A Banda Desenhada vista por Carlos Gonçalves – três

AS HISTÓRIAS AOS QUADRADINHOS DE TERROR – I

Está ainda por explicar por que razão as histórias aos quadradinhos de terror quase nunca tiveram qualquer aceitação, ou pelo menos alguma aceitação significativa, por parte dos leitores portugueses. É certo que nem todos os países onde a banda desenhada tem raízes já centenárias, como a França, Bélgica, Alemanha, Inglaterra e Espanha, tiveram uma grande produção ou publicação de obras sobre este tema (no caso específico da Espanha, os seus desenhadores criaram muitas histórias, mas foram publicadas nos Estados Unidos).

Mas por exemplo os Estados Unidos foram os maiores produtores dessas histórias da autoria de uma vasto leque de artistas de craveira internacional, seguindo-se o Brasil com uma vasta produção, embora nem toda de uma qualidade homogénea, mas largamente compensada pela quantidade e publicação de revistas do género e mais tarde a Itália, em terceiro lugar, incluindo fotonovelas, que por sinal acabariam igualmente por ser publicadas também no Brasil, como o caso das edições de “Killing”, “Diabolik”, “Satanik” e “Killing”, esta última em formatinho. As três primeiras editadas pela Nueva Frontera nos anos 70 e a última pela Editora Mundo Latino em Maio de 1981. As histórias de “Diabolik” são em banda desenhada.

O TERROR NOS “COMIC BOOKS” NORTE AMERICANOS

Poucos serão os leitores que não conhecem as obras “Frankenstein” de Mary Shelley e “Drácula” de Bram Stoker que na altura dos seus lançamentos, originaram alguma celeuma…mas seria o escritor Edgar Allan Poe a desenvolver o tema, de forma a despertar nos leitores uma certa excitação e nervos ao lerem os seus contos…estávamos a metade do século XIX…só 100 anos depois tal viria a acontecer na banda desenhada e nos Estados Unidos da América, devido ao visionário e editor William M. Gaines, que em 1948 herda do pai (morto num acidente de barco) a E.C. (Educational Comics), uma editora especializada em revistas educativas. Perante tal situação, o nosso Gaines sentiu a necessidade de contratar alguém que o ajudasse na sua missão e, como não podia deixar de ser, encontrou na pessoa do desenhador Al Feldstein o editor ideal à altura dos desafios que se avizinhavam para a sua casa. Resolve mudar a sigla da sua editora de (Educational) para (Entertaining) e de acordo com Feldstein, resolvem por sua vez contratar um leque de novos desenhadores que raramente se encontram, para levar a cabo tal tarefa.

E essa era no início, a publicação de revistas com histórias aos quadradinhos de amor, “cow-boys” e policiais. Os desenhadores eram : Johnny Craig, Jack Davis, Jack Kamen, Wallace Wood, Joe Orlando, Reed Crandall, Bernie Krigstein, Harvey Kurtzman, e também Feldstein. Pouco mais de um ano depois, a dupla resolve iniciar a publicação de outras histórias que chocassem o público e, principalmente, os leitores. Começam então a ser publicadas no início dos anos 50, os títulos “Tales From the Crypt” e ”The Vault of Horror” que rapidamente se tornam um sucesso, seguidos de outros títulos igualmente destinados a outros êxitos. São as edições de “Shock Suspenstories” e “The Hunt of Fear”.

