O LÓTUS AZUL – XIV

XIV – O Bem e o Mal

 O Lótus Azul tem sido por vezes analisado ou criticado dum ponto de vista ético ou moral. E são interessantes alguns destes estudos, sobretudo quando orientados numa via filosófico-religiosa oriental, sobretudo taoísta.

Hergé alimentou certas teorias a partir de algumas “confissões” deixadas nas suas declarações públicas ou publicadas.

Numa sua carta a Tchang, escrita em 1 de Novembro de 1977, ele escreveu: “É preciso que se diga que as minhas actuais preocupações (e as de Fanny [a mulher]) não são do tipo que se ‘passam’ facilmente para Tintin! De facto, estamos os dois completamente imersos nos filósofos orientais, com Fanny com uma apetência especial pelo hinduísmo e eu, naturalmente, com um maior interesse pelo budismo zen e pelo taoísmo…”

Um pouco mais tarde, numa entrevista concedida a Libelle-Rosita em 24 de Fevereiro de 1978, ele acrescentaria: “O que me seduz no taoísmo é o Chinês não ser levado pela sua linguagem, pela sua cultura, a cindir tudo. Nós separamos as partes do nosso ser como vulgares objectos. É assim com o polegar, pronunciado separadamente, deixa subitamente de fazer parte de nós mesmos. O pensamento chinês dá aos acontecimentos e aos objectos um valor similar que é o do movimento. O polegar continua ligado à mão, a mão faz parte do braço que por sua vez é uma parte do corpo e este corpo não perde o contacto com a terra. O Tao é a Via principal, ou a via pura e simplesmente, se preferir. É em qualquer caso o caminho a seguir para aquilo a que chamamos o absoluto. O Tao abarca todas as contradições porque permite a expressão completa sem alterar em nada a sua finalidade.”

O taoísmo é uma espécie de tradição filosófica e religiosa originária da China onde a vida é valorizada por uma permanente harmonia com o Tao, que significa basicamente o caminho, a via ou o princípio. Não sei muito mais do que isto, mas basta-me para tentar entender Hergé.

Este, por inalterável prática, sempre funcionou como uma espécie de “esponja”, absorvendo avidamente as opiniões do seu tempo. Assim aconteceu com as idas de Tintin à Rússia, ao Congo, aos Estados Unidos, à Arábia e Índia, à China e por aí fora. Quanto a este último destino, o que mudou radicalmente foi a “água” absorvida, em função do “filtro” usado, o qual expurgou o “líquido” das suas “impurezas” habituais…

Deveremos daqui concluir que, por influência directa de Tchang, O Lótus Azul tenha sido impregnado pelas doutrinas taoístas? De modo nenhum, creio. Por um lado, Tchang era proveniente dum família chinesa católica e, por outro, seria impossível traduzir instantaneamente no álbum os princípios duma ética, complexa, que exige um profundo contacto e um longo estudo apoiado.

Porém pode admitir-se, sem qualquer dificuldade, que alguns sinais da filosofia taoísta, pela qual Hergé sempre terá revelado uma clara simpatia, tenham informado passagens do álbum.

 

O Mal e o Bem, na trama narrativa, são assumidos colectivamente por duas associações secretas: no primeiro caso, inspirada no faraó Kih-Oskh, autêntica multinacional do crime com uma rede internacional; no segundo, mais singela mas não menos determinada, através dos Filhos da Dragão. Ambos as organizações assumem uma base mística, quase maçónica, utilizando os maus um símbolo, alguns instrumentos “diabólicos” -o hipnotismo, a magia, a droga- e uma hierarquia muito organizada, com um “grande mestre” na sua cúpula – Rastapopoulos.

Os bons são menos convencionais, reunidos sob a autoridade dum sábio homem, Wang Jen-ghié, “venerável”, organizando-se mais defensivamente como uma espécie de comité de resistência. Quando o líder destaca o próprio filho, Didi, com anjo-da-guarda de Tintin, este confunde tal atitude protectora com um acto de agressão…

 

Mas os conflitos entre o Bem e o Mal atingem o apogeu quando Didi, envenenado pelos inimigos, se torna ameaçador e perigoso para com os seus, enredado na confusão mística em que o seu espírito mergulha.

Didi, o “louco de Shanghaï”, torna-se -no universo místico da obra- a figura mais significativa. O seu desequílibrio psíquico leva-o ao desejo de decapitar toda as pessoas, para as conduzir à via. A interpretação taoísta deste facto levaria Didi a libertar cada decapitado, não lhe provocando a morte mas antes lhe abrindo a porta duma outra via, mais rica, a do espírito…

Releiam-se as declarações de Hergé sobre o polegar, a mão, o braço, o corpo, a terra. Para os não iniciados, a separação dum membro vital marcaria o fim da existência; para Didi, a cabeça não passava dum simples apêndice perfeitamente dispensável. Aliás, a sede das ideias, numa certa interpretação conjunta do taoismo, confucionismo e budismo, é o coração e não a cabeça.

