O LÓTUS AZUL – XXI

XXI – Conclusões para… começar!

Sete longas semanas, quase dois meses de pesquisas e de incertezas, de confronto de informações dispersas, de interrogações, muitas, e de respostas, algumas.

Li centenas de páginas em dezenas de fontes, hesitei na formulação das hipóteses, acertei e enganei-me nas conclusões, segui pistas tortuosas quando provavelmente tinha a via certa logo ao lado, e desprezei-a. Ao fim e ao cabo, percorri os habituais caminhos do pesquisador. É muito mais fácil copiar do que experimentar e, sobretudo, criar. Mas dá muito menos gozo.

Desprezei as banalidades próprias de almanaque ou as curiosidades vulgares de anedotário, meros enfeites decorativos ou falsa erudição.

Constituiu também fascinante desafio a pesquisa, organização e montagem das ilustrações que achei adequadas. Foram setenta no seu total e muitas delas exigiram minuciosas intervenções técnicas.

O Lótus Azul revelou-se, e isso foi uma confirmação, como obra culminante no percurso criativo de Hergé, marco de viragem decisivo com um antes e um depois completamente distintos.

A natureza especial do álbum, a influência de Tchang, a temática abordada e o seu “exótico” contexto conferem a esta aventura de Tintin uma frescura ainda hoje quase original.

Procurei manter, em cada momento do trabalho, uma rigorosa coerência com o propósito antecipadamente proclamado, o de mantê-lo sempre acessível aos não-iniciados no mundo da BD, sem com isso decepcionar os especialistas. Neste precário equilíbrio, tive de fazer algumas concessões, que -assim o julgo- não afectaram a sua qualidade média.

Relembro os amigos certos, António Dias de Deus, Carlos Gonçalves, Leonardo De Sá e Geraldes Lino, velhos companheiros de jornada nesta aventura colectiva dos quadradinhos, a quem dediquei expressamente o trabalho agora findo.

Mais distante, no Brasil, quero também saudar outro amigo, Pedro Britto, titular dum excepcional blog dedicado a Tintin. Ele teve a gentileza de assinalar publicamente a existência deste trabalho e a verdade é que, no país irmão, já conto, neste momento, com quatro dezenas de fiéis leitores.

A esta galeria das personalidades envolvidas, deverei agora acrescentar o desenhador belga Laurent Colonnier, com quem travei um significativo diálogo no decorrer da elaboração do estudo e a quem saúdo com admiração e amizade. E termino com um justo agradecimento a Cheng Hao, quase um portalegrense de adopção, que soube descodificar os sinais que o seu compatriota Tchang Tchong-Jen, há muitas décadas, fez inscrever nas páginas do álbum, pela mão, caneta ou pincel de Hergé. Sem o seu amável e precioso contributo, o meu trabalho ficaria incompleto e ainda mais imperfeito.

A todos os leitores e amigos que tiveram a generosidade de seguir esta longa série, e o fizeram com tolerância ou com interesse, fielmente às terças, quintas e sábados, o meu obrigado.

E até à próxima aventura de Tintin.

Ou de outro herói, intercalar…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

O LÓTUS AZUL – XX

XX – No grande mundo das políticas

Com a indispensável cooperação de Cheng Hao, concluímos a análise dos diversos pretextos, apresentados em mandarim e susceptíveis de conter material com interesse narrativo, sócio-cultural, histórico ou mesmo político. É este o caso, essencial, dos exemplos hoje aqui patentes.

O primeiro, disponível na página 6, está inserido numa vinheta que já foi analisada do ponto de vista do aviso/desculpa proferido pelo condutor do riquexó onde Tintin é transportado. O cartaz situado do lado direito, na rectaguarda de Gibbons, significa: “Abaixo os tratados desiguais!” Provavelmente, não é inocente a ligação estabelecida por Hergé, juntando “causa e consequência” nesta aliança gráfica, entre um protesto político e um símbolo (ou beneficiário) da situação criada pelo facto. Com efeito, já atrás se abordou a questão diplomática das Concessões Internacionais impostas à China na sequência de diversos incidentes da sua própria História, através dos denominados Tratados Desiguais (ou Iníquos).

