Portalegre do Brasil cresce e moderniza-se

Na altura oportuna, finais de Maio deste ano, deu-se aqui devida do primeiro dia de expediente das novas instalações da Prefeitura Municipal de Portalegre RN, Brasil, depois de sua solene inauguração.

Sinal inequívoco do progresso da cidade irmã da Portalegre alentejana, o acto corresponde a uma modernização de antigas instalações, à qual se juntou recentemente a nova Casa da Câmara e Cadeia, também aqui abordado. Trata-se da prossecução de uma decisiva campanha de inserção da cidade serrana no lugar que merece.

Volta-se ao tema, a propósito de um mais recente decreto municipal, subscrito pelo prefeito Manoel de Freitas Neto sobre a funcionalidade do Centro Administrativo de Portalegre/RN, onde se pode constatar a complementar diversidade de serviços ali instalados.

A simples descrição dos espaços dá conta do contributo no aumento de coordenação e eficácia da governação municipal que as novas instalações vão proporcionar.

 

A banda desenhada vista por Jorge Gonçalves – dez

DEVIDO A UM ERRO DE NUMERAÇÃO, FOI PUBLICADA A PRIMEIRA PARTE (DE DUAS) DA RUBRICA “OS GRANDES MITOS DO OESTE” ANTES DA CONCLUSÃO (PARTE QUARTA) DA RUBRICA “OS COWBOYS DE ANTIGAMENTE”. DESFAZ-SE HOJE O ENGANO, COM O PEDIDO DE DESCULPAS AO AUTOR E AOS LEITORES. 

OS “COW-BOYS” DE ANTIGAMENTE – IV

A Ebal ainda não tinha entrado no desafio de publicar revistas a cores, com excepção das “Seleções Coloridas” que apareceram com as primeiras histórias de Walt Disney no Brasil e estas, sim, eram impressas a cores. Todas as outras eram impressas a sépia ou a preto e branco. Muitas vezes a impressão não era das melhores, mas o custo de tal decisão provavelmente seria uma aposta demasiado cara, como aconteceu no caso da Orbis Publicações. Entretanto a revista “Aí, Mocinho!” continuava o seu itinerário de edições com novas personagens de número para número:  “Rod Cameron”, “Tim Holt” de Frank Bolle e Dick Ayres, “Bat Masterson” de Ed Herron e Howard Nostrand e também Bob Powell. Os desenhadores vão-se revezando na criação das histórias para as várias personagens. Depois seria a vez de “Buck Jones” de origem inglesa, da autoria de vários desenhadores a trabalharem para Inglaterra. Estava esgotado o filão americano nesta publicação, mas ele iria continuar com títulos próprios e também apelativos, como seria o caso de “Álbum Gigante” publicado pela Ebal, a partir de Maio de 1949, mas que até aí tinha aparecido com outros temas, mas que alternadamente vai-se apresentando com histórias ligadas ao “Western”. Seguem-se as colecções “Superxis” aparecidas em Julho de 1950 num formato italiano pela primeira vez (o formato não conquistará os leitores, pelo que pouco tempo depois terá o formato A4, como as suas irmãs) e apresentará as aventuras de “Rex Allen” de Mike Arens, Russ Manning e muitos outros. Temos ainda as revistas “Gene Autry” de Jesse Marsh, Till Goodan e Jim Chambers, etc., iniciada em Abril de 1952,”Roy Rogers” datada de Abril de 1952, os “Reis do Faroeste” editado a partir Julho de 1953, com as histórias de variadas personagens, o “Zorro” a partir de Março de 1954, talvez um dos raros “heróis” que conseguiria ultrapassar os 500 títulos editados, o “Cowboy Romântico” lançado a partir de Julho de 1955, com histórias sem personagens específicas, mas abordando o tema do seu título, “O Herói” numa nova série datada de Setembro deste mesmo ano, com as aventuras de “Durango Kid” e “Kit Carson” e “Nevada” iniciado em Abril de 1957 com as aventuras de “Red Ryder” no início e as de “Durango Kid” e “Black Diamond” mais tarde. Mas é certo que a outra editora rival da Ebal também se debruçava sobre este mercado, que ainda mantinha os seus mais fieis leitores. A Rio Gráfica lança pois mais revistas, o “Cavaleiro Negro” (Black Ryder) de Syd Shores em Setembro de 1952,“Don Chicote” (Lash La Rue) aparece em 1955, em Maio de 1956 será a vez da publicação “Bronco Piler” (Red Ryder) e no ano seguinte nasce “Jerónimo”, uma personagem nova brasileira sobre o tema, criada por Edmundo Rodrigues, uma das grande promessas da Banda Desenhada brasileira.

