Sobre mim

Nem sempre tive estas rugas na fachada ou estes buracos no chão.

Noutros tempos, quando os homens falavam, fui vistoso centro da cidade. Fui pausa e pretexto no meio da rua mais movimentada destes sítios, cheia de gente, de sol e de vida. Então, as casas tinham pessoas lá dentro e as calçadas serviam de piso às correrias e brincadeiras dos mais novos, que noutras eras ainda por cá nasciam e cresciam.

Ali ao canto estacionavam os carros de praça, do Bretanha, do João “Pequenino”, do “Ben Bareck” e de outros, que nos levavam para outras bandas mas que sempre nos traziam de volta. No meio do quarteirão que atravessa o largo ficava o Café Central, onde José Régio passou em terna discussão com os amigos mais próximos -Feliciano Falcão, João Tavares, Firmino Crespo, Arsénio da Ressurreição, Adelino Santos- muitas horas da sua gesta portalegrense, enquanto nos seus altos, no Clube, a burguesia endinheirada bebia e jogava até altas horas. E havia também o Banco Ultramarino e lojas de comércio ou pequenas oficinas, quase porta sim, porta sim… A esplanada, na bela calçada sobrevivente, aproveitava alguma sombra do imponente cedro (ou araucária?) que já se foi… Mais recentemente, ocupando o espaço vago pela morte da árvore, por ali passou discretamente, como convém, a peregrina efígie dum monarca de má memória, signatário da nossa carta de alforria, que depois se fixaria perto da Fábrica Real, símbolo crítico dos seus reais erros de governação.  Até este aqui foi, de passagem, meu inquilino…

Mas o maior título de nobre e pública serventia que ostentei foi a Estação dos Correios. Interlocutor quotidiano e  privilegiado de algumas gerações de lagóias, por cá passaram as suas mensagens de luto e de luta, os seus escritos da esperança e do desalento, do amor e da súplica, enfim, as suas alegrias e tristezas, na carta, no postal -simples ou ilustrado-, no telegrama ou aerograma e mesmo no fax, este já mais recente. Por aqui se enviaram e receberam encomendas e sobretudo aconteceram as ligações telefónicas, até as mais urgentes, quando o telemóvel era ainda uma simples utopia de Salgaris ou Vernes por inventar…

Esta é a minha vocação essencial. Ponto de rápida passagem ou de paragens demoradas, pretexto da conversa súbita e de distantes memórias, gerador das notícias do ócio ou da crónica das vulgaridades, o Largo dos Correios lagóia apenas pretende actualizar-se, vestindo a roupagem dos modernos instrumentos comunicacionais. Fez-se blog e saiu para a cidade e para o mundo, rompendo a linha, bem próxima, das nossas muralhas interiores…

23 thoughts on “Sobre mim

    • Caro amigo Martinó, apreciei a sua «reportagem» à Assembléia Geral do CPBD. Também eu, que há décadas que pugno por voltar a que se chame por «Histórias em Quadrinhos» o que fazemos (os que fazem) acho que não é altura de se mudar o nome do Clube. Temos de aproveitar o prestígio alcançado com esse nome, como arremesso para o novo impulso.
      Grato pelo seu apoio. Encontro-me em São Pedro do Sul e só poderei regressar no início de outubro, por isso não estive presente, mas deixei o meu voto declarado por escrito. As siglas tê a sua força própria, e eu próprio encontro-me a pronunciar CNBDI quando me refiro à nova Bedeteca da Amadora que acolheu num novo e melhor Bunker, os 15 mil originais que se encontravam no CNBDI.
      Mas comecei já a nomear esse novo espaço do Bunker como CBDI, ou seja: Casa da Banda Desenhada e Imagem, pois era já assim que eu chamava ultimamente ao Centro de Banda Desenhada e Imagem.
      É um prazer comunicar consigo e pelo menos encontrar-nos-emos no 80º aniversário de O Mosquito.
      Forte abraço
      José Ruy

  1. Sente-se o palpitar da saudade e da meninice lagóia. Na palavra a sombra que se procura no verão, reveladoura de quem é do Alentejo. Este Blog é a expectativa ou a espetativa, (não sei agora como é), mas qualquer das duas será certeza de bom juizo e melhor prosa.

  2. Ótimo trabalho. A personalização do Largo dos Correios permite aguardar muito mais das suas memórias, das certezas e incertezas de agora e das perguntas que há-de fazer mais para a frente.
    Bom gosto e muita dedicação à sua terra natal. Parabéns.
    Embora a um nível muito inferior, também eu me considero um amigo de Portalegre.
    Fico cliente…

  3. Não poderia “passar” sem deixar uma comentário: Excelentes artigos!
    Deixo os meus parabéns e enquanto portalegrense e seguidora das possiveis atualizações ou “desatualizações”, serei certamente uma seguidora.
    Saudações.

