A banda desenhada vista por Jorge Gonçalves – dez

DEVIDO A UM ERRO DE NUMERAÇÃO, FOI PUBLICADA A PRIMEIRA PARTE (DE DUAS) DA RUBRICA “OS GRANDES MITOS DO OESTE” ANTES DA CONCLUSÃO (PARTE QUARTA) DA RUBRICA “OS COWBOYS DE ANTIGAMENTE”. DESFAZ-SE HOJE O ENGANO, COM O PEDIDO DE DESCULPAS AO AUTOR E AOS LEITORES. 

OS “COW-BOYS” DE ANTIGAMENTE – IV

A Ebal ainda não tinha entrado no desafio de publicar revistas a cores, com excepção das “Seleções Coloridas” que apareceram com as primeiras histórias de Walt Disney no Brasil e estas, sim, eram impressas a cores. Todas as outras eram impressas a sépia ou a preto e branco. Muitas vezes a impressão não era das melhores, mas o custo de tal decisão provavelmente seria uma aposta demasiado cara, como aconteceu no caso da Orbis Publicações. Entretanto a revista “Aí, Mocinho!” continuava o seu itinerário de edições com novas personagens de número para número:  “Rod Cameron”, “Tim Holt” de Frank Bolle e Dick Ayres, “Bat Masterson” de Ed Herron e Howard Nostrand e também Bob Powell. Os desenhadores vão-se revezando na criação das histórias para as várias personagens. Depois seria a vez de “Buck Jones” de origem inglesa, da autoria de vários desenhadores a trabalharem para Inglaterra. Estava esgotado o filão americano nesta publicação, mas ele iria continuar com títulos próprios e também apelativos, como seria o caso de “Álbum Gigante” publicado pela Ebal, a partir de Maio de 1949, mas que até aí tinha aparecido com outros temas, mas que alternadamente vai-se apresentando com histórias ligadas ao “Western”. Seguem-se as colecções “Superxis” aparecidas em Julho de 1950 num formato italiano pela primeira vez (o formato não conquistará os leitores, pelo que pouco tempo depois terá o formato A4, como as suas irmãs) e apresentará as aventuras de “Rex Allen” de Mike Arens, Russ Manning e muitos outros. Temos ainda as revistas “Gene Autry” de Jesse Marsh, Till Goodan e Jim Chambers, etc., iniciada em Abril de 1952,”Roy Rogers” datada de Abril de 1952, os “Reis do Faroeste” editado a partir Julho de 1953, com as histórias de variadas personagens, o “Zorro” a partir de Março de 1954, talvez um dos raros “heróis” que conseguiria ultrapassar os 500 títulos editados, o “Cowboy Romântico” lançado a partir de Julho de 1955, com histórias sem personagens específicas, mas abordando o tema do seu título, “O Herói” numa nova série datada de Setembro deste mesmo ano, com as aventuras de “Durango Kid” e “Kit Carson” e “Nevada” iniciado em Abril de 1957 com as aventuras de “Red Ryder” no início e as de “Durango Kid” e “Black Diamond” mais tarde. Mas é certo que a outra editora rival da Ebal também se debruçava sobre este mercado, que ainda mantinha os seus mais fieis leitores. A Rio Gráfica lança pois mais revistas, o “Cavaleiro Negro” (Black Ryder) de Syd Shores em Setembro de 1952,“Don Chicote” (Lash La Rue) aparece em 1955, em Maio de 1956 será a vez da publicação “Bronco Piler” (Red Ryder) e no ano seguinte nasce “Jerónimo”, uma personagem nova brasileira sobre o tema, criada por Edmundo Rodrigues, uma das grande promessas da Banda Desenhada brasileira.

