Pedagogia aos Quadradinhos – Memórias dos Outros Tempos – vinte e oito

Durante o ano lectivo 1972-73 concorri ao estágio pedagógico que me permitiria atingir a efectivação, estabilidade profissional perdida na mudança do Ensino Primário para o Preparatório. Foi-me recusada a pretensão, pois então ainda não cumprira os necessários dois anos de exercício como professor de Desenho.

Atingido este prazo regulamentar, uma nova tentativa obteve êxito. Fiquei por isso feliz quando recebi a notícia oficial de que, no ano lectivo 1973-74, me esperava o estágio na Escola Preparatória de Oliveira Salazar, em Viseu. Não conhecia a cidade, onde nunca estivera…

Armei-me de toda a minha esperança. Acreditava sem reservas nas minhas possibilidades e, sobretudo, na capacidade pessoal disponível para enfrentar a luta, incluindo a dureza da separação familiar, da Adrilete e do Tó Zé, então um menino com sete anos.

Esfriou-me um pouco tal entusiasmo o meu amigo de sempre, Xico Queirós. Na sua primeira carta após o conhecimento do meu ingresso no estágio, enviou-me um sério aviso.

Achei exagerada a preocupação do amigo mas, infelizmente, ele tinha toda a razão do mundo…

Não podia ter sido mais decepcionante e mesmo ameaçadora a minha estreia viseense. Todos aqueles de quem ali dependia o meu futuro revelaram logo à partida, e sem qualquer ambiguidade, um sentimento francamente hostil para comigo.

O meu “crime” era, simplesmente, o de não ser -como eles- “doutor”. Banal mestre-escola, professor primário (ou primitivo!) eu não era digno daquela oportunidade que, segundo todos -director da escola, inspector da zona e orientadora de estágio- devia estar reservada apenas aos licenciados pelas Belas-Artes. Tão simples como isso!

Portanto, antes de que eu pudesse provar ter ou não capacidade para desempenhar as funções de professor de Desenho, estava liminarmente condenado. Entre outras “recomendações” que me disponibilizaram, avulta a do senhor inspector (cujo nome por pudor omito) quando garantiu que a minha presença ali era um erro político que eles se encarregariam de corrigir… Assim, sic!

Pode facilmente calcular-se o que significou para a minha positiva ainda que cautelosa expectativa tão insólito acolhimento. Não teria de me limitar a engolir sapos vivos mas seria obrigado a enfrentar bestas assanhadas. Ou a desistir.

Por que sobrevivi?

Antes de tudo, pelo apoio da Adrilete que não me deixou abater, mantendo-me alinhado com as convicções originais. Depois, pela solidariedade dos raros amigo que me acompanharam em Viseu, o padre Joaquim Coelho, uma alma coerente de escuteiro, o velho inspector Sobral que conheci na livraria do senhor Lagarto, ao lado da Câmara, o Luís Branco, antigo companheiro do Liceu de Portalegre, que ali comandava a GNR, e a mulher, a Graciete, colega dos saudosos tempos da escola da Fontedeira, mais o João Pedro, um atento e fraterno colega de estágio, embora de outro grupo disciplinar. A lista é curta e quase resume o grupo daqueles a quem devo, em grande parte, a sobrevivência.

Falta acrescentar uma personalidade que me protegeu, porque foi justo e acreditou em mim: o metodólogo Hélder Pacheco. Quando pela primeira vez desceu a Viseu do seu Porto eterno, de mediana estatura, barba cuidada, camisa de pescador e cachimbo entre os dentes, confidenciou-me que o único dos meus colegas até então admitido ao estágio tinha falhado. Logo me informou de que tal acontecera porque ele nunca tinha sido capaz de se adaptar. Concluiu a referência manifestando-me a convicção de que eu pudesse adaptar-me…

Confesso que, durante algum tempo, hesitei em interpretar aquelas palavras como (mais) uma ameaça ou como um conselho. Viria a confirmá-las como uma promessa de cumplicidade. A única, no seio do “aparelho”, mas valiosa.

Protegeu-me sempre contra as investidas, demolidoras e constantes, do staff local.