Na década seguinte serão publicados alguns Almanaques pela Rio Gráfica também (edições que por enquanto era norma ser a Ebal a editá-las): O “Almanaque do Cavaleiro Negro” em 1963, o “Almanaque do Cavaleiro Fantasma” de 1964 e o “Almanaque do Flecha Ligeira” deste ano também. Mas a Ebal continuará a editar mais títulos e a apostar nas histórias de “cow-boys” com o lançamento de “O Juvenil Mensal” em Janeiro de 1962 com as aventuras de “Monte Hale”, “Tex Ritter”, etc.. O formato inicial era o italiano, até mudar pouco depois. Seguem-se exemplares publicados com as aventuras de “Ken Maynard” e depois com as de ”Tex Ritter” e de “Monte Hale”. Os anos sessenta reduzem drasticamente as edições sobre este tema. Só em Maio de 1970, serão publicadas as revistas “O Poderoso” com as aventuras de “Gunsmoke”, uma personagem criada em Inglaterra nas tiras dos jornais por Harry Bishop e que seria adaptada para os “comic–books” por Albert Giolitti e “Quadradinhos – 2ª Série” (Outubro de 1971)) com as aventuras de “Tim Relâmpago” (Range Rider) de August Lenox…

Mais tarde e em formatos mais reduzidos, a Ebal ainda irá publicar “Zorro de Bolso” (Fevereiro de 1973), “Zorro” em formatinho  (Junho de 1976), “Bonanza” (Agosto de 1976) e “Davy Crockett” (Agosto de 1981), depois de ter lançado uma colecção intitulada “Personagens do Oeste” em Janeiro de 1975, onde um grande desenhador italiano, Rino Albertarelli, se ocupa em retratar algumas personagens célebres no campo do “western”. Duas novas tentativas, sem grande sucesso, serão os álbuns com as aventuras “Bufalo Bill” e com “Buck Jones” lançados em Abril de 1974 o primeiro e em Agosto o segundo. Finalmente ainda será publicada uma nova série de “Aí, Mocinho!” em Novembro de 1986 com 8 números, numa última tentativa de ressuscitar o tema. Estava pois fechado o círculo dos “cow-boys”… pouco ou quase nada havia a acrescentar a este tema, pelo menos nas linhas em que vemos este meio de comunicação e esta forma de arte. 

No entanto, não deixámos de ser surpreendidos pela positiva com o aparecimento de uma nova personagem neste campo, “Jonah Hex” da autoria de John Albano e Tony Dezuniga em 1972. Mas embora de grande qualidade artística e mesmo a nível dos argumentos se tratasse de um obra de grande mérito, o nosso empenho e a nossa paixão ficaram por aqui.

OS DESENHADORES BRASILEIROS E AS SUAS CRIAÇÕES

Num capítulo aparte e de forma a salientar também os trabalhos de grandes desenhadores brasileiros neste campo, pois como nos anos 60, no Brasil, a Ebal era a editora que publicava todos os cowboys da TV, a Rio Gráfica, para dar continuidade às suas publicações dedicadas ao “western”, contratou desenhadores brasileiros para fazer face à procura das suas edições, em virtude de já não haver na origem (Estados Unidos da América), trabalhos originais.

Assim “Rocky Lane” seria desenhado por Primaggio Mantovi nas suas novas aventuras, o “Cavaleiro Negro” terá a adopção por parte de Walmir Amaral de Oliveira, Gutemberg Monteiro e Juarez Odilon, o “Cavaleiro Fantasma” será continuado por Walmir Amaral e Milton Sardella, o “Flecha Ligeira” terá novas histórias criadas por José Evaldo de Oliveira e “Texas Kid” passa a ser desenhado por Joaquim de Oliveira Monte… Algumas delas com êxito. Nada era mais natural e, provavelmente, alguns ou muitos dos seus leitores não se aperceberam de que as histórias tinham outra origem. A fórmula era simples. Um bom argumento, alguns enquadramentos de qualidade, um bom traço e estava encontrada a forma de entusiasmar de novo os leitores da altura. As histórias poderiam ter um pouco mais de páginas, de 10 a 20, pois às vezes planear um bom argumento em poucas pranchas torna-se difícil. De qualquer dos modos os trabalhos serão aceites e as revistas voltam a circular concorrendo com as da Ebal.

