Hergé, Tintin e a Medicina – doze

As personagens principais

TINTIN

Tintin é um jovem, loiro, de altura mediana e tem uma mecha de cabelo muito particular e única. A sua idade é difícil de determinar; não é propriamente um adolescente, mas também não é um adulto. Como muitas vezes acontece com as personagens de quadradinhos, Tintin pouco mudou ao longo dos anos. De 1929 a 1983 manteve a sua aparência jovem e o próprio vestuário variou pouco, apenas a cor das meias ou da camisa. Só na último das suas aventuras completas publicada mudará as suas calças largas, à golf,  por jeans, mais à moda.

Ele é extremamente inteligente e espirituoso, tem muito mais força física do que aparenta, possui uma incrível facilidade para usar idiomas e sabe conduzir todos os tipos de veículos, incluindo aviões e tanques de guerra. É também um bom atirador. É uma pessoa íntegra que nunca aceita qualquer tipo de chantagem. É muito sensível perante a injustiça e capaz de sacrificar-se para ajudar os mais fracos. Um sacerdote lama dirá dele que tem o “coração puro”.

Um de seus melhores amigos é Tchang (para além do Capitão Haddock e de Milou), um adolescente chinês que conhece na sua quinta aventura, reforçando uma amizade que vai durar toda a vida. Este realmente é um alter-ego de Hergé, já que Tchang é baseado num autêntico amigo do autor, também dele separado por várias razões.

Tintin sempre aparece com o mesmo nome, que não tem necessariamente de ser o seu apelido (caso contrário não receberia correio para “Sr. Tintin”). Ao contrário de outras personagens da série, o leitor nunca conhecerá o seu nome completo (como acontece, por exemplo, com o malvado Roberto Rastapopoulos).

Capitão Archibald Haddock

Depois de sua aparição inicial, Haddock foi ganhando crescente protagonismo ao longo dos álbuns.

Na verdade, a riqueza de recursos desta personagem pode ser comparada com a de figuras próprias da novelística: uma de suas características é agir como um contraponto ao Tintin, sobretudo nos momentos em que este se torna “demasiado idealista.” Como curiosidade, os leitores não saberão o significado do apelido desta personagem até ao último álbum completo de Hergé. Este nome do marinheiro surgiu numa conversa que o autor teve com a sua esposa, em que esta mencionou que “haddock” significava um “triste peixe inglês”.

O capitão é descendente de um outro famoso homem do mar, o Cavaleiro Hadoque, marinheiro ao serviço do rei da França e grande inimigo do pirata Rackham le Rouge.

Geralmente assume uma vocação de burguês rural, ao invés se comportar como homem da alta sociedade europeia, especialmente após a descoberta do tesouro dos seus antepassados ​​e o sua estabilização no castelo de Moulinsart.

Além de alcoolismo, a que vamos nos referir mais tarde, é a sua linguagem que  tornou famosa esta personagem, sobretudo pelas exclamações proferidas em momentos de raiva, verdadeiros insultos que também têm sido objecto de estudo, para além das suas características de comicidade.

Milou

É um cão fox-terrier de pelo duro e branco, cujo nome se deve ao da primeira namorada de Hergé, quando tinha 18 anos. No entanto, é um macho. Dono e cão são tão inseparáveis ​​que durante muitos anos a série sobre as peripécias do intrépido repórter se intitulou As Aventuras de Tintin e Milou. Nos primeiros álbuns da série, Milou desempenha um papel central, porque é a única companhia do seu dono. Ambos mantêm verdadeiras conversas, onde o cão agora ocupa o lugar de confidente e do objector.

Ao contrário do seu dono, Milou é caracterizado por ter os pés firmemente assentes no chão; não está obcecado com a missão a cumprir, sendo a sua principal aspiração a tranquilidade, o que o leva muitas vezes a desconfiar das iniciativas de Tintin, chegando mesmo a criticar algumas destas, como quando considerou como uma “carnificina” a matança desenfreada de animais que ele levou a cabo na sua aventura Tintin no Congo.