Outras publicações seriam criadas, embora não sobre o tema que escolhemos, uma delas um caso sério de popularidade, como seria a revista “Mad”, que atingiria os 50 anos de edição (1952/2004), um caso raro na Banda Desenhada. Gaines e Feldstein possuíam uma equipa fabulosa de desenhadores, um potentado na criação e realização das histórias. Os textos eram enquadrados em 5 a 8 páginas e os desenhos criados de uma forma perfeita. Cada vinheta talvez se apresentasse com demasiado texto, mas na época era deste modo que, de uma maneira geral, todas as aventuras eram criadas, fossem sobre que tema fossem. As histórias não tinham limite na sua concepção e embora fossem contadas de variadíssimas formas através dos bruxos (o Zelador da Cripta e o Guardião da Câmara) ou da bruxa (a Bruxa do Caldeirão), havia para todos os gostos e com imensos fins: A assassina que cai ao poço, uma mão decepada ligada a uma máquina, uma máscara que se torna o rosto da personagem, a domadora de leões cujo rosto é uma chaga, um vudu mal concebido, um lobisomem à solta, um pesadelo que se torna verdadeiro, um programa de televisão de terror, o encontro com a bruxa nos esgotos, o caldeirão da bruxa onde poderá cair, o túnel do terror, as múmias que ressuscitam, um monstro no pântano, o tal conto de Poe em que o gato é emparedado com a esposa morta, a casa de terror ou assombrada, um conto de encantar que acaba mal, a violência doméstica levada a todos extremos, mesmo à morte, os vampiros mulher ou homem e poderíamos continuar aqui a apresentar temas que as histórias ao longo da sua publicação foram apresentando. Hoje já não serão novidade para ninguém, pois são já conhecidas na sua maior parte. No entanto em cada uma delas havia um fundo moral que não passava despercebido ao leitor mais atento. As revistas eram todas publicadas a cores, como era normal acontecer nestas edições.

A equipa dos desenhadores além de terem um grande talento eram novos, cheios de boa vontade e desejo de criarem novos projectos. E o sucesso foi garantido durante poucos anos, já que em 1954 o senador Joseph McCarthy resolveu acusar as revistas de terror, como um instrumento maligno e fruto de incentivo ao crime e à violência. Autos de fé verificaram-se em várias cidades dos Estados Unidos, onde milhares de revistas seriam queimadas por grupos fanáticos. Ao mesmo tempo nas bancas as revistas, conforme chegavam da editora, eram escondidas para evitar sinais de violência dos mais exaltados. O livro “Seduction of Innocent” do Dr. Fredric Warthman veio lançar mais achas para a fogueira e o Senado Americano resolveu atacar as revistas da editora através da criação de uma comissão de censura que, por sua vez, promulgou o “Comics Code”, regras a que todas as edições do género teriam que se submeter antes de serem lançadas à venda.

O mesmo aconteceria em Portugal ainda antes desta data, em França e outros países. Seria uma caça às bruxas completa que em pouco tempo não só desmotivou os argumentistas, desenhadores e editores como até os próprios leitores. E assim se manteria por alguns anos o panorama editorial e as revistas de terror quase foram esquecidas até que em 1958, James Warren, um editor e publicitário, resolveria lançar uma nova revista intitulada “Famous Monsters of Filmland” com as histórias de filmes de terror, com fotos dos mesmos e reportagens sobre vários monstros que entretanto tinham surgido no Cinema: “Frankenstein”(1931), “Drácula” (1931), “A Múmia“ (1932), A Noiva de Frankenstein” (1935), “O Lobisomem” (1941), “A Casa de Frankenstein “(1944),  “O Monstro da Lagoa Negra” (1954) e mais uma série de sequelas que apareceriam na 7.ª Arte.

Durante alguns anos tudo continuaria na mesma, até que em 1964 este mesmo editor lança a nova revista “Monster World”, que apresentava a quadrinização do filme “A Múmia”. No ano seguinte surgem então as revistas “Creepy” e “Eerie” com novas histórias de terror, igualmente com o aparecimento de novos desenhadores, os filipinos Nestor Redondo e Alfredo Alcala, os espanhóis Esteban Maroto e Ramon Torrents e de novo o Wallace Wood, um excepcional artista que nunca teve o sucesso que merecia. Esta última revista seria mais tarde editada em 1991 “Cripta de Terror” no Brasil e de novo editada em 2015/2016 com o nome de  “Cripta”, desta vez numa edição da Mythos.

Evidentemente que todas estas edições brasileiras nunca chegariam a atingir um grande sucesso nas vendas, mas valeram pela tentativa de ressurgir um tema que, embora não do apreço de todos os leitores, mas de alguns em número razoável e que mereciam voltar a ler histórias aos quadradinhos de terror. Nestas histórias não faltam o elemento da fantasia e uma série de acontecimentos estranhos, mas cuja intenção é lembrar que o ser humano tem outras vertentes de adquirir conhecimentos tão válidas como através do Cinema ou da Televisão.   