 

Hergé, usando formas algo simplistas, onde a caricatura se repete, estaria assim -segundo algumas opiniões críticas- a “mascarar” um dos princípios fundamentais da filosofia taoísta: “É preciso despojarmo-nos de tudo o que é intelectual ou conceptual para encontrarmos a Verdade.” Por outro lado, não deixa de ser curioso que Wang, figura carismática do velho sábio chinês e pai do “louco” Didi, nunca fale de espiritualidade, transferindo o primado deste discurso para o próprio filho!

A cena capital d’O Lótus Azul, quando Didi se prepara para decapitar os pais e Tintin, acontece perante os representantes máximos do Bem e do Mal, Wang e Rastapopoulos, e é justificada por ser imperioso que as “vítimas” encontrem a via. Esse culminante episódio termina com a vitória da causa mais nobre apenas devida à  oportuna intervenção do jovem Tchang e dos Filhos do Dragão.

O Bem, finalmente, triunfou sobre o Mal. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

O LÓTUS AZUL – XIII

XIII – O hábito faz o monge
ou Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele

 As características atribuídas às diferentes personagens afiguram-se, por vezes, algo maniqueístas. No entanto, fazem parte do imaginário ou maravilhoso de qualquer forma e modalidade de comunicação, portanto também da BD.

Tintin é o herói central das suas aventuras, acompanhado do autêntico alter-ego Milou, um cão que vai evoluindo ao longo dos anos, pela experiência e pela filosofia de vida. Por alturas d’O Lótus Azul, a panóplia dos habituais intervenientes na sucessão das histórias de Tintin é reduzida. Algumas das figuras centrais ainda não tinham feito a sua aparição, como é o caso do capitão Haddock, do professor Tournesol ou da cantora Bianca Castafiore, para citar apenas as mais emblemáticas.

Dos comparsas do herói, contamos aqui, entre os “bons” com o incontornável Tchang e com Dupond & Dupont; entre os “maus”, com Dawson e, sobretudo, com Roberto Rastapopoulos.

Comecemos por estes. Dawson é aqui o chefe da polícia da Concessão Internacional de Shanghaï, um figurão secundário que apenas regressará na aventura Carvão no Porão (em 1956), como traficante de armas. Mas Rastapoupolos é um vilão a sério.

Já surgira no caminho de Tintin em Os Cigarros (ou Charutos) do Faraó, sem se ter ainda definido como “mau”, e irá meter-se novamente no caminho do herói em Carvão no Porão e em Voo 714 para Sydney (1966).

É muito engenhosa a ligação que Hergé cria, na passagem do relacionamento entre as duas personagens, de Cigarros para Lótus, através do cinema, uma arte pela qual Tintin revela uma particular admiração. A cena das filmagens onde o herói intervém nos Cigarros prolonga-se na respectiva imagem, projectada na sala de cinema do Lótus.

E só no final desta aventura, em situação dramática, surgirá a surpreendente revelação da identidade do chefe máximo da organização criminosa que Tintin combate, precisamente o sinistro Rastapopoulos.

 

Tchang, como já foi referido anteriormente, vai reaparecer em Tintin no Tibet (1958), em circunstâncias curiosas, quase premonitórias, numa outra obra “especial” de Hergé.

Abordemos agora o caso, muito particular, do par de detectives que constitui uma dupla essencial na vasta galeria das personagens fundamentais destas aventuras.

Surgem em 1934, precisamente na versão inicial -a preto e branco- dos Cigarros. Aí, as suas designações são X 33 e X 33 bis, e desempenham o papel de polícias quase completamente broncos, radicais, incapazes de entender outra coisa que não seja o cego cumprimento de ordens, por mais imbecis que sejam. A continuação das suas intervenções nas sucessivas aventuras de Tintin vai adoçar-lhes a rudeza inicial, embora nunca sejam dotados de um normal grau de inteligência e sensatez.

Possuem diversas características no seu código (pouco) profissional de conduta como, por exemplo, a de quase sempre seguirem pistas falsas e a de quase sempre acusarem falsos culpados. Tintin, por diversas vezes, será vítima destas confusões.

Mas o mais interessante comportamento dos Dupond/t é a sua permanente e quase doentia intenção de passarem despercebidos nos meios onde actuam.

Ao esconderem a sua identidade sob exóticos e barrocos disfarces, eles apenas conseguem dar exuberantemente nas vistas pelo vistoso folclore das vestimentas exibidas.

Contabilizei sete distintas situações deste tipo (falsos árabes, ou marinheiros, ou gregos, ou tiroleses…). A que agora nos interessa diz respeito ao disfarce chinês escolhido pelos Dupond/t, precisa reprodução de ricos quimonos imperiais, peças de museu em rigoroso desuso, exibidas pelas ruas de Shanghaï.

