Já está: a tecnologia venceu o campeonato!

Já está: a tecnologia venceu o campeonato!

Que a tecnologia está a mudar comportamentos humanos não é novo. Nem que, mudando-os, valores e ética sofram também a sua bordoada. E também não deve haver novidade no facto de as emoções, inseparáveis da racionalidade, serem determinadas por estímulos cada vez mais complexos e virtuais, senão inefáveis. O que me parece actual é o servilismo à pequena máquina, a extrema capitulação do ser perante a técnica. Já não temos alegrias sem a sensação de que a alegria é um dever, uma imposição social. E só nos divertimos de facto com mediações, como se emprestássemos às nossas emoções a necessidade de se legitimarem através de evidências técnicas. Com o telemóvel, provamos aos outros e a nós mesmos que fizemos parte de um evento e que a nossa boa-disposição terá sido credível.

No intervalo do jogo de consagração do Sport Lisboa e Benfica, vimos as atletas da equipa feminina do mesmo clube sancionarem o seu feito de telemóvel erguido, quem sabe reconhecendo que a evidência visual é a única forma de ocupar o vazio da sensação de se não existir fora das redes sociais. Também os jogadores do SLB, substituindo a espontaneidade de uma alegria genuína que não busca a sua marca imediata (há uns tempos, os jogadores acenavam aos adeptos, gritavam e erguiam os braços vitoriosos), cederam a uma exibição contida e ao registo da sua própria emoção, temperada em telemóveis que os faziam ser parte da festa, quando nenhum deles deveria ter dúvidas disso. Que filmavam eles? A sua própria alegria? A sua comoção? A prova de que ninguém lhes rouba o seu espaço na festa? O presente que, naquele momento, é pensado já como futuro?

Quando alguns jornalistas inquiriram adeptos sobre as emoções vividas, à parte as expressões bárbaras do costume, uma ideia pareceu sobrepor-se: «já estamos a pensar no 38º!». Mal ou bem, a realidade do presente é vivida não em função do êxtase imediato mas do registo (da imagem) e do egocentrismo insaciável de futuro – não é possível estarmos num só lugar, porque algo nos reclama noutro em simultâneo. Há sempre uma série de solicitações a negar-nos a fruição do presente e a barrar-nos o direito ao usufruto do tempo: “notificações”, “histórias” de Instagram como prova de vida, tweets. Nos intervalos de tudo isto, temos a encenação da alegria, auto-registada para que conste. Uma meta-alegria, isto é, a alegria sobre a alegria, a emoção a debruçar-se sobre ela mesma.

É dessa esfusiante alegria que vive um dos mais pobres espectáculos à escala mundial: o Eurovision. Chega a ser penoso assistir àquele espectáculo de boçalidade colectiva, sem a sensação de que temos de ser gratos por nos esmagarem com a generosidade de tanto sorriso aberto. Mario Benedetti, o poeta uruguaio, escreveu há muitos anos um belíssimo poema («Defensa de la alegría») em que, entre outros, se podem ler estes versos: «defender la alegría como un destino/defenderla del fuego y de los bombeiros/ (…) de la obligación de estar alegres». Registemos a alegria. Não há outra forma de provar o que sentimos.

António Jacinto Pascoal
Professor

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