Pedagogia aos Quadradinhos – Memórias dos Outros Tempos – dezanove

Recordei atrás que o ano de 1970 ficou assinalado por três “momentos” muito significativos na minha vida, um dos quais absolutamente determinante para o futuro. Os dois primeiros consistiram, como revelei, na “descoberta” de uma obra literária fundamental para a sistematização e sedimentação do gosto pessoal pelos quadradinhos, assim como na regular colaboração em programas da Rádio Escolar/Telescola, onde pude introduzir -de forma pioneira entre nós- a problemática pedagógica da BD.

O terceiro momento, aquele que foi determinante no meu próprio futuro, consistiu no ingresso no Ensino Preparatório.

Como já aludi, em 1968-69 experimentara este novo Ciclo quando aí ministrei aulas de Matemática e Ciências da Natureza, não me tendo seduzido essa prática docente, que voluntariamente abandonei.

Porém, nos princípios de Outubro de 1970, surgiria uma nova e aliciante oportunidade.

Nunca esqueci o momento em que o José Malpique, colega e amigo de há anos, me convidou para essa inesperada “aventura”. Ele era ao tempo sub-director da Escola Preparatória, dirigida pelo Dr. Plínio Serrote, que comigo integrara uma edilidade portalegrense nos anos 60. A questão era muito simples: havia na Escola dois horários completos e livres como professor de Desenho e um destes estava à minha disposição.

Reencontrar-me com a vocação de sempre era um desafio pessoal quase incontornável. Apenas existia um alternativo “obstáculo”: a aceitação implicava a exoneração do Ensino Primário e o ingresso na base de uma nova carreira com um futuro incerto…

O vencimento era superior, mas não era pago nas férias grandes, renovando-se o contrato em cada ano lectivo, até uma eventual profissionalização com contornos então ainda não definidos. Ou até à saída…

Tratava-se de uma decisão difícil, para a qual me foi concedido -apenas- o prazo de um fim-de-semana. A Adrilete, na sua activa cumplicidade, teve um papel determinante na minha aceitação daquele que era um autêntico desafio, pelos riscos inerentes.

No dia 17 de Outubro de 1970 assinei o pedido de exoneração como professor efectivo do Ensino Primário, tendo subscrito três dias depois um contrato como professor provisório do 5.º Grupo (Desenho) no Ciclo Preparatório.

O meu objectivo, assumido em família, era o de iniciar uma nova carreira, provavelmente a que teria seguido se o meu destino tivesse possibilitado o sonhado Curso das Belas-Artes. Se este propósito falhasse, por qualquer insuspeito motivo, ficara então decidido que não voltaria ao Ensino Primário. Apesar da minha aversão a trabalhos rotineiros de secretaria, tentaria ingressar num banco -era então o emprego mais desejado!- ou nos serviços das Caixas de Previdência para os quais tanto me aliciara o malogrado primo João José.

Assim entrei na Escola Cristóvão Falcão, que deixara as precárias instalações de São Francisco e se alojara no excelente espaço do anterior Colégio Feminino, nos inícios da Estrada do Bonfim.

Senti-me muito motivado na nova missão pedagógica, onde a vocação natural se aliou à vontade de acertar e, acrescente-se, ao apoio recebido.

Da novel programação curricular do Ciclo constava a iniciação à Banda Desenhada, como modo de expressão tratado no Desenho e na Língua Pátria. Os manuais desta disciplina incluíam uma espécie de “catecismo” dos quadradinhos, quase sempre reduzido ao formal e a “receitas” prévias, pouco deixando à criatividade. Nas turmas que leccionei, sempre em estreita cooperação com o colega do Português, tratámos do tema de modo bem diverso.

O director da Escola, que já me conhecia das lides autárquicas, depositou inteira confiança no meu trabalho. Pouco a pouco, a nossa instituição foi enriquecendo o seu património com forte aposta nos meios audiovisuais da época, projectores de diapositivos e de cinema (super 8), máquinas fotográficas, gira-discos, gravadores de som, retroprojectores, episcópios e pouco mais. A aquisição de uma máquina de filmar, sonora, foi um autêntico requinte…

Algumas embaixadas, nomeadamente as do Canadá e da França, forneciam-nos por empréstimo material de excelente qualidade e oportunidade pedagógica.