O ridículo traduz-se no escândalo público (pág. 45) desencadeado pela cidade fora…

 

No entanto, o mais curioso desta questão reside no seu confronto com o comportamento de Tintin. Naturalmente, também Hergé o sujeita ao lógico uso de vestuários compatíveis com os locais onde ele vive os seus episódios –à colonial, no Congo; de cowboy nas pradarias norte-americanas; com casacão de peles na Rússia; com kilt na Escócia; de túnica e turbante na Índia, etc.

Além disso, Tintin também se disfarça, deliberadamente, para melhor contrariar as tácticas dos seus adversários. E fá-lo n’O Lótus Azul, quando finge ser um general japonês (pág. 30). Este truque confunde mais tarde os seus adversários, no salão de fumo, quando o julgam novamente disfarçado (pág. 54).

A verdadeira curiosidade situa-se no facto de Tintin se vestir à maneira chinesa, com um quimono azul, que lhe é enviado com tal propósito de discrição (pág. 12). Ao contrário do que acontece com os Dupond/t, a sua movimentação pelas ruas da cidade, pelas estradas e campos ou pelo interior das residências, passa perfeitamente despercebida. Hergé garante essa rigorosa normalidade durante 46 das restantes 50 páginas do álbum…

 

No entanto parecem verficar-se, quanto a este particular, uma “distracção” de Hergé e uma séria objecção.

A “distracção” -colocamos o termo entre aspas, pelo sincero respeito pessoal para com o rigor do autor- consiste em Tintin ostentar, numa breve passagem pela casa do prof. Wang (apenas duas tiras na pág. 29), uma túnica comprida, quando o seu quimono azul (antes e depois de tal momento) dispõe sempre dum casaco curto.

A objecção é mais séria, porque vinda de quem vem. Na revista Philosophie Magazine (Hors-Série) dedicada a Tintin au Pays des Philosophes, Paris – Setembro de 2010, um especialista em estudos chineses e professor na École Pratique des Hautes Études, Léon Vandermeersch, escreve: “A própria vestimenta azul de Tintin em Shanghaï não é mais autêntica do que o grotesco disfarce imperial dos Dupondt”.

Este autorizado depoimento contraria um pouco da competente assessoria técnica de Tchang junto de Hergé. Acrescente-se, em abono do exposto no álbum, que mais ou menos uma dezena e meia de outras personagens (quase todas simples “figurantes”) se apresenta vestida de igual modo, com quimono azul… 

António Martinó de Azevedo Coutinho 

O LÓTUS AZUL – XII

XII – Relações Internacionais

Sem qualquer alusão ou metáfora mal intencionada, trata-se aqui -neste efectivo regresso ao álbum O Lótus Azul– de relações internacionais, e também ao nível da lusofonia.

Hergé, pelas provas dadas até ao momento, era um cidadão -logo um criador- influenciado pelos conceitos então em voga. A China era um país distante e enigmático, donde poucas informações absolutamente credíveis chegavam ao Ocidente.

No Portugal dos anos 30, podemos colher traços similares, que vêm agora a propósito. Dois exemplos dos conceitos então em voga entre nós podem ser colhidos em duas obras que circulavam na época: Apontamentos d’uma viagem de Lisboa à China e da China a Lisboa, de Carlos José Caldeira (Lisboa, Typographia de Castro & Irmão, 1853), e Chronica Planetaria, de José Augusto Corrêa (Lisboa, Typographia da Empreza da Historia de Portugal, 1903).

 

Sem inúteis pormenores, podemos globalmente daí saber:

– do primeiro livro, o início do estertor da China Imperial, em virtude da acção conjugada das agressões militares europeias, das guerras internas do ópio, da abertura dos portos em função dos tratados desiguais e do descontentamente interno anti-Manchú, por influência japonesa;

– do segundo livro, a prepotência portuguesa em Macau, as viagens de “cadeirinha rolante” pelas apinhadas ruas das metrópoles chinesas, o tétrico lugar dos suplícios (execuções) por decapitação, a abundância de prostitutas com minúsculos pés quase desfeitos à força de serem contraídos, os fumadores de ópio bestializados pela lenta acção do veneno, a imagem dum povo dominado por tradições contrárias ao progresso e à comunhão universal da humanidade, as concessões francesa e internacional de Shanghaï, no Bund

A criação de um certo tipo de preconceitos e de ideias feitas sobre a realidade chinesa afectava portanto a opinião pública e reproduzia-se com facilidade.

Sabemos como Tchang alterou radicalmente o previsível comportamento criativo de Hergé, porque deste temos sobejas provas na obra anterior.