Na década seguinte serão publicados alguns Almanaques pela Rio Gráfica também (edições que por enquanto era norma ser a Ebal a editá-las): O “Almanaque do Cavaleiro Negro” em 1963, o “Almanaque do Cavaleiro Fantasma” de 1964 e o “Almanaque do Flecha Ligeira” deste ano também. Mas a Ebal continuará a editar mais títulos e a apostar nas histórias de “cow-boys” com o lançamento de “O Juvenil Mensal” em Janeiro de 1962 com as aventuras de “Monte Hale”, “Tex Ritter”, etc.. O formato inicial era o italiano, até mudar pouco depois. Seguem-se exemplares publicados com as aventuras de “Ken Maynard” e depois com as de ”Tex Ritter” e de “Monte Hale”. Os anos sessenta reduzem drasticamente as edições sobre este tema. Só em Maio de 1970, serão publicadas as revistas “O Poderoso” com as aventuras de “Gunsmoke”, uma personagem criada em Inglaterra nas tiras dos jornais por Harry Bishop e que seria adaptada para os “comic–books” por Albert Giolitti e “Quadradinhos – 2ª Série” (Outubro de 1971)) com as aventuras de “Tim Relâmpago” (Range Rider) de August Lenox…

Mais tarde e em formatos mais reduzidos, a Ebal ainda irá publicar “Zorro de Bolso” (Fevereiro de 1973), “Zorro” em formatinho  (Junho de 1976), “Bonanza” (Agosto de 1976) e “Davy Crockett” (Agosto de 1981), depois de ter lançado uma colecção intitulada “Personagens do Oeste” em Janeiro de 1975, onde um grande desenhador italiano, Rino Albertarelli, se ocupa em retratar algumas personagens célebres no campo do “western”. Duas novas tentativas, sem grande sucesso, serão os álbuns com as aventuras “Bufalo Bill” e com “Buck Jones” lançados em Abril de 1974 o primeiro e em Agosto o segundo. Finalmente ainda será publicada uma nova série de “Aí, Mocinho!” em Novembro de 1986 com 8 números, numa última tentativa de ressuscitar o tema. Estava pois fechado o círculo dos “cow-boys”… pouco ou quase nada havia a acrescentar a este tema, pelo menos nas linhas em que vemos este meio de comunicação e esta forma de arte. 

No entanto, não deixámos de ser surpreendidos pela positiva com o aparecimento de uma nova personagem neste campo, “Jonah Hex” da autoria de John Albano e Tony Dezuniga em 1972. Mas embora de grande qualidade artística e mesmo a nível dos argumentos se tratasse de um obra de grande mérito, o nosso empenho e a nossa paixão ficaram por aqui.

OS DESENHADORES BRASILEIROS E AS SUAS CRIAÇÕES

Num capítulo aparte e de forma a salientar também os trabalhos de grandes desenhadores brasileiros neste campo, pois como nos anos 60, no Brasil, a Ebal era a editora que publicava todos os cowboys da TV, a Rio Gráfica, para dar continuidade às suas publicações dedicadas ao “western”, contratou desenhadores brasileiros para fazer face à procura das suas edições, em virtude de já não haver na origem (Estados Unidos da América), trabalhos originais.

Assim “Rocky Lane” seria desenhado por Primaggio Mantovi nas suas novas aventuras, o “Cavaleiro Negro” terá a adopção por parte de Walmir Amaral de Oliveira, Gutemberg Monteiro e Juarez Odilon, o “Cavaleiro Fantasma” será continuado por Walmir Amaral e Milton Sardella, o “Flecha Ligeira” terá novas histórias criadas por José Evaldo de Oliveira e “Texas Kid” passa a ser desenhado por Joaquim de Oliveira Monte… Algumas delas com êxito. Nada era mais natural e, provavelmente, alguns ou muitos dos seus leitores não se aperceberam de que as histórias tinham outra origem. A fórmula era simples. Um bom argumento, alguns enquadramentos de qualidade, um bom traço e estava encontrada a forma de entusiasmar de novo os leitores da altura. As histórias poderiam ter um pouco mais de páginas, de 10 a 20, pois às vezes planear um bom argumento em poucas pranchas torna-se difícil. De qualquer dos modos os trabalhos serão aceites e as revistas voltam a circular concorrendo com as da Ebal.

                                                                                                     CARLOS GONÇALVES

A Banda Desenhada vista por Carlos Gonçalves – nove

OS GRANDES MITOS DO OESTE (I)

Já há muito tempo que foram desmitificadas todas as grandes lendas do oeste norte-americano. Quem não conhece já a verdade de todas as figuras que povoaram e engrandeceram o western e a sua literatura. Jesse James era afinal um bandido, como os irmãos Dalton, o Juiz Roy Bean era um bêbado e megalómano, Buffalo Bill teve rasgos de popularidade devido a vários factos que o ajudaram nessa vertente e o circo que montou, para o fim, iria ainda mais salientar essa farsa.

