Um episódio na vida aventurosa de João de Azevedo Coutinho – quatro

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O segredo transpirara!…

Fôramos torpemente traídos…

A data da revolução tornara-se conhecida. O nome do traidor andava de boca em boca…

O adversário, as autoridades, a Carbonária, o Governo enfim, estavam senhores de quase todos os detalhes da melhor organizada de quantas tentativas se efectuaram para a destruição dessa “Desordem sanguinolenta” como a previu o autor das Notas Contemporâneas

Que fazer? Desistir?

Adiar?

Consultou-se o Chefe…

E o Chefe, inalterável, repetiu lá de longe… repelindo a hesitação:

No dia e hora que já me marcaram lá estarei, à porta do Quartel dos Marinheiros…”

Não faltarei”.

Quando por uma fatal, desesperante, inevitada espionagem essa resposta do Chefe, do Comandante Militar da revolta chegou ao conhecimento da Carbonária (isto é, do Governo), a emoção foi profunda; o alarme foi apavorante.

Dentre as minhas recordações dessa época (e tantas são elas) não reconstituo nenhuma hora de mais enervante receio, de mais raivosa incerteza e medo na multidão demagógica, do que essa em que se tornou conhecido que o Chefe mantivera a promessa firme de passar a fronteira houvesse o que houvesse.

Mobilizaram-se todas as forças do regime em vigilância da raia.

Milhares de carbonários ou formigas foram distribuídos pelas diferentes fronteiras, mas principalmente pela fronteira do Norte.

Pode-se, sem hipérbole, afirmar que todo o país civil e militar republicano estava em pé de guerra, mobilizado em busca do Chefe da contra-revolução monárquica. A sua cabeça estava posta a prémio!

Quem o prendesse ou o matasse seria um benemérito premiado da República, nessas horas de demagogia infrene e impune.

O seu cadáver iria, simplesmente, automaticamente, indiferentemente, para a mesma vala comum da história demagógica, onde foram lançados tantos outros desde D. Carlos I – o Rei Caluniado – até aos oficiais Soares, Camacho e Sidónio, esse Presidente ingénuo… et reliquaet reliqua.

O seu cadáver iria para essa vala, mas depois de passeado, ululante, como troféu de vitória…

E nós mesmos, irmãos na luta por um Portugal Melhor, interrogávamo-nos surpresos, inquietos, febris:

– Ele sempre virá?

As prisões eram incessantes. Eu, várias vezes procurado no meu escritório, onde me apreenderam e meteram em seis grandes sacos de linhagem e levaram para o Governo Civil todos os meus papéis, processos, documentos forenses e particulares – era finalmente preso e metido incomunicável no Quartel dos Paulistas.

Não esboço, como nunca esbocei, protesto ou queixume.

Quem expôs a vida ou a liberdade nas lutas políticas não mendiga indulgências, nem mancha com lágrimas os seus brios de voluntário lutador digno.

Lutei cara a cara, peito a peito? Sofri-lhe as consequências! Nunca fui vexado, devo repeti-lo, dentro das prisões, nem contra mim se cometeu o que eu reputo a maior de todas as ignomínias na defesa dum regime, a agressão. Compreendo até o fuzilamento sumário, mas revolta-me sempre a cobardia sem nome, vilíssima, infame, da agressão a um preso. Disse-o, tive a coragem moral de o dizer, logo ao sair, no Porto, para onde me mandaram, nessa minha primeira prisão.

Mas mesmo incomunicável eu ia sendo informado da marcha dos acontecimentos. E  ainda com igual ou maior ansiedade, aguardava arquejante de emoção a chegada dessa madrugada de 21 de Outubro… desse 21 de Outubro de 1913…

Mas seria lá possível?!

Mas seria acreditável?!

Não entraria nos domínios doentios da inverosimilhança alucinada, o acreditar na possibilidade de passar a fronteira, entrar em Portugal, atravessar o país, entrar em Lisboa, vir colocar-se à frente de uma revolta, um homem cujo perfil másculo era conhecidíssimo de todos, um homem que era rebuscado por milhares de carbonários e cuja vida estava raivosamente oferecida como prémio o primeiro bandido que tivesse a chance de o matar?!

Era lá possível?!

Pois foi!

Página das mais belas do heroísmo português! Maior ainda, mais palpitante de heroísmo do que esse Barão de Batz tentando um dia, quase só, raptar, salvar Luís XVI, cercado de tropas, já a caminho da guilhotina.

Às quatro dessa madrugada de outono o comandante Azevedo Coutinho, vestido com a sua gloriosa farda de oficial da Marinha de Guerra Portuguesa – só – completamente só – apresentava-se em Alcântara, e batia ao portão chapeado do Quartel dos Marinheiros.

Mas esse portal não se abriu! Na véspera tinham sido presos os conjurados que deviam dar passagem aquele de quem, como de Ney, se pode dizer que, nas lutas da Vendeia portuguesa, foi o bravo dos bravos.

Não conheço traço mais belo, mais inverosimilmente heróico na história das lutas monárquicas; aliás  tão cheia de clarões de heroísmo e do travo tão amargo de sofrimentos pungentes.

Foi assim e já pelo seu passado de África que Azevedo Coutinho conquistou o seu posto de Chefe da Causa Monárquica.

Ao regressar a Londres, El-Rei – esse Rei a quem o Remorso, a Dor e a Gratidão de Portugal acabam moralmente de restituir o Trono – fê-lo seu Lugar Tenente. E Azevedo Coutinho ficou sendo e ficará para mim, antigo e obscuro soldado, sendo sempre e para sempre o seu Lugar Tenente…

E quando brevemente ali formos os primeiros nacionalistas os primeiros legionários da Ordem, ao Panteão de S. Vicente rendermo-nos na vigília de armas, lembrar-nos-emos sempre de que a memória do saudoso Rei se prolonga ainda na alma nobre e heróica desse grande marinheiro quase lendário do 21 de Outubro de 1913…

José d’Arruella”