Apesar de ser indeciso, por vezes, Milou liberta-se das suas hesitações quando se trata de resgatar Tintin, para o que recorre às suas criatividade e coragem. No entanto, às vezes é-lhe permitido vacilar entre um osso encontrado na estrada e o seu propósito fundamental de proteger o seu dono. O cão e o capitão são personagens da mesma ordem de grandeza, que equilibram com alegria aquilo que Tintin pode ter de excessivamente sábio ou virtuoso. Possivelmente é por esta razão que o papel de Milou ficou visivelmente diminuído após o aparecimento de Capitão Haddock na série.

Santo António, de José Garcês, em Portalegre I

Santo António em Banda Desenhada
José Garcês em Portalegre

A autarquia portalegrense concedeu o maior interesse à sugestão de ser apresentada em Portalegre a última obra publicada de um dos maiores desenhadores nacionais de BD, o “veterano” José Garcês. O facto de a temática desse álbum -a vida e obra de Santo António- ter uma profunda relação afectiva e simbólica com a Cidade, que tem o grande santo lisboeta como seu Padroeiro, levou a autarquia a inserir a cerimónia no programa oficial das suas Festas de 2017.

Desde quando era um jovem apaixonado pelos quadradinhos, sou admirador de José Garcês. Depois, a partir dos anos 80 do passado século, as nossas vidas tiveram diversas e gratas oportunidades de encontro e de convívio, criando e reforçando uma recíproca amizade.

É pois com o maior gosto que apresentarei a obra e, sobretudo, o seu autor que a Portalegre já dedicou no passado uma apreciável cumplicidade. Procurarei ainda salientar a diversificada presença e influência de Santo António na nossa cidade.

Para já quero aqui recordar, hoje e amanhã, o último e recente episódio da fértil vida pública de José Garcês. Na passada semana recebeu no Museu de Lisboa – Santo António  mais uma merecida homenagem, com a exposição dos originais deste álbum, que ficarão no futuro a enriquecer o valioso espólio museológico antoniano ali patente.

Nas palavras de apreço do director do Museu, Dr. Pedro Teotónio Pereira, ficou o testemunho do reconhecimento cultural devido ao artista. Por outro lado, ainda que isso hoje seja redundante, regista-se a importância social e documental concedida à banda desenhada nos mais altos níveis de avaliação crítica.

Com a devida vénia, e amplificando a sua intervenção, aqui reproduzo -em duas partes- o interessante catálogo alusivo à exposição Santo António na Banda Desenhada, actualmente patente no Museu de Lisboa – Santo António, num largo junto à Sé Patriarcal.

Hergé, Tintin e a Medicina – onze

22. Vol 714 pour Sydney

Esta aventura apareceu pela primeira vez nas páginas do semanário Tintin, entre 27 de Setembro de 1966 e 28 de Novembro de 1967. A sua primeira edição como o álbum independente ocorreu em 1968. A maior parte da história passa-se numa ilha perdida no Oceano Índico .

Argumento: Sob o pretexto de uma viagem a Sydney, ao Congresso Internacional de Astronáutica, numa escala em Jakarta coincidem os habituais protagonistas com Pst, um seu velho conhecido, que trabalha como piloto do milionário Carreidas, que muda aí de avião para terminar a viagem no seu jacto particular. Tudo desemboca numa aventura cheia de perigos, traições, soro da verdade, disputas e também fenómenos paranormais e erupções vulcânicas.

Comentário: Maravilhosamente ambientada graças a um sólido trabalho de documentação, a história é narrada de forma vibrante e intensa pela mistura de momentos trágicos com outros grotescos e cómicos. Ao contrário do que se poderia esperar de Hergé, este não conta uma aventura tradicional, mas desmistifica e parodia as personagens “más”. Ele também faz um aceno à parapsicologia cujo interesse pessoal era conhecido desde há algum tempo.