Ora no álbum O Lótus Azul existe uma clara demonstração das alterações produzidas no espírito de Hergé, sobretudo quando este introduz um interessante diálogo entre Tintin e Tchang, no preciso momento narrativo em que acontece o dramático encontro entre as duas personagens.

Hergé, ao “baptizar” o jovem -e virtual- chinês salvo das águas com o exacto e integral nome do seu amigo real, pretendeu assim agradecer o facto de este lhe ter prestado uma colaboração tão influente que chegou a propor-lhe a autoria conjunta da obra. Tchang (pessoa) recusou, limitando-se a deixar o seu próprio nome discretamente inscrito numa vulgar vinheta.

Porém, muito mais do que este pormenor, é verdadeiramente significativo o conteúdo, invulgar, do citado diálogo, patente na página 43 do álbum, uma peça única e irrepetível em toda a vasta obra do autor.

 

Numa espécie de verbalizações quase próprias da terapia psicanalítica destinada
à exorcização de fantasmas interiores, os dois jovens ali confessam reciprocamente os seus preconceitos. Mais do que simples indivíduos, eles representaram ali os próprios colectivos de origem, separados por estereotipias raciais ou étnicas já clássicas.

Tchang começa por achar inaudito que um diabo branco o salve, pois, desde a guerra dos Boxers, é essa a sua prática habitual. Responde Tintin, filosoficamente, que nem todos os brancos são maus. Estes até costumam considerar os chineses velhacos e cruéis, esses sim!, pois passam o tempo a inventar suplícios, a comer porcarias, a impedir os pés das meninas de crescerem e a afogar os recém-nascidos… Tchang (personagem), com bonomia, até conclui que os brancos, afinal, até são cómicos!

E, porque a união faz a força, continuarão juntos na aventura doravante comum.

Após a ficção que os uniu -da ocasional salvação à amizade nascente- cimentou-se na vida real uma ligação entre os dois alter-egos das personagens, Hergé e Tchang, que durou e resistiu ao longo do tempo e da distância, no cenário das aventuras da vida.

Ligue-se agora tudo, a anterior prática de Hergé e a profunda alteração aí provocada por Tchang, os preconceitos entretanto criados na Europa sobre a China e a rotura aí introduzida pel’O Lótus Azul, ligue-se toda esta vasta e contraditória panóplia e ter-se-á uma noção do significado desta obra como oportuno e influente instrumento para a alteração das mentalidades do tempo.

Atrevo-me a acreditar que, em termos diplomáticos, o álbum terá feito pela causa chinesa mais do que muitos tratados e acordos. A Embaixada do Japão na Bélgica, como aliás já foi recordado, assim interpretou o facto. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

O LÓTUS AZUL – XI

XI – O Lótus e a linha clara em tons de azul

Não foi por acaso que uma obra de qualidade sobre a evolução e os destinos da BD incluiu, como exemplo do estilo clássico denominado linha clara, uma página do álbum O Lótus Azul.

No volume Qu’est-ce que la Bande Dessinée aujourd’hui? (Beaux Arts Éditions, Boulogne, 2008) e sob o título Allô, la ligne claire?, o crítico Philippe Goddin descreve a sua teoria e revela como exemplo uma página do álbum.

 

No preciso momento em que propomos uma abordagem mais próxima a esta obra, nos seus pormenores significantes, convém que nos detenhamos um pouco sobre esta questão, muito mais do que um simples estilo gráfico ou estético.

Os estudiosos do tema costumam assinalar O Lótus Azul como a primeira obra de Hergé onde se encontram patentes as características essenciais da linha clara, então nascente, coincidindo com a aparição da cor nas aventuras redesenhadas para então receberem as diversas tonalidades para as quais não tinham sido originalmente concebidas. Portanto, é já na “renovação” dos primeiros trabalhos, com a conhecida excepção de Tintin no País dos Sovietes, que se assinala a aparição da nova linha.

Pode perguntar-se, sendo o Congo e os Charutos anteriores no tempo, por que se atribui ao Lótus a primícia dessa novidade?

A resposta imediata consagra a tal diferença representada pela nova perspectiva de Hergé sobre o realismo dos cenários e a verosimilhança da trama narrativa, ou argumento. O artificialismo ficcional anterior deu lugar a uma preocupação de rigor e autenticidade, que marca uma nítida fronteira no decurso duma obra una e coerente, mas também diversificada nas suas distintas fases. É a esta luz que podemos analisar, brevemente, as características marcantes da linha clara, propondo-se uma leitura geral d’O Lótus Azul orientada por esses marcos.

Em primeiro lugar, o traço do desenho é uniforme, sem distinções que definam os diversos planos, ou que nitidamente separem as personagens dos cenários. A cor quase parece secundária, dado que se assemelha a uma espécie de caligrafia. Sabendo-se da intervenção de Tchang, que chegou a iniciar Hergé no manejo dos pincéis chineses, pode perceber-se o lugar do Lótus neste contexto.

