Hergé, Tintin e a Medicina – vinte e quatro (fim)

Termina-se hoje esta já longa série com a transcrição das Conclusões com que o médico pediatra espanhol dr. Guillermo Álvarez Calatuyd, especialista em gastroenterologia e nutrição, concluiu o seu original e interessante trabalho Hergé, Tintin e a Medicina, tese de doutoramento em Medicina, datada de 2015.

Como procurei mostrar, trata-se de uma obra meritória original, onde foi feita a análise  exaustiva das aventuras de Tintin sob uma perspectiva rigorosamente clínica.

Com a saudação devida ao autor, aqui ficam as suas:

CONCLUSÕES

  1. Hergé escreveu e desenhou durante quase seis décadas uma série de álbuns de aventuras bem documentadas na abordagem a questões relativas à medicina e à saúde, utilizando adequadamente tanto a patologia como o conhecimento médico existente nos momentos referidos na sua obra.
  2. Na abordagem que fez aos hábitos de saúde, alguns prejudiciais em várias das suas personagens e inapropriados, hoje em dia, para o público jovem a que estão destinadas as suas histórias, estes estão relacionados com a época em que foram referidos. Ainda assim, foi fiel aos valores morais que sempre teve presentes desde o momento em que assumiu com total responsabilidade que os destinatários naturais das suas criações eram crianças e jovens.
  3. Hergé, geralmente, trata com respeito a profissão médica e outros profissionais de saúde e, apenas nos casos em que parece que tal consideração é desdenhosa, como no que respeita aos psiquiatras, isso está mais relacionado com a avaliação estereotipada geralmente feita nos quadradinhos.
  4. É um artista inovador e à frente do seu tempo. Isto é amplamente demonstrado no campo da Ciência, tema desenvolvido com amplitude e detalhe nas aventuras de Tintin. Antecipa descobertas ou utiliza as mais recentes. Rigorosamente actualizado sobre todas as questões abordadas, apesar da época em que viveu, também mostrou o seu interesse pelo campo da Medicina.
  5. Hergé cresceu como artista e como ser humano à medida que foi desenvolvendo os sucessivos álbuns. De um grafismo elementar e de uma ideologia simplista, desde visões reducionistas e superficiais da realidade, o artista belga evoluiu até oferecer obras complexas de ficção excepcionalmente bem desenhadas e documentadas que disponibilizavam uma visão plena de matizes sobre o mundo que nos rodeia.
  6. Além das suspeitas psicanalíticas na intimidade de Hergé, a sua vida agitada e os seus relacionamentos pessoais e familiares com a doença mental podem ter algo a ver com a sua obra, onde está reflectida a insegurança do autor, significativamente influenciado pelos própiros problemas psicopatológicos e pelos do seu contexto.
  7. Embora tenha sido acusado de ser misógino, conservador e racista, assinalá-lo não equivale a um julgamento negativo do autor, que desenhou o seu último álbum completo há quase quarenta anos, e muito menos teria de ser tomado em consideração como exigência para que o seu trabalho fosse censurado. As obras artísticas e literárias devem ser julgadas ​​em seu contexto cultural e histórico. Em particular, os quadradinhos são expoentes da cultura e do momento histórico em que foram elaborados.
  8. As suas aventuras exemplificam e difundem estilos de vida que, embora tendo decorrido quase cem anos desde a primeira, ainda são válidos para as crianças de hoje, tais como a amizade, a honradez, a ética profissional, o perdão e a justiça. Apesar de sabermos que algumas de suas atitudes são vistas, a partir de uma perspectiva do século XXI, como obsoletas, isso não impede que Tintin possa ser uma referência útil para incentivar uma determinada atitude perante a vida, sabendo enfrentar problemas e partilhar valores como a amizade ou a fidelidade.
  9. A validade do Tintin e dos seus companheiros, traduzida por traços e cores marcantes, é indiscutível: as histórias de Hergé foram traduzidas em quase uma centena de línguas e dialectos e já vendeu mais de duzentos milhões de exemplares. As suas aventuras continuam a despertar paixões: mais reeditadas do que nunca, inspiram artistas, escritores, produtores e realizadores de cinema. Tintin encarna valores universais com os quais todos se podem identificar.
  10. Os milhões de leitores de várias gerações das aventuras de Tintin sempre aprenderam história, geografia e ciências com elas. As descrições de doenças, médicos e estilo de vida pareciam perdidas na memória de todos. Acreditamos que é justo prestar uma pequena homenagem a um autor que sempre mostrou grande interesse e dedicação pela Medicina na sua obra, em detalhes apenas apercebidos pelos médicos nos últimos anos.