  

Será pois através das histórias aos quadradinhos que o leitor irá ter acesso a um mundo mágico, pouco provável de acontecer naquele século, mas que não está longe de ser uma realidade hoje, pelos acontecimentos que povoam o nosso mundo diariamente. Um sentimento de medo também seria uma constante para quem naqueles anos tinha a possibilidade de ter acesso e gostava de ler este material. Também essa era a intenção dos autores desses trabalhos, despertar novos sentimentos incluindo um pouco de medo. Pelo resultado alcançado e também pela sua divulgação, pensamos que tal seria alcançado com relativo êxito.

A BANDA DESENHADA DE TERROR EM PORTUGAL

Em Portugal o tema de terror na banda desenhada ficaria muito aquém das expectativas, embora tivéssemos ficado surpreendidos com a longevidade que a revista “Terror” com 104 números, editada pela Agência Portuguesa de Revistas veio a atingir. Quase todo o material que esta edição veio a publicar de 15/3/75 a 1/5/82 seria de origem espanhola e da autoria de desenhadores fracos. Trata-se de uma colecção com muito poucos atractivos, com excepção das capas.

Na década de 70 (já tinha surgido o 25 de Abril) a Portugal Press lança dois novos títulos sobre este tema, na tentativa de angariar alguns leitores mais. Surge então a revista “Zakarella” (1/3/76) que terá 28 números publicados, terminando em Março de 1978. Esta publicação terá lindas capas e uma figura feminina desenhada por Carlos Alberto Santos. A personagem tinha sido criada pelo Roussado Pinto, editor, escritor, jornalista e tradutor. As capas e as ilustrações serão, quanto a nós, o que de melhor tinha sido criado no género a nível mundial, mesmo ultrapassando “Vampirella”, a figura mais conhecida. Fabulosa e erótica, terá o seu sucesso, embora limitado no tempo. As aventuras serão unicamente vividas em texto, sempre ilustradas por lindas capas e ilustrações. A banda desenhada publicada será da autoria de vários desenhadores norte americanos, tais como Al Williamson, Reed Crandall, Joe Orlando e muitos mais. A qualidade era indiscutível. Um problema burocrático acabaria com a sua publicação, bem como com a de “Vampirella”, outra das edições da Portugal Press. O seu n.º1 aparece em 1/12/76, desaparecendo no n.º 17 (1/10/77). Esta personagem feminina terá José Gonzalez como autor principal da vampira, mas outros desenhadores serão também autores de outras histórias., tais como Esteban Maroto, Leo Wein, Denny ÓNeil, Auraleon, etc.. Há também uma edição da Portugal Press intitulada “Histórias Eróticas” da autoria de Jesus Blasco, no género erótico mas que se aproxima um pouco do terror…e é tudo.

                                                                                                            Carlos Gonçalves

coisas explicadas a seu tempo…

É a primeira vez -há sempre uma primeira vez!- que dou semelhante destaque a um comentário colocado no Largo dos Correios. Acho que o caso merece esta evidência.
No blog, quanto às abundantes recensões que ali coloco, procuro partilhar com os dedicados leitores artigos que porventura lhes tenham escapado, sobretudo publicados na imprensa diária, nos jornais que leio quotidianamente. Selecciono prioritariamente aquilo que aprecio -gostos são gostos!- embora de tempos a tempos me agrade introduzir uma ou outra “provocação”. Creio que a dialéctica é saudável desde que dela se não abuse…
Foi este o caso. No jornal i, que leio de vez em quando, foi publicado um artigo de opinião assinado por um qualificado parlamentar, pelo qual nem sequer tenho particular simpatia. Escolhi um título, personalizado, que significa a minha própria reticência perante o escrito…
Às “coisas que nem só o tempo explica” entendeu o meu prezadíssimo amigo Jorge Magalhães replicar com um elaborado comentário que muito apreciei, porque reflecte a atenção dedicada a tudo o que coloco no blog, porque revela uma posição abundantemente apoiada em testemunhos e, até, porque invoca e evoca um universo que é muito caro a ambos, o da banda desenhada.
Ao trazer à liça um mestre dos quadradinhos e uma sua obra antológica, Jorge Magalhães acrescenta à discussão um contributo que, embora ficcional, se apoia numa reflexão científica nada desprezível.
Quero agradecer-lhe essa personalizada atenção, que muito enriquece e alarga a abordagem a um tema que a todos tem vindo a preocupar.
Com um abraço de admiração e amizade ao autor, aqui fica o comentário que Jorge Magalhães entendeu dedicar a Explicações