                                                                                                     CARLOS GONÇALVES

A Banda Desenhada vista por Carlos Gonçalves – nove

OS GRANDES MITOS DO OESTE (I)

Já há muito tempo que foram desmitificadas todas as grandes lendas do oeste norte-americano. Quem não conhece já a verdade de todas as figuras que povoaram e engrandeceram o western e a sua literatura. Jesse James era afinal um bandido, como os irmãos Dalton, o Juiz Roy Bean era um bêbado e megalómano, Buffalo Bill teve rasgos de popularidade devido a vários factos que o ajudaram nessa vertente e o circo que montou, para o fim, iria ainda mais salientar essa farsa.

Poderíamos depois ir ao duelo do O.K. Corral, que pouco mais foi que uma troca de 30 tiros em 30 segundos, em que quase nenhum dos participantes possuía habilidade nas armas para tal, com excepção talvez do irmão Tom McLaury (segundo algumas versões este seria morto desarmado, mais tarde). No fim desta confusão toda, morreram os dois irmãos McLaury e Billy Clanton e houve ferimentos em Virgil e em Morgan, mais graves e mais ligeiros em Doc Holliday. No final seria o fim desta parceria de contornos confusos e em que os irmãos Virgil, Wyatt e Morgan acabaram acusados de assassinato e, na audiência do julgamento, Morgan seria assassinado e Virgil incapacitado do seu braço esquerdo, num tiroteio nessa altura. Depois não nos podemos esquecer do grande ego do General Custer, que por teimosia viria a levar para a morte quase 300 soldados.

Depois ainda temos Bat Masterson, o homem dos sete ofícios e que acabaria por morrer de ataque cardíaco e que pouco tinha a ver com a sua lenda, ainda que tivesse sido xerife e um fraco actor de teatro. O xerife Pat Garrett era afinal um assassino e matava à traição. Butch Cassidy era um assaltante de comboios e ladrão, mas pelo menos, tanto quanto se sabe, não matou ninguém. Calamity Jane não era uma senhora, antes pelo contrário… Era pior que os pistoleiros. Haverá ainda os índios, mas estes na sua maior parte sofreram por serem índios e, além de sujeitos a várias sevícias, muitas vezes acabavam assassinados. Esse seria o caso de Touro Sentado, bem como seu filho. Gerónimo, que seria preso por 22 anos até morrer, Cavalo Louco foi trespassado por uma baioneta de um soldado e, segundo a lenda, “Mão Amarela” seria morto por Buffalo Bill em duelo…depois teríamos sim o genocídio sistemático das populações.

Índias, velhos, mulheres e crianças que eram mortos à traição pelos soldados, quando os guerreiros se encontravam na caça ou em luta com outras tribos (o pior mal que acabaria por ainda dizimar mais estas tribos… era o ódio que tinham umas raças pelas outras, que chegava às raias da loucura e a sacrifícios e torturas terríveis contra os vencidos). Também não faltaram as doenças propagadas pelos brancos para ajudar a matar, cada vez mais, os poucos índios que ainda sobreviviam.

OS GRANDES MITOS DO OESTE CRIADOS NA BANDA DESENHADA                         

Um dos desenhadores a estudar e a documentar-se sobre esse tema seria o italiano Rino Albertarelli, o que resultou na criação de 10 volumes publicados em Itália nos anos de 1974 e 1975 (e reeditados em 1994), com o título “I Protagonisti”. A série nasceu de uma ideia de Sergio Bonelli, em retratar algumas personagens ligadas ao desenvolvimento do Oeste norte-americano, mas de uma forma realista. Assim, Albertarelli desenvolveu um trabalho de pesquisa extremamente detalhado, cujo resultado seria a publicação desses 10 títulos. São biografias ilustradas que oferecem ao leitor mais interessado a verdadeira face daqueles homens que criaram o mito do Oeste. A colecção teve apenas 10 volumes porque Albertarelli faleceu a 21 de Setembro de 1974, durante os trabalhos, e o último volume foi completado pelo Sergio Toppi. Os títulos são os seguintes: George A. Custer, Gerônimo. Billy The Kid, Jed Smith (vagabundo da pradaria), Touro Sentado, Wyatt Earp, Wild Bill Hickcok, Frank Canton (caçador de recompensas), Bill Doolin (membro do bando dos Dalton) e Herman Lehman (o índio branco), são as personagens incluídas nesta colecção. No Brasil, a série teve 5 volumes entre 1975 e 1977, publicados pela antiga EBAL, com capas feitas pelo artista brasileiro António Euzébio. Os escolhidos foram os mais conhecidos: Billy The Kid, George A. Custer, Gerónimo, Wyatt Earp e Touro Sentado.