Poderíamos depois ir ao duelo do O.K. Corral, que pouco mais foi que uma troca de 30 tiros em 30 segundos, em que quase nenhum dos participantes possuía habilidade nas armas para tal, com excepção talvez do irmão Tom McLaury (segundo algumas versões este seria morto desarmado, mais tarde). No fim desta confusão toda, morreram os dois irmãos McLaury e Billy Clanton e houve ferimentos em Virgil e em Morgan, mais graves e mais ligeiros em Doc Holliday. No final seria o fim desta parceria de contornos confusos e em que os irmãos Virgil, Wyatt e Morgan acabaram acusados de assassinato e, na audiência do julgamento, Morgan seria assassinado e Virgil incapacitado do seu braço esquerdo, num tiroteio nessa altura. Depois não nos podemos esquecer do grande ego do General Custer, que por teimosia viria a levar para a morte quase 300 soldados.

Depois ainda temos Bat Masterson, o homem dos sete ofícios e que acabaria por morrer de ataque cardíaco e que pouco tinha a ver com a sua lenda, ainda que tivesse sido xerife e um fraco actor de teatro. O xerife Pat Garrett era afinal um assassino e matava à traição. Butch Cassidy era um assaltante de comboios e ladrão, mas pelo menos, tanto quanto se sabe, não matou ninguém. Calamity Jane não era uma senhora, antes pelo contrário… Era pior que os pistoleiros. Haverá ainda os índios, mas estes na sua maior parte sofreram por serem índios e, além de sujeitos a várias sevícias, muitas vezes acabavam assassinados. Esse seria o caso de Touro Sentado, bem como seu filho. Gerónimo, que seria preso por 22 anos até morrer, Cavalo Louco foi trespassado por uma baioneta de um soldado e, segundo a lenda, “Mão Amarela” seria morto por Buffalo Bill em duelo…depois teríamos sim o genocídio sistemático das populações.

Índias, velhos, mulheres e crianças que eram mortos à traição pelos soldados, quando os guerreiros se encontravam na caça ou em luta com outras tribos (o pior mal que acabaria por ainda dizimar mais estas tribos… era o ódio que tinham umas raças pelas outras, que chegava às raias da loucura e a sacrifícios e torturas terríveis contra os vencidos). Também não faltaram as doenças propagadas pelos brancos para ajudar a matar, cada vez mais, os poucos índios que ainda sobreviviam.

OS GRANDES MITOS DO OESTE CRIADOS NA BANDA DESENHADA                         

Um dos desenhadores a estudar e a documentar-se sobre esse tema seria o italiano Rino Albertarelli, o que resultou na criação de 10 volumes publicados em Itália nos anos de 1974 e 1975 (e reeditados em 1994), com o título “I Protagonisti”. A série nasceu de uma ideia de Sergio Bonelli, em retratar algumas personagens ligadas ao desenvolvimento do Oeste norte-americano, mas de uma forma realista. Assim, Albertarelli desenvolveu um trabalho de pesquisa extremamente detalhado, cujo resultado seria a publicação desses 10 títulos. São biografias ilustradas que oferecem ao leitor mais interessado a verdadeira face daqueles homens que criaram o mito do Oeste. A colecção teve apenas 10 volumes porque Albertarelli faleceu a 21 de Setembro de 1974, durante os trabalhos, e o último volume foi completado pelo Sergio Toppi. Os títulos são os seguintes: George A. Custer, Gerônimo. Billy The Kid, Jed Smith (vagabundo da pradaria), Touro Sentado, Wyatt Earp, Wild Bill Hickcok, Frank Canton (caçador de recompensas), Bill Doolin (membro do bando dos Dalton) e Herman Lehman (o índio branco), são as personagens incluídas nesta colecção. No Brasil, a série teve 5 volumes entre 1975 e 1977, publicados pela antiga EBAL, com capas feitas pelo artista brasileiro António Euzébio. Os escolhidos foram os mais conhecidos: Billy The Kid, George A. Custer, Gerónimo, Wyatt Earp e Touro Sentado.

