Tintin volta ao Irão – 28 (fim)

TINTIN NO IRÃO 2

Termina hoje uma das mais longas séries aqui publicadas sob o tema da banda desenhada. Foram, no conjunto, quase cinquenta “capítulos”, contando a ida e a volta de Tintin ao Irão.

Este é um balanço sumário da análise a cinco álbuns do herói de Hergé (e de muitos de nós) divulgados no moderno Irão pós-revolucionário, o dos ayathollahs em vez dos Xás.

Procurei analisar exaustivamente essas publicações, editadas à margem da lei que regula os direitos de autor, civilizadamente em uso universal com as devidas excepções. Como esta.

cabeçalho tintin 1A junção às originais de obras apócrifas, clandestinas e marginais, independentemente da sua eventual qualidade, é sempre censurável, sobretudo quando o editor não discrimina ou identifica o falso e o autêntico. Por outro lado, a abordagem pública ao fenómeno, tentando desmontá-lo, assume interesse documental. Foi este objectivo que me orientou na apresentação de Tintin no País dos Sovietes e de Tintin e a Alfa Arte. Quanto a O Caranguejo das Pinças de Ouro, O Lótus Azul ou No País do Ouro Negro, a preocupação pessoal consistiu no destaque concedido a casos de desajustamento narrativo ou de censura religiosa, além de outras questões pontuais consideradas relevantes.

Nesta derradeira nota quero renovar a gratidão pessoal ao Tó Zé, meu filho, e a Toshihiro Meguro, ambos da multinacional luso-nipónica Hit Tomato, por me terem proporcionado a posse dos álbuns em apreço. Procurei depois alargar esse enriquecimento da colecção pessoal de álbuns com a partilha colectiva aqui disponibilizada.

Se surgir qualquer oportunidade similar, tal como já anteriormente aqui acontecido com as edições chinesa e japonesa de O Lótus Azul -que também possuo-, se tal vier a suceder repetirei a experiência, renovando-a.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin volta ao Irão – 27

TINTIN NO IRÃO 2

Termina hoje, finalmente!, a longa reprodução da aventura de Tintin na Rússia Soviética, ficcionalmente surgida em 1929, na sua versão clandestina publicada no Irão.

Apresenta-se a seguir o último conjunto ou bloco de cinco das suas páginas, conjuntamente com as correspondentes duplas originais, criadas por Hergé.

Esta a relação das páginas a seguir reproduzidas:

 Edição original em álbum             Edição iraniana
          128 e 129                                         58
          130 e 131                                         59
          132
          133 e 134                                         60
          135 e 136                                         61
          137 e 138                                         62                                               

Neste conjunto tornou-se necessário acrescentar uma página original “suplementar”, procedendo ao acerto final do paralelismo relativo entre as narrações, a original e a truncada. Assim, as 138 páginas originais (não se incluindo a tal, que “desapareceu” da revista para o álbum) foram encaixadas nas tradicionais 62.

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O troço final desta aventura de Tintin, em boa verdade aquela em que a sua função de enviado especial como jornalista ficou documentada, nada apresenta digno de nota.

No plano gráfico não surge aqui qualquer especial motivo, pois já não apresenta nenhuma novidade o tratamento cinético do desenho do bólide. Apenas se poderá registar a derradeira vinheta, como uma espécie de instantâneo da realidade vivida pois o regresso de Tintin da Rússia foi devidamente encenado, ao vivo e em directo. Com efeito, Le Petit Vingtième contratou o jovem escuteiro Lucien Pepermans, de 15 anos, para representar o jornalista, tendo sido devidamente maquilhado a preceito e vestido à “moda russa”. Pelas 16 horas do dia previsto, previamente anunciado no jornal, compareceu uma grande multidão de fãs no largo fronteiro à Gare du Nord, em Bruxelas. Hergé, ali presente, pôde assim testemunhar a eficácia da mensagem anti-comunista amplamente divulgada durante meses, assim como a imensa popularidade acumulada pelo seu herói…

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A campanha montada pelo padre Wallez terá, pois, resultado em pleno.

De resto, ficou para trás a descoberta e o desmantelamento do plano terrorista do espião Boustringovitch, que pretendia provocar atentados nas capitais da Europa.

