Pedagogia aos Quadradinhos – Memórias dos Outros Tempos – dezanove

Recordei atrás que o ano de 1970 ficou assinalado por três “momentos” muito significativos na minha vida, um dos quais absolutamente determinante para o futuro. Os dois primeiros consistiram, como revelei, na “descoberta” de uma obra literária fundamental para a sistematização e sedimentação do gosto pessoal pelos quadradinhos, assim como na regular colaboração em programas da Rádio Escolar/Telescola, onde pude introduzir -de forma pioneira entre nós- a problemática pedagógica da BD.

O terceiro momento, aquele que foi determinante no meu próprio futuro, consistiu no ingresso no Ensino Preparatório.

Como já aludi, em 1968-69 experimentara este novo Ciclo quando aí ministrei aulas de Matemática e Ciências da Natureza, não me tendo seduzido essa prática docente, que voluntariamente abandonei.

Porém, nos princípios de Outubro de 1970, surgiria uma nova e aliciante oportunidade.

Nunca esqueci o momento em que o José Malpique, colega e amigo de há anos, me convidou para essa inesperada “aventura”. Ele era ao tempo sub-director da Escola Preparatória, dirigida pelo Dr. Plínio Serrote, que comigo integrara uma edilidade portalegrense nos anos 60. A questão era muito simples: havia na Escola dois horários completos e livres como professor de Desenho e um destes estava à minha disposição.

Reencontrar-me com a vocação de sempre era um desafio pessoal quase incontornável. Apenas existia um alternativo “obstáculo”: a aceitação implicava a exoneração do Ensino Primário e o ingresso na base de uma nova carreira com um futuro incerto…

O vencimento era superior, mas não era pago nas férias grandes, renovando-se o contrato em cada ano lectivo, até uma eventual profissionalização com contornos então ainda não definidos. Ou até à saída…

Tratava-se de uma decisão difícil, para a qual me foi concedido -apenas- o prazo de um fim-de-semana. A Adrilete, na sua activa cumplicidade, teve um papel determinante na minha aceitação daquele que era um autêntico desafio, pelos riscos inerentes.

No dia 17 de Outubro de 1970 assinei o pedido de exoneração como professor efectivo do Ensino Primário, tendo subscrito três dias depois um contrato como professor provisório do 5.º Grupo (Desenho) no Ciclo Preparatório.

O meu objectivo, assumido em família, era o de iniciar uma nova carreira, provavelmente a que teria seguido se o meu destino tivesse possibilitado o sonhado Curso das Belas-Artes. Se este propósito falhasse, por qualquer insuspeito motivo, ficara então decidido que não voltaria ao Ensino Primário. Apesar da minha aversão a trabalhos rotineiros de secretaria, tentaria ingressar num banco -era então o emprego mais desejado!- ou nos serviços das Caixas de Previdência para os quais tanto me aliciara o malogrado primo João José.

Assim entrei na Escola Cristóvão Falcão, que deixara as precárias instalações de São Francisco e se alojara no excelente espaço do anterior Colégio Feminino, nos inícios da Estrada do Bonfim.

Senti-me muito motivado na nova missão pedagógica, onde a vocação natural se aliou à vontade de acertar e, acrescente-se, ao apoio recebido.

Da novel programação curricular do Ciclo constava a iniciação à Banda Desenhada, como modo de expressão tratado no Desenho e na Língua Pátria. Os manuais desta disciplina incluíam uma espécie de “catecismo” dos quadradinhos, quase sempre reduzido ao formal e a “receitas” prévias, pouco deixando à criatividade. Nas turmas que leccionei, sempre em estreita cooperação com o colega do Português, tratámos do tema de modo bem diverso.

O director da Escola, que já me conhecia das lides autárquicas, depositou inteira confiança no meu trabalho. Pouco a pouco, a nossa instituição foi enriquecendo o seu património com forte aposta nos meios audiovisuais da época, projectores de diapositivos e de cinema (super 8), máquinas fotográficas, gira-discos, gravadores de som, retroprojectores, episcópios e pouco mais. A aquisição de uma máquina de filmar, sonora, foi um autêntico requinte…

Algumas embaixadas, nomeadamente as do Canadá e da França, forneciam-nos por empréstimo material de excelente qualidade e oportunidade pedagógica.

A minha sala de aulas teve mesmo direito a cortinas de feltro negro que permitiam grande autonomia nas frequentes projecções que ali praticava.

Assim, nos anos imediatos, vivi a progressiva transformação do espírito da disciplina, do Desenho para a Educação Visual.

Pareceu premonitório um programa –O Desenho e a Vida– que elaborara para a Rádio Escolar em Março desse ano da 1970. Um outro –Viagem ao Reino da Fantasia – A Linguagem das Linhas, das Formas e das Cores– demonstraria, em Dezembro do mesmíssimo 1970, a minha própria evolução…

Com efeito, creio ter plenamente assumido a passagem de uma prática clássica, da régua, do compasso e do esquadro, para a pura criatividade, o gozo estético, a não-directividade ou a ligação ao meio ambiente, em suma, passando do deleite das linhas e das sombras, da luz e do espaço, da textura, da estrutura e da cor, à Vida propriamente dita, nas suas essenciais componentes expressiva e comunicacional.

E, aqui, o cinema e em especial a banda desenhada têm um lugar privilegiado.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Cenas da vida lusitana há cinquenta anos – vinte e seis

Depois de assuntos mais ou menos exotéricos, como um teste à masculinidade das leitoras e ao seu horóscopo, as páginas dedicadas a Julho de 1968 pelo Almanaque da Crónica Feminina viraram-se para temas mais domésticos.

Assim, foram publicados um quadro preenchido com a verde simplicidade dos legumes, aliando a ecologia à dietética bem como um conjunto de conselhos relacionados com a arte de bem pôr uma mesa, depressa e bem…

A aplicação culinária das leguminosas manterá, ainda hoje, um certo interesse. Já a página sobre a “arquitectura” topográfica dos pratos, talheres e outros acessórios parece ultrapassada.

Será assim!?