Cenas da vida lusitana há 50 anos – setenta e seis

Devido a erro pessoal na gestão dos arquivos e datas, ia falhando, por um triz, a inserção da última “entrega” relativa ao mês de Julho do Almanaque da Plateia de 1969. Um revisão ao “calendário” da edição do blog permitiu-me remediar o erro… Com o pedido de desculpas aos leitores habituais da secção, aqui fica a emenda.

O título é significativo. A felicidade não tem história pretende dar conta dos raros casais estáveis entre os astros do cinema. Um curiosidade…

Depois, a concluir o material do mês, um outro dossier revela uma relação, ainda assim considerável, de Filhos (e mais família…) de peixe -que- querem saber… representar!

Como o título deixa supor, trata-se de uma lista onde se arrolam os descendentes de artistas que pretendem seguir os passos profissionais dos respectivos ascendentes. E pronto, assim fica o mês de Julho de há 50 anos com a retrospectiva completa.

Até Agosto, que começa já amanhã.

 

Dois em um – III

Dois dias após as emoções vividas na Buchholz, o previsto calendário de eventos enviou-me à Casa do Alentejo. Como alentejano, é-me sempre gratificante entrar na sede de uma das agremiações regionalistas mais conceituadas da capital.

Ainda que, tecnicamente, se tratasse de um idêntico pretexto, era fácil prever um bem distinto desenlace. E assim foi.

Havia aqui e agora evidentes, ainda que discretas, medidas de segurança. A sala apenas ficou disponível próximo da hora prevista.

Antes, pude confraternizar com amigos e conterrâneos portalegrenses, tanto o João Miguel Tavares como os seus pais e irmão. Vinham carregados com boleima de Portalegre, agora laureada com recente título de glória gastronómica em referendo (!?) com contornos de fútil novo-riquismo. Li no acontecimento algo bem diverso: JMT provava assim, de forma prática e conseguida, que uma boleima alentejana é de facto bem mais útil ao país do que um romance de Inês Pedrosa. Apenas foi pena, já agora, não ter trazido o padeiro…

A minha admiração pelo João Miguel levou-me, em 2007, a pedir-lhe para prefaciar um dos meus livros. Portanto, posso reivindicar tê-lo “descoberto” muito antes do presidente Marcelo, o que nada espanta dada a nossa comum condição lagóia. Somos poucos, cada vez menos, e conhecemo-nos uns aos outros.

Com os seus textos, tanto o prefácio das Crónicas Lagóias como o discurso nacional do 10 de Junho, João Miguel Tavares obteve o mesmíssimo resultado, o de “abafar” o restante contexto, as minhas crónicas e o discurso presidencial…

A inspiradíssima paródia gráfica criada por Luís Rodrigues no “blog” Insónias em Carvão, que JMT reproduz no seu livro, é metafórica a este propósito.

Dei anteriormente conta da minha total adesão aos escritos de Nuno Pacheco, no Público. Não acontece exactamente o mesmo quanto aos de JMT. Por oportuno e adequado exemplo, lembro um, recentíssimo, acerca da “cultura zulu”… Estou rigorosamente nos antípodas das suas convicções!

JMT desencadeia amores e ódios de estimação. Culto e inteligente, sempre politicamente incorrecto, inequivocamente usando coragem e frontalidade, escorrega por vezes para posições insustentáveis, defendendo causas perdidas ou desencadeando autênticas “guerras santas” sem fim à vista.

Mas não quero perder-me no, agora, assessório. Regresso por isso ao salão da Casa do Alentejo, já com o presidente Marcelo (quase pontual) e JMT no uso da palavra, em estilos bem mais sóbrios e económicos dos que aconteceram na Buchholz. Houve absoluta dignidade de parte a parte. São gente que sabe estar.

A assembleia, também muito distinta da outra, encheu o salão. Vi imensas caras conhecidas, sobretudo das telas da televisão, que não consegui identificar. Concluo que não são suficientemente importantes, no meu limitado entendimento social, para que me tenha dado ao trabalho de lhes associar os nomes… Very insignificant persons, assim os posso classificar. Creio, sinceramente, que estavam muito mais interessados em ser vistos do que em ver. Registei portanto uma outra modalidade de feira pública de vaidades, algo distinta da colectada na Buchholz.

