Hergé, Tintin e a Medicina – doze

As personagens principais

TINTIN

Tintin é um jovem, loiro, de altura mediana e tem uma mecha de cabelo muito particular e única. A sua idade é difícil de determinar; não é propriamente um adolescente, mas também não é um adulto. Como muitas vezes acontece com as personagens de quadradinhos, Tintin pouco mudou ao longo dos anos. De 1929 a 1983 manteve a sua aparência jovem e o próprio vestuário variou pouco, apenas a cor das meias ou da camisa. Só na último das suas aventuras completas publicada mudará as suas calças largas, à golf,  por jeans, mais à moda.

Ele é extremamente inteligente e espirituoso, tem muito mais força física do que aparenta, possui uma incrível facilidade para usar idiomas e sabe conduzir todos os tipos de veículos, incluindo aviões e tanques de guerra. É também um bom atirador. É uma pessoa íntegra que nunca aceita qualquer tipo de chantagem. É muito sensível perante a injustiça e capaz de sacrificar-se para ajudar os mais fracos. Um sacerdote lama dirá dele que tem o “coração puro”.

Um de seus melhores amigos é Tchang (para além do Capitão Haddock e de Milou), um adolescente chinês que conhece na sua quinta aventura, reforçando uma amizade que vai durar toda a vida. Este realmente é um alter-ego de Hergé, já que Tchang é baseado num autêntico amigo do autor, também dele separado por várias razões.

Tintin sempre aparece com o mesmo nome, que não tem necessariamente de ser o seu apelido (caso contrário não receberia correio para “Sr. Tintin”). Ao contrário de outras personagens da série, o leitor nunca conhecerá o seu nome completo (como acontece, por exemplo, com o malvado Roberto Rastapopoulos).

Capitão Archibald Haddock

Depois de sua aparição inicial, Haddock foi ganhando crescente protagonismo ao longo dos álbuns.

Na verdade, a riqueza de recursos desta personagem pode ser comparada com a de figuras próprias da novelística: uma de suas características é agir como um contraponto ao Tintin, sobretudo nos momentos em que este se torna “demasiado idealista.” Como curiosidade, os leitores não saberão o significado do apelido desta personagem até ao último álbum completo de Hergé. Este nome do marinheiro surgiu numa conversa que o autor teve com a sua esposa, em que esta mencionou que “haddock” significava um “triste peixe inglês”.

O capitão é descendente de um outro famoso homem do mar, o Cavaleiro Hadoque, marinheiro ao serviço do rei da França e grande inimigo do pirata Rackham le Rouge.

Geralmente assume uma vocação de burguês rural, ao invés se comportar como homem da alta sociedade europeia, especialmente após a descoberta do tesouro dos seus antepassados ​​e o sua estabilização no castelo de Moulinsart.

Além de alcoolismo, a que vamos nos referir mais tarde, é a sua linguagem que  tornou famosa esta personagem, sobretudo pelas exclamações proferidas em momentos de raiva, verdadeiros insultos que também têm sido objecto de estudo, para além das suas características de comicidade.

Milou

É um cão fox-terrier de pelo duro e branco, cujo nome se deve ao da primeira namorada de Hergé, quando tinha 18 anos. No entanto, é um macho. Dono e cão são tão inseparáveis ​​que durante muitos anos a série sobre as peripécias do intrépido repórter se intitulou As Aventuras de Tintin e Milou. Nos primeiros álbuns da série, Milou desempenha um papel central, porque é a única companhia do seu dono. Ambos mantêm verdadeiras conversas, onde o cão agora ocupa o lugar de confidente e do objector.

Ao contrário do seu dono, Milou é caracterizado por ter os pés firmemente assentes no chão; não está obcecado com a missão a cumprir, sendo a sua principal aspiração a tranquilidade, o que o leva muitas vezes a desconfiar das iniciativas de Tintin, chegando mesmo a criticar algumas destas, como quando considerou como uma “carnificina” a matança desenfreada de animais que ele levou a cabo na sua aventura Tintin no Congo.

Apesar de ser indeciso, por vezes, Milou liberta-se das suas hesitações quando se trata de resgatar Tintin, para o que recorre às suas criatividade e coragem. No entanto, às vezes é-lhe permitido vacilar entre um osso encontrado na estrada e o seu propósito fundamental de proteger o seu dono. O cão e o capitão são personagens da mesma ordem de grandeza, que equilibram com alegria aquilo que Tintin pode ter de excessivamente sábio ou virtuoso. Possivelmente é por esta razão que o papel de Milou ficou visivelmente diminuído após o aparecimento de Capitão Haddock na série.

Hergé, Tintin e a Medicina – onze

22. Vol 714 pour Sydney

Esta aventura apareceu pela primeira vez nas páginas do semanário Tintin, entre 27 de Setembro de 1966 e 28 de Novembro de 1967. A sua primeira edição como o álbum independente ocorreu em 1968. A maior parte da história passa-se numa ilha perdida no Oceano Índico .

Argumento: Sob o pretexto de uma viagem a Sydney, ao Congresso Internacional de Astronáutica, numa escala em Jakarta coincidem os habituais protagonistas com Pst, um seu velho conhecido, que trabalha como piloto do milionário Carreidas, que muda aí de avião para terminar a viagem no seu jacto particular. Tudo desemboca numa aventura cheia de perigos, traições, soro da verdade, disputas e também fenómenos paranormais e erupções vulcânicas.

Comentário: Maravilhosamente ambientada graças a um sólido trabalho de documentação, a história é narrada de forma vibrante e intensa pela mistura de momentos trágicos com outros grotescos e cómicos. Ao contrário do que se poderia esperar de Hergé, este não conta uma aventura tradicional, mas desmistifica e parodia as personagens “más”. Ele também faz um aceno à parapsicologia cujo interesse pessoal era conhecido desde há algum tempo.

23. Tintin et les Picaros

O álbum apareceu em 1976 após 8 anos de preparação desde a publicação do volume anterior, tendo a história sido pré-publicada na revista Tintin um ano antes. É a última aventura concluída de Tintin. Curiosamente, este álbum foi de certo modo baseado no tema de Régis Debray e dos Tupamaros, acontecido no Uruguai, enquