Regresso à Ilha Negra

A primeira e única vez que lá estive foi há muito, muito tempo.

Era ainda criança, logo depois do bibe como nesse tempo se usava, e sonhava então todos os sonhos do mundo. E lembro-me de como tudo aconteceu, embora vão passados bem mais de três quartos de século. Muito, muito tempo…

Foi num sótão mágico que encontrei e conheci Tintin, meu companheiro fiel pela vida fora. Era a morada de um velho amigo da família, que frequentávamos, com passagens secretas e outros insondáveis mistérios. Nem Enid Blyton inventaria uma assim, juro!

Tinha um pátio em forma de claustro monacal, com salas de pedra e penumbra que tínhamos medo de invadir e um falso armário na cozinha, onde começava um túnel com estreita escadaria que ia dar a uma viela próxima…

Mas o local mais interessante do casarão, carregado de surpresas, era mesmo o sótão, apinhado de jornais entre outras atracções ali arrumadas. Estava lá o Papagaio.

O Papagaio era uma revista colorida cheia de ilustrações, que sobretudo me fascinavam até porque ainda eu não sabia decifrar os códigos do soletrar e do ler. As histórias do Papagaio também não podiam contar-me tudo até porque tinha de adivinhar as suas continuações entre as desordenadas folhas soltas dos originais a que tinham pertencido. Tudo ali era um desafio…

Preenchia na medida do impossível a passagem do continua no próximo número ao continuado do número anterior, entre lapsos e falhas, tudo desencontrado sem outro remédio que não fosse a minha imaginação. Foi assim que acompanhei Tim-Tim -nessa tradução lusitana mais tarde percebida- por longes terras, pela América do Norte de Al Capone, pelo enigmático Oriente, por Angola ainda nossa e, sobretudo, pela Ilha Negra. A Ilha Negra!

A Ilha Negra até era o sítio mais próximo, aqui mesmo na Europa,  concretamente na Inglaterra. Para ser preciso e rigoroso, ficava na Escócia, terra de castelos misteriosos e de monstros lendários.

Por lá acompanhei o meu amigo mais o Rom-Rom, fiel cão que só muito depois reconheceria como Milou, o famigerado dr. Silva (ou Müller!?), os dois polícias secretos e por aí fora. A tonalidade etnográfica escocesa, para além do kilt, do scotch whisky ou do castelo mal assombrado, incluía o monstro tradicional. Nessa oportunidade, talvez por mero acaso, não foi Nessie do Loch mas o gorila da Ilha Negra.

Quando estive na Ilha Negra eu usava ainda calças à golf e boné de pala, tal como Tintin, meu amigo desde então. Ambos crescemos como seria inevitável. Mas foi pena, porque gostaria de me ter mantido como então, nesses heróicos tempos com fumos de guerra. Ele correu o mundo, a Rússia e toda a Europa, a China, as Américas, a África mais a Oceânia e até foi à Lua -imagine-se!- enquanto eu permaneci agarrado às raízes domésticas.

E agora, muitos anos depois, vou lá voltar, ao ponto de encontro, como num eterno retorno.

Tenho a certeza, absoluta, de que o Tintin estará à minha espera. Não será no mágico sótão portalegrense onde nos conhecemos, mas nas escocesas margens do Loch Ness. Temos tanto, tanto, para conversar!

E -quem sabe?- talvez Nessie nos queira fazer companhia.

António

Banda Desenhada e Maçonaria – um

Um amigo que muito prezo enviou-se há dias um precioso documento. Trata-se da reprodução de um dossier publicado numa revista francesa que eu desconhecia em absoluto, abordando a temática das relações da banda desenhada com a Maçonaria.

Ainda que a sua introdução se me afigure algo redundante, o texto tem o maior interesse e dispõe de rara actualidade. A Maçonaria, na medida em que perdeu a maior parte do seu secretismo, tornou-se um tema quase público que preenche frequentemente as colunas sociais. Os seus problemas, os interesses a ela ligados, as lutas internas pelo poder e outras questões similares têm sido alvo de uma generalizada curiosidade.

Franc-maçonnerie magazine é uma revista bimestral de notícias, francesa, dedicada à Maçonaria. Sucede à revista Initiations fundada em 2004, pretendendo ser independente de qualquer obediência maçónica.

