Portugal visto com olhos de ver…

O texto seguinte foi-me transmitido por um amigo. Como sempre procuro fazer, pesquisei a sua origem e outros dados alusivos.
Assim, foi possível confirmar-lhe a origem e, embora com uns meses de atraso na sua divulgação, o seu conteúdo afigurou-se interessante de modo a justificar a partilha. Esta visão terna, poética e ao mesmo tempo realista e lisonjeira que uma irmã brasileira tem sobre nós merece ser conhecida.

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 Crónica
Coisas que o mundo inteiro deveria aprender com Portugal

Portugal é um país muito mais equilibrado do que a média e é muito maior do que parece. Acho que o mundo seria melhor se fosse um pouquinho mais parecido com Portugal.

Dentre as coisas que mais detesto, duas podem ser destacadas: ingratidão e pessimismo. Sou incuravelmente grata e optimista e, comemorando quase 2 anos em Lisboa, sinto que devo a Portugal o reconhecimento de coisas incríveis que existem aqui- embora pareça-me que muitos nem percebam.

Não estou dizendo que Portugal seja perfeito. Nenhum lugar é. Nem os portugueses são, nem os brasileiros, nem os alemães, nem ninguém. Mas para olharmos defeitos e pontos negativos basta abrir qualquer jornal, como fazemos diariamente. Mas acredito que Portugal tenha certas características nas quais o mundo inteiro deveria inspirar-se.

Para começo de conversa, o mundo deveria aprender a cozinhar com os portugueses. Os franceses aprenderiam que aqueles pratos com porções minúsculas não alegram ninguém. Os alemães descobririam outros acompanhamentos além da batata. Os ingleses aprenderiam tudo do zero. Bacalhau e pastel de nata? Não. Estamos falando de muito mais. Arroz de pato, arroz de polvo, alheira, peixe fresco grelhado, ameijoas, plumas de porco preto, grelos salteados, arroz de tomate, baba de camelo, arroz doce, bolo de bolacha, ovos moles.

Mais do que isso, o mundo deveria aprender a relacionar-se com a terra como os portugueses se relacionam. Conhecer a época das cerejas, das castanhas e da vindima. Saber que o porco é alentejano, que o vinho é do Douro. Talvez o pequeno território permita que os portugueses conheçam melhor o trajecto dos alimentos até a sua mesa, diferente do que ocorre, por exemplo, no Brasil.

O mundo deveria saber ligar a terra à família e à história como os portugueses. A história da quinta do avô, as origens trasmontanas da família, as receitas típicas da aldeia onde nasceu a avó. O mundo não deveria deixar o passado escoar tão rapidamente por entre os dedos. E se alguns dizem que Portugal vive do passado, eu tenho certeza de que é isso o que os faz ter raízes tão fundas e fortes.24-05b431_671ee6fbfc1d49f19ac537940b77010d

O mundo deveria ter o balanço entre a rigidez e a afecto que têm os portugueses.

De nada adiantam a simpatia e o carisma brasileiros se eles nos impedem de agir com a seriedade e a firmeza que determinados assuntos exigem. O deputado Jair Bolsonaro, que defende ideias piores que as de Donald Trump, emergiu como piada e hoje fortalece-se como descuido no nosso cenário político. Nem Bolsonaro nem Trump passariam em Portugal. Os portugueses -de direita ou de esquerda- não riem desse tipo de figura, nem permitem que elas floresçam.

Ao mesmo tempo, de nada adianta o rigor japonês que acaba em suicídio, nem a frieza nórdica que resulta na ausência de vínculos. Os portugueses são dos poucos povos que sabem dosar rigidez e afecto, acidez e doçura, buscando sempre a medida correcta de cada elemento, ainda que de forma inconsciente.

Todo o país do mundo deveria ter uma data como o 25 de Abril para celebrar. Se o Brasil tivesse definido uma data para celebrar o fim da ditadura, talvez não observássemos com tanta dor a fragilidade da nossa democracia. Todo país deveria fixar o que é passado e o que é futuro através de datas como essa.

Todo o idioma deveria carregar afecto nas palavras corriqueiras como o português de Portugal carrega. Gosto de ser chamada de miúda. Gosto de ver os meninos brincando e ouvir seus pais chama-los carinhosamente de putos. Gosto do uso constante de diminutivos. Gosto de ouvir “magoei-te?” quando alguém pisa o meu pé. Gosto do uso das palavras de forma doce.

O mundo deveria aprender a ter modéstia como os portugueses -embora os portugueses devessem ter mais orgulho desse país do que costumam ter. Portugal usa as suas melhores características para aproximar as pessoas, não para afastá-las. A arrogância, que impera em tantos países europeus, passa bem longe dos portugueses.

