Tintin na Catalunha – II

Passemos às “suspeitas” relações entre Hergé e Léon Degrelle.

Ambos se encontraram no diário belga XXéme Siècle, onde trabalhavam. Tinham em comum a prática do escutismo e a educação católica. Distinguia-os a timidez de Hergé e a exuberância de Léon.

Quando o jornalista Léon Degrelle partiu para o México em serviço de reportagem da guerra civil que ali se gerara, enviou pelo correio ao desenhador Hergé exemplares de revistas de BD americanas, quase desconhecidas na Europa. Estávamos então em 1926.

Após o seu regresso, Degrelle decidiu lançar-se na política e acabou por fundar o movimento Rex. Em 1932 publicou um livro, Histoire de la Guerre Scolaire, que foi ilustrado por Hergé.

Conviviam bastante e, no seu automóvel, Degrelle passeava Hergé e a namorada, Germaine. Muitas vezes, o abade Wallez, director do XXéme Siècle e do Petit Vingtième, convidava os três para jantar.

Porém, nos meados desse 1932, os dois amigos zangaram-se porque Degrelle utilizou com intenções políticas um cartaz desenhado por Hergé. Quando casou com Germaine, por essa altura, Hergé proibiu-a de assistir às manifestações públicas organizadas por Léon Degrelle.

O movimento Rex, já então um partido político, recebeu apoios do regime fascista italiano e dos nazis alemães de Hitler. Degrelle encontrou-se pessoalmente com este, em 1936.

Em 1940, Hergé recusou um convite do antigo amigo para animar um suplemento infantil ligado ao Rexismo. Ficaram registadas as palavras do desenhador a este propósito: “Je n’ai jamais adhéré, ni sentimentalement, ni de quelque manière, au Rexisme, que j’ai toujours eu en aversion”.

Quando se desencadeou a II Guerra Mundial, enquanto Hergé permaneceu na Bélgica ocupada, Degrelle combateu pelos alemães, numa legião de voluntários belgas, a Wallonie.

Condenado à morte, à revelia, escapou sob a protecção de Franco, acabando por morrer na Espanha, em 1994, aos 88 anos. Hergé, de início incomodado pelas autoridades devido à suspeita (não confirmada) de tolerância ou cumplicidades com os ocupantes alemães, tinha já morrido em 1983, com apenas 75 anos…

Acusado de anti-comunismo (Tintin au Pays des Soviets), anti-capitalismo (Tintin en Amérique), anti-semistimo (L’Étoile Mysterieuse), racismo (Tintin au Congo) e de mais uma série de outros ismos, Hergé talvez tenha seguido, inconscientemente (!?) um dos mais gritantes slogans do Rexismo: Nem Washington, nem Moscovo

Se fizermos uma análise desapaixonada e situada no tempo e no seio da sua vida, as aventuras de Tintin são um retrato, ou consequência, das leituras e interpretações políticas dominantes no contexto dessas épocas. A acusação de partidário do fascismo feita a Hergé é de todo inconsequente e jamais provada.

Resta o cão de Hitler como presumido modelo inspirador de Milou.

Sabe-se de há muito que Hitler tinha os cães em grande apreço. Diz-se até que, demonstrando esse carinho de uma maneira bem nazi, ele matou o seu fiel pastor alemão Blondi minutos antes de se suicidar.

Não foi difícil dispor da imagem citada no artigo. Até em triplicado.

Adolf Hitler, enquanto quase anónimo combatente na I Guerra Mundial, era ridicularizado pelos seus camaradas, segundo relatos da época. Num dos episódios do conflito, Hitler terá saído do abrigo subterrâneo colectivo para acompanhar um cão perdido que adoptara. Nesse exacto momento, a artilharia acertou em cheio no abrigo matando todos os seus companheiros, apenas ele se salvando. Quem diria que um cachorro poderia afectar tanto a história da Humanidade?

De qualquer modo, verdade ou simples mito, sobraram algumas fotografias da época mostrando o jovem soldado de bigode em grupos e sempre com um pequeno cão. Porém, encontrar naquele animal semelhanças de raça ou de aspecto com o fox terrier Milou é uma autêntica e frustrada missão impossível.

Em suma, quase nada parece bater certo ou ser verosímil no interessante artigo de La Vanguardia.

Sobra a contundente crítica de Quim Torra, esta bem real.

O interesse pelo universo de Tintin é, para mim, o mais significativo aspecto de mais um episódio político, no quotidiano da Espanha irmã, vizinha e…  dividida.

António Martinó

Tintin na Catalunha – I

TINTIN NA CATALUNHA

(a Fernando Conde)

Um amigo madrileno que muito estimo enviou-me recentemente um recorte do diário catalão La Vanguardia. Sabendo da minha “paixão” por Tintin, fez-me chegar um artigo muito interessante, da autoria de Sergi Pomies.

Sumariamente, este dá conta de que, como que em resposta a uma polémica entrevista do primeiro-ministro Pedro Sánchez ao canal La Sexta, Quim Torras chamou-lhe tros de qu’niam  (cabeça tonta), recuperando um insulto que foi buscar à “antologia” do capitão Haddock.

