O LÓTUS AZUL – XI

XI – O Lótus e a linha clara em tons de azul

Não foi por acaso que uma obra de qualidade sobre a evolução e os destinos da BD incluiu, como exemplo do estilo clássico denominado linha clara, uma página do álbum O Lótus Azul.

No volume Qu’est-ce que la Bande Dessinée aujourd’hui? (Beaux Arts Éditions, Boulogne, 2008) e sob o título Allô, la ligne claire?, o crítico Philippe Goddin descreve a sua teoria e revela como exemplo uma página do álbum.

 

No preciso momento em que propomos uma abordagem mais próxima a esta obra, nos seus pormenores significantes, convém que nos detenhamos um pouco sobre esta questão, muito mais do que um simples estilo gráfico ou estético.

Os estudiosos do tema costumam assinalar O Lótus Azul como a primeira obra de Hergé onde se encontram patentes as características essenciais da linha clara, então nascente, coincidindo com a aparição da cor nas aventuras redesenhadas para então receberem as diversas tonalidades para as quais não tinham sido originalmente concebidas. Portanto, é já na “renovação” dos primeiros trabalhos, com a conhecida excepção de Tintin no País dos Sovietes, que se assinala a aparição da nova linha.

Pode perguntar-se, sendo o Congo e os Charutos anteriores no tempo, por que se atribui ao Lótus a primícia dessa novidade?

A resposta imediata consagra a tal diferença representada pela nova perspectiva de Hergé sobre o realismo dos cenários e a verosimilhança da trama narrativa, ou argumento. O artificialismo ficcional anterior deu lugar a uma preocupação de rigor e autenticidade, que marca uma nítida fronteira no decurso duma obra una e coerente, mas também diversificada nas suas distintas fases. É a esta luz que podemos analisar, brevemente, as características marcantes da linha clara, propondo-se uma leitura geral d’O Lótus Azul orientada por esses marcos.

Em primeiro lugar, o traço do desenho é uniforme, sem distinções que definam os diversos planos, ou que nitidamente separem as personagens dos cenários. A cor quase parece secundária, dado que se assemelha a uma espécie de caligrafia. Sabendo-se da intervenção de Tchang, que chegou a iniciar Hergé no manejo dos pincéis chineses, pode perceber-se o lugar do Lótus neste contexto.

Depois, tal como na escrita oriental, cada traço tem um significado, dispensando sombras, excepto as que definem dia, noite ou fortes contrastes de iluminação. Aqui a representação da profundidade de campo não conta muito, assim como a própria perspectiva, embora respeitando sempre as devidas proporções.

 

As formas são muito simplificadas e puras, incluindo os pormenores do rosto, porém expressivo e revelando os mais íntimos sentimentos. Todo o desenho é colocado, de forma frugal, ao serviço do relato. Naturalmente, as formas assim reduzidas ao essencial tornam-se muito mais inteligíveis.

O rigor do traço implica, portanto, um óbvio respeito pelo leitor, tornando-o cúmplice através da facilitação dos códigos icónicos, quase elementares.

Cada sequência prolonga na sua simplicidade o rigor e a eficácia de cada uma das vinhetas que a compõem, servindo uma técnica narrativa original, de leitura muito acessível. Tudo parece organizado, como que por acaso, ao serviço da história.

A cor, embora quase dispensável, é realista, pura e esquemática, abusando das tonalidades pastel, com telhados vermelhos, céus azuis, campos verdes…

Hergé procurou sempre um uso justo e parcimonioso dos recursos próprios da linguagem da BD à sua disposição, das onomatopeias aos signos cinéticos, das metáforas visualizadas aos diversos tipos de balões, nunca abusando das suas potencialidades. Os diálogos, com ele, ganharam expressividade literária, exigindo balões de formato mais rectangular, com um toque pessoal no seu contorno.

Naturalmente, deriva daqui a criação duma “limpeza” narrativa onde poderá evidenciar-se a intervenção das diversas personagens, cada uma dotada de características próprias, por vezes complexas, como acontece com a riquíssima “família” criada pelo autor. A própria narratividade dramática, clara e perceptível, sem aderências barrocas ou maneiristas -bastante evidentes em inúmeros criadores da BD-, surge aqui linear e atraente, ainda que fazendo algumas concessões a uma certa forma, benigna, de maniqueísmo…

 

Em suma, a linha clara não se resume num estilo clássico, apenas estético e gráfico, pois ultrapassa os seus aspectos mais evidentes e imediatistas, no traço ou no colorido. A linha clara é sobretudo uma proposta diversificada, que abarca igualmente a temática, os argumentos, o estilo literário, as personagens, os objectivos de pura diversão e de divulgação cultural, enfim, é um projecto global articulado e coerente, nos domínios da banda desenhada.

A linha clara, mais do que uma estética icónica e narrativa, tornou-se uma ética comunicacional. Não deve supreender-nos, portanto, que tenha atingido a dimensão de uma autêntica Escola (dita de Bruxelas) com alcance europeu e universal.

Hergé foi aí o pioneiro teórico e, simultaneamente, o principal praticante.

E O Lótus Azul  foi o seu laboratório experimental. 

António Martinó de Azevedo Coutinho 

O LÓTUS AZUL – X

X – Onde a polémica se infiltra…

Hergé e Tchang têm vinda a ser alvo de insinuações, onde o sensacionalismo dispõe de considerável intervenção. Alguma imprensa, um pouco por todo o lado, vem fazendo caminho entre os bas fonds dum certo jornalismo e duma certa intelectualidade.

Começam a abundar os exemplos.

