Fonte do Rosário, Orai por vós!

Do apreciado “blog” Peniche Terra de Mar e Sol, de Carlos Tiago, reproduzo com admiração e justa vénia um “post” ali colocado no dia 26 de Outubro de 2016.

CULTURA ENCARCERADA

Sendo Peniche uma Terra cheia de História, uma Terra abençoada por Deus e uma Terra privilegiada pela Natureza, eu continuo sem perceber a razão pela qual teimamos em esconder o que de mais belo temos para oferecer a nós próprios e a quem nos visita. É flagrante o caso da Fonte do Rosário. De acordo com o Dr. Mariano Calado tratar-se-á de uma fonte de mergulho (não de surf) construída no século XVI ou XVII e, segundo a data gravada na pedra central do arco de entrada, 1717, talvez restaurada no século XVIII. Sei que muitas gerações, antes e depois da minha, ali se encontravam para as mais diversas brincadeiras, uma das quais era percorrer o túnel existente ao fundo do lado direito, o qual segundo os mais idosos teria comunicação com a Fortaleza de Peniche. Na página oficial do município sobre os locais a visitar em Peniche (das largas dezenas existentes, só lá estão 10) onde até há um/dois anos era possível ver que era um dos locais a visitar, embora tivesse a indicação de que estava fechado. Agora nem a isso teve direito. Foi simplesmente erradicado. Assim vai a Cultura em Peniche.

Vem esta recensão a propósito. Lamentavelmente e por diversas razões.

Resido em Peniche há mais de quatro anos e vim para ficar.

Logo nos primeiros tempos de residência, porque moro precisamente junto à Fonte do Rosário, fiquei algo fascinado por tal vizinhança. Procurei saber o que era possível sobre o monumento, invulgar, e dediquei-lhe então um “post” no meu próprio “blog” Largo dos Correios. Foi no dia 23 de Dezembro de 2012.

Até fiz mais, porque pretendi mudar esta mesma designação chamando-lhe Fonte do Rosário e substituindo a imagem do cabeçalho, que dominava o lema: Crónicas lagóias escritas algures em Peniche entre a Berlenga e o Baleal. Durou pouco essa fase (marítima!?) de delírio ou confusão e bem depressa regressei à minha inabalável condição de rural das montanhas de São Mamede. Sinto-me melhor ligado às raízes.

A Fonte do Rosário, valiosa peça do património histórico-cultural penichense permanece bem próxima, num percurso que realizei quotidianamente milhares de vezes. Mas nunca lá entrei. Nunca, até hoje, vi aberto aquele portão verde.

Aliás, consultando a informação oficial prestada pela autarquia penichense, dali consta a confirmação da importância cultural do monumento e a indisponibilidade do seu acesso: “Encerrada ao público“.

Pode perceber-se a dificuldade de manter aberta em permanência uma estrutura da responsabilidade autárquica, por razões económicas que se prendem com a sua manutenção, vigilância e protecção. Porém, esta indulgência deve assumir, e apenas, o tempo necessário para encontrar uma solução que pode passar, por exemplo, pela plena recuperação do espaço e seus “anexos” (túneis hoje impraticáveis ou quase) seguida  de um protocolo estabelecido com uma entidade credível que assegure -em termos responsáveis- o digno cumprimento desse encargo, incluindo a hipótese do pagamento -moderado- da entrada. Agradeceriam a comunidade local, os turistas e os estudiosos, em suma, a Cultura, o Turismo, o mercado de Trabalho, a própria Economia. É assim que hoje em dia, geralmente, estas questões são tratadas e resolvidas.

Mas em Peniche sente-se a ausência de uma política cultural coerente. Oficialmente, ou se abandona o património à sua sorte ou se intervém vandalizando-o.

Desprezando o presente imbróglio da Fortaleza, onde Peniche sofre a sua quase impotente condição de “barriga de aluguer” e pouco mais, lembro o ainda fresco caso da Praia dos Cães, onde ostensivamente se maltratou um local sagrado pela História e valioso pela Geologia. Como grotesca originalidade, dificilmente se poderia esperar pior…

Volto à Fonte do Rosário. Há dias, na habitual passagem junto ao seu portão, dei com a grelha em madeira -que antecede a entrada- partida e tombada sobre o buraco aberto no sumideiro das águas residuais. Não faço qualquer ideia sobre a data do incidente.

Não havendo ali -desgraçadamente- qualquer movimento de entradas e saídas, poderia supor-se que a segurança pública fica assegurada, por simples inércia. Mas há quem passe próximo e a possibilidade de um acidente pessoal não pode nem deve ser descartada.

Para além do aviso (!?) semi-público que aqui fica, para quem de direito e obrigação decidir em conformidade, a Fonte do Rosário mereceu voltar ao primeiro plano das minhas preocupações cívicas, como elementar exercício de activa cidadania.

