A Banda Desenhada vista por Carlos Gonçalves – 19

AS AVENTURAS DE BUFFALO BILL E A SUA REVISTA BRASILEIRA – I

William Frederick Cody nasceu em 26 de Fevereiro de 1846 e veio a morrer a 10 de Janeiro de 1917… estando passados cem anos da sua morte e no espirito daqueles que sempre gostaram de aventuras de “cow-boys”, independentemente da sua lenda e da veracidade das suas aventuras, seria uma personagem inesquecível. Várias são as de Banda Desenhada ligadas ao western que povoaram a nossa imaginação, ao longo da nossa vida, algumas mais importantes do que outras, como será o caso de Hopalong Cassidy, Gene Autry, Lone Ranger, Red Ryder, Roy Rogers, Kit Carson, Cisco Kid, Texas Jack e, principalmente, Buffalo Bill.

Ao olharmos para esta foto, onde o próprio Buffalo Bill, em carne e osso, posa para a fotografia, chegamos quase a duvidar, que este seja o homem cuja lenda lhe atribui vários feitos heroicos, onde na maior parte das histórias aos quadradinhos encontramo-lo a lutar com os índios seus inimigos figadais. Mas recordamos também que quando somos mais novos, os nossos objectivos, crenças e determinação não são muitas vezes as mesmas, de quando somos mais velhos. Provavelmente não seria de sua vontade, ter sido um exterminador da vida selvagem, ao reconsiderar o que tinha feito na sua juventude. Se calhar a lenda também o coloca num lugar cimeiro, sem que ele se tenha esforçado para tal. No que respeita ao western haverá sempre muitas dúvidas, sobre os feitos de toda estas figuras, algumas delas quase que saídas do folclore norte-americano.

Ainda muito novo, Cody seria condutor de diligências, mensageiro da Ponny Express (transportava correio), acabou a trabalhar para uma companhia ferroviária ao fornecer carne para os operários. Foi então quando alcançaria a sua alcunha de “Buffalo Bill”, ao caçar búfalos, matando-os em enormes quantidades (principal fonte de alimento dos índios… como tal há que matar o maior número de animais, para ajudar a dizimar à fome a população indígena). Na época eram instituídos concursos entre caçadores, para ver qual mataria o maior número de animais e foi assim que o nosso “herói” granjeou a popularidade. Não havia necessidade de matar em excesso, pois mais tarde já haveria dificuldade em encontrar manadas suficientes para dar azo a novas carnificinas.

Mais tarde Cody seria contratado pela cavalaria americana, como batedor do exército (1868-1872). Entretanto serão publicados vários folhetins com as suas aventuras, escritas e inventadas na sua maior parte, por escritores da época. Chega a participar numa peça de teatro, com imenso sucesso. No entanto, face ao desemprego, em 1873 resolve dedicar-se ao entretenimento fundando a sua companhia que, por sua vez, anos depois, seria transformada num espectáculo circense, em que os espectadores assistem a duelos entre cow-boys, simulação de ataques dos índios (também contratados), atiradores de grande pontaria que demonstram as suas habilidades, ele inclusive e mais uma série de personagens que irão fazer parte do espectáculo que chegará a deslocar-se a Inglaterra, devido ao seu sucesso, onde chegaria a fazer um espectáculo para a rainha. Apesar da fama e do êxito, e de ter até essa altura amealhado algum dinheiro, que não soube administrar, começou a ver-se na penúria, pelo que a solução encontrada foi passar a beber. Com a bebida a sua habilidade e pontaria com os revólveres decaíram de tal modo, que a multidão até aí fiel passou a deixar de se interessar pela nossa personagem dando-se o colapso total, a amargura e o desespero.