Não seria só Rino Albertarelli a criar estas biografias destes lendários homens do Oeste. Outro artista, mas desta vez espanhol, acabaria também por se interessar pelo tema dos Grandes Mitos do Oeste e retratou também, nos inícios dos anos 70, antes de Albertarlli, uma série de personagens sobre esse tema, só que destinada a ser publicada nos Estados Unidos, através da Agência de Joseph Toutain.

O seu sucesso foi imediato, pois a qualidade dos trabalhos deste desenhador era de grande impacto, devido ao uso dos negros. O interessante é que Albertarelli era também um desenhador de negros, pelo que os dois trabalhos assemelham-se muito graficamente, embora cada um deles dentro do seus próprios estilos. Seus traços são harmoniosos e as pinceladas de negro conseguem emoldurar de uma forma elegante cada uma  das vinhetas.

E neste caso falamos dos dois artistas. As histórias embora tentando ser o mais fiáveis possível, em relação aos factos conhecidos, pondo de parte a lenda, desempenham um papel recreativo ainda que didáctico. Consideram que em primeiro lugar está a parte lúdica e em segundo a histórica, e temos que admitir que a mesma acabaria, na maior parte das vezes, deturpada, principalmente no que respeita a este tema. A Literatura, o Cinema e a própria banda desenhada acabariam por criar factos que nem sempre eram verdadeiros. Para isso viriam também a contribuir um género de folhetins, tão do agrado de milhares de leitores que se deliciavam a ler essas aventuras. Era a chamada Literatura de Cordel, onde por exemplo “Buffalo Bill” possuía um papel importante no desenrolar da acção de cada novela, ultrapassando muitas vezes o real.

Mas não era só ele, “Texas Jack”, que quase ninguém sabe quem é, chamava-se John Wilson Vermillion (1842-1911) e era um pistoleiro que talvez tenha passado por Tombostone e talvez tenha ajudado Wyatt Earp na sua sede de vingança, no rescaldo do duelo de O.K. Corral, mas não participou neste… seria mais tarde que a sua actividade estaria ligada à família Earp, mas nada da fama que granjeou como “O Terror dos Índios”… dada pelos escritores das suas aventuras. A alcunha de “Texas Jack”, seria dada pelos seus amigos. A data da sua morte está em dúvida (1910 ou 1911?).

Conseguir-se saber hoje os pormenores e a verdade de todos os factos é na verdade impossível e separar a lenda do que mais tarde seria escrito pelos intervenientes na acção, pior. E não poderemos esquecer que alguns dos episódios, mais tarde descritos por alguns escritores, foram conhecidos através daqueles que nem sequer muitas vezes assistiram aos acontecimentos, havendo por isso sempre tendência para deturpar a sua veracidade.

Carlos Gonçalves

Hergé, Tintin e a Medicina – vinte e quatro (fim)

Termina-se hoje esta já longa série com a transcrição das Conclusões com que o médico pediatra espanhol dr. Guillermo Álvarez Calatuyd, especialista em gastroenterologia e nutrição, concluiu o seu original e interessante trabalho Hergé, Tintin e a Medicina, tese de doutoramento em Medicina, datada de 2015.

Como procurei mostrar, trata-se de uma obra meritória original, onde foi feita a análise  exaustiva das aventuras de Tintin sob uma perspectiva rigorosamente clínica.

Com a saudação devida ao autor, aqui ficam as suas:

