Tintin no Congo – vinte e nove (fim)

A acção judicial movida pelo cidadão congolês Bienvenu Mbutu Montondo contra o álbum Tintin no Congo, que pedia a sua proibição devido a representações racistas, foi negada por um tribunal da Bélgica no início do mês de Fevereiro de 2012. O processo começara anos atrás, após décadas de críticas contra o álbum de Hergé.

Seguindo outras manifestações de apoio ao álbum, o tribunal decidiu que não havia intenção de racismo por parte de Hergé na sua obra. Além disso, ressaltou que o álbum foi criado numa época em que o ideário colonialista era muito forte, de forma que seria impossível que a BD não representasse o pensamento dominante.

O advogado de Mbutu, Ahmed L’Hedim, declarou ao jornal Guardian que iria apelar da decisão, e que seu cliente “vai seguir com o caso até onde puder“. Tretas…

O Tribunal de primeira Instância de Bruxelas acabou de concluir, afinal, aquilo que já (quase) toda a gente sabia, isto é, que Tintin no Congo não é uma obra racista, considerando que “face ao contexto da época, não havia intenção discriminatória da parte de Hergé”.

Terminou assim uma longa polémica que se arrastava desde 2007, quando -recorde-se!- o cidadão congolês Bienvenu Mbutu Montondo apresentou uma queixa contra a obra, publicada pela primeira vez em 1931, devido ao “racismo latente anti-congolês” que ela ainda provocava na sociedade belga.

Numa decisão com algo de salomónico, o tribunal considerou igualmente sem fundamento o pedido de indemnização “por procedimento temerário e vexatório” por parte de Montondo que entretanto tinha sido interposto pela Casterman, editora dos álbuns de Tintin, e pela Fundação Moulinsart, detentora dos direitos sobre a obra de Hergé.

Com esta decisão, de alguma forma, todos ficam satisfeitos:

  • A Casterman e a Moulinsart, porque viram reconhecida (e reforçada) a sua posição e pela publicidade extra que este caso lhes trouxe.

  • A justiça belga, por três motivos: porque deu uma boa imagem de si própria, mostrando que qualquer um pode pedir a sua intervenção e obtê-la; porque tomou a (única) decisão que o bom senso impunha; porque, desta forma, fechou a porta a (muitos) processos similares que, num futuro não muito distante, poderiam visar qualquer tipo de obra, independentemente da data e do contexto da sua criação
  • Finalmente, Bienvenu Mbutu Montondo porque, apesar de (naturalmente) derrotado teve direito aos seus 15 minutos (na verdade, bem mais do que isso) de fama (bacoca) a que todos (supostamente) temos direito.

Quando em Portugal, penosos, ainda se arrastam os lamentos politicamente correctos de quem protesta contra os contornos racistas, esclavagistas e colonialistas (!?) da simples designação do futuro Museu dos Descobrimentos, pareceu-me oportuna e pedagógica esta retrospectiva.

                                                                                 Por isso aqui ficou.

António Martinó de Azevedo Coutinho
Setembro 15, 2018

Tintin no Congo – vinte e oito

Dedicámos ao caso Tintin au Congo a atenção possível. Durante algumas semanas, trouxemos aqui toda a informação colhida em aturadas pesquisas assim como algumas reflexões sobre a problemática que envolveu uma séria, embora inoportuna e mal justificada, acusação de racismo.

Depois, acrescentou-se à série de textos iniciais um outro, que hoje se prolonga, a pretexto das mais recentes e quase definitivas decisões judiciais sobre o caso.

A 18 de Março último (2011), portanto há uns escassos quinze dias, o Tribunal de Primeira Instância de Bruxelas contou com a presença do Ministério Público, uma vez que se lidava com uma acusação de racismo, crime público.

A decisão, rigorosamente contrária às declaradas intenções da acusação, foi proferida no sentido de o Tribunal de Comércio ser considerado como competente para apreciar a contenda.

Bienvenu Montondo requerera a intervenção do Tribunal Penal Internacional, vendo este pedido ser desprezado pelos juízes, que decidiram favoravelmente às empresas Moulinsart S.A. e Casterman.

