Hergé, Tintin e a Medicina – seis

7. L’Ile Noire

Surgiu em Le Petit Vigtième entre Abril de 1937 e Junho de 1938, sendo publicada a preto e branco no final de 1938 e republicada a cores em 1943, sendo então reduzido a 62 o número de pranchas 62. Este foi o número de páginas que permaneceu em seguida. O álbum passou por uma revisão total em 1965 ao realizar-se a tradução para Inglês. A editora deste país, Methuen, apontou alguns erros a Hergé, que redesenhou integralmente o álbum, seguindo as correcções que seu colaborador Bob de Moor compilou na Inglaterra.

Argumento: Tintin é atacado por tripulantes de um avião em fuga, que aterrou na Inglaterra. Depois de recuperar no hospital, foi para a Inglaterra em busca dos seus atacantes e terminou no rasto de Doutor Müller, que o capturou. Tintin estava prestes a ser levado para um hospital psiquiátrico, mas escapou e recomeçou a sua busca, o que o levou até ao povoado escocês de Kitloch. Ali embarcou rumo a uma ilha próxima, onde se acreditava que habitaria um monstro. No entanto, trata-se  da base de um bando de falsificadores de dinheiro, que usava um gorila para afastar os curiosos com os seus rugidos amplificados.

Comentário: O argumento é bem construído e demonstra a experiência adquirida por Hergé no campo da narrativa, neste caso, uma pura aventura policial. A originalidade da história é essencialmente baseado na comparação de dois universos incompatíveis tidos como incompatíveis. O primeiro é o mundo das técnicas mais modernas e sofisticadas, que desempenham um papel fundamental no álbum; o segundo refere-se a mitos antigos: uma ilha misteriosa, um castelo em ruínas, um monstro.

8. Le Sceptre d’Ottokar

O conteúdo deste álbum foi originalmente divulgado entre 4 de Agosto de 1938 e 10 de Agosto de 1939 em Le Petit Vingtième. Nesta aventura é introduzido pela primeira vez a personagem Castafiore. É muito provável que a Bordúria seja uma versão da Alemanha nazis e a Syldavia da Áustria. São numerosas as referências que aparecem e sugerem a comparação: as aeronaves, os uniformes, as tácticas para tomar o poder, etc.

Argumento: Müstler quer anexar a Syldavia à Bordúria. Para conseguir isso, ele quer que o rei não empunhe o ceptro de Ottokar IV durante a Parada do Dia de São Wladimiro, porque isso -segundo a tradição- significaria perder o trono.  Roubando o ceptro, “roubariam” a monarquia e poderiam anexá-la. Tintin, acompanhando um professor, viaja para Syldavia e descobre a conspiração. Então, avisa o rei e evita a anexação.

Comentário: Provavelmente, o que melhor caracteriza este álbum, é o facto de este está preenchido por magníficos desenhos. A história começa como muitas outras aventuras de Tintin: depois de um acto aparentemente vulgar fica-se envolvido progressivamente num tema poderoso cujo significado não se vai plenamente entender até ao final. Além da “invenção” dos dois países que terão continuidade em histórias futuras, a grande dama Bianca Castafiore aparece pela primeira vez em cena.

 9. Le Crabe aux Pinces d’Or

Hergé criou esta história durante a ocupação alemã da Bélgica. O jornal Le Petit Vingtième, que tinha sido publicado as aventuras de Tintin desde 1929, foi encerrado pelos ocupantes. Hergé rapidamente encontrou trabalho no jornal Le Soir, cuja circulação era ainda maior, mantendo uma linha editorial claramente colaboracionista (o que viria a causar muitos problemas a Hergé depois do fim da guerra). Esta história interrompeu a que estava a publicado em Le Petit Vingième, Au Pays de l’Or Noir, por causa das suas implicações políticas. Le Crabe aux Pinces d’Or foi publicado pela primeira vez em 17 de Outubro de 1940, no suplemento semanal do Le Soir. Devido à escassez de papel, o suplemento cessou a publicação em 23 de Setembro de 1941, passando a publicar-se como uma tira diária em Le Soir, ao ritmo de três ou quatro vinhetas de cada vez. Nesse mesmo ano foi publicado integralmente, sendo o último álbum de Tintin a preto e branco. A reedição em 1943 apresenta cortes significativos no argumento, em relação ao original, para ajustá-lo ao modelo de 64 páginas, em comparação com as 130 da edição original.

