Dia Olímpico

O Dia Olímpico comemora-se anualmente a 23 de Junho.

Foi exactamente a 23 de Junho de 1894 que delegados de 12 países se reuniram na Universidade de Sorbonne, em Paris, e votaram por unanimidade a proposta idealizada por Pierre de Coubertin de voltar a organizar os Jogos Olímpicos.

Em todo o mundo são organizadas nessa data, pelos Comités Olímpicos Nacionais, actividades desportivas, culturais e educativas, tendo por base os três pilares “Mexe-te, Aprende e Descobre” e os Valores Olímpicos da Excelência, Amizade e Respeito.

Este ano, devido à pandemia da COVID-19, as celebrações do Dia Olímpico serão efectuadas de forma virtual e à distância. O Comité Olímpico Internacional propõe-se realizar a maior campanha digital global para assinalar esta importante data para o Movimento Olímpico sob o tema #Stay: #StayStrong, #StayHealthy, #StayActive, e o Comité Olímpico de Portugal (COP) será um dos parceiros.

O COP tem vindo a fazer a publicação diária de conteúdos digitais produzidos em conjunto com vários Atletas Olímpicos, que para além de partilharem as suas experiências nos deixam mensagens de incentivo e motivação.

A culminar, hoje, dia 23 de Junho, o COP fará o lançamento da 2.ª edição dos conteúdos do Programa de Educação Olímpica.

we are the champions ! – um

Com todo o respeito pelos ilustres participantes nesta luzida e bem ordenadinha parada, não entendi o aparato. Provavelmente, deve ser qualquer defeito dos meus neurónios.

Reunir a maior parte das primeiras figuras da Nação, tudo perfilado a rigor, para anunciar uns jogos de futebol, enfim, achei excessivo e parolo, a cheirar a terceiro-mundismo.

Confesso que ainda não consigo perceber bem se aquilo foi um prémio ou um castigo da Europa-do-pontapé-na-bola…

Depois, afirmar-se que aquela magna concessão era um prémio ao Serviço Nacional de Saúde parece daquelas anedotas de mau gosto, das quais nem o autor se consegue rir. Julgava eu que o prémio devido aos agentes do SNS, médicos, enfermeiros, técnicos e outros colaboradores seria o reconhecimento do seu corajoso, competente e dedicado trabalho, a sua devida compensação e a dotação de verbas dignas a um Serviço vital de que todos dependemos. Mas estava enganado, pois nada vale mais do que um torneio de futebol…

Estou para ver se aquilo vai meter gente da estranja nas bancadas, coisa agora proibida aos indígenas. Oxalá, para o bem de todos nós, que na altura dos jogos a pandemia esteja controlada e tudo, o futebol e sobretudo a vida, possa decorrer com a normalidade possível. Oxalá! Mas acho que neste momento ninguém poderá garanti-lo.

Enfim, repito, provavelmente por falha pessoal, não apreciei devidamente o espectáculo. Serei, talvez, um ingrato que não sabe reconhecer e agradecer o alcance do gesto dos nossos maiores. Que, apesar das boas intenções, nem sempre se têm distinguido pelo bom exemplo!

Senti-me tratado pela “carinhosa” tutela como um débil mental…

Há vinte anos, em Alvalade…

Era a penúltima jornada do campeonato nacional de futebol da época 1999-2000, há precisamente vinte anos, hoje cumpridos.

Nesse dia 6 de Maio de 2000, um sábado de chuva, fomos a Alvalade, ainda o anterior estádio, assistir à coroação da vitória final do Sporting, em jogo contra o seu eterno rival, o Benfica. O Porto estava próximo e era preciso ganhar.

Com mais familiares, o meu irmão e o meu sobrinho, estivemos na bancada a sofrer, encharcados com uma valente molha e, no final, com uma ainda mais fria desilusão.

O desafio foi uma decepção. Foi tão emocionante como mal jogado. Na primeira parte, o Benfica não fez um só remate de jeito à baliza de Schmeichel, mas o Sporting também não incomodou Enke por aí além. Na segunda parte, os verdes tiveram diversas oportunidades de golo, todas desperdiçadas. E, quase a terminar o jogo, o árbitro Lucílio Baptista assinalou, bem, um livre no limite da área, contra o Sporting. O egípcio Sabry marcou-o de tal maneira que Schmeichel só se mexeu para ir buscar a bola dentro das redes…

Um decepção, porque o Sporting poderia ter ali garantido a vitória no campeonato nacional logo ali. Foi apenas o adiamento por uma semana, pois então foi ganhar no terreno do Salgueiros por um concludente 4-0. E foi campeão.

