Lembrando o antigo Liceu de Portalegre…

O Instituto Politécnico de Portalegre continua, em boa hora, uma sua iniciativa editorial com a regular publicação de volumes assinados por autores ligados à “casa”. Agora é Memórias do Liceu de Portalegre (1851-1974), da autoria de Isilda Garraio. E vão onze!

A cerimónia do lançamento contará com notável participação do Professor António Sampaio da Nóvoa e acontecerá no edifício que albergou durante muitas décadas o velho Liceu de Régio e de tantos outros mestres. Por ali passaram milhares de alunos que guardam daquele estabelecimento de ensino uma memória de afecto e carinho.

A autora, Isilda Maria Calha Garraio, é natural de Portalegre e foi professora do 10º grupo A, na Escola Secundária de S. Lourenço. Concluiu o Curso do Magistério Primário em 1968, iniciando a sua actividade profissional no Ensino Básico, onde trabalhou durante cinco anos.

Licenciou-se mais tarde em História, pela Universidade Clássica de Lisboa (1980), e adquiriu o grau de Mestre em Ciências da Educação – Área de Análise e Organização do Ensino (1994), pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, da mesma Universidade.

Foi professora no Ciclo Preparatório em Nisa e, posteriormente, em escolas do Ensino Secundário em Abrantes e em Portalegre. Trabalhou ainda na Escola Superior de Educação de Portalegre, como Orientadora da Prática Pedagógica e Assistente.

Colaborou na Revista Aprender da ESEP, bem como na imprensa local, nomeadamente nos jornais O Distrito de Portalegre e Fonte Nova, com artigos sobre a História Regional e Local.

Coordenou o grupo de trabalho que publicou o livro “Azulejaria de Portalegre. Um olhar sobre a cidade”, sendo autora de “Foral Manuelino de Portalegre”, “Palácio Achaioli. Subsídios para a sua história” e “O Centro Histórico da Cidade”.

É sobretudo notável o contributo de Isilda Garraio para o conhecimento da vida pedagógica local, pois à obra agora lançada, sobre o Liceu, já acrescentara uma outra, sobre a Escola Industrial e Comercial. Aquilo que é hoje o Ensino Secundário em Portalegre dispõe portanto de uma cuidada historiografia da responsabilidade da investigação e da escrita da autora.

Pela feliz e oportuna iniciativa de Isilda Garraio, todos os portalegrenses podem saber mais sobre o seu passado. Merece por isso um abraço amigo de admiração e reconhecimento, na expectativa de que muito mais possa ainda concretizar em benefício de todos os interessados pela cultura e por Portalegre.

A Rua Direita – dois

O que pode agora conseguir-se, emergindo da saudade, limpando-lhe o pó dos tempos, é utilizar o que outros conseguiram elaborar, semelhante, sobre a nossa Rua Direita. Há várias pistas.

Podemos, por exemplo, pesquisar sucessivas colecções de jornais da época escolhida, apoiadas pelas revistas do tempo, programas de festas comunitárias, e arrolar os estabelecimentos aí anunciados. Tratando-se de épocas mais recuadas, nem sequer podemos confrontar a listagem obtida -sempre incompleta- com o testemunho e a memória pessoais. Porque nem todos os estabelecimentos comerciais se interessavam pela publicidade, não existe forma de compensar as falhas, pois os documentos fotográficos complementares também não abundam.

Outro processo, mais seguro ainda que não definitivo, consiste no recurso a descrições produzidas por autores que tiveram a iniciativa e a generosidade de nos legarem tal produção. É o caso da opção agora tomada.

No número sete da revista A Cidade (1.ª série), relativo a Março de 1983, Carlos Bentes de Oliveira deixou-nos uma curiosa descrição da Rua Direita, alusiva a meados do passado século, precisamente a Agosto de 1950.

Em Fevereiro deste ano de 2012, no “blog” A Voz Portalegrense, do meu amigo Mário Casa Nova Martins, recordei brevemente este texto, a propósito duma outra descrição -sumária, inspirada e crua- que o poeta da cidade Fernando Correia Pina acabara de ai divulgar.

Detenhamo-nos agora, com certo detalhe, no artigo que Bentes de Oliveira recordou há quase trinta anos, revelando um retrato da Rua Direita com o dobro dessa “idade”.