Argumento: Na história, Tintin vai até ao cargueiro Karaboudjan, onde é capturado por um bando de criminosos que utilizava latas de conserva de caranguejo para o tráfico de ópio. Tintin consegue escapar do camarote em que o tinham trancado, e encontra o capitão do navio, Haddock, completamente embriagado e vítima das maquinações da tripulação. Tintin e o Capitão conseguem escapar do navio e, por fim, acabam estatelados numa avioneta em pleno deserto do Sahara, onde são salvos por um tenente da Legião Estrangeira. Eles acabam em Marrocos onde, com a ajuda de Dupont e Dupont, descobrem o chefe dos contrabandistas e detêm toda o bando.

Comentário: Destaca-se a primeira aparição do álbum do Capitão Haddock, com muitas das suas características essenciais: o gosto por álcool (embora visto aqui com alguns tons dramáticos, ao contrário do que vai acontecer mais tarde) e o seu gosto pelos insultos bizarros. Também se produziu aqui um ponto de viragem na obra de Hergé, que se viu brutalmente obrigado a transformar as suas condições de trabalho com a ocupação alemã da Bélgica.

Hergé, Tintin e a Medicina – cinco

4. Les Cigares du Pharaon

Foi publicado semanalmente de Dezembro de 1932 a Fevereiro de 1934 no semanário infantil Le Petit Vingtième. Atingiu um grande sucesso comercial e foi publicado em forma de álbum logo após a sua conclusão no jornal. Hergé continuou a história em Le Lotus Bleu, transformando a série num marco tradicional da banda desenhada franco-belga. Em 1955, a narrativa foi redesenhada e colorida, no estilo da linha clara. A análise crítica da historieta centrou-se na inovação e na aventura, ao  apresentar as personagens recorrentes dos detectives Dupond e Dupont e do vilão  Rastapopoulos.

Argumento: A história narra uma longa viagem de Tintin e Milou. Estando no Egitpo descobriram a tumba de um faraó cheia de egiptólogos mortos e de caixas de charutos. Perseguindo o mistério destes charutos, eles viajam através da Arábia Saudita e da Índia, e revelam os segredos de um esquema internacional de contrabando de drogas. Como curiosidade deve-se notar que Tintin, depois de despenhar o seu avião na Índia, encontra dois loucos, incluindo o egiptólogo Philemon Ciclón, que perderam o seu juízo como resultado de serem injectados com suco de rajaijah “o veneno da loucura”. Tintin é hipnotizado por um faquir e internado num hospital psiquiátrico donde depressa conseguirá escapar.

Comentário: Embora Hergé tenha continuado a desenvolver o seu plano de trabalho sobre uma base semanal, o álbum constituiu uma melhoria considerável em relação às histórias anteriores, podendo considerar-se como “quase completamente irreconhecível quanto às suas antecessoras”, pois tinham sido definitivamente encaixadas as suas inspiradas personagens no mundo dos quadradinhos, sendo a comédia definida com caracteres bem construídos, destacando-se os elementos de mistério e suspense, distantes das óbvias palhaçadas em aventuras anteriores. Tintin conseguiu ser “um herói mais maduro”, no entanto com uma faceta mais de detective que de jornalista.

5. Le Lotus Bleu

A aventura foi serializada em Le Petit Vingtième entre 9 de Agosto de 1934 e 17 de Outubro de 1935, a um ritmo de duas páginas semanais a preto e branco, formando a segunda parte da história até então conhecido como Tintin no Oriente. A primeira edição em álbum, também a preto e branco, apareceu em 1936 numa publicação da Casterman, editando-se a cores em 1946.

