From Scotland with Love – dezasseis (fim)

Chegou ao fim.

Deixei aqui as memórias recentes da ida turístico-cultural-desportivo à Escócia. Aquilo que era interessante partilhar, ficou disponível no blog em letra de forma e em imagens, nas sucessivas crónicas alusivas aos diferentes e complementares “capítulos”.

Resta tratar do caso Tintin, na “surpresa” inesperadamente encontrada, mas esse é um distinto assunto que a seu tempo, em breve, será devidamente concretizado.

A despedida traduz-se num episódio final.

Em Inverness, já após a prova, quando eu pesquisava na incontornável livraria local de Waterstone algum volume interessante, Nessie, que faltara ao lógico encontro no seu Loch, decidiu ali procurar-me. Estava eu entretanto tão absorto na minha tarefa que nem dei por tal.

Felizmente, as câmaras de vigilância do estabelecimento registaram o insólito encontro, afinal não concretizado até às suas derradeiras consequências. Ao retirar-me, Nessie imitou-me. Fiquei sem saber quais seriam as suas verdadeiras intenções, ainda que tenha ficado convencido de que seriam amistosas.

Aqui fica a partilha da prova. Como se sabe as imagens valem por mil palavras e, por isso, calo-me.

E, quanto à Escócia, até 2018 se lá voltar.

                                                                          António Martinó de Azevedo Coutinho

From Scotland with Love – quinze

A terceira das obras a que decidi recorrer nesta referência conjunta Tintin-Escócia constitui uma espécie de regresso às origens, isto é, remete o herói ao seu contexto natural, a banda desenhada.

Trata-se de um número fora-de-série da revista Beaux Arts, datado de Setembro de 2016. portanto ainda recente. O seu conteúdo não deixa dúvidas quanto ao interesse: Hergé – Les secrets du créateur de Tintin.

É um Hergé bastante íntimo e intimista que ali encontramos, pelo testemunho de Alain Baran, seu colaborador próximo e secretário de 1977 a 1983, seguindo-se uma cronologia com datas e momentos-chave numa vida dedicada à criação. As personalidades que mais o terão influenciado têm também ali lugar privilegiado.

Uma análise muito detalhada do seu estilo -a linha clara- antecede um interessante estudo sobre as influências que a história e as obras de arte, assim como os artistas, desempenharam na sua carreira.

Segue-se a detalhe daquelas que são consideradas as suas fontes de inspiração, com destaque para os clássicos da banda desenhada do tempo.

Quanto à obra propriamente dita de Hergé, contam-se estudos sobre o seu último e inacabado álbum, bem como um ensaio sobre as fases de nascimento e construção (as etapas) de cada nova aventura de Tintin.

Finalmente, surgem artigos sobre álbuns considerados de culto: Le Lotus Bleu, Objectif Lune – On a marché sur la Lune e, sobretudo, L’Île Noire.

As páginas dedicadas ao “dossier” A Ilha Negra são a seguir reproduzidas e significam, simbolicamente, o tal regresso às origens, incluindo as pessoais, aos distantes tempos e lugares quando e onde conheci Tintin na Escócia.

É interessante o conteúdo das coloridas páginas alusivas, abordando o caso -único na obra de Hergé- em que uma aventura conheceu três diferentes versões, a preto e branco em 1938, a cores e sintetizada em 1943, quase totalmente reformulada e actualizada em 1966, com intervenção do colaborador Bob De Moor.

Dá-se depois conta de quanto e como essa evolução foi contestada pelos “tintinlólogos”, fundamentalistas da obra…

Num capítulo dedicado às fontes de inspiração, temos os nazis, os falsários e uma Escócia exótica, segundo a visão romanesca de Hergé, depois revista e tornada mais realista e credível. Uma alusão muito interessante remete-nos para a visão cinematográfica de alguns planos criados pelo autor. Na actualização final realça-se o denominado triunfo da precisão nos pormenores.

As ilustrações que complementam os textos fornecem um conjunto muito esclarecedor, pelo que o estudo se revela bastante oportuno e revelador, com algumas abordagens inéditas.

From Scotland with Love – catorze

Na continuação da partilha dos mais significativos registos onde a vasta obra sobre Tintin/Hergé aborda a Escócia, é hoje a vez do volume Tintin grand voyageur du siècle.

Trata-se de um álbum de grandes dimensões, editado em 2003 por Moulinsart/GEO, tal como o anterior, embora dotado de distintas características.