Registei, sempre do exterior, as imagens que junto. Fica aqui a prova de que a Fonte do Rosário não se encontra apenas encerrada ao público. Muito mais grave do que tal constatação é a de que se encontra também encerrada ao entendimento dos próprios responsáveis autárquicos, absolutamente alheios ao lastimoso estado de desleixo e incúria em que se encontra, cheia de mato que um dia destes vai impor o uso de catanas para se romper caminho pelo corredor adiante até ao fontanário…

Subscrevendo na totalidade o texto Cultura Encarcerada acrescento-lhe: e Violada.

Termino perguntando: – E ninguém nesta terra deu pelo facto de sobre 1717 e 1957, datas inscritas nas pedras (tumulares!?) da Fonte do Rosário, passarem no presente ano de 2017 algumas redondas efemérides?

Pobre e linda Peniche abandonada…

António Martinó de Azevedo Coutinho

Dinossauriolândia

Em 30 de Setembro de 2012, vão quatro anos e meio passados, recordei aqui no “blog” um texto publicado no jornal Fonte Nova, de Portalegre. Isso acontecera em Junho de 1993, mais ou menos há um quarto de século. O artigo original, portanto, é quase, quase, do Jurássico, o que vem a propósito.
Transcrevo-o novamente, como em 2012, porque a ficção, sobretudo quando carregada de ironia, permanece como uma resposta saudável às maciças doses de cretinice com que nos continuamos a deparar no mais vulgar quotidiano. Acredito nesta terapia ao serviço da manutenção de alguma estabilidade mental.
Mas o pretexto mais próximo foi-me fornecido pela recente e oportuna iniciativa da autarquia da Lourinhã, “capital” nacional dos dinossauros. O seu futuro “Parque Jurássico”, ainda que dotado de forte sotaque germânico, prevê-se interessante. Por isso aqui ficam disponíveis, para o efeito, algumas sugestões personalizadas, já isentas de direitos autorais por terem caído no domínio público, ao virem de tão passados tempos e tão remotos lugares…

DINOSSAURIOLÂNDIA

Aqui há dias solicitei uma entrevista ao responsável lo­cal por um departamento ofi­cial ligado às questões do ambiente e dei-lhe conta do meu projecto.

Atenciosamente, chamando um assessor de­pois de me ter ouvido, ambos discutiram comigo alguns pormenores do dito projecto. Devo confessar que, depois da entrevista, não fiquei muito convencido de que tivessem atingido plenamente o alcance da minha proposta. Por isso mesmo, lembrei-me de a di­vulgar sumariamente aqui no jornal, na esperança de que alguém mais perspicaz entenda as virtualidades do projecto, sobretudo numa altura em que as multinacionais descobriram, finalmente, Portalegre.

Quero desde já esclarecer que me satisfaço com o lugar de administrador-geral da fu­tura empresa, abdicando dos naturais direitos de autor ine­rentes ao projecto.

Este, em boa verdade, nem sequer é completamente inédito, atendendo a que no pacote inicial das acções con­templadas pela Operação In­tegrada de Desenvolvimento do Norte Alentejano se pro­punha a instalação duma espécie de jardim zoológico em miniatura, na Quinta da Saúde. Para que conste, está escrito…

Por outro lado, já que a nível nacional perdemos há anos para a França o EuroDisney pelo qual tanto nos batemos, a minha pro­posta serviria de compensação para minimizar tal derrota do Governo de todos nós.

Depois deste já longo preâmbulo, chegou a altura de revelar -no concreto- as bases do projecto que concebi: nem mais nem menos a criação, neste Norte Alentejano, da Dinossauriolândia! Tal como o próprio nome deixa antever, tratar-se-á de um parque de diversões cuja atracção prin­cipal serão os dinossauros (ou dinossáurios, pode escrever-se de ambas as formas) que estão francamente na moda.

Pelos meus cálculos, bas­tará -na 1.ª fase- uma meia dúzia de hectares de terreno quanto mais selvagem me­lhor, pedregoso q.b., para imi­tar lindamente o Jurássico, período da era Mesozóica que aconteceu há uma data de milhões de anos, não sei quan­tos ao certo nem isso vem a propósito. O que interessa é contratar um bom arquitecto paisagista que faça aquilo parecer o tal Jurássico, sem tirar nem pôr. Os bichos pro­priamente ditos, que são a atracção mais importante, terão de ser encomendados a uma oficina da especialidade. Por constituírem mão-de-obra nacional, podem ser consul­tadas aquelas casas do Norte onde fabricam os gigantones e os cabeçudos, só com a diferença de que estes bichos é para mexerem, portanto têm de ser articulados. Também imaginei que poderiam ser insufláveis, o pior são os furos que talvez obrigassem a maiores gastos de manutenção. Creio que uma dúzia e meia de animais sorti­dos deve chegar, entre Brontosaurus, Tyrannosaurus rex, Cetiosaurus, etc. Basta con­sultar um manual da especiali­dade para saber na perfeição as respectivas medidas, fei­tios e cores. O King Kong fi­cará a perder de vista, coita­dinho…

