A Ilha Misteriosa – 02

Como A Ilha Misteriosa é um romance conhecido e muito popular, não assumo qualquer escrúpulo, como de costume, em falar abertamente do seu enredo.

O argumento concebido por Jules Verne começa no local e na época da Guerra Civil Americana (1861-1865), quando cinco personagens vão parar a uma ilha deserta. No entanto, não são exactamente náufragos clássicos, sobreviventes do afundamento de algum navio, mas sim “Náufragos do Ar“, que é precisamente o título da primeira parte do romance, pois chegam à ilha num balão desgovernado e rasgado por um furacão.

Há desde logo aqui uma grande carga simbólica, pois, ao tentarem recuperar altitude e salvar-se, eles vão aos poucos despojando-se de todos os “pesos” da civilização que deixarão de integrar assim que baterem no chão: sacos de areia, instrumentos, armas, munições, dinheiro e mesmo objectos pessoais. É um despojamento absoluto, que fornece desde logo não apenas a dimensão dramática da história, como também a sua dimensão moral.

Um de entre os “náufragos” vai distinguir-se, sendo o protagonista maior da aventura. Trata-se de um engenheiro, personagem moderna por excelência, dotado de saberes técnicos e científicos inéditos nas “robinsonadas”.

A sua profissão faz dele um homem dinâmico e actualizado, com todas as credenciais para liderar o grupo. Graças a ele e aos seus múltiplos conhecimentos, os colonos da ilha diferem dos seus antecessores literários, pois, vendo-se tão ou mais desguarnecidos e próximos da selvageria original quanto eles, terminam por revelar-se mais bem preparados e aptos a reencontrar o nível de civilização que perderam. Esta espécie de recuperação é um elemento decisivo na trama.

Assim, o pequeno núcleo de colonos irá, em poucos e acelerados anos, refazer toda a longa trajectória da civilização, da pré-história aos tempos modernos, do domínio do fogo à fabricação de nitroglicerina, dos primeiros artefactos à pilha eléctrica, da cerâmica rudimentar à instalação de um elevador e de um telégrafo, sem deixar de passar pelo advento da agricultura e da pecuária. A primeira parte do romance tem portanto esse carácter de epopeia típico das “robinsonadas”, agora marcado pela técnica criadora.

A pequena colónia aproxima-se da sociedade real na medida em que conserva as suas divisões, desigualdades sociais, raciais e relações de dominação: chefe e subordinado, patrão e empregado, professor e discípulo, pai e filho, trabalhador intelectual e braçal. Aqui teremos, pois, uma réplica da escala real da humanidade.

É da coesão do grupo que nasce a sua força, e o verdadeiro herói da aventura é afinal colectivo, na reunião de individualidades, concebida como o motor único de toda a acção.

As personagens são unidas pelos laços ideais de amizade e solidariedade, bem como fortalecidos pelos desafios vencidos em conjunto e pelo trabalho perseverante. É exactamente este espírito comunitário que a segunda parte do livro irá, sob certo ângulo, colocar em causa.

Esta segunda parte tem por título “O Abandonado“.

A epopeia de civilização em curso vai ser abalada quando os colonos encontram numa ilha vizinha, onde se deslocam, um degredado, ali abandonado como pena para os seus crimes.

Esta nova personagem já havia aparecido num outro romance de Jules Verne, Os Filhos do Capitão Grant (1866-68). Na Austrália, ele chefiara um bando de condenados fugitivos e, posteriormente, fora preso e degredado na ilha Tabor. Lá, durante doze anos, não tivera qualquer contacto com outros seres humanos e regredira ao mais completo estado de selvageria, tornando-se um caso exemplar de desumanização. É nesse ponto de sua vida que agora reaparece. O seu passado criminal e o posterior isolamento impõem duas perguntas à comunidade ideal: um criminoso vocacionado pode ser regenerado? Um ser regredido ao estado selvagem pode reencontrar a sua humanidade? Quais são os seus direitos e deveres em relação às exigências da vida em sociedade e à própria ideia de comunidade?

No momento em que os colonos deparam com o degredado, este não passa de um louco, vivendo nas árvores, alimentando-se de carne crua. O ser decaído, a criatura miserável, embora à primeira vista destituído de toda a sua humanidade, logo irá recuperar uma razão que acreditava ter perdido, mas que estava apenas momentaneamente sufocada.