Hergé, Tintin e a Medicina – vinte e três

A parte mais substancial da interessante tese de doutoramento que temos vindo a sumariar diz respeito à discussão da sua componente técnica, isto é, da análise relativa à Medicina. São cerca de oitenta páginas densas, repletas de informação específica, com enorme interesse para a classe médica, porém de reduzido alcance em termos de banda desenhada propriamente dita.

Por isso, decidi passar em claro tal componente, uma vez que aqui procurei partilhar os conteúdos mais próximos do universo dos quadradinhos e dos seus heróis, neste caso Tintin e companheiros.

No entanto, aqui fica uma breve súmula dos títulos relativos aos capítulos deliberadamente “ignorados”, sem que tal represente qualquer sinal de menosprezo pelo excelente trabalho do autor. A quem se interesse pelo seu conhecimento integral recomenda-se a pesquisa do trabalho de que existe uma versão em PDF disponível na Internet.

Patologia – Doenças descritas e aludidas – Patologia infecciosa – Psitacose – Peste bubónica – Escarlatina – Raiva – Constipações, resfriados e gripe – Epidemia misteriosa: sono letárgico – Doenças dos sentidos – Lipotimias – Patologia diversa – Desculpas e alusões – Outras doenças descritas – Situações de perda de consciência. Traumatismos – Amnésia pós-traumática –  Acidentes sofridos pelas personagens – Acidentes com veículos motorizados – Explosões – Picadelas, mordeduras e ataques por animais – Feridas – Queimaduras – Lesões por electricidade – Intoxicações – Outros acidentes sofridos – Situações ambientais extremas – Sobreviver na montanha – O deserto – O mar – O espaço – Os vulcões.

Doentes e médicos – Os doentes – Pacientes psiquiátricos – Outros doentes – Tintin hospitalizado

Os médicos na obra de Hergé – Médicos que se mencionam – Dr. da Marinha Belga – Dr. Finney – Director do manicómio indu – Professor Se-Yeng – Dr. Eugénio Triboulet – Médico do General Alcázar – Médicos da Ilha Negra – Doutor Müller – Dr. Otto Schulze – Dr. Simón – Eminentes médicos da clínica onde são atendidos os sábios – Médico índio – Médico do barco – Médico do Hospital de Wadesdah – Dr. P. Grande – Dr. Rótulo, traumatólogo (osteólogo) – Médico de cabeceira do capitão em Moulinsart – Dr. Krollspell.

Alusões à profissão de médico.

A loucura e os psiquiatras na obra de Hergé.

Instituições e pessoal sanitário – Hospitais e centros sanitários – Manicómio de Rawhaipoutalah – Hospital inglês da Ilha Negra – Clínica onde são atendidos os sábios das 7 bolas de cristal – Hospital de Wadesdah – Centro sanitário da base aeroespacial – Outros centros sanitários mencionados: Hospital de Jacarta, Hospital missionário da aldeia do Congo, Manicómio do Dr. Müller em Sussex, Hospital suíço, Hospital psiquiátrico de Nova Deli. – Pessoal e material sanitário.

Farmacologia – Clorofórmio – Quinino – Aspirinas adulteradas – Sais de amoníaco – Substâncias e remédios mágicos – Soro da verdade – Pílula antialcoólica – Remédios caseiros – Adesivo – Outros medicamentos mencionados.

Medicina primitiva.

Medicinas alternativas (telepatia, superstição…).

Hábitos de vida – Estilo de uma vida saudável – A alimentação – Consumo de álcool – Tintin – Milou – O capitão Haddock e o álcool – Hábito tabágico – Drogas.

Natureza humana – A morte e o suicídio – Amor e sexualidade – Infância – Os brinquedos – Maus tratos infantis.

A vida e a obra de Hergé – O segredo de Hergé.

Valor educativo e vigência.

Curiosamente, esta parte é a única em toda a obra onde surgem reproduções de algumas vinhetas dos álbuns, rigorosamente limitadas a 10, segundo expressa e muito restritiva autorização da Moulinsart.

Com as interessantes “Conclusões” traçadas pelo Dr. Guillermo Álvarez Calatayud findaremos no próximo capítulo esta parcial recensão de um notável trabalho onde se abordou uma visão muito especial das Aventuras de Tintin, de Hergé.

Hergé, Tintin e a Medicina – vinte e dois

Natureza humana

Apesar de se tratar de histórias em princípio criadas para as crianças há várias referências a temas considerados quanto ao público jovem como a morte e o suicídio, o que está contido no quadro 42. As três personagens principais são os que mais partilham estas dolorosas e reflectidas experiências, como é mostrado no quadro 43.

