Tintin volta ao Irão – 21

TINTIN NO IRÃO 2

Atinge-se hoje o termo da primeira metade do álbum Tintin no País dos Sovietes na sua versão iraniana, directamente pirateada de um álbum clandestino, sincopado e colorido.

Reproduz-se mais um conjunto ou bloco, hoje de seis páginas, do álbum iraniano conjuntamente com as suas (duplas) congéneres originais, criadas por Hergé.

Esta a lista das páginas hoje reproduzidas:

 Edição original em álbum               Edição iraniana
          61 e 62                                               26
          63 e 64                                               27
          65 e 66                                               28
          76 e 68                                               29
          69 e 70                                               30
          71 e 72                                               31                    

A curiosidade que desde logo salta à vista é a circunstância de, pela primeira vez, a cada página iraniana corresponderem duas, e só duas, páginas originais. Ainda que o acerto das vinhetas não seja absoluto, pode considerar-se que a narrativa se manteve razoavelmente paralela neste troço da história. Mérito do adaptador? Nada disso, pois este paralelismo deve-se, apenas, à circunstância fortuita de Hergé aqui ter quase abdicado das vinhetas panorâmicas que usou, com acerto, noutras fases da sua história. Ou, para ser mais correcto, o desenhador utilizou nestas páginas um mais reduzido número de vinhetas a toda a largura das pranchas. Como se verificou recentemente, Hergé preencheu algumas páginas com 3 vinhetas panorâmicas. Neste sector da aventura, ele não precisou desse modelo, usando 6 vinhetas quadradas em sete das doze páginas hoje reproduzidas e, nas restantes, apenas empregou uma vinheta panorâmica por página.

Este ritmo permitiu uma convergência fácil, pois o adaptador apenas teve de aglutinar ou apagar um menor número de vinhetas originais na sujeição ao seu modelo, quase inflexível, de uma dúzia de vinhetas por página.

Mais adiante, na segunda metade do álbum, verificar-se-ão novos desajustamentos.

21 - 01 21 - 02 21 - 03 21 - 04 21 - 05 21 - 06

Nada encontrei no bloco hoje reproduzido que mereça algum especial comentário. Torna-se redundante lembrar as matrículas com números e letras invertidos em função das translacções aplicadas ao desenho, onde para facilitar até foram apagadas… Mas vale a pena conferir este pormenor.

É interessante verificar que a função de torturador é entregue pelos soviéticos a carrascos (profissionais!?) chineses. Ao tempo eram estes tradicionalmente considerados como especialistas da tão abominável tarefa, e residirá talvez em tal convicção (ou preconceito) social este pormenor narrativo.

O que poderá aqui chamar a atenção do leitor é uma intenção algo tosca do autor da clandestina versão assente no pretenso uso narrativo da cor. Atente-se no colorido uniforme e sem sombra das cenas de exterior em contraste com as tonalidades acinzentada da cela, avermelhada da sala de tortura e esverdeada do meio líquido. Além disso, a última vinheta da página 28 (na versão iraniana, claro!) foi pintada com um amarelo uniforme que apenas pretende representar a luz da candeia. Ora a “linha clara” de Hergé (enquanto estilo gráfico aqui ainda incipiente) não é nada disto!

A odisseia de Tintin na Rússia Soviética continuará no próximo número.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin volta ao Irão – 20

TINTIN NO IRÃO 2

Continua a saga de Tintin no Irão, perdão, de Tintin no País dos Sovietes na sua versão iraniana, pirateada de um álbum já de si clandestino.

Mais um conjunto de cinco páginas do álbum iraniano é hoje reproduzido, conjuntamente com as suas (duplas) congéneres originais. E, tal como tem sido usado para acerto da narrativa paralela, acrescentam-se duas duplas páginas da edição genuína, da autoria de Hergé. Isto significa que a “compressão” da narrativa se tornou nesta passagem ainda mais forte, com prejuízo da integralidade da obra pela amputação de vinhetas por vezes dotadas de bastante interesse.

Assim, eis a lista das páginas hoje reproduzidas:

 Edição original em álbum               Edição iraniana
          47 e 48                                               21
          49 e 50                                               22
          51 e 52
          53 e 54                                               23
          55 e 56                                               24
          57 e 58
          59 e 60                                               25

Neste bloco de páginas existem alguns motivos de interesse. Hergé, como já foi recordado e é aliás evidente, não era na época o primoroso desenhador que viria a tornar-se ao logo dos anos seguintes. Mas já revelava abundantemente algumas das características que o notabilizariam, como a liberdade e a segurança do traço. E, sobretudo, Hergé deu aqui conta, numa ou noutra passagem, do seu talento publicitário, assim como do sincero apreço pessoal pela arte do seu tempo. Algumas vinhetas soltas e certas sequências provam tudo isto, assim como o seu sentido irónico no aproveitamento de circunstâncias aparentemente fortuitas da vida quotidiana ou de interesses sociais da época.