Se poucos, raros, leitores do álbum terão podido fazer esta leitura pela descodificação do cartaz, sobretudo na época, podemos hoje dispor da absoluta certeza de que o facto se tornou irrelevante. Nos anos trinta do século XX, a questão era pertinente, pelo que a verdade histórica foi respeitada.

Na sequência da cena, e perante a agressão perpetrada por Gibbons na pessoa do inocente coolie (condutor do riquexó), acontece a pronta intervenção punitiva de Tintin. A vinheta da esquerda (na página 7) revela outro escrito, sobre fundo vermelho,  cravado na parede fronteira. E este declara: “Abaixo o imperialismo!

Concluindo: lado a lado, portanto, surgem duas inscrições políticas, denunciadoras do protesto popular perante a dominação estrangeira. O mesmo acontece no exemplo à direita, na gravura junta, relativo à página 32 do álbum, numa cena bastante mais adiantada da narrativa. O mesmo “slogan” –Abaixo o imperialismo!-, agora na forma duma faixa amarela, surge “estampado” sobre um vulgar anúncio publicitário.

A dúvida que pode colocar-se -lógica embora contraditória!- tem a a ver com a possibilidade de a cena do riquexó, aparentemente, se passar no interior duma Concessão, pois Gibbons vai lendo tranquilamente um jornal pela rua e logo, logo a seguir, entra no Occidental Private Club, onde denunciará a intervenção de Tintin. Não faria sentido a ostensiva exibição destes cartazes naquele local…

Por fim, e este parece-me o caso mais interessante, acontece que foram espalhados por diversos cenários da narrativa alguns pequenos mas significativos cartazes, apelando ao boicote dos produtos japoneses.

Assim aconteceu logo na versão original, a publicada nas páginas do Le Petit Vingtième ainda a preto e branco, em 1934 e 1935, e manteve-se na versão redesenhada e colorida de 1946.

No entanto, estes pequenos mas significativos cartazes foram profundamente remodelados na recente edição chinesa!

Pode compreender-se a diplomática (e económica) razão que terá fundamentado esta alteração. Hoje em dia, após o restabelecimento de normais relações entre os dois poderosos vizinhos asiáticos -China e Japão-  não faria mais sentido aquele apelo, apenas aceitável durante a ocupação nipónica, nos anos trinta do século XX.

Na gravura junta apresenta-se uma breve “antologia” destes casos, relativos às páginas 9, 26 e 45 do álbum. Na tira superior mostram-se as vinhetas relativas à versão ocidental e na inferior as devidamente “corrigidas” na tradução em mandarim. Ao centro, fica uma ampliação, com o pormenor dos cartazes, das duas versões.

Resta saber o que substituiu os apelos “Abaixo os produtos japoneses” ou “Boicote aos géneros japoneses”… Nada mais, nada menos, do que umas banais… placas toponímicas! Rua tal, porta tal ou praça tal, eis a engenhosa solução -verdadeiramente digna de Monsieur de la Palisse, ou dos Dupond/t- pela qual se resolveu o que poderia constituir-se, nos dias de hoje, como um embaraçoso caso diplomático, logo político.

Não devemos encerrar esta análise sem lembrar uma das críticas que alguns estudioso lançaram sobre Hergé: a de que ele deixou inscrita a sua “profissão de fé” nas paredes da antiga Shanghaï, aceitando por intermédio de Tchang os pontos de vista do governo chinês da época. Concedo a aceitação ou a rejeição desta teoria à responsabilidade de cada um dos leitores…

António Martinó de Azevedo Coutinho

Anexo dez – Conclui-se hoje a apresentação do documentário “Sur les Traces de Tintin – Le Lotus Bleu”, com a visualização da sua terceira parte. Através dos diversos contributos aqui reunidos e devidamente organizados, julgo que terá sido lançada uma nova luz sobre a construção do álbum. Afinal, há sempre qualquer pormenor a acrescentar ao que sabemos, ou julgamos saber, sobre determinado tema. A empresa produtora desta série prometeu continuá-la, no caso de ter obtido êxito com estes cinco documentários iniciais. Ao que parece, até terá contactado a base russa de Baikonur, com o objectivo de, eventualmente, ali desenvolver parte da trama narrativa correspondente aos dois álbuns de Hergé com a aventura lunar de Tintin e seus companheiros. Oxalá este desígnio se venha a concretizar.