Argumento: Apesar de ser a segunda parte da história anterior pode ser lida de forma independente. A acção ocorre sobretudo na China, principalmente na cidade de Xangai. O título é inspirado no nome de uma sala para fumadores de ópio nesta cidade. Assume grande relevância nas crónicas da série por ser a primeira vez que o seu criador, Hergé, se preocupou em documentar-se extensivamente sobre o tema, para o que contou com a ajuda de um estudante chinês, Zhang Chongren, que iria influenciar notavelmente o álbum e o seu trabalho posterior. Para alguns estudiosos e críticos, esta é a primeira obra-prima de Hergé e alguns até mesmo consideram este álbum como o melhor de toda a criação.

Comentário: Os estudiosos da obra de Hergé apreciam muito o álbum. A narrativa atinge uma maturidade crítica até então desconhecido no seio de todas as aventuras porque já está organizada segundo um argumento que tem uma coesão, uma precisão e uma profundidade que nenhuma história de Tintin tinha alcançado antes. Hergé passou por uma transformação durante a gestação da historieta, ganhando em rigor o que perdeu na improvisação e doseando melhor os seus gags. O seu compromisso com o realismo documental concedeu autenticidade aos episódios que criou. A documentação reunida ajudou o artista a desenhar uma cidade e ambientes muito credíveis. Este interesse de Hergé pela documentação abriu o caminho para a fase que tem sido denominado como “etapa documentarista” nas aventuras de Tintin, período que abrange a década de 1930, embora esse interesse documental se venha a estender a todos as historietas posteriores da personagem. Como curiosidade deve-se notar que Hergé utilizou o livro sobre a China escrito por Blasco Ibañez.

6. L’Oreille Cassée

A aventura começou a ser publicada como uma série, em 1935, no semanário infantil Le Petit Vingtième. Como álbum apareceu em 1937 e foi colorida em 1943. Mais uma vez, Hergé refere-se a situações da actualidade mundial do seu tempo. A guerra entre San Theodoros e Nuevo Rico, por culpa do petróleo, é um retrato da guerra do Charco que opôs o Paraguai e a Bolívia durante os anos trinta.

Argumento: Conta a história de um ídolo Arumbaya que foi roubado do Museu Etnográfico e Tintin inicia a sua busca. Seguindo as suas pistas chega a San Theodoros, uma república aa América do Sul que está sofrendo uma revolução. Por uma série de coincidências Tintin torna-se ajudante de campo do presidente, o general Alcázar. Começa a guerra com o seu vizinho, Nuevo Rico, e Tintin, perseguido por todos, foge para o território dos índios Arumbayas. Ali, finalmente, descobre o segredo do ídolo, que contém um pequeno diamante. Como epílogo, o ídolo foi recuperado na Europa e voltou para o museu.

Comentário: Para esta história, em que a fantasia é muito importante, Hergé continuou a desafiar o seu público a participar na continuação de história, colocando na parte inferior de cada página semanal uma frase onde apelava para a sagacidade dos leitores. Como modelo para o desenho da estatueta que as personagens procuram (um ídolo Arumbaya ficcionado), Hergé inspirou-se numa estatueta de madeira, que na realidade provém da cultura Chimu e que esteve exposta no Museu do Cinquentenário de Arte e História, em Bruxelas.

Hergé, Tintin e a Medicina – quatro

Continuando a análise da tese do dr. Guillermo Calatayud vamos encontrar, ainda na descrição do material por este abordado, uma súmula dos álbuns de Tintin.
Ainda que -no meu entendimento- não contenha esta abordagem qualquer novidade significativa, não deixa de se revestir de um certo interesse, por conter personalizadas e curiosas apreciações críticas. Por isso, devidamente traduzidas, aqui ficam as opiniões do médico pediatra sobre esta obra de Hergé.