Como se pode saber na página 134, Tintin tinha decidido voltar à Rússia por sentir que a sua missão não tinha sido integralmente cumprida, contando com radical oposição de Milou. Mas o destino (!?) acabou por projectar a dupla para o interior de um comboio que se dirigia precisamente a Bruxelas. Ele há cada coincidência!!!

E Tintin conforma-se com esse regresso, achando que afinal merecia um repouso… antes da próxima aventura. Milou, uma vez mais, expõe uma opinião diversa, pois acha que aquilo foi mesmo o fim da exposição ao perigo e o termo da vida aventurosa de ambos. Como se sabe, estava profundamente enganado…

Ao longo dos sucessivos “capítulos” em que foi reproduzido o álbum iraniano copiado do ocidental, clandestino, sincopado e colorido, deixei patente o reparo da sua má qualidade gráfica. Quer as imagens quer a cor são deficientes, pouco definidos os traços, empastelado o colorido. Como simples exemplo comparado, alinho, juntas, as últimas pranchas ou páginas do álbum original, do clandestino e da edição iraniana, assim como as suas derradeiras vinhetas. Dá para perceber as razões do meu reparo.

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No próximo “capítulo” encerrarei esta longa saga.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin volta ao Irão – 26

TINTIN NO IRÃO 2

O conjunto das páginas hoje reproduzidas é o penúltimo da série.

Aproximamo-nos do final das aventuras de Tintin na Rússia Soviética, ficcionalmente vividas em 1929, que aqui têm vindo a ser evocadas, na versão iraniana decalcada sobre um álbum ocidental clandestino, sincopado e colorido.

Apresenta-se a seguir mais um conjunto ou bloco de cinco das suas páginas, conjuntamente com as correspondentes duplas originais, criadas por Hergé.

Esta a relação das páginas a seguir reproduzidas:

 Edição original em álbum              Edição iraniana
          117 e 118                                           53
          119 e 120                                           54
          121
          122 e 123                                           55
          124 e 125                                           56
          126 e 127                                           57                                        

Neste conjunto, ao contrário do que vinha acontecendo ultimamente, tornou-se necessário acrescentar uma página original “suplementar”, para acerto do paralelismo relativo entre as narrações, a original e a truncada.

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Passando à narrativa propriamente dita, constatamos que afinal Tintin aterrou em Tempelhof, perto de Berlim, tendo ultrapassado há muito a fronteira russa, como ele próprio reconhece, pondo algo em causa as suas próprias capacidades de orientação aérea…

Hergé aproveita uma fase de ouro da aviação, com numerosas proezas transoceânicas na época, como os ingleses Alcock e Brown a unir o Canadá à Irlanda em 1919, Sacadura Cabral e Gago Coutinho ligando Portugal ao Brasil em 1922, dois aviões norte-americanos a cumprir uma primeira volta ao mundo pelos ares em 1924, Byrd e Bennett -também americanos- a voar sobre o Pólo Norte em 1926, Charles Lindberg a atravessar solitariamente o Atlântico em 1927, Charles Smith a voar entre os Estados Unidos e a Austrália, em 1928, e novamente Byrd a sobrevoar o Pólo Sul em 1929… Portanto, como poderemos ficar admirados por Tintin ter sido confundido, neste mesmíssimo ano, com um aviador que se propunha fazer o raid Pólo Sul – Pólo Norte, com escala em Berlim?

26 - 08

Na sequência da confusão gerada, o nosso herói (e também Milou) acaba por ficar embriagado, situação que se irá repetir mais algumas vezes nas suas aventuras. De anotar, graficamente, a deficiente representação das cenas nocturnas que se seguem, com cores empasteladas e pouco legíveis, esteticamente muito distintas das resultantes da adequada utilização das tramas que, em 1929, Hergé soube empregar com rara mestria no preto e branco da sua criação.

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A sinistra polícia soviética GPU, infiltrada na Alemanha, consegue raptar Tintin, pretendendo aliciá-lo como agente duplo, possivelmente para o utilizar na desmontagem dos benefícios das políticas capitalistas ocidentais… Mas a inesperada e insólita aparição de um tigre salvará provisoriamente o jornalista, surpresa repetida logo a seguir por Milou, disfarçado de… tigre. Ele há cada coincidência neste maravilhoso de Hergé!!!