CONCLUSÕES

  1. Hergé escreveu e desenhou durante quase seis décadas uma série de álbuns de aventuras bem documentadas na abordagem a questões relativas à medicina e à saúde, utilizando adequadamente tanto a patologia como o conhecimento médico existente nos momentos referidos na sua obra.
  2. Na abordagem que fez aos hábitos de saúde, alguns prejudiciais em várias das suas personagens e inapropriados, hoje em dia, para o público jovem a que estão destinadas as suas histórias, estes estão relacionados com a época em que foram referidos. Ainda assim, foi fiel aos valores morais que sempre teve presentes desde o momento em que assumiu com total responsabilidade que os destinatários naturais das suas criações eram crianças e jovens.
  3. Hergé, geralmente, trata com respeito a profissão médica e outros profissionais de saúde e, apenas nos casos em que parece que tal consideração é desdenhosa, como no que respeita aos psiquiatras, isso está mais relacionado com a avaliação estereotipada geralmente feita nos quadradinhos.
  4. É um artista inovador e à frente do seu tempo. Isto é amplamente demonstrado no campo da Ciência, tema desenvolvido com amplitude e detalhe nas aventuras de Tintin. Antecipa descobertas ou utiliza as mais recentes. Rigorosamente actualizado sobre todas as questões abordadas, apesar da época em que viveu, também mostrou o seu interesse pelo campo da Medicina.
  5. Hergé cresceu como artista e como ser humano à medida que foi desenvolvendo os sucessivos álbuns. De um grafismo elementar e de uma ideologia simplista, desde visões reducionistas e superficiais da realidade, o artista belga evoluiu até oferecer obras complexas de ficção excepcionalmente bem desenhadas e documentadas que disponibilizavam uma visão plena de matizes sobre o mundo que nos rodeia.
  6. Além das suspeitas psicanalíticas na intimidade de Hergé, a sua vida agitada e os seus relacionamentos pessoais e familiares com a doença mental podem ter algo a ver com a sua obra, onde está reflectida a insegurança do autor, significativamente influenciado pelos própiros problemas psicopatológicos e pelos do seu contexto.
  7. Embora tenha sido acusado de ser misógino, conservador e racista, assinalá-lo não equivale a um julgamento negativo do autor, que desenhou o seu último álbum completo há quase quarenta anos, e muito menos teria de ser tomado em consideração como exigência para que o seu trabalho fosse censurado. As obras artísticas e literárias devem ser julgadas ​​em seu contexto cultural e histórico. Em particular, os quadradinhos são expoentes da cultura e do momento histórico em que foram elaborados.
  8. As suas aventuras exemplificam e difundem estilos de vida que, embora tendo decorrido quase cem anos desde a primeira, ainda são válidos para as crianças de hoje, tais como a amizade, a honradez, a ética profissional, o perdão e a justiça. Apesar de sabermos que algumas de suas atitudes são vistas, a partir de uma perspectiva do século XXI, como obsoletas, isso não impede que Tintin possa ser uma referência útil para incentivar uma determinada atitude perante a vida, sabendo enfrentar problemas e partilhar valores como a amizade ou a fidelidade.
  9. A validade do Tintin e dos seus companheiros, traduzida por traços e cores marcantes, é indiscutível: as histórias de Hergé foram traduzidas em quase uma centena de línguas e dialectos e já vendeu mais de duzentos milhões de exemplares. As suas aventuras continuam a despertar paixões: mais reeditadas do que nunca, inspiram artistas, escritores, produtores e realizadores de cinema. Tintin encarna valores universais com os quais todos se podem identificar.
  10. Os milhões de leitores de várias gerações das aventuras de Tintin sempre aprenderam história, geografia e ciências com elas. As descrições de doenças, médicos e estilo de vida pareciam perdidas na memória de todos. Acreditamos que é justo prestar uma pequena homenagem a um autor que sempre mostrou grande interesse e dedicação pela Medicina na sua obra, em detalhes apenas apercebidos pelos médicos nos últimos anos.

Polina

Um filme colorido procura interpretar a história contada numa banda desenhada a preto e branco. Poderia sintetizar assim o que se passa neste momento com Polina, que acaba de chegar a Portugal tanto no cinema como na edição em papel. Mas esta síntese seria pobre e injusta.

As relações entre o cinema e os quadradinhos nasceram há muito. Se recorrermos a Luís Gasca, um reputado estudioso espanhol do tema, ele diz-nos em Tebeo y Cultura de Masas, Editorial Prensa Española, Madrid, 1996, que talvez tenham começado com uma versão da historieta L’Arroseur arrosé (1887), de Hermann Vogel, a ser transposta para a tela por Louis Lumiére, em 1895.