SÚMULA BIBLIOGRÁFICA DOS ÁLBUNS  

1. Tintin au pays des Soviets

Esta é a primeira das aventuras de Tintin. Originalmente foi publicada no suplemento juvenil Le Petit Vingtième entre 10 de Janeiro de 1929 e 8 de Maio de 1930, e mais tarde foi reproduzida no formato de álbum em 1930. Criada para servir como propaganda anti-marxista para as crianças, a história foi encomendada pelo patrão de Hergé, o abade Wallez, que dirigiu o jornal católico belga Le Vingtième Siècle, onde aquele suplemento juvenil era publicado.

Argumento: Gira em torno do jornalista belga Tintin e do seu cachorro Milou que viajam até Moscovo via Berlim, para fazerem uma reportagem sobre as políticas instituídas pelo presidente comunista Stalin. No entanto, um agente do serviço secreto soviético, a OGPU, tenta que Tintin não a faça, colocando sucessivas armadilhas para se livrar dele. No entanto, o jovem jornalista irá gradualmente descobrindo os segredos do bolcheviques e como estes estão roubando comida aos cidadãos soviéticos, manipulando as eleições e assassinando os seus opositores. No final, Tintin e Milou regressaram a Bruxelas perante uma enorme recepção popular.

Comentário: É o única das aventuras des Tintin, não adaptada posteriormente à cor (excepto Tintin e a Alpha-Arte que não chegou a ser concluído). O autor disse que pensou pouco na realização do álbum ao considerá-lo “apenas um jogo” e classificou-o simplesmente como “uma transgressão” baseada da sua juventude. Por isso, sempre Hergé se opôs à sua publicação mas, com o aumento da produção de edições piratas vendidos entre tintinólogos, finalmente permitiria uma reedição oficial em 1973.

NOTA – Como é óbvio, à data da elaboração deste trabalho, o seu autor não poderia supor que a edição colorida deste álbum seria uma realidade a partir de Janeiro de 2017.

2. Tintin au Congo

Foi publicado por páginas, a preto e branco,  no Le Petit Vingtième, entre 5 de Junho de 1930 e 11 de Junho de 1931. A primeira edição em álbum, também a preto e branco, foi publicado neste mesmo ano. O álbum foi completamente redesenhado por Hergé para uma edição colorida em 1946, passando das 110 pranchas originais para 62. As mudanças tenderam a atenuar os aspectos controversos da obra e desapareceram todas as referências ao colonialismo belga no Congo. Ainda assim, o tema desta controvérsia permanece frequentemente na perspectiva político de que reflecte uma visão claramente colonialista e racista do mundo, além de um entendimento excessivo da caça, classificada como matança de muitos animais ameaçados de extinção.

Argumento: Tintin viaja para o Congo, onde conhece os nativos africanos e os animais exóticos e selvagens da África. Uma série de episódios vão levá-lo ao reino de Babaoróm onde ele se torna o chefe da tribo. Por acaso, encontra um bando de gangsters ligados a Al Capone que tenta controlar a produção de diamantes no Congo. Tintín consegue detê-los e parte para o seu próximo destino: a América.

Comentário: A sugestão de que a segunda aventura de Tintin tenha como cenário o  Congo Belga pertence ao director do jornal e protector de Hergé, o abade Wallez, segundo declarações do próprio autor. Como na história anterior, o objectivo era puramente propagandístico, tentando agora suscitar vocações coloniais. Diferentemente da maioria dos álbuns seguintes, Hergé não se preocuparia muito com a documentação. O álbum abunda em preconceitos sobre o continente africano.

3. Tintin en Amérique

Embora a primeira parte da história se passe em Chicago, onde o protagonista enfrenta gangsters e assassinos, a trama também gira em torno do povo índio (peles-vermelhas) que tanto fascinara o autor na sua infância. É o único álbum de Tintin em que uma personagem real aparece com o seu próprio nome: Al Capone. A aventura começou a ser publicada na edição de 3 de Setembro de 1931 em Le Petit Vingtième, estendendo-se por mais de um ano, em duas pranchas por semana. A versão colorida do álbum, inteiramente redesenhado em 1945, é bastante fiel ao original embora o autor tenha chegado a inverter algumas vinhetas para facilitar a sua compreensão por parte do leitor.