Com este Anexo concluiu-se também a série de produções audiovisuais e multimédia propositadamente preparada para acompanhar a sucessão de “episódios” d’O Lótus Azul”.  

O LÓTUS AZUL – XIX

XIX – No pequeno mundo dos provérbios

Cheng Hao continua a desvendar-nos os pequenos segredos do Lótus, sobretudo aqueles que tínhamos recenseado como enigmáticos ou “ilegíveis”.

Progressivamente, vamos avançando por entre as complexidades que a edição chinesa veio revelar, aprofundando na maior parte das vezes a criação original.

A proposta de hoje contempla, sobretudo, frases mais elaboradas que as “decifradas” na anterior abordagem.

Entremos aqui pelos provérbios, em primeiro lugar pelos “interiores”…

Provérbios particulares – Trata-se de verdadeiras divisas e máximas familiares, normas ou objectivos de vida, timbre ou herança de honra, que Hergé coloca nas paredes das casas dos “bons”. Estes painéis, quase sempre incluindo pinturas tradicionais, encontram-se, sobretudo, na residência do Prof. Wang. São parcialmente visíveis em diversas vinhetas, o que permite a sua descodificação total: “Indulgência é a máxima pessoal” e “Diligência é a divisa familiar”.

A milenar sabedoria chinesa, patente nas diversas facetas da vida quotidiana, oferece aqui uma vocação expressiva, onde a oportuna intervenção de Tchang se exerceu em excelente campo de aplicação prática.

Provérbios gerais – Naturalmente, também surge no plano social, ou colectivo, o uso dos provérbios. Mesmo sem constituirem um atributo personalizado, os princípios religiosos e filosóficos servem a generalizada  expressão de conceitos elevados, onde a intervenção das formas literárias e, sobretudo, poéticas, ganha considerável importância e significado.

É o caso do que surge no exemplo da esquerda (pág. 16). Também diversas vinhetas permitem uma leitura integral da mensagem: “Logo que as nuvens descem e escondem o Monte Taï, é também este o momento em que o Sol se ergue sobre o mar”.

A vinheta da direita mostra um outro exemplo, aliás à imagem dos que se encontram profusamente distribuídos pelo álbum, concedendo porventura certa razão aos críticos d’O Lótus Azul que o consideram uma espécie de “catálogo” ou livro de provérbios espalhados pelas páginas. Creio que há aqui algum exagero…

 “Provérbios perversos” – Há nesta classificação, muito pessoal, um manifesto sentido crítico ou, no mínimo, metafórico.

Aliás seria interessante conhecer, neste particular, a posição de Hergé, se alguma porventura tiver existido, deliberada e reflectida. É que, nas sedes dos “maus”, nomeadamente nos escritórios de Gibbons e Mitsuhirato, nada, rigorosamente nada, se pode observar quanto a presenças similares aos provérbios atrás descritos.

Será por mero acaso, simples coincidência, ou por qualquer voluntária intenção da parte do desenhador e do seu aliado? Esta pergunta ficará, provavelmente, sem uma resposta definitiva.

Porém, o que é observável -portanto objectivo- é o facto de no escritório de Mitsuhirato (pág. 18) estar afixado um quadro onde constam o nome do navio, a natueza da carga (ópio) e o porto de destino. Este quadro foi “traduzido” em mandarim na versão chinesa. Quanto ao escritório de Gibbons (pág. 35), a única decoração mural existente é a fotografia duma instalação fabril.

Logo, o conteúdo dos “provérbios” aqui patentes é o crime organizado e o capitalismo…

 Provérbios impertinentes – No interior do Lótus Azul, antro do consumo do ópio, existem diversas inscrições chinesas. No entanto, também neste caso a opção de Hergé é significativa. O teor do painéis mais frequentes, aqueles que surgem em quase todas as vinhetas onde se mostram as salas, são esclarecedores na sua fina ironia: “Bons sonhos” ou “Votos de felicidades”. Isto não merece outros comentários, para além do que obviamente se impõe: a impertinência de semelhantes mensagens naquele contexto…

Depois desta breve passagem pelos provérbios ditos “interiores”, passemos aos “exteriores”…

Provérbios didácticos – É menos variada a colectânea dos provérbios visíveis nas paredes da cidade. Naturalmente, e isso já foi atrás destacado, existe uma profusão de outros escritos, os mais diversos. Mas aqui apenas nos interessam aqueles que pertencem à “família” dos conceitos tradicionais, populares, individualizados ou colectivos, que encerram um fundo moral ou cívico.