Desde então são milhares, largos milhares, os títulos de filmes que se confundem com os da banda desenhada, sobretudo aproveitando personagens, alguns nascidos na literatura ou na mitologia. As sagas de Batman, Capitão América, Capitão Marvel, Flash Gordon, Jungle Jim, Superman, Tarzan, Tintin ou Zorro são suficientes para confirmar o fenómeno, numa lista organizada de memória, de onde excluiu -por simples exemplo- toda uma multidão de cowboys célebres.

Polina pertence a um grupo diferente, porque é uma peça única, não explora o mito de uma personagem, não promete uma série e assenta rigorosamente num argumento original da banda desenhada.

Baseado na novela gráfica homónima de Bastien Vivès lançada em 2011, Polina centra-se numa jovem dançarina russa. Desde pequena que o objectivo de Polina é tornar-se primeira-bailarina no reputado Teatro Bolshoi, em Moscovo. Mas ao crescer afasta-se desse caminho por causa da pressão que os pais depositam nela e por descobrir a dança contemporânea, acabando por se mudar para França onde vai seguir um rumo diferente.

Esta adaptação cinematográfica não é, logo à partida, uma tarefa fácil, pretendendo contar na tela um argumento complexo e acidentado, a história de uma personagem enigmática animada por um sopro de liberdade.

O argumento, fundamental, terá germinado depois de Bastien Vivès visionar um vídeo da bailarina Polina Semionova.

Quando o álbum original surgiu nos inícios de 2011, muito rapidamente foi descoberto pelos leitores e logo a seguir aclamado pela crítica. Depois vieram sucessivos prémios.

Polina, como banda desenhada, pode não agradar a todos os leitores.

O traço de caneta do autor é grosso, deliberadamente quase esquecendo os detalhes de rostos, as dobras dos vestidos e até os vários acessórios, concentrando-se totalmente na pura emoção e sobretudo na linguagem corporal.

Desprovido de cor, o preto-branco-cinza cria uma atmosfera despojada e um cenário minimalista, o que  força o leitor a aplicar as suas próprias cores neste universo, um contraste permanente de luz e sombra.

Ora a presente transposição, ainda que adaptada a outra linguagem, onde sobretudo o movimento é decisivo, não pode contemplar a exemplar subjectividade da obra original.

Não se prognostica, por tudo isto, um futuro de grandes êxitos para o filme Polina, apesar das óbvias e honestas intenções colocadas na sua competente realização de Valère Müller e Angelin Preljocaj.

A banda desenhada vista por Jorge Gonçalves – oito

OS “COW-BOYS” DE ANTIGAMENTE – III

OS “COW-BOYS” NO BRASIL

Se até aqui já focámos algumas personagens, revistas, histórias e autores, esta é uma rubrica que nos encanta sobremaneira, pois o Brasil foi um dos países (juntamente com a Argentina), onde os “comic-books” proliferavam do mesmo modo que nos Estados Unidos da América. E o nosso país, mesmo muito pequeno e com poucos leitores e apreciadores de Banda Desenhada, tinha o privilégio de receber, e ser exposta nos escaparates, uma larga série de títulos editados no Brasil. Na altura e devido à nossa juventude as possibilidades económicas eram pequenas e cada revista custava desde 2$50 a 4$00, o que era incomportável para a nossa bolsa. A solução era procurar nos vendedores de segunda-mão, que se espalhavam pela cidade, alguns em pontos fixos, perto do Éden Cinema, do Salão Lisboa, do Jardim Cinema, do Cine Oriente e do Olympia e outros em vão de escada, na Praça de Chile e na Rua Almirante Reis. Nestes comerciantes e através de uma moeda de um escudo, trocávamos uma revista por outra que ainda não tínhamos lido. Se houvesse mais dinheiro, comprava-se o exemplar que na altura custava quase tanto como a revista nova. O número de exemplares à venda também não abundava e muitas vezes apareciam em mau estado, pois muitos jovens de melhores posses financeiras compravam directamente as revistas e coleccionavam-nas. As primeiras revistas a que tivemos acesso seriam o “Guri”, “Gibi” e “O Globo Juvenil” todas com datas de finais dos anos 40, princípios de 50. O tema forte eram os “super-heróis”. Era uma panóplia de personagens, como do costume e o “Batman” ainda se chamava “O Homem Morcego”, mas de vez em quando vinha uma ou outra história de “cow-boys”, tais como as de “Flecha Dourada”, de Bill Parker e Greg Duncan, “Hopalong Cassidy” e “Rod Cameron”.

