Quem corre por gosto cansa

QUEM CORRE POR GOSTO CANSA

Não sinto qualquer especial vocação para falar de mim próprio, mas abro aqui uma excepção, precisamente porque está em causa o meu ego colectivo. Explico.

A fotografia que encima estas linhas é um quarteto onde me incluo. Quando com algum orgulho pessoal, que confesso, coloquei aqui há dias a imagem das duas medalhas da Corrida das Fogueiras sucessivamente conquistadas, completei-a com a legenda alusiva à gratidão que devo a quem me ajudou nessa dupla proeza.

O Luís Estêvão, o Joel Pacheco e o Quim Carinhas integram esse grupo amigo, solidário e protector. Se lhes juntar o António Sousa, o António Fernando, a Vânia e o Mário -almas do Peniche a Correr– mais o Albertino Santos, sempre presente em espírito mesmo quando ausente, se lhes juntar estes em especial e, ainda, todos os outros inúmeros companheiros nesta aventura de correr e conviver, fica explicada a justeza da minha obrigatória gratidão. Sem eles seria impossível o meu comportamento.

Já não vou precisando de explicar aos meus mais antigos amigos portalegrenses o “fenómeno” de, surpreendentemente, me ter atrevido começar a correr numa idade em que é bastante mais prudente ter juízo, usar os elevadores e cuidar das articulações…

A luta pessoal contra a solidão levou-me, em boa hora, ao inspirado e feliz encontro com estes amigos de Peniche. Provavelmente, se eles fossem jogadores de xadrez, eu passaria a trazer um tabuleiro desdobrável e as peças no bolso, assim como carregaria uma cana e um camaroeiro se a paixão deles fosse a pescaria. Eles correm e portanto eu corro, tão simples como isso.

Desde o momento, rigorosamente datado, em que em conjunto descobrimos que, devidamente orientado e acompanhado, eu poderia progredir e ultrapassar as óbvias limitações de quem nunca nada daquilo fez na vida, tudo mudou e este é o natural e progressivo resultado de tal cumplicidade.

Naturalmente, nem tudo é um mar de rosas e nem sequer me atrevo, como fácil estribilho, a gritar aos quatro ventos que quem corre por gosto não cansa. Costuma dizer-se que o povo tem sempre razão mas não é verdade. O refrão tem piada, passa como credível, e no entanto é enganador até dizer basta. Quem corre por gosto sua e sofre. E cansa-se. Mas chegar ao fim de mais um treino ou de mais uma prova é uma quase indescritível vitória. Tenho crescido com isso e, sobretudo, tenho crescido em família dos afectos, na imprescindível e partilhada companhia de amigos dedicados.

É por tudo isto que me atrevo a falar de mim próprio.

É por isso que aqui deixo o testemunho, em imagens, da minha mais recente vitória.

Em família, nunca isolado, como fica amplamente provado.

Lembro a terminar esta breve reflexão, como tão bem sempre me sabe, o saudoso amigo e professor de Moral, padre Anacleto Martins, ainda na regiana Portalegre Cidade do Alto Alentejo: Não se é feliz sozinho.

Já agora, acrescento-lhe a feliz e muito bem praticada máxima do Peniche a Correr: A amizade é a maior vitória.

Juntem-se os dois princípios, complementares, e aí encontramos uma justíssima e saudável norma de vida em sociedade. Simples e eficaz.

António Martinó de Azevedo Coutinho

A Banda Desenhada vista por Carlos Gonçalves – três

AS HISTÓRIAS AOS QUADRADINHOS DE TERROR – I

Está ainda por explicar por que razão as histórias aos quadradinhos de terror quase nunca tiveram qualquer aceitação, ou pelo menos alguma aceitação significativa, por parte dos leitores portugueses. É certo que nem todos os países onde a banda desenhada tem raízes já centenárias, como a França, Bélgica, Alemanha, Inglaterra e Espanha, tiveram uma grande produção ou publicação de obras sobre este tema (no caso específico da Espanha, os seus desenhadores criaram muitas histórias, mas foram publicadas nos Estados Unidos).