Aqui, Jules Verne contrapõe esta personagem a uma outra, igualmente surgida durante o tempo de isolamento na ilha: o orangotango Jup. Este, treinado, serve de empregado zeloso à pequena colónia e, em perfeita imitação, copia todos os comportamentos humanos: ajuda na cozinha, serve à mesa, fuma cachimbo, dorme num leito, bem como demonstra sinais de inteligência que levam à pergunta de que aquele macaco “talvez seja um homem”. Coexiste, portanto, uma escala de humanidade, em cujo topo se encontram o grupo e os seus integrantes, ao passo que o macaco e o degredado são meros candidatos.

Porém, surge a resposta à ambiguidade: Jup é uma caricatura de homem, não uma promessa, situando-se abaixo do limite inferior que separa o homem da besta selvagem. E, neste aspecto, o degredado é diferente. Este dispõe do instrumento indispensável para reaver a sua razão, até então apenas sufocada, e integrar-se no grupo. A conclusão tranquilizadora e optimista do romance é que a humanidade de um ser humano não se perde, sendo sempre passível de recuperação, desde que alimentada, mantida viva pelo contacto com outros homens.

António Martinó de Azevedo Coutinho

A BD vista por Carlos Gonçalves – sessenta e cinco

OS 65 ANOS DA REVISTA “CAVALEIRO ANDANTE” – VII

Separatas de Desporto do “Cavaleiro Andante” – conclusão

211 Virgílio F. C. Porto    
212 José Pereira Belenenses    
213 Coluna Benfica    
214 Germano Atlético    
215 Carlos Gomes Sporting    
216 Matateu Belenenses    
217 Costa Pereira Benfica    
218 Galaz (Selecção Nacional) Futebol    
219 Cabrita Sp. Covilhã    
220 Gama Torreense    
221 Fernando Caiado Benfica    
222 Armando Carneiro Atlético
223 Hernâni F. C. Porto    
224 José Pedro Lusitano    
225 Cruzeiro Hóquei Patins    
226 Correia dos Santos Hóquei Patins    
227 Vasques Sporting  
228 José Lisboa Hóquei Patins    
229 Matos Hóquei Patins    
230 Perdigão Hóquei Patins    
231 Jesus Correia Hóquei Patins    
232 Edgar Hóquei Patins  
233 Juca Sporting  
234 Monteiro da Costa F. C. Porto    
235 Aguas Benfica    
236 Wilson Académica    
237 Dimas Belenenses    
239 Pedroto Porto   A partir deste número as Separatas de Desporto passaram a numerar-se só nos números ímpares.
241 Rogério Benfica    
243 Palmeiro Benfica    
245 Martins Sporting    
247 Vicente Belenenses    
249 Baptista Pereira Natação    
251 Graça V. Setúbal    
253 Alves Barbosa Sangalhos    
255 José Augusto Barreirense    
257 Vital Lusitano    
259 Artur Benfica    
261 Manuel Passos Sporting    
263 Arsénio Benfica    
265 Pinho F. C. Porto    
267 Moreira Belenenses    
269 Albano Sporting    
271 Cavém Benfica    
273 Manuel Faria Sporting    
275 Fernandes Benfica    
277 Bentes Académica    
279 Arcanjo Porto    
281 António Pedro Caldas S. Club    
283 Jacinto Benfica    
285 Carlos Duarte F.C. Porto    
287 Caldeira Sporting    
289 Barrigana F. C. Porto    
291 Falé Lusitano    
293 Pacheco Sporting    
295 Raul Figueiredo Belenenses    
297 Bastos Benfica    
299 Fernandes Setúbal    
301 Pérides Sporting    
303 Ribeiro da Silva Ciclismo    
305 Pedro Polainas Sporting    
307 Faia Barreirense    
309 Ângelo Benfica    
311 Teixeira F. C. Porto    
313 Pires Belenenses 1957/12/28 Última Separata Desportos publicada

Nota: A Listagem dos Desportos do Cavaleiro Andante é da autoria do Engº. Luís Veiga.

Carlos Gonçalves

A Ilha Misteriosa – 01

A Ilha Misteriosa. Esta é, para mim, uma designação fascinante.

Rural do interior como sou, cercado de terra por todos os lados e visceralmente ligado à montanha, a simples ideia de ilha -por si só- constituiu desde sempre um polo de atracção. Talvez por isso, aprecio sobremaneira os Açores, as Canárias ou Cabo Verde, arquipélagos carregados de sentimentos onde a ilha, cada ilha, se destaca no seu contexto muito particular, provavelmente em secreta, mas sentida, antinomia com a continuidade dos territórios. Talvez…

Vivo agora numa península que foi ilha, que um dia a haver talvez volte a sê-lo. Quando a olho da minha alta guarita, vejo-lhe o mar como cercadura quase absoluta..