 A revista nasceu da actual vontade de abertura e modernismo por parte dos maçons de todas as obediências. Também é vendido livremente e não apenas por assinatura como a sua antecessora. É portanto destinada tanto aos maçons como ao público em geral – o profano – que quer conhecer a Maçonaria, a sua história, os seus símbolos e o seu lugar na sociedade de hoje

Assim, os temas propostos e tratados nos seus artigos pretendem constituir um debate de ideias sobre a sociedade em geral, a história da Maçonaria, assuntos simbólicos ou da Maçonaria em geral, tanto na França como na Europa.

O seu dossierMaçonaria em quadradinhos” é sazonal. Como Jean-Marc Vésinet diz no seu editorial, neste Verão, é proposta uma jornada pela nona arte: o mundo da BD parece ter encontrado na Maçonaria uma fonte inesgotável de inspiração. O dossier, escrito por Dominique Alain Freymond, está, naturalmente, interessado em Tintin, mas também em Didier Convard, Hugo Pratt e alguns outros …

O breve arquivo inicial é seguido por uma investigação aprofundada de Bernard Portevin sobre as viagens alquímicas de Hergé. Hergé, que -não o esqueçamos, declarou em 1977: “Je crois qu’il y a moyen, à propos de Tintin, d’aller plus loin qu’on ne l’a fait jusqu’à présent. Vous savez, et je parle de cela avec un réel détachement, quand une chose comme celle-là a du succès pendant si longtemps, c’est qu’il y a une raison.

(Num aparte, cada vez mais me convenço de que a verdadeira -e talvez única!- língua de cultura é a francesa, ficando a inglesa reservada à banca e à informática…)

Quando o dossierUn 9.e art royal – La franc-maçonnerie dans la bande dessinée francophone” começa por lembrar que a BD há muito deixou as revistas infantis para se dirigir a um público adulto apenas repete um já estafado lugar-comum.

Também qualquer vulgar iniciado nas coisas dos quadradinhos conhece, mais ou menos, Fábula de Veneza, de Hugo Pratt. O dossier deixa sobre os episódios pessoais e sociais conexos alguns desgarrados apontamentos, desaproveitando uma excelente oportunidade para aprofundar tão interessante questão.

Por muito bem que um autor de BD não maçon se documente sobre a Maçonaria, ao abordar esta instituição nas suas obras muito da autêntica realidade lhe escapará, cometendo então inevitáveis imprecisões. Isso aconteceu também com Hugo Pratt e a sua -apesar de tudo excelente- Fábula de Veneza. No fundo, esta obra transmite-nos um pouco da visão que o mundo profano tem da Maçonaria. Uma visão em que se encontram confundidos alguns conceitos correctos, mas também tão genéricos que muitos se aplicam a quase todas as organizações, misturados com fantasias e erros.

Como simples exemplo, releva-se de imediato a indumentária dos maçons, vestidos de modo a ocultarem totalmente a sua identificação. É uma representação icónica que não corresponde à realidade, visto não se usarem capuzes nas sessões maçónicas. Esta representação é motivada pela errada conotação da Maçonaria como sociedade secreta, quase no estilo da Klu Klux Klan…

A suprema contradição -ou talvez não!- corresponde ao facto de Hugo Pratt ter sido maçon, como o próprio dossier confirma. Iniciado em 1976 na loja Hermès Trismégiste, de Veneza, terá dela sido assíduo frequentador durante uma década. Depois, vivendo em Paris e na Suíça, a sua presença tornou-se mais esporádica.

Relatam alguns seus íntimos que ele nunca perderia um vincado gosto pelas organizações esotéricas, pelas manias do segredo, pelos elementos totémicos e pelos objectos votivos, assim como pelo culto vudu.

Creio que o relato ficcional gráfico de que Hugo Pratt foi um dos mais qualificados praticantes justifica todas as aparentes contradições contidas (ou cometidas!) em Fábula de Veneza, uma obra datada precisamente de 1977, portanto criada numa época de intensa militância maçónica do autor.

Onde o dossier acrescenta indiscutível material informativo com maior grau de ineditismo é nas referências à obra de Didier Convard. Também a relação das oito relações ou aproximações da Maçonaria com a BD tem imenso interesse.