A minha sala de aulas teve mesmo direito a cortinas de feltro negro que permitiam grande autonomia nas frequentes projecções que ali praticava.

Assim, nos anos imediatos, vivi a progressiva transformação do espírito da disciplina, do Desenho para a Educação Visual.

Pareceu premonitório um programa –O Desenho e a Vida– que elaborara para a Rádio Escolar em Março desse ano da 1970. Um outro –Viagem ao Reino da Fantasia – A Linguagem das Linhas, das Formas e das Cores– demonstraria, em Dezembro do mesmíssimo 1970, a minha própria evolução…

Com efeito, creio ter plenamente assumido a passagem de uma prática clássica, da régua, do compasso e do esquadro, para a pura criatividade, o gozo estético, a não-directividade ou a ligação ao meio ambiente, em suma, passando do deleite das linhas e das sombras, da luz e do espaço, da textura, da estrutura e da cor, à Vida propriamente dita, nas suas essenciais componentes expressiva e comunicacional.

E, aqui, o cinema e em especial a banda desenhada têm um lugar privilegiado.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin no Congo – 02

Conheci Tintin au Congo bem cedo. Pelo início dos anos 40, tinha para aí uns cinco ou seis anos, ainda não sabia ler e frequentava então em Portalegre alguns sítios fascinantes como a Pensão Vinte e Um, na Rua dos Canastreiros, a quinta do Eng. Maldonado, na Fontedeira, e a casa deste, ao Rossio.

Era precisamente no sótão desta casa mágica, nos altos do Café Luso, onde também havia passagens secretas e outras maravilhas sem conta para um miúdo como eu, que aí me encontrava com jornais e revistas, como O Papagaio. Eram exemplares avulsos, alguns sem capa ou apenas páginas e capas soltas, mas que deixavam adivinhar histórias fabulosas. Foi entre estas que me encontrei, e para o resto da vida, com Tintin.

Muito mais tarde conheceria a interessante crónica das relações de Adolfo Simões Müller, director da publicação, com Hergé, “pai” de Tintin. A verdade é que, poucos anos depois do nascimento do famoso jornalista belga, os portugueses tiveram a sorte de poder conhecê-lo, nas páginas coloridas de um famoso jornal infanto-juvenil da época. É certo que havia umas “pequenas” diferenças, mas não demos conta delas, nessa altura das nossas vidas.

Por exemplo, entre nós Tintin fora rebaptizado como Tim-Tim e Milou dava pelo nome de Rom-Rom, talvez -quem sabe!?- devido à versão do “acordo ortográfico” então em vigor… Mais, o título da aventura em causa mudara para Tim-Tim em Angola, imagine-se! Congo ou Angola eram para nós mais ou menos o mesmo; ficavam lá para as Áfricas, terras misteriosas e distantes, cenário, apenas cenário, das mais mirabolantes aventuras… e isto era a única coisa verdadeiramente importante.

Viajei nessa altura com Tim-Tim por sítios que nunca mais esqueci. Alguns destes, apenas alguns, já depois os conheci “ao vivo”; quanto a outros, andei pelas suas “bandas” próximas; aos restantes, nem sequer isso, mas um deles, a Escócia, está ainda na minha agenda pessoal de passeios pelo Mundo…

Estes lugares mais ou menos míticos (talvez até exóticos!) correspondem aos cenários onde decorriam as tais aventuras ao tempo transcritas nas páginas soltas de O Papagaio a que tinha acesso: Tim-Tim na América (3 – Tintin en Amérique, 1931-32), Tim-Tim no Oriente (5 – Le lotus bleu, 1934-35), Novas Aventuras de Tim-Tim (4 – Les cigares du pharaon, 1932-33), Tim-Tim em Angola (2 – Tintin au Congo, 1930-31), O Mistério da Orelha Quebrada (6 – L’oreille cassée, 1935-37), A Ilha Negra (7 – L’Île noire, 1937-38), Tim-Tim no Deserto (9 – Le crabe aux pinces d’or, 1940-41), sem título (10 – L’étoile mystérieuse, 1941-42) e O Segredo do Licorne (11 – Le secret de la Licorne, 1942-43). A informação complementar, entre parêntesis, contempla o número de ordem, título e datas da publicação original.