Argumento: A história narra as aventuras de Tintin na América. Na sua chegada ao país, é sequestrado por bandidos de Al Capone, que considerara o jornalista como perigoso. Pouco depois ele escapa e irá enfrentar outros grupos criminosos. Na segunda parte da história, Tintin, no mais puro estilo de “Far West”, vive vários episódios com os índios que finalmente são expulsos das suas terras após a descoberta de um poço de petróleo por soldados americanos.

Comentário: Tal como nos outros primeiros álbuns de Tintin, este trabalho revela uma evidente falta de documentação significativa sobre os temas abordados em comparação com as obras posteriores do autor, que supre esta falha com os mitos presentes na Europa na década de 30 sobre os Estados Unidos (gangsters, índios e cowboys). O álbum parece uma fusão do western com o cinema negro. Está cheio de gags e de elementos que reflectem bastante ingenuidade, embora ali encontremos uma crítica à situação de que padecem os índios nos Estados Unidos assim como a alguns aspectos do capitalismo.

Hergé, Tintin e a Medicina – três

A certa altura da sua interessante dissertação, o autor dedica natural atenção à linha clara, o estilo estético-narrativo usado por Hergé. Porque se trata de uma questão da maior importância, aqui se transcreve essa parte do trabalho de Guillermo Calatayud:

A linha clara é um estilo da banda desenhada com origem franco-belga que se  caracteriza, como o próprio nome sugere, pela definição exacta da linha, bem como pelo cultivo da narrativa clássica e do género cómico.

Do ponto de vista de Hergé, o termo “linha clara” não é apenas um estilo gráfico, mas também se refere ao próprio argumento, de modo a que todos os elementos dos quadradinhos (desenhos, quadros, diálogos, sinais) possam contribuir para a consecução da máxima compreensão da história.

Juan d’Ors, na sua apaixonada obra Tintin, Hergé e os outros conclui: “Fazer linha clara é contar uma história de forma legível, onde o desenho está assente naquilo que se conta“. O quadro final mostra as características principais que geralmente predominam na linha clara.

A principal referência da linha clara é o próprio Hergé, mas a Escola de Bruxelas ou Escola de Tornai é composta por outros autores como Edgar P. Jacobs, Jacques Martin e Bob de Moor. Na década de oitenta, a linha clara ressurgiu e transformou-se graças a autores como Joost Swarte ou Ted Benoit. Os autores espanhóis Gabriel Arnao ou Miguel Calatayud também pode ser adstritos à mesma. A forma hispânica da clara linha nasceu com o culto de Tintin e isso foi reflectido não apenas nos aspectos narrativos gráficos mas também em arranjos narrativos com alguma conexão ao mercado francófono dos álbuns para o nível etário infanto-juvenil.

A revista de historietas Cairo (1981), editada por Rafael Martínez e Joan Navarro, apareceu como defensora desta tendência estética, reunindo em torno dela um grande grupo de autores, herdeiros tanto da chamada Escola Bruguera como da Escola Valenciana.

Mas rapidamente a linha clara ultrapassou os limites do campo da narrativa desenhada e a crítica que isso gerou conduziu a uma grande controvérsia com defensores e detractores da sua temática e, principalmente, do seu maior expoente, Hergé.

Em 1984, foi realizada em Barcelona a exposição Tintin, ​​na Fundação Joan Miró, contra a qual um grupo de críticos (Jordi Bernet, Jesús Blasco, Javier Coma, Juan Cueto, Román Gubern, Victor Mora, Ricardo Muñoz, Enric Sió, Suay, Maruja Torres e Josep Toutain) tinha deposto no Manifesto publicado no jornal El Pais, e, por extensão, também contra a linha clara.

Isto levou outro grupo de especialistas como Ludolfo Paramio e Juan d’Ors a defendê-los, contagiando durante alguns anos as editoras Norma, Complot, Arrebato e La General, pelo que os leitores continuaram a apostar neste estilo.