Jean-Luc Marty, chefe de redacção da GEO, esclarece no prefácio que a obra se insere na memória legada pelos sítios, uma volta ao Mundo, que Tintin percorreu nas suas aventuras. Esse itinerário, agora repetido pelos jornalistas da revista, permite, na sua duplicidade, uma conjugação onde as vinhetas se entrelaçam com as fotografias. Os títulos dos capítulos são desde logo um excelente reflexo desta aliança: Lenda, Fontes, Modelos, Escalas, Balada, Exotismo, Imaginário, Planeta, Fraternidade, Bélgica

A Escócia ganha aqui um lugar e papel de destaque. O mítico castelo de Ben More, onde o da Ilha Negra se inspirou, assim como a ilha (autêntica) de Syke, estão ambos retratados no álbum de quadradinhos. De comboio pelas Highlands, como Tintin, o jornalista actual viaja entre Fort William e Mallaig e revive as actualizações que o desenhador Bob De Moor, dos Estúdios Hergé, produziu sobre a história original. Depois, Michael Farr (autor do magnífico estudo Tintin – O sonho e a realidade, Difusão Verbo, 2005) assina um expressivo artigo onde prova que a Escócia de Tintin não mudou, na sua paisagem sempre rude e romântica. Abordando a Natureza, nota que está ali de tal modo preservada que produz o sentimento de se ter chegado ao fim do mundo, um mundo ainda virgem…

Uma passagem final pelos pubs recorda o episódio de Milou lançado sobre a rota do whisky. É que ainda não tinha chegado o capitão Haddock…  

Aqui fica, pois, a reprodução das páginas sobre a Escócia.

From Scotland with Love – treze

As derradeiras crónicas aqui escritas sobre a Escócia voltam a Tintin. Não ao Tintin agora a braços com um novo e inesperado problema (ou talvez não!?) mas ao Tintin na Escócia, precisamente no local mítico -a Ilha Negra– onde o conheci e há muitos, muitos, anos.

A partir de certa altura, quando também me tocou a idade consciente da razão e não apenas a dos sentimentos e afectos, ampliei o interesse pessoal pelo meu amigo, até então limitado à descrição romanesca das suas aventuras, a outra literatura -considerada mais séria e mais “culta”- sobre ele próprio e sobre o seu cronista, Hergé. Por outras palavras, para além da manutenção do fiel coleccionismo das revistas e álbuns, comecei a juntar -e ler- toda a literatura, biografias, críticas, estudos e obras enciclopédicas que abordavam tanto Tintin como Hergé, seu pai “adoptivo”.

E a verdade é que são hoje dezenas, largas dezenas, de títulos alusivos, num conjunto geometricamente crescente que hoje preenche as minhas prateleiras ou estantes literárias caseiras… Agora, a este propósito, recapitulei ou reli tais volumes dos quais seleccionei três, julgados os mais oportunos,

Aqui partilho hoje um destes, precisamente uma obra com características de guia de viagens. Trata-se de um grosso volume com 450 páginas de generoso formato, editado por Moulinsart/GeoBook em Janeiro deste ano, portanto muito recente e actualizado. Sob o título 110 Pays 7000 Idées, pretende contribuir para Bien choisir son voyage sur les traces de Tintin.

O conteúdo, a partir destes pressupostos, é óbvio, consistindo numa colectânea de 110 países (ou regiões) classificados de A a Z, contendo ainda -para além do real- fichas sobre destinos imaginários de Tintin (como o Khemed ou a Syldávia), grandes planos e descrições sobre os destinos concretos por ele visitados (Tibet, Rússia, Estados Unidos, etc.), mais de 300 fotografias, 200 mapas e 70 ilustrações retiradas dos álbuns, um planisfério com as viagens do jornalista pelo Mundo, referências sobre transportes, gastronomia, música, monumentos, folclore, sítios e por aí fora…

Desta obra aqui ficam, partilhadas com a devida vénia, capa, contracapa e as páginas relativas à Escócia.

No próximo “capítulo” continuaremos esta incursão “literária”…

From Scotland with Love – doze

As coisas pela Escócia, como já descrevi, correram bem pelo lado do seu principal objectivo, ou seja, a participação na Corrida de River Ness.

Mas quanto ao desejado, e esperado, encontro pessoal com Tintin já não posso afirmar o mesmo.

Logo ao chegar ao Hotel Leonardo, em Edinburgh, entregaram-me na recepção um sobrescrito que me fora endereçado. Abri-o e continha uma mensagem de Tintin. Estranhei logo a caligrafia, apressada, algo desalinhada em relação ao estilo habitual do meu jovem amigo.