Em suma, das 11 primeiras aventuras de Tintin, apenas não foram divulgadas n’O Papagaio a primeira (Tintin au Pays des Soviets, 1929-30) e a oitava (Le Sceptre d’Ottokar, 1938-39), o que constitui uma autêntica proeza editorial para um pequeno país como nós. Disponho de uma segura teoria pessoal para “explicar” a “exclusão” destas duas histórias, mas isto ficará para outra oportunidade…

Entre 1936 e 1949, limites temporais da divulgação da obra de Hergé na revista nacional, foram aqui publicadas essas nove aventuras de Tintin, criadas entre 1930 e 1943, o que significa, em média, um insignificante “atraso” de cinco anos. Notável!

Voltemos ao Tim-Tim em Angola. As páginas soltas dessa história a que tive acesso, ainda mesmo antes de saber ler-lhes legendas e balões, fascinaram-me. A sua trama, muitas vezes reduzida aos inúmeros episódios (ou gags) inseridos no essencial do seu maravilhoso continuum narrativo, era já perceptível independentemente do fundamental acesso à leitura. Nem dava para percebermos as mutilações derivadas da grosseira remontagem a que os nossos gráficos submetiam as pranchas originais nem sequer o artificialismo do colorido, primário mas sedutor, com que a história “made in Portugal” mascar(r)-ava a produção “naïf” de Hergé, criada a preto e branco.

O meu reencontro seguinte com esta história remonta aos anos 60 -uma geração depois!- quando fui adquirindo, pouco a pouco, as aventuras de Tintin na sua edição francesa, da Casterman. Do Tintin au Congo consegui comprar o álbum relativo à história redesenhada em 1946, resumida a 62 páginas em vez das 110 originais e já devidamente colorida pelo autor e pela sua equipa.

Quanto a revistas portuguesas, teríamos de esperar pelos inícios de 1981 para que a versão nacional da revista Tintin recordasse novamente entre nós a história congolesa. O jornal Público, que à causa da difusão da BD de qualidade tem dedicado uma louvável atenção, editou e distribuiu em 2004 o álbum Tintin no Congo, correspondente à história de 1946.

A esta relação resta acrescentar uma edição “histórica”, que também possuo: a dos Archives Hergé, da Casterman, cujo 1.º volume (1973) é consagrado à reprodução fac-similada das três aventuras iniciais de Tintin (…au Pays des Soviets, 1929; …au Congo, 1930; …en Amérique, 1931) nas suas versões originais, a preto e branco e em mais de cem páginas cada uma.

Ao revelar assim todo este elevado grau pessoal de interesse, e até de fascínio, pela personalidade criativa de Hergé/Tintin, sinto-me no papel, quase surrealista, de um árbitro que, antes do decisivo encontro, se declarasse incondicional adepto de uma das equipas…

Proponho-me apresentar aqui, com o detalhe possível, o vasto, complexo e até melindroso “dossier” que alia o racismo à obra do autor belga. Poderei, após esta necessária “confissão”, manter-me isento e imparcial?

Apenas posso prometer nada ocultar do que sei e penso, do que muita gente sabe e pensa, sobre o tema em apreço e, sobretudo, comprometo-me com o uso da máxima objectividade possível nas citações, nas fontes e nos testemunhos. De um e de outro lado da barricada…

No entanto já revelei, com assumida lealdade, onde estou.

António Martinó de Azevedo Coutinho
SEGUNDA-FEIRA, JUNHO 07, 2010

Tintin no Congo – 01

Bienvenu Mbutu Montondo é um cidadão congolês estudante de Ciências Políticas em Bruxelas, na Bélgica. Há cerca de três anos, ele decidiu abrir um processo judicial, baseado numa lei belga que reprime o racismo. O objecto das suas persistentes demandas é um simples álbum de banda desenhada –Tintin au Congo– publicado originalmente em 1930/31. Ele pretendia a interdição desta obra, em virtude do seu carácter racista, ofensivo para com os negros.

Porém, as coisas não estão a correr completamente de feição para o senhor Bienvenu, que terá mentido ao tribunal sobre a sua profissão e que nem sequer parece dispor de recursos suficientes para custear as despesas do processo e para pagar os honorários dos seus sucessivos advogados.

O tribunal, que vem adiando uma decisão definitiva, emitirá em breve um novo despacho sobre a questão, embora não esteja de todo descartada a hipótese de se considerar incompetente para julgar a matéria em apreço.