23. Tintin et les Picaros

O álbum apareceu em 1976 após 8 anos de preparação desde a publicação do volume anterior, tendo a história sido pré-publicada na revista Tintin um ano antes. É a última aventura concluída de Tintin. Curiosamente, este álbum foi de certo modo baseado no tema de Régis Debray e dos Tupamaros, acontecido no Uruguai, enquanto outros estudiosos assinalam que é inspirado na Nicarágua e na família Somoza. O título que Hergé tinha originalmente pretendido para ele era Tintin e os bigodudos.

Argumento: Tintin e os seus amigos regressam novamente à república de San Theodoros. Eles acabam no meio da selva, colaborando com o general Alcázar para o ajudar a tomar o poder ao seu eterno rival, o general Tapioca. Entretanto, tentam libertar Castafiore e a sua comitiva, detidos sob falsas acusações de conspiração. O golpe de Estado do general Alcázar triunfará sem se disparar um tiro, mas a mudança de regime não vai aliviar os males deste protótipo de república das bananas, onde tudo permanecerá no mesma.

Comentário: Tinha passado um longo tempo desde o último álbum. O próprio Hergé o admitiu: não mais trabalhando por prazer, pouco lhe importava fazê-lo. Provavelmente, devido a essa enorme expectativa, a aventura não recebeu elogios na época. Hoje, analisando-o com alguma perspectiva histórica, podemos concluir que é excelente.

Combina perfeitamente, num magistral ritmo narrativo, elementos de acção com episódios humorísticos e tudo contextualizado num cenário muito detalhado. Neste álbum produz-se a maior mudança em Tintin: troca as suas calças típicas e largas por jeans, pratica yoga e aparece com um capacete da motocicleta onde se vê um emblema hippie. 

24. Tintin et l’Alph-Art

É aquela que teria sido a vigésima quarta e mais recente aventura da série de Tintin. Hergé trabalhou nela até à sua morte, e o álbum foi publicado postumamente (apesar de não estar completo). Fanny Remi, viúva do autor, decidiu que o álbum seria publicado inacabado, tal como ele o havia deixado. A edição de 1986 consistiu em dois blocos: um com o projecto gráfico tal como  Hergé o pretendeu, e outro com uma transcrição dos diálogos semelhante a um texto teatral. A edição de 2004 apresenta-se numa forma completamente diferente, onde as pranchas do autor são misturados com as transcrições de diálogo,  destacando-se graficamente alguns detalhes interessantes.

Argumento: O enredo original é centrado no mundo das galerias de arte. Termina com uma vinheta na qual os “maus” conduzem Tintin com uma arma apontada às costas. Pode parecer óbvio que Tintin se terá salvo, assim terminando a história. No entanto, vários dados sugerem que poderia não acontecer realmente assim: segundo o testemunho de pessoas próximas dele, Hergé terá sugerido que Tintin poderia vir a morrer nesta sua última aventura. Estes indícios parecem apontar para um final pouco comum ou nada usual.

Comentário: Na época da morte de Hergé, em 3 de Março de 1983, a aventura não era mais do que um apontamento: três pranchas desenhadas a lápis, quarenta e duas no estado de esboços, e alguns escritos adicionais com parte do argumento da nova aventura. Discutiu-se então sobre aquilo que fazer com os elementos que estavam disponíveis, sendo estudada a possibilidade de ser concluído o álbum por intermédio de colaboradores de Hergé. No entanto, dado o estado muito preliminar do trabalho (por exemplo, não havia um final), foi descartada tal hipótese porque as contribuições externas teriam de ser excessivamente significativas. Após vários anos de uma certa carência de iniciativas, todos os dados indicam que este novo álbum de Tintin teria sido um dos melhores: o positivismo do traço e o entusiasmo que demonstra indicam que Hergé tinha conseguido uma linha condutora consistente para a história.