Roger Faligot, jornalista e escritor, considerado um especialista em criminologia e temas do Extremo Oriente, publicou um livro nas Éditions Nouveau MondeLes Services Secrets Chinois. De Mao aux JO-, onde dedica um capítulo aos anos 30 do passado século. Aí, não tem qualquer dúvida em assinalar Tchang como sendo em 2008 um agente comunista infiltrado no Ocidente. Considera que Hergé terá sido manipulado e a sua obra instrumentalizada, em ordem aos ideais chineses em voga na época. Assim, algumas das inscrições patentes em vinhetas d’O Lótus Azul reproduzem certos slogans pintados nas paredes de Pequim ou Shanghaï pelo Partido Comunista Chinês…

Esta tese, confirmada e desenvolvida, surge mais recentemente através duma polémica banda desenhada que as editoras francesas e belgas têm rejeitado, sob o rótulo do escabroso e do obsceno.

Em Graphic Novel, o autor Laurent Colonnier levanta a hipótese de Georges Rémi, dito Hergé, marido de Germaine, ter criado com Tchang uma cumplicidade amorosa, que em muito ultrapassou a vulgar amizade.

Por sua vez, Tchang era ao tempo manipulado pelo seu companheiro de quarto, Tong -comunista convicto- que viu ali uma boa oportunidade para aplicar o preceito chinês Yang wei zhong yong (utilizar os estrangeiros para estes sirvam a China).

Portanto, no preciso momento em que Mao iniciava a dramática retirada do Exército Popular Chinês (entre Outubro de 1934 e Outubro de 1935), na operação que ficaria conhecida como a Longa Marcha, nada melhor do que uma imagem favorável no Ocidente, aproveitando como manobra de diversão os episódios das invasões japonesas à China. Portanto, nas páginas de Le Petit Vingtième, por intervenção concertada e indirecta de Tong e Tchang, desenvolver-se-ia uma batalha surda, complexa e por vezes contraditória entre os serviços secretos japoneses e o Kuomintang, Partido Nacionalista do Povo, sempre com a supervisão e segundo os superiores interesses do Komintern, a Internacional Comunista (ou Terceira Internacional) inspirada por Vladimir Lenin…

É óbvio que, de toda esta trama se chega, novamente, a uma outra teoria, oportunisticamente organizada com base na doença e morte de Hergé, por muitos consideradas por efeitos do VIH (Sida). A homossexualidade de Hergé seria, portanto, o elo conveniente aos defensores desta hipótese.

Não adianta muito o depoimento autorizado e científico dos médicos que trataram o “pai” de Tintin, ao assinalar a coproporfiria, doença congénita rara, de que ele padecia, sendo obrigado a grande número de transfusões sanguíneas semanais. Sabe-se como, na época, o controle destas tranfusões era desacompanhado das actuais precauções sanitárias, pelo que o risco de contágio era uma séria probabilidade. Nada, portanto, autoriza a associar uma eventual embora nunca comprovada infecção com o vírus do VIH e a homossexualidade.

A insinuação da misoginia de Hergé é desmentida pela sua vida, por todos os testemunhos credíveis e autorizados de amigos e de biógrafos.

É absurda a tese de que na obra do autor escasseiam as personagens femininas e que a única verdadeiramente significativa -Bianca Castafiore- se limita a uma caricatura, pejorativa, da mulher. Então que personagem das aventuras de Tintin, incluindo-o, não é uma caricatura? Milou, Haddock, os Dupond/t, o professor Tournesol?

Então como e onde se valorizam os verdadeiros valores defendidos em toda a obra, a coragem, a fraternidade, a sã amizade? Como, por exemplo, entre Tintin e Tchang.

Retomemos, finalmente, O Lótus Azul. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

O LÓTUS AZUL – IX

IX – A amizade vence quase tudo

Antes de voltarmos aos álbuns, dediquemos a devida atenção ao encontro e à aliança entre Hergé e Tchang. Este é tratado por Zhang Chongren, no dialecto mandarim; no entanto, continuaremos a chamar-lhe, à moda ocidental, Tchang.

Tinham ambos 27 anos quando se conheceram, em 1934.

A amizade entre os dois jovens foi quase instantânea, tendo produzido consideráveis “efeitos secundários” na obra do autor de banda desenhada. Por exemplo, para além dos níveis de informação prática trasmitidos pelo escultor chinês, este iniciou Hergé no domínio técnico do caligáfico desenho, a pincel, da escrita mandarim. E, mais do que isso, influenciou decisivamente o contexto das próprias vinhetas. Isso é muito nítido e marca uma profunda diferença em relação a tudo quanto ficara para trás. Por exemplo, na aventura anterior –Os Charutos do Faraó–  existem alguns, embora raros, escritos (!?) em língua árabe, verdadeiras falsificações que nada representam, pois se limitam a uma mera imitação de signos, simples recriação caligráfica desprovida de qualquer significado linguístico.

 

N’O Lótus Azul, pelo contrário, toda e qualquer escrita em chinês é, de facto, autêntica e dispõe de tradução significante. E são abundantíssimos os exemplos…

Tal foi um dos trabalhos de intervenção de Tchang. No entanto, e esta é a ironia inerente ao facto, quase toda a deliberada intenção de verosimilhança passou quase despercebida. Até há pouco, aos tempos recentes em que a banda desenhada ganhou alguns direitos de cidadania comunicacional, este “pormenor” foi praticamente desprezado, por irrelevante. Com efeito, para o comum “leitor” dos quadradinhos, que diferença fazia “ler” mensagens credíveis escritas em chinês, árabe, cirílico russo, grego, japonês ou língua similar, em vez de simples imitações, por igual “ilegíveis”?

Como a imensa maioria dos leitores d’O Lótus Azul não dispõe de acesso aos códigos da escrita chinesa, esta historicidade estrutural mantém-se impenetrável, fazendo mera parte do cenário, não transmitindo mensagem alguma. Neste lógico e prático faz-de-conta, nada nestes banais “pormenores” assumiria qualquer significado. É claro que não é bem assim, ainda que só modernamente tenhamos um visão mais clara destas questões.