Sobre a pretensão dos acusadores quanto à necessidade destas empresas apresentarem os contratos que as ligam, a fim de ser averiguado qual o grau das suas respectivas responsabilidades na detenção dos direitos autorais da obra de Hergé, também o Ministério Público decidiu não dispor tal exigência de qualquer legitimidade.

Entre a indisfarçável frustração e o assumido conformismo, os autores do processo produziram declarações que mal esconderam a iminente e definitiva derrota das suas absurdas pretensões, ainda que dentro de um mês aconteça uma nova audiência.

O rumo do pleito tem-se inclinado de forma quase absoluta no sentido da desmontagem da absurda acusação, moldada em termos desfasados da realidade e do contexto hoje vividos.

A opinião autorizada que a propósito fora recentemente proferida por uma entidade congolesa oficial, a própria Ministra da Cultura, ajudou certamente essa diluição dos argumentos políticos artificialmente montados pelos acusadores.

Portanto, o advogado Berenboom e os seus mais directos colaboradores estão prestes a obter uma justa vitória sobre a impertinente e quase ridícula argumentação contrária. Pela minha parte, tendo desde sempre contestado a legitimidade do senhor Bienvenu e denunciado as contradições da sua absurda acusação, limito-me a achar que será feita justiça.

Como aliás bem merecem o autor e a sua obra.

António Martinó de Azevedo Coutinho
Segunda-feira, Abril 04, 2011

A BD vista por Carlos Gonçalves – cinquenta e sete

TINTIN NOS 80 ANOS EM PORTUGAL – IV

A revista “O Foguetão” que entretanto é lançada em paralelo com o “Cavaleiro Andante”, tenta uma inovação na publicação das histórias de “Tintin”. A aventura “Tintin no Tibet”, que se inicia no seu primeiro número (4/5/61), é reproduzida com os balões e cartuchos na sua língua original. No final de cada página e por meio de numeração, surgem as respectivas traduções. A continuação desta história, entretanto interrompida pelo desaparecimento de “O Foguetão”, passa para as páginas do “Cavaleiro Andante” e já em português, depois de apresentar um pequeno resumo das pranchas publicadas anteriormente. Dura dos nºs. 516 (18/11/61) ao 553 (4/8/62). Com a extinção desta revista, só teremos acesso a novas aventuras da nossa personagem na revista “Zorro”, que nascerá em substituição do “Cavaleiro Andante”.

O “Zorro” só publica uma única aventura a partir do seu nº. 26 (6/4/63) com “As “Jóias da Prima Dona”, que dura até ao nº. 87 (20/6/64). No entanto, no seu nº. 89 (20/6/64) e pela primeira vez em Portugal, aparecem as aventuras de “Jo, Zette et Jocko”.

Só voltaremos a apreciar as aventuras de “Tintin” em Portugal, numa nova revista que terá o seu nome, em 1968.

AS CAPAS DA REVISTA “O PAPAGAIO”

Desde o início das aventuras de “Tintin” na revista “O Papagaio” a partir do seu nº. 53, as capas da publicação salientavam quase sempre as actividades do nosso “herói”, destacando um outro facto das suas peripécias. Para tal, a revista servia-se, na maior parte das vezes, de uma ou outra vinheta pertencente à aventura em curso, para destacar tal evento. A composição da capa pertencia, de uma maneira geral, a qualquer um dos desenhadores de serviço na altura e que colaboravam na edição, ao ajudar Adolfo Simões Muller a criar cada número.

Mas uma vez, ou outra, embora esporadicamente, havia algum desenhador que se atrevia a criar uma capa para destacar a personagem. É o caso de José de Lemos que cria a capa do nº. 78, Arcindo Madeira a do nº. 95, o Júlio Resende a do nº. 105, Ruy Manso ocupa-se da capa do nº. 150 e volta de novo com a capa do nº. 227, Sérgio Luís é o desenhador da capa do nº. 251, Guy Manuel cria a do nº. 366, Alberto oferece a capa do nº. 426 e, finalmente, será Rodrigues Neves a trabalhar a capa do nº. 540. Todas elas, de uma maneira geral, são excelentes e salientam a qualidade gráfica com que sempre a revista se preocupou.