  4. Sendo bisneto de Manuel do Camo Peixeiro, gostaria de entrar em contacto consigo, de modo a agradecer-lhe devidamente toda a informação que aqui tem sobre este meu bisavô. Atenciosamente
    Levi Redondo Bolacha

  5. Gostei imenso….sobretudo de ver o famoso “Rato Atómico” Prof. Bentes, o melhor goleador de sempre da Académica de Coimbra, também jogador da Selecção Nacional….se ele hoje jogasse pela Académica esta não estaria quase quase a ….descer. Parabéns pelo blog. Oliveira

  6. “Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha, é única e nenhuma substitui a outra, cada pessoa que passa em nossa vida,passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso. Quem disse isto foi CHARLES CHAPLIN, mas eu roubo-lhe estas palavras porque gosto imenso delas. Estas palavras aplicam-se ao Prof.Martinó, que é nosso é de Portalegre. Um abraço desta portalegrense.

    • A frase citada está mal atribuída a Chaplin, o que, em si, não é grave. Na verdade, é uma das preciosidades de O Principezinho. Esta rectificação é feita com a esperança de que possa despertar em alguns o desejo de ler essa obra prima de Saint-Exupéry

  7. Caro amigo
    Como lhe hei de agradecer as palavras que sobre o meu querido e sempre presente pai escreveu, agora e na altura do seu desaparecimento?
    Nem sei mesmo se, por aqui, estas minhas palavras lhe chegarão… São palavras cheias de gratidão, estima e admiração.
    Obrigada!
    Fernanda Barrocas

  8. Sou seguidor destas cronicas e tenho um interesse particular por Portalegre, onde vivi na minha adolescencia. Gostaria de contacta o autor do blog mas não encontro uma forma de o fazer. Será possivel disponibilizar um endereço de email? Agradecimentos

    • Como este amigo, necessito também, pelo menos, do seu primeiro e último nome. Qualquer artigo tem autor que deontologicamente se deve referenciar. Cheguei até à sua fonte quando procurava dados sobre Manoel do Carmo Peixeiro (1893-1964). Permitiu-me acessos que me levariam tempos e demandas infindáveis. Servi-me desses dados, bem documentados, para um trabalho académico. Preciso de referenciar as fontes, para isso coloquei apenas o endereço deste blog… Gostava, devia e merecia ter o nome do autor.
      Saúdo-o. Um trabalho solidário. Bem haja.
      dora

  9. Rômulo Marinho – 02 de julho de 2014
    Prezado escritor: parabéns pelo seu erudito artigo com citação do meu nome. O que muito me honrou. No respeita ao palíndromo de SATOR, o melhor estudo que li sobre o mesmo foi do escritor brasileiro João Ribeiro (Colméia – Edição Monteiro Lobato & Cia., 1923) no qual ele disseca, literalmente, as origens das palavras e conclui que se trata tão-somente de um jogo onomástico em torno de uma versão dos nomes Reis Magos. Melhores detalhes sobre o assunto você poderá lê-los no meu Blog PALINDROMANIA/BR-DF,
    ( http://palindromagia.blogspot.com.br/) que lancei recentemente. Ficaria feliz com sua opinião. Cordiais saudações. Rômulo Marinho. rtmdf@terra.com.br

  10. Parabéns e obrigada por este “cantinho” que afaga a nostalgia e saudade de uma terra outrora fervilhante….a nossa Portalegre.
    Foi por acaso que o descobri, ao ler um artigo sobre P. Patrão e perdi-me no tempo a ler as suas crónicas. Fui aluna de ambos e agora sou eu a professora que espera “acordar” os seus alunos.
    Voltarei por cá…
    saudações
    Telma Caroço

  11. O Prof. António Martinó de Azevedo é um excelente prosador e tudo o que escreve se lê com muito agrado.
    Porque não tenho Direcção nem telf: aproveitava para lhe enviar “Os meus sentidos pêsames” pelo Falecimento da Exmª Esposa Profª D. Adrilete.

  12. Caro Sr. António Coutinho,
    como músico agradeço desde já o seu inestimável contributo para a historiografia musical e militar portuguesa, que sigo desde a publicação do livro sobre o seu avô.
    Sou professor na Escola Superior de Música de Lisboa e músico da Banda Sinfónica do Exército, onde na sua revista anual e noutros fóruns de debate tenho abordado personalidades que pelo seu percurso nos dão testemunho fundamental para o conhecimento desta nossa área.
    Assim sendo, mais uma vez irei apresentar uma comunicação sobre José Cândido Martinó no Colóquio sobre Bandas a realizar na Universidade Nova de Lisboa na próxima semana, na qual em muito enriquece este seu blog onde continua a complementar informação, com documentos preciosos sobre o músico militar que atravessa um período tão diversificado da nossa história.
    Exorto-o assim a prosseguir na salvaguarda, tratamento e divulgação desse material que merece certamente um olhar institucional mais atento e eventualmente a figurar por exemplo na secção de música da Biblioteca Nacional, numa Faculdade de Musicologia (UNova), no Exército, etc, para permitir o aprofundamento do seu estudo numa área cada vez mais aliciante aos investigadores e de que o seu avô se revela um testemunho único e riquíssimo no panorama português.

    Sinceros cumprimentos,
    Luís Correia

    PS – Deixo-lhe o convite para quando quiser terei muito gosto em recebê-lo na visita à Banda Sinfónica do Exército – quartel em Queluz frente ao Palácio.

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