Depois, tal como na escrita oriental, cada traço tem um significado, dispensando sombras, excepto as que definem dia, noite ou fortes contrastes de iluminação. Aqui a representação da profundidade de campo não conta muito, assim como a própria perspectiva, embora respeitando sempre as devidas proporções.

 

As formas são muito simplificadas e puras, incluindo os pormenores do rosto, porém expressivo e revelando os mais íntimos sentimentos. Todo o desenho é colocado, de forma frugal, ao serviço do relato. Naturalmente, as formas assim reduzidas ao essencial tornam-se muito mais inteligíveis.

O rigor do traço implica, portanto, um óbvio respeito pelo leitor, tornando-o cúmplice através da facilitação dos códigos icónicos, quase elementares.

Cada sequência prolonga na sua simplicidade o rigor e a eficácia de cada uma das vinhetas que a compõem, servindo uma técnica narrativa original, de leitura muito acessível. Tudo parece organizado, como que por acaso, ao serviço da história.

A cor, embora quase dispensável, é realista, pura e esquemática, abusando das tonalidades pastel, com telhados vermelhos, céus azuis, campos verdes…

Hergé procurou sempre um uso justo e parcimonioso dos recursos próprios da linguagem da BD à sua disposição, das onomatopeias aos signos cinéticos, das metáforas visualizadas aos diversos tipos de balões, nunca abusando das suas potencialidades. Os diálogos, com ele, ganharam expressividade literária, exigindo balões de formato mais rectangular, com um toque pessoal no seu contorno.

Naturalmente, deriva daqui a criação duma “limpeza” narrativa onde poderá evidenciar-se a intervenção das diversas personagens, cada uma dotada de características próprias, por vezes complexas, como acontece com a riquíssima “família” criada pelo autor. A própria narratividade dramática, clara e perceptível, sem aderências barrocas ou maneiristas -bastante evidentes em inúmeros criadores da BD-, surge aqui linear e atraente, ainda que fazendo algumas concessões a uma certa forma, benigna, de maniqueísmo…

 

Em suma, a linha clara não se resume num estilo clássico, apenas estético e gráfico, pois ultrapassa os seus aspectos mais evidentes e imediatistas, no traço ou no colorido. A linha clara é sobretudo uma proposta diversificada, que abarca igualmente a temática, os argumentos, o estilo literário, as personagens, os objectivos de pura diversão e de divulgação cultural, enfim, é um projecto global articulado e coerente, nos domínios da banda desenhada.

A linha clara, mais do que uma estética icónica e narrativa, tornou-se uma ética comunicacional. Não deve supreender-nos, portanto, que tenha atingido a dimensão de uma autêntica Escola (dita de Bruxelas) com alcance europeu e universal.

Hergé foi aí o pioneiro teórico e, simultaneamente, o principal praticante.

E O Lótus Azul  foi o seu laboratório experimental. 

António Martinó de Azevedo Coutinho 

O LÓTUS AZUL – X

X – Onde a polémica se infiltra…

Hergé e Tchang têm vinda a ser alvo de insinuações, onde o sensacionalismo dispõe de considerável intervenção. Alguma imprensa, um pouco por todo o lado, vem fazendo caminho entre os bas fonds dum certo jornalismo e duma certa intelectualidade.

Começam a abundar os exemplos.

Roger Faligot, jornalista e escritor, considerado um especialista em criminologia e temas do Extremo Oriente, publicou um livro nas Éditions Nouveau MondeLes Services Secrets Chinois. De Mao aux JO-, onde dedica um capítulo aos anos 30 do passado século. Aí, não tem qualquer dúvida em assinalar Tchang como sendo em 2008 um agente comunista infiltrado no Ocidente. Considera que Hergé terá sido manipulado e a sua obra instrumentalizada, em ordem aos ideais chineses em voga na época. Assim, algumas das inscrições patentes em vinhetas d’O Lótus Azul reproduzem certos slogans pintados nas paredes de Pequim ou Shanghaï pelo Partido Comunista Chinês…

Esta tese, confirmada e desenvolvida, surge mais recentemente através duma polémica banda desenhada que as editoras francesas e belgas têm rejeitado, sob o rótulo do escabroso e do obsceno.

Em Graphic Novel, o autor Laurent Colonnier levanta a hipótese de Georges Rémi, dito Hergé, marido de Germaine, ter criado com Tchang uma cumplicidade amorosa, que em muito ultrapassou a vulgar amizade.

Por sua vez, Tchang era ao tempo manipulado pelo seu companheiro de quarto, Tong -comunista convicto- que viu ali uma boa oportunidade para aplicar o preceito chinês Yang wei zhong yong (utilizar os estrangeiros para estes sirvam a China).