Tchang, que entrara de forma quase inesperada na vida de Hergé, também desta sai de idêntica maneira. Interpelado pela família, regressa à China, em 1935. Aí, vai tornar-se um afamado escultor, até a Revolução Cultural dos tempos de Mao Tsé-Tung o ter reduzido à vulgaridade.

Acontece que Hergé perde em absoluto qualquer tipo de contacto com o seu amigo. Escreve-lhe, em vão, procurando obter uma pista credível sempre que encontra um cidadão chinês. Em 1939, a mulher do líder nacionalista Chang Kai-Shek convida o autor belga a visitar a China e surge assim uma possibilidade de aí procurar o amigo desaparecido. Porém, a guerra começa na Europa e anula a possibilidade da deslocação. Só em 1972, 33 anos depois, quando a República Popular da China confirma a Hergé que o convite se mantém válido, é que a visita se vai concretizar.

Quando ele, na China, repete constantemente o nome do amigo, Tchang, escultor em Shanghaï, recebe dúvidas e negativas como resposta ao seu apelo. Até que alguém, por fim, tem uma pista: Tchang vive em Taiphé, na Formosa!

Após o regresso, é dissuadido de procurar o amigo, quando o próprio padre Gosset, que os apresentara em 1934, o esclarece sobre o facto da Formosa estar a poucos quilómetros da China, mas não ser a China!

Em Março de 1975, Hergé recebe uma visita inesperada, a do senhor Wei, que conheceu Tchang, na Formosa, e lhe fornece o endereço. O “pai” de Tintin envia uma carta, comovente, ao seu velho e perdido amigo, juntando-lhe em encomenda separada um exemplar do álbum O Lótus Azul, de 1946, assim como outro, de Tintin no Tibet, de 1960.

 

Convirá acrescentar a este propósito uma espécie de flash-back.

Já sabemos como Hergé incluiu Tchang na história d’O Lótus Azul, sob a forma do pequeno chinês salvo das águas por Tintin. Em termos psicanalíticos quase se pode aqui encontrar uma transferência dos alter-egos de ambos para os domínios da ficção.

Mas a saudade de Hergé pelo amigo perdido manteve-se de tal modo que inventou uma nova história onde os caminhos de ambos se voltam a encontrar. Foi no Tibete, quando Tintin sabe que o jovem chinês desapareceu nos Himalaias, na queda dum avião. Convencido da sobrevivência do amigo, o jovel jornalista parte à sua procura. O que parece uma perfeita loucura sem qualquer lógica transforma-se no reencontro de ambos, numa gruta perdida nas montanhas geladas do Tibete, sob o “patrocínio” do Abominável Homem das Neves…

Mas os livros enviados por Hergé são devolvidos com a indicação de “Importação interdita na China”. Torna-se necessária uma intervenção oficial da embaixada para repetir, com êxito, o envio.

Mas as autoridades chinesas mostram-se inamovíveis na recusa de deixar partir Tchang em visita aos amigo distante, entretanto fragilizado pela leucemia. Desenvolvem-se obstinadas diligências para ultrapassar tal resistência.

 

E a ficção só foi ultrapassada pela realidade quando Tchang, o autêntico, chega ao aeroporto de Zaventem, perto de Bruxelas, no dia 18 de Março de 1981, após longas negociações com as autoridades chinesas. Hergé, já muito debilitado pela doença que o vitimaria, recebeu finalmente o amigo perdido. Tchang regressaria à China e não mais veria o seu amigo Hergé, que morreu em 1983.

Tchang, fixado em França a convite do governo deste país, retomaria com êxito a sua arte de escultor e morreu em 1998. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Anexo Sete – Existe um pequeno filme, hoje histórico, que mostra o emotivo reencontro de Hergé e Tchang, após décadas de afastamento. Realizado por Valet Gérard, para a série “Moi, Tintin”, o documento, embora com locução e legendagem em inglês, é excepcional a diversos níveis. Nele, por exemplo, nota-se perfeitamente o debilitado estado físico de Hergé, já bastante afectado pela doença que em breve o vitimaria. Nesse Março de 1981 e numa conferência de imprensa que depois os reuniria, podemos recuperar o reencontro de dois verdadeiros amigos.

O LÓTUS AZUL – VIII

VIII – HISTÓRIA DA CHINA AOS QUADRADINHOS

Esta história de Hergé iniciou uma nova era no conjunto da obra do autor. Já atrás se afirmou isto, mas agora o conceito ganha dimensão e confirmação.

A China, a partir dos avisos recebidos, e aceites, assim como do estreito contacto com Tchang, passou a constituir -embora mantendo a distância e o mistério- um território “familiar”. Como tal, tornou-se credível e a sua autenticidade apoiou-se na nova postura assumida pelo autor.

A História da China, desde a milenar até à mais recente, passou a fornecer o material essencial da trama e do contexto da nova aventura. O que por ali acontecia chegava ao Ocidente pela imprensa ou pelos relatos dos viajantes, pois a rádio era limitada e o televisão inexistente.

Há episódios reais efectivamente acontecidos na China onde Hergé assenta uma considerável parte do enredo d’O Lótus Azul, corporizando o contexto em que decorre a luta de Tintin contra os traficantes de droga. Entre aqueles devemos destacar a questão das Concessões estrangeiras, sobretudo em Shanghaï, e o denominado Incidente de Muckden.

As Concessões estrangeiras foram parcelas do território concedidas pela China a algumas potências estrangeiras pelos Tratados (denominados) Desiguais, normalmente na sequência de derrotas militares, ou por consideráveis interesses económicos, sobretudo comerciais. Consistiam em enclaves dentro de cidades, como Shanghaï, autónomos, com regras e modos de vida diferentes, ao gosto do ocupante. No caso concreto desta cidade, onde decorre a acção fundamental d’O Lótus Azul,  a Rua Nanjing, no Bund, à beira do rio Huangpu, tornou-se uma Concessão inglesa após a Guerra do Ópio (1839-1942).