 

Porque o autor alude a um episódio muito pouco conhecido, mas fundamental, tanto na biografia de Hergé como na discussão da linha clara, pareceu-nos significativo dedicar-lhe alguma importância, complementar, detalhando com mais pormenor o que sucedeu a este propósito.

Um grupo de artistas e intelectuais elaborou um Manifesto contra a Fundação Miró, quando esta organizou no Parc de Montjuic em Barcelona, entre 23 de Setembro e 25 de Novembro de 1984, um evento de homenagem a Tintin e ao seu autor, o desenhador Hergé. O texto foi assinado, entre outros, por Juan Cueto, Maruja Torres, Jordi Bernet, Jesús Blasco, Javier Coma, Román Gubern, Victor Mora, Ricardo Muñoz Suay, Enric Sió e Josep Toutain.

Os signatários recordaram, no início do Manifesto, que apoiaram durante muito tempo a reivindicação da banda desenhada como uma forma de arte adulta, pelo que expressavam publicamente a sua preocupação em virtude da confusão a que poderia induzir a citado exposição.

Não discutindo a importância do “fenómeno” Tintin, os autores da declaração afirmaram que nas nossas latitudes, onde os quadradinhos ainda não alcançaram o merecido prestígio oficial e popular que conquistaram noutros países cultos, era extremamente perigoso para o reconhecimento adulto da Nona Arte que a Fundação Miró tivesse escolhido, para a sua primeira exposição monográfica de BD, um trabalho cujos destinatários são as crianças, sem dimensão estética bastante para ser anfitrião de uma entidade com um tão ilustre patrono.

O Manifesto recordou que o prestígio cultural dos quadradinhos não foi alcançado graças a Tintin. E acrescentaram os autores que, em países com uma forte cultura de BD -ou onde Tintin é considerado uma herança nacionalista- tal exposição deixaria automaticamente de ser problemática, porque as coisas estão ali muito claras desde o princípio. Pelo contrário, e de acordo com o texto, o patrocínio da Fundação Miró a Tintin “dilata a imagem infantilóide de que sofre essa narrativa desenhada“. O Manifesto concluiu lamentando o dispêndio envolvido na organização em face do escasso apoio recebido pelos quadradinhos em Espanha.

Um representante da Fundação Miró disse que a exposição seria acompanhada por uma homenagem a Hergé, que envolveria 70 artistas de todo o mundo e, particularmente, espanhóis como Joan Bofill, Pere Torrent, Cescepe, Hortelano, Daniel Huidobro, Ops, Perico, Pastor Roger, Julio Vivas…. A exposição era composta por uma apresentação de vinhetas acompanhadas de todos os objectos que nelas apareciam, principalmente fornecidos pelo Museu Etnológico da cidade.

Javier Coma, um dos promotores do Manifesto, declarou ao jornal El País que Tintin foi um sucesso editorial infantil, mas não pode ser comparado com outras propostas no domínio dos quadradinhos. “Trata-se de um desenho fácil e, portanto, susceptível de ser imitado. O auge espanhol de Tintin está ligado, em parte, a uma operação editorial destinada a dar consistência à denominada linha clara, na estética da banda desenhada. O Manifesto não tem a intenção de criar uma polémica nesta área, mas apenas situar adequadamente a importância de Hergé. Ninguém parece lembrar-se de que o artista foi acusado de colaborar com os nazis e que passou dois anos sem poder publicar. A sua redenção cultural veio da França, há cerca de 10 anos, quando Paris descobriu o comic americano e procurou um homólogo na área francófona. Em parte, tudo isto é uma promoção da nova Direita francesa“.

Este artigo surgiu na edição impressa de El País, em 14 de Setembro de 1984.

Após esta deriva, considerada necessária, retomar-se-á a dissertação.

Hergé, Tintin e a Medicina – dois

Este trabalho, honesto e levado bem a sério, insere-se no crescente e firme trajecto da BD como processo comunicativo ficcional. Nos fóruns mais credíveis, os quadradinhos ganharam e mantêm inegável prestígio.