Buffalo Bill chegou a interpretar a sua figura em um dos trinta e cinco filmes que foram realizados. Mas o maior êxito seria realmente na Banda Desenhada, onde as suas aventuras chegaram a atingir mais de uma centena de títulos curiosamente no Brasil. As aventuras de “Buffalo Bill” foram desenhadas por Fred Meagher para os jornais, desde 14/8/50 até 28/7/56. Nestas aventuras a nossa personagem lutava lado a lado com “Blue Bird”, uma índia. Ainda que as capas tivessem a arte de vários desenhadores brasileiros, a sua qualidade gráfica manteve-se boa, pelo menos ao principio, até que deixam de ter brilho, o que lhes reduz um pouco o impacto das cores bastante vivas.

A REVISTA BUFFALO BILL NO BRASIL

As capas da revista “Buffalo Bill”, que a editora Rio Gráfica publica a partir de Novembro-Dezembro de 1954, são desenhadas por Lutz (Luis Fernando Guimarães), Gutenberg, Walmir Amaral, Milton Sardella,  etc.. O formato é o A4, depois elimina o brilho da capa a partir do seu nº. 47 e de formato para mais pequeno, a partir do seu nº. 69. A partir do nº. 83, volta ao formato inicial, mas o brilho será esquecido. Conhecemos uma edição extra com 68 páginas, mas sem data. Saíram mais os Almanaques desde 1956 a 1964. O último número que se fala é o 99…

Mas lembramos que a primeira aparição da personagem no Brasil se deu na revista “Novo O Globo Juvenil” a partir de 1950 e também no “Novo Gibí” a partir de 1951 e mais tarde, no respectivo almanaque “Gibi” de 1955 e 1964. A partir daqui esta personagem aparecerá esporadicamente em outras publicações: “Biriba Mensal” (1952), “Gibi Mensal” (1954), “Coleção Bang Bang” (1961), “Almanaque Heróis do Faroeste” (1967), “Almanaque dos Heróis do Oeste” (1968), “Cavaleiro Negro” nº. 206 (1969), “Bufalo Bill” nº1 (M&C) – 1972, “Almanaque do Far West” nº. 1(1975), “Álbum Bufalo Bill 1/4 – Ebal (1974), “Almanaque Reis do Faroeste” – Ebal (1979), “Gibi de Ouro” nº 3 – RGE (1985,“Aí, Mocinho” nº. 2 (1986), etc.. Haverá por certo mais material espalhado por várias revistas, inclusive da autoria de desenhadores brasileiros, mas a nossa intenção foi destacar o material publicado pela Rio Gráfica.

Carlos Gonçalves

A Banda Desenhada vista por Carlos Gonçalves – 18

ROY ROGERS e DALE EVANS – II
ROY ROGERS, O REI DOS COWBOYS

Relação de Revista Portuguesas com Aventuras de Roy Rogers

As informações respeitantes às revistas portuguesas onde as aventuras de Roy Rogers seriam publicadas foram fornecidas pelo coleccionador Joaquim Talhé.

            Publicação Portuguesa   Números      Nome das aventuras

            Mundo de Aventuras      34 a 44         sem título (incompleta)
            Mundo de Aventuras      71 a 83         Contra o Túnica Branca
            Mundo de Aventuras      86 a 97         O Caso das Diligências
            Mundo de Aventuras      105 a 115     Os Planos de Crucho Stone
            Mundo de Aventuras      136 a 144     Ladrões de Gado
            Mundo de Aventuras      172 a 180     O Velho que Amava as Árvores
            Mundo de Aventuras      196 a 205     O Mistério da Cidade Perdida
            Mundo de Aventuras      223 a 226     O Gaúcho
            Mundo de Aventuras      240 a 244     sem título
            Mundo de Aventuras      293 a 308     O Tesoiro de Midas
            Mundo de Aventuras      331 a 342     O Regresso de Zopilote
            Mundo de Aventuras      375 a 383     Punhos e Pistolas
            Mundo de Aventuras      425 a 435     Roubaram o Gatil
            Mundo de Aventuras      462               O Invento do Professor Willis
            Colecção Audácia vol.II  51 a 57         O Roubo Misterioso
            Colecção Audácia vol.III  1 a 29         O Ladrão Fantasma
            Condor Popular vol.III   7                   A Fuga de Golondrina
            Condor Popular vol.V    5                   O Elixir Mágico
            Condor Popular vol.VI   5                   Justiça
            Condor Popular vol.VIII                     10   Casas de Prata
            Condor Popular vol.XII 3                   Falsa Acusação
            Condor Popular vol.XIII                     1     A Cidade Abandonada
            Condor Popular vol.XX 5                   sem nome
            Colecção Tigre             38                 O Segredo da Mina Abandonada