Só a partir de 1949, após a vitória do Partido Comunista, foram erradicadas dessas zonas todos as formas de vida, regras e hábitos ocidentais aí em vigor durante muito tempo… Pode afirmar-se que só então a China terá readquirido uma efectiva soberania sobre esses enclaves no seu próprio território.

Quanto ao Incidente de Muckden, tratou-se dum episódio real no seio do conflito regional entre a China e o Japão. Sumariamente, consistiu num acto de sabotagem ferroviária, acontecido em 18 de Setembro de 1931, no sul da Manchúria. Militares japoneses, segundo tudo leva a crer, fizeram explodir uma secção da via férrea desta província chinesa, que era explorada por uma companhia ferroviária japonesa. O exército imperial japonês acusou dissidentes chineses pelo (premeditado!?) acto de sabotagem, servindo-se deste pretexto para invadir e anexar a Manchúria, inciando mais uma, embora não declarada, guerra sino-japonesa.

É este o contexto que se vive na época em que Hergé constrói a narrativa. Embora entre Shanghaï e Muckden distem mais de 1 200 quilómetros, todo este ambiente bélico irá alastrar progressivamente a uma vasta zona costeira do continente. A influência de Tchang é determinante para que Hergé assuma uma posição, embora romanesca, no conflito real, e abertamente a favor da causa chinesa. Esta evidência, declarada e confirmada semana a semana durante a publicação da aventura do Le Petit Vingtième (entre Agosto de 34 e Outubro de 35), chega a desencadear um pequeno conflito diplomático, quando um oficial belga, o tenente Raoul Pontus -presidente das Amizades Sino-Belgas-, transmitiu o protesto da Embaixada do Japão ao jornal responsável pela divulgação da história. Isto quase parece incrível, mas aconteceu.

Dizem as crónicas da época que Hergé chegou a preocupar-se com estas reacções, sendo então encorajado pelo seu amigo Tchang a manter a linha escolhida.

Portanto, como adiante se pormenorizará, este álbum contém uma explícita conotação política e histórica com uma dimensão que jamais se repetirá em toda a obra posterior.

No entanto, devemos reconhecer que a posição de Hergé nunca assumiu uma posição claramente anti-japonesa, limitando-se a criticar o comportamento do Japão daquela época histórica, tal como também criticou a política existente no interior das Concessões internacionais.

Quase inconsciente ou talvez involuntário, podemos mesmo considerar como um paradigma de todo este processo a cena mostrada no capítulo anterior, quando Tintin se refugia numa sala de cinema. O filme a que o herói assiste é um documentário de actualidades mundiais, imagem-síntese quase subliminar, reveladora de toda uma profunda alteração no comportamento pessoal do autor, quanto ao seu interesse pelo que se passava, de facto, neste nosso planeta…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Anexo 6 – Retomamos, hoje, a “exploração” sonora d’O Lótus Azul. A presente proposta, após a audição da versão digitalizada dum disco raro, consiste numa faixa de um CD bem mais moderno. Dedicado à sonorização de Les Aventures de Tintin, subintitula-se Bande Originale da la Série Animée e contém 12 faixas alusivas a outros tantos pretextos colhidos nestas interpretações cinematográficas da obra de Hergé. Data de 1993, sendo uma edição da Ellipse Programme, em parceria com Warner Music France.

 

A faixa correspondente ao nosso propósito denomina-se La Rue de la Tranquillité (Street of Tranquillity) e tem a duração de 1 minuto e 10 segundos. Porém, dada a escassez dos pormenores disponibilizados no folheto anexo ao disco, não podemos indicar com precisão o autor. É um entre Ray Parker, Jim Morgan ou Tom Szczesniak, com edição musical de Stephen Hudecki ou de Peter Branton…

Sobre a designação da faixa, torna-se fácil associá-la ao endereço da casa de Mitsuhirato, que Tintin indica ao condutor do riquexó onde se vai deslocar…

O LÓTUS AZUL – VII

VII – Traduttore, traditore (dois)

Escolhemos 4 das 62 páginas disponíveis em cada um dos álbuns analisados. Ao procedermos a esta selecção apenas procurámos alguns exemplos-tipo considerados mais “generalistas”, uma vez que procuraremos proceder mais tarde a um detalhe mais profundo de certos pormenores verdadeiramente significativos.

 A página 1 introduz a história que, como já foi atrás recordado, se constitui como uma sequência da anterior aventura, Os Charutos do Faraó. O cabeçalho das três edições é curioso, com a francesa ostentando o título nas duas línguas, a nacional e a chinesa, enquanto as outras edições o resumem à nacional.

Como é natural, cada página está escrita na língua própria dos respectivos leitores/destinatários/compradores, tornando-se irrelevante analisar aqui os fenómenos comunicacionais que esta modalidade de metalinguagem comporta, uma vez que cai em campos altamente especializados da linguística aplicada. Em senso comum, trata-se portanto de uma situação “normal”. De anotar, por interessante, a tradução fonética das onomatopeias (ruídos ou barulhos) na versão chinesa (4.ª e 5.ª vinhetas). Finalmente, quanto à vinheta inicial da última tira, os chineses não sentiram qualquer necessidade de traduzir o seu conteúdo, precisamente porque este é… incompreensivel! Portanto, ao contrário dos portugueses, eles usaram uma mais económica lógica comunicacional.

 O confronto proposto pela página 6 propõe outras questões. Só o “maravilhoso” de Hergé (ou da BD) permite aceitar com indiscutível naturalidade que Tintin (na 3.ª vinheta) indique ao condutor do riquexó o endereço ao qual deseja ser conduzido: Rua da Tranquilidade. Quem esteve em Macau, ainda português, sabe que era imperioso entregar ao taxista o endereço escrito em mandarim para garantir algum êxito…

Em contrapartida, é o mesmo “maravilhoso” que permite aos leitores chineses aceitarem, com a mesma indiscutível naturalidade, que Tintin se exprima num correctíssimo mandarim…

A vinheta inicial da última tira inclui um dos raros balões, nas edições ocidentais, escrito em chinês (são apenas três, em todo o álbum!).