As situações de medo vividas pelas personagens das aventuras de Tintin são sumariadas no quadro 44.

Deve-se considerar o cachorro Milou como uma personagem dotada de “sentimentos” quase humanos pois sente, sofre e padece de fome muito para além do seu instinto animal. Na verdade, a sua “inteligência” salva em mais de uma situação difícil Tintin e o capitão. Lembre-se que nos primeiros álbuns Milou mantinha certo diálogo oral com Tintin. O amadurecimento da série e a aparição de Haddock minimizaram o seu papel, mas nunca o sentido comum deste “Sancho Pança” das aventuras de Tintin.

Fenómenos físicos e “forças ocultas”

Hergé gostava muito do universo das “forças ocultas”. No quadro 45 são detalhados os diferentes episódios onde se reflectem motivos de alguma premonição por parte das personagens. Em contraste, o autor belga documentava-se excelentemente e explicava, na maioria dos casos, os fenómenos físicos e científicos com bastante verossimilitude, como se pode apreciar no quadro 46, cuja percentagem se detalha no quadro 47.

A análise descritiva dos personagens principais

O gráfico seguinte mostra o número total de eventos das três personagens principais em relação a três grupos de variáveis:

– doenças, lesões e acidentes sofridos nas suas aventuras, incluindo as que ocorreram em situações ambientais extremas e contabilizando as suas relações com o pessoal e as instituições de saúde, assim como o uso de medicamentos.

 – O estilo de vida, hábitos de saúde e consumo de álcool, tabaco e drogas.

– Outros aspectos reflectidos na natureza humana: morte, suicídio, medo, riso, etc. Embora todos os dados sejam registados em conjunto, é evidente o contraste entre Tintín e Haddock com um número mais significativo de eventos relacionadas com os hábitos de saúde do capitão (neste caso perniciosos) em comparação com o seu amigo.

Hergé, Tintin e a Medicina – vinte e um

Os quadros 37 e 38 relacionam o álcool com Milou (sempre consumindo) e com Tintin (geralmente rejeitando ou criticando a sua utilização).

O quadro 39 mostra as razões pelas quais se associa Tintin com o hábito de consumir álcool.

O gráfico seguinte descreve as referências ao álcool, quer por consumo, rejeição, arrependimento ou repressão por parte de Tintin,  Haddock ou Milou, distribuídas por cada álbum da série. O gráfico pode quase reflectir um paralelo com o desenvolvimento evolutivo da série.

Uma explosiva aparição do capitão em Os Cigarros do Faraó contagia as outras personagens. Este facto faz com que o cão perca algum destaque.

Nos últimos álbuns, elaborados com a maturidade e a experiência ganhas por Hergé, as alusões ao consumo de álcool são menores e, inclusivamente, procura-se mesmo uma solução para evitar a sua ingestão.

O hábito de fumar

Pretendeu-se representar o consumo de tabaco em relação às personagens secundárias da série dado que o capitão Haddcok não apareceu no seu início e que Tintin e Milou são não-fumadores. Os dados são apresentados nos quadros 40 e 41. Nas primeiros álbuns as referências eram muito mais frequentes, diminuindo gradualmente ao longo da série. No gráfico seguinte é mostrado o tipo de tabaco fumado pelas personagens.

Hergé, Tintin e a Medicina – vinte

Estilos de vida saudáveis

Uma das principais questões analisados ​​neste estudo foi a relativa aos hábitos de vida dos nossos heróis. No quadro 30 constam os hábitos que promovem uma vida saudável. Ao contrário de outras variáveis ​​recolhidas, estes episódios aparecem com mais frequência em álbuns recentes criados pelo desenhador belga.

Tintin é a personagem que parece mais preocupada em cuidar da sua saúde.

Refeições O quadro 31 engloba os tipos de comida nativa e exótica que os protagonistas consomem nas suas andanças ao redor do planeta. No quadro 32 faz-se referência a Milou que parece esfomeado nas suas primeiras aventuras, apresentadas a preto e branco. A sua fome apresenta mesmo uma diferença estatisticamente significativa em relação às outras personagens (quadro 33). No gráfico a seguir são representados os horários das principais refeições que aparecem na série. Identificou-se o lanche como a hora do chá, infusão muito consumida por Tintin em certos países onde viaja (Arábia, China). É também a personagem mais representada nas refeições regulares e habituais.