Depois, ao sentimento a que se chamarei instintivo junto o cultural, adquirido. Já dei conta, e abundante, das experiências pessoais que me marcaram desde bem cedo. Certo é que os quadradinhos reforçaram este insular fascínio…

Tintin, trouxe-mo A Ilha Negra. E A Ilha do Tesouro reforçou o mito.

Roubaram-me por essa altura, em nome da moral e dos bons costumes, A Ilha dos Amores. A mim e a algumas outras gerações. Aquele Canto IX da imortal obra de Camões era controverso, mesmo pecaminoso, segundo as apertadas regras dos exigentes e meticulosos censores da época.

A este arquipélago de emoções junto hoje A Ilha Misteriosa.

Tudo aqui partiu da prodigiosa imaginação criadora de Jules Verne. Também nele sempre as ilhas terão constituído objecto de fascínio.

As razões estão devidamente explicadas pelo conhecimento dos dados biográficos que lhe marcaram a juventude.

Nasceu junto ao mar, numa cidade portuária da Bretanha francesa, Nantes, quase há duzentos anos, a cumprir dentro de uma década. Muito jovem, foi influenciado pela leitura de dois romances de aventuras, já clássicos de sucesso na sua época, embora o segundo destes fosse então muito recente. Tratou-se de Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe, e de Os Robinson Suíços (1818), de Johann David Wyss.

Em ambas as obras, as suas personagens naufragam em terras isoladas e desertas, tendo de reconstruir vida e civilização a partir, praticamente, do nada. Este modelo teve enorme impacto no imaginário da época e chegou mesmo a criar uma espécie de género literário autónomo, as “robinsonadas”.

O fenómeno é mais sério do que possa parecer à primeira vista, porque para além da fantasia da viagem e do naufrágio implica muito mais do que uma simples deslocação no espaço físico. Os heróis solitários, confrontados com a Natureza e consigo mesmos, são obrigados a reencontrar um novo sentido para a vida e chegam a descobrir dentro de si, e na relação com outros, verdades tão profundas quanto ignoradas.

Jules Verne, enquanto criador de argumentos dramáticos e aventurosos, foi tocado pela reflexão em torno desta problemática filosófica.

Após ter decidido seguir carreira como escritor, ao invés da vontade paterna, estabeleceu uma forte parceria com o editor Pierre-Jules Hetzel. Discutiam ambos, previamente, os fundamentos e o desenvolvimento de cada romance. O primeiro trabalho foi Cinco Semanas em Balão, em 1863.

Logo no ano seguinte, o espírito irrequieto de Hetzel levou-o a lançar uma revista Magasin d’Éducation et de Recréation, que começou a integrar as obras de Jules Verne, publicadas sob a forma de folhetim. Só depois de ali concluídas passavam a volumes autónomos. Com Tintin aconteceu algo semelhante durante as suas primeiras aventuras, originalmente publicadas no suplemento semanal Le Petit Vingtième antes de serem álbuns…

Após 20 Mil Léguas Submarinas, publicado entre 1868 e 1869, os dois concordaram em elaborar um romance no estilo de “robinsonada”. Existem declarações de Jules Verne a este propósito: “Sonho com um Robinson magnífico, é absolutamente indispensável fazê-lo, é mais forte que eu” Portanto ele não se referia a uma “robinsonada” qualquer, expressando o desejo de fazer “um Robinson moderno, diferente de tudo o que já foi feito”.

Assim surgiu, em 1874, A Ilha Misteriosa, publicada na revista de Hetzel entre 1 de Janeiro desse ano e 15 de Dezembro de 1875.

Os mitos do território deserto e do herói solitário colocariam o criador perante essas eternas questões. As premissas que daí decorrem são complexas. Por exemplo, quais são os erros e os acertos da chamada civilização? Como avaliar com justeza o grau de humanidade nos indivíduos da nossa espécie assim como, na sua essência, julgar aquilo que nos diferencia dos animais? Que atitude devemos assumir em relação às forças superiores que colocam em risco os avanços do nosso modo habitual de vida?