 A página 12 repete algumas das curiosidades já referidas, como a transcrição fonética chinesa das onomatopeias “ocidentais” ou a reprodução dum texto (o do telegrama) desta vez “traduzido” pois o seu sentido -ao contrário do exemplo da página 1- é significante.

De resto, o mais interessante da página reside na última vinheta da penúltima tira, onde Tintin pergunta ao polícia chinês onde fica a rua T’ai P’in Lou. Trata-se da repetição da situação de incomunicabilidade já abordada quanto ao improvável diálogo entre Tintin e o condutor do riquexó

 Finalmente, quanto ao proposto confronto da página 33, encontramos uma semelhança quase absoluta nas Actualidades Mundiais fílmicas, onde os maiores interesses se situam na comparação fonética dos latidos caninos e em mais uma versão do tal improvável diálogo.

Interessante é a nota de pé-de-página, onde a interpretação nacional quase passa despercebida (o algarismo 1 é minúsculo!), recapitulando uma situação narrativa com significado, pois um dos “maus” da fita, ou da história, é ali referido…

Numa pausa a esta ligeira análise formal, devemos tratar a seguir do conteúdo ou contexto desta aventura, factor relevante para um melhor entendimento da sua real importância.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

O LÓTUS AZUL – VI

VI – Traduttore, traditore (um)

A recente edição chinesa d’O Lótus Azul foi objecto de especiais cuidados na tradução do original em língua francesa.

Esta questão da tradução de obras, nomeadamente no caso da banda desenhada, implica alguns problemas de diversa natureza. Como prometi apresentar este estudo ao nível dos leitores não iniciados no específico universo da BD, afastar-me-ei deliberadamente dos habituais especialistas a que costumo recorrer nos apaixonantes domínios da linguagem verbo-icónica: Pierre Fresnault-Deruelle, René la Borderie e Umberto Eco.

A abordagem corrente aos diversos problemas abrangidos pelas diversas edições d’O Lótus Azul oferece interesse bastante. Escolhemos três, julgadas suficientes: o álbum original colorido, de 1946 (aqui representado pela edição em fac-símile de 1974, que possuo), a versão portuguesa editada pelo jornal  Público em 2003 e o original chinês de 2010, directamente traduzido da versão em língua francesa.

A proposta consiste em brevemente confrontar as respectivas capa, contracapa, folha de rosto, ficha técnica e quatro páginas, escolhidas entre as 62 disponíveis.

 

As capas são similares, com a francesa ligeiramente maior e mais dura. Nada de significativo… Nada a registar, igualmente, quanto ao tema ilustrativo -igual- e ao texto, apenas diferindo na língua.

 

Já quanto à contracapa, uma sumária observação anota óbvias diferenças. A edição francesa ostenta a relação nominal dos títulos disponíveis quanto a Les Aventures de Tintin, que então (1946) terminavam com Les Bijoux de la Castafiore, 20 na totalidade. As restantes publicações (séries Jo, Zette et Jocko ou Quick et Flupke) são aqui irrelevantes.

A edição portuguesa, em estilo mais modernizado ou mais actualizado, com utilização de miniaturas das respectivas capas, disponibiliza mais quatro álbuns, portanto 24, sendo 3 desses relativos à série de aventuras de Tintin e o restante a uma sua versão cinematográfica (O Lago dos Tubarões). De notar a inclusão da primeira história de Tintin, a nunca refeita No país dos Sovietes, mantida no original desenho a preto e branco. Os outros dois álbuns são os lançados após 1946: Voo 714 para Sidney (1968) e Tintin e os Pícaros (1976).

Finalmente, na recente tradução chinesa, tudo equivale à nacional, excepto em dois “pormenores”: olvidar a história cinematizada e, sobretudo, excluir o álbum “maldito” – o da ida de Tintin à Rússia soviética. Com efeito, tal como será impensável encontrar O Lótus Azul no Japão, será impossível descortinar Tintin no País dos Sovietes na República Popular da China. As razões são similares e assentam na interpretação das fortes críticas políticas patentes nas obras, segundo a legítima leitura oficial de cada país.

No caso chinês, as primárias estereotipias usadas por Hergé para denegrir o sistema comunista russo não são aceitáveis. Daí a implacável censura.

 

O confronto das páginas de rosto revela uma total lógica, pois apenas diferem nas respectivas traduções, portuguesa ou chinesa, do nome do autor, do título e da casa editora.

 

Restam as “fichas técnicas”, donde se podem retirar algumas interessantes observações comparadas. A edição francesa, a original, revela as diversas línguas em que estão traduzidas as aventuras, com indicação dos respectivos editores oficiais, 14 no total. Curiosidades principais: existe uma edição japonesa, Brasil e Portugal possuem editores autónomos e a China está ainda ausente. Estamos em 1946, convém não esquecer este dado…

Na edição portuguesa, do Público, não consta esta relação, valorizando-se a referência aos originais franceses da história, datados de 1946 e 1974. Pouco mais…

Os maiores interesses da ficha chinesa residem no facto de ser bilingue (chinês simplificado e inglês) e de expressamente citar os dois responsáveis pela edição: Wang Bingdong e Pierre Justo, respectivamente tradutor e colaborador-consultor da obra.