Naturalmente, este peculiar mundo de Hergé/Tintin já fora abordado anteriormente. Basta citar, e quase apenas de memória, obras como Tintin no Psicanalista (Serge Tisseron, Bertrand Editora), Les Métamorphoses de Tintin (Apostolidès, Champs/Flammarion) ou Tintin au Pays des Philosophes (vários, Philosophie Magazine), por simples exemplo entre muitas outras, para se dispor da certeza de que o tema já teria sido tocado. Mas nunca com esta dimensão.

As mais de 200 páginas do denso trabalho apresentam variados motivos de grande interesse para os admiradores da obra de Hergé assim como para os apreciadores da banda desenhada em geral.

Com a devida vénia e homenagem ao autor, procurarei aqui sumariar o essencial da tese do dr. Guillermo Álvarez Calatayud, a fim de que um mais vasto público possa beneficiar das suas investigações neste campo.

Por hoje, traduzindo o original em língua castelhana, resumo o relativo aos Objectivos, Resultados e Conclusões.

OBJECTIVOS

O principal objectivo deste projecto de pesquisa é descrever as referências sobre saúde e conhecimentos médicos reveladas por Hergé em As Aventuras de Tintin e, em seguida, avaliar o analisado:

  • Se revela um conteúdo científico aceitável em relação à documentação científica e médica.
  • Qual o conceito que detinha o desenhador belga acerca de instituições médicas e de saúde.
  • Se os hábitos de saúde defendidos ou preconizados são adequados ao público a que se destinam.
  • Se as doenças sofridas por Hergé e pela sua família tiveram algum impacto sobre o seu trabalho.

RESULTADOS 

Há vários eventos relacionados com o universo da Medicina e da Saúde nas Aventuras de Tintin, que foram foram recolhidos e analisados ​​em detalhe. Como se obtiveram várias centenas de dados (só Tintin participou em 161 desses episódios!), foram separados por categorias para se conseguir uma melhor compreensão. Ao contrário de outros trabalhos similares anteriores, foram agora abrangidas todas as personagens da série e não apenas Tintin e os seus companheiros mais próximos.

CONCLUSÕES

  • Hergé produziu uma série de álbuns de histórias bem documentadas para tratar de questões relativas à Medicina e Saúde, transcrevendo adequadamente tanto a patologia como o conhecimento médico existentes na sua época.
  • A abordagem que usou para tratar hábitos de saúde, alguns hoje inapropriados ao público jovem a que foram destinados os seus álbuns, está em relação com o momento em que foi feita, sobretudo no respeito pelos valores morais que sempre estiveram presentes.
  • Hergé, geralmente, trata com respeito a profissão médica e os outros profissionais de saúde e, apenas nos casos em que parece ser desdenhosa a sua consideração -como em relação aos psiquiatras- se rende à avaliação estereotipada que geralmente é usada na BD.
  • É um artista inovador à frente do seu tempo. Isto é amplamente demonstrado no campo da Ciência, onde antecipa descobertas ou apresenta novidades, postas em prática. Bastante actualizado sobre todas as questões abordadas, apesar da época em que viveu, também ele mostrou o seu interesse pelo campo da Medicina.
  • Além das suspeitas psicanalíticas íntimas de Hergé, a sua vida agitada e os seus relacionamentos pessoais e familiares com a doença mental podem ter tido influência na sua obra, onde as inseguranças do autor se reflectem, parecendo significativamente influenciado pelos problemas psicopatológicos e pelo seu contexto.
  • As suas Aventuras exemplificam e difundem estilos de vida que, embora passados quase cem anos sobre a primeira delas, ainda são válidos para as crianças de hoje, tais como amizade, honestidade, ética profissional, perdão ou justiça. Tintin pode ser uma referência útil que incentiva uma determinada atitude perante a vida, sabendo afrontar problemas e compartilhar valores como a amizade ou a fidelidade.
  • Os milhões de leitores de várias gerações das Aventuras de Tintin sempre aprenderam História, Geografia e Ciência com elas. As descrições de doenças, actos médicos e estilos de vida pareciam perdidas na memória de todos. Nós acreditamos que é justo prestar uma pequena homenagem a um autor que sempre mostrou grande interesse e dedicação pela Medicina na sua obra, um detalhe apenas apercebido pelos médicos nos recentes anos.