Alguns críticos, mais exigentes ou pessimistas, serão facilmente conduzidos à constatação de que problemáticas desta natureza jamais se instalarão num vulgar leitor a partir de um simples livro juvenil, ou de aventuras. Porém, são exactamente temas da máxima importância existencial que Jules Verne nos propõe em A Ilha Misteriosa. Mais do que isso, ele consegue-o sem sacrificar uma parcela sequer do seu habitual talento para construir narrativas plenas de acção, de movimento e de aventurosas emoções.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Pedagogia aos Quadradinhos – Memórias dos Outros Tempos – trinta e cinco

Aqui se concluiu a longa e exaustiva reprodução integral dos 50 cartazes/painéis de grande dimensão que estiveram patentes nos corredores da Escola Preparatória de Oliveira Salazar, em Viseu, após as férias da Páscoa de 1974 até ao final do ano lectivo.

A Revolução de 25 de Abril delimita este capítulo de memórias em torno dos quadradinhos, pelo que a série a elas dedicada terminará no próximo “capítulo”…

António Martinó de Azevedo Coutinho

A BD vista por Carlos Gonçalves – sessenta e quatro

OS 65 ANOS DA REVISTA “CAVALEIRO ANDANTE” – VI

Separatas de Desporto do “Cavaleiro Andante” – continuação

99 Baptista V. Setúbal 1953/11/21
100 Arsénio Benfica 1953/10/28
101 Hernâni F. C. Porto 1953/12/05
102 Carlos Gomes Sporting 1953/12/12  
103 Francisco Moreira Benfica 1953/12/19
104 Artur Vaz V. Setúbal 1953/12/26
105 Azevedo Sporting 1954/01/02 Tem a data de 1953/12/02 (gralha)
106 Azeredo Académica 1954/01/09
107 António Elói Braga 1954/01/16
108 Hugo Sarmento Sporting 1954/01/23
109 Equipa de Hóquei Paço d’Arcos 1954/01/30
110 Morais-Leitão-Almeida-Pina Futebol
111 Caldeira – Um grande defesa do Sporting Sporting 1954/02/13
112 Silvino Barreirense 1954/02/20
113 Norberto e Roldão – Os dois Guarda-Redes do F.C. Porto F.C. Porto 1954/02/27
114 Juca Sporting 1954/03/06
115 Guarda-Redes Selecção Nacional Juniores Futebol 1954/03/13
116 Palmeiro / Hernâni / Albuquerque / Nelo Futebol 1954/03/20
117 Águas e Matateu Futebol 1954/03/54
118 Manuel Passos Sporting 1954/04/03
119 Matateu (Belenenses) Futebol 1954/04/10
120 Carlos Gomes (Porta-Bandeira de Portugal) Sporting 1954/04/17
121 Di Pace Belenenses 1954/04/24
122 Armando Pereira (Benfica) Ciclismo 1954/05/01
123 José Araújo (Benfica) Atletismo 1954/05/08
124 Campeonato de Vela Vela 1954/05/15
125 António Raio e António Figueiredo Hóquei 1954/05/22
126 Selecção Nacional Hóquei Patins Hóquei 1954/05/29
127 Fernando Cruzeiro e Domingos Perdigão Hóquei 1954/06/05
128 Jesus Correia e José Lisboa Hóquei 1954/06/12
129 João Martins Sporting 1954/06/19
130 Edgar e Correia dos Santos Hóquei 1954/06/26
131 Selecção Nacional Futebol Futebol 1954/07/03
132 Equipas de Juniores da Académica e do Grupo CUF Académica

CUF

1954/07/10
133 A ver quem chega primeiro… Diversos 1954/07/17
134 Casimiro Oliveira Automobilismo 1954/07/24
135 ————————————– —————— ———— NÃO SAIU!
136 Futebolistas do Ultramar (Wilson e Águas) Futebol 1954/08/07
137 Tomás Paquito (Benfica) e Eugénio Lopes (Sporting) Atletismo 1954/08/14
138 Brincando na Praia Diversos 1954/08/21
139 Os Primeiros Pontapés Futebol 1954/08/28
140 Rogério Benfica 1954/09/04
141 Bola dentro da Baliza! Futebol 1954/09/11
142 Quem sai aos seus… (Travaços e filho) Futebol 1954/09/18
143 Os Futebolistas Moçambicanos (Matateu e Vicente) Futebol 1954/09/25
144 Artur – Defesa do Benfica Futebol 1954/10/02
145 Camaradagem Desportiva Futebol 1954/10/09
146 Cavem 2º e Cavem 1º (Sporting da Covilhã) Futebol 1954/10/16 Última Separata em formato grande
210 José Travaços Sporting   A partir deste número as separatas passam a ter novo formato mais pequeno.