uma Fundação em cacos…

Fundação Robinson nega demolição de edifício denunciada pelo PEV – na sua edição on line, o semanário portalegrense Alto Alentejo encima a justificação que procurou junto do presidente do Conselho de Administração da Fundação Robinson.

São mentiras sem pudor nenhum“. Foi assim que este reagiu à denúncia do PEV, que acusa aquela entidade de ter praticado um crime contra o património ao demolir um dos edifícios da antiga fábrica Robinson.

De facto, em comunicado público, o Partido Ecologista “Os Verdes” anunciou que vai apresentar uma queixa junto das autoridades por crime contra o património após ter sido alertado, através de uma denúncia documentada por fotos, de que “o Conselho de Administração da Robinson estaria a demolir um edifício da antiga fábrica Robinson, Património Industrial Corticeiro de Portalegre, classificado de interesse público“.

Questionado pelo Alto Alentejo, o presidente do Conselho de Administração da Fundação Robinson refutou as acusações, argumentando que a demolição daquele edifício estava prevista no projecto inicial do Espaço Robinson, tendo inclusive sido aprovado pelo Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (IGESPAR).

Em 2018, antes de eu tomar posse como presidente do Conselho de Administração da Fundação Robinson, o edifício ruiu em grande parte, perdeu o telhado e paredes, sendo que em Maio ruiu outra parte, ficando apenas com uma parede e meia“, refere, acrescentando que “não mandei demolir nada, mandei apenas que se garantisse a seguranças das pessoas”, pois “nos últimos anos o espaço tem recebido visitas de várias escolas“.

Estranhíssima justificação esta, porque o que ocorre de imediato perguntar é a razão de ser e de actuar da Administração.

Entre os fins e objectivos específicos da Fundação Robinson, oficialmente consagrados nos seus estatutos publicados em Diário da República, consta a preservação do espólio arqueológico-industrial da Sociedade Corticeira Robinson Bros, S.A.

Portanto toda a lógica, absolutamente incontornável porque obrigatória, seria a de reparar a zona que ruíra, repor o telhado e as paredes, em vez de esperar que a parte restante caísse por terra. A segurança das pessoas, o resguardo das peças do património industrial e a manutenção do espólio assim o teriam exigido.

Pelo contrário, a Administração -esta como todas as anteriores- testemunhou passivamente a progressiva destruição do que deveria estar à sua zelosa guarda. Aliás, é publicamente sabido que tanto o espaço como o conteúdo têm vindo a ser vandalizados de muitos outros modos, nem todos naturais.

Por outro lado, podemos interrogar-nos acerca do efectivo valor da resolução parlamentar há largos meses aprovada por “entusiástica” unanimidade. Tão empolgante quanto rigorosamente inútil, a decisão apenas tem revelado a sua mais absoluta impotência…

Não se afigura esperançoso o futuro do Espaço Robinson, parecendo cada vez mais distante -ou perdida!- a efectivação do prometedor projecto de ali ser instalado um Museu de Arqueologia Industrial, talvez único no panorama nacional, inestimável mais-valia cultural e sócio-económica para a cidade.

A memória dos Robinson, uma ilustre família inglesa, assim como a fabulosa gesta operária que iluminou Portalegre durante largas décadas de história local, tudo isso parece ter caído no esquecimento. A ruína, tanto física como espiritual, prevalece sobre esse ímpar património.

A ideia nunca abala“. Jorge Murteira, com olhar e imagens de mestre, quis perpetuar a convicção do anónimo operário corticeiro num eloquente e precioso documentário. Porém, tempos e vontades alheias têm vindo a abalar e destruir os mais legítimos sentimentos, as mais nobres intenções, os mais desejáveis planos…

As imagens recentes dos destroços que se acumulam sobre a antiga, rara e preciosa maquinaria configuram ou confirmam metaforicamente uma realidade portalegrense: a da sistemática e absoluta carência de lideranças firmes com projectos de futuro. Está tudo em cacos.

A “minha” fábrica da rolha, que há mais de seis anos aqui evoquei, numa saudosa nostalgia no entanto activa e carregada de esperança!, está cada vez mais distante.

O meu bisavô Silvestre Ceia, os tios-avós Francisco e Manuel, os descendentes dos Robinson com quem privei, os operários corticeiros que tive como alunos, o meu amigo de infância Zé Crespo que um dia lá morreu, esturricado, como tantos outros, as memórias pessoais dos fumos e dos cheiros, a lembrança dos nomes e dos rostos, as instituições dali nascidas, enfim, um dos mais significativos capítulos do passado lagóia projectado como uma risonha promessa de futuros a haver, tudo, tudo tem merecido dos (ir)responsáveis um desleixo, talvez mesmo um desprezo, a todos os títulos inqualificável. Gente que sucessivamente se tem servido do espólio Robinson em vez de o servir, como seria sua obrigação de honra, conduziu-nos a esta lamentável situação.

O caso presente é, apenas, um símbolo da indignidade.

Pobre Portalegre, terra que perdeu a memória.

António Martinó de Azevedo Coutinho

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