DALE EVANS, UMA MULHER DE ARMAS

Dale Evans nasceu em Uvalde, no Texas, em 31 de Outubro de 1912. Depois de uma infância um pouco atribulada, com mudanças de nome inclusive, viria a casar-se bem cedo e a divorciar-se pouco depois, em 1929. Deste casamento teve o seu primeiro filho, Thomas Fox Jr. Por esta altura resolve mudar mais uma vez de nome, desta vez para Dale Evans, e inicia a sua carreira a cantar e a tocar piano em algumas rádios locais, depois de ter mudado de cidade, desta vez Memphis, em Tennessee. A sua carreira rapidamente se expande, ao fazer parte de uma banda e acabando por fazer um teste cinematográfico para a 20th Century Fox. Em 1942 entra em dois filmes: Wives Orquestra e Girl Trouble. A partir de 1944 entra em vários filmes com Roy Rogers. Ao mesmo tempo os seus casamentos vão-se multiplicando sem sucesso. Os anos passam e em 1946 estão os dois apaixonados. Entretanto a mulher de Roy Rogers morre e um ano depois estava casada com ele e desta vez parecia que tinha acertado, depois de 3 casamentos frustrados. O seu matrimónio manter-se-ia em cumplicidade e como um par de sucesso. Esta simbiose duraria até 1998, ano em que Roy Rogers morre. Embora não tenha sido uma vida de felicidade total, já que três dos seus filhos morreriam, as suas duas carreiras mantiveram-se auspiciosas. Calcula-se que ambos tenham gravado cerca de mil canções entre 1934 e 1996. A capacidade de criar canções de Dale Evans era extraordinária, já que tem casos em que consegue escrever uma canção em 20 minutos e os seus palmarés de sucesso, incluindo Roy Rogers, foram dos mais significativos no campo da música do género.

Roy Rogers tinha três filhos do casamento anterior, Cheryl, Linda Lou e Dusty, e adoptaram durante a sua vida matrimonial mais 4 filhos, Dodie, Marion, Deborah Lee (que morreu aos 12 anos num acidente com um autocarro) e John David (que morreu também num acidente no exército na Alemanha). Tiveram uma filha os dois, chamada Robin, que nasceria com Síndrome de Down e morreria aos dois anos de idade. De 1951 a 1957, Roy Rogers e Dale Evans foram figuras principais de uma série de televisão intitulada The Roy Rogers Show, cujo sucesso seria imediato. Ao mesmo tempo Dale participará em cerca de 28 filmes e escreverá cerca de 200 canções. As que ambos gravaram não foram todas escritas por Dale Evans. Em 1962 voltam à televisão com The Roy Rogers and Dale Evans Show, mas a série duraria unicamente três meses. Nos anos 90 e refugiada na religião, Dale acabará por aparecer no seu próprio programa de televisão, versando temas religiosos. Acabará por falecer de insuficiência cardíaca a 7 de Fevereiro de 2001, tal como já tinha acontecido ao seu marido.

DALE EVANS E OS COMIC BOOKS

Face ao seu sucesso no cinema, nada mais natural que a sua figura fosse aproveitada para uma personagem de História em Quadrinhos, mais a mais sendo mulher e movimentando-se num campo em que normalmente era dos homens. O próprio marido era conhecido como o “Rei dos Cowboys” e na altura o Cinema abordava todas as figuras que se destacassem no campo do far west. Os espectadores acotovelavam-se para assistir a novas personagens e ainda mais quando os filmes eram acompanhados de canções brejeiras. Algumas delas acabariam por ficar no ouvido.