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É o caso do futebol, melhor diria do football, uma vez que na década de 20 do passado século as origens próximas do desporto hoje rei faziam sentir fortemente a sua origem anglo-saxónica. Por isso, na página 48 de uma obra francófona, encontramos os termos penalty, goal e shot

O episódio da perseguição das lanchas a motor merece dois comentários, quanto à forma e quanto ao conteúdo. O aspecto formal tem a ver com o dinamismo aplicado aos desenhos de que a última vinheta panorâmica da página 50 é um excelente paradigma, pela montagem da cena, pela funcional fluidez e elegância do traço, pelo “movimento” contido no instantâneo captado.

Em termos de conteúdo, a situação serve para recordar o facto de Hergé aproveitar iterativamente em obras futuras o essencial de certos episódios desta aventura inicial de Tintin. Por exemplo, este episódio das lanchas a motor será reencontrado na parte final de O Caranguejo das Pinças de Ouro, onde Tintin vai perseguir e capturar Allan, o imediato de Haddock.

Merece especial citação a representação do automóvel sport na longa tirada que é iniciada na página 53 e se prolongará até à 64. As vinhetas panorâmicas, a toda a largura da tira, não dispõem de qualquer correspondência, amputadas ou mesmo eliminadas, na versão iraniana onde a cor nada acrescenta… E assim se perde a qualidade plástica da obra original de Hergé, expressa em desenhos com apreciável dimensão estética e narrativa como a vinheta central da página 56 ou a última da 58. Perante estas nada valem os seus pobres sucedâneos ou… genéricos!

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De notar ainda que, para além da nítida influência dos futuristas italianos, sobretudo Boccioni e outros já anteriormente referidos, Hergé vai agora “beber” na fonte, quase inesgotável, do célebre fotógrafo e artista plástico francês Jacques-Henri Lartigue (1894-1986).

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Continua no próximo número…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin volta ao Irão – 19

 

  TINTIN NO IRÃO 2

Mais um conjunto de cinco páginas do álbum iraniano Tintin no País dos Sovietes é hoje reproduzido, conjuntamente com as suas (duplas) congéneres originais. Como vem acontecendo, para acerto da narrativa paralela, torna-se imperioso o acréscimo de páginas da edição genuína, da autoria de Hergé.

Por isso, fornece-se a habitual relação:

 Edição original em álbum               Edição iraniana
          35 e 36                                               16
          37 e 38                                               17
          39 e 40                                               18
          41 e 42
          43 e 44                                               19
          45 e 46                                               20                        

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O conjunto de hoje não apresenta a variedade ou a relevância do anterior.

Mas há nele dois ou três motivos merecedores de destaque e o primeiro destes tem a ver com a condição profissional do jovem jornalista, que assume plenamente as suas obrigações, como jamais se assistirá em qualquer outra oportunidade das mil e uma em que será enviado -ou irá por conta própria, talvez como free-lancer!?- aos quatro cantos do mundo. De facto, encontrando um quarto agradável, quase uma excepção no seio do miserabilismo então reinante na Rússia soviética, Tintin entrega-se com tal entusiasmo à escrita do seu relato que preenche resmas e resmas de papel. O seu belo artigo, tal como o classifica na página 35, leva-o a interrogar-se com inegável lógica sobre como conseguirá enviá-lo para a redacção do jornal em Bruxelas… Com efeito, nunca saberemos qual teria sido o meio postal usado na expedição de tão abundante material. Mas as notícias chegariam ao seu destino, pois o emocional interesse despertado nos leitores de Le Petit Vingtième acabaria por provocar a entusiástica recepção verificada (ao vivo!) a quando do triunfal “regresso” do jornalista, devidamente encenado, como se sabe.

Graficamente, e atendendo em particular ao desenho original a preto e branco, realce-se a circunstância de Hergé ter utilizado tramas que o ajudaram a criar um adequado contexto para a cena nocturna relatada entre as páginas 36 e 42, onde foi assim possível representar com sucesso os focos de luz das lanternas, a alvura dos fantasmagóricos lençóis e o contraste ambiental com o exterior. Já na versão clandestina, o uso de outras cores (embora mantendo-se uma trama esverdeada) terá aparentemente facilitado o trabalho do adaptador. Mas, sinceramente, não creio ter isso produzido um efeito estético ou narrativo superior. Bem pelo contrário.