O Tó Zé, meu filho, mais o Miguel e a Filipa, meus netos, porque o Manuel era ainda muito novo, fomos “apanhados” à entrada daquele jogo de Alvalade por um atento jornalista do Correio da Manhã, que estranhou ver uma garota equipada de vermelho no seio de um universo uniformemente verde… Aqui fica o testemunho.

A Filipa, que sempre teve, e tem, uma forte personalidade, era então benfiquista. Influência do avô João ou da avó Lé (Adrilete), talvez, mas o facto, ali ostensivo, foi assumido em plenitude pela miúda. E ela lá foi, com o seu flamante kispo vermelho e, sobretudo, com o seu discordante cachecol, vibrando depois como mais ninguém, em plena bancada verde, com o triunfo dos seus. E ninguém, absolutamente ninguém, se incomodou, ou a incomodou, por tal “anormalidade”! Outros tempos em que o desportivismo ainda estava em vigor.

A Filipa, pouco depois, reconheceria que não era aquela a sua verdadeira “paixão” clubista. Escreveu então à sua querida avó Lé um cuidado e explícito recado, onde se desculpava e dizia tratar-se de uma mudança provisória. (creio que a “explicação” se prendeu à sensacional transferência do João Vieira Pinto, que era o seu ídolo). Mas ela aprendeu depressa o que era um clube diferente e ficou para sempre no Sporting…

Ainda hoje vibra e sofre por ele, e assim será no futuro. Agora vamos de verde, todos juntos, para Alvalade, o novo estádio, ou para outros, como o Jamor. O Correio da Manhã, ou qualquer outro órgão de comunicação social, já não notaria dissonâncias cromáticas…

Este episódio de vida hoje recordado aconteceu há precisamente vinte anos, naquela inesquecível tarde de chuva fria no antigo Alvalade…

Uma nova História do Sporting

Uma nova história do Sporting

Apresentada como uma nova história do Sporting, os autores Paulo J. S. Barata e Luis Augusto Costa Dias contam em História do Sporting Clube de Portugal (Editora Contraponto), como o clube apareceu e se tornou uma das principais equipas portuguesas. Uma leitura não só para os adeptos.

A equipa do Sporting em 1922

Os antecedentes do futebol moderno e o contexto desportivo

Foi justamente no período de viragem de 1906 que seria fundado o Sporting Clube de Portugal, impulsionado sobretudo pelo pensamento, pela concepção do desporto e pela acção prática de José Alvalade.

Neste contexto da formação e desenvolvimento de grupos ou associações desportivas, vale a pena avaliar a importância do corte decisivo operado neste momento de viragem. Sem exaustão de exemplos, é de assinalar, antes de mais, que a prática de algumas das primeiras actividades desportivas, como a equitação ou a esgrima, eminentemente do âmbito da aristocracia militar, em que se competia ao ritmo da atribuição de troféus, muitas vezes promovidos pelos próprios competidores, não se congregava em torno de clubes ou associações. Mas as associações, quando organizadas em torno destas modalidades de elite, não deixaram de reflectir a origem social e profissional em que se inseriam; não se tratava apenas de uma elite titulada, propriamente aristocrática, mas também de uma elite dos negócios, a que se juntava uma elite corporativa das profissões militares e uma elite dos estratos superiores da classe média.

O Sporting Clube de Cascais, fundado em 1879, é o exemplo típico da ocupação desportiva e recreativa da Corte e dos seus áulicos, num ambiente selecto e em espaço socialmente restringido às elites tituladas por brasão ou chanceladas por grandes fortunas. As suas instalações situavam‑se nos terrenos régios conhecidos por Parada e pertencentes à Cidadela, estância de Verão da realeza e ícone da alta sociedade e do seu estilo de vida faustoso e ocioso, distinto e elegante.