Mas por exemplo os Estados Unidos foram os maiores produtores dessas histórias da autoria de uma vasto leque de artistas de craveira internacional, seguindo-se o Brasil com uma vasta produção, embora nem toda de uma qualidade homogénea, mas largamente compensada pela quantidade e publicação de revistas do género e mais tarde a Itália, em terceiro lugar, incluindo fotonovelas, que por sinal acabariam igualmente por ser publicadas também no Brasil, como o caso das edições de “Killing”, “Diabolik”, “Satanik” e “Killing”, esta última em formatinho. As três primeiras editadas pela Nueva Frontera nos anos 70 e a última pela Editora Mundo Latino em Maio de 1981. As histórias de “Diabolik” são em banda desenhada.

O TERROR NOS “COMIC BOOKS” NORTE AMERICANOS

Poucos serão os leitores que não conhecem as obras “Frankenstein” de Mary Shelley e “Drácula” de Bram Stoker que na altura dos seus lançamentos, originaram alguma celeuma…mas seria o escritor Edgar Allan Poe a desenvolver o tema, de forma a despertar nos leitores uma certa excitação e nervos ao lerem os seus contos…estávamos a metade do século XIX…só 100 anos depois tal viria a acontecer na banda desenhada e nos Estados Unidos da América, devido ao visionário e editor William M. Gaines, que em 1948 herda do pai (morto num acidente de barco) a E.C. (Educational Comics), uma editora especializada em revistas educativas. Perante tal situação, o nosso Gaines sentiu a necessidade de contratar alguém que o ajudasse na sua missão e, como não podia deixar de ser, encontrou na pessoa do desenhador Al Feldstein o editor ideal à altura dos desafios que se avizinhavam para a sua casa. Resolve mudar a sigla da sua editora de (Educational) para (Entertaining) e de acordo com Feldstein, resolvem por sua vez contratar um leque de novos desenhadores que raramente se encontram, para levar a cabo tal tarefa.

E essa era no início, a publicação de revistas com histórias aos quadradinhos de amor, “cow-boys” e policiais. Os desenhadores eram : Johnny Craig, Jack Davis, Jack Kamen, Wallace Wood, Joe Orlando, Reed Crandall, Bernie Krigstein, Harvey Kurtzman, e também Feldstein. Pouco mais de um ano depois, a dupla resolve iniciar a publicação de outras histórias que chocassem o público e, principalmente, os leitores. Começam então a ser publicadas no início dos anos 50, os títulos “Tales From the Crypt” e ”The Vault of Horror” que rapidamente se tornam um sucesso, seguidos de outros títulos igualmente destinados a outros êxitos. São as edições de “Shock Suspenstories” e “The Hunt of Fear”.

Outras publicações seriam criadas, embora não sobre o tema que escolhemos, uma delas um caso sério de popularidade, como seria a revista “Mad”, que atingiria os 50 anos de edição (1952/2004), um caso raro na Banda Desenhada. Gaines e Feldstein possuíam uma equipa fabulosa de desenhadores, um potentado na criação e realização das histórias. Os textos eram enquadrados em 5 a 8 páginas e os desenhos criados de uma forma perfeita. Cada vinheta talvez se apresentasse com demasiado texto, mas na época era deste modo que, de uma maneira geral, todas as aventuras eram criadas, fossem sobre que tema fossem. As histórias não tinham limite na sua concepção e embora fossem contadas de variadíssimas formas através dos bruxos (o Zelador da Cripta e o Guardião da Câmara) ou da bruxa (a Bruxa do Caldeirão), havia para todos os gostos e com imensos fins: A assassina que cai ao poço, uma mão decepada ligada a uma máquina, uma máscara que se torna o rosto da personagem, a domadora de leões cujo rosto é uma chaga, um vudu mal concebido, um lobisomem à solta, um pesadelo que se torna verdadeiro, um programa de televisão de terror, o encontro com a bruxa nos esgotos, o caldeirão da bruxa onde poderá cair, o túnel do terror, as múmias que ressuscitam, um monstro no pântano, o tal conto de Poe em que o gato é emparedado com a esposa morta, a casa de terror ou assombrada, um conto de encantar que acaba mal, a violência doméstica levada a todos extremos, mesmo à morte, os vampiros mulher ou homem e poderíamos continuar aqui a apresentar temas que as histórias ao longo da sua publicação foram apresentando. Hoje já não serão novidade para ninguém, pois são já conhecidas na sua maior parte. No entanto em cada uma delas havia um fundo moral que não passava despercebido ao leitor mais atento. As revistas eram todas publicadas a cores, como era normal acontecer nestas edições.