O mundo deveria saber olhar para dentro e para fora como Portugal sabe. Portugal não vive centrado em si próprio como fazem os franceses e os norte americanos. Por outro lado, não ignora importantes questões internas, priorizando o que vem de fora, como ocorre com tantos países colonizados.

Portugal é um país muito mais equilibrado do que a média e é muito maior do que parece. Acho que o mundo seria melhor se fosse um pouquinho mais parecido com Portugal. Essa sorte, pelo menos nós brasileiros, tivemos.

Ruth Manus
26/11/2016

Ruth Manus é advogada e professora universitária e assina um blogue no Estado de São Paulo, Retratos e relatos do cotidiano. O texto foi aqui “traduzido” para Português (pré-achordo) de Portugal…

Futuros…

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Moleque de pé descalço, menino da rua cujo nome nunca se saberá, na tua solidão és o mundo todo.

A tua dor é a nossa e significas, infinitamente melhor do que um alto governante de fraque calçando Prada e empunhando flamante ramo de flores poderia fazê-lo, a devida homenagem aos mortos gloriosos.

No teu silêncio que escutamos, na bancada vazia que nos atordoa, és o campeão sobrevivente da catástrofe que nos enlutou.

O Chapecoense não morreu.

Uma imensa tragédia

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Uma equipa inteira de comunicadores também nos deixou

Não é fácil escrever nesse momento. A difícil tarefa de informar, analisar, reportar uma tragédia que certamente ficará marcada na história. Não apenas na história do futebol, mas também no universo da comunicação social.

Hoje acordei cedo, assustado, com o telefone que não parava de tocar. Mensagens de texto e de áudio e algumas chamadas perdidas. Demorei alguns minutos para raciocinar o que estava acontecendo, mas a verdade é que a notícia do trágico acidente com o avião que transportava a delegação da Chapecoense para Medellín, na Colômbia, demorou para ser assimilada e caiu como uma bomba nesta terça, 29.

No voo estavam 81 pessoas, incluindo 72 passageiros e nove tripulantes. No total, eram 48 membros da Chapecoense, incluindo 22 jogadores, 21 jornalistas e três convidados, além da tripulação. Até agora 76 mortes confirmadas. Números de uma tragédia imensurável.

O destino era o primeiro jogo da grande final da Taça Sul-Americana e parte da imprensa brasileira, que faria a cobertura da partida, viajou, como de costume, com a delegação da Chapecoense. E infelizmente, logo após as primeiras horas após o acidente, notícias por diversos meios de comunicação divulgavam que 20 dos 21 colegas de profissão perderam suas vidas – praticamente uma equipa inteira de comunicadores.

Grandes nomes do jornalismo desportivo brasileiro de diversas emissoras importantes, como Globo, RBS, FOX Esportes, Jornal “Diário Catarinense”, rádio Oeste Capital, rádio Chapecó, Super Condá, RIC TV.

Repórteres, cinegrafistas, técnicos de operações, narradores, comentadores e produtores extremamente competentes perderam suas vidas. Para mim, mais do que colegas de profissão, alguns amigos, alguns ídolos. Referências da comunicação social se foram de repente, uma sensação de impotência e vazio.

Para mim, jornalista e correspondente internacional, é inevitável a atitude e o pensamento de me colocar no lugar deles, ou pensar na dor de suas famílias, que poderia ser a dor da minha família neste momento. Afinal, as viagens de avião para coberturas como esta fazem parte do nosso dia a dia.

Nesta terça-feira, o mundo do futebol está de luto e a comunicação social do Brasil está em choque. Mas a principal homenagem que podemos prestar neste momento é nossa admiração e reconhecimento pelo trabalho dos nossos colegas.

A Chapecoense iria fazer uma final inédita para sua história e chegar lá não foi fácil para o clube. Nas meias de final, os momentos mais marcantes foram o final do segundo jogo contra o San Lorenzo, da Argentina, no empate por 0-0 que garantiu a vaga para a Chape. E essa emoção toda ganhou vida na voz de uma das vítimas desta triste tragédia. Devair Paschoalon, o Deva Pascovicci, da Fox Esportes fez uma das suas mais brilhantes narrações em uma defesa do guarda-redes Danilo, que garantiu a vaga.

Abaixo o vídeo que me faz ficar com lágrimas nos olhos. Com uma força única, Deva cumpriu seu papel de comunicar, de transmitir sentimento no mundo emocionante do futebol. Essa é a lembrança que ficarei dos colegas que nesta terça-feira nos deixaram, de que todos eles certamente eram apaixonados pelo  que faziam.

Arthur Quezada –  jornalista dos Canais Esportivo Interativo