Aqui se inaugurará, no episódio, uma certa incursão pelo zoológico, universo de fábula que posteriores aventuras de Tintin vão explorar, por intermediação de Milou.

Por agora, esta ida do jornalista à Rússia soviética vai-se aproximando do seu termo. O universo comunista da época está quase desmistificado e a missão jornalística cumprida.

Com inegável êxito, como será objectivamente reconhecido.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin volta ao Irão – 25

TINTIN NO IRÃO 2

Estamos próximos do final das aventuras de Tintin na Rússia Soviética, ficcionalmente vividas em 1929, que aqui têm vindo a ser evocadas, na versão iraniana decalcada sobre um álbum clandestino, sincopado e colorido.

Naquela que será a antepenúltima parcela desta reprodução, apresenta-se hoje mais um conjunto ou bloco de cinco das suas páginas, conjuntamente com as correspondentes duplas originais, criadas por Hergé.

Esta a relação das páginas a seguir reproduzidas:

 Edição original em álbum             Edição iraniana
          107 e 108                                           48
          109 e 110                                           49
          111 e 112                                           50
          113 e 114                                           51
          115 e 116                                           52                             

Mais uma vez, como vem acontecendo ultimamente com assinalável regularidade, não se tornou necessário acrescentar páginas originais “suplementares”, dado que a cada uma da edição iraniana, clandestina, correspondem duas da versão oficial, criada por Hergé.

Para além desta óbvia constatação, meramente formal, deve também concluir-se que poucos motivos de interesse se encontram neste fragmento da história.

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As aventuras de Tintin na Rússia, em termos práticos, quase se esgotaram nos episódios anteriores, onde ficaram suficientemente documentados os principais objectivos traçados pelo editor do suplemento Le Petit Vingtième, em plena coerência integrados na cruzada anti-comunista que na época competia a uma publicação católica.

Mas, como se tornou necessário ocupar as páginas previstas, foi útil dilatar a narrativa, embora sem manter um consistente argumento.

Por isso, Tintin sobreviveu miraculosamente à explosão no interior de um paiol pejado de explosivos destinados à exportação de atentados. E não se esqueceu de louvar a Deus pelo facto de a explosão se ter limitado ao charuto -certamente de carnaval- com que Milou se deliciava.

A sequência em que o jovem jornalista, devidamente disfarçado, vai passar pela pele de um camarada aviador -de nome Rodobertine- apenas surpreende Milou, pouco crédulo quanto à possibilidade de Tintin possuir a capacidade para dirigir o avião… Mas este levanta voo!

A despedida é significativa e, na fase Adeus, terra inóspita, fica contido todo um programa, o resumo global de apreciação da obra (!?) dos senhores de todas as Rússias, os perigosos e incompetentes comunistas.

Depois, o avião ligeiro vai afocinhar como resultado ou efeito da tempestade envolvente. E embora isto seja claro, Milou não abandona a sua anterior desconfiança, ao criticar Tintin: – Tens cá um jeito para pilotar aviões!

De registar, como interessante pormenor gráfico, a circunstância de Hergé ter tratado a avioneta como um ser humano, ao claramente lhe atribuir a metáfora visualizada de “ver as estrelas“, tanto ao ser atingida pelo raio como ao despenhar-se no solo.

A cena de abate da árvore e sucessivo talhe de duas hélices de madeira, fazendo mesmo uma “directa”, confere a Tintin uma invejável habilidade manual, em tudo susceptível de o colocar ao nível de MacGyver, que só faria furor meio século mais tarde. Atenção, e usando apenas um simples e pequeno canivete, que nem sequer era suíço!

Atente-se nesta passagem o reforço crítico de Milou à má governação comunista, quando enfaticamente declara que as hélices soviéticas não são sólidas…

Enfim, retomado o voo, Tintin vai descer. E desce mesmo. Terá regressado à origem?

Saberemos isso no próximo episódio.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin volta ao Irão – 24

TINTIN NO IRÃO 2

Aproximam-se do seu final as aventuras de Tintin na Rússia Soviética, ficcionalmente vividas em 1929, que aqui têm vindo a ser evocadas, na versão iraniana decalcada sobre um álbum clandestino, sincopado e colorido.