O conteúdo, que li num impulso, preocupou-me. Que teria acontecido de inesperado? Ou seria uma mera desculpa, improvisada, para explicar a ausência?

Para já, competia-me seguir as “instruções” e procurar a Waterstone que, segundo me explicaram, é a maior cadeia de livrarias do Reino Unido.

Na longa volta pela cidade, em plena Princes Street, lá dei facilmente com a grande livraria, imensa nos seus não sei quantos andares plenos de maravilhas impressas. Dirigi-me, por palpite, à secção da banda desenhada e acertei. Ao identificar-me, entregaram-me um pequeno saco que, curioso, logo abri. Dentro estavam dois álbuns com a aventura de Tintin na Ilha Negra, um em inglês e outro, cuja existência ignorava, na versão em gaélico, o antigo dialecto local, ainda usado. Fiquei fascinado e imensamente reconhecido com a simpática lembrança de Tintin…

Mas manteve-se a minha preocupação pela ignorância das razões da sua ausência.

Na manhã seguinte, antes do pequeno almoço, depois de ter descido do quarto, entretive-me a folhear e ler os títulos da edição regional do dia, 22 de Setembro, do circunspecto The Times. A páginas tantas, com sobressalto, li a notícia, o facto que afinal explicava as razões da ausência de Tintin. Estava ali, em letra de forma, perante os meus incrédulos olhos, a recentíssima acusação, mais uma e esta original: Great snakes! Is Tintin actually an asexual girl? (Grandes cobras! Tintin é realmente uma garota assexuada?).

A expressão Grandes cobras intrigou-me. Depois encontrei uma explicação. Para já, vejamos o surpreendente conteúdo da notícia:

Os fãs já se perguntaram por que Tintin, o intrépido jovem jornalista, não gosta muito das meninas. Isso pode ser porque ele era uma menina, segundo um filósofo francês.
Vincent Céspedes, de 44 anos, causou uma reviravolta com uma incursão pela tarefa de décadas na decodificação da ambiguidade do herói criado em 1929 por Hergé, um autor de livros de quadradinhos belga.
“Para o seu criador, Tintin foi sempre uma garota. Uma ruiva andrógina e provavelmente assexuada com olhos azuis”, escreveu Céspedes. “Hergé estaria soltando gargalhadas ao observar que, 30 anos depois de sua morte, o mundo inteiro ainda acredita que esta ‘rapariga arrapazada’ é para todos os efeitos um garoto real”. Hergé costumava classificar o seu herói como uma rapariga arrapazada a quem “alguns amigos achavam piada”, disse ele.
O filósofo disse que estava resolvendo um enigma sobre a sexualidade do jornalista trota-mundos cujas 24 aventuras venderam mais de 200 milhões de exemplares e foram transformadas em inúmeros filmes, mais recentemente em 2011 por Steven Spielberg.
Apenas oito das 350 personagens dos álbuns são identificáveis ​​como mulheres. A aparência não viril de Tintin, as suas maneiras gentis e o facto de ele morar com um marinheiro hirsuto, o Capitão Haddock, foram citados há muito tempo como provas de que ele é gay. “Este problema de género existe há muito tempo com Tintin”, afirmou o filósofo. “Eu simplesmente ultrapassei esse passo e obriguei todos a assumir uma posição”.
A natureza gentil e atenciosa de Tintin correspondeu aos ideais europeus da feminilidade no início e meados do século 20, disse Céspedes. “Sempre que ela pode, coloca uma saia ou um vestido”, acrescentou. Em A Ilha Negra, história acontecido na Escócia, Tintin coloca um kilt apesar de ninguém mais fazer isso.
Em Tintin e os Pícaros, Haddock faz com que um esquadrão de soldados se vistam como mulheres num Carnaval de rua sul-americano, observa o filósofo. Outra pista é supostamente a capa de As Jóias de Castafiore, na qual Tintin coloca um dedo sobre a boca, sinalizando um segredo. Bianca Castafiore, a cantora de ópera, é de facto um homem castrado, acrescentou o filósofo. Referindo-se a Tintin, ele disse: “Disfarçada de menino, supostamente jornalista, viaja pela misoginia das culturas, pela prudência dos tempos”.
Os guardiões do templo de Tintin sorriram principalmente com a “novidade” de C. Céspedes adicionada às centenas de análises publicadas acerca da psique de Tintin e com os meios de comunicação que  lhe deram uma boa divulgação. Alguns fãs de Tintin, no entanto, atacaram-no: “O máximo em disparate”, disse um comentário no Facebook. Outro  chamou-lhe “o Santo Graal do revisionismo literário”.
O lado feminino de Tintin foi inicialmente mencionado por Régis Debray, um filósofo, que escreveu em 1985 que Hergé escondeu a sua feminilidade por detrás de Tintin.