Não seria só Rino Albertarelli a criar estas biografias destes lendários homens do Oeste. Outro artista, mas desta vez espanhol, acabaria também por se interessar pelo tema dos Grandes Mitos do Oeste e retratou também, nos inícios dos anos 70, antes de Albertarlli, uma série de personagens sobre esse tema, só que destinada a ser publicada nos Estados Unidos, através da Agência de Joseph Toutain.

O seu sucesso foi imediato, pois a qualidade dos trabalhos deste desenhador era de grande impacto, devido ao uso dos negros. O interessante é que Albertarelli era também um desenhador de negros, pelo que os dois trabalhos assemelham-se muito graficamente, embora cada um deles dentro do seus próprios estilos. Seus traços são harmoniosos e as pinceladas de negro conseguem emoldurar de uma forma elegante cada uma  das vinhetas.

E neste caso falamos dos dois artistas. As histórias embora tentando ser o mais fiáveis possível, em relação aos factos conhecidos, pondo de parte a lenda, desempenham um papel recreativo ainda que didáctico. Consideram que em primeiro lugar está a parte lúdica e em segundo a histórica, e temos que admitir que a mesma acabaria, na maior parte das vezes, deturpada, principalmente no que respeita a este tema. A Literatura, o Cinema e a própria banda desenhada acabariam por criar factos que nem sempre eram verdadeiros. Para isso viriam também a contribuir um género de folhetins, tão do agrado de milhares de leitores que se deliciavam a ler essas aventuras. Era a chamada Literatura de Cordel, onde por exemplo “Buffalo Bill” possuía um papel importante no desenrolar da acção de cada novela, ultrapassando muitas vezes o real.

Mas não era só ele, “Texas Jack”, que quase ninguém sabe quem é, chamava-se John Wilson Vermillion (1842-1911) e era um pistoleiro que talvez tenha passado por Tombostone e talvez tenha ajudado Wyatt Earp na sua sede de vingança, no rescaldo do duelo de O.K. Corral, mas não participou neste… seria mais tarde que a sua actividade estaria ligada à família Earp, mas nada da fama que granjeou como “O Terror dos Índios”… dada pelos escritores das suas aventuras. A alcunha de “Texas Jack”, seria dada pelos seus amigos. A data da sua morte está em dúvida (1910 ou 1911?).

Conseguir-se saber hoje os pormenores e a verdade de todos os factos é na verdade impossível e separar a lenda do que mais tarde seria escrito pelos intervenientes na acção, pior. E não poderemos esquecer que alguns dos episódios, mais tarde descritos por alguns escritores, foram conhecidos através daqueles que nem sequer muitas vezes assistiram aos acontecimentos, havendo por isso sempre tendência para deturpar a sua veracidade.