Curiosas são as exclamações, ou imprecações, dos russos, jurando um “pela barbicha de Lenine” e outro “com um bilião (!?) de knouts”, tradicional chicote de tiras de couro entrançadas com que eram flagelados os prisioneiros.

Controntem-se estas verbalizações com as proferidas por  Tintin enquanto “fantasma”: “Miseráveis humanos!” (…) “Seres insignificantes!” (…) “A maldição caia sobre vós!” e outras de estilo similar.

Por fim, na página 46, registe-se o explícito testemunho de comedora fidelidade de Milou para com o seu humano companheiro. Quando Tintin lhe recomenda que se salve, pois cabe pelas grades, Milou responde-lhe galhardamente: – Nunca te abandonarei, Tintin!

Abandono-vos eu, caros leitores, até ao próximo capítulo.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin volta ao Irão – 18

TINTIN NO IRÃO 2

O bloco do álbum iraniano Tintin no País dos Sovietes hoje revelado contém alguns motivos de interesse.

Antes de mais, na sequência das 5 páginas seguintes, eis o esquema da sua relação com as originais, incluindo-se uma “suplementar” para o devido acerto narrativo:

Edição original em álbum               Edição iraniana
          24 e 25                                               11
          26 e 27                                               12
          28 e 29                                               13
          30 e 31                                               14
          32 e 33                                               15
          34                                                                  

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C18 - 6omo atempadamente se chamou a atenção, manifesta-se já em Hergé, embora ainda muito novo, a profunda influência da arte pictórica moderna, nesta fase sobretudo a dos futuristas italianos ou russos. Dois excelentes exemplos deste apreço estão aqui patentes, tanto na primeira vinheta da última tira da página 25 como na segunda da tira central na página 29. Num e no outro casos, somos impelidos para o evidente confronto de obras de Giacomo Balla e de Umberto Boccioni, pintores italianos muito em voga no primeiro quartel do século XX.

18 - 0Se na inspiração plástica, Hergé denuncia o culto pela arte do seu tempo, já no argumento do álbum que constrói é evidente a cópia, pura e simples, da obra Moscovo sem Véus, atrás citado. O primeiro caso, neste bloco, respeita ao episódio da produtividade industrial soviética.

Hergé vai buscar à obra de Douillet o exemplo das fábricas Potemkine, local onde a actividade industrial é simulada por feixes de palha a arder e por inconsequentes marteladas em chaparia: “Em breve espessas colunas de fumo negro saíam das chaminés criando a ilusão de uma fábrica a funcionar em pleno, símbolo vivo da jovem indústria soviética“. O diplomata belga acrescenta que este subterfúgio, real, foi utilizado durante a visita de uma delegação de sindicalistas ingleses..

Hergé, decalcando o episódio, nas páginas 26 e 27, desenha um grupo de indivíduos, nitidamente anglófonos, a assistir ao embuste. E põe Tintin a dizer: “Olha Milou, são comunistas ingleses a quem estão a mostrar as maravilhas do bolche­vismo“.

E o Comissário do Povo, ao apontar as chaminés fumegantes, declara: “… e contrariamente às historietas que se contam nos países burgueses, as nossas fábricas funcionam em pleno!…” Os delegados ingleses concordam, ingenuamente: “Beautiful. Very nice“.

Mas na página seguinte, onde a fraude é desmascarada, Tintin conclui: “Eis como os sovietes enganam os infe­lizes que ainda acreditam no paraíso ver­melho“.

Depois, o falso mendigo -agente da GPU disfarçado- é conduzido a um restaurante, do qual a versão iraniana destruiu a curiosa tabuleta original…

Segue-se outra cópia do livro inspirador.

A eleição descrita na página 33 do álbum original é pra­ticamente idêntica à que Douillet relata em Moscovo sem Véus. Este escreveu: “O camarada comunista Oubykone (presidente demissionário do Comité Executivo) discursava. Eis os termos com que inter­pelava a multidão: Apresentam-se três listas: uma é do partido comunista. Aqueles que se opõem a esta lista le­vantem a mão! Simultaneamente, Ouby­kone e os quatro colegas sacaram dos revólveres que apontaram à multidão de camponeses ameaçando-os de arma em punho. Oubykone continuou: Quem é que se declara contra esta lista? Ninguém? Proclamo então a lista comunista vence­dora por unanimidade. Torna-se assim inútil propor a votação das outras duas“.