A equipa dos desenhadores além de terem um grande talento eram novos, cheios de boa vontade e desejo de criarem novos projectos. E o sucesso foi garantido durante poucos anos, já que em 1954 o senador Joseph McCarthy resolveu acusar as revistas de terror, como um instrumento maligno e fruto de incentivo ao crime e à violência. Autos de fé verificaram-se em várias cidades dos Estados Unidos, onde milhares de revistas seriam queimadas por grupos fanáticos. Ao mesmo tempo nas bancas as revistas, conforme chegavam da editora, eram escondidas para evitar sinais de violência dos mais exaltados. O livro “Seduction of Innocent” do Dr. Fredric Warthman veio lançar mais achas para a fogueira e o Senado Americano resolveu atacar as revistas da editora através da criação de uma comissão de censura que, por sua vez, promulgou o “Comics Code”, regras a que todas as edições do género teriam que se submeter antes de serem lançadas à venda.

O mesmo aconteceria em Portugal ainda antes desta data, em França e outros países. Seria uma caça às bruxas completa que em pouco tempo não só desmotivou os argumentistas, desenhadores e editores como até os próprios leitores. E assim se manteria por alguns anos o panorama editorial e as revistas de terror quase foram esquecidas até que em 1958, James Warren, um editor e publicitário, resolveria lançar uma nova revista intitulada “Famous Monsters of Filmland” com as histórias de filmes de terror, com fotos dos mesmos e reportagens sobre vários monstros que entretanto tinham surgido no Cinema: “Frankenstein”(1931), “Drácula” (1931), “A Múmia“ (1932), A Noiva de Frankenstein” (1935), “O Lobisomem” (1941), “A Casa de Frankenstein “(1944),  “O Monstro da Lagoa Negra” (1954) e mais uma série de sequelas que apareceriam na 7.ª Arte.

Durante alguns anos tudo continuaria na mesma, até que em 1964 este mesmo editor lança a nova revista “Monster World”, que apresentava a quadrinização do filme “A Múmia”. No ano seguinte surgem então as revistas “Creepy” e “Eerie” com novas histórias de terror, igualmente com o aparecimento de novos desenhadores, os filipinos Nestor Redondo e Alfredo Alcala, os espanhóis Esteban Maroto e Ramon Torrents e de novo o Wallace Wood, um excepcional artista que nunca teve o sucesso que merecia. Esta última revista seria mais tarde editada em 1991 “Cripta de Terror” no Brasil e de novo editada em 2015/2016 com o nome de  “Cripta”, desta vez numa edição da Mythos.

Evidentemente que todas estas edições brasileiras nunca chegariam a atingir um grande sucesso nas vendas, mas valeram pela tentativa de ressurgir um tema que, embora não do apreço de todos os leitores, mas de alguns em número razoável e que mereciam voltar a ler histórias aos quadradinhos de terror. Nestas histórias não faltam o elemento da fantasia e uma série de acontecimentos estranhos, mas cuja intenção é lembrar que o ser humano tem outras vertentes de adquirir conhecimentos tão válidas como através do Cinema ou da Televisão.   

  

Será pois através das histórias aos quadradinhos que o leitor irá ter acesso a um mundo mágico, pouco provável de acontecer naquele século, mas que não está longe de ser uma realidade hoje, pelos acontecimentos que povoam o nosso mundo diariamente. Um sentimento de medo também seria uma constante para quem naqueles anos tinha a possibilidade de ter acesso e gostava de ler este material. Também essa era a intenção dos autores desses trabalhos, despertar novos sentimentos incluindo um pouco de medo. Pelo resultado alcançado e também pela sua divulgação, pensamos que tal seria alcançado com relativo êxito.