Num patamar abaixo da escala social, surgem as corporações desportivas e recreativas mais ligadas a sectores profissionais próximos dessas elites mas ainda centradas na exibição mundana das classes superiores. São os casos da Real Associação Naval, desde 1856, e do Clube dos Aspirantes da Marinha, desde 1888, ambos ligados à Armada e que monopolizavam actividades como o remo, a vela, a natação. Outro caso é o do Real Ginásio Clube Português, fundado em 1875, primeiro ligado à Coroa e à instrução física dos príncipes, depois às escolas militares que desenvolviam exercícios gímnicos e, por último, à natação, à luta greco‑romana e ao boxe.

Uma nova história do Sporting que não é só para adeptos

Acresce, em 1893, o Grupo Pátria, formado a partir da carreira de tiro de Pedrouços, e posteriormente várias associações de «tiro de guerra», bem como, em 1897, o Centro Nacional de Esgrima, ligado ao exército. Estas verdadeiras corporações inseriam‑se nos espaços mundanos das elites, organizando competições a que o próprio rei e outras dignidades régias presidiam, presenteando‑as com os troféus em disputa. O ciclismo, com o Club Velocipedista em Lisboa, desde 1891, e o Velo Club do Porto, desde 1893, reuniam inicialmente o ócio de barões da corte e dos negócios, se bem que a actividade excursionista e a popularização da bicicleta, contando inclusivamente, a dada altura, com a participação de elementos femininos, tenham começado a abrir‑se à «participação de elementos de grupos sociais urbanos menos favorecidos» e chegado à prática nos clubes desportivos mais eclécticos na segunda década do século xx.

Ao mesmo tempo, surgiram pequenas competições populares em circuitos urbanos ao ar livre, muitas vezes promovidas por jornais desportivos que procuravam retirar efeitos mediáticos do espectáculo público, como foi o caso do jornal O Século, segundo corrobora José Pontes que, além de médico e cultor convicto do olimpismo, foi jornalista desportivo. Do mesmo modo, os sports atléticos, antecedentes do atletismo, começavam a federar‑se e a organizar competições entre clubes, afastando‑se do meio estritamente interno e fechado de cada associação ou dos certames a despique com outro rival, prática até então prevalecente.

Jordão, um jogador do Sporting

Os primeiros grupos de futebol: feitos e desfeitos

Além da passagem a escrito das «leis do jogo», da institucionalização dos clubes como entidades jurídicas e do aparecimento de estruturas federativas em que o futebol foi pioneiro, outro aspecto que marca a passagem da pré‑história à história do futebol é a passagem do «campo da bola» ao «estádio». Desde os primeiros grupos ou clubes de carácter informal, sem o reconhecimento jurídico por alvará a que eram obrigadas as associações desportivas, nem regulamentos internos que norteassem a sua existência colectiva, a evolução foi grande.

Ficava para trás o tempo dos grupos que funcionavam ao sabor da ocasião e do improviso, em núcleos de amigos e, sobretudo, em círculos aristocráticos ou de gentes endinheiradas, ao ritmo do despique ocasional. O processo de «autonomia do campo desportivo, com um quadro temporal próprio, criando regras universalmente aceites onde, teoricamente, todos participam em igualdade de condições», aliado à «existência de entidades reguladoras», «corresponde também a um tempo de modernidade em que o desporto incorpora uma dinâmica social característica da sociedade industrial competitiva, organizada racionalmente». Neste processo, o futebol teve um efeito acelerador do que veio a passar‑se com outras modalidades, mercê do impacto súbito e do reconhecimento público que rapidamente adquiriu. Daí a relevância da análise a essa modalidade que é hoje o desporto‑rei.

Os antecedentes do futebol moderno e o contexto desportivo

Numa série de quatro artigos, publicados em 1913, que o dirigente associativo Raúl Nunes consagrou ao «Futebol: a sua evolução em Portugal», o autor discerniu com razoável intuição, mesmo sem uma perspectiva crítica distanciada, a fronteira que nesse tempo se traçava: «Sem organização de espécie alguma, começou jogando‑se football há seguramente vinte anos.» Recuava, pois, à década de 90, compendiando a breves traços o percurso da modalidade, desde o tempo em que um círculo de «meia dúzia de entusiastas portugueses», juntamente «com alguns ingleses», «formaram os primeiros grupos» para disputa ao desafio, seguido de desforra.