Fica-se espantado. Não me surpreendeu mais a ausência de Tintin, que já deve andar de voltas com os seus advogados. Ainda há uns anos, foi uma acusação de racismo que o levou aos tribunais. Agora é esta escandalosa imbecilidade…

Antes de prosseguir, a tal explicação prévia. Como é óbvio Great Snakes é mais uma expressão idiomática, sem tradução literal. Ao folhear o álbum The Black Island, na página 36, esta é uma expressão gritada pelo próprio Tintin. Curiosamente, na edição portuguesa, é substituída por OH! A versão anterior é idêntica e também a original. Já agora, por curiosidade, a expressão gaélica usada foi HEY!

Não resta portanto qualquer dúvida de que o articulista inglês, no The Times, revelou um apreciável conhecimento da obra em apreço, ao utilizar na chamada de atenção de seu artigo tal expressão…

Poderia eu esperar tudo menos isto, mais um escândalo não provocado, a ensombrar a vida de Tintin. Porém, não vou alterar o que pessoalmente previra.

A seu tempo, depois, abordarei esta melindrosa questão.

From Scotland with Love – onze

Foi em folhas soltas (como já relatei) que pela primeira vez encontrei aquele que viria a ser o meu amigo Tintin, no relato das histórias -baralhadas- que ele vivera no Oriente, nas Américas, nos desertos, sobre o mar, na China, até em Angola. Sobretudo na Inglaterra, mais precisamente na Escócia, motivo que agora me trouxera à memória esses idos tempos.

Mal sabia soletrar as palavras mágicas, mas quanto às ilustrações essas lia-as na perfeição. E o Papagaio abundava em quadradinhos.

O Tintin era jornalista e eu nem sequer percebi por tais alturas da vida esse pormenor profissional, porque aquilo que dele me interessava era a aventura permanente e misteriosa em que estava sempre envolvido. E, aqui, a Ilha Negra era um sítio especial entre todos os outros, com castelos e monstros. Como é, afinal, na realidade. E a Inglaterra era, para o jovem jornalista, o sítio mais próximo e menos exótico da sua carreira até então.

Nunca o encontrei, ao vivo, embora tenha mantido sempre com ele uma relação muito próxima, intensificada ao longo de décadas. Até inventei um encontro, ambos de boné e calças à golf, à moda da época, com “fotografia” que já revelei…

O que aprendi sobre ele cresceu nessa proporção de intimidades onde o real e a ficção se misturavam. Já não era apenas o relato das suas aventuras que me prendia. Os meus interesses pela banda desenhada -foi assim que depois os sábios destas coisas chamaram aos quadradinhos- ampliaram-se. Porém, mantiveram-se centrados na personalidade de Tintin e na progressiva teia dos seus amigos e adversários, assim como na solução que ele ia encontrando para resolver os complexos e até arriscados problemas em que se viu envolvido.

Acompanhei com entusiasmo os seus êxitos e também, com preocupação, a inveja que estes provocaram em certos meios, sobretudo da intelectualidade. Chamaram-lhe de tudo, fascista, anti-comunista, misógino e racista, para ficar apenas por aqui…

Outro aspecto interessante, de que fui sucessivo espectador, tem a ver com a evolução formal da obra onde eram contadas as histórias fascinantes de Tintin. E, neste campo -acho que nada acontece por acaso-, foi precisamente a Ilha Negra que mais se transformou. O que eu aprendi sobre isso!

Quem me diria, quando pelos anos quarenta li no tal sótão mágico aquela história colorida, que afinal tinha sido cá mesmo, no nosso atrasado Portugal de então, que os traços negros originais ganharam, “clandestinamente” e  pela primeira vez em todo o Mundo, direito à aplicação de manchas de cor!?

Anos depois adquiri o álbum, numa edição já oficialmente colorida (de 1947, com 62 páginas) que mais tarde pude confrontar com um volume de precioso arquivo onde a história original (de 1937, com 124 páginas) estava preservada. Pelo meio tinha ficado a versão do Papagaio, publicada entre 1941 e 1942.

Porém não se esgotariam nisto as “metamorfoses” da Ilha Negra. Também aprendi, e apreciei, a profunda alteração sofrida pelo contexto gráfico daquela aventura de Tintin, sugerida ou forçada pelo editor inglês, que achara obsoletos mais de cem (!?) pormenores, necessitados de uma urgente actualização que pudesse seduzir o mercado britânico. Foi assim que em 1965 surgiu uma versão redesenhada.