Um destes pode ser observado, com ligeiras diferenças, sob a forma dum painel (em fundo verde) junto a um dos grandes anúncios publicitários à fábrica Siemens (pág. 5)  ou dum mural da gare ferroviária (pág. 51). O seu sentido é: “Possuir mil hectares de terreno não vale mais do que o exercício dum modesto trabalho” ou “É errado possuir uma grande quantidade de bens em vez de adquirir algumas capacidades”.

Este princípio parece arrancado às páginas do Livro Vermelho de Mao. Porém, como já sabemos, nos tempos originais de construção d’O Lótus Azul apenas estava em curso a Longa Marcha…

Provérbios patrióticos – É outro interessante provérbio, este com uma única interpretação, sem variantes, o que se pode ler nma parede, sempre escrito em mandarim e tendo sobrevivido sem qualquer alteração desde a versão original do álbum, ainda a preto e branco. Pode observar-se na página 8 e significa: “Cheio de talento mas doente, que posso fazer pelo meu país?” Quase faz lembrar algumas célebres frases do presidente Kennedy…

Como metáfora, terá uma infinidade de interpretações possíveis. Logo a seguir às ameaçadoras insinuações de Mitsuhirato sobre os perigos de morte que pendem sobre Tintin e os seus amigos, constituirá um suplementar aviso? Poderá aludir aos dominados pelo vício do ópio, incapazes de ser úteis seja a quem for?

Uma hipótese sempre admissível é a da absoluta descontextualidade desta utilização. Aliás, esta possibilidade informará alguns outros casos e exemplos, aparentemente desmotivados ou alheios à própria lógica narrativa.

De qualquer forma, nunca deve ser perdida de vista uma circunstância fundamental, já aqui referida: a de que as inscrições em mandarim que temos vindo a analisar e a tentar interpretar, sem qualquer excepção além das que foram dotadas da anexa “tradução simultânea”, todas elas nada significaram, significam ou significarão, para o normal leitor da obra. São apenas parcelas inóquas ou simples pormenores decorativos do cenário, dando uma agradável e lógica tonalidade local à aventura…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Anexo nove –  “Sur les Traces de Tintin – Le Lotus Bleu”, parte dois. É este o conteúdo do presente Anexo. O documentário do realizador Marc Temmerman foi produzido pela Gédéon em cooperação com a Moulinsart.
Durou dois anos o tempo de preparação, reflexão e ensaios que antecedeu a realização. E pode compreender-se porquê, dado o ambicioso projecto depois meticulosamente concretizado.
É notável o ritmo conseguido em trabalho tão elaborado como este. Por seu efeito, somos remetidos para os tempos e os espaços históricos, na recriação dum contexto onde nada parece ter sido desprezado. Por outro lado, somos convidados a penetrar na própria crónica pessoal de Hergé, procurando assim entender as suas tomadas de posição e os seus estados de alma, por vezes complexos.
No próximo “episódio” ficará completa a “trilogia” em que houve necessidade técnica de dividir o documentário.

O LÓTUS AZUL – XVIII

XVIII – Mandarim com Mestre

Procurei o apoio de alguém que, compreendendo a língua mandarim, pudesse e quisesse  prestar-me o necessário esclarecimento para cabalmente poder prosseguir a minha tarefa. Na ausência da proprietária do estabelecimento comercial  Casa China Sen-Wei, ao Rossio, em Portalegre, avistei-me com um seu directo colaborador, o senhor Júlio Carrajola. Prestando a melhor atenção ao meu pedido de colaboração, este indicou-me o jovem caixa da casa, Cheng Hao, como o mais competente interlocutor para  satisfação da minha curiosidade. Servindo de  mediador, colocou-nos em diálogo e proporcionou os necessários encontros de trabalho. Cheng Hao, vive há cerca de três anos em Portalegre, sendo natural da Xian City, província de Shaanxi, no noroeste da China. Dominando o mandarim, exprime-se bem em inglês e mal em português. Eu, ignorando em absoluto o mandarim, falo português e domino mal o inglês. Mas entendemo-nos perfeitamente tanto em directo como no complementar trabalho para casa a que amavelmente ele se prestou. Foi muito gentil e preciosa a sua ajuda. Aqui lhe deixo expresso, portanto, o meu profundo reconhecimento.