PEQUENA BIOGRAFIA DE HERGÉ

Hergé nasceu em 22 de Maio de 1907, em Etterbeek, perto de Bruxelas. Do nome de baptismo (Georges Remi), criou o pseudónimo com que assinaria as suas obras, invertendo as iniciais: R.G. (Hergé). Seu signo astrológico era o dos Gémeos, que o marcaria psicologicamente. De carácter compreensivo, indulgente, generoso mas reservado, curioso, ponderado, entusiasta mas prudente, meticuloso ao extremo, aberto à discussão, mas não polémico, gostava de pesar os prós e os contras…

1914/1916, Georges desenha nos cadernos escolares, já com “heróis” sem nome e histórias sem texto.

1919/1925, completa os seus estudos. Em 1925 entra para o jornal “Le XXe. Siècle” como empregado administrativo.

1926, vai para uma escola de desenho, por desejo dos seus pais. Em Julho de 1926 inicia as aventuras de “Totor, C.P. des Hannetons” na revista de escuteiros “Le Boy – Scout Belge”.

1918/1930, Georges é escuteiro.

1923/1930, Hergé durante estes anos cria imensas capas e muitas gravuras artísticas para livros e revistas.

1926/1927, faz o serviço militar, continuando a desenhar “Totor” e também algumas ilustrações para publicações de acção católica. Em 1927 volta para o jornal onde executa já ilustrações.

1928, como suplemento do jornal, sai na segunda-feira (dia 1 de Novembro), “Le Petit Vingtième”, destinado aos leitores mais jovens. No seu nº. 1 Hergé cria a história de “Les Aventures de Flup, Nénesse, Poussette et Cochonet”.

1929, a 10 de Janeiro sairão as aventuras de “Tintin”, em “Tintin au Pays des Soviets”, precisamente no nº. 11, daquele suplemento.

1930, a 23 de Janeiro dá-se a primeira aparição de “Quick et Flupke” no mesmo suplemento, dos quais seriam criados 310 episódios curtos. A 28 de Maio inicia a aventura “Tintin au Congo”.

1930/1945, em paralelo com as suas actividades ligadas à Banda Desenhada, Hergé cria centenas de cartões de Natal e da Páscoa, capas para livros, gravuras e ilustrações para a Publicidade.

1931, será o lançamento de “Les Aventures de Tintin, repórter en Amerique”. É editado o álbum “Tintin au Congo”.

1932, a 20 de Julho casa-se. Entretanto lança a aventura “Les Cigarres du Pharaon”.

1934, é a vez da história “Le Lótus Blue”. Um jovem estudante chinês, chamado Tchang Tchong-Jen, com quem Hergé fará amizade, será quem lhe irá fornecer os elementos essenciais sobre o seu país de origem, para que a história se desenrole dentro dos limites da veracidade. Quando esta história seria publicada a cores, um episódio com um “gangster” é retirado. Entretanto Tchang desaparece da vida de Hergé mais tarde, pois entretanto regressa à China. Também neste ano dá-se a aparição de “Popol et Virginie Chez les Lapinos”, nas páginas de “Le Petit Vingtième”. Esta história será republicada na revista “Tintin” em 1948 a cores e em álbum em 1952.                 

1935, cria “Chez Les Arrumbayas”, cujo título final ficaria como ”L’Oreille Cassé”. Um sonho de “Tintin”, na versão a preto e branco, será eliminado na versão a cores.

1936, a 19 de Janeiro nascem as peripécias de “Les Aventures de “Jo, Zette et Jocko”, para a revista “Coeurs Vaillants”. Ao longo dos anos serão criadas 5 aventuras com estas personagens, de 1936/37 as duas primeiras e de 1937/39 as duas seguintes e a última, que seria interrompida durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1954 será continuada por Hergé, desta vez com a colaboração de Jacques Martin.

                                                                                                             Carlos Gonçalves

Este “capítulo” de TINTIN NOS 80 ANOS EM PORTUGAL devia ter sido aqui publicado na ordem devida, em 22 de Agosto. Um lamentável erro de planificação deixou-o para trás…
Com um pedido de desculpas ao autor e aos leitores, aqui fica a rectificação. Na próxima semana será publicado o último “capítulo” desta série.

