, que amortecera o visceral ódio dos denominados “intelectuais” ou “literatos” contra a BD. Bem pelo contrário. Guardo nos meus arquivos muitos recortes de imprensa do princípio dos anos 70, onde consta de tudo, desde os condenatórios depoimentos do académico Fernando Pires de Lima, da jornalista Maia Portela, do deputado Cazal Ribeiro, da escritora Isabel da Nóbrega e de muitos outros até à saudável perspectiva evidenciada, por exemplo, pelos escritores Nuno de Sampayo ou Maria Lúcia Namorado e sobretudo pelo ensaísta António Quadros, autor de isentas, bem fundamentadas e inteligentes crónicos alusivas no seu Caderno Diário, no Diário de Notícias. Estas páginas são hoje antológicas.

Em princípios de 1973, o vice-presidente da Câmara Municipal de Aveiro, Dr. José Cristo, anunciou uma guerra santa oficial à BD, declarando publicamente que se pretendia levar os jovens a colocarem de lado a leitura de histórias aos quadradinhos, começando a ler bons livros e a frequentar as bibliotecas (A Capital, 23 de Fevereiro de 1973)…

Ao mesmo tempo, equipas do Ministério da Educação davam sinais de uma tácita aceitação da BD, servindo-se dela para integrar alguns pontos de exame, nomeadamente nas Línguas. Até na Matemática, os quadradinhos exemplificaram em 1973 uma situação problemática.

Enfim, vivia-se então uma radical mudança -envolvida em contradições- no universo nacional, e não só, dos quadradinhos.

Um esclarecedor “barómetro” desta transição nas mentalidades foi fornecido pela  iniciativa do semanário Observador que publicou em fascículos, no ano de 1972, uma interessantíssima paródia a James Bond em BD, da autoria do holandês Martin Lodewijk. Já aqui reproduzi integralmente a história, entre Fevereiro e Abril de 2014, sob o título Agente 327.  Pois as reacções de apoio (imensas) e de condenação (raras) a tal iniciativa editorial deram conta das contradições então reinantes entre nós.

Pessoalmente, depois dos elementares estudos a que me entregara em 1970/71, decidira aprofundar as pesquisas, o que aconteceu logo a seguir, muito em especial no ano lectivo de 1972/73.

Desta vez não me limitei a um inquérito, mais ou menos detalhado, acerca das preferências “literárias” das crianças alunas da Escola Cristóvão Falcão, com incidência particular na BD. Fi-lo na mesma, até por uma questão de simples aferição com os resultados anteriores.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s