João de Azevedo Coutinho e Peniche – post scriptum

Há dias, em mais uma ida ao Estado Maior da Armada, em Lisboa, recebi de um amigo a fatal notícia. Após o choque inicial, terei de aceitar que, em função do desenrolar (!?) dos acontecimentos, esta conclusão era expectável. E lógica.

Lutei, com alguns (raros) familiares, pelo objectivo centrado na musealização subaquática da corveta João Coutinho em Peniche. Não vou agora recapitular em pormenor o aqui já redito.

Com base num pretexto simbólico, a titularidade do condado de Peniche assente há gerações num membro da família Azevedo Coutinho, visava-se um desígnio da maior importância cultural, ecológica, desportiva e económica para esta cidade. A par do surf, as diversas práticas relacionadas com o mergulho motivado dispõem hoje de uma crescente procura a nível mundial. Entre nós, a Madeira e Portimão transformaram-se nos seus polos pioneiros.

O processo iniciou-se há anos, ainda no decurso do anterior mandato autárquico. António José Correia, talvez porque a iniciativa lhe não pertencera (!?), jamais assumiu o projecto com a seriedade exigida. Ainda assim, não se furtou a um precário diálogo e protagonizou mesmo algumas inconclusivas diligências.

A “herança” do projecto foi transmitida ao novo responsável autárquico, Henrique Bertino, logo no início do seu mandato. Perante a prolongada indiferença deste,  constatada no decorrer dos tempos, assumi a iniciativa de transmitir oralmente, e logo depois por escrito, o essencial da pretensão ao Chefe de Estado Maior da Armada, a quando da sua vinda a Peniche por ocasião das festividades do último Dia da Marinha, em Maio. O presidente da autarquia testemunhou presencialmente o facto, sem que isso lhe provocasse qualquer posterior diligência.

A seguir, através das redes sociais por intermédio deste blog, historiei todo o processo ao longo de sucessivos “capítulos” que terminaram com o notável depoimento de um penichense, Jorge Russo, uma autoridade internacional no tema em questão. Recordo o seu derradeiro período: “Após este breve conjunto de argumentos, apetece perguntar a Peniche o que espera para acolher, numa primeira fase ouvindo mas com atenção, a ideia de afundar a Corveta João Coutinho.

O tempo continuou a sua marcha sem qualquer visível reacção do autarca. Como é óbvio, não competiria ao Estado Maior da Armada perguntar a Peniche se estava interessada no afundamento da corveta. Entretanto, recentemente e na sequência de duas outras similares operações, o Governo Regional da Madeira manifestou o legítimo desejo de contar com a corveta João Coutinho, o qual -naturalmente- foi concedido.

O que perdemos nós, familiares de João de Azevedo Coutinho em geral, e eu em particular como permanente militante desta causa? A possibilidade de termos, próximo e para sempre, mais um símbolo evocativo de uma figura tutelar cuja dimensão nos ultrapassa, perpetuado (e assim homenageado) em marco de quotidiana e diversificada procura.

O que Peniche perde é imensamente mais significativo. Basta perguntar ao Governo Regional da Madeira ou à Câmara Municipal de Portimão, às empresas e organizações implicadas no projecto e às comunidades envolventes o que significa, nos mais diversos níveis de progresso e desenvolvimento, o sucessivo afundamento e exploração de navios, na crescente e imparável contabilidade registada em ambos os seus mares de influência…

O presidente da Câmara Municipal de Peniche acaba de partilhar no jornal local algumas queixas motivadas por injustas campanhas de opinião de que se sente vítima. Mas o balanço da vida pública implica, também, a introspecção.

De cara descoberta acuso-o pelo desprezo concedido a esta proposta. Aceitaria a sua discussão, pública ou privada, o contraditório, até mesmo uma recusa desde que devidamente justificada.

No entanto, o senhor presidente demitiu-se dos seus deveres de líder, preferiu o silêncio, nem sequer tendo confidenciado aos seus pares o desafio legitimamente colocado por um munícipe. A verdade é que este tipo voluntário de autismo se situa nos antípodas da transparência e longe das mais elementares regras democráticas.

Assim, aqui e agora, talvez perdido num vasto campo de sentimentos entre a estulta ignorância e a arrogante sobranceria, o presidente da autarquia deixou esgotar-se, ingloriamente, uma oportunidade única. Como é evidente, levar até ao fim um projecto com tal dimensão implicaria coragem, audácia, trabalho e investimento. Isso assustou os protagonistas citados? Por que tem Peniche de se manter neste lamentável atraso que mal justifica a imerecida promoção política de há décadas?

O que agora se perdeu sem remédio, por inacção, será avaliado quando um dia -sem margem para dúvidas- começarem a ser aqui deliberadamente afundados navios. Então, já outros estarão -devida e previamente instalados- nas águas da “concorrência”: Cascais, Ericeira, Nazaré, Figueira da Foz e por aí fora… Peniche terá preferido, como quase sempre, a cauda do pelotão do progresso.

No mínimo, a António José Correia ficou a dever-se a implantação do surf, ainda que nem sempre bem enquadrado ou aproveitado no seu óbvio e desejável contexto comunitário. Agora, enredada na limitada gestão paroquial da sua vulgaridade quotidiana, a actual governação autárquica dá sinais de uma clara incompatibilidade quanto à necessária e urgente visão criativa de um futuro sustentável para a comunidade penichense. O actual caso da perdida corveta é paradigmático.

Mudou-se a imagem oficial da autarquia, quando o essencial -e desejável- consistiria na mudança da sua mentalidade. A “árvore”, símbolo do projecto eleito, bem pode sujeitar a sua aparência a uma operação cosmética. No interior, pouco a pouco, vem já sofrendo a praga que abateu as clássicas palmeiras, outrora imagem da cidade.

Portanto, a perspectiva imediata implica uma alternativa muito simples: a radical alteração do actual comportamento da “árvore” ou o reconhecimento da sua precoce esterilidade. Talvez por algum tempo pareça manter-se ainda na vertical, como compete por definição ao género, porém morta por dentro.

Ainda que nada, rigorosamente nada, tenha a ver com a questão aqui em apreço, não pode nem deve esquecer-se a perfeita  inutilidade de uma “oposição” autárquica, maioritária e ausente.

Peniche e os penichenses mereceriam um melhor futuro.

Que tarda.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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