Com Hergé, o efeito dramático é ainda mais re­forçado, pois os camponeses presentes permanecem imóveis, apenas baixando as ca­beças e curvando os ombros, por submissa prudência. Esta “fábula”, porém, encerra uma certa verdade, pois naquele tempo os camponeses russos eram sistematicamente desfavorecidos no confronto com os operários…

Mas aqui, neste episódio, não é apenas o doutrinário que está em causa, pois o narrativo também apresenta uma interessante curiosidade, em função da remontagem decidida pelo clandestino “pirata” onde a edição iraniana assenta. Certamente por força da necessidade de poupar espaço, pois as três vinhetas panorâmicas originais ocupariam a totalidade de uma página, foi escolhida uma organização paralela, onde alternam o decurso da eleição e o testemunho presencial (e profissional) de Tintin. Ora como este não possui o dom da ubiquidade, o remontador sentiu-se na obrigação de o apagar, na sequência em que espreita sobre o tapume. Na vinheta do meio, até ficaram as mãos… Decepadas??? Em boa verdade, nesta estropiada versão, o jovem jornalista não assiste à cena, na sua integralidade!

18 - 00

Quem conta um conto, aumenta-lhe um ponto, diz o ditado. Há aqui que o corrigir, pois quem recontou este conto retirou-lhe um ponto…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin volta ao Irão – 17

TINTIN NO IRÃO 2

O álbum iraniano Tintin no País dos Sovietes, copiado de uma edição pirata sincopada e colorida, continua a sua saga.

Os conjuntos hoje reproduzidos, segundo o esquema “paralelo” escolhido, correspondem às páginas seguintes:

 Edição original em álbum              Edição iraniana
          13 e 14                                                6
          15 e 16                                                7
          17 e 18                                                8
          19 e 20                                                9
          21 e 22                                              10
          23                                                                  

A prancha “suplementar”, a 23.ª, serve para acertar o desenvolvimento da narrativa.

Nesta fase da história, ainda no seu início, o jovem jornalista e o seu fiel companheiro canino estão já em plena Rússia para levar a cabo a missão profissional que aí os conduziu.

Esta incipiente aventura de Tintin foi construída em função do ritmo narrativo que derivava da periodicidade semanal da sua publicação, com duas pranchas por número, depois reduzidas a menos de metade na edição que agora nos interessa analisar. Era visado por Hergé, sempre que possível, obter uma espécie de clímax narrativo, com situações de suspense a pontuar cada sucessivo par de páginas originais.

O conjunto hoje apresentado não dispõe de motivos de interesse com especial significado. Ainda assim, há pormenores que merecem menção.

Registamo-los com referência à ordenação das páginas à esquerda pois, como já foi destacado, a sua tradução reduzida e a cores prejudica ou anula alguns desses pormenores.

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tt 10aAssim, na página 13, a grosseira “reparação” numa perna da mesa onde se senta o comissário bolchevique pretende revelar o miserável estado de coisas, até as mais vulgares, no universo comunista. Depois, ainda mais grave porque de natureza “ideológica”, vem o conselho de que dará menos nas vistas eliminar Tintin através de um adequado “acidente” do que, espectacularmente, a tiro…

Vem na mesma linha de confirmação do anterior miserabilismo local a página 13, onde Milou se queixa de que na Rússia nem sequer haverá ossos!

A vinheta panorâmica central da página 17 mostra uma representação gráfica do movimento em tudo semelhante à arte cinética que o celebrado pintor futurista italiano Giacomo Balla (1871-1958) praticava na época em muitas das suas dinâmicas obras.

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A seguir, é na página 20 que Hergé “antecipa” a globalização, quando reproduz entre as peças de ferro-velho uma lata de biscoitos ingleses Huntley & Palmers, ao tempo famosos, assim como um bidão da multinacional de petróleos Shell. Por outro lado, isto pode ser encarado como um sinal da necessidade (leia-se: dependência) da Rússia quanto aos artigos estrangeiros de importação…

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Nas restantes páginas hoje reproduzidas nada mais de especial me merece citação.