Continua o texto recordando que, em 2016, uma equipa “tintinófila” de médicos tinha concluído que Haddock sofrera 109 acidentes, 2 internamentos, 21 casos de embriaguez e 13 desmaios.

Concluindo, o artigo garante que hoje as aventuras de Tintin deparariam com sérios problemas, não tanto por causa do vocabulário e dos hábitos do alcoólico capitão, mas sobretudo pelo passado ideológico do “grande” Hergé, seu criador, digno de ser censurado pela nova inquisição. Uma das bizantinas teorias sobre as origens da figura de Tintin afirma que Hergé foi inspirado pelo jornalista fascista Léon Degrelle e até por um cão muito semelhante a Milou que consta de uma fotografia de Hitler, enquanto jovem soldado, nos tempos da I Guerra Mundial.

Em qualidade, e até em quantidade, estas referências ao universo “tintinófilo” constituem um desafio pessoal, cuja réplica dedico ao meu oportuno correspondente.

Vamos por partes e comecemos pelo insulto.

Recorri às fontes que a Internet hoje nos proporciona. Alguns comentadores, sobretudo em blogs e mesmo em jornais, aludiram ao caso. Sem entrar em dispensáveis pormenores, posso citar Campos de Magí e Ramón de España entre os que achei mais significativos.

Foi numa feira de livros juvenis, a Encontats, em Balaguer, que o presidente da Generalitat dedicou aquele epíteto a Pedro Sánchez, culpando-o pela judicialização da política. Ao descrever assim o primeiro-ministro, aproveitou o pretexto fornecido por Joaquim Ventalló.

Os álbuns de Tintin foram lançados em Espanha nos tempos de Franco. As primeiras versões foram por isso editadas em castelhano, segundo traduções de Concepción Zendrera, que em 1944 assumira a direcção da divisão infanto-juvenil da editora Juventud. Em 1956, uma viagem da família à editora Casterman, na cidade belga de Tournai, levara-a à fascinante descoberta dos álbuns de Tintin, que começou a publicar em Espanha.

Foi outra mulher de cultura, a escritora e pedagoga Maria Eulália Ventalló que, ao ler Tintin no original em língua francesa, convenceu o pai, Joaquim Ventalló i Vergés, a traduzi-lo para catalão. Apenas em 1964 pode ser publicado o primeiro destes álbuns, após o decreto de 1962 que suspendeu a anterior proibição das edições em catalão.

Foi portanto Joaquim Ventalló o responsável por colocar na boca do capitão Haddock a expressão tros de qu’niam. O balão da vinheta onde surge o insulto pertence exclusivamente à versão catalã do álbum Le Tresor de Rackam le Rouge.

Não integra, portanto, a clássica e original “antologia” do capitão Haddock.

Sobre a origem etimológica da expressão, qu’niam deriva do latim porque, e terá começada a ser usada em catalão, sendo aplicada quando alguém ia discutir sem ter a argumentação previamente construída. O escritor Enric Gomà explica que o insulto partiu de estudantes universitários que aprenderam latim entre os séculos XVI e XIX, e que tem derivações locais como tros de c’nia.

Quanto à equipa médica que terá contabilizado os azares sanitários do capitão, também a informação carece de rigor. A referência correcta deveria ser feita a uma tese de doutoramento em Medicina, concretizada em 2015 na Universidade Complutense de Madrid. Foi seu autor o dr. Guillermo Álvarez Calatayud, médico pediatra especialista em gastroenterologia e nutrição, que exerce no Hospital Universitário de Moncloa e no Hospital Materno Infantil Gregório Marañon, além de ser presidente da Sociedad Española de Probiótica y Prebiótica. Foi orientador do trabalho da tese o catedrático Prof. D. Andrés Bodas Pinedo.

O tema da investigação e a sua tese final foram Hergé, Tintin e a Medicina.

Aqui foram rigorosamente tratados os casos clínicos encontrados n’As Aventuras de Tintin, incluindo os azares do capitão Haddock.

A autoria do trabalho é portanto individualizada e não devida a uma equipa de médicos “tintinófilos”.

Jamais só, com Tintin ! – 76 (fim!?)

Tinha previsto, no início desta série que foi devidamente apreciada, o seu final logo que no original francófono cessasse a publicação. Segundo tudo leva a crer, pela ausência de continuação, que tudo tenha sido encerrado no Dia da Bastilha.
Tenho amigos franceses e, apesar dos seu evidentes méritos, quase todos eles são dotados de uma certa dose de chauvinismo. Faz parte da sua genética.
Portanto, segundo tudo leva a crer, a série findou no Dia Nacional da França.
Está tudo dito…
Apesar de tudo, sempre foram dois meses e meio de contacto diário com um herói que muitos de nós apreciamos.
Aqui no blog, para que o final não seja tão abrupto, escolhi um termo mais conforme ao tema: Tintin. Por isso aqui fica um pequeno videograma alusivo aos seus 90 anos, cumpridos no passado 2019.
E até uma próxima oportunidade!