Nesta boa companhia, a melhor proposta será a de voltar às ruas de Shanghaï. Agora, poderemos analisar um complexo contexto cuja legibilidade será consideravelmente mais alargada e mais rica. Atentemos, portanto, em alguns exemplos práticos desta revisão da matéria dada, como se escreveria num sumário escolar…

O suspenso e o afixado – São inúmeros os casos de letreiros ou painéis publicitários que se encontram dispersos por diversas vinhetas do álbum (na gravura, páginas 8 e 52), desde a versão original até às mais recentes edições. São também muito diversos os seus conteúdos, embora devam ser destacadas alusões concretas a tecidos -sobretudo seda-  e aos públicos alvo -homem, mulher, criança-, bem como à natureza dos estabelecimentos comerciais, como lojas, feiras ou armazéns, por exemplo.

A venda especializada – É o caso deste letreiro, supostamente colocado junto à porta dum templo ou pagode, reconhecível pelo estilo do telhado (pág. 12). Informa-nos o painel que ali são vendidos insenso e velas, o que está perfeitamente de acordo com a prática religiosa inerente ao edifício.

A placa profissional – Trata-se do portão de acesso a uma residência carismática na aventura de Tintin: a casa/consultório do Prof. Fang, que o jornalista por diversas vezes procura. O interessante cartaz informa, exactamente, que ali reside o “Médico Diplomado Fang Se Yeng”.

O aviso imperativo – É extensa e variada a panóplia dos diversos cartazes, painéis e outros dispositivos similares que preenche uma boa parte das vinhetas representativas dos cenários urbanos de Shanghaï, de outras localidades, caminhos e estradas por onde se desenvolve a trama narrativa da história d’O Lótus Azul.

Esta profusão visual encontra, por parte do seu próprio responsável, um curioso contra-ponto, representado por um aviso, também mural, porém único em todo o álbum (pág. 9).

A ironia é dupla, na metáfora suplementar que evoca. O aviso, bastante “ocidentalizável”, ordena: “É proibido afixar cartazes nesta parede”. Uma parede que, a partir daquele episódio, fica indelevelmente marcada pelos buracos provocados pela rajada de metralhadora destinada a abater Tintin. Com efeito, o aviso não proibe o impacto das balas…

Um anexo sonoro-visual – Tem aqui cabimento uma curiosa referência, que vem um pouco na linha, embora mais sofisticada, do grito-interjeição proferido pelo enviado à Índia. Agora trata-se da reprodução onomatopaica de diversos sons não-humanos constantes da narrativa (páginas 11 e 58).

O próprio toque artístico aplicado aos caracteres tende a marcar de forma característica o seu significado, pouco habitual. Representa um interessante esforço gráfico do adaptador/tradutor da história no sentido de corresponder à metalinguagem que o nosso código linguístico atribui à onomatopeia na banda desenhada.

Na confortante companhia de Cheng Hao continuaremos o percurso analítico d’O Lótus Azul. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Anexo oito – Reservei para os derradeiros “episódios” desta saga aquele que considero o mais fascinante anexo, entre os disponíveis. Trata-se da reprodução dum excepcional documento audiovisual que, devido à sua dimensão temporal, será repartido por três partes cada uma das quais com 15 minutos de duração, aproximadamente.
Começando hoje e concluindo-se no “episódio” XX, poderão assistir ao documentário “Sur les Traces de Tintin – Le Lotus Bleu”. Consiste num trabalho de grande qualidade, realizado por Marc Temmerman e estreado no canal Arte TV em Novembro de 2010. Foram aproveitados cinco álbuns de Hergé como base para outros tantos documentários.
Enquanto narra as aventuras do jovem jornalista, o filme justapõe-lhe três níveis de leitura convergentes: os arquivos e esboços de Hergé, os próprios lugares e personagens reais que o inspiraram e, sobretudo, vinhetas da banda desenhada integradas na paisagem autêntica. Este conjunto, cuja descrição pode prenunciar um resultado confuso, funciona admiravelmente. O produto final revela-se fascinante.
Hoje mostra-se aqui a primeira de três partes da sua versão original, em língua francesa, sem legendas.