Aguardemos o próximo bloco, onde questões interessantes vão surgir…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Tintin volta ao Irão – 16

TINTIN NO IRÃO 2

Quando Le Petit Vingtième decidiu contar a sua verdade sobre a Rússia Soviética -estávamos em 1929- a direcção do jornal enviou até lá um dos seus melhores repórteres, Tintin, ajudado pelo simpático cão Milou. Mais, o jornal garantiu à partida que todas as fotografias (e obviamente as crónicas) semanalmente publicadas seriam rigorosamente autênticas.

Assim começou, na introdução à aventura, perdão!, à reportagem, esta curta mas prometedora apresentação daquele depressa que se tornaria o mais conhecido e apreciado herói das histórias aos quadradinhos -banda desenhada como hoje se diz- de todos os tempos.

As ideias feitas, os preconceitos e os “chavões” começam a ser usados desde o início. Repare-se que Tintin promete enviar da Rússia vodka e caviar, naturalmente para além de postais (ilustrados!?) e das suas crónicas. Será mesmo esta a única oportunidade entre as suas mil aventuras em que fará ou tentará fazer uma intervenção profissional.

Até Milou não escapa a esta reserva mental, pois apenas aguarda pulgas e ratos.

Depois, surge o terrorista (ou anarquista) encarregado de impedir o trabalho jornalístico, para que Tintin não possa contar o que por lá se passa. Portanto, até um fiel membro da GPU reconhece implicitamente o fracasso do sistema comunista.

Em Berlim, ainda a meio da viagem, Tintin é suspeito de ter sabotado o comboio e logo depois considerado arguido.

Hergé, que vai aprendendo a desenhar e a utilizar os recursos então ainda incipientes da linguagem da banda desenhada, assume na página 5 (da versão original) uma inovação, a de utilizar balões, onomatopeias, signos cinéticos e metáforas visualizadas sobre fundos inteiramente negros, assim continuando criativamente a narrativa em plena escuridão. Não é desprezível, por isso, o valor desta passagem.

De notar também a utilização de termos alemães para credibilizar o cenário daquela paragem na Alemanha, como ausgang, halt, polizei bericht, schweinstrasse, mein gott, tarteifle, achtung

O cuidado aplicado pelo autor na fiel reprodução gráfica dos veículos nasce logo nas páginas onde desenha a moto com sidecar e o automóvel, no caso um Daimler-Benz, série S, descapotável. Registe-se, a este nível, a qualidade da representação do movimento dos veículos, nitidamente inspirada em movimentos artísticos de vanguarda, sobretudo italianos e russos.

Há aqui um delicioso pormenor, por alguns estudiosos da obra considerado como a génese da característica poupa ou mecha de cabelo de Tintin, que surge bem nítida na página 7 em função do efeito do vento quando o herói foge no descapotável! Depois permaneceria para sempre, como imagem de marca.

Após um acidentado percurso, ei-lo que chega à fronteira russa, em Stolbitz, nome que aparece em pretensos caracteres cirílicos numa tabuleta.

E aqui termina a parcela da aventura hoje aqui reproduzida, nas primeiras cinco páginas da versão iraniana.

Alguns dos pormenores citados, saborosos, são escamoteados ou anulados na adaptação que este exemplar nos revela. A deficiente cópia, a cor empastelada, a mutilação ou mesmo a supressão de algumas vinhetas, em parte devidas às necessidades da tosca e comprimida remontagem das páginas ou pranchas, provocam danos irreparáveis que só o confronto com o original permite perceber ou recuperar. Daí a necessidade, também para prestar o serviço de “tradução simultânea”, do esquema gráfico usado.

Como tinha sido previsto, juntam-se aos cinco conjuntos de hoje duas páginas “suplementares” da edição original, assim se procurando manter na medida do possível o paralelismo narrativo.

Os conjuntos aqui reproduzidos correspondem às páginas seguintes:

Edição original em álbum               Edição iraniana

          1 e 2                                                   1
          3 e 4                                                   2
          5 e 6                                                   3
          7 e 8                                                   4
          9 e 10                                                 –
         11 e 12                                                5                          

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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Tintin volta ao Irão – 15

TINTIN NO IRÃO 2

A verdade é que Tintin no País dos Sovietes não permaneceu incólume.

Houve diversas edições clandestinas, suscitadas em parte pela ânsia dos coleccionadores “tintinófilos”, desesperados por não conseguirem o acesso às reduzidas e raras edições oficiais. Assim, começaram a surgir cópias piratas da aventura inicial de Tintin, sobretudo a partir de 1980.