 

Wang Bingdong, tradutor consagrado, é professor de Francês no Instituto de Línguas Estrangeiras da Universidade de Pequim, e declarou publicamente ser Tintin o candidato ideal para Secretário-Geral da ONU, devido à sua capacidade de tolerância e de compreensão pelas pessoas de todo o Mundo… Confessa ter-se tornado um fã incondicional de Tintin desde que o conheceu, há dez anos atrás. Nesta oportunidade, trabalhou durante três anos na tradução da obra de Hergé, deslocando-se regularmente à Bélgica para aí recolher informações credíveis nas fontes exactas, sem intermediários, tendo até ganho, pelo seu rigor, a confiança da Casterman, editora oficial de Tintin.

Pierre Justo, um especialista francês em banda desenhada, sobretudo a francófona, e também em assuntos orientais (trabalhou no Japão e vive em Pequim), domina na perfeição o mandarim e colaborou com Wang, sobretudo no respeito pelos conceitos originais da obra de Hergé e também no lançamento editorial de Tintin no país d’O Lótus Azul.

Pode afirmar-se que desta parceria resultou uma melhor compreeensão das mensagens sub-liminares, dos jogos idiomáticos contidos nas próprias palavras e de todo o contexto cultural subjacente. Daqui, a mais-valia essencial desta moderna edição da obra de Hergé em língua chinesa. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

O LÓTUS AZUL – V

V – Mais por dentro do Lótus

Um álbum como O Lótus Azul permite, quase impõe, uma multiplicidade de leituras possíveis, quer o encaremos como uma história completa no seu enredo romanesco, quer analisemos apenas o relato das imagens, apenas o do texto, ou o da sucessão das vinhetas encarada como um continuum narrativo. O trabalho aqui e agora proposto, pela análise nele implícita, pode assemelhar-se a uma autópsia, exercida sobre um corpus morto e frio… 

Nada disto. Ao propôr um semelhante e pormenorizado detalhe pretendo sobretudo valorizar a posterior leitura final, bem a quente, naturalmente mais rica na sua globalidade, a partir do melhor conhecimento das suas parcelas.

Depois da associação estabelecida entre as imagens e os seus modelos reais, podemos abordar a seguir casos de actualização, de melhoria ou enriquecimento do desenho e outros, também curiosos, que designaria para já, embora imperfeitamente, como exemplos de “tradução simultânea”.

No “capítulo” que designaria por actualizações, incluo quatro ou cinco distintos casos. Um diz respeito à evolução do nome do Hotel onde Tintin se instala em Shanghaï, primeiro denominado de Europa Palace e, depois, de Continental. Percebe-se que talvez tenha sido intenção de Hergé a de conceder um mais amplo sentido a tal designação… Porém, comete um erro narrativo, raríssimo nele, com tal alteração. No cabeçalho dum telegrama, já depois da mudança, mantém o nome original!

 

A firma do famigerado W. R. Gibbons deixa de ser a Americano-Anglo Chinese Steel Company Limited para se tornar a American & Chinese Steel Company. A alteração, de contornos geopolíticos, traduz -ao tempo- a perda de importância relativa dos britânicos em certos domínios económicos.

 

Outra evidente mudança gráfica diz respeito ao símbolo japonês, confrontando as edições de 1934 e de 1946. Na edição pioneira, Hergé utiliza duas distintas bandeiras, a do “Círculo Solar”, bandeira nacional do Japão desde 1870, e a do “Sol Nascente”, bandeira japonesa naval de guerra, ostensivamente aplicada sobre os carros de combate ligeiros. Na edição redesenhada e colorida, o segundo dos símbolos desaparece, numa aparente correcção de um eventual erro inicial, substituído pela bandeira nacional. Porém, não se tratou dum erro, pois a verdade -confirmada pelos registos do conflito- é a de que tais carros de combate pertenciam à Armada japonesa! Aqui, houve um manifesto excesso de zelo ou de rigor por parte de Hergé…

 

Dois casos igualmente curiosos, escolhidos pela sua evidência entre dezenas de muitos outros, similares, correspondem ao invulgar enriquecimento gráfico, ou estético, na passagem da edição a preto e branco para a colorida.

É um exterior, uma rua, e um interior, uma sala.

No primeiro caso, do vazio ambiental atinge-se a uma exuberância quase barroca; no segundo, a introdução dum tapete faz toda a diferença.

Como se sabe, o constante crescimento de Hergé -enquanto desenhador- fê-lo ganhar uma pujança técnico-narrativa evidente, traduzida numa óbvia melhoria na sua obra. Depois, a criação da sua própria equipa de colaboradores trouxe uma qualidade quase inultrapassável ao seu estilo da “linha clara”.

O mais curioso, em termos históricos, corresponde ao comprovado facto de os chineses, durante séculos, terem considerado o tapete como uma “arte bárbara”.

 

Finalmente, abordemos de passagem aquilo que classifiquei como casos de “tradução simultânea”. A utilização de caracteres chineses, do seu alfabeto designado por “simplificado”, traria inultrapassáveis obstáculos à decifração das mensagens consideradas pertinentes para o claro entendimento da história. Desprezando por agora a sua autenticidade, falsificação ou imitação, a “solução” consistiu em anexar a tradução dos caracteres chineses junta aos mesmos.

 

Porém, esta questão linguística é fundamental quando encaramos esta nova realidade duma edição chinesa, no seu confronto com as tradicionais edições ocidentais, a que estávamos habituados.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

 Anexo 5 – Como seria lógico, a proposta de hoje consiste na conclusão da audição do disco O Loto Azul, pela disponibilização do lado B, devidamente digitalizado em mp3. Justo será acrecentar que neste trabalho técnico contei com a competência e a disponibilidade de Jorge Santos, do Departamento Audiovisual da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Portalegre e, depois, de José Carlos Louro, da Entidade Regional de Turismo do Alentejo. Sem tais colaborações estes Anexos não seriam possíveis, pelo que aqui fica expressa a minha gratidão. 