Muito recentemente, o senhor Bienvenu, através de um novo advogado, parece ter modificado as suas acusações, pretendendo agora que o álbum seja retirado do mercado livreiro, ou que lhe seja apenso um aviso onde se informe qualquer interessado sobre o seu conteúdo ofensivo para os negros.

Nesta oportunidade, surgiu uma nova testemunha de acusação, o presidente do CRAN (Conselho Representativo das Associações Negras na França), o qual declarou que o lugar do livro é num museu, onde apenas possa ser consultado por adultos que queiram informar-se sobre a época colonial. E acrescenta a opinião de que um prefácio obrigatório deve esclarecer o eventual leitor sobre a natureza da obra que afirma a superioridade racial dos brancos sobre os negros.

Enfim, se não vir satisfeitas as suas reivindicações, o acusador vai prometendo que fará chegar um apelo ao Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e também, talvez, à Comissão de Direitos Humanos da União Africana.

Atendendo a que neste ano se comemoram os 50 anos da independência da República Democrática do Congo (o antigo Congo Belga) e que o rei dos belgas, Alberto II, se prepara para concretizar uma próxima visita real à sua antiga colónia, o caso tem sido abundantemente tratado nos meios de comunicação social, até mesmo entre nós. Oportunamente, também o “blog” A Voz Portalegrense se fez eco da interessante disputa.

Tudo isto tem feito correr imensa tinta. E promete fazer correr ainda muita mais…

Fará algum sentido atacar assim, precisamente agora, uma obra em quadradinhos divulgada desde há oitenta anos?

A verdade é que a iniciativa do senhor Bienvenu não surge isolada.

Basta atentar em alguns outros recentes episódios relacionados com Tintin au Congo. Por exemplo, a editora Little Brown, que iria reeditar esta obra nos Estados Unidos, decidiu retirá-la do seu planeamento. Quando publicar uma colecção “completa” da obra de Hergé, não divulgará essa sua aventura africana. Um porta-voz da editora, em declarações à Publisher’s Weekly, explicou que “dada a controvérsia em torno do álbum, sentimos que incluí-lo ofuscaria a verdadeira intenção da colecção, que é apresentar a extraordinária arte de Hergé e a sua notável contribuição para as artes gráficas”.

A Comissão para a Igualdade Racial da Grã-Bretanha, em 2007, solicitara também a proibição do álbum em causa, alegando que o mesmo continha imagens e “palavras de hediondo preconceito racial, onde nativos africanos são retratados como macacos e falam como imbecis”. A edição britânica não deixou de ser vendida, mas agora só pode ser encontrada junto a outros livros destinados a um público mais adulto, e é revestida por uma faixa de papel advertindo que o conteúdo pode ser ofensivo. No entanto, a venda do álbum disparou… O Daily Telegraph noticiou um aumento de 4000% na sua procura… A livraria “on line” Amazon colocou-o mesmo na 8.ª posição do “ranking” dos livros mais populares…

Porém, este efeito chegaria à África do Sul, onde uma reedição de Tintin au Congo causou polémica. A editora local, Human & Rousseau, recusou-se a publicar a prevista versão em língua “afrikander”, devido às queixas de que a aventura retrata os africanos como sub-humanos, imbecis e meio selvagens…

Ficou no entanto célebre a defesa da obra que o ministro francês da Cultura e da Comunicação, Frédéric Mitterrand, fez publicar no Journal Officiel em finais de 2009, como resposta à polémica interpelação de um deputado, Christian Vanneste (das direitas presidenciais), que solicitara informações sobre a censura a Tintin au Congo exigida por algumas associações ligadas à extrema esquerda política. Mas não devemos esquecer que logo o Movimento contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos (MRAP), uma das mais importantes organizações francesas nesta área, se pronunciou com dureza sobre o assunto, solicitando à editora Casterman que incluísse numa nova reedição do álbum uma explícita chamada de atenção a propósito de preconceitos raciais. Em vão…

Provavelmente, o incidente mais grave acerca de Tintin au Congo terá acontecido, também em 2009, quando a Biblioteca Municipal de Brooklyn (Nova York) baniu o álbum das prateleiras de livre acesso público. O que, curiosamente, nunca acontecera a Mein Kampf, de Adolf Hitler, por exemplo. Segundo um comunicado da Biblioteca, para consultar doravante Tintin au Congo bastará preencher um formulário e esperar vários dias…

Logo veementemente criticaram a censória decisão algumas organizações norte-americanas, como a União de Liberdades Civis de Nova York (NYCLU) ou a American Library Association, entre outras.