Carlos Gonçalves

A banda desenhada vista por Jorge Gonçalves – oito

OS “COW-BOYS” DE ANTIGAMENTE – III

OS “COW-BOYS” NO BRASIL

Se até aqui já focámos algumas personagens, revistas, histórias e autores, esta é uma rubrica que nos encanta sobremaneira, pois o Brasil foi um dos países (juntamente com a Argentina), onde os “comic-books” proliferavam do mesmo modo que nos Estados Unidos da América. E o nosso país, mesmo muito pequeno e com poucos leitores e apreciadores de Banda Desenhada, tinha o privilégio de receber, e ser exposta nos escaparates, uma larga série de títulos editados no Brasil. Na altura e devido à nossa juventude as possibilidades económicas eram pequenas e cada revista custava desde 2$50 a 4$00, o que era incomportável para a nossa bolsa. A solução era procurar nos vendedores de segunda-mão, que se espalhavam pela cidade, alguns em pontos fixos, perto do Éden Cinema, do Salão Lisboa, do Jardim Cinema, do Cine Oriente e do Olympia e outros em vão de escada, na Praça de Chile e na Rua Almirante Reis. Nestes comerciantes e através de uma moeda de um escudo, trocávamos uma revista por outra que ainda não tínhamos lido. Se houvesse mais dinheiro, comprava-se o exemplar que na altura custava quase tanto como a revista nova. O número de exemplares à venda também não abundava e muitas vezes apareciam em mau estado, pois muitos jovens de melhores posses financeiras compravam directamente as revistas e coleccionavam-nas. As primeiras revistas a que tivemos acesso seriam o “Guri”, “Gibi” e “O Globo Juvenil” todas com datas de finais dos anos 40, princípios de 50. O tema forte eram os “super-heróis”. Era uma panóplia de personagens, como do costume e o “Batman” ainda se chamava “O Homem Morcego”, mas de vez em quando vinha uma ou outra história de “cow-boys”, tais como as de “Flecha Dourada”, de Bill Parker e Greg Duncan, “Hopalong Cassidy” e “Rod Cameron”.

Este último era escrito por Otto Binder e desenhado por Clement Weisbecker. As primeiras revistas que apareceram de “cow-boys” no Brasil, e consequentemente cá, não se apresentavam com as belas capas das norte-americanas. Tal só viria a acontecer meia dúzia de anos depois. Mas a Ebal, uma das editoras principais daquele país, não deixou de oferecer aos seus leitores muitas das personagens que viriam a alcançar o merecido sucesso. A primeira dessas revistas será “Aí, Mocinho!” datada de Novembro de 1949 e que irá publicar uma primeira série com 100 números, com as aventuras de “Black Diamond” de William Overgard, com desenhos de Claude Moore, Tony DiPrieta, Fred Guardineer, etc.. Mas as personagens vão mudando de número para número e, embora “Black Diamond” seja a estrela de elite, todas as outras personagens viviam as suas aventuras cheias de risco e não eram menos apreciadas que as do “herói” principal. Os desenhos eram igualmente perfeitos, mas a tentativa de criar personagens para as revistas levava a uma produção desmesurada. Mesmo que algumas das histórias não se apresentassem com um “herói” titular, para os leitores só interessava a aventura e o que ela representava no campo da justiça. Castigar os maus. Em poucas páginas apenas, normalmente 7 ou 8, era contada uma história que nos entusiasmava. 

Não é de admirar que na euforia da realização dos filmes (muito público esperava por novos filmes), com nome ou mesmo sem nome de um artista principal, eles eram filmados. Nas revistas “Aí, Mocinho!” aparece o nome de Jack Williams a viver as suas aventuras. Mas quem é esta personagem, um simples duplo? Nem sequer era um artista consagrado… O segredo estava na forma como tinha treinado o seu cavalo “Coco”, que as várias quedas que era obrigado a fazer, em substituição do artista principal (serão largas dezenas as que sofrerá para delírio dos espectadores), resultavam de tal modo perfeitas e espectaculares, que quer um quer outro passariam para o rol dos famosos em pouco tempo. O seu cavalo morrerá com 33 anos… Williams com 86, depois de uma vasta carreira cheia de sucessos. Muitos cavalos destes actores viriam a ser igualmente célebres e a viverem as suas aventuras nos “comic-books”, como seria o caso de “Trigger”, Champion”, “Silver” e “Scout”, respectivamente os cavalos de “Roy Rogers”, “Gene Autry”, “Lone Ranger” e “Tonto”…

A indústria cinematográfica era pujante e conseguia uma certa empatia com os espectadores. Alguns artistas eram rotulados como maus (a sua fisionomia e o seu papel era o de fazer mal, como seriam o caso de Lee Van Clef e Jack Palance). Quando o artista principal matava o seu opositor, os espectadores batiam palmas, em sinal de euforia e demonstrando o seu contentamento pela justiça feita. A revista “Aí, Mocinho!” era sem dúvida uma das melhores que se publicavam na época, embora começassem a aparecer no mercado brasileiro, e também em Portugal, outras editoras a apostarem no tema, face ao sucesso que ela estava a conquistar junto dos apreciadores. A própria Ebal não ficaria por aqui, pois irá lançar outras colecções com outras personagens, de que falaremos a seguir.