Tintin no Congo – vinte e sete

Após os previstos 26 “capítulos” iniciais da longa e exaustiva saga Tintin au Congo impunha-se uma espécie de ponto da situação.

As últimas linhas do último texto datam de há cerca de quatro meses. A sua actualização justifica-se até pela singular coincidência de, no próprio dia da edição do “capítulo” final neste blog, ter sido efectivada em Bruxelas mais uma audiência do longo caso judicial que motivou o presente trabalho.

Quem, entre nós, considere morosa a justiça nacional pode encontrar aqui uma óbvia semelhança. De facto, a sessão judicial da passada segunda-feira quase nada adiantou. Considerado incompetente pela defesa (Sociedade Moulinsart), uma vez que o caso deve ser entendido como um problema comercial -a probição de venda de um bem-, o tribunal adiou a decisão para o próximo dia 8 de Dezembro. Por outro lado, um advogado do senhor Bienvenu, Ahmed Hedim, afinou a sua acusação, ao dizer que não se desejava o julgamento de Hergé mas o de uma época onde o racismo estava enraizado nas mentalidades…

Que se saiba, tal tarefa tem vindo a ser democrática e criteriosamente realizada, por intermédio dos historiadores, dos politólogos, dos filósofos e de outros autorizados especialistas.

Um dos defensores da Moulinsart, o nosso já “conhecido” Alain Berenboom, aproveitou a ocasião para afirmar que não podia aceitar o racismo mas que, em complemento, achava igualmente terrível alguém exigir para tanto um “auto-de-fé” de livros…

Portanto, quanto à epopeia judicial em curso, nada se pode prever sobre um desfecho definitivo nem, sobretudo, quanto à sua eventual data.

Porém, neste intervalo e muito recentemente, aconteceu um facto alusivo a esta problemática cuja importância não pode ser minimizada, até pela circunstância de o senhor Bienvenu constantemente salientar que, no moderno e independente Congo, o álbum “maldito” tem vindo a ser devidamente avaliado e criticado, ao contrário do sucedido nos ingénuos tempos coloniais.

Ora aconteceu entretanto esse episódio altamente significativo, protagonizado pela actual ministra da Cultura e das Artes da República Democrática do Congo, Jeannette Kavira Mapeera.

No início do passado mês de Outubro de 2010, no contexto da inauguração do primeiro festival da BD congolesa, em Kinshasa, a ministra foi interpelada por um jornalista da RFI a propósito do polémico caso de Tintin no Congo despoletado na Bélgica.

Jeanette Mapeera começou dizendo que nada naquele processo judicial se justificava. Depois, contrariando frontalmente a falaciosa argumentação do senhor Bienvenu, declarou, expressamente, que “para o governo congolês, Tintin no Congo é uma obra-prima”.

E não ficou por aqui, pois acrescentaria: “Nos tempos antigos, quanto este livro estava sendo escrito e o seu criador se inspirava, realmente os congoleses não conseguiam falar francês. Ainda hoje, não são os congoleses que falam o melhor francês”. A ministra assim desfez, com a autoridade que o seu cargo político lhe confere, os fundamentos da pseudo-caricatura racial onde assenta boa parte da argumentação do senhor Bienvenu…

Concretamente a propósito da ultra-famosa cena do comboio descarrilado onde Tintin e Milou aparecem criticando os nativos pela sua preguiça, Jeannnette Mapeera contrapôs: “Naquela época, descrita na obra, realmente, para incitar os congoleses ao trabalho, ou para nele os incentivar, tinha de se usar a vara. Ainda hoje, em algumas situações, para enviar as crianças ou os adultos ao campo, têm de ser usados métodos fortes”.

E terminou as suas declarações, a que não pode ser recusado um certo tom polémico, de forma clara e determinada: “Sentimos que este é um julgamento que não envolve o governo congolês”.

Confesso que, para apoio da tese pessoal aqui expressa no decurso dos últimos meses, eu não poderia aspirar a uma mais vigorosa e autorizada confirmação, ainda por cima com uma chancela oficial do mais alto nível.