Foi o tempo em que surgiu o Clube Lisbonense, reunindo jovens da elite de então, tais como Guilherme, Eduardo e Frederico Pinto Basto – que, enquanto estudantes em Inglaterra, experimentaram a novidade do futebol e, no regresso, trouxeram a bola e as botas do novo jogo -, Carlos Paiva Raposo, Herculano de Moura, Mariano Cardoso, Afonso e Carlos Vilar, Plantier e mais uns quantos amigos do mesmo círculo social.

Disputavam desafios com o Carcavelos Club, formado pelos empregados da Eastern Telegraph Company, a empresa inglesa de exploração do cabo submarino que, desde 1870, ligava o porto de Falmouth, na costa sul de Inglaterra, à ilha de Malta, em pleno Mediterrâneo. A Companhia estava sedeada na Quinta Nova, nas proximidades da costa da linha de Cascais, e a sua administração criou um clube privado, com recintos adequados a algumas modalidades desportivas de tradição tipicamente inglesa, e em ambiente fechado, disputando jogos em que participavam alguns administradores e pessoal de chefia. Começaram por desafiar um grupo de atletas do Real Ginásio Clube Português, que esporadicamente vestiam equipamento de futebol para terçar armas em campo aberto, e foram estes que, em 1891, no Campo Pequeno, pela primeira vez jogaram em público.

Até ao início do século xx, foram sendo criados, com maior ou menor frequência, agrupamentos ou clubes que disputavam desafios entre si, com particular relevo para os despiques entre teams ingleses e grupos portugueses. Do mesmo modo que trocavam entre si de jogadores, também facilmente criavam dissidências, operavam fusões ou simplesmente se extinguiam. Raúl Nunes fornece‑nos copiosa informação que afirmou ter resultado de «buscas intermináveis», que confirmámos, a par e passo, terem sido obtidas nas páginas do Diário Ilustrado, o primeiro jornal generalista a incluir uma secção de «Sport». Em resumo, pode dizer‑se que o percurso que vai do Club Lisbonense, fundado em 1892, à formação, em 1902, do Club Internacional de Foot‑ball (mais conhecido por C.I.F., ainda hoje existente e mantendo a grafia antiga, mas cujos estatutos apenas foram aprovados em 1911), com várias tentativas de reorganizações e junções de permeio, bem como a frequente entrada e saída de jogadores, representa com toda a propriedade estes primeiros tempos do «jogo». Pode dizer‑se que esta foi a era dos Pinto Basto, irmãos, filhos e primos de uma família que dominou o sport na capital. De forma concisa, o mesmo Raúl Nunes fixou as características deste tempo do futebol: «Indisciplina, falta de regras e o abandono do jogo por alguns players dos mais antigos». A amálgama de jogadores e das suas equipas era então uma prática comum, a mesma que levou, em 1902, à formação do Sport Club de Belas, a mais remota origem do Sporting Clube de Portugal, que será objeto de análise mais adiante. O mesmo autor, num dos textos da sua série de artigos, viu bem o que distinguiu «a nova fase que o futebol tomou» por volta de 1906 – «a organização de sociedades, ligas, uniões […] que por uma especial constituição regulamentar terá como base ou princípio o estabelecer a melhor harmonia e a melhor ordem, com regras seguras e inalteráveis, entre os seus agremiados», ou seja, o que permitiu o «definitivo enraizamento do futebol no nosso país» ou, de outro modo, a saída da sua pré‑história.

O caso de um dinossauro que, se o foi, extinguiu-se

De entre os primeiros clubes, atentas as condições de enquadramento no seu lugar e tempo histórico, um caso suscita reflexão: o de um clube cuja prematura e fugaz existência coincidiu, pelo acaso do nome, com outro posterior, em nada semelhante e sem raízes nem ligações comuns. Falamos do Foot‑ball Club do Porto, cuja primeira notícia da sua existência surgiu na imprensa, a 28 de Setembro de 1893, no lisboeta Diário Ilustrado, sendo essa data hoje considerada a da fundação do atual Futebol Clube do Porto.

Não se trata da data de um qualquer documento ou evento, anterior ou posterior, relativo à fundação da recém‑formada associação desportiva, mas de uma notícia de imprensa… O mais provável, aliás, é que o clube tivesse sido criado uns dias antes de 28 de Setembro, dada a referência inicial à sua fundação na própria notícia.

Diário de Notícias 14 Abril 2020