Entretanto a Rio Gráfica lança “Rocky Lane” em Janeiro de 1953 e a Orbis Publicações edita “Pele Vermelha” (Indian Chief) em 1954, seguidas no mesmo ano de a “Polícia Montada”, “Justiceiros” (Tomahawk), “Cara Pálida” (Little Beaver), “Marruá” (All Star Western), “Cisco Kid”e “Rancho Grande” (Red Ryder), todas elas com personagens de sucesso, o que não viria a acontecer com as revistas, já que a maior parte delas ficaria pelo caminho, apesar de trazerem uma inovação no campo gráfico, eram todas impressas a cores. Dois anos depois a editora deixa de publicar este material. Evidentemente que os títulos foram mais, mas para este estudo só nos interessa focar estes títulos.

CARLOS GONÇALVES

LER É PERIGOSO

Ler é viver, ler é respirar.

Tudo o que se queira ou possa escrever sobre a leitura é uma redundância, um pleonasmo. Já foi dito tudo o que havia a dizer. Apenas podemos tentar dizê-lo de outra forma.

No entanto, talvez seja necessário, talvez seja urgente dizê-lo.

Não é por acaso que as ditaduras sempre vêem nos livros o seu mais influente inimigo. Desde a Inquisição até ao nazismo, implacáveis ditaduras do espírito, a censura literária foi um dos mais implacáveis instrumentos das suas tenebrosas acções.  Queimar um livro perigoso nunca foi para um ditador atitude menos relevante que queimar uma pessoa inconveniente.

Quem lê pensa e pensar nem sempre é um comportamento social ou politicamente tolerado pelo poder.

Ler, provavelmente, é subversivo. A propósito, já leram Fahrenheit 451, de Ray Bradbury? Talvez seja esta uma primeira proposta, que vale bem a pena.

Entretanto, sugiro que vejam e oiçam Leandro Karnal.

Trata-se de um conhecido historiador brasileiro, actualmente professor da Universidade Estadual de Campinas na área de História da América. Foi também curador de diversas exposições, como A Escrita da Memória, em São Paulo, tendo colaborado ainda na elaboração de museus, como o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Graduado em História pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e doutor pela Universidade de São Paulo, Karnal tem publicações sobre o ensino de História, bem como sobre História da América e História das Religiões.

As suas palestras são famosas e a que aqui proponho não foge à regra. Foi concretizada no teatro Carlos Urbim, em Porto Alegre, na decurso da sua 62.ª Feira do Livro, em 8 de Novembro de 2016, há pouco mais de seis meses.

A palestra tem o título de Ler é Viver, o que me parece bem adequado.

E muito actual.

A banda desenhada vista por Jorge Gonçalves – sete

OS “COW-BOYS” DE ANTIGAMENTE – II

Evidentemente que no trivial encontravam-se também personagens marcantes, não só nas suas histórias como nas suas personagens. Será o caso de “Two – Gun Kid” de Stan Lee/Jack Kirby e com desenhos de Ogden Witney, Jack Kirby, Dick Ayers e Joe Sinnott. Também uma das personagens de grande interesse será “Tom Mix” (1880-1940), um verdadeiro homem-espectáculo nos seus filmes, levando ao delírio os seus espectadores. Seria considerado o “rei” dos cow-boys” na tela e, mais tarde, também nos “comic-books” de 1947 a 1953. Os desenhos pertenciam a Carl Pfuefer. Outro grande cow-boy seria “Hopalng Cassidy”, da autoria de Dan Spiegle, extraordinário desenhador, embora não fosse este o desenhador original.

O primeiro seria Irving Steinberg (1916-93) e outros, incluindo Pete Constanza (1913-84). Seria importante continuarmos a falar de mais séries e mais revistas dedicadas ao tema, mas a possibilidade de espaço é diminuta, pelo que iremos salientar mais algumas personagens de interesse e que nos deliciaram na sua leitura quando jovens. Fred Harman seria outro caso de destacar com a sua personagem de êxito estrondoso “Red Ryder”. Quem não se lembra deste “cow-boy” ruivo, calmo e destemido, e que era acompanhado nas suas aventuras com o índio “Pequeno Castor”? Depois, ainda que limitado nas suas aventuras, não é a altura de esquecer “Casey Ruggles” da criação de outro talentoso artista, Warren Tufts. Seria ele também o autor de “Lance”, uma série espectacular nas suas pranchas, devido ao seu aspecto gráfico, onde as cores imperavam. Infelizmente a série não teria aceitação merecida, talvez por uma má distribuição entre os jornais.