Portanto, no preciso momento em que Mao iniciava a dramática retirada do Exército Popular Chinês (entre Outubro de 1934 e Outubro de 1935), na operação que ficaria conhecida como a Longa Marcha, nada melhor do que uma imagem favorável no Ocidente, aproveitando como manobra de diversão os episódios das invasões japonesas à China. Portanto, nas páginas de Le Petit Vingtième, por intervenção concertada e indirecta de Tong e Tchang, desenvolver-se-ia uma batalha surda, complexa e por vezes contraditória entre os serviços secretos japoneses e o Kuomintang, Partido Nacionalista do Povo, sempre com a supervisão e segundo os superiores interesses do Komintern, a Internacional Comunista (ou Terceira Internacional) inspirada por Vladimir Lenin…

É óbvio que, de toda esta trama se chega, novamente, a uma outra teoria, oportunisticamente organizada com base na doença e morte de Hergé, por muitos consideradas por efeitos do VIH (Sida). A homossexualidade de Hergé seria, portanto, o elo conveniente aos defensores desta hipótese.

Não adianta muito o depoimento autorizado e científico dos médicos que trataram o “pai” de Tintin, ao assinalar a coproporfiria, doença congénita rara, de que ele padecia, sendo obrigado a grande número de transfusões sanguíneas semanais. Sabe-se como, na época, o controle destas tranfusões era desacompanhado das actuais precauções sanitárias, pelo que o risco de contágio era uma séria probabilidade. Nada, portanto, autoriza a associar uma eventual embora nunca comprovada infecção com o vírus do VIH e a homossexualidade.

A insinuação da misoginia de Hergé é desmentida pela sua vida, por todos os testemunhos credíveis e autorizados de amigos e de biógrafos.

É absurda a tese de que na obra do autor escasseiam as personagens femininas e que a única verdadeiramente significativa -Bianca Castafiore- se limita a uma caricatura, pejorativa, da mulher. Então que personagem das aventuras de Tintin, incluindo-o, não é uma caricatura? Milou, Haddock, os Dupond/t, o professor Tournesol?

Então como e onde se valorizam os verdadeiros valores defendidos em toda a obra, a coragem, a fraternidade, a sã amizade? Como, por exemplo, entre Tintin e Tchang.

Retomemos, finalmente, O Lótus Azul. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

O LÓTUS AZUL – IX

IX – A amizade vence quase tudo

Antes de voltarmos aos álbuns, dediquemos a devida atenção ao encontro e à aliança entre Hergé e Tchang. Este é tratado por Zhang Chongren, no dialecto mandarim; no entanto, continuaremos a chamar-lhe, à moda ocidental, Tchang.

Tinham ambos 27 anos quando se conheceram, em 1934.

A amizade entre os dois jovens foi quase instantânea, tendo produzido consideráveis “efeitos secundários” na obra do autor de banda desenhada. Por exemplo, para além dos níveis de informação prática trasmitidos pelo escultor chinês, este iniciou Hergé no domínio técnico do caligáfico desenho, a pincel, da escrita mandarim. E, mais do que isso, influenciou decisivamente o contexto das próprias vinhetas. Isso é muito nítido e marca uma profunda diferença em relação a tudo quanto ficara para trás. Por exemplo, na aventura anterior –Os Charutos do Faraó–  existem alguns, embora raros, escritos (!?) em língua árabe, verdadeiras falsificações que nada representam, pois se limitam a uma mera imitação de signos, simples recriação caligráfica desprovida de qualquer significado linguístico.

 

N’O Lótus Azul, pelo contrário, toda e qualquer escrita em chinês é, de facto, autêntica e dispõe de tradução significante. E são abundantíssimos os exemplos…

Tal foi um dos trabalhos de intervenção de Tchang. No entanto, e esta é a ironia inerente ao facto, quase toda a deliberada intenção de verosimilhança passou quase despercebida. Até há pouco, aos tempos recentes em que a banda desenhada ganhou alguns direitos de cidadania comunicacional, este “pormenor” foi praticamente desprezado, por irrelevante. Com efeito, para o comum “leitor” dos quadradinhos, que diferença fazia “ler” mensagens credíveis escritas em chinês, árabe, cirílico russo, grego, japonês ou língua similar, em vez de simples imitações, por igual “ilegíveis”?

Como a imensa maioria dos leitores d’O Lótus Azul não dispõe de acesso aos códigos da escrita chinesa, esta historicidade estrutural mantém-se impenetrável, fazendo mera parte do cenário, não transmitindo mensagem alguma. Neste lógico e prático faz-de-conta, nada nestes banais “pormenores” assumiria qualquer significado. É claro que não é bem assim, ainda que só modernamente tenhamos um visão mais clara destas questões.

Tchang, que entrara de forma quase inesperada na vida de Hergé, também desta sai de idêntica maneira. Interpelado pela família, regressa à China, em 1935. Aí, vai tornar-se um afamado escultor, até a Revolução Cultural dos tempos de Mao Tsé-Tung o ter reduzido à vulgaridade.