António Martinó

 Afinal, como tinha anunciado o “oráculo” Passos Coelho, o diabo sempre veio, não no passado mês de Outubro, mas agora, em Junho, e sob a forma de um demónio ainda mais terrível: um furacão de fogo. Saberá o distinto autor deste artigo, vice-presidente do grupo parlamentar do PSD, portanto membro da oposição na actual Assembleia da República, o que é um furacão de fogo? Decerto que sim… Mas se tivesse lido um álbum de BD com um título homónimo em francês, “L’ouragan de feu“, escrito e desenhado pelo mestre Jacques Martin (episódio da série Lefranc, que em Portugal foi publicado na revista “Zorro“, anos 1960, ainda o sr. deputado não devia ter nascido) ficaria também a saber que um incêndio provocado por fenómenos desta natureza é praticamente incontrolável, pois propaga-se com uma rapidez fantástica, galgando todos os obstáculos, transpondo grandes distâncias em poucos minutos.

Mesmo que o nosso território estivesse muito bem ordenadinho, as matas muito limpinhas, as áreas de cultivo de eucaliptos e outras espécies inflamáveis muito bem delimitadas, reduzidas a proporções aceitáveis e longe das povoações, estas protegidas por aterros, como devia ser, os serviços florestais (que o PS, o PSD e o CDS ajudaram a desmantelar) ainda activos, na primeira linha de vigilância, a protecção civil, os bombeiros e outros organismos de defesa ambiental prontos a intervir, com a celeridade de um raio, ao menor sinal de alarme (e sem problemas de comunicações, como por vezes acontece), isso não seria suficiente para deter um furacão de fogo com vários quilómetros de extensão.

Tenho a certeza de que veria o sr. deputado esgrimir estes mesmos argumentos se o seu partido estivesse ainda no governo. Mas como não está, até se compreende o teor do seu artigo e de outros (muitos outros) que alinham pela mesma cartilha.

Bem, em defesa da minha tese, além de invocar um nome ilustre da BD, o de Jacques Martin, permito-me também citar as declarações do presidente da Liga dos Bombeiros, Jaime Marta Soares (pessoa cuja experiência no terreno já vem de longe), respigadas da edição do jornal “Público” de 21 do corrente: “ (…) A questão é que ninguém está habituado a um incêndio com esta violência e brutalidade, em que, mais do que altas temperaturas e ausência de humidade, o inimigo foi o vento. Este criou línguas de fogo com 40 e 50 metros de altura e permitiu pequenos tufões que percorriam 300, 400 e 500 metros em redemoinho e cujas projecções atingiam três, quatro e cinco quilómetros… bastavam minutos para que qualquer local até então muito longe das chamas ficasse completamente armadilhado para as pessoas que ali passavam”.

É isso que explica o que aconteceu na fatídica EN 236-1. As pessoas que fugiam do fogo que ameaçava as suas localidades foram apanhadas, desprevenidamente, numa mortífera armadilha, julgando que o incêndio ainda estava longe dessa estrada. Muitas das que decidiram permanecer nas suas casas salvaram-se. Mas teriam os que fugiram de carro sobrevivido, também, se a estrada tivesse sido cortada?, é a pergunta que agora vale milhões. Provavelmente teriam escolhido caminhos alternativos, tanto ou mais perigosos, porque tudo aquilo era um mar de chamas, segundo disseram muitas testemunhas. E pode-se cortar o trânsito, em semelhantes circunstâncias, numa estrada nacional semeada de vias secundárias?