Estas duas séries seriam lançadas nos jornais e não nos “comic-books”. Temos ainda “Rick-Óshay” de Stan Lynde, outra personagem a destacar e a fixar pela beleza das suas aventuras. Trata-se igualmente de uma série publicada nos jornais.

Finalmente não nos vamos esquecer de lembrar outro grande e famoso desenhador, Frank Frazetta, com a sua série “The White Indians”. Os últimos dois artistas a destacar serão John Severin com a sua série “Eagle” e “Tomahawk” de Ed France Herron e Fred Ray. Esta é a fase dos índios e dos pioneiros que os combatem, na tentativa de conquistarem novos territórios, que acabarão por ser invadidos pelos emigrantes brancos. Todos conhecemos já a história verdadeira destes factos, que levariam a um genocídio quase completo da população índia. No entanto, não podemos de deixar de referenciar o belo trabalho que a maior parte dos desenhadores norte-americanos nos deixariam, através de belas capas nas edições dos “comic – books” editados ao longo dos anos, autênticas joias das artes gráficas.

OS “COW – BOYS” NA BANDA DESENHADA EM PORTUGAL

Vários estudos estão já feitos sobre o panorama do “Western”, nas nossas Histórias aos Quadradinhos. Alguns da autoria de Jorge Magalhães, muito completos e com uma informação bem documentada e pormenorizada. Aos interessados aconselhamos vivamente esses estudos, editados pela Câmara de Moura e onde poderão recolher uma exaustiva e importante amostra de tudo o que seria criado e publicado nas revistas portuguesas de Banda Desenhada sobre este panorama Quanto a nós faremos um pequeno resumo do que se passou há quase cem anos atrás, pois será num longínquo ano de 1920, que surge a primeira história baseada no “western” da autoria de Cottinelli Telmo com “A Grande Fita Americana” publicada na revista “ABC”. Depois esporadicamente aparece uma ou outra produção portuguesa sobre o tema: “As Estupendas Façanha do Cow-Boy Façanhudo” de António Cristino em 1926 na revista “ABCzinho”, “As Aventuras do Cow-Boy Jim Boy” de Carlos Botelho na revista “ABCzinho” também, em 1927 e depois como uma abordagem muito ténue, Oskar, Arcindo Madeira, Júlio Resende, Meco, Fernando Bento e Mário Costa criam algumas histórias sobre o tema, embora na vertente do humor. Isto tudo já nos anos trinta, princípios dos anos 40. Será na revista “O Mosquito” que Vítor Péon se irá estrear e precisamente, com uma História aos Quadradinhos realista sobre os “cow-boys”.

O ano era o de 1943. Também em “O Faísca”, e no mesmo ano, o desenhador António Barata irá dar os seus primeiros passos na Banda Desenhada, com uma história sobre o mesmo tema. Mas pertence, sem dúvida alguma, ao desenhador Vítor Péon o lugar cimeiro na criação de histórias sobre “cow–boys”, pois irá continuar a desenhá-las até emigrar em 1956. E, mais tarde, quando regressa a Portugal nos anos 70, volta a pertencer-lhe essa prerrogativa. Aliás, o lançamento de uma personagem que se irá tornar célebre, “Tomahawk Tom”, que teria mais de uma dezena de episódios publicados, será um dos marcos nesse campo. No nosso país, tal feito fará história, pois independentemente do tema, os “heróis” da Banda Desenhada portugueses são muito poucos. Com muito raras excepções, “Quim e Manecas” de Stuart, “Zé Pacóvio e Grilhinho” de Tiotónio, “O Ponto” de Fernandes Silva, “Falcão Negro” de Eduardo T. Coelho, “Simão” em “O Caminho de Oriente” da autoria deste último desenhador também e “Chico” de Júlio Gil, poucos foram os “heróis” que continuaram a viver as suas aventuras de um modo assíduo. No campo dos “cow-boys” teremos mais algumas experiências por parte do José Garcês, Jayme Cortez, Júlio Gil, José Ruy, Carlos Roque, Baptista Mendes, José Pires e Augusto Trigo. Poderemos quase afirmar que a maior parte dos nossos desenhadores abordou, ainda que uma forma muito pouco apaixonante, o tema do “Western”. Enquanto os cinemas ofereciam uma programação semanal de vários filmes, com enormes potencialidades dedicadas à acção e à aventura, às cavalgadas, aos tiroteios em duelos, os nossos desenhadores muito timidamente ocupavam-se de algumas pranchas, oferecendo de um modo modesto o que os leitores de Banda Desenhada consumiam. Mas será que não existiria ali algum racionamento forçado por parte dos nossos artistas?