Aliás, o fenómeno pode confirmar-se pela imensa bateria de câmaras de cinema e TV instalada nos fundos da sala. A imagem comanda o mundo…

Para quem lê ou acompanha João Miguel Tavares, a obra Dêem-me alguma coisa em que acreditar – O discurso de 10 de Junho e outros textos não traria, a priori, novidades de maior. No entanto, aos seus dois discursos (Portalegre e Mindelo), já amplamente reproduzidos, o autor juntou-lhes dois artigos alusivos assim como duas entrevistas a propósito. O conjunto, pela sua complementaridade, fornece interessantes guias para um melhor entendimento do que foi, de facto, um 10 de Junho diferente. E muito mais próximo de nós, povo.

Acresceu a este evento um relevante facto suplementar, o de ao lançamento da obra ter ficado associada a estreia da sua editora, mais um projecto de João Miguel Tavares. A novel editora Cinco Um Zero, Lda pretende desenvolver actividades relacionadas com a criação e exploração de meios de comunicação social, independentes do suporte e forma de difusão, bem como a criação, produção, agregação, gestão, distribuição e publicação de conteúdos e, ainda, o agenciamento e representação de produtores de conteúdos. Naturalmente, como se verificou, inclui a edição de revistas, jornais e livros, bem como a organização de eventos alusivos.

Penso que a estreia, boleima de Portalegre incluída, esteve à altura. Boa sorte para o futuro, dada a forte concorrência!

Recordando a amizade de há muito, o João Miguel manifestou na sua simpática dedicatória o desejo de que eu apreciasse o discurso de Portalegre.

No louvor como na crítica estou sempre ao seu lado.

Dois em um.

A BD vista por Carlos Gonçalves – oitenta e nove

A página do suplemento Correio da Banda Desenhada, coordenado por Carlos Gonçalves, hoje reproduzida foi publicada no Correio da Manhã de 14 de Maio de 1987. Refere uma realização da Escola Superior de Educação de Portalegre que aí iria ter lugar no final desse mês de há mais de trinta anos (parece que foi ontem!), relativa ao tema Adaptação do Texto Literário à Banda Desenhada.

Foram esses tempos muito dinâmicos, na afirmação de uma escola então ainda jovem, ao nível de uma das suas mais pujantes iniciativas de relação com a comunidade, em especial com a pedagógica. Tratava-se das denominadas Acções de Formação de Curta Duração, que concretizaram dezenas de actividades multidisciplinares com manifesto interesse sócio-pedagógico, criando ao mesmo tempo oportunidades de intercâmbio de experiências, de cooperação com outras instituições e mesmo de abordagem a temáticas pouco vulgares.

Este foi precisamente um evento em que tudo isto se conjugou de forma exemplar e eficaz. Para o recordar e documentar, juntei à página um breve artigo contido na revista Aprender, de Novembro desse mesmo ano de 1987, abordando precisamente aquela jornada pedagógica.

A página do suplemento Correio da Banda Desenhada, coordenado por Carlos Gonçalves, hoje reproduzida foi publicada no Correio da Manhã de 14 de Maio de 1987. Refere uma realização da Escola Superior de Educação de Portalegre que aí iria ter lugar no final desse mês de há mais de trinta anos (parece que foi ontem!), relativa ao tema Adaptação do Texto Literário à Banda Desenhada.

Foram esses tempos muito dinâmicos, na afirmação de uma escola então ainda jovem, ao nível de uma das suas mais pujantes iniciativas de relação com a comunidade, em especial com a pedagógica. Tratava-se das denominadas Acções de Formação de Curta Duração, que concretizaram dezenas de actividades multidisciplinares com manifesto interesse sócio-pedagógico, criando ao mesmo tempo oportunidades de intercâmbio de experiências, de cooperação com outras instituições e mesmo de abordagem a temáticas pouco vulgares.

Este foi precisamente um evento em que tudo isto se conjugou de forma exemplar e eficaz. Para o recordar e documentar, juntei à página um breve artigo contido na revista Aprender, de Novembro desse mesmo ano de 1987, abordando precisamente aquela jornada pedagógica.

Dois em um – II

O Professor Artur Anselmo de Oliveira Soares é um filólogo, investigador e professor com prestígio internacional. A sua competência linguística é amplamente reconhecida, tendo ocupado os mais elevados cargos académicos na área em que é uma incontestável autoridade.

Como tal, a sua aura dominou, no arranque, o encontro de militantes desta causa do bom e urgente combate. E estes encheram a vasta sala cercada de livros, como uma península-desafio de saber e cultura. Na mesa, para além do académico, estavam dois dos três governantes-sombra (o terceiro sobraria para dois depois), mais o editor da Gradiva, Guilherme Valente.