A sua primeira aparição nas Histórias em Quadrinhos data de Setembro de 1948. Será publicada uma colecção de 24 números com o título de Queen of the Westerns – Dale Evans Comics desde Setembro/Outubro de 1948 a Julho/Agosto de 1952. Segundo dizem, algumas destas histórias seriam escritas por si. Os desenhos eram de Susie Day, Ray Burnley (só tinta) e James McArdle. Alguma das capas onde Dale não aparece na foto eram desenhadas por este artista.

Queen of the Westerns – Dale Evans Comics (DC) nºs 1 (set/out/1948), 2 (nov/dez/1948), 15 (jan/fev/1951) e 20 (nov/dez/1951), Four Color (Dell) nºs 479 (jul/1953) e 528 (jan/1954)

Queen of theWest Dale Evans (Dell) nºs 3 (abr/jun/1954) e 22 (jan/mar/1959), Western Roundup (Dell) nº 11 (jul/set/1955)

Em Julho de 1953, Dale Evans irá aparecer pela Dell na colecção Four Color nº 479 e durante 22 números até Janeiro/Março de 1959 (a partir do nº 3 em título próprio). Novas personagens aparecerão nas aventuras, para dar maior realidade aos argumentos, tais como Pat Brady e o seu jeep, o cão Bullet, o cavalo Buttermilk, e Dale como dona de um café/bar em Mineral City, exactamente como acontecia na série de televisão. Ainda de 1955 a 1958, a Dell lançaria uma colecção chamada Western Roundup, onde publicaria aventuras da nossa personagem, juntamente com Roy Rogers, Gene Autry, Rex Allen, Johnny Mack Brown, Bill Elliot e Range Ryder. Cada exemplar teria 132 páginas e seriam publicados 25 números. Dale Evans aparece somente a partir do nº 11.

OS DESENHADORES DA SÉRIE

Os primeiros desenhadores das aventuras de Dale Evans foram Hi Mankin (1926-1978) e Russ Manning (1929-1981), ambos desaparecidos prematuramente. Depois surgiram outros: Jesse Marsh (1907-1966), Nat Edson (1909-2001), Mike Arens (1915-1976), Nicholas Firfires (1917-1990), John Ushler, Dan Spiegle e Warren Tufts (1925-1982). Todos estes artistas dominavam a arte de desenhar cenas do Oeste de uma forma invulgar, embora todos eles, de uma maneira geral, tivessem também dedicado a sua arte a outras personagens. Este último criaria duas personagens de grande sucesso, Casey Ruggles e Lance, esta última série de grande impacto visual e gráfico. Quanto a Mankin, desenhou também Roy Rogers, acabando por mais tarde trabalhar para a Hanna-Barbera. Russ Manning é um caso excepcional como desenhador pois várias foram as personagens a que deu vida ou continuidade, como Roy Rogers, Wyatt Earp, Gene Autry, Rawhide, Rex Allen e Tarzan, que atingiria tanto ou maior sucesso na altura em que o desenhou, ultrapassando Jesse Marsh, John Celardo e até Hogarth, quando se ocuparam da criação das aventuras do Homem da Selva. Jesse Marsh foi um dos mais prolíferos desenhadores de Tarzan, trabalhou para a Walt Disney para uma série de adaptações dos filmes de longa metragem, como o caso das 20.000 Léguas Submarinas, Rob Roy, A Espada e a Rosa, Robin dos Bosques, etc. Também desenhou algumas histórias de Gene Autry. Arens e Ushler desenharam trabalhos para a Disney e este último também se ocupou de Roy Rogers. Finalmente, Dan Spiegle viria a atingir um grande êxito com a sua personagem Hopalong Cassidy.