CARLOS GONÇALVES

Portalegre do Rio Grande do Norte, hoje

A Casa de Câmara e Cadeia, no período do Brasil enquanto colónia portuguesa e em parte do período imperial, era o edifício onde estavam instalados os organismos da administração pública municipal.

Abrigava em geral a Câmara Municipal e os órgãos a ela ligadas, como a Câmara dos Vereadores, o Juiz de Fora, o Presidente da Câmara, o Procurador, o Juiz de Direito, assim como o tribunal, a guarda policial (chamada “milícia”) e a própria cadeia pública.

O edifício ou os edifícios da Casa da Câmara e Cadeia ficavam geralmente no centro da vila ou cidade, no largo do pelourinho ou no chamado “Rossio”. O prédio continha, na maioria das vezes, dois pavimentos, várias salas e um plenário para reuniões dos vereadores e para julgamentos (sempre no segundo andar), sendo que no primeiro pavimento ficavam alojadas a cadeia e a guarda. Em vários casos, as Casas de Câmara e Cadeia eram a única edificação pública na vila, funcionando assim como símbolo único do poder público.

A Casa de Câmara e Cadeia é um dos modelos arquitectónicos mais representativos da colonização portuguesa no Brasil. Surgiu com a gradual afirmação de autonomia da burguesia urbana contra o poder de estilo feudal. O sistema administrativo municipal, que se consolidara em Portugal no século XIV, foi então transferido para os assentamentos coloniais a partir do século XVI. Assim, as Casas de Câmara e Cadeia nas vilas e cidades do Brasil seguiram de perto tanto a função quanto a aparência das suas congéneres europeias, mesmo após a Independência. Com a reorganização da administração municipal após a proclamação da República Brasileira, a Casa de Câmara e Cadeia muitas vezes passou a abrigar também o Fórum da comarca e a Prefeitura, sendo então chamada de Paço Municipal.

Assim foi também em Portalegre RN. A historiadora Fátima Martins Lopes, na sua obra Em nome da liberdade: as vilas de índios do Rio Grande do Norte sob directório pombalino no século XVIII (Tese de doutoramento, UFPE, 2005, Recife), refere o trabalho local, sob orientação do fundador Miguel Carlos Caldeira de Pina Castelo Branco, para desbravamento da mata e limpeza do terreno para demarcação das terras e estabelecimento do traçado da Vila, onde seriam construídas as instalações públicas, como a Casa da Câmara e Cadeia e a Igreja Matriz. Estávamos então na passagem de 1761 para 1762.

Situadas estas edificações na praça principal, foi progressivamente abandonado o edifício rosado da Câmara e Cadeia, durante muito tempo quase reduzido à ruína. Desde que nós, os portalegrenses portugueses, conhecemos a cidade irmã sempre aquele edifício constituiu uma espécie de desafio ali assumido como claro objectivo de recuperação.

E assim aconteceu recentemente.

No passado dia 1 de Abril, há escassos meses, foi realizado em Portalegre RN, o solene acto de inauguração da Casa de Câmara e Cadeia e do Espaço Cultural “Cantofa e Jandi”. Exemplarmente recuperado e adaptado a novas funções, dedicado a duas figuras notáveis carismáticas do passado histórico local, o edifício acrescentou a toda a comunidade portalegrense brasileira uma notável mais-valia.

Como espaço museológico e auditório cultural, a Casa de Câmara e Cadeia transformou-se num autêntico centro cultural, excepcionalmente bem localizado e apto a dinamizar a vida da Cidade.

A estreia constituiu desde logo uma clara demonstração dessa renovada vitalidade, pelo espectáculo –Esquetes– da responsabilidade do grupo Cactus – Companhia de Teatro, essencialmente composto por jovens da serra.

Aqui se pode apreciar uma súmula desse espectáculo.

Creio que este feliz acontecimento marca a actual fase de confirmação de Portalegre RN como uma cidade que caminha decididamente para o progresso a que tem direito. Para nós, portalegrenses de cá, deve ser encarada como um exemplo, já que a Portalegre alentejana vai tardando em encontrar o seu caminho seguro para um futuro de autêntica  esperança.

Parabéns aos queridos amigos e conterrâneos portalegrenses do Brasil!