Trata-se dum poema da autoria de Roma da Fonseca, médico estomatologista que, por meados do passado século, passava largas temporadas na nossa cidade. Poeta de apreciável qualidade, frequentemente publicava sonetos e outras produções poéticas no semanário local A Rabeca.

Ronda do Dia –assim ele denominou o texto- é uma visão pessoal da Rua Direita, registada em 1950 e como tal datada. Então, era muito diferente esta artéria citadina, sede do florescente comércio local, de cafés e outros serviços públicos, cenário de episódios mil, protagonizados pelos seus assíduos frequentadores. O longo poema de Roma da Fonseca é um autêntico fresco, pintado de exuberantes cores, pitoresco nas suas alusões, subtis ou directas, às inúmeras personalidades recenseadas entre o Café Alentejano e o largo do Rossio…

Uma Rua Direita viva e pujante, povoada e dinâmica, centro nervoso da cidade, espelho duma Portalegre desaparecida, que não voltará. Carlos Bentes de Oliveira, pelo conhecimento vivencial que detinha dessa época, sabiamente introduziu e anotou o poema de Roma da Fonseca, assim permitindo uma sua actualização. Agora, decorridas outras três décadas sobre essa data, nova “modernização” se justifica e impõe.

A proposta, portanto, corresponde a acompanhar a pormenorizada descrição do poeta, descendo com ele a comprida e inclinada Rua Direita, revisitando cada local, recordando cada sítio, cada porta, cada rosto, cada vivência, cada episódio, nos limites da reconstituição possível.

Coincide com a data escolhida pelo Dr. Roma da Fonseca um período de certo dinamismo local, marcado pelas comemorações do 4.º Centenário da elevação de Portalegre a Cidade e sede de Diocese. Estes festejos, centrados nos meses de Maio e Junho, tinham acabado de decorrer imediatamente antes do Agosto com que o autor data o seu poema Ronda do Dia.

A década de cinquenta que ali se iniciará corresponde a tempos em que o desenvolvimento urbano atingiu um invulgar ritmo, fazendo crescer a malha citadina para Norte da cidade, sobretudo a partir do Rossio. Os tempos de gestão do presidente da Câmara Manuel Fernandes de Carvalho e do bispo da Diocese Dom Agostinho de Moura deixaram considerável e duradoura obra local construída. Antes de iniciar o passeio pela Rua Direita, apresentemos sumariamente o autor do trabalho que nos vai guiar, o Dr. Roma da Fonseca. Foi médico estomatologista, responsável pelo consultório da especialidade onde trabalhava o odontologista Luz e Silva, personalidade também muito estimada na cidade.

O Dr. Roma da Fonseca, que passava longas temporadas em Portalegre, era um poeta inspirado, com profundo conhecimento do meio e das personalidades locais, sendo dotado de um espírito crítico mordaz e muito observador das peculiaridades indígenas. Como atrás ficou recordado, podemos encontrar algumas obras poéticas da sua autoria nas páginas d’A Rabeca.

Em Almada, onde residia na década de sessenta, registam-se notícias suas, ligadas ao Café Central, que assiduamente frequentava e onde, apesar da avançada idade, partilhava vastos e profundos conhecimentos da excepcional cultura geral que ainda detinha, com estudantes e outros interessados, em públicas palestras de mesa que ficaram célebres.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Cenas da vida lusitana há 50 anos – oitenta e quatro

Completa-se hoje a referência ao mês de Setembro de há cinquenta anos, recolhida do Almanaque da Plateia de 1969.

Como ficou assente na “entrega” anterior, reservou-se para hoje o “dossier” A Nova Vaga de Realizadores. Desde logo, numa espécie de subtítulo, se acrescenta que todo o mundo quer fazer filmes, comentário crítico que desde logo caracteriza o fenómeno da realização cinematográfica da época.

A base do artigo assenta no Festival de Veneza, já há cinquenta anos famoso e considerado. Os nomes citados como autores de primeiras obras quase nada nos dizem, o que pode significar que terão ficado pelo caminho.

Apenas na relação terminal encontramos algumas referências das que ficaram no ouvido, como Dimitri Tiomkin, Robert Benayoun, Sacha Guitry, Rossano Brazzi, Maximilian Schell, Paul Newman, Walter Pidgeon, Rod Steiger, Woody Allen ou Pierre Brasseur, por exemplo.

E voltaremos a encontrar-nos em Outubro.