A sua regular vinda a Viseu significava para mim uma recarga de energia, um sistemático e significativo voto de confiança no trabalho empenhado a que me entregara.

Aliás, com os alunos de uma das minhas turmas, deixámos a nossa “marca” nas paredes da escola. Com a linguagem dos quadradinhos envolvida…

António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin no Congo – vinte e nove (fim)

A acção judicial movida pelo cidadão congolês Bienvenu Mbutu Montondo contra o álbum Tintin no Congo, que pedia a sua proibição devido a representações racistas, foi negada por um tribunal da Bélgica no início do mês de Fevereiro de 2012. O processo começara anos atrás, após décadas de críticas contra o álbum de Hergé.

Seguindo outras manifestações de apoio ao álbum, o tribunal decidiu que não havia intenção de racismo por parte de Hergé na sua obra. Além disso, ressaltou que o álbum foi criado numa época em que o ideário colonialista era muito forte, de forma que seria impossível que a BD não representasse o pensamento dominante.

O advogado de Mbutu, Ahmed L’Hedim, declarou ao jornal Guardian que iria apelar da decisão, e que seu cliente “vai seguir com o caso até onde puder“. Tretas…

O Tribunal de primeira Instância de Bruxelas acabou de concluir, afinal, aquilo que já (quase) toda a gente sabia, isto é, que Tintin no Congo não é uma obra racista, considerando que “face ao contexto da época, não havia intenção discriminatória da parte de Hergé”.

Terminou assim uma longa polémica que se arrastava desde 2007, quando -recorde-se!- o cidadão congolês Bienvenu Mbutu Montondo apresentou uma queixa contra a obra, publicada pela primeira vez em 1931, devido ao “racismo latente anti-congolês” que ela ainda provocava na sociedade belga.

Numa decisão com algo de salomónico, o tribunal considerou igualmente sem fundamento o pedido de indemnização “por procedimento temerário e vexatório” por parte de Montondo que entretanto tinha sido interposto pela Casterman, editora dos álbuns de Tintin, e pela Fundação Moulinsart, detentora dos direitos sobre a obra de Hergé.

Com esta decisão, de alguma forma, todos ficam satisfeitos:

  • A Casterman e a Moulinsart, porque viram reconhecida (e reforçada) a sua posição e pela publicidade extra que este caso lhes trouxe.

  • A justiça belga, por três motivos: porque deu uma boa imagem de si própria, mostrando que qualquer um pode pedir a sua intervenção e obtê-la; porque tomou a (única) decisão que o bom senso impunha; porque, desta forma, fechou a porta a (muitos) processos similares que, num futuro não muito distante, poderiam visar qualquer tipo de obra, independentemente da data e do contexto da sua criação
  • Finalmente, Bienvenu Mbutu Montondo porque, apesar de (naturalmente) derrotado teve direito aos seus 15 minutos (na verdade, bem mais do que isso) de fama (bacoca) a que todos (supostamente) temos direito.

Quando em Portugal, penosos, ainda se arrastam os lamentos politicamente correctos de quem protesta contra os contornos racistas, esclavagistas e colonialistas (!?) da simples designação do futuro Museu dos Descobrimentos, pareceu-me oportuna e pedagógica esta retrospectiva.

                                                                                 Por isso aqui ficou.

António Martinó de Azevedo Coutinho
Setembro 15, 2018

Tintin no Congo – vinte e oito

Dedicámos ao caso Tintin au Congo a atenção possível. Durante algumas semanas, trouxemos aqui toda a informação colhida em aturadas pesquisas assim como algumas reflexões sobre a problemática que envolveu uma séria, embora inoportuna e mal justificada, acusação de racismo.

Depois, acrescentou-se à série de textos iniciais um outro, que hoje se prolonga, a pretexto das mais recentes e quase definitivas decisões judiciais sobre o caso.

A 18 de Março último (2011), portanto há uns escassos quinze dias, o Tribunal de Primeira Instância de Bruxelas contou com a presença do Ministério Público, uma vez que se lidava com uma acusação de racismo, crime público.