Artes de Hi Mankin e Russ Manning

DALE EVANS NO BRASIL

Dale Evans aparece no Brasil pela primeira vez no nº 43 da colecção Cowboy Romântico, datado de Janeiro de 1959 e publicado pela Ebal. Curiosamente as suas histórias reportam-se à 2ª fase dos comic books, com o bar/café e o cão Bullet, o cavalo Buttermilk e o Pat com o seu jeep.

Cowboy Romântico (Ebal) nºs 43 (jan/1959), 49 (jul/1959) e 51 (set/1959)

Os enredos têm o seu interesse, admitindo-se que em 16 páginas é difícil criar melhor: uma falsa identidade feminina será descoberta e Bullet tem o seu papel importante na captura do criminoso cúmplice da trama; um assalto ao café/bar resulta na descoberta de um tio charlatão e criminoso, de um jovem amigo de nossa heroína; uma pequena cadela ajuda a prender um bandido; um corvo amestrado é uma das figuras principais de um dos argumentos; numa história mais comprida e com 32 páginas, assistimos a uma das muitas façanhas de Dale, laçar um carro pelo espelho retrovisor exterior do lado direito e com a ajuda de um moço amigo, prender a corda a uma árvore e fazer com que os ladrões, a fugirem nessa viatura, acabassem por se despistar. Esta é uma das coisas deliciosas que as Histórias em Quadrinhos nos oferecem… muita fantasia e que nunca nos falte, pois hoje quando vemos no Cinema o Bruce Willis, que com um automóvel consegue atingir e destruir um helicóptero em pleno ar e sair ileso, já nada nos surpreende.

As histórias de Dale Evans foram publicadas nos nºs 43 (janeiro de 1959) ao 69 (março de 1961). Todas estas capas conseguiam fascinar os jovens leitores, e por certo, também algumas leitoras se entusiasmaram com a sua leitura. Outras das suas histórias seriam igualmente publicadas em Almanaque de Reis do Faroeste de 1960 a 1963.

Cowboy Romântico (Ebal) nº 69 (mar/1961),
Almanaque de Reis do Faroeste 1960 (Ebal),
Roy Rogers e o Trigger (APR) nº 13 (jul/1973)

DALE EVANS EM PORTUGAL

Enquanto Roy Rogers teria uma colecção com o seu nome publicada em Portugal, pela Agência Portuguesa de Revistas e que duraria 107 números, Dale Evans passou despercebida. Só marcaria presença com as suas aventuras, ao aparecer pela primeira vez no nº 13 da revista do seu marido e durante muito pouco tempo, cerca de 10 números. Estávamos em 1973. Só depois quase no fim da mesma colecção, voltaria em dois números 10 anos depois. As histórias eram desenhadas por Russ Manning, o que seria uma excelente escolha por parte do editor da publicação.

Carlos Gonçalves

A Banda Desenhada vista por Carlos Gonçalves – 17

ROY ROGERS e DALE EVANS – I
ROY ROGERS, O REI DOS COWBOYS

Leonard Franklin Slye nasce a 5 de Novembro de 1911 em Cincinnatti, Ohio, e veio a falecer a 6 de Julho de 1998 com 86 anos e com o nome de Roy Rogers, em Apple Valley na Califórnia. Foi casado com Lucile Ascolese, Arline Wilkins e Dale Evans. Com Dale Evans esteve casado 51 anos. Para ele seria o seu terceiro casamento e para Dale o quarto.

