Fernão de Magalhães aos quadradinhos – dezanove

Em meados de Abril, já em plena pandemia e depois de alguns adiamentos, demos aqui início a esta série.

Tal como pretende o projecto traçado e então sumariado, entra-se agora na fase final da série. Iniciou-se esta com a reprodução, cronológica, das sucessivas histórias aos quadradinhos entre nós publicadas sobre o tema fascinante da primeira volta ao mundo, planeada e protagonizada pelo português Fernão de Magalhães e terminada pelo basco Sebastián Elcano.

O pretexto dos quinhentos anos dessa fantástica aventura foi a motivação central. Por isso, a reprodução das histórias serviu para uma prévia tentativa de desmontagem de mitos entretanto durante décadas criados em torno da histórica viagem. Fernão de Magalhães sempre fora apontado como uma espécie de traidor à Pátria, falsidade que os modernos historiadores se encarregaram de corrigir. Assim fizeram igualmente quanto à desmistificação da intenção inicial de dar a volta ao mundo, provando a sua esfericidade, dúvida que então já estava mais do que explicada…

A seguir à reprodução das historietas comentadas, procurou-se dar conta, igualmente sumária, dos estudos recentemente produzidos e divulgados, bem como das correcções e aditamentos entretanto consertados acerca da proeza do nosso navegador. Ao mesmo tempo, aludi aos recentes desentendimentos entre os dois países ibéricos que, em vez de reunirem esforços e fundos para em comum homenagearem os heróis, buscaram as divergências e não a união, o que a pandemia veio de alguma (oportuna!?) maneira disfarçar…

Um certo ciúme patrioteiro e uma ancestral rivalidade impossível de esbater criaram dispensáveis divisões onde se impunha uma sadia cooperação.

A épica e dramática jornada vivida há cinco séculos pelos descobridores de um novo mundo mereceria bem melhores intérpretes da uma justa e devida comemoração, em vão desperdiçada.

Termina-se aqui em breve a modestíssima mas empenhada comemoração que o Largo dos Correios decidiu dedicar ao acontecimento. Por isso, resta justificar a legenda História, ficção e fricções inscrita no cabeçalho. Voltemos, pois, aos quadradinhos.

A Gradiva é uma das editoras nacionais que mais atenta e cuidada preocupação tem vindo a dedicar à banda desenhada. Algumas das melhores edições que recentemente entre nós têm sido concretizadas neste campo são da sua responsabilidade.

Foi assim que, em Outubro de 2018, há quase dois anos, pela Gradiva conjuntamente com a Comissão Cultural da Marinha, foi lançado o álbum Magalhães – Até ao fim do mundo. 

Esta obra fora editada pela Glénat em 2012, sob o título Magellan, Justqu’au Bout du Monde. O autor do argumento é Christian Clot, sendo as ilustrações de Thomas Verguet  e Bastien Orenge.

O argumentista, Christian Clot, nascido em 1972, na cidade de Neuchâtel, na Suíça, dirige expedições de exploração científica em ambientes extremos no nosso planeta. Uma constante interrogação sobre a capacidade do ser humano de se adaptar ao meio ambiente rapidamente ligou as suas expedições ao trabalho científico.

Em paralelo com o seu trabalho de campo usa vários meios para dar a conhecer o planeta, os seus lugares mais remotos, os seus habitantes e a importância de ir atrás dos sonhos. Realizou vários filmes e já deu centenas de palestras. Mas foi na escrita que encontrou o meio de expressão perfeito para transmitir a sua visão do mundo.

Procura incentivar todos os leitores, sobretudo os mais jovens, a lutar para alcançarem os seus sonhos e a defender o respeito pelo planeta e os seus habitantes.

Entrando no mundo da BD, tornou-se director da série Explora da editora Glénat, tendo escrito o argumento de diversos álbuns de quadradinhos. Em Portugal, essa série passou a ser editada pela Gradiva com o título Descobridores.

Quanto a Thomas Verguet, este desenhador nasceu em Aix-en-Provence em 1981. Durante a adolescência dedicou-se principalmente à música clássica mas em breve começou a interessar-se por computação gráfica, efeitos especiais e quadradinhos. Foi convidado pelo estúdio parisiense Elyum para desenhar a história Magellan escrita pelo explorador Christian Clot e co-desenhada por Bastien Orenge para a coleçcão Explora de Glénat.

Bastien Orenge nasceu em 1989 em Le Havre. Desde muito jovem apreciou banda desenhada. Atraído pela arte, fez um bacharelado literário especializado em História das Artes. Depois faz aulas de desenho à noite na Escola de Belas Artes.

Em Outubro de 2010, entrou no projecto Magellan para a colecção Explora da Glénat, em colaboração com Thomas Verguet no desenho e Christian Clot no argumento, no seio do estúdio Elyum.

Esta é a sumária apresentação de uma obra notável nos domínios da BD.

Fernão de Magalhães aos quadradinhos – dezoito

Em 1998, tal como tinha acontecido em 1898, comemoraram-se em Portugal os 5.º e 4.º centenários da histórica viagem de Vasco da Gama. Com efeito, a descoberta do caminho marítimo para a Índia levou a Europa ao Mundo e trouxe o Mundo à Europa. Com a sua “assinatura”, Portugal tornou-se universal e deu ao continente europeu essa dimensão, fundando a Idade Moderna. Assim foi interpretada a façanha do navegador.