O LÓTUS AZUL – XVII

XVII – O quotidiano de Shanghaï, segundo Hergé

Alguns analistas d’O Lótus Azul destacam dois temas fundamentais na trama da obra: o tráfico do ópio e o Incidente de Muckden, de 1931. O resto seria romance…

Não é tanto assim, porque a aventura protagonizada por Tintin paira sobre estes acontecimentos e, vivendo deles e sendo por eles influenciada, constitui a principal atracção popular da obra. A cidade de Shanghaï e os seus arredores, nesse complicado e sombrio clima criado pelos compromissos entre a ocupação japonesa e as partilhadas soberanias ocidentais em vigor nas concessões internacionais, essa cidade era a terra natal de Tchang.

Certos estereótipos, ou convenções, encontrados nas páginas do álbum devem-se, portanto, à influência do amigo chinês de Hergé. A proposta de hoje consiste numa sumária abordagem ao quotidiano de Shanghaï, e não só, a partir de algumas das inscrições originariamente escritas em mandarim e assim mantidas em todas as versões e edições posteriores, incluindo a chinesa.

O grito – Logo na página 3, ainda na Índia, Tintin recebe um mensageiro enviado pelos seus inimigos, os traficantes de ópio, com a intenção de o atrair a Shanghaï, onde mais facilmente aqueles se desembaraçarão do jovem jornalista. Os traços fisionómicos do enviado parecem mais próprios de um japonês que de um chinês, até pelo pormenor gráfico/racial usado por Hergé – a boca aberta… Atingido por um dardo, o enviado grita uma interjeição de surpresa e dor.

A desculpa – Passando à página 6, acontece aí o choque entre o condutor do riquexó e o vilão Gibbons que, completamente distraído, atravessa a rua de Shanghaï. O condutor, ainda que rigorosamente isento de culpa no acidente, antecipa e balbucia um aviso e uma desculpa pelo facto…

A informação – Na página 12, Tintin -devidamente travestido de chinês- interroga o agente policial sobre a localização da rua T’ai P’in Lou, ao que este responde que é a segunda, a seguir. O gesto, aliás, é um complemento esclarecedor. Sobre este episódio já atrás salientámos a facto de, na versão chinesa, o próprio Tintin se exprimir num correcto mandarim. Efeitos do tal romanesco e mágico maravilhoso da banda desenhada…

A sentença oficial – Aprisionado pelas forças japonesas controladas pelos seus inimigos traficantes, Tintin é condenado à morte. Assim, tal como preceitua a sentença devidamente afixada (com tradução simultânea), ele será passeado pela cidade, transportando uma tradicional canga, com a devida inscrição, em mandarim. O seu explícito significado é: “Condenado à morte por se ter oposto ao exército japonês”. No entanto, como é sabido através da mesmíssima página 37, é bastante mais amplo o rol das gravosas acusações.

A publicidade de rua – Nas páginas 5 e 40 surgem dois troços de ruas onde se vêem cartazes publicitários alusivos a uma marca credenciada, e antiga (desde 1847!), com implantação mundial já nos anos trinta, em plena China. Os cartazes referem as fábricas de material eléctrico Siemens (passe a presente e involuntária amplificação publicitária!).

A inscrição identitária – Numa última e quase insignificante vinheta da página 55 encontramos o único sinal concreto da profunda influência de Tchang na construção da história. A sua assinatura, discretamente inscrita na parede dum armazém, no cais de Shanghaï, é a presença simbólica que o amigo de Hergé quis deixar como registo da sua considerável participação pessoal.

