António Dias de Deus (1936-2018)

Foi por informação de um amigo comum nesta coisa dos quadradinhos, Geraldes Lino, que tive há dias notícia da recente morte de António Dias de Deus.

Em boa verdade o facto nem sequer constituiu uma surpresa, dado saber-se que há muito o amigo agora desaparecido lutava pela sobrevivência, progressivamente tomado por implacável doença que vai extinguindo a memória e a própria vida.

António Emanuel Comprido Dias de Deus, médico pediatra, era alentejano de Vila Fernando, onde nasceu em 1936. Entre nós, notabilizou-se publicamente sobretudo pelo seu entranhado amor aos quadradinhos, que estudava e conhecia como muito poucos.

Ele era o mais esclarecido crítico e um notável historiador do fascinante universo da BD, sobretudo na sua componente nacional.

Conheci-o pelo início dos anos 80 do passado século, no seio das actividades do Clube Português de Banda Desenhada, que ele ajudara a fundar. Encontrávamo-nos nos saudosos festivais, nomeadamente nos realizados na antiga FIL, à Junqueira. Fora isso, sempre que ele se deslocava à sua terra, procurava-me em Portalegre e tivemos assim repetidas ocasiões para prolongadas trocas de opinião e de conceitos onde muito aprendi.

Para além das obras publicadas, da sua autoria, ofereceu-me uma preciosa colectânea de escritos pessoais, na maioria inéditos, laboriosamente organizados sob a forma de sete primorosos cadernos artesanais.

Da sua obra mais significativa, Os Comics em Portugal – uma história da banda desenhada (Cadernos da Bedeteca, 1997, edição revista e actualizada por Leonardo De Sá), guardo um precioso original, bem mais desenvolvido e ilustrado, com autógrafo do autor.

Os seus artigos, centenas, constantes de suplementos especializados da nossa imprensa diária e semanal, constituem hoje e para o futuro uma inestimável herança.

Frontal, a sua pena era justa e dura, pelas exigência e coerência que pautavam os critérios pelos quais se orientava. Irónica e subtil, imbuída de um sentido pedagógico de onde não estava arredada a poesia, a escrita de António Dias de Deus era original e não encontra paralelo entre nós.

Curvo-me perante a grata memória de um amigo certo, a quem a causa nacional das histórias aos quadradinhos muito fica devendo.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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