A BANDA DESENHADA DE TERROR EM PORTUGAL

Em Portugal o tema de terror na banda desenhada ficaria muito aquém das expectativas, embora tivéssemos ficado surpreendidos com a longevidade que a revista “Terror” com 104 números, editada pela Agência Portuguesa de Revistas veio a atingir. Quase todo o material que esta edição veio a publicar de 15/3/75 a 1/5/82 seria de origem espanhola e da autoria de desenhadores fracos. Trata-se de uma colecção com muito poucos atractivos, com excepção das capas.

Na década de 70 (já tinha surgido o 25 de Abril) a Portugal Press lança dois novos títulos sobre este tema, na tentativa de angariar alguns leitores mais. Surge então a revista “Zakarella” (1/3/76) que terá 28 números publicados, terminando em Março de 1978. Esta publicação terá lindas capas e uma figura feminina desenhada por Carlos Alberto Santos. A personagem tinha sido criada pelo Roussado Pinto, editor, escritor, jornalista e tradutor. As capas e as ilustrações serão, quanto a nós, o que de melhor tinha sido criado no género a nível mundial, mesmo ultrapassando “Vampirella”, a figura mais conhecida. Fabulosa e erótica, terá o seu sucesso, embora limitado no tempo. As aventuras serão unicamente vividas em texto, sempre ilustradas por lindas capas e ilustrações. A banda desenhada publicada será da autoria de vários desenhadores norte americanos, tais como Al Williamson, Reed Crandall, Joe Orlando e muitos mais. A qualidade era indiscutível. Um problema burocrático acabaria com a sua publicação, bem como com a de “Vampirella”, outra das edições da Portugal Press. O seu n.º1 aparece em 1/12/76, desaparecendo no n.º 17 (1/10/77). Esta personagem feminina terá José Gonzalez como autor principal da vampira, mas outros desenhadores serão também autores de outras histórias., tais como Esteban Maroto, Leo Wein, Denny ÓNeil, Auraleon, etc.. Há também uma edição da Portugal Press intitulada “Histórias Eróticas” da autoria de Jesus Blasco, no género erótico mas que se aproxima um pouco do terror…e é tudo.

                                                                                                            Carlos Gonçalves

Abolição da Pena de Morte em Portugal

Sessão Comemorativa  do 150.º Aniversário da
Abolição da Pena de Morte em Portugal
29 de Junho, 17h30. Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, Lisboa

A tragédia do homem, cadáver adiado, como lhe chamou Fernando Pessoa, não necessita dum remate extemporâneo no palco. É tensa bastante para dispensar um fim artificial, gizado por magarefes, megalómanos, potentados, racismos e ortodoxias. Por isso, humanos que somos, exijamos de forma inequívoca que seja dado a todos os povos um código de humanidade. Um código que garanta a cada cidadão o direito de morrer a sua própria morte“. – Miguel Torga, no colóquio internacional comemorativo do centenário da abolição da pena de morte, realizado em Coimbra, em 1967.

A Comissão dos Direitos Humanos, Questões Sociais e Assuntos da Natureza da Ordem dos Advogados organiza uma sessão comemorativa  do 150.º Aniversário da Abolição da Pena de Morte em Portugal, no próximo dia 29 de Junho, amanhã.

Portugal foi pioneiro na abolição da pena de morte, celebrando-se este ano os 150 anos da sua supressão para crimes civis, por Lei de 1 de Julho de 1867.

Tratou-se de um feito histórico em matéria de Direitos Humanos, tendo a Carta de Lei de abolição da pena de morte de 1867, de 1 de Julho, recebido a Marca do Património Europeu, em Abril de 2015.

A sessão comemorativa contará com as intervenções de Guilherme Figueiredo, Bastonário da Ordem dos Advogados, Alfredo Castanheira Neves, Presidente da Comissão dos Direitos Humanos, António Henriques Gaspar, Presidente do Supremo Tribunal de Justiça, Álvaro Laborinho Lúcio, Juiz Conselheiro, Luís Neiva Santos, Presidente Adjunto da Comissão dos Direitos Humanos e Manuel Magalhães e Silva, Advogado.

A sessão terá lugar no Salão Nobre D. Maria II da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa sita na Rua das Portas de Santo Antão, nº 89, Lisboa.

Convidam-se todos a participar. Este marco civilizacional, que tanto nos orgulha, merece ser recordado, celebrado e reforçado.

Entrada Livre.