Reproduz-se hoje mais um conjunto ou bloco de cinco das suas páginas, conjuntamente com as correspondentes duplas originais, criadas por Hergé.

Esta a relação das páginas a seguir reproduzidas:

 Edição original em álbum               Edição iraniana
          96 e 97                                               43
          98 e 99                                               44
        100 e 101                                             45
        102 e 103                                             46
             104
        105 e 106                                             47

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Desde logo se nota a necessidade do acréscimo de uma página original para conseguir manter o paralelismo narrativo entre a criação de Hergé e a versão agora em apreço. Portanto, às cinco páginas actuais correspondem neste bloco onze e não apenas dez das originais. Mas não fica por aqui o interesse do conjunto.

A publicação da história no Le Petit Vingtième incluiu uma prancha nunca mais reproduzida, com excepção do luxuoso álbum n.º 1 dos Archives Hergé, em 1973. Essa página “desaparecida” incluiu-se entre as agora numeradas de 98 e 99, denominando-se por isso 98a. Foi publicada no dia 18 de Dezembro de 1929.24-08

Se atentarmos na sequência gráfica, facilmente notaremos a sua lógica, pois Tintin ainda leva as mãos à cabeça, atingida em cheio pela caveira projectada do armário e pelo quadro tombado da parede, e não está frente à porta que acabara de fechar mas junto ao canto da sala… Em boa verdade, a página suprimida nada acrescenta em valor narrativo, embora constituindo um interessante registo histórico.

Já agora, para completar esta nota formal, cite-se outro facto de similar e curioso interesse. As páginas 99 e 100 da aventura publicada no Le Petit Vingtième dispuseram de um luxo inabitual, sendo coloridas em vez de impressas a preto e branco como era costume. Tratou-se do número de Natal, em 25 de Dezembro de 1929, pelo que esta bicromia -preto e magenta- valorizada por tramas tipográficas, permitiu o raro efeito que aqui se evoca. Depois, a restante história continuaria a preto e branco…

24-07

Por falar no preto e branco, valerá a pena citar uma “artística” interpretação atribuída por alguns respeitáveis estudiosos da obra de Hergé. Por exemplo, quanto à sequência de três vinhetas negras, no final da página 103, Michael Farr (Tintim – O sonho e a realidade, Difusão Verbo, 2005) relaciona-a com a influência do suprematismo russo, doutrina pictórica que tem como principal cultor Kazimir Malevitch (1878-1935). Sendo certo que a obra mais representativa do seu abstraccionismo é Quadrado negro sobre fundo branco, pintada entre 1913 e 1915, parece-me abusivo, especulativo, talvez mesmo pedante estabelecer qualquer paralelo entre este quadro e a vinheta final da página, totalmente negra, situação aliás desprezada, como de costume, na versão clandestina iraniana.

24- 09

Ora acontece, em primeiro lugar, que Hergé utilizara em situações anteriores, a páginas 5 e 44, vinhetas negras deste tipo, e que irá abundantemente repeti-las no decurso de obras posteriores. Depois, nesta concreta passagem narrativa, as exigências da sua própria e natural auto-censura criativa implicariam a ausência de representação do auto-massacre perpetrado pelos comissários soviéticos. Já bastará observar de relance os seus dramáticos efeitos, logo na vinheta em que regressa a iluminação, estrategicamente desligada e ligada por Tintin…

Por quê procurar em inventivas e artificiais “explicações” aquilo que está à vista -passando o paradoxo- com linear clareza?

Analisando o conteúdo deste bloco, nele notaremos mais uma insistência nostalinlenintrotsky primarismo da mensagem anti-soviética que constitui um dos mais óbvio objectivos desta aventura. O casual encontro de Tintin com o esconderijo dos tesouros acumulados por Lenine, Trotsky e Estaline, depois de estes terem espoliado o pobre povo russo, vem baralhar grosseiramente a realidade, para além de meter no mesmo saco personalidades tão diversas como as unidas naquele triunvirato.

Depois, no mesmo esconderijo povoado de “fantasmas”, encontraremos as reservas de trigo, caviar e vodka destinadas a exportação, para assim as autoridades provarem virtual e propagandisticamente os “excessos” da produção soviética, em clara oposição à real fome reinante no país.