No entanto, e como corolário destes globalizados extremismos, começa a esboçar-se em certos “sites”, como o Internet Cinematical, um movimento de boicote ao filme de Spielberg, ainda em rodagem, sobre uma aventura de Tintin.

Portanto, Bienvenu Mbutu Montondo é apenas o mais recente participante nesta já longa cadeia de acusações contra Tintin au Congo.

Enfim, o que parece estar em causa é uma grave questão de racismo despoletada por uma história em BD, com quase um século de existência. Pelo seu inegável interesse como pela curiosidade inerente, vale a pena analisar o tema com alguma profundidade.

António Martinó de Azevedo Coutinho
Publicado originalmente na segunda-feira, 31 de Maio de 2010,
no “blog” A Voz Portalegrense

 

A BD vista por Carlos Gonçalves – quarenta e oito

JOSÉ GARCÊS, UM DESENHADOR COMPLETO – II

Estamos em 1955/56. Nos quatro anos seguintes as suas obras serão publicadas nas revistas “Cavaleiro Andante” e  “Camarada” nos anos de 1957/60. Enquanto na primeira os temas escolhidos serão as aventuras, na segunda a sua imaginação  e produção estão mais ligadas a vários trabalhos dedicados a figuras históricas, como se impunha, já que a publicação era uma edição da Mocidade Portuguesa.

Mas será nesta altura, e a partir de 1958, que a produção de José Garcês consegue manter um ritmo extraordinário, ao publicar na revista “Fagulha” e até  1973, cerca de 30 obras. Mas em paralelo a produção não pára e o ”Zorro” recebe dois trabalhos seus em 1964.

Em 1968 trabalha para o “Pisca-Pisca” e nos anos seguintes tem algumas ligações a revistas com reedições, como é o caso do “Mundo de Aventuras”, embora para aqui ainda crie “Os Cavaleiros de Almourol” em 1981 e para o “Tintin” “A Dama Pé de Cabra” de Alexandre Herculano e “O Santuário de Dudwa” no mesmo ano.

Em 1971 era o responsável pela parte gráfica da revista “Jacto”. Também tinha prestado pequenos trabalhos de ilustração em o “Zorro” e em “O Foguetão” em 1964. ”Girassol” com “Vago, O Tigre” o “Fungágá da Bicharada” com algumas histórias infantis quase finaliza a sua ligação às revistas de Banda Desenhada, mas na verdade também já não havia quase edições do género, com histórias de continuação.

Em 1985 temos “O Mosquito” – 5ª série onde José Garcês também colaborou.

                                      AS SUAS PRODUÇÕES EM ÁLBUNS

Mas se as revistas de banda desenhada já tinham sido quase extintas, era a altura de se debruçar sobre outro modo de dar a conhecer, também, o entusiasmo e a vontade de criar novos trabalhos do género, para outras gerações.

Começam então a surgir os álbuns, uma nova iniciativa de algumas editoras que desta forma colmatavam uma falha e procuravam igualmente novas formas de incentivar outros leitores a debruçarem-se sobra as Histórias aos Quadradinhos, mas desta vez de enredos completos, sem ter que esperar de semana para semana pelo desfecho da história. Tal prática já se tinha iniciado em finais dos anos 60 com a editora Ibis, mas só a Meribérica se atreverá numa aposta grande nesse campo, chegando a publicar algum material de origem portuguesa, mas muito pouco.

A Editorial Futura apostaria mais forte, com a sua colecção “Antologia da Banda Desenhada Portuguesa” onde será publicada a obra “Eurico, O Presbítero” de José Garcês.

Será mais tarde a Asa a pronunciar-se também com maior acuidade nesse campo, levando para o mercado  “A História de Portugal em BD” da autoria de José Garcês, com quatro magníficos álbuns entre 1987/88.

Depois de uma grande produção no campo das ilustrações para a “Colecção História Júnior”, começa de novo a produção deste artista com a criação de uma série de obras que passamos a destacar: “Bartolomeu Dias” (1988), “O Tambor” (1990), “Cristóvão Colombo” (1992/1993), “D. João V” (1994), “História do Jardim Zoológico” (1997) “História da Guarda” (1999), “O Lobo de Lorena” (2000), “História do Porto” (2001), “História de Oliveira do Hospital” (2001), “História de Ourém” (2002), “História de Portugal” (2003) (reedição e impressão num só volume), “História de Pinhel” (2004), “História de Faro” (2005), “História de Olhão” (2005), “O Lince Ibérico” (2011),”História de Silves” (2016) e ainda sem editor “História de Santo António de Lisboa”.