Ainda novo começou a tocar guitarra e cantar e ocasionalmente fê-lo na casa de sua irmã Mary, quando ela sugeriu que tentasse o programa de rádio Midnight Frolic, que divulgava cantores jovens, mas com talento. Embora Roy estivesse relutante, Mary finalmente convenceu-o a participar no programa. Algumas noites mais tarde, vestindo uma camisa ocidental que sua irmã tinha feito para ele, Roy superou sua timidez e apareceu no programa, onde cantou e tocou a guitarra. Anos mais tarde, Roy disse que estava tão nervoso quando chegou ao microfone, que depois nunca mais conseguiu lembrar-se das canções que cantou naquela noite. Alguns dias depois recebeu um telefonema a perguntar se ele gostaria de se juntar a um grupo de música country local chamado The Rocky Mountaineers. Apesar de sua timidez, Roy estava sempre disposto a aproveitar qualquer oportunidade que surgisse em seu caminho, pelo que aceitou a oferta do grupo e tornou-se um membro da banda em Agosto de 1931. Depois de alguns reveses na sua vida artística, Roy casou-se com Lucile Ascolese. Só três anos depois é que o seu trabalho alcançou o sucesso merecido, depois de ter contratado outros membros para o trio, que mudaria de nome para Trio Pioneer. O ter aparecido a cantar num filme de Gene Autry como figurante, permitiu-lhe ingressar no Cinema e obter um contrato de sete anos com a produtora Republic Pictures.

Mais tarde, ao escolher um cavalo para o acompanhar nos filmes com o nome de Trigger, estavam lançados os dados para que se tornasse uma grande estrela do Cinema. Em 1936, depois de três anos de casado, separou-se de sua primeira mulher e casa-se com Arline Wilkins. Novas canções e novos espectáculos. Por esta altura, Roy e Arline estavam casados há quatro anos, mas não tinham tido filhos. Enquanto Roy estava em Dallas em digressão, Arline visitou um orfanato no Texas. Pouco tempo depois, Roy e Arline levaram uma criança de quatro meses, Cheryl Darlene, como sua filha adoptiva. Três anos mais tarde, Arline deu à luz uma filha, baptizada como Linda Lou.

Roy sempre se mostrou orgulhoso do facto de que o seu cavalo Trigger, ao longo de seus mais de 80 filmes, e dos 101 episódios de sua série de televisão, além de inúmeras aparições pessoais, nunca ter caído.

Em 1944 Roy tinha sido o artista principal em 39 filmes e tinha trabalhado com muitas artistas de renome. Mas a química entre Roy e Dale foi evidente para todos desde o início, em que contracenaram no primeiro filme. Poucas mulheres haviam deixado a sua marca nos westerns antes de Dale Evans. Ela era uma óptima cantora e bonita. Na altura, a Republic tinha Roy Rogers (o rei dos cowboys), Trigger (o cavalo mais inteligente do Cinema), Gabby Hayes (o companheiro mais cómico), The Pioneers (o melhor grupo a cantar), e Dale Evans. O sucesso estava garantido. Mas o inesperado acontece. Arline morre ao ter um filho chamado Dusty, em Outubro de 1946. Roy viu-se sozinho com três filhos. Um ano depois estava casado com Dale Evans.

No início da década de 1950, a televisão tornou-se a maior indústria de entretenimento. Os estúdios de Cinema estavam assustados, enquanto a televisão começava a contar os lucros. Roy rescindiu o contrato que tinha e foi para a Paramount Pictures. Ao mesmo tempo, ele e Dale estavam a preparar a sua série de televisão, The Roy Rogers Show, que estreou na NBC em 30 de Dezembro de 1951 e que rapidamente se tornaria no espectáculo de domingo à noite, para milhões de famílias americanas.

Em Agosto de 1950, Roy e Dale tornaram-se pais de uma bela filha loira a que chamaram Robin Elizabeth. Poucos dias depois de seu nascimento, a criança foi diagnosticada com Síndrome de Down. Robin morreu pouco antes de seu segundo aniversário.

Durante o resto de sua vida, Roy adoptou mais 4 filhos, Dodie, Marion, Deborah Lee e John David (os dois últimos morreriam em vida dos seus pais, ela num acidente com um autocarro escolar, quando ainda tinha só 12 anos e o filho durante o sono, no exército e quando se encontrava na Alemanha).