Consumo de álcool

O problema do alcoolismo é talvez um dos dilemas mais controversos ou polémicos nas aventuras de Tintin, reflectido numa das suas principais personagens, o capitão Haddcok. Nos quadros 34 e 35 são detalhados o número de alusões a bebidas alcoólicas e as causas das mesmas.

No quadro 36 faz-se uma comparação das amostras independentes do capitão em relação às restantes personagens, revelando diferenças estatisticamente significativas quanto ao consumo de álcool.

Hergé, Tintin e a Medicina – dezanove

Doentes

O quadro 23 revela a relação de pacientes que aparecem na série, distribuídos pela época que a aventura foi criada. Como se pode verificar, a frequência do número de pacientes por época vai diminuindo na medida em que a personagem principal, Tintin, evolui.

O gráfico seguinte mostra a relação de pacientes que aparecem nas aventuras de Tintin de acordo com a sua patologia. Note-se que os pacientes psiquiátricos, feridos ou acidentados e que sofrem de uma doença infecciosa (incluindo a estranha “epidemia letárgica”) são os mais comuns. No outro gráfico observamos os pacientes hospitalizados. Deve-se notar que Tintin foi internado em oito ocasiões.

Médicos e pessoal sanitário

Um total de 32 médicos, alguns com mais destaque do que outros, aparecem nas aventuras de Tintin. Excepto um álbum muito significativo, Os Cigarros do Faraó, a sua aparição é muito distribuída, embora no período final se encontre uma menor presença de médicos, como é mostrado no quadro 24. Em metade dos casos, os médicos têm um papel secundário, embora sejam chamados pelo seu nome. As outras ocorrências incluem simples alusões ao profissional médico ou a sua presença é meramente simbólica.

Normalmente acontece estar mal definida a sua especialidade ou o seu local de trabalho como se observa no quadro 25, embora às vezes isso seja mencionado. Os psiquiatras são os especialistas que mais se encontram seguidos por médicos de família. O trabalho que eles desempenham é fundamentalmente assistencial. 

Como se mostra no quadro 26, o pessoal sanitário é mais comum nas primeiras épocas, tendo pouca presença nos últimos álbuns da série. O equipamento médico (macas, armários, etc.) não costuma ser desenhado de uma forma muito exaustiva em relação ao pormenor com que Hergé se expressa noutras temáticas. A excepção é constituída pelas ambulâncias que, como outros veículos a motor, são mostradas com grande número de detalhes.

Centros sanitários

As ilustrações representativas de clínicas e hospitais, embora apareçam ao longo de toda a série, também são mais comuns durante o primeiro período, coincidindo com as pranchas a preto e branco, tal como se mostra no quadro 27.

Farmacologia

Vinte e seis alusões a drogas e fármacos (reais ou inventados) bem como a utensílios de farmácia são referidas nas aventuras de Tintin, com mais presença nos primeiros álbuns, como é mostrado no quadro 28. No quadro 29 o nome do fármaco usado é detalhado assim como as vezes que se menciona. O clorofórmio é o preparado farmacológico com maior destaque.

Hergé, Tintin e a Medicina – dezoito

Acidentes envolvendo personagens

Como vimos anteriormente, além das muitas situações que causaram perda de consciência, as personagens das aventuras de Tintin estão expostas a todos os tipos de acidentes que podem mesmo pôr em perigo as suas vidas. No gráfico seguinte indica-se o tipo de acidentes sofridos por estes intervenientes na banda desenhada.

No quadro 15 mostram-se as queimaduras de acordo com o momento em que a história se desenvolveu. Como já se observou, não há variações e verifica-se sempre que se trata de um recurso “acidental” comum.

No quadro 16 indica-se a causa da queimadura. Os utensílios do tabaco prevalecem sobre outros motivos. Os restantes quadros mostram causas de acidentes devidos a lesões eléctricas (quadro 17), ferimentos (quadro 18), explosões (quadro 19), intoxicações, excluindo-se as produzidos por clorofórmio (quadro 20) e as causadas por mordeduras e picadas de animais (quadro 21). Devido à extensa lista de razões causais, excluíram-se os acidentes com veículos de transporte e as produzidas por ataques de animais selvagens.

Situações ambientais extremas

Sobreviver por um longo período de tempo em condições ambientais extremas não é apenas um complexo desafio físico, mas também uma causa segura de exaustão emocional e psicológico. Os nossos heróis, além de terem sido salvos de atentados, pelotões de fuzilamento, sacrifícios, etc., sofreram as piores condições ambientais possíveis e sempre destas saíram airosamente. No quadro 22 correlaciona-se o nosso protagonista mais as outras personagens com estes ambientes insalubres.