A certa altura, em edição anónima, surgiu uma “novidade”, precisamente a adaptação -colorida- sob forma de álbum clássico, com 62 páginas. Naturalmente, isso já acontecera, sob a chancela e responsabilidade de Hergé, quanto a outras aventuras publicadas inicialmente no Le Petit Vingtième. Porém, estas reedições, oficiais foram rodeadas de todos os cuidados, implicando o redesenhar das vinhetas e a adaptação do próprio argumento que, sem trair a narrativa original, o sintetizou, cortando mesmo aqui ou ali algumas passagens. Com alguma frequência têm surgido notícias que dão conta de que a actual editora oficial das aventuras de Tintin pensa, ou prepara mesmo, uma futura adaptação dessa sua primeira história. Se tal um dia acontecer, pode antecipar-se o máximo cuidado que rodeará tal trabalho, a todos os níveis, começando no respeito pela memória e herança do autor.

15 pastiches

Com Tintin no País dos Sovietes nada disso se passou. Um anónimo interventor de expressão francófona limitou-se a encaixar vinhetas numa média de 12 por prancha, quando a história de Hergé dispunha de metade. Depois, apagou algumas vinhetas e mutilou outras, por vezes grosseiramente, aplicando finalmente um colorido pouco melhor do que primário. A impressão iraniana ainda complicou mais o aspecto gráfico ao empastelar a impressão.

Assim foi conseguido o “milagre” de meter 138 páginas em 62, menos de metade, portanto, da versão oficial. Não é nada famoso o resultado, apenas dispondo de interesse histórico.

Julgo que alguns admiradores da obra de Hergé, sempre interessados em15 CH225 conhecer o máximo possível sobre o imenso universo que rodeia o famoso autor, gostarão de conhecer este pastiche. Por isso o disponibilizarei, tal como fiz anteriormente, com as devidas reservas, quanto a Tintin e a Alfa Arte.

Digitalizei com o maior cuidado, página a página, o álbum iraniano, procurando melhorar a sua legibilidade, o que julgo ter conseguido. Ao mesmo tempo, para que se entenda melhor tanto a história (para quem eventualmente ainda a não conheça) como -sobretudo- as deturpações produzidas sobre o original, organizarei uma apresentação gráfica semelhante à usada quanto ao anterior álbum aqui revelado.

Colocarei lado a lado duas páginas da história original a preto e branco, à esquerda, e uma página da versão clandestina colorida, à direita.

Como facilmente se depreende, nem sempre a correspondência será rigorosa, pois 138 a dividir por 62 não é uma operação aritmética exacta, uma vez que sobra um resto… Por isso, de vez em quando publicarei mais uma página da história original para ir acertando, na medida do possível, o paralelismo da narrativa.

Quanto a comentários, irei dando conta daquilo que, à medida que a história for avançando, me parecer mais relevante.

15 carta forjadaComo “preâmbulo” daqueles será interessante saber como terão reagido na época os responsáveis comunistas belgas, nomeadamente através do seu órgão oficial de comunicação, o jornal L’Humanité Hebdo. Perante o inegável êxito obtido pela publicação da ficcional reportagem, e sobretudo de seus alguns “anexos” como a encenação ao vivo do regresso de Tintin ou a divulgação de uma forjada missiva da GPU, os comunistas mantiveram-se sempre muito discretos e prudentes. Apenas o jornalista François Toulat-Brisson publicaria em finais de 1999, naquele semanário, um excelente e equilibrado dossier intitulado Tintin avait-il vu juste?, onde foram analisados e desmontados com inegável elevação os exemplos de anticomunismo primário patentes na banda desenhada…

Enfim, esta primeira aventura de Tintin é notável sob diversos aspectos, até15 lmhp26 porque forçou Hergé a aprender, fazendo, a desenhar e a contar histórias em quadradinhos. E nunca devemos esquecer que o seu mito começou aí, porque a obra e as personagens entraram de imediato no imaginário colectivo, ao mesmo tempo que com elas se foi estabelecendo e divulgando o complexo código de escrita de um meio então ainda original de expressão, a Banda Desenhada.

Por isso, soam hoje como irónicas as falas finais de Tintin e Milou, quando à janela do comboio estão prestes a regressar a Bruxelas:

Acho melhor não insistir. Regressemos então a Bruxelas. Aí terei um repouso bem merecido antes de partir para outras aventuras…
Terminaram os perigos! A nossa vida aventurosa acabou bem!

Pois, nós sabemos hoje que bem depressa a dupla partiria para o Congo, onde a esperavam novas aventuras.

Também polémicas…

 António Martinó de Azevedo Coutinho