Hergé, Tintin e a Medicina – dez

19 . Coke en Stock

A aventura começou a ser divulgada na revista Tintin em 1956. Foi publicado em álbum em 1958. É a primeira aventura de Tintin que integra, recuperando-as, um grande número de personagens de episódios anteriores como o general Alcazar, o emir do Khemed e Abdallah, J. M. Dawson, Allan, o Dr. Müller, Oliveira da Figueira, Bianca Castafiore e Serafín Lampión. Hergé foi rotulado como racista, tendo publicado em 1967 uma nova edição do álbum, corrigida, onde modificou a forma de expressão oral das vítimas do tráfico de escravos.

Argumento: Nesta aventura, os nossos heróis vão viajar para o Khemed, um emirado árabe imaginário. O motivo inicial é o de esclarecer as razões de um golpe de Estado que ali aconteceu e na intenção de tentar libertar o emir, um seu velho conhecido. A história levará Tintin e o Capitão a bordo de um navio, o Ramona, onde descobrirão uma rede de tráfico de escravos em que está envolvido o malvado Roberto Rastapopoulos.

Comentário: Hergé começou uma de suas aventuras mais complicadas graças a um recorte de jornal e, até mesmo, embarcou com um colaborador num navio mercante para tirar fotos e fazer anotações. Coke en Stock tem sido criticado pelas suas estereotipias de africanos, tanto na aparência como no comportamento. Embora, obviamente, dotadas de bom coração, as personagens negras são retratadas como infantis e simplórias. No entanto, o álbum pretende fazer uma denúncia da escravatura que afecta os muçulmanos africanos em peregrinação a Meca.

 20. Tintin au Tibet

Começou a publicar-se na revista Tintin em 1958. Editada em álbum, em 1960, Hergé disse deste que é o seu favorito. A história foi escrita durante um período difícil de sua vida, quando ele estava a divorciar-se da primeira esposa e a iniciar um novo relacionamento sentimental.

Argumento: A história é diferente dos outros livros de Tintin, anteriores ou posteriores: não há inimigos e apenas integra um pequeno número de personagens. A história também é invulgarmente emotiva para Tintin: momentos de grande tensão emocional como a teimosa crença de Tintin na sobrevivência de Tchang depois de um acidente de avião nos Himalaias, a descoberta do urso de peluche na neve, o Capitão Haddock sacrificando-se para salvar Tintin, o regresso de Tharkey, o reencontro com Tchang e como o yeti perdeu o seu único amigo.

Comentário: É a mais espiritual e autobiográfica das obras de Hergé. Coincide com um momento de conflito interior do seu criador, como espécie de terapia psicanalítica nesses momentos. Tudo parece ser dominado pela cor branca de pureza em sintonia com a espiritualidade oriental. O álbum foi eleito como a melhor novela gráfica francesa de todos os tempos, num inquérito junto de profissionais, editores e críticos.

 21. Les Bijoux de la Castafiore

Pré-publicado na revista Tintin entre 4 de Julho de 1961 e 4 de Setembro de 1962, apareceu como álbum independente em 1963. É a mais “caseira” ou “doméstica” das histórias de Hergé. É contada com maestria como uma farsa.

Argumento: Esta aventura constitui um curioso divertimento que se demarca do habitual nos álbuns de Tintin: não há qualquer viagem nem acontecem grandes eventos ou mesmo actuam verdadeiros vilões. O protagonismo vai implicar uma mulher (Bianca Castafiore) aparecendo o restante como secundário em seu redor. A história é uma sucessão de erradas pistas e falsas aparições. Quando no fim é encontrada a esmeralda roubado tudo parece uma deliciosa desilusão: não houve maus nem conspirações.

Comentário: Parece o livro mais desconcertante da série. É uma autêntica anti-aventura protagonizada pelo mais aventureiro dos heróis de todos os tempo. Sem se sair de casa e depois de muitas vicissitudes, no final, nada acontece. Brilhante no argumento, amadurecida nos desenhos, divertida e animada como uma opereta, esta obra pode ser considerada como um clássico do século XX, que agrada mais aos adultos do que às crianças.