Este último era escrito por Otto Binder e desenhado por Clement Weisbecker. As primeiras revistas que apareceram de “cow-boys” no Brasil, e consequentemente cá, não se apresentavam com as belas capas das norte-americanas. Tal só viria a acontecer meia dúzia de anos depois. Mas a Ebal, uma das editoras principais daquele país, não deixou de oferecer aos seus leitores muitas das personagens que viriam a alcançar o merecido sucesso. A primeira dessas revistas será “Aí, Mocinho!” datada de Novembro de 1949 e que irá publicar uma primeira série com 100 números, com as aventuras de “Black Diamond” de William Overgard, com desenhos de Claude Moore, Tony DiPrieta, Fred Guardineer, etc.. Mas as personagens vão mudando de número para número e, embora “Black Diamond” seja a estrela de elite, todas as outras personagens viviam as suas aventuras cheias de risco e não eram menos apreciadas que as do “herói” principal. Os desenhos eram igualmente perfeitos, mas a tentativa de criar personagens para as revistas levava a uma produção desmesurada. Mesmo que algumas das histórias não se apresentassem com um “herói” titular, para os leitores só interessava a aventura e o que ela representava no campo da justiça. Castigar os maus. Em poucas páginas apenas, normalmente 7 ou 8, era contada uma história que nos entusiasmava. 

Não é de admirar que na euforia da realização dos filmes (muito público esperava por novos filmes), com nome ou mesmo sem nome de um artista principal, eles eram filmados. Nas revistas “Aí, Mocinho!” aparece o nome de Jack Williams a viver as suas aventuras. Mas quem é esta personagem, um simples duplo? Nem sequer era um artista consagrado… O segredo estava na forma como tinha treinado o seu cavalo “Coco”, que as várias quedas que era obrigado a fazer, em substituição do artista principal (serão largas dezenas as que sofrerá para delírio dos espectadores), resultavam de tal modo perfeitas e espectaculares, que quer um quer outro passariam para o rol dos famosos em pouco tempo. O seu cavalo morrerá com 33 anos… Williams com 86, depois de uma vasta carreira cheia de sucessos. Muitos cavalos destes actores viriam a ser igualmente célebres e a viverem as suas aventuras nos “comic-books”, como seria o caso de “Trigger”, Champion”, “Silver” e “Scout”, respectivamente os cavalos de “Roy Rogers”, “Gene Autry”, “Lone Ranger” e “Tonto”…

A indústria cinematográfica era pujante e conseguia uma certa empatia com os espectadores. Alguns artistas eram rotulados como maus (a sua fisionomia e o seu papel era o de fazer mal, como seriam o caso de Lee Van Clef e Jack Palance). Quando o artista principal matava o seu opositor, os espectadores batiam palmas, em sinal de euforia e demonstrando o seu contentamento pela justiça feita. A revista “Aí, Mocinho!” era sem dúvida uma das melhores que se publicavam na época, embora começassem a aparecer no mercado brasileiro, e também em Portugal, outras editoras a apostarem no tema, face ao sucesso que ela estava a conquistar junto dos apreciadores. A própria Ebal não ficaria por aqui, pois irá lançar outras colecções com outras personagens, de que falaremos a seguir.

Entretanto a Rio Gráfica lança “Rocky Lane” em Janeiro de 1953 e a Orbis Publicações edita “Pele Vermelha” (Indian Chief) em 1954, seguidas no mesmo ano de a “Polícia Montada”, “Justiceiros” (Tomahawk), “Cara Pálida” (Little Beaver), “Marruá” (All Star Western), “Cisco Kid”e “Rancho Grande” (Red Ryder), todas elas com personagens de sucesso, o que não viria a acontecer com as revistas, já que a maior parte delas ficaria pelo caminho, apesar de trazerem uma inovação no campo gráfico, eram todas impressas a cores. Dois anos depois a editora deixa de publicar este material. Evidentemente que os títulos foram mais, mas para este estudo só nos interessa focar estes títulos.

CARLOS GONÇALVES