O LÓTUS AZUL – IV

IV – O “exame” interno continua…

A aventura O Lótus Azul passou por diversas fases, como aliás aconteceu com quase todas as histórias criadas por Hergé, nomeadamente as que foram concebidas e publicadas ainda a preto e branco e contando com um número de pranchas (ou páginas) bastante superior ao contido na posterior edição em álbum. Também aconteceu a esta aventura, embora constituindo um relato autónomo, ter sido organizada como uma espécie de continuação da anterior. Assim, a Tintin – Reporter en Orient (Les Cigares du Pharaon), seguiu-se Tintin – Reporter en Extrême-Orient (Le Lotus Bleu). O denominador comum e o traço de união consistem na luta de Tintin contra os bandos de tráfico da droga, o que motiva a sua ida de Rawhajpoutalah, na Índia, para Shanghaï, na China.

Só a partir da página 10, na versão original em Le Petit Vingtième (1934), ou da página 5, na versão em álbum colorido (1946), é que começa a actividade do jovem jornalista de investigação em plena China.

 

Dali temos recolhido, indistintamente das vinhetas a preto e branco ou das coloridas, os exemplos de respeito pelo rigor documental que passou a constituir timbre de honra do autor. Como também já sabemos, isso deveu-se a um reparo oportunamente colocado a Hergé, assim como à preciosa colaboração do seu novel amigo chinês Tchang. Apesar de nos termos até agora preocupado com aspectos predominantemente formais, é fácil perceber que também destes participa uma cultura muito especial (a que se chamava ao tempo: exótica) derivada da milenar história do Celeste Império.

 

Uma pintura torna-se especial porque é chinesa, e o mesmo acontece com um vaso de cerâmica, um vulgar leito, precisamente porque os motivos, as técnicas, as cores e os suportes, sobretudo o espírito e o significado, reflectem a sensibilidade colectiva dum povo, acumulada ao longo de séculos e séculos de uma actuante filosofia de vida.

Nada deste especial “clima” poderia ter sido projectado em exclusivo por Hergé, nesta aventura onde ele deliberadamente escolheu contexto, cenário e sobretudo protagonistas, pelos quais arriscaria sujeitar-se a contundentes críticas como as que sofrera -e sofreria- a propósito da Rússia, dos Estados Unidos da América ou do Congo Belga.

 

É a esta luz que proponho a análise dos exemplos aqui arrolados, tornados singelos na sua sumária exposição, porém envolvendo uma complexidade de componentes culturais onde o rigor formal e os dados históricos, estéticos, antropológicos, místicos, até filosóficos e religiosos dispõem duma participação, tão profunda quanto uma vinheta dos quadradinhos pode abarcar.

 

Se a designação Nona Arte poderá por vezes parecer exagerada ou descabida, julgo que já nos distantes anos 30 do século XX terão nascido -ou crescido- algumas sólidas bases desse mito…

Deixemos por ora estas “radiografias”. É preciso ir mais ao fundo, no exame à obra. Talvez dê mesmo jeito uma “biópsia”. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 Anexo 4 – A proposta de hoje reduz o audiovisual ao simplesmente audio. Porém, pela sua raridade e pelo seu interesse, creio que vale a pena escutá-lo. Consiste na digitalização integral (lado A e lado B) dum disco vinil LP 33 1/3 r.p.m., intitulado O Loto Azul (sic!). É um registo Vértice, produzido pelos Estúdios JORSOM e datado de 1975, espécie de audio-livro avant la lettre que interpreta a obra “homónima” de Hergé em estilo de rádio-novela. A tradução e adaptação é de Elisa e a música de Jorge C. Pinto.

 

As personagens são: Tintin – José Carlos; Dupont/Rastapopoulos/Marajá – Albino Santos; Wang/Mitshuirato – Nuno Emanuel; Dupont/Faquir/Tchang – Luís Mascarenhas. Portanto, após esta apresentação, o convite é… ouvir O Loto Azul !
Hoje fica disponível o lado A.

O LÓTUS AZUL – III

III – O Lótus visto por dentro

Pode começar-se a análise d’O Lótus Azul, desde já, pelos aspectos mais imediatos da obra: o título e a imagem de marca, depois transformada em capa.

A estratégia encetada por Hergé na construção desta aventura assenta na recolha e no tratamento de informação credível. Pois tanto o título como a imagem a este associada, referências emblemáticas, correspondem ao novo rumo seguido pelo autor. Foi no cinema da época que ele colheu inspiração e modelo, provavelmente antes do encontro com Tchang.

Dois filmes norte-americanos com forte conotação chinesa forneceram os tópicos adequados: A Filha do Dragão (1931), realizado por Lloyd Corrigan e interpretado por Anna May Wong e Warner Oland, e O Expresso de Shanghai (1932), de Josep von Sternberg, com Marlène Dietrich, Anna May Wong, Clive Brook e Warner Oland. As imagens projectadas, ainda a preto e branco, revelaram um dragão ameaçador e simbólico assim como a designação dum bar, clandestino local de encontros, trocas e outros negócios: Blue Lotus

 

O dragão, usado no ocidente como uma espécie de emblema nacional da China, não dispõe aí deste uso. No entanto, a partir da dinastia Qing, apareceu em bandeiras nacionais, pelo que a conotação é suficientemente forte para justificar a escolha de Hergé, que também usa o dragão como frequente motivo decorativo. Quanto à expressão Lótus Azul, referindo uma flor sagrada dos rios, desde a civilização egípcia, que até dispõe de efeitos considerados narcóticos e mesmo alucinogénicos, que mais adequada designação poderia Hergé encontrar para a sua nova história?