Mas entre nós, a chamada “mãe de todas as comemorações” terá sido, no contexto da época, a que em 1880 foi dedicada a Camões. Não devemos esquecer, pela sua dupla dimensão, os Centenários, Fundação e Restauração, em 1940.

Há pouco, tivemos o Centenário da I Grande Guerra, notável ainda que menos espectacular ou centralizado.

Sobre Fernão de Magalhães, deve lembrar-se uma curiosidade. Em 2008 o projecto e-escolinhas pretendia fornecer, ou vender abaixo do custo, um computador a cada aluno do 1.º ciclo da escolaridade. O nome do computador, versão portuguesa de um modelo da Microsoft foi, precisamente, Magalhães. Este computador foi exportado, em grande quantidade (cerca de 5 milhões), para a Venezuela. Mas esta não é, de todo, uma boa recordação…

E este ano, 2020, não fora a pandemia, teríamos os 500 anos da viagem de Fernão de Magalhães/Sebastián Elcano. A diferença, fundamental diferença, em relação às outras e citadas comemorações, é que esta seria “a meias”, isto é, ibérica.

O problema, logo à partida, é que a partilha levantou logo questões –diria eu- algo traumáticas.

Para Portugal, acontece que o navegador, apesar de português, fez a viagem –embora inacabada- ao serviço da coroa espanhola. Para Espanha, apesar de ter permitido pelo patrocínio a concretização de tal viagem, esta foi concebida e dirigida –no essencial- por um cidadão português. Os respectivos nacionalismos, tradicional e reciprocamente exacerbados, não encontram aqui uma plena satisfação.

A Real Academia Espanhola subscreveu um texto que em Portugal se tornou logo polémico: “Pero ya en 1517, Magallanes, enojado con D. Manuel de Portugal por no reconocer sus méritos, decide abandonar su país, dejar de servir a su Rey y viajar a España, concretamente a Sevilla, donde se instaló, contrajo matrimonio y desde entonces estuvo al servicio del Rey Carlos I, castellanizando su nombre portugués, Fernão de Magalhaes por Fernando de Magallanes. Y algo muy importante: cuando antes de partir la expedición dictó y firmó su testamento en el Alcázar de Sevilla, instituyó un mayorazgo en el que dejaba heredero a su hijo Rodrigo, nacido en Sevilla y, si éste falleciese sin descendencia, impone a su familia portuguesa que quien lo herede debería castellanizar su apellido, llevar sus armas y vivir en Castilla. Se considera por tanto un castellano más”.

Isto teve mais ou menos o efeito de pretender apagar um fogo lançando-lhe gasolina em cima…

Por outro lado, sobre as comemorações oficiais da viagem de Magalhães, houve duas resoluções do nosso Conselho de Ministros, com o envolvimento de uma série de ministérios e, sobretudo, uma viagem de circum-navegação da Sagres iniciada nos primeiros dias de 2020. Em nenhum dos documentos foi referido o facto de a viagem não ter sido feita ao serviço da coroa portuguesa, mas sim da espanhola.

Pareceu uma espécie de “vingança” a frio, mas nem tudo correu bem. Como se sabe, como que atingida pela maldição que vitimou Magalhães, também a Sagres não concluiu a viagem. Não foi uma guerrilha nas Filipinas, mas a pandemia que fez valer a sua implacável lei…

Os espanhóis seguiram uma outra linha, a de promover a todo o custo a personalidade e o papel do basco Sebastián Elcano. De um quase anónimo marinheiro, promovido por um incrível conjunto de circunstâncias a responsável máximo pela expedição sobrante e tendo o mérito de conseguir regressar à sua terra, pretenderam fazer o “herói” principal da viagem.

Os nacionalismos, ainda que “pacíficos” e mesmo no nosso tempo, não constituem uma norma saudável de comportamentos sociais.

Esconder ou interpretar de forma vesga uma parte da verdade produz discursos e práticas transviadas. Portugal e Espanha, países vizinhos autoproclamados irmãos, não deram aqui um exemplo de fraterna cooperação. A Democracia precisa se ser conservada a todo o custo, não apenas nos textos programáticos mas sobretudo nas vivências do quotidiano. Será que o salazarismo e o franquismo, de má memória, ainda nos condicionam?

A viagem de circum-navegação foi um feito incrível, constituindo-se como um acontecimento decisivo na História da Humanidade e não apenas nas crónicas ibéricas. A nacionalidade do comandante ou a bandeira das naus assumem uma importância apenas relativa. Porque Magalhães foi para Espanha e porque ali encontrou o apoio que lhe faltou na sua Pátria é –devia ser!- um pormenor insignificante em relação ao enorme feito concretizado. Mas fecharam-se aqui os pequenos horizontes domésticos em vez de se escancararem as grandes perspectivas universais.

A oportunidade para aprender e o pretexto para investigar foram dominados pela demagogia, de parte a parte.

Haverá ainda tempo para emendar a mão?