Acontece que Hergé perde em absoluto qualquer tipo de contacto com o seu amigo. Escreve-lhe, em vão, procurando obter uma pista credível sempre que encontra um cidadão chinês. Em 1939, a mulher do líder nacionalista Chang Kai-Shek convida o autor belga a visitar a China e surge assim uma possibilidade de aí procurar o amigo desaparecido. Porém, a guerra começa na Europa e anula a possibilidade da deslocação. Só em 1972, 33 anos depois, quando a República Popular da China confirma a Hergé que o convite se mantém válido, é que a visita se vai concretizar.

Quando ele, na China, repete constantemente o nome do amigo, Tchang, escultor em Shanghaï, recebe dúvidas e negativas como resposta ao seu apelo. Até que alguém, por fim, tem uma pista: Tchang vive em Taiphé, na Formosa!

Após o regresso, é dissuadido de procurar o amigo, quando o próprio padre Gosset, que os apresentara em 1934, o esclarece sobre o facto da Formosa estar a poucos quilómetros da China, mas não ser a China!

Em Março de 1975, Hergé recebe uma visita inesperada, a do senhor Wei, que conheceu Tchang, na Formosa, e lhe fornece o endereço. O “pai” de Tintin envia uma carta, comovente, ao seu velho e perdido amigo, juntando-lhe em encomenda separada um exemplar do álbum O Lótus Azul, de 1946, assim como outro, de Tintin no Tibet, de 1960.

 

Convirá acrescentar a este propósito uma espécie de flash-back.

Já sabemos como Hergé incluiu Tchang na história d’O Lótus Azul, sob a forma do pequeno chinês salvo das águas por Tintin. Em termos psicanalíticos quase se pode aqui encontrar uma transferência dos alter-egos de ambos para os domínios da ficção.

Mas a saudade de Hergé pelo amigo perdido manteve-se de tal modo que inventou uma nova história onde os caminhos de ambos se voltam a encontrar. Foi no Tibete, quando Tintin sabe que o jovem chinês desapareceu nos Himalaias, na queda dum avião. Convencido da sobrevivência do amigo, o jovel jornalista parte à sua procura. O que parece uma perfeita loucura sem qualquer lógica transforma-se no reencontro de ambos, numa gruta perdida nas montanhas geladas do Tibete, sob o “patrocínio” do Abominável Homem das Neves…

Mas os livros enviados por Hergé são devolvidos com a indicação de “Importação interdita na China”. Torna-se necessária uma intervenção oficial da embaixada para repetir, com êxito, o envio.

Mas as autoridades chinesas mostram-se inamovíveis na recusa de deixar partir Tchang em visita aos amigo distante, entretanto fragilizado pela leucemia. Desenvolvem-se obstinadas diligências para ultrapassar tal resistência.

 

E a ficção só foi ultrapassada pela realidade quando Tchang, o autêntico, chega ao aeroporto de Zaventem, perto de Bruxelas, no dia 18 de Março de 1981, após longas negociações com as autoridades chinesas. Hergé, já muito debilitado pela doença que o vitimaria, recebeu finalmente o amigo perdido. Tchang regressaria à China e não mais veria o seu amigo Hergé, que morreu em 1983.

Tchang, fixado em França a convite do governo deste país, retomaria com êxito a sua arte de escultor e morreu em 1998. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Anexo Sete – Existe um pequeno filme, hoje histórico, que mostra o emotivo reencontro de Hergé e Tchang, após décadas de afastamento. Realizado por Valet Gérard, para a série “Moi, Tintin”, o documento, embora com locução e legendagem em inglês, é excepcional a diversos níveis. Nele, por exemplo, nota-se perfeitamente o debilitado estado físico de Hergé, já bastante afectado pela doença que em breve o vitimaria. Nesse Março de 1981 e numa conferência de imprensa que depois os reuniria, podemos recuperar o reencontro de dois verdadeiros amigos.

O LÓTUS AZUL – VIII

VIII – HISTÓRIA DA CHINA AOS QUADRADINHOS

Esta história de Hergé iniciou uma nova era no conjunto da obra do autor. Já atrás se afirmou isto, mas agora o conceito ganha dimensão e confirmação.

A China, a partir dos avisos recebidos, e aceites, assim como do estreito contacto com Tchang, passou a constituir -embora mantendo a distância e o mistério- um território “familiar”. Como tal, tornou-se credível e a sua autenticidade apoiou-se na nova postura assumida pelo autor.

A História da China, desde a milenar até à mais recente, passou a fornecer o material essencial da trama e do contexto da nova aventura. O que por ali acontecia chegava ao Ocidente pela imprensa ou pelos relatos dos viajantes, pois a rádio era limitada e o televisão inexistente.