No “Diário de Notícias” de 21/6, um general do Exército, ex-comandante da GNR, assevera que isso é praticamente impossível: “Nos acessos principais, pode ser feito, mas nos secundários é mais complicado”. E acrescenta que a GNR não podia estar ao longo de toda a estrada. Ou podia, como contrariam alguns? Mas, nesse caso, não estariam os agentes a arriscar também a vida?

Já agora, como o PSD pretende uma comissão independente para avaliar a estratégia seguida (e eventuais responsabilidades) no combate ao incêndio de Pedrógão Grande (aquele que causou maior número de vítimas), não seria má ideia incluir nessa comissão o presidente da Liga dos Bombeiros, além de ouvir outros técnicos que estiveram no terreno e cujas opiniões são coincidentes: “O fenómeno da propagação foi fora do normal. (…) O concelho foi tomado em pouco mais de 15 ou 20 minutos” (José Domingues, comandante dos bombeiros de Castanheira de Pera). “A área que num fogo normal demora oito ou nove dias a ser consumida, neste fogo demorou menos de um dia e meio!” (Fernando Lopes, presidente da Câmara de Castanheira de Pera).

Afinal, como eu dizia no início deste comentário, Passos Coelho, armado em profeta de desgraças, não se enganou (só no mês). Mas esqueceu-se de mencionar também o Super-Homem, pois só este poderia, com o seu poderoso sopro, extinguir um vendaval de chamas como o que ceifou tantas vidas e causou tanta destruição no fatídico dia 17 de Junho.

Este não foi um fogo que ardeu sem se ver. Era o diabo e veio do inferno, conta quem lhe sobreviveu”. Isto escreveu Nicolau Santos, director-adjunto do “Expresso”, no noticiário on-lineExpresso Curto”. Se Jacques Martin ainda fosse vivo, seria o primeiro a lembrar-se do seu “L’ouragan de feu”!

Jorge Magalhães

A banda desenhada vista por Carlos Gonçalves – dois

A SAGA DO “MAJOR ALVEGA” – II

O “MAJOR ALVEGA” NA TELEVISÃO

As aventuras do “Major Alvega” publicadas na revista “O Falcão” terminariam por volta de 1987, depois de uma grande variedade de desenhadores, incluindo ingleses, se terem ocupado da criação das suas histórias. Foram eles: Patrick Nicolle, Hugo Pratt, Francisco Solano, Ian Kennedy, Graham Cotton, Eric Bradbury, Ferdinando Tacconi, Colin Merritt, Nevio Zeccara, Giorgio Trevisan, José Ortiz, Georges Stokes, Luis Bermejo, Solano Lopez, etc..

Em 1998 apareceram duas aventuras do “Major Eduardo de Cook e Alvega” aos comandos do seu avião “Spitifire Mark IX”, publicadas na revista “Selecções BD – 2ª Série”. Depois de um grande interregno, os telespectadores foram surpreendidos com o anúncio de uma nova série de televisão com o “Major Alvega” como personagem principal. A série teria sido começada a filmar em 1993. Levou dois anos a serem criados os cenários por sistemas electrónicos. Só seria transmitida em 1998/99. Devido ao seu sucesso e nos inícios do ano 2000, uma sequela seria apresentada ao público. Ricardo Carriço seria a personagem principal, com Rosa Bella e António Cordeiro em segundo plano, como  Fraulein Schmidt e Koronel Von Block.

O sucesso seria imediato e a série acabaria vendida para o Canadá, Venezuela, Líbano, México, França, Japão, etc.. O modo como foram efectuadas as filmagens foi bastante original, já que as personagens verdadeiras moviam-se num ambiente de animação por computador, muito bem feito e de grande impacto visual. Quase todos os episódios eram rodeados de algum humor, devido às cenas em que o Koronel Von Blok entrava, ao acontecer-lhe uma série de peripécias cómicas quer induzidas pelo “Major Alvega” quer acidentais.