Les Voyages alchimiques d’Hergé significa -pessoalmente- o maior contributo cultural que esta abordagem contém. Mais uma vez, a obra do controverso autor presta-se a uma análise muito específica, carregada de pistas quase inesgotáveis. As aventuras de Tintin continuam um material disponível, desafio autêntico a todas as análises, como ficou provado com a recente abordagem sob o ponto de vista clínico (“Tintin e a Medicina“, dossier aqui apresentado), agora confirmado neste estudo “alquímico”…

Por tudo o que encerra, sobretudo por aquilo que promete, o curioso e muito interessante contributo que Franc-maçonnerie magazine nos traz deve ser saudado como mais uma confirmação da crescente importância socio-cultural dos quadradinhos.

Tudo isto justifica a expressão sincera da minha gratidão para com o amigo que se lembrou de me fazer chegar este excelente e oportuno documento.

Partilho-o, hoje e amanhã, com os leitores do Largo dos Correios nele interessados.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Hergé, Tintin e a Medicina – vinte e quatro (fim)

Termina-se hoje esta já longa série com a transcrição das Conclusões com que o médico pediatra espanhol dr. Guillermo Álvarez Calatuyd, especialista em gastroenterologia e nutrição, concluiu o seu original e interessante trabalho Hergé, Tintin e a Medicina, tese de doutoramento em Medicina, datada de 2015.

Como procurei mostrar, trata-se de uma obra meritória original, onde foi feita a análise  exaustiva das aventuras de Tintin sob uma perspectiva rigorosamente clínica.

Com a saudação devida ao autor, aqui ficam as suas:

CONCLUSÕES

  1. Hergé escreveu e desenhou durante quase seis décadas uma série de álbuns de aventuras bem documentadas na abordagem a questões relativas à medicina e à saúde, utilizando adequadamente tanto a patologia como o conhecimento médico existente nos momentos referidos na sua obra.
  2. Na abordagem que fez aos hábitos de saúde, alguns prejudiciais em várias das suas personagens e inapropriados, hoje em dia, para o público jovem a que estão destinadas as suas histórias, estes estão relacionados com a época em que foram referidos. Ainda assim, foi fiel aos valores morais que sempre teve presentes desde o momento em que assumiu com total responsabilidade que os destinatários naturais das suas criações eram crianças e jovens.
  3. Hergé, geralmente, trata com respeito a profissão médica e outros profissionais de saúde e, apenas nos casos em que parece que tal consideração é desdenhosa, como no que respeita aos psiquiatras, isso está mais relacionado com a avaliação estereotipada geralmente feita nos quadradinhos.
  4. É um artista inovador e à frente do seu tempo. Isto é amplamente demonstrado no campo da Ciência, tema desenvolvido com amplitude e detalhe nas aventuras de Tintin. Antecipa descobertas ou utiliza as mais recentes. Rigorosamente actualizado sobre todas as questões abordadas, apesar da época em que viveu, também mostrou o seu interesse pelo campo da Medicina.
  5. Hergé cresceu como artista e como ser humano à medida que foi desenvolvendo os sucessivos álbuns. De um grafismo elementar e de uma ideologia simplista, desde visões reducionistas e superficiais da realidade, o artista belga evoluiu até oferecer obras complexas de ficção excepcionalmente bem desenhadas e documentadas que disponibilizavam uma visão plena de matizes sobre o mundo que nos rodeia.
  6. Além das suspeitas psicanalíticas na intimidade de Hergé, a sua vida agitada e os seus relacionamentos pessoais e familiares com a doença mental podem ter algo a ver com a sua obra, onde está reflectida a insegurança do autor, significativamente influenciado pelos própiros problemas psicopatológicos e pelos do seu contexto.
  7. Embora tenha sido acusado de ser misógino, conservador e racista, assinalá-lo não equivale a um julgamento negativo do autor, que desenhou o seu último álbum completo há quase quarenta anos, e muito menos teria de ser tomado em consideração como exigência para que o seu trabalho fosse censurado. As obras artísticas e literárias devem ser julgadas ​​em seu contexto cultural e histórico. Em particular, os quadradinhos são expoentes da cultura e do momento histórico em que foram elaborados.
  8. As suas aventuras exemplificam e difundem estilos de vida que, embora tendo decorrido quase cem anos desde a primeira, ainda são válidos para as crianças de hoje, tais como a amizade, a honradez, a ética profissional, o perdão e a justiça. Apesar de sabermos que algumas de suas atitudes são vistas, a partir de uma perspectiva do século XXI, como obsoletas, isso não impede que Tintin possa ser uma referência útil para incentivar uma determinada atitude perante a vida, sabendo enfrentar problemas e partilhar valores como a amizade ou a fidelidade.
  9. A validade do Tintin e dos seus companheiros, traduzida por traços e cores marcantes, é indiscutível: as histórias de Hergé foram traduzidas em quase uma centena de línguas e dialectos e já vendeu mais de duzentos milhões de exemplares. As suas aventuras continuam a despertar paixões: mais reeditadas do que nunca, inspiram artistas, escritores, produtores e realizadores de cinema. Tintin encarna valores universais com os quais todos se podem identificar.
  10. Os milhões de leitores de várias gerações das aventuras de Tintin sempre aprenderam história, geografia e ciências com elas. As descrições de doenças, médicos e estilo de vida pareciam perdidas na memória de todos. Acreditamos que é justo prestar uma pequena homenagem a um autor que sempre mostrou grande interesse e dedicação pela Medicina na sua obra, em detalhes apenas apercebidos pelos médicos nos últimos anos.