Finalmente, são apresentadas as reservas de dinamite e chedite (explosivo constituído por uma mistura de clorato de potássio com substâncias carbonosas), estas destinadas à exportação de… atentados.

Neste episódio ficam portanto registadas mais algumas das constatações in loco colhidas nesse ano de 1929 pela reportagem do enviado especial à Rússia Soviética, o jovem e prometedor jornalista Tintin.

            António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin volta ao Irão – 23

TINTIN NO IRÃO 2

As aventuras de Tintin na Rússia Soviética, ficcionalmente vividas em 1929, continuam a ser aqui evocadas, na versão iraniana decalcada sobre um álbum clandestino, sincopado e colorido.

Reproduz-se hoje mais um conjunto ou bloco de seis das suas páginas, conjuntamente com as duplas congéneres originais, criadas por Hergé.

Esta a relação das páginas a seguir reproduzidas:

 Edição original em álbum               Edição iraniana
          84 e 85                                               37
          86 e 87                                               38
          88 e 89                                               39
          90 e 91                                               40
          92 e 93                                               41
          94 e 95                                               42

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A primeira constatação corresponde ao facto de terem sido hoje escolhidas seis páginas do álbum iraniano em vez das cinco habituais e a seguinte à circunstância, complementar, de a cada uma destas corresponderem duas das originais, sem necessidade de acréscimos para acerto da narração.

Quanto à quantidade do conjunto, procurou-se abarcar uma vulgar sequência passada na estepe gelada e correspondendo à perseguição de Tintin pelas patrulhas soviéticas enviadas no seu encalço, sequência com episódios desprovidos de real interesse narrativo quanto à trama essencial da aventura; sobre o facto de existir o rigoroso paralelo de cada página do álbum iraniano equivaler a duas páginas originais, ele deve-se à circunstância, aritmética, facilmente comprovável, de a quantidade de vinhetas rigorosamente lhes corresponder: 76. Trata-se de uma mera coincidência, mas a verdade é que, nesta fase da história, o adaptador se limitou a encaixar em cada página sincopada da versão clandestina a quantidade de vinhetas constante de cada par de páginas originais. O ligeiríssimo atraso narrativo vem de trás…

Ao contrário da fase imediatamente anterior da história, de argumento muito rico em interpretações, a de hoje revela-se de uma extrema vulgaridade.

Quatro simples notas resumem os escassos pontos de interesse aqui recenseados.ateu 1

Na página 84, um dos soldados soviéticos declara ao seu camarada, alto e bom som: – Só Deus sabe onde estará agora esse Tintin! Embora não conhecendo como terá sido traduzido em língua parsi esta frase, a original corresponde a uma antítese daquilo que corresponderia teoricamente a um “bom” comunista, por definição ateu.

Cinco páginas adiante, o acto de obter uma chama por fricção entre dois pedaços de madeira (à maneira polinésia), faz alguma luz sobre a preparação “profissionalizante” recebida por Tintin no seio da sua entidadelume empregadora, o jornal Le Petit Vingtième. Por outro lado, denuncia a formação escutista de Hergé…  

O maravilhoso como elemento narrativo (evocando as antigas aprendizagens escolares de Os Lusíadas) surge aqui muito claro, quase como uma intervenção divina, com a teatral aparição de uma embalagem com sal, a única substância -por ser anticongelante- susceptível de safar Tintin da sua enrascadíssima situação. Isto acontece na página 91.

Finalmente, na 92, assinala-se a imprecação soltada pelo jornalista, como provocação ao seu adversário a quem insulta com o epíteto de maldito bolchevique.

O cenário da história vai mudar na próxima cena, onde voltaremos aos interiores. Como convém, atendendo ao tempo, agreste, da estepe exterior…     

António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin volta ao Irão – 22

TINTIN NO IRÃO 2

A odisseia de Tintin na Rússia Soviética, ficcionalmente acontecida em 1929, continua a ser aqui evocada, na versão iraniana pirateada, sincopada e colorida do álbum original.

Reproduz-se hoje mais um conjunto ou bloco de cinco das suas páginas, conjuntamente com as duplas congéneres originais, criadas por Hergé.