Roy Rogers foi um homem que realmente não mudou ao longo dos anos. Mesmo ao tornar-se um herói para três gerações de crianças e adultos do mundo, continuou a ser o mesmo humilde e sempre sorridente Roy dos filmes e das capas dos comic books. Os seus sucessos como artista e cantor mantiveram-se ao longo dos anos. A vida do casal foi feliz, já que ambos acabariam por viver em comum, com carreiras importantes como artistas, não só no Cinema como na canção. Tal seria também uma compensação, depois do fracasso dos casamentos anteriores. O seu cavalo Trigger, que ajudaria Roy a atingir o êxito nos seus filmes, morreu em 1965, com 33 anos de idade.

ROY ROGERS NOS COMIC BOOKS

Face ao sucesso de Roy Rogers como artista de Cinema ligado ao western, a sua figura seria rapidamente adoptada para as Histórias em Quadrinhos, assim como mais tarde o seu cavalo Trigger, que também teria revista própria com as suas aventuras. A primeira aparição de Roy como personagem neste campo dá-se nos comic books, como era usual acontecer.

No entanto, lembramos que a aparição nos jornais de Roy Rogers como personagem de ficção surge em Dezembro de 1949 e como se fossem os irmãos Tom “Al” Mckimson e Charles (Chuck) os autores dos desenhos. Mas tal facto não é verdade, já que ambos eram donos de um estúdio/editora, o Western Publishing, e tinham como colaboradores os artistas John Ushler, Pete Alvarado, Mike Arens, Hi Mankin e Alex Toth, autores dos traços da personagem. Os textos pertenciam, sim, a Tom Mckimson e Al Stoffel. Outros argumentistas da série seriam mais Phil Evans e Carl Fallberg.

Four Color (Dell) nº 38 (mar/1944), March of Comics (Western) nºs 17 e 35 (~1948)

A sua estreia, ainda a auscultar o mercado, dá-se em Março de 1944 na colecção da Dell, Four Color, no nº 38. Depois e até Dezembro de 1947, as suas aventuras sairão em 12 números salteados da colecção, à média de 4 revistas por ano. Em 1948 tem aparições na colecção March of Comics, da Western Publishing, a partir do nº 17.

Mas a partir de Janeiro de 1948 e também pela Dell, passa a ter revista própria que dura até 1961, com 145 títulos publicados (a revista passa a se chamar Roy Rogers and Trigger no nº 92 de agosto de 1955). A partir de Junho de 1952, Roy Rogers irá aparecer também na colecção Western Roundup nos nºs 1 ao 25 (janeiro de 1959).

Roy Rogers Comics (Dell) nºs 1 (jan/1948) e 60 (dez/1952), Roy Rogers and Trigger (Dell) nºs 92 (ago/1955) e 133 (set/out/1959), Western Roundup (Dell) nº 1 (jun/1952), Four Color (Dell) nº 329 (mai/1951)

Hoje torna-se difícil destacar um ou outro desenhador que se tenha ocupado da série, pois muitas vezes os trabalhos não se encontravam assinados, dificultando a identificação. Mas sabemos os seus nomes: Albert Micale, Ray Ramsey, John Buscema, Sal Buscema, Leo Rawlings, Jesse Marsh, Nat Edson, Till Goodan, Bill Zeigler, Nicholas Firfires, Henry Vallely e Erwin L. Hess. Nessa época o seu argumentista será Gaylord DuBois. Quanto ao cavalo Trigger, teve revista com seu nome em Maio de 1951 (Four Color nº 329), outra em Novembro de 1951 (já como título independente) e a partir de Dezembro desse ano até Junho de 1955, mais 15 edições, totalizando 17 aparições.