 AS CENAS DE ATAQUES AÉREOS EMPOLGANTES

Um dos grandes atractivos das histórias do “Major Alvega” eram os ataque aéreos e o modo como a nossa personagem mantinha o seu sangue frio e nas mais arriscadas manobras, conseguia enfrentar o medo e os ataques dos seus adversários, quer fossem alemães, italianos ou japoneses. Ainda que lhe sobrasse valentia o “Major Alvega” apesar da sua perícia, não conseguia evitar de ser vencido e algumas vezes o seu avião era abatido, passando as suas aventuras a serem passadas em terra. Mas o nosso “herói” não se atrapalhava e acabava por sair vencedor de novas contendas terrestres em vez de aéreas, onde era exímio a pilotar todo o tipo de aviões e a enfrentar os maiores ases inimigos. As aventuras poderiam ser com a partida e pilotagem num hidroavião Catalina com destino ao Cairo. No caminho tudo  podia acontecer.

Afundar um submarino inimigo, ser obrigado a amarar e até mudar de meio de locomoção e passar para um planador, nada impedia o “Major Alvega” de tentar cumprir a sua missão, fossem qual fossem os riscos. Depois de destruir o seu alvo, as instalações inimigas, o relatório era entregue aos altos comandos e a satisfação era latente em todos os rostos. Mas nada impedia a nossa personagem de atingir os seus objectivos quer fossem animais (chega a lutar com um tubarão, quando o seu avião é abatido e cai no mar), quer fossem humanos, quer fossem máquinas. Tudo se resume na tentativa de atingir os seus objectivos que é infligir aos seus inimigos as maiores perdas possíveis, em relação a aviões, carros de assalto, grandes depósitos de combustível (como numa missão ao norte de África, quando Rommel precisava desesperadamente de combustível para atacar os aliados com os seus panzers)… hangars e todos os tipos de instalações e sedes dos inimigos.

Satisfeito no fim de cada missão, o “Major Alvega” não se coíbe de festejar os feitos alcançados. Evidentemente que o risco que o “Major Alvega” corre é sempre uma incógnita. Também a acção de cada história é vivida em diversos locais, na Turquia, Malta, em Lisboa, cidade considerada como o paraíso dos espiões, devido à sua neutralidade. Aqui o Castelo de S. Jorge e o Casino são considerados como cenário, para alguns espiões exercerem o seu papel. Uma das características desta série será o de dar a conhecer os vários modelos de aviões que foram usados durante a Segunda Guerra Mundial. Não referindo o uso de cada um, mas retratando quase ao pormenor grande parte deles, os leitores tiveram a oportunidade de conhecer melhor a sua acção e o seu poder de fogo e de bombardeamento. Tal era uma oportunidade para os mais jovens, sempre na procura do conhecimento e nesse aspecto, embora com estilos diferentes conforme o desenhador, no que respeitava aos modelos das naves, eles eram perfeitos.

Algumas vezes se o aparelho era passível de não ter as condições ideais para as missões, como seria o caso dos “Thypoons”, o “Major Alvega” será escolhido para demonstrar as altas capacidades do aparelho e que não haveria grande perigo em o pilotar.

Claro que a experiência é esclarecedora e o “Major Alvega” faz a demonstração com alguns exemplos de ataques ao inimigo. Durante esses ataques surgem sempre anomalias e imprevistos que dificultam a missão do nosso “herói”, como ficar sem combustível…mas ele não deixará por isso de cumprir o seu dever. A RAF possuía alguns bombardeiros famosos intitulados “Lancasters”, que precisavam de ser experimentados em relação à sua eficácia em combate, pelo que o “Major Alvega” terá muitas vezes a missão de bombardear posições inimigas.

As missões terão os seus riscos, a que o “Major Alveja” algumas vez se furtará. Antes pelo contrário, ainda que com demasiado risco para a sua integridade física, não deixará de cumprir o seu dever. Ao longo da aventura acabará por utilizar um novo avião como meio de transporte, como será um Lysander para terminar a sua missão. Piloto versátil, nenhum comando de avião lhe dificultaria qualquer manobra ou acção na sua contínua luta contra os seus inimigos. Estes também possuíam as suas armas, neste caso os aviões para contra-atacar as posições aliadas, como os “Focke-Wulf” alemães, mas mesmo assim o “Major Alvega” conseguia sempre sair vencedor. Os italianos também possuíam aviões e com eles  combatiam a nossa personagem, embora sempre sem resultados satisfatórios para o inimigo.