Todas estas obras não seriam possíveis sem a ajuda preciosa dos argumentos de Carmo Reis, Mascarenhas Barreto, Jorge Magalhães, Luís Miguel  Duarte e Bruno Pinto. 

                                                                                     Carlos Gonçalves

Um Mundial aos Quadradinhos

Estamos no final de mais um Mundial de Futebol transformado (ou transvertido!?) em Europeu. Afinal -e como cidadão europeu congratulo-me com o facto- fica desde já provado que o melhor futebol é presentemente praticado no Velho Mundo. As vedetas alheias ao nosso continente, Neymar, Messi, Salah e outras foram mandadas para casa, fazendo companhia ao nosso Cristiano Ronaldo, a David Silva ou a Tony Kross, já que nem todos os europeus sobraram até hoje.

É dia do escaldante França-Bélgica, sem dúvida duas das melhores selecções até agora comprovadas. Creio que uma destas será a próxima futura campeã, precisamente a que sobrar de hoje.

Porém, não é propriamente de futebol que quero falar, mas de BD.

É que a imprensa, sobretudo a francesa mais do que a belga, adaptou o duelo de mais logo numa espécie de disputa aos quadradinhos…

Astérix contra Tintin. Nem mais.

Foi o caso, entre outras, das edições de Le Parisien Dimanche, Le Journal du Dimanche e mesmo de L’Équipe, o famoso diário desportivo. Nas suas capas deram lugar a esta curiosa “fuga” para os quadradinhos.

Para além destas informações difundidas via Net, tive ontem acesso a um jornal em papel, impresso. Tratou-se de Aujourd’hui Dimanche, edição francesa dominical do Le Parisien Libéré. A sua capa e um desenvolvido “dossier” interior em muito ultrapassaram os domínios propriamente desportivos do encontro, projectando-o na clássica rivalidade nacional que divide franceses e belgas. A este título limito-me a reproduzir um pequeno quadro alusivo, onde são sumariamente reflectidas diferenças essenciais das respectivas monumentalidades, arte, canção, banda desenhada e gastronomia. Noutra secção trata-se de humor, literatura, ciclismo e política, imagine-se!

Mais, muito mais do que um simples desafio de futebol!

Tenho o maior apreço por Astérix e já aqui o provei por diversas vezes. Mas todos os habituais leitores do “blog” conhecem, sobremaneira, a minha mais forte inclinação no género. Tintin é, desde sempre, uma paixão.

Por isso, pode antecipar-se o meu desejo quanto ao resultado do França-Bélgica de mais logo. JE SUIS BELGE!

Quem vencerá, Astérix ou Tintin?

Espero vivamente que, apesar da inegável qualidade da equipa francesa, os belgas possam vencer. Nem que seja no prolongamento ou até nas grandes penalidades.

E, depois, que vençam a final.

O título de campeão do Mundo de futebol assentaria bem na equipa de Le Plat Pays, de Brel.

Como confidência, soube por fonte anónima mas segura que Tintin tem vindo a receber lições de Cristiano Ronaldo com particular incidência nos pontapés de bicicleta. Crê-se que Tintin espera vir a ser seleccionado para uma futura equipa dos Diables Rouges…

Em rigoroso exclusivo aqui fica um instantâneo captado num dos últimos treinos.

Entre jogos amigáveis, europeus e mundiais, estas duas selecções já se encontraram 73 vezes e é preciso recuar até 1904 para recordar o primeiro confronto. Os belgas saíram vitoriosos em 30 jogos, enquanto os franceses venceram 24. 19 partidas acabaram em empate. Também nos golos a Bélgica é a grande vencedora com 160 tentos contra 127 da França. Mas o último jogo entre as duas foi há três anos e desde então muita coisa mudou, o que torna este duelo num dos mais fascinantes encontros deste Campeonato do Mundo.

Com a expectativa de um bom jogo, deixo aqui os votos de que ganhe a melhor selecção. E que a melhor seja a Bélgica.