Há episódios reais efectivamente acontecidos na China onde Hergé assenta uma considerável parte do enredo d’O Lótus Azul, corporizando o contexto em que decorre a luta de Tintin contra os traficantes de droga. Entre aqueles devemos destacar a questão das Concessões estrangeiras, sobretudo em Shanghaï, e o denominado Incidente de Muckden.

As Concessões estrangeiras foram parcelas do território concedidas pela China a algumas potências estrangeiras pelos Tratados (denominados) Desiguais, normalmente na sequência de derrotas militares, ou por consideráveis interesses económicos, sobretudo comerciais. Consistiam em enclaves dentro de cidades, como Shanghaï, autónomos, com regras e modos de vida diferentes, ao gosto do ocupante. No caso concreto desta cidade, onde decorre a acção fundamental d’O Lótus Azul,  a Rua Nanjing, no Bund, à beira do rio Huangpu, tornou-se uma Concessão inglesa após a Guerra do Ópio (1839-1942).

Só a partir de 1949, após a vitória do Partido Comunista, foram erradicadas dessas zonas todos as formas de vida, regras e hábitos ocidentais aí em vigor durante muito tempo… Pode afirmar-se que só então a China terá readquirido uma efectiva soberania sobre esses enclaves no seu próprio território.

Quanto ao Incidente de Muckden, tratou-se dum episódio real no seio do conflito regional entre a China e o Japão. Sumariamente, consistiu num acto de sabotagem ferroviária, acontecido em 18 de Setembro de 1931, no sul da Manchúria. Militares japoneses, segundo tudo leva a crer, fizeram explodir uma secção da via férrea desta província chinesa, que era explorada por uma companhia ferroviária japonesa. O exército imperial japonês acusou dissidentes chineses pelo (premeditado!?) acto de sabotagem, servindo-se deste pretexto para invadir e anexar a Manchúria, inciando mais uma, embora não declarada, guerra sino-japonesa.

É este o contexto que se vive na época em que Hergé constrói a narrativa. Embora entre Shanghaï e Muckden distem mais de 1 200 quilómetros, todo este ambiente bélico irá alastrar progressivamente a uma vasta zona costeira do continente. A influência de Tchang é determinante para que Hergé assuma uma posição, embora romanesca, no conflito real, e abertamente a favor da causa chinesa. Esta evidência, declarada e confirmada semana a semana durante a publicação da aventura do Le Petit Vingtième (entre Agosto de 34 e Outubro de 35), chega a desencadear um pequeno conflito diplomático, quando um oficial belga, o tenente Raoul Pontus -presidente das Amizades Sino-Belgas-, transmitiu o protesto da Embaixada do Japão ao jornal responsável pela divulgação da história. Isto quase parece incrível, mas aconteceu.

Dizem as crónicas da época que Hergé chegou a preocupar-se com estas reacções, sendo então encorajado pelo seu amigo Tchang a manter a linha escolhida.

Portanto, como adiante se pormenorizará, este álbum contém uma explícita conotação política e histórica com uma dimensão que jamais se repetirá em toda a obra posterior.

No entanto, devemos reconhecer que a posição de Hergé nunca assumiu uma posição claramente anti-japonesa, limitando-se a criticar o comportamento do Japão daquela época histórica, tal como também criticou a política existente no interior das Concessões internacionais.

Quase inconsciente ou talvez involuntário, podemos mesmo considerar como um paradigma de todo este processo a cena mostrada no capítulo anterior, quando Tintin se refugia numa sala de cinema. O filme a que o herói assiste é um documentário de actualidades mundiais, imagem-síntese quase subliminar, reveladora de toda uma profunda alteração no comportamento pessoal do autor, quanto ao seu interesse pelo que se passava, de facto, neste nosso planeta…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Anexo 6 – Retomamos, hoje, a “exploração” sonora d’O Lótus Azul. A presente proposta, após a audição da versão digitalizada dum disco raro, consiste numa faixa de um CD bem mais moderno. Dedicado à sonorização de Les Aventures de Tintin, subintitula-se Bande Originale da la Série Animée e contém 12 faixas alusivas a outros tantos pretextos colhidos nestas interpretações cinematográficas da obra de Hergé. Data de 1993, sendo uma edição da Ellipse Programme, em parceria com Warner Music France.

 

A faixa correspondente ao nosso propósito denomina-se La Rue de la Tranquillité (Street of Tranquillity) e tem a duração de 1 minuto e 10 segundos. Porém, dada a escassez dos pormenores disponibilizados no folheto anexo ao disco, não podemos indicar com precisão o autor. É um entre Ray Parker, Jim Morgan ou Tom Szczesniak, com edição musical de Stephen Hudecki ou de Peter Branton…

Sobre a designação da faixa, torna-se fácil associá-la ao endereço da casa de Mitsuhirato, que Tintin indica ao condutor do riquexó onde se vai deslocar…