Cenas da vida lusitana há cinquenta anos – vinte e sete

A página inicial do Almanaque da Plateia de 1968 dedicada a Julho desse ano começa com a habitual e interessante relação de efemérides alusivas.

Depois, são duas as páginas onde surge a actriz Ursula Andress como vedeta. Mas, para esta, o melhor estaria ainda para vir…

Ursula Margo Andress, nascida na Suíça, em Ostermundigen, no ano de 1936, foi um dos grandes símbolos sexuais das telas nos anos 60. Seria lançada como “bond girl” no primeiro filme de James Bond, 007 Contra o Satânico Dr. No, em 1962, poucos anos depois deste Almanaque. A participação neste filme de 007, que a transformou numa sensação mundial, também lhe deu um Globo de Ouro de Revelação Feminina daquele ano.

Andress tornar-se-ia portanto particularmente famosa no papel de Honey Ryder, uma caçadora de conchas, aparecendo em cena – naquele que se transformaria num momento icónico clássico na história do cinema e da moda– surgindo do Mar do Caribe vestida num minúsculo biquíni branco com uma grande faca de mergulho enfiada num cinto no quadril.

uma discutível listagem

Julgava eu ter corrido o Mundo antes desta consulta. Afinal apenas fui aos arredores…
Das 20 praias listadas conheço… uma! É precisamente a de Corniche, na costa ocidental francesa. Subi, em 1977, a sua  gigantesca duna de Pilat!
De qualquer forma, acho esta relação da National Geographic (!?) muito subjectiva e altamente discutível.
Uma lista que pretenda incluir as 20 melhores praias do Mundo, que me desculpem os “especialistas”, teria de incluir -obrigatoriamente!- a Ponta Negra, no Natal, Brasil, Porto Santo e sobretudo o Baleal, aqui em Peniche…
É uma opinião, vale o que vale, mas é a minha!!!

Tintin no Congo – 05

Após a breve e dramática reflexão anterior, a proposta de um regresso à ficção aliviará, pelo menos um pouco, as nossas consciências…

Voltemos, pois, a Tintin au Congo e, a propósito, tentemos penetrar um pouco na própria consciência de Hergé.

Os tempos de construção desta história são vividos pela Europa colonialista (sobretudo pela França, Bélgica, Portugal, Inglaterra e também pela Alemanha, Itália e Holanda, menos pela Espanha) como um período de certo apogeu, confirmado pela Exposição Colonial de Paris, em 1931. Nunca deveremos perder de vista este quase atmosférico contexto.

Depois, explorando o êxito da anterior encenação, o padre Wallez vai agora repeti-la, fazendo regressar Tintin e Milou do Congo, no dia 9 de Julho de 1931, às 16h50, na mesma Gare du Nord. O “intérprete” do jovem jornalista é que será outro, já que o anterior tinha crescido demasiado…

Depois, acontece a seguir uma conjugação de factos determinantes para o futuro de Hergé: o convite profissional de uma importante editora, a Casterman, em Abril de 1932, e a saída do padre Wallez do Vingtième Siècle, em Agosto de 1933, na sequência de um pequeno escândalo político-social que o envolvera.

Por tudo isto, nos inícios de 1934, Georges Remi abre oficialmente o Atelier Hergé, sociedade autónoma de produção criativa. Porém, as aventuras de Tintin continuarão a ser publicadas, ainda, no Petit Vingtième. Nesse ano de 1934, Georges Remi ganha uma progressiva consciência das estereotipias, do maniqueísmo e dos preconceitos que tinham informado as suas obras iniciais, sobretudo as passadas na Rússia e no Congo. Isso acontece a partir do momento em que é anunciada a partida de Tintin para o Extremo Oriente, mais concretamente para a China. Alertado por amigos, fazendo depois uma amizade que vai durar até à morte com um jovem chinês, estudante de Belas-Artes em Bruxelas, ele vai crescer interiormente.

À consciência do valor de uma rigorosa recolha de documentação teórica, Hergé vai agora juntar, convictamente, a importância dos testemunhos práticos. E nunca mais repetirá alguns erros primários, a partir dessa fase onde o humanismo reflectido vai ocupar o lugar da pura improvisação.