Hergé, Tintin e a Medicina – vinte e três

A parte mais substancial da interessante tese de doutoramento que temos vindo a sumariar diz respeito à discussão da sua componente técnica, isto é, da análise relativa à Medicina. São cerca de oitenta páginas densas, repletas de informação específica, com enorme interesse para a classe médica, porém de reduzido alcance em termos de banda desenhada propriamente dita.

Por isso, decidi passar em claro tal componente, uma vez que aqui procurei partilhar os conteúdos mais próximos do universo dos quadradinhos e dos seus heróis, neste caso Tintin e companheiros.

No entanto, aqui fica uma breve súmula dos títulos relativos aos capítulos deliberadamente “ignorados”, sem que tal represente qualquer sinal de menosprezo pelo excelente trabalho do autor. A quem se interesse pelo seu conhecimento integral recomenda-se a pesquisa do trabalho de que existe uma versão em PDF disponível na Internet.

Patologia – Doenças descritas e aludidas – Patologia infecciosa – Psitacose – Peste bubónica – Escarlatina – Raiva – Constipações, resfriados e gripe – Epidemia misteriosa: sono letárgico – Doenças dos sentidos – Lipotimias – Patologia diversa – Desculpas e alusões – Outras doenças descritas – Situações de perda de consciência. Traumatismos – Amnésia pós-traumática –  Acidentes sofridos pelas personagens – Acidentes com veículos motorizados – Explosões – Picadelas, mordeduras e ataques por animais – Feridas – Queimaduras – Lesões por electricidade – Intoxicações – Outros acidentes sofridos – Situações ambientais extremas – Sobreviver na montanha – O deserto – O mar – O espaço – Os vulcões.

Doentes e médicos – Os doentes – Pacientes psiquiátricos – Outros doentes – Tintin hospitalizado

Os médicos na obra de Hergé – Médicos que se mencionam – Dr. da Marinha Belga – Dr. Finney – Director do manicómio indu – Professor Se-Yeng – Dr. Eugénio Triboulet – Médico do General Alcázar – Médicos da Ilha Negra – Doutor Müller – Dr. Otto Schulze – Dr. Simón – Eminentes médicos da clínica onde são atendidos os sábios – Médico índio – Médico do barco – Médico do Hospital de Wadesdah – Dr. P. Grande – Dr. Rótulo, traumatólogo (osteólogo) – Médico de cabeceira do capitão em Moulinsart – Dr. Krollspell.

Alusões à profissão de médico.

A loucura e os psiquiatras na obra de Hergé.

Instituições e pessoal sanitário – Hospitais e centros sanitários – Manicómio de Rawhaipoutalah – Hospital inglês da Ilha Negra – Clínica onde são atendidos os sábios das 7 bolas de cristal – Hospital de Wadesdah – Centro sanitário da base aeroespacial – Outros centros sanitários mencionados: Hospital de Jacarta, Hospital missionário da aldeia do Congo, Manicómio do Dr. Müller em Sussex, Hospital suíço, Hospital psiquiátrico de Nova Deli. – Pessoal e material sanitário.

Farmacologia – Clorofórmio – Quinino – Aspirinas adulteradas – Sais de amoníaco – Substâncias e remédios mágicos – Soro da verdade – Pílula antialcoólica – Remédios caseiros – Adesivo – Outros medicamentos mencionados.

Medicina primitiva.

Medicinas alternativas (telepatia, superstição…).