Artur Anselmo, cujas posições políticas têm justificado alguma reconhecida animosidade, falou daquilo que conhece como poucos, encantando-nos com argumentação assente na invulgar memória pessoal de mil e uma vivências.

A inteligente e culta ironia de Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira encheram depois a sala e justificaram, só por si, a enchente.

Guilherme Valente, numa posição algo diferente, porque comprometido com a edição, assume sempre uma coerência que admiro. Já o tinha encontrado, nos domínios de um universo algo diferente, o da Banda Desenhada, nomeadamente como esclarecido editor de uma notável obra dos quadradinhos lusos, Os 12 de Inglaterra, criação do desenhador Eduardo Teixeira Coelho, cujo centenário do nascimento temos vindo a comemorar.

Quanto a Nuno Pacheco, creio que confirmou ao vivo e em directo a qualidade revelada nos escritos: sólida cultura, conhecimento convicto e invulgar capacidade de comunicação. Devemos-lhe, todos os que acreditamos na pureza de uma língua agora ameaçada de inqualificável agressão, uma posição cimeira de esclarecida e autorizada coragem e dignidade. Bem haja!

Julgo oportuno aqui transcrever a apresentação da sua recente obra. Creio que esta súmula define com rigor o conteúdo do trabalho, constituindo mesmo um desafio à sua leitura:

O Acordo Ortográfico de 1990 nasceu de um perigoso casamento: o do medo com a mentira. O medo é de que no Brasil se ouça um grito do Ipiranga linguístico e a língua portuguesa, ali, passe a denominar-se «brasileiro». A mentira é a de que o português era a única língua com duas ortografias oficiais. Só que a miragem da «unificação» favorece quem defende o «brasileiro»; e a ortografia, por mais que se afiance o contrário, tende a ser plural nos idiomas mais difundidos no globo. Isto não impediu que no universo da língua portuguesa surgisse algo de que nenhuma outra língua precisou para sobreviver, singrar ou até expandir-se: um Acordo Ortográfico. Mas os seus arautos, ainda que não o saibam (ou não queiram saber), são já parte de um pequeno exército retrógrado, a lutar contra a evolução natural da escrita, porque esta passa pela fixação e reconhecimento das variantes ortográficas nacionais e não pela sua «unificação». Dito isto, o Acordo Ortográfico é um embuste. Meteu-nos num beco, mas esse beco tem saída. Assim haja coragem e vontade política para abandonar de vez esta quimera“.

No debate que se seguiu, com toda a sinceridade, apenas relevo a intervenção do cineasta António-Pedro Vasconcelos, simples, directa e informada por curiosos e oportunos casos práticos e vividos. Talvez seja injusto ou excessivamente rigoroso nesta apreciação, pessoalíssima, mas quase todos os restantes depoimentos me pareceram dispensáveis. Mesmo inúteis e até caricatos.

Creio que na própria mesa, pelas reacções que a “antologia ” de imagens a seguir documenta, o acolhimento terá sido idêntico.

Naquela assembleia, considero ter havido gente muito mais interessada em ser ouvida quando, ali, o fundamental era saber ouvir. A feira pública das vaidades ainda tem cultores… Aliás, estavam presentes autênticas personalidades que atestaram e valorizaram com o seu silêncio a validade dos discursos.

A quem segue e lê regularmente Nuno Pacheco, a obra Acordo Ortográfico – um Beco com saída não traz novidades de maior, excepto a grata recordação, devidamente organizada, de uma relevante antologia. Com efeito, à excepção de um texto, a obra nada tem de original. Porém, assim, ficam mais à mão artigos dispersos ao longo de anos. Relê-los assume muitas vezes o prazer original e, sobretudo, fortalecem a memória e a alma para novos combates que teremos ainda de enfrentar até à vitória final, vitória da língua – a nossa Pátria, segundo disse e bem Fernando Pessoa.

Resta-me destacar aquele que foi, para mim, o mais significativo -e inesperado- momento vivido na Buchholz: o reencontro com António Jacinto Pascoal. Colega e amigo de há muito, gratíssima herança de vivências comuns em Portalegre, indefectível militante da cultura e portanto da língua, distinto colaborador do Largo dos Correios, ele veio de propósito a Lisboa, apenas para partilhar a luta por esta causa, onde estamos unidos.

Só por revê-lo e abraçá-lo teria valido a pena.

Dois em um.