Hergé, Tintin e a Medicina – um

A banda desenhada ganhou direitos de cidade. Hoje já se usa com tal naturalidade que quase ninguém estranha. Como Pessoa diria, a BD entranhou-se.

Como é óbvio, haverá sempre detractores do género, sobreviventes ainda de antigos tempos em que psiquiatras, professores, escritores e políticos se uniram em ferozes e santas cruzadas contra os quadradinhos, inimigos por excelência da sociedade e da moral pública. Mas já quase não contam, ainda que exijam ou mereçam alguma discreta “vigilância”.

Os sectores mais atentos, cultos e inteligentes da sociedade, entre os quais se contam alguns meios de comunicação e certas estruturas pedagógicas, defendem e usam a banda desenhada com absoluta naturalidade.

Nas últimas semanas assim aconteceu. A capa de um jornal diário e a divulgação científica empregaram a linguagem e a “mitologia” dos quadradinhos na transmissão de distintas notícias. Assim irá acontecer, invariavelmente, no vulgar quotidiano.

Há uns tempos, pela mão de amigos que partilham idêntico apreço pela BD, chegou-me mais um argumento, valioso argumento, em confirmação destas convicções. Trata-se de uma tese de doutoramento em Medicina, concretizada em 2015 na Universidade Complutense de Madrid. Foi seu autor o dr. Guillermo Álvarez Calatayud, médico pediatra especialista em gastroenterologia e nutrição, que exerce no Hospital Universitário de Moncloa e no Hospital Materno Infantil Gregório Marañon, além de ser presidente da Sociedad Española de Probiótica y Prebiótica. Foi orientador do trabalho da tese o catedrático Prof. D. Andrés Bodas Pinedo.

O tema da investigação e sua tese final foi Hergé, Tintin e a Medicina.

A metodologia utilizada é particularmente interessante, pois consistiu numa profunda análise observacional e numa revisão sistemática de todas as histórias que compõem a série As Aventuras de Tintin, a fim de daí serem destacados todos os eventos relacionados com aspectos da saúde, doença ou, genericamente, com o mundo da medicina.

Assim foram colectadas as seguintes variáveis principais: as doenças descritas ou referenciadas como situações de perda de consciência devidas a lesões ou outros motivos, os acidentes sofridos pelas personagens (lesões diversas, tráfego, queimaduras, intoxicação, afogamento, mordidas, picadas, explosões, tiroteios, ataques por animais, ferimentos por electricidade ou por corpos estranhos, etc.), os médicos que figuram (nomeados e não nomeados), pessoal e equipamentos de saúde, hospitais e instituições sanitárias, medicamentos e drogas, condições ambientais extremas (mar, espaço, deserto, frio ou calor excessivos…), alusões a medicinas primitivas e alternativas assim como à pseudociência, medicamentos naturais, aspectos relacionados com alimentação, hábitos de vida saudáveis, consumo ou referências a álcool e drogas, brinquedos e episódios de abuso de crianças, referências à morte, suicídios, estados fisiológicos (medo, lágrimas, risos…).

Foi aplicada particular ênfase ao estudo das três personagens principais, Tintin, Capitão Haddock e Milou, sempre respectivamente correlacionada com o álbum relativo aos episódios em causa. Para efeitos de uma melhor compreensão, os álbuns foram distribuídos por três grupos, de acordo com o ano em que foram elaborados: álbuns a preto e branco (1929-1941), álbuns da “Idade de Ouro” (1942-1953) e álbuns do período final (1954-2004).

A análise descritiva dos dados foi realizada utilizando frequências absolutas e percentagens segundo testes estatísticos para comparação das amostras independentes com as variáveis categóricas.