E Georges Remi seguirá a sua vida, particularmente intensa nos aspectos sentimental, cívico, político e profissional. Quanto aos trabalhos pioneiros, há notícia relativa à segunda metade dos anos 40, quando inicia uma meticulosa obra de recuperação e modernização dos seus conteúdos, já liderando uma brilhante equipa de criativos. Não se atreve a tocar na aventura russa, de há muito esgotada, e, quanto ao Tintin au Congo, podemos assinalar três tipos de intervenção: a sintetização da narrativa das 110 originais para as 62 páginas, já “clássicas”, dos modernos álbuns; a aplicação do colorido, em tons pastel, que tão bem complementou o estilo da “linha clara”; a “redução” ou “abolição” dos traços mais primários e mais evidentes de racismo, de paternalismo e de colonialismo.

E, tanto quanto parece, este “retocado” trabalho vai atravessar, sem notórios acidentes de percurso, toda a década de cinquenta.

É no início dos anos 60 que, em pleno surto dos movimentos coloniais independentistas, se vai despoletar a até hoje imparável onda de críticas sobre Tintin au Congo. Talvez que alguns “fantasmas” ou recalcamentos escondidos e sufocados durante décadas tenham subitamente despertado da sua prolongada hibernação…

O pontapé de saída foi dado no jornal Le Canard Enchaîné, no seu número de 12 de Janeiro de 1960, onde se incita os pais a desconfiarem de Tintin, “herói para quem os Brancos são todos brancos e os Pretos, todos pretos. Se os vossos filhos devem ser sensatos com as imagens, evitem que estas sejam do desenhador Hergé.”

Na revista Jeune Afrique, a 3 de Janeiro de 1962, Gabrielle Rolin vai considerar, com alguma má-fé, todos os álbuns de Tintin como irremediavelmente reaccionários!

Por estas alturas, a Casterman, prudentemente, não se atreve a reeditar Tintin au Congo, o álbum mais atacado e desde há muito esgotado. Hergé, convicto de que a “limpeza étnica” a que sujeitara a obra há anos tinha eliminado grande parte dos seus veniais e juvenis “pecadilhos”, bem vai insistindo, em vão, na desejada reedição.

O destino revela-se, por vezes, em inesperadas ironias. A revista congolesa Zaïre, no seu número de 29 de Dezembro de 1969, inicia a publicação integral de Tintin au Congo, a história “maldita”. Numa curiosa introdução, o articulista escreve: “Tintin au Congo foi, para várias gerações de crianças belgas, o primeiro contacto com este fabuloso país de que ouviram falar: o Congo. (…) O Congo descoberto por Tintin é decerto o Congo dos pais e até mesmo, se virmos melhor, o dos avós. (…) O Congo de Tintin é sobretudo uma espécie de paraíso terrestre reencontrado pelo homem branco que, há trinta anos como hoje, procura o éden onde poderá, por fim, desfrutar a felicidade de uma humanidade fraternal. Esta humanidade fraternal, para Hergé (e para milhares de leitores cujo sonho ele exprime), é a dos congoleses. A humanidade fraternal é obviamente povoada de gente simples. E esta gente simples, visto que são negros, tem como é natural as caras achatadas e, se falam, falam como é óbvio à preto; este palrar que aqueles que nunca viram África a não ser em sonhos e os povos oriundos de África a não ser em clichés obsoletos da Cabana do Pai Tomás atribuem aos filhos dos homens com pele negra. (…) Há uma coisa que os brancos que interromperam a circulação de Tintin au Congo não perceberam. E isso é: se algumas imagens caricaturais do povo congolês dadas por Tintin au Congo fazem sorrir os brancos, elas fazem francamente rir os congoleses, porque os congoleses encontram nelas pretexto para se rirem do homem branco que os via desta forma!”

Resultado quase imediato, após dois anos de ausência: em Maio de 1970, o álbum Tintin au Congo foi colocado de novo à venda na Bélgica e na França…

António Martinó de Azevedo Coutinho
Segunda-feira, Junho 28, 2010

Mais um clip de vídeo complementa o presente capítulo. Consiste num curto excerto de um documentário da série Apostrophes, contendo uma entrevista com Hergé, datada de Janeiro de 1979, orientada por Bernard Pivot. É aqui abordado o nascimento de Tintin e algo sobre o contexto desses tempos.