Ao rejeitar que o seu nome expressamente figurasse na co-autoria da história, Tchang trocou tal celebridade pela voluntária modéstia -quase o anonimato- que, afinal, foi timbre geral da sua própria vida.

Estes seis breves mas significativos exemplos, que derivam da escrita original -e permanente- em mandarim, encerram a componente dita elementar da curiosa e interessante problemática linguística contida no álbum.

Aqui, a ciência pessoal esgotou-se, no apoio daquilo que se encontrou descrito ou referenciado em obras de consulta possível, a que tenho acesso. Por outras palavras, o “mandarim sem mestre” cumpriu a sua função. A partir de agora, manifesto -humilde e realisticamente- a fundamental necessidade da cooperação de um assessor especializado, do “tipo” Tchang Tchong-Jen…

 António Martinó de Azevedo Coutinho 

O LÓTUS AZUL – XVI

XVI – Incursões pelo vocabulário, e não só…

A criação dum contexto credível, genuinamente chinês, levou Hergé a certos exageros. Esta é a opinião, legítima e autorizada, de alguns estudiosos e críticos da sua obra. O filósofo e sinólogo Léon Vandermeersch, que já citámos, acha que o autor misturou traços das distintas paisagens do Norte e do Sul da China, que dotou os interiores das salas locais de enormes janelas, à moda ocidental, que povoou certos ambientes com indiscriminadas páginas de provérbios orientais, que mostrou os chineses sempre de boca fechada versus os japoneses com dentes à mostra e pernas arcadas…

Enfim, pormenores talvez, mas suficientemente significativos para terem interessado os especialistas.

Os ambientes, tanto interiores como exteriores, foram dotados dos elementos que Hergé e o seu “assessor principal” Tchang entenderam convenientes à verosimilhança e à narratividade desejadas. Continuemos a sua abordagem.

Por exemplo, a designação Restaurante, que abunda em qualquer localidade chinesa, encontra diversos pretextos de utilização nas páginas d’O Lótus Azul. Quase apetece propôr uma espécie de “Procurem o Wally” pelas páginas do álbum. Mesmo sem conhecer a escrita mandarim (chinês simplificado ou tradicional) é possível vasculhar as vinhetas para contabilizar a quantidade de vezes em que surge a designação em causa. Aqui ficam uns exemplos, a partir do “modelo” visível atrás de Tintin, quando este come…

O caso seguinte é muito interessante, porque mostra como O Lótus Azul significou, a diversos níveis da própria construção narrativa, um ponto de partida quase “histórico”. Já atrás se abordou a circunstância de ter aí começado a ser instalada a linha clara. O pormenor a seguir abordado mostra uma solução expedita que Hergé encontrou para resolver um problema que na época derivava, em parte, da necessidade de adaptação gráfico-narrativa das versões iniciais das histórias, contando estas com um maior número de páginas. Acresce a questão de se colocar a necessidade de dar resposta às diversas e sucessivas interrogações levantadas durante a narração. Estas duas questões, convergindo sobretudo no final das aventuras, produziram uma curiosa “fusão” entre o verbal e o icónico, pela qual se tornou possível fornecer informação bastante sob uma forma leve e agradável, sem ofender o equilíbrio anterior.

Em O Lótus Azul, quase todas as respostas em suspenso foram esclarecidas através da reprodução parcial d’O Jornal de  Xangai (pág. 60 do álbum). Aí, ficámos a saber onde estava sequestrado o Prof. Fan, o feliz final da luta entre os Maus e os Bons, o desmantelamento do salão Lótus Azul e as buscas feitas no domicílio do sr. Mitsuhirato, onde foram encontrados documentos confidenciais que provavam as acções terroristas (o Incidente de Muckden) e foram entregues à Sociedade das Nações, em Genebra. Como complemento, o jornal reproduzia uma entrevista com o herói do dia, o jovem repórter Tintin.

As únicas questões ali não respondidas foram-no logo a seguir: a cura de Didi, o suicídio de Mitsuhirato através do ritual hara-kiri (por um novo recorte de jornal!) e a adopção de Tchang pela família Wang.