A animação dos bichos deverá ser eléctrica, desde que a EDP garanta não haver fa­lhanços frequentes no forneci­mento de energia. Caso con­trário, funcionarão a pilhas, daquelas que se anunciam na televisão e que nunca mais acabam. Tudo previsto no projecto, como se vê! Quanto aos barulhos, uns discos de efeitos sonoros resolverão o problema ou pedir-se-á a co­laboração dos Parodiantes de Lisboa, muito bons no género. Com uns holofotes colocados a preceito, concluir-se-á o cenário, onde poderá haver uns toquezinhos pirotécnicos, incluindo morteiros e fogo preso.

O terreno será todo ve­dado, como nas reservas de caça, e instalar-se-á a bilheteira na entrada. As escolas, sindi­catos, lares da terceira idade e portadores do Cartão Jovem terão direito a descontos à semelhança do que sucede no Planetário ou nas Grutas de Mira d’Aire, desde que façam marcação prévia.

Provavelmente, desde que o contrato fosse vantajoso, o Spielberg dispensaria o seu recente filme em exclusivo. O pelouro da Cultura da C.M.P., com a experiência adquirida no Crisfal, poderia ser asso­ciado ao projecto, neste particular. Assim, num grande cinema de ar livre, tipo Drive In, e em sessões à meia-noite como convém neste género de fitas, teríamos “Jurassic Park”, num exclusivo pelo menos ibérico, para cá trazer­mos os nossos vizinhos de Valência, Fontañera, Marco, La Codosera e Badajoz.

Bem conversada, a cadeia Mc Donald’s instalar-se-ia com hamburgers próprios e quem sabe se o empório Coca-cola não criaria uma nova marca de refrigerantes adequada ao evento, no caso de ser abor­dado com técnicas agressivas de marketing. Isto para não falar na nova variedade –Dino– prevista para o efeito pelos Cafés Delta.

Em segredo, muito em segredo, seriam escavadas algumas pegadas autênticas de dinossauros em locais adequa­dos. Depois de ocasionalmente descobertas, discutir-se-ia com a Junta Autónoma das Estradas o desvio da nova auto-estrada Portalegre-Bruxelas, a fim de preservar tão importantes vestígios.

Na sequência da Rota dos Castelos, a Região de Turismo instituiria então a Rota dos Di­nossauros, com exposições de fotografias tridimensionais dos monstros, conferências do Pro­fessor Galopim de Carvalho sobre os mesmos, torneios de jogos paleolíticos tradicionais e provas de petiscos primitivos regionais, servidos por barbudos colabora­dores vestidos de peles de urso, grunhindo Ughs! de incitamento. O apoio hoteleiro ao em­preendimento seria assegurado por unidades modelo incluindo suites instaladas em cavernas dotadas de todas as comodidades, desde águas correntes, quente e fria, até ao ar condicionado e à direcção assistida.

A vastíssima abrangência socioeconómica do meu original projecto envolveria a reformulação do artesanato regional, passando os pastores a esculpir figuras de Rhamphorhyncus em bunho e co­chos de cortiça em forma de pegadas de Plessiosauro infantil. Em Nisa, os oleiros aprenderiam a modelar Brontassauros em­pedrados e as bordadeiras dedi­cariam os seus alinhavados ao delicado tema dos Tyranosauros rex. Provavelmente, a própria Manufactura de Tapeçarias ocupar-se-ia na criação de pequenas peças alusivas ao Jurássico, segundo cartões de Maluda e de Cargaleiro.

O pessoal do Parque Natural da Serra de S. Mamede equipar-se-ia segundo o figurino dos Flintstones, quando em serviço na área da Dinossauriolândia. Esta seria progressivamente ampliada à medida do inevitável êxito do projecto inicial, que se candidataria aos fundos comu­nitários e requereria o estatuto de Instituição de Utilidade Pública.

A instalação de um aeroporto, de um terminal TIR e, possivelmente, de um metropolitano de superfície fazem parte de fases sucessivas previstas no plano, de que aqui se deixaram apenas os traços gerais.

Espero que alguém acredite no projecto da Dinossauriolândia. O futuro passa por aí, pelo passado mais remoto. Caso contrário, estamos entregues aos bichos. 

António Martinó de Azevedo Coutinho