No entanto, no que respeita à banda desenhada é que qualquer personagem pode ser imortal. Os vários desenhadores conseguem dar conta do recado, pois como acontece numa maneira geral a todos os heróis, que atinjam uma certa celebridade, para que as suas aventuras possam ser facultadas aos leitores, há necessidade de as criar e para tal o que um leitor lê numa hora, o argumentista e o desenhador levam às vezes meses para desenvolver e editar uma história.

Cada desenhador tenta, dentro do possível, retratar de uma forma mais fiel, cada um dos tipos de aviões que durante a Segunda Grande Guerra actuaram em combate, nomeadamente: “Mosquitos”, “Beaufighters”, “Sunderlands”, “Macchis 202”, “Lysanders”, “Focke-Wulfs”, “Lancasters”, “Thypoons”, “Spitfires”, “Hurricanes”, “Thunderbolts”, “Havillands”, “Junkers”, “Hudsons”, “Messerschmitts”, “Stukas”, etc.. Embora não os tenha pilotado todos, alguns eram dos inimigos, todos eles acompanhariam as aventuras da nossa personagem e outros ele próprio os pilotou nas suas missões.

Nas aventuras do “Major Alvega” há também um factor importante que talvez alguns dos leitores, senão uma grande parte, não se aperceberam… A aviação tinha igualmente um papel a destacar, o de dar a conhecer a sua importância na Segunda Guerra Mundial, talvez por imposição do editor, não só pela sua acção no desenrolar da aventura como na divulgação das capacidades de cada avião. E recordamos aquela frase célebre de Winston Churchill “Nunca tantos deveram a tão poucos”, quando os alemães invadiram os céus de Londres bombardeando a cidade e os aviadores ingleses com o sacrifício das suas próprias vidas, conseguiram vencê-los.

Carlos Gonçalves

Hergé, Tintin e a Medicina – dezassete

No quadro 10 descrevem-se os traumatismos sofridos por Tintin com  perda de consciência. Estes são muito variados, desde o clássico soco até um bastão de madeira, passando por bater contra uma árvore ou ser agredido com uma garrafa. Não há até falta de situações exóticas como uma maçã gigante ou um osso… A maioria das situações foi sofrida nas suas primeiras aventuras, como já ficou mencionado. Por duas vezes ele foi hospitalizado e por uma outra fingiu ter desmaiado para escapar de uma situação difícil.

Os episódios de perda de consciência sofridos pelo protagonista por causas não traumáticas estão recolhidos no quadro 11. Existem aqui várias causas: clorofórmio, gás narcótico, quase afogamento, disparos por arma de fogo, intoxicação por monóxido de carbono, estrangulamento, desidratação, hipoxia (baixo teor de oxigénio), acção da anti-gravidade e mesmo hipoglicemia por jejum prolongado. Nem sequer falta o momento “mágico” de ser raptado por extra-terrestres. Em quatro destas ocasiões ele foi hospitalizado, necessitando de cuidados médicos em outras tantas.

Nos quadros 12 e 13 mostram-se os episódios das aventuras de Tintin, com traumatismos sofridos pelas personagens habituais (boas e más) e pelas restantes, sendo Tintin excluído.

O quadro 14 expõe as situações de inconsciência não traumática sofridas pelas restantes personagens, com excepção de Tintin.

Às causas acontecidas com as personagens devem ser adicionados os desmaios sofridos por várias mulheres, especialmente por Bianca Castafiore.

Somando todas as causas de perda de consciência teremos no total 45 episódios por traumatismos afectando 64 personagens assim como 26 situações de confusão para o resto das causas ocorridas com 84 sujeitos. Trata-se de altas percentagens se tivermos em conta que o número aproximado de personagens listadas nas 24 aventuras foi de 325, o que indica que quatro em cada dez delas sofreram um qualquer desfalecimento.