Esta a relação das páginas hoje reproduzidas:

 Edição original em álbum               Edição iraniana
          73 e 74                                               32
          75 e 76                                               33
          77 e 78                                               34
          79 e 80                                               35
          81 e 82                                               36
          83                                          

Constata-se, tal como previsto, ter sido necessário acrescentar agora material original, neste caso apenas uma prancha, para acerto do paralelismo narrativo.

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O bloco hoje reproduzido corresponde a boa parte dos objectivos anti-soviéticos visados pelo padre Wallez, responsável editorial do jornal Vingtième Siècle, devidamente inculcados no jovem Hergé.

Qual era a situação real na Rússia Soviética desses tempos?

Estaline, após o Congresso do Partido Comunista, em Dezembro de 1927, desencadeara o primeiro plano quinquenal russo, prejudicando seriamente o campesinato em favor da industrialização. Um pouco por isso, a produção de trigo baixaria drasticamente, de 7 para 5 milhões de toneladas entre 1927 e 1928. O ditador soviético, em Janeiro deste ano, anunciara em directivas de grande dureza toda a espécie de acções repressivas contra os koulaks (agrários ricos) e os especuladores. A colectivização acelerada da agricultura começara e entre 3 a 4 milhões de crianças, abandonadas, erravam pelos campos nas cercanias das cidades. A propaganda que o regime procurava espalhar pelo exterior ocultava esta dramática situação e difundia uma imagem de prosperidade…

tintinsoviet 1

Insere-se neste contexto o panfleto anti-soviético -no extremo oposto da campanha oficial russa- que o antigo cônsul belga em Rostov-sur-le-Don, Joseph Douillet, publicaria em 1928: Moscovo sem Véus. Pela mão do seu superior, Wallez, aí beberia Hergé o essencial daquela história, a aventura/reportagem do jovem jornalista Tintin no seio do “inferno” soviético.

Visto a esta luz, não poderá causar a mínima estranheza que, na página 75, Tintin tenha considerado a cidade de Moscovo como um “pardieiro infecto”, por culpa dos soviéticos. O seu relato de filas de crianças miseráveis e famintas, esperando a esmola de um pão subordinada à sua adesão ao comunismo devidamente confessada ao comissário, é no entanto exagerada.

Mais adiante, na página 78, encontramos uma reunião do comité local, ondetintinsoviet 2 Tintin se irá  introduzir clandestinamente, na qual um dos camaradas responsáveis lamenta a falta de trigo e a ameaça da fome, insistindo na propaganda e numa expedição contra os koulaks como solução…

Finalmente, como radical castigo por activa sabotagem pessoal contra tais planos, Tintin será condenado ao fuzilamento, na página 82, apenas tendo sobrevivido porque previdentemente tinha colocado pólvora seca e balas de pasta de papel (ainda não se usava a borracha!) nas espingardas, durante a sua passagem pela camioneta que transportara a tropa.

O jornalista britânico Malcolm Muggeridge, que fará uma viagem ao Norte do Cáucaso em Março de 1933, relataria textualmente em crónicas publicadas no Manchester Guardian: “É notório que a população civil morre de fome. Há três meses que aqui não há pão. (…) Parte dos víveres que lhes tiraram -e os camponeses sabem-no muito bem- continua a ser exportada para o estrangeiro. (…) Vi com os meus próprios olhos cerca de vinte camponeses partirem escoltados. Era um espectáculo tão usual que já nem suscitava curiosidade“.

Tintin, nas suas próprias crónicas jornalísticas, embora ficcionais, não terá sido tão duro nas críticas e denúncias ao sistema soviético. A verdade histórica revela este período da história da Rússia como uma catástrofe social de enorme dimensão, incluindo violência, massacres e genocídios que fazem por vezes lembrar o Holocausto. Veja-se como simples exemplo o que se passou, nos anos 30, na Ucrânia.

Hergé merece, no mínimo, uma certa indulgência. Vítima dos preconceitos do politicamente correcto, foi como que obrigado a desculpar-se pelas “ingenuidades” da sua juventude. Mas falsificou ele a História, fez passar o dia por noite, inverteu grosseiramente a realidade?

Creio que é chegado o momento para reflectir sem paixões sobre tudo isto.       

António Martinó de Azevedo Coutinho