Essa transformação provocou, por simples exemplo, que o whisky Johnnie Walker mudasse para Loch Lomond, marca que na época nem sequer existia!

Na perspectiva da minha ida àquelas paragens, “coincidências” como esta agradaram-me imenso.

E a progressiva e íntima convicção do reencontro pessoal com Tintin ganhou força. Do gorila Ranko, que assustou o meu jovem amigo, ao monstro Nessie do Loch Ness, nem sequer vai uma grande distância, nestes termos ficcionais…

E depois Tintin, como aliás eu pude confirmar pela sua aventura em plena Inglaterra, também corre e bem, à frente de um cão feroz. Creio que melhor o faria, descontraído, numa competição.

Por isso, na minha legítima expectativa, até acreditei que ele me contemplasse com a eventual surpresa de aparecer, de kilt e tudo, em plena corrida…

[o fotógrafo dos pensamentos, sempre oportuno, estava lá!]

Que aconteceu, de facto?…

Regresso à Ilha Negra

A primeira e única vez que lá estive foi há muito, muito tempo.

Era ainda criança, logo depois do bibe como nesse tempo se usava, e sonhava então todos os sonhos do mundo. E lembro-me de como tudo aconteceu, embora vão passados bem mais de três quartos de século. Muito, muito tempo…

Foi num sótão mágico que encontrei e conheci Tintin, meu companheiro fiel pela vida fora. Era a morada de um velho amigo da família, que frequentávamos, com passagens secretas e outros insondáveis mistérios. Nem Enid Blyton inventaria uma assim, juro!

Tinha um pátio em forma de claustro monacal, com salas de pedra e penumbra que tínhamos medo de invadir e um falso armário na cozinha, onde começava um túnel com estreita escadaria que ia dar a uma viela próxima…

Mas o local mais interessante do casarão, carregado de surpresas, era mesmo o sótão, apinhado de jornais entre outras atracções ali arrumadas. Estava lá o Papagaio.

O Papagaio era uma revista colorida cheia de ilustrações, que sobretudo me fascinavam até porque ainda eu não sabia decifrar os códigos do soletrar e do ler. As histórias do Papagaio também não podiam contar-me tudo até porque tinha de adivinhar as suas continuações entre as desordenadas folhas soltas dos originais a que tinham pertencido. Tudo ali era um desafio…

Preenchia na medida do impossível a passagem do continua no próximo número ao continuado do número anterior, entre lapsos e falhas, tudo desencontrado sem outro remédio que não fosse a minha imaginação. Foi assim que acompanhei Tim-Tim -nessa tradução lusitana mais tarde percebida- por longes terras, pela América do Norte de Al Capone, pelo enigmático Oriente, por Angola ainda nossa e, sobretudo, pela Ilha Negra. A Ilha Negra!

A Ilha Negra até era o sítio mais próximo, aqui mesmo na Europa,  concretamente na Inglaterra. Para ser preciso e rigoroso, ficava na Escócia, terra de castelos misteriosos e de monstros lendários.

Por lá acompanhei o meu amigo mais o Rom-Rom, fiel cão que só muito depois reconheceria como Milou, o famigerado dr. Silva (ou Müller!?), os dois polícias secretos e por aí fora. A tonalidade etnográfica escocesa, para além do kilt, do scotch whisky ou do castelo mal assombrado, incluía o monstro tradicional. Nessa oportunidade, talvez por mero acaso, não foi Nessie do Loch mas o gorila da Ilha Negra.

Quando estive na Ilha Negra eu usava ainda calças à golf e boné de pala, tal como Tintin, meu amigo desde então. Ambos crescemos como seria inevitável. Mas foi pena, porque gostaria de me ter mantido como então, nesses heróicos tempos com fumos de guerra. Ele correu o mundo, a Rússia e toda a Europa, a China, as Américas, a África mais a Oceânia e até foi à Lua -imagine-se!- enquanto eu permaneci agarrado às raízes domésticas.

E agora, muitos anos depois, vou lá voltar, ao ponto de encontro, como num eterno retorno.

Tenho a certeza, absoluta, de que o Tintin estará à minha espera. Não será no mágico sótão portalegrense onde nos conhecemos, mas nas escocesas margens do Loch Ness. Temos tanto, tanto, para conversar!

E -quem sabe?- talvez Nessie nos queira fazer companhia.

António