Para melhor se conhecer a importância da solução “jornalística” encontrada por Hergé, devemos confrontá-la com uma falhada tentativa similar anterior (em Tintin na América, 1932, pág. 62), onde uma longa e pouco atraente locução radiofónica fornece as informações finais, assim como através da repetição posterior da reprodução duma página (em A Ilha Negra, 1938, pág. 62) ou, mais sofisticadamente, duma colecção de recortes de imprensa (em Carvão no Porão, 1956, pág. 60).

 Continua no próximo número.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

O LÓTUS AZUL – XV

XV – Mandarim sem mestre

Já atrás se abordou, de passagem, a questão linguística inerente à construção da história, em função da cumplicidade de Tchang.

Hergé sempre “escreveu” em língua francesa, isto é, as suas personagens “falam” e “pensam” em francês, e é nessa língua que são escritas as legendas e traduzidos os sons, na transcrição fonética das onomatopeias. Nas aventuras de Tintin, as suas relações com personagens de outras nacionalidades revelam as naturais situações de incomunicabilidade, sobretudo quando isso dá jeito à narração. De resto, o que acontece com a normalidade que o maravilhoso dos quadradinhos permite é que todos se entendam, como se dominassem na perfeição a totalidade dos códigos linguísticos em presença.

No caso das imagens -contexto geográfico ou “cenário” onde as personagens se movimentam- esta lógica bastante sumária e simplista revela-se mais discutível. As personagens aceitam e mantêm um certo grau caricatural, mas os seus locais de vivência, segundo Hergé, devem ser realistas. Esta preocupação do autor é muito nítida e basta para isso recordar as actualizações que O Lótus Azul sofreu na passagem da versão original, a preto e branco, para o álbum, através de alguns conjuntos de imagens aqui já reproduzidos.

O contexto chinês revelou-se particularmente rico, e mesmo propício, para que os cenários pudessem reflectir o respeito que Hergé procurou concretizar quanto à verdade histórica e geográfica do seu relato. E este é um dos grandes contributos que Tchang trouxe ao trabalho conjunto. O resultado traduziu-se num apreciável grau de rigor, embora os leitores habituais das histórias de Tintin, não tendo acesso à escrita mandarim, se mantivessem insensíveis perante esta melhoria, técnica e comunicacional, do relato. Para estes, e são gerações, a historicidade manteve-se impenetrável, pois aqueles cenários não lhes transmitiam nenhuma particular mensagem, para além de claramente denunciarem o facto de a história se passar na distante e enigmática Shanghaï e arredores…

Pouco a pouco, alguns estudiosos da obra abordaram esta questão e foram revelando mais esta faceta, interessantíssima, d’O Lótus Azul. Agora, a versão oficial chinesa do álbum não só confirma o facto como lhe vem trazer novas abordagens.

É este novo capítulo que vamos procurar aqui desvendar. Comecemos pelas primeiras “lições práticas” de mandarim elementar…

A inicial, lógica e fácil -aliás já revelada- é a da própria designação da obra, inspirada ou não na sugestão implícita no filme O Expresso de Shanghaï.

A palavra lótus, escrita em perfeito mandarim, surge por diversas vezes, logo a partir da capa de todas as edições, desde a original, e sobretudo no lanternim que assinala a porta do salão de fumo.

O Lótus Azul surge, naturalmente na sua expressão completa, na capa e na folha de rosto da edição chinesa, como atrás foi divulgado.

 

Depois, surgem na história outras indicações meramente informativas, como a designação do Hotel ou do Club Ocidental,  a placa Entrada Proibida, ou a máxima universal Tempo é Dinheiro.

Aqui há alguns pormenores interesssantes neste jogo linguístico.

Por que são escritas em inglês as designações do Hotel e do Clube, quando a norma, acima descrita, privilegia o francês? Por uma óbvia e lógica razão, a de ficarem situados na Concessão Internacional, onde domina a língua inglesa.

 

Já nos casos das placas Entrada Proibida ou Tempo é Dinheiro, também se verifica uma distinção. A primeira surge redigida em mandarim desde a versão original e só a segunda foi traduzida na versão chinesa, pois estava escrita em inglês.

 

Estes exemplos iniciais constituem os mais vulgares.  

As relações seguintes acrescentarão redobrados motivos de interesse.

 António Martinó de Azevedo Coutinho