o copo meio cheio ou meio vazio…

Esta é uma antiga e polémica questão nos órgãos de comunicação social, a da relação entre os títulos e os conteúdos de uma notícia. E este é um bom exemplo.

Se nos limitarmos a ler os títulos de uma mesma notícia tratada em dois distintos diários do mesmo dia, ficamos algo baralhados: então, no ensino superior,  entraram mais quase 9.500 estudantes ou menos 1.300? Se lermos a notícia, o que nem todos os leitores do jornal fazem, talvez fiquemos a perceber a aparente contradição.

Mas é preciso ler tudo…

João de Azevedo Coutinho e Peniche – dois

João de Azevedo Coutinho recebeu, depois da reabilitação, algumas relevantes e justas homenagens. Creio que, entre todas elas, avulta a concessão do seu nome a um destacado navio da Armada Portuguesa.

Com efeito, esta escolha representou mais uma etapa da sua perpetuação, porventura a mais importante e significativa sobretudo por ter sido concretizada no seio da comunidade militar que ele mais honrou, a Marinha.

Assim, João Coutinho foi o nome de uma corveta N.R.P. da Armada Portuguesa, que usou o indicativo de amura F475.

Esta corveta foi “cabeça” de uma classe que compreendeu mais cinco unidades: António Enes, Jacinto Cândido, Pereira d’Eça, Augusto Castilho e Honório Barreto.

O projecto deste navio de guerra foi da autoria do contra-almirante Rogério Silva Duarte Geral d’Oliveira, que contou com a colaboração de um estaleiro naval alemão para os estudos de pormenor. E teve tal êxito funcional, que os navios deste tipo (3 construídos na Alemanha e depois 3 em Espanha) serviram de base a classes estrangeiras muito semelhantes, como a Descubierta (Espanha), a Espora (Argentina) e a D’Estienne d’Orves (França).

A corveta João Coutinho foi construída nos estaleiros Blohm und Voss, de Hamburgo, e lançada à água a 2 de Maio de 1969, em Kiel, entrando ao serviço em 7 de Março de 1970. Era um navio com 1.480 toneladas de deslocamento, medindo 85 metros de comprimento por 10,3 de boca máxima, com 3,3 metros de calado. A sua propulsão foi assegurada por dois motores diesel, desenvolvendo 12.000 cavalos de potência, e por 2 eixos, que garantiram ao navio uma velocidade máxima de 22 nós e uma autonomia de 6.250 milhas marítimas, com a marcha estabilizada a 18 nós. 

A corveta foi equipada com um radar de navegação e sensores de controlo de tiro e armada com 2 canhões de 76 mm, duas peças AA de 40 mm, assim como com armas anti-submarinas. Dispunha ainda de uma pista para uso de helicópteros ligeiros.

A sua guarnição normal era de 7 oficiais 14 sargentos e 51 praças.

Consideradas uma versão moderna das canhoneiras do século XIX e dos avisos coloniais dos anos 30, a corveta João Coutinho e as suas congéneres foram utilizadas em missões de soberania (patrulhas, apoio de fogo, desembarque de fuzileiros, etc.) durante as guerras coloniais, em África. Depois, o navio João Coutinho voltou à metrópole, para assegurar na nossa costa missões como a vigilância do tráfego marítimo, a fiscalização da ZEE busca e salvamento, assim como viagens de instrução. Foi alternadamente atribuído aos Comandos Operacionais do Continente e dos Açores.

Algumas das unidades da classe João Coutinho já foram desactivadas. A própria corveta João Coutinho foi abatida em Setembro de 2014, há quatro anos.

Um pouco antes deste final da brilhante carreira do navio, o seu último comandante, Pedro Santos Serafim, teve a oportuna gentileza de convidar familiares do patrono para uma simbólica visita. Esta concretizou-se em 6 de Julho de 2014.

Foram quase uma centena os familiares de João de Azevedo Coutinho que tiveram então uma rara oportunidade de compreender o respeitoso carinho dos marinheiros para com um dos seus, tão ilustre pelo nome como pela justa fama.

O orgulho partilhado foi evidente e todos entendemos como o mar pode unir sentimentos e traçar laços definitivos, tornando-os herança comum.

António Martinó de Azevedo Coutinho