Artes de Mike Arens e John Ushler

Não foi só Trigger a ter direito a aventuras suas nos comic books. Outros cavalos viriam também a ter esse privilégio, já que eram igualmente quase tão célebres como seus donos. Seria o caso de Champion, o cavalo de Gene Autry, e Silver, o de Lone Ranger. Como curiosidade lembramos que foram vendidos em Portugal, cavalos de brinquedo do Silver e do Scout, o cavalo do índio Tonto, companheiro do Lone Ranger (Mascarilha). Mas não estava esgotado o filão “Roy Rogers”, pois durante o período áureo das revistas, em meados dos anos 50, algumas delas chegaram a ter tiragens na ordem dos 2 milhões e mais por número. Tal verificava-se também pelas excelentes fotografias muito bem cuidadas e onde a nossa personagem aparecia normalmente, com fatos de cowboys imaculados e reluzentes. Durante todo esse período, a revista March of Comics continuou publicando Roy Rogers, até seu nº 250, de 1963, totalizando 25 edições. A editora passou a ser a Gold Key. Depois de mais alguns anos no esquecimento, Roy Rogers volta de novo em edições saudosistas. O sucesso seria nulo. O período dos cowboys tinha passado.

ROY ROGERS NAS HQS NO BRASIL

A personagem Roy Rogers surge pela primeira vez no Brasil, na revista Novo Gibi nº 1756, datado de 1951. Volta a surgir no nº 1779, pouco tempo depois. Será a Ebal a lançar o primeiro número da revista deste herói, a partir de Abril de 1952. Tal irá ter continuidade até ao nº 100, com data de Abril de 1960. Esta sequência de numeração nada terá a ver com a sua publicação original. Alguns números possuem capas do Trigger e a partir do nº 70 o título de algumas das edições tem o nome de Roy Rogers e Trigger. A 2ª série com 44 números surge em Maio do mesmo ano e acaba em Dezembro de 1963. A 3ª série (cujo nº 1 por lapso diz 2ª série) seria mais pequena, aparecendo em Janeiro de 1966 e terminando no nº 19 em Julho de 1967. A 4ª série terá mais edições, surgindo em Março de 1973 e terminando em Outubro de 1975, com 32 números. Finalmente há um número especial datado de 1956 dedicado ao Roy Rogers e outro em 1975 dedicado ao Trigger. Estava pois percorrido um longo caminho e com um número razoável de revistas publicadas, quase 200 edições.

Roy Rogers (Ebal) nºs 1 (1ª série/abr/1952), 1 (2ª série/mai/1960)
e 1 (3ª série/jan/1966)

ROY ROGERS EM PORTUGAL

Roy Rogers foi das poucas personagens que em Portugal conseguiram não só ter uma revista com o seu nome, como algumas das suas aventuras em tira e prancha, serem apresentadas, numa relativa variedade de publicações. O seu nome seria aportuguesado para o de Roque Texas, mercê de ter sido publicado em finais de 1950 o regulamento Instruções sobre a Literatura Infantil, que assim o exigia. A primeira revista a apresentar esta personagem seria o Mundo de Aventuras, quase no seu início e a partir do nº 34 (finais de 1949) em tira e depois continuaria ao longo da existência da publicação, terminando no seu nº 462 (1953) também em prancha. Continuará a ser apresentado, mas desta vez na revista Audácia volume II nºs 51 e seguintes e no terceiro ano também, com uma nova aventura. Depois irá aparecer de novo na revista Condor Popular volume II nº 7 e terá mais algumas aventuras nos volumes seguintes. Finalmente aparece na Colecção Tigre nº 38. Isto tudo publicado nos anos 50 e com a assinatura do Estúdio de Tom “Al” Mckimson. Os leitores portugueses só voltarão a ter acesso às aventuras de Roy Rogers na revista com o seu nome em Janeiro de 1972 (nº 1), que se manteria nas bancas até ao seu nº 107 (1983). As aventuras publicadas nesta revista eram originais dos comic books norte-americanos e as capas retiradas também dessas edições.

Mundo de Aventuras nº 109 (13/9/1951), Roy Rogers e o Trigger (APR)
nºs 1 (jan/1972) e 14 (ago/1973)

Carlos Gonçalves