A decisão, rigorosamente contrária às declaradas intenções da acusação, foi proferida no sentido de o Tribunal de Comércio ser considerado como competente para apreciar a contenda.

Bienvenu Montondo requerera a intervenção do Tribunal Penal Internacional, vendo este pedido ser desprezado pelos juízes, que decidiram favoravelmente às empresas Moulinsart S.A. e Casterman.

Sobre a pretensão dos acusadores quanto à necessidade destas empresas apresentarem os contratos que as ligam, a fim de ser averiguado qual o grau das suas respectivas responsabilidades na detenção dos direitos autorais da obra de Hergé, também o Ministério Público decidiu não dispor tal exigência de qualquer legitimidade.

Entre a indisfarçável frustração e o assumido conformismo, os autores do processo produziram declarações que mal esconderam a iminente e definitiva derrota das suas absurdas pretensões, ainda que dentro de um mês aconteça uma nova audiência.

O rumo do pleito tem-se inclinado de forma quase absoluta no sentido da desmontagem da absurda acusação, moldada em termos desfasados da realidade e do contexto hoje vividos.

A opinião autorizada que a propósito fora recentemente proferida por uma entidade congolesa oficial, a própria Ministra da Cultura, ajudou certamente essa diluição dos argumentos políticos artificialmente montados pelos acusadores.

Portanto, o advogado Berenboom e os seus mais directos colaboradores estão prestes a obter uma justa vitória sobre a impertinente e quase ridícula argumentação contrária. Pela minha parte, tendo desde sempre contestado a legitimidade do senhor Bienvenu e denunciado as contradições da sua absurda acusação, limito-me a achar que será feita justiça.

Como aliás bem merecem o autor e a sua obra.

António Martinó de Azevedo Coutinho
Segunda-feira, Abril 04, 2011

José Garcês – 90 anos – II

A Câmara Municipal da Amadora, em mais uma parceria com o Clube Português de Banda Desenhada, organizou uma significativa homenagem a José Garcês, no oportuno pretexto dos 90 anos de fértil vida do desenhador

A exposição instalada na Bedeteca da Amadora é o ponto alto do evento, mantendo-se até ao dia 11 de Novembro próximo. Consta essencialmente de uma mostra cronológica da obra essencial do artista e dispõe de um catálogo muito interessante, da autoria do comissário da exposição que é simultaneamente presidente da Direcção do Clube Português de Banda Desenhada, Dr. Pedro Magalhães Mota. Destinada a todos aqueles que não puderem -como vivamente se recomenda- visitar a exposição, deixarei aqui a seguir a reprodução integral deste excelente trabalho.

José Garcês teve em seu redor o carinho dos familiares próximos bem como o calor da amizade e do reconhecimento de muitos admiradores. Foi evidente a emoção sentida pelo Homem e Artista.

Usaram da palavra no início da cerimónia de inauguração da mostra a directora da Bedeteca, Dr.ª Ângela Rodrigues, o vereador da Cultura da C. M. da Amadora, Dr. José Agostinho Marques, José Ruy, colega e amigo de há muitas décadas do homenageado, e o Dr. Pedro Mota, todos realçando as qualidades humanas e artísticas de José Garcês.

É impossível citar todos os que ali se encontraram, mas posso destacar gente da mais alta qualidade no universo dos quadradinhos, como Eduardo Conceição, Augusto e Irene Trigo, Baptista Mendes, José Pires, Catherine Labey e Jorge Magalhães, Dr. José Azevedo e Menezes, Geraldes Lino, Dâmaso Afonso, Carlos Gonçalves e muitos outros…

A presidente da autarquia, entretanto ocupada noutro compromisso oficial, logo compareceu para felicitar o amigo, assim conferindo um ainda mais alto nível ao evento. A Dr.ª Carla Tavares revelou a justa admiração sentida por José Garcês, podendo manifestar-lhe o reconhecimento de toda a comunidade.

Foi uma jornada pautada pela qualidade e pela emoção, saudando alguém a quem gerações ficam devendo inúmeras obras de referência no universo cultural e recreativo da BD e não só, desde há mais de sete décadas, uma vida…