carta aberta aos amigos de peniche que correm comigo

Carta aberta aos amigos de Peniche que correm comigo

Não fui bafejado com o dom da capacidade de síntese, isto é, não sou capaz de dizer em poucas palavras o que outros conseguem simplificar de forma eficaz. Evito por isso (e por outros motivos!) comentar nas redes sociais…
Porém, a recente participação pessoal no Grande Prémio do Natal da EDP merece-me algumas reflexões, sobretudo como forma de agradecer tanto carinho manifestado a tal propósito.

Comecei a correr há cerca de três anos, numa prática que nunca antes experimentara. A minha vida “desportiva” sempre se limitara a uns passeios, ou caminhadas, com excepção de uma saudosa classe de ginástica de manutenção, liderada por um colega e amigo dessa área (o António Calha), há um bom par de anos… Após o aquecimento dedicávamo-nos ao basquetebol e eu até tinha certo jeito para os lançamentos de longa distância. Na visita anual de férias grandes do neto Manuel, em Portalegre, dávamos grandes passeios e não só aos domingos, como José Régio. Ponto final…

Tive portanto certa dificuldade em explicar aos meus incrédulos amigos de sempre que, aqui em Peniche, tinha começada a correr… aos 80 anos!

Senti necessidade de convívio quando a solidão pessoal me calhou pelo que a tímida aproximação ao grupo que via juntar-se num preciso local do meu itinerário matinal quotidiano surgiu como lógica. A minha iniciativa foi “premiada” pela possibilidade de um convívio com gente de superior qualidade humana. Eles corriam e eu comecei a correr, primeiro da forma perfeitamente “artesanal”, depois pouco a pouco aprendendo, desde o uso das sapatilhas adequadas ao controlo da respiração, do desejável equilíbrio e manutenção dos ritmos ao apoio técnico de um relógio especializado, tudo. Tudo.

Sou, em absoluto, um produto desse grupo. Detenho a mais rigorosa certeza de quanto devo aos amigos e companheiros, que me aconselham, acarinham e protegem. Devo-lhes o que sou hoje capaz de fazer, não sentindo isso como um capricho ou como uma proeza. Sei que corro com os meus músculos e tendões, impulsionado pelo meu esqueleto e pela vontade própria, mas reconheço com idêntica clareza a partilha, contagiosa, do espírito colectivo que me anima. Não seria capaz de fazer o que faço sem a estimulante companhia dos meus dedicados companheiros.

Corri os difíceis 10 quilómetros de Lisboa, da Pontinha aos Restauradores, em circunstâncias algo invulgares, pois vivi os três dias anteriores entre viagens e cerimónias tão gratas como cansativas, sem ter podido treinar.

Quando o amigo Quim Carinhas me telefonou na antevéspera, estava eu em Portalegre, senti que não podia faltar, embora isso me apetecesse e até fosse compreensível. A solidariedade de que sou alvo funcionava e, mesmo de longe, tinha alguém que pensava em mim…

A desvelada e competente companhia do meu dedicado companheiro foi absolutamente decisiva para que eu ultrapassasse a interminável subida inicial, os ventos contrários, os “diabólicos” viadutos e tudo o mais. Apesar do meu cansaço fiz um tempo praticamente igual ao da “memorável” prova em torno do mítica e escocês Loch Ness, onde corri solitário…

O restante do dia, tal como o início, foi vivido no seio dessa família mais alargada que é a fabulosa  “malta” do Peniche a Correr. E a jornada terminou em beleza, no apoio à invulgar mulher, atleta e camarada Irina Araújo, acompanhando-a na brilhante vitória do seu (e nosso) Golpilheira no pavilhão de Arneiros, Torres Vedras.

Foi o balanço posterior, ou rescaldo, da jornada dominical que me “obrigou” a estas confidências. As fotografias no facebook que ficaram a atestar a prova desencadearam um turbilhão de testemunhos onde a amizade se sobrepôs a tudo o mais. E os sentimentos são de tal modo intensos que as palavras se revelam demasiado pobres para exprimi-los.

Vejam-me como alguém que recebe de vós muito mais do que devolve. Não sou exemplo senão naquilo que está ao alcance de quem tenha vontade própria, algum espírito de sacrifício e, sobretudo, amigos como os que me assistem. Apenas isso, sem exageros ou omissões. Tão simples, assim, na demonstração do que vale a solidariedade bem assumida e melhor praticada.

A vida está, felizmente, muito para além das redes sociais…

Esta carta aberta aos amigos de Peniche que correm comigo tem o valor de desmontar as metáforas. Amigos há-os em Peniche e dos melhores, como em todos os sítios e quem corre connosco nem sempre nos exila ou despreza, bem pelo contrário. Aproxima-nos.

Compreendo os “ciúmes” do Luís Estêvão quando declara alto e bem som que eu estou a “passar-lhe a perna”, mas ele sabe como a sua desvelada companhia me permitiu vencer duas “maratonas” (leia-se Fogueiras 2016 e 2017), uma “tempestade perfeita” (Côderosa 2015) e um “deserto ardente” (Pataias 2017)…  Continuo a contar com ele, para a minha futura sobrevivência.

Com ele e com os dedicados camaradas dos treinos nas segundas, quartas e sextas, sobretudo Joel Pacheco (o líder), António Fernando e António Sousa (com o Carlos, quando aparece, ou o Colaço que tem feito gazeta!), para citar apenas os mais certinhos no acompanhamento personalizado. Afinal, cabem todos na minha gratidão, com igual destaque para a “grande líder” Vânia Alexandre mais o Mário Zarro e todos, todos os que mais ou menos correm comigo…

Também cabem na gratidão pessoal, e de que maneira!, aqueles que agora não correm nas pistas mas que continuam para sempre comigo na vida e na amizade, como Albertino Santos, que fez em Pataias 2016 o mesmo agora acontecido em Lisboa… Não esqueço!

É afinal Peniche a Correr no exemplar cumprimento da sua máxima, clara e oportunamente inscrita na parede da nossa sede: A AMIZADE É A MAIOR VITÓRIA.

Tão simples como isto.

Como confirmaram, não sei escrever comentários curtos e, mesmo assim, convido-vos para aceitarem aquilo, tanto!, que não fui capaz de escrever mas sinto.

António Martinó de Azevedo Coutinho