As inequívocas declarações da ministra congolesa da Cultura e das Artes, amplamente difundidas pelas grandes agências informativas, deveriam ser bastantes para anular as aleivosias e os exageros onde assentou a absurda lógica das intempestivas acusações lançadas sobre Tintin no Congo.

Seja qual for o resultado das diligências judiciais, que ameaçam eternizar-se, o seu veredicto foi já assinado por Jeannette Kavira Mapeera.

Reconheço sem qualquer esforço que, pessoalmente, eu não o faria melhor.

Aguardo que o senhor Bienvenu, com honesta e democrática humildade, aceite este valente puxão de orelhas.

António Martinó de Azevedo Coutinho
Segunda-feira, Novembro 29, 2010

Tintin no Congo – vinte e seis

Tintin no Congo. Há 25 pequenas crónicas atrás, iniciava neste blog a tentativa pessoal de analisar a história com alguma profundidade, nos termos que então esbocei, como admirador de Hergé mas, simultaneamente, sem perder de vista a independência possível assim como o necessário e permanente sentido crítico.

Coerentemente, é na manutenção do respeito por esta forma de estar que decidi encerrar agora o dossier. Em boa verdade, sinto que muito mais havia a dizer e, por isso, não recuso a hipótese de um dia voltar ao tema.

O pretexto próximo deste trabalho, que ocupou alguns meses de investigação, de reflexão e de produção, foi a acusação de racismo e xenofobia subscrita pelo cidadão congolês Bienvenu Mbutu Mondondo contra o álbum. No momento em que estas linhas são compostas, pelos finais de Julho de 2010, não se pode prever com segurança como vai decorrer a fase seguinte do processo judicial prevista para Setembro deste ano, antes ainda da divulgação pública deste “epílogo”.

Porém, não é difícil admitir que o caso se arrastará, nesta instância ou noutra, mantendo-se em aberto a hipótese de uma declaração de incompetência do próprio tribunal. Seja qual for o resultado final do pleito -se algum dia isso acontecer!?-, poderemos desde já concluir que desta agitação de consciências e deste confronto de posições restarão algumas consequências positivas. Uma delas, plenamente atingida, foi a discussão dos conteúdos, das formas, dos objectivos, das declaradas ou secretas intenções de uma obra literária, por mero acaso um álbum de banda desenhada com a provecta idade de umas largas dezenas de anos editoriais. Outra, por inerência mas não menos importante, foi a abordagem ideológica e crítica a um fenómeno sócio-político-histórico-cultural -o racismo e a discriminação- que convém, pedagogicamente, nunca esquecer, como um eco do Passado com resíduos no Presente, tornando-o uma lição positiva para o Futuro.

O álbum não foi esgotado nas suas hipóteses de análise crítica, e disso quero deixar na despedida alguns breves exemplos.

Um é de sinal aparentemente contraditório, colhido como quase sempre aconteceu na perspectiva de uma evolução entre as versões mais significativas, a de 1930 e a de 1946.

Refere um episódio da fase da viagem no paquete, quando Milou é retirado da água pela tripulação de uma pequena lancha. Enquanto na versão original os marinheiros são brancos, estes tornam-se negros a quando da reformulação posterior. A primeira explicação apontaria para conceder aos negros uma louvável intervenção -o salvamento do “náufrago”- anteriormente atribuída aos brancos. Assim, esta mudança apontaria para uma ausência de qualquer sinal de discriminação racial.

Vejamos agora a mesmíssima alteração por um outro prisma. Sendo a marinhagem do paquete -a base da sua pirâmide hierárquica- constituída originariamente por negros (o camareiro, o artesão, o marinheiro…) e por também por brancos (os tripulantes da lancha), então por que mostrar agora que apenas negros passam a integrar este “primário” grupo? Assim, esta mudança apontaria para a introdução de um intencional traço de discriminação racial.