Hábitos de vida – Estilo de uma vida saudável – A alimentação – Consumo de álcool – Tintin – Milou – O capitão Haddock e o álcool – Hábito tabágico – Drogas.

Natureza humana – A morte e o suicídio – Amor e sexualidade – Infância – Os brinquedos – Maus tratos infantis.

A vida e a obra de Hergé – O segredo de Hergé.

Valor educativo e vigência.

Curiosamente, esta parte é a única em toda a obra onde surgem reproduções de algumas vinhetas dos álbuns, rigorosamente limitadas a 10, segundo expressa e muito restritiva autorização da Moulinsart.

Com as interessantes “Conclusões” traçadas pelo Dr. Guillermo Álvarez Calatayud findaremos no próximo capítulo esta parcial recensão de um notável trabalho onde se abordou uma visão muito especial das Aventuras de Tintin, de Hergé.

Hergé, Tintin e a Medicina – vinte e dois

Natureza humana

Apesar de se tratar de histórias em princípio criadas para as crianças há várias referências a temas considerados quanto ao público jovem como a morte e o suicídio, o que está contido no quadro 42. As três personagens principais são os que mais partilham estas dolorosas e reflectidas experiências, como é mostrado no quadro 43.

As situações de medo vividas pelas personagens das aventuras de Tintin são sumariadas no quadro 44.

Deve-se considerar o cachorro Milou como uma personagem dotada de “sentimentos” quase humanos pois sente, sofre e padece de fome muito para além do seu instinto animal. Na verdade, a sua “inteligência” salva em mais de uma situação difícil Tintin e o capitão. Lembre-se que nos primeiros álbuns Milou mantinha certo diálogo oral com Tintin. O amadurecimento da série e a aparição de Haddock minimizaram o seu papel, mas nunca o sentido comum deste “Sancho Pança” das aventuras de Tintin.

Fenómenos físicos e “forças ocultas”

Hergé gostava muito do universo das “forças ocultas”. No quadro 45 são detalhados os diferentes episódios onde se reflectem motivos de alguma premonição por parte das personagens. Em contraste, o autor belga documentava-se excelentemente e explicava, na maioria dos casos, os fenómenos físicos e científicos com bastante verossimilitude, como se pode apreciar no quadro 46, cuja percentagem se detalha no quadro 47.

A análise descritiva dos personagens principais

O gráfico seguinte mostra o número total de eventos das três personagens principais em relação a três grupos de variáveis:

– doenças, lesões e acidentes sofridos nas suas aventuras, incluindo as que ocorreram em situações ambientais extremas e contabilizando as suas relações com o pessoal e as instituições de saúde, assim como o uso de medicamentos.

 – O estilo de vida, hábitos de saúde e consumo de álcool, tabaco e drogas.

– Outros aspectos reflectidos na natureza humana: morte, suicídio, medo, riso, etc. Embora todos os dados sejam registados em conjunto, é evidente o contraste entre Tintín e Haddock com um número mais significativo de eventos relacionadas com os hábitos de saúde do capitão (neste caso perniciosos) em comparação com o seu amigo.

Hergé, Tintin e a Medicina – vinte e um

Os quadros 37 e 38 relacionam o álcool com Milou (sempre consumindo) e com Tintin (geralmente rejeitando ou criticando a sua utilização).

O quadro 39 mostra as razões pelas quais se associa Tintin com o hábito de consumir álcool.

O gráfico seguinte descreve as referências ao álcool, quer por consumo, rejeição, arrependimento ou repressão por parte de Tintin,  Haddock ou Milou, distribuídas por cada álbum da série. O gráfico pode quase reflectir um paralelo com o desenvolvimento evolutivo da série.

Uma explosiva aparição do capitão em Os Cigarros do Faraó contagia as outras personagens. Este facto faz com que o cão perca algum destaque.

Nos últimos álbuns, elaborados com a maturidade e a experiência ganhas por Hergé, as alusões ao consumo de álcool são menores e, inclusivamente, procura-se mesmo uma solução para evitar a sua ingestão.

O hábito de fumar

Pretendeu-se representar o consumo de tabaco em relação às personagens secundárias da série dado que o capitão Haddcok não apareceu no seu início e que Tintin e Milou são não-fumadores. Os dados são apresentados nos quadros 40 e 41. Nas primeiros álbuns as referências eram muito mais frequentes, diminuindo gradualmente ao longo da série. No gráfico seguinte é mostrado o tipo de tabaco fumado pelas personagens.