Resolvidas com êxito as questões do título e da imagem de marca, entregou-se o autor a uma sistemática pesquisa sobre os conteúdos relativos ao contexto geográfico, histórico, humano e cultural do país onde ia situar a trama do seu trabalho. Já então o escultor Tchang lhe prestaria um inestimável serviço a que hoje chamaríamos de assessoria técnica, onde uma viva inteligência, uma vasta cultura e uma rara sensibilidade estética lhe permitiram a comunhão dos interesses e objectivos em causa, numa crescente cumplicidade recíproca. Consta que Hergé, reconhecido, terá mesmo admitido que o seu amigo chinês co-assinasse o produto final do trabalho, em função da justa avaliação pessoal do contributo de Tchang. Tal não chegou a acontecer, mas a inclusão duma personagem, um jovem chinês de nome Tchang Tchong-Yen (que coincidência!) com decisiva influência no relato, revela de forma indiscutível os gratos sentimentos de Hergé.

Parte significativa dos arquivos do autor estão hoje disponíveis, pelo que se tornou possível apreciar a documentação pesquisada e a sua transcrição (ou adaptação) para as vinhetas da história. Eis alguns interessantes exemplos desta relação:

 

Tornar-se-ia exaustivo prolongar por hoje a descrição, embora sumária, de alguns dos exemplos patentes na obra de Hergé. Continuaremos esta interessante referência ao respeito pelo rigor documental, que até então desprezara ou confundira no seu labor, sem no entanto esgotarmos toda a abundante panóplia colocada à nossa disposição. 

António Martinó de Azevedo Coutinho 

Anexo 3 – Fica hoje concluída a apresentação de O Lótus Azul, numa sua adpatação para cinema de animação, em versão dobrada no português do Brasil.

O LÓTUS AZUL – II

II – O álbum O Lótus Azul

O Lótus Azul foi a quinta das aventuras de Tintin que Hergé criou e fez publicar. Antes da China, tinham sido principais destinos do herói a Rússia dos sovietes, o Congo colonial, a América dos capitalistas e dos gangsters, assim como a Índia dos faquires e dos marajás. 

Quando, na directa sequência de Os Charutos do Faraó, o autor anuncia a ida do jornalista até à distante China, recebe um sério aviso prévio da parte do padre Léon Gosset, capelão dos muitos estudantes chineses na Universidade belga de Louvaina. O conselho era bem claro, no imperioso sentido de que Hergé tivesse o cuidado de antecipamente se informar sobre a vida na China, evitando repetir preconceitos e estereotipias abundantes nas anteriores obras.

De facto, uma Rússia cheia de camponeses famintos e de brutais comissários políticos, um Congo exclusivamente recheado de indígenas atrasados, simplórios e supersticiosos, uma América dominada pelos bandos armados urbanos, por rurais cowboys carnavalescos e por ingénuos e folclóricos peles-vermelhas, ou uma Índia povoada por elefantes e por encantadores de serpentes, todo esse conjunto romanesco e tosco teria de ser corrigido através duma alteração na colheita de informação, através duma pesquisa honesta e inteligente que permitisse a aproximação realista a um país misterioso aos olhos do europeu médio, portanto mal informado, nos anos 30 do passado século.

Para mais, dois pequenos mas significativos exemplos, recolhidos das idas à Rússia e à América do Norte, tinham revelado a opinião de Hergé sobre os naturais do país que agora ele iria visitar em profundidade.

 

Dois chineses que Tintin encontrou na Rússia usavam tranças e trajos folcóricos,  desempenhando a função de carrascos, encarregados do exercício da tortura, enquanto os incluídos na aventura americana eram meros esbirros do bando de gangsters, também vestindo “a rigor”, infundindo em Milou o pesadelo de acabar num prato típico da culinária oriental e tendo como principal função o trabalho sujo de eliminar radicalmente as vítimas do grupo.

Hergé, como se pode concluir pela actualização desta história, substituiu-os por brancos e americanos…

O desenhador aceitou a sugestão do padre Gosset, que levou mais longe o seu conselho quando, em Maio de 1934, apresentou a Hergé um jovem escultor chinês, estudante de Belas Artes, chamado Tchang Tchong-Jen.

Este episódio terá uma decisiva importância para o trabalho de Hergé, não apenas no que respeita à história então em curso mas quanto ao futuro de toda a obra.

 

Podemos afirmar que O Lótus Azul é, analisado a esta luz, um álbum-chave no conjunto de toda a produção do autor, e por diversos motivos complementares.

Antes de tudo o mais, e no confronto com as aventuras anteriores, esta é pioneira pois assume a forma dum folhetim sequencial, onde o relato é construído como um todo lógico e coerente em vez de integrar uma série justaposta de episódios mais ou menos anedóticos. A construção realista do enredo, a séria documentação estudada e para aqui transposta com rigor, o grafismo onde a “linha clara” começa a ganhar estatuto estético-narrativo, a descrição quase romanesca dos sentimentos e das emoções, o louvor do humanismo e da amizade como valores universais são outros tantos marcos do pioneirismo desta história.

O contexto histórico, inserido no conflito sino-japonês da época, permitiu a Hergé conferir um explícito sentido de autenticidade ao seu trabalho, tornando-o de certo modo único, quase mítico, no domínio ficcional das sucessivas aventuras de Tintin.

A Shanghai desse tempo, cidade cosmopolita, repartida entre as concessões internacionais e a ocupação japonesa, revela pelo traço de Hergé e pela recordação de Tchang atmosferas nocturnas ou luminosas dos bairros por onde perpassa a acção, quase verosímil…

Mas é na riqueza dos cenários, que a cor mais tarde viria realçar, no rigor das inscrições e no pormenor da decoração, tanto nas ruas como nos interiores, que reside um dos maiores atractivos da história, impregnada de um inspirado espírito que soprou do Extremo Oriente…

O Lótus Azul é, sem dúvida, uma obra emblemática. E Hergé, em entrevista concedida a La Libre Belgique em 1975, explicou os porquês: – “Tchang fez-me penetrar na realidade da China. Com ele, compreendi que devia documentar-me seriamente. 

António Martinó de Azevedo Coutinho 

Anexo 2 – Como prometido, aqui fica hoje a segunda parte da adaptação videográfica de O Lótus Azul