O outro exemplo, também uma vinheta e a sua “evolução”, diz respeito à condução do gang de Dawson sob custódia policial. Na versão original, um dos soldados negros que escoltam os brancos, diz: “Isto é bom! Os senhores maus já não farão mal a Tintin… Vamos levá-los para a prisão…”

Depois da “revisão”, Hergé pô-lo a dizer: “Isto é bom!… Os maus Brancos vão todos para a prisão!…”

Aqui e agora não há o risco de qualquer equívoco interpretativo. A mudança assinala, de forma indiscutível, a ausência de toda e qualquer discriminação racial em Hergé, na auto-avaliação das suas personagens, colocando negros (bons) a deter brancos (maus) e, sobretudo, realçando esta circunstância na nova fala do agente policial. Agora, a fundamental importância daquela detenção não será mais a de que os senhores maus já não farão maldades a Tintin, mas a de que os Brancos maus (assinalo deliberadamente as palavras!) vão todos para a prisão…

Uma leitura mais atenta e menos estereotipada do álbum talvez pudesse ter conduzido o senhor Bienvenu a outra decisão, oferecendo, aliviado, a história aos seus sobrinhos. Concedo-lhe, porém, o benefício da dúvida: quatro dias são um prazo demasiado curto para uma reflexão isenta e, portanto, honesta…

Um terceira -e definitiva- alusão ao álbum remete-nos para uma área interessantíssima, pouco explorada no que ficou atrás exposto. Refiro os aspectos puramente culturais da história, sobretudo quando tocam raízes tradicionais congolesas. Um excelente exemplo a propósito desta temática é o da canção entoada pelos jovens remadores da piroga que conduz Tintin e o missionário, bem reveladora do apreço que Hergé sempre manifestou pelas suas fontes.

Correspondendo a uma canção autêntica do folclore tradicional congolês, no dialecto lingala, é possível descodificar o seu interessante significado e recordar as suas ligações ao imaginário da ficção local, na lenda que lhe está associada. Aqui fica, portanto, a sugestão de novas e prometedoras análises de um álbum de grande complexidade e de inegável interesse.

Tintin e Hergé despertaram um interesse autêntico, antecipando aquele que o filme de Spielberg, a estrear no próximo ano, vai despoletar. É possível perceber a dimensão quase universal que a presente querela criou, nomeadamente em meios culturais de nível muito significativo. Foram publicados dezenas de artigos, efectuadas inúmeras entrevistas, montadas muitas reportagens, realizadas bastantes mesas redondas, tudo sobre o momentoso caso. Naturalmente, as suas sequelas manter-se-ão, subirão de tom em momentos oportunos e torna-se difícil adivinhar-lhes o termo. Como exemplo do real interesse despertado, destaca-se uma revista de imprensa televisionada sobre o processo de Tintin no Congo, organizada pela France 3, onde participaram, entre outras personalidades, o actor Michel Piccoli e o sociólogo Edgar Morin. Este último é, apenas, um dos mais respeitados pensadores mundiais do nosso tempo.

Vale por isso a pena reflectir sobre a posição serena e equilibrada exposta por Edgar Morin sobre o polémico processo.

E vale também a pena considerar o presente caso como paradigmático quanto à crescente importância concedida à forma e ao conteúdo de grandes obras, em domínios da ficção -literatura, cinema, teatro, pintura, banda desenhada, etc.- no seu encontro (ou recontro!?) com os direitos humanos.

Por mim, esforcei-me por mostrar como e porque me senti impelido a participar no debate.

Repito-me: Tintin no Congo? Sim! E para sempre.

António Martinó de Azevedo Coutinho
Segunda-feira, Novembro 22, 2010

Tintin no Congo – vinte e cinco

A Sociedade Moulinsart não dorme em serviço. Recentemente, acrescentou na sua página (tintin.com) uma outra secção, menos elaborada talvez que a dedicada aos cadernos de viagem, porém mais directa e incisiva no que respeita à legítima defesa da sua ofendida honra.

Situado nos destaques mais em evidência, Tintin no Congo – álbum à lupa merece uma visita. Elaborado com inteligência e com sensibilidade, este trabalho foi concebido para complementar e actualizar a informação contida no caderno de viagem. O seu conteúdo, sintético e utilitário, responde com controlada firmeza e uma certa ironia às torrenciais acusações em curso.

A introdução é desde logo um desafio à consulta: “Estamos a 5 de Junho de 1930. Os leitores do Petit Vingtième são prevenidos: acabados de chegar da União Soviética, Tintin e Milou embarcam para o Congo Belga. Textos de sabor heróico anunciam o facto; viram mesmo Tintin escolher o seu equipamento na secção Congo dos grandes armazéns Au Bon Marché...”

O enunciado dos títulos que encimam as sucessivas pranchas (apenas 16 versus as outras 96!) é desde logo suficiente para denunciar intenções e conteúdos.

Começa por Um álbum inesperado e continua em O Congo antes da América. Pode aqui ler-se, por exemplo: “Mas há uma situação tipicamente belga bem mais urgente, aos olhos do director do Vingtième Siécle, o padre Norbert Wallez: um pouco de entusiasmo aos jovens belgas para neles despertar uma vocação colonial.

A preparação dos leitores, Porque Hergé envia Tintin ao Congo e Tintin – Promotor do Congo são os títulos seguintes, claramente demonstrativos das intenções desmistificadoras dos responsáveis da Sociedade Moulinsart, perante interpretações preconceituosas postas a correr.

Depois, dá-se conta das diligências de Hergé desenvolvidas no sentido de se documentar e informar com a justeza possível sobre uma realidade que não conhecia: Hergé acumula documentação e Um Homem-Leopardo no Museu!

Leitores impacientes! parece denunciar o latente entusiasmo patenteado pelos jovens belgas perante o anúncio da viagem de Tintin. Nada de mais errado, pois o referente destes sentimentos é um apreciável conjunto de jovens congoleses, ao tempo impacientes pela visita de Tintin à sua terra! E o “capítulo” cita alguns testemunhos da época: a carta de um missionário que dava conta do enorme interesse dos seus alunos que, levando mesmo a sério a visita, convidavam Tintin a passar pela sua aldeia; outro escrito, da autoria de um jovem congolês, Kyola Kongo, dominada por um ingénuo estilo (!?) que se tornaria modelo ortográfico para Hergé, o que alguns “amargos de boca” lhe causou… e causa ainda.

Por constituir um “clássico”, aliás já transcrito por Philippe Goddin na obra Hergé, Lignes de Vie (ed. Moulinsart, 2007), aqui se reproduz (sic!) a curta carta de Kyola Kongo:

Mossieu, moi piti noir est content beaucou li mien petit ami tintin bonne santé. Moi contan li tintin venir ici. Nous pas manger li. C’est li avoir beaucou manger ici. Moi fini, Kyola.”

Apenas se junta um comentário: não foi certamente Hergé quem inventou o “falar à preto”.

Continuando a breve passagem por Tintin no Congo – álbum à lupa, vem a seguir A Vinheta controversa, uma sumária análise à cena inicial da aula onde a ausente pátria, a Bélgica, acabaria “transfigurada” na adição 2+2. Ligada a esta sequência, segue-se Um Significado escondido, alusão à metafórica frase A Bélgica é o que se chama… um leopardo!, referência cultural que Hergé teria empregado com intenções que ainda hoje suscitam uma legítima dúvida. Sem resposta…

Al Capone no Congo?- eis o título final desta lúcida e descomplexada desmontagem de mitos, deixando uma explicação para a alusão à presença de aventureiros e traficantes americanos no Congo, bem real, sobretudo quando se evocam os tempos do Katanga, em particular no que respeita aos diamantes e, mais tarde, ao urânio.

Palavras derradeiras: “… foi também assim a aventura colonial. E, mais uma vez, Hergé foi de tudo isso um incisivo observador.”

Ficam depois, dispersos, uns pormenores secundários: traduções do título numa dezena e meia de línguas e dialectos regionais ou reproduções das capas originais. E assim acaba esta oportuna secção de tintin.com.

O conjunto dos dois trabalhos, de fácil consulta, corresponde a uma posição oficial da Sociedade Moulinsart, cuja legitimidade ninguém se atreverá -suponho- a contestar. A sua reprodução parcial que, com a devida vénia, aqui deixo pretende constituir um convite/desafio à uma atenta leitura, na origem e na íntegra, e a uma posterior discussão a propósito.

António Martinó de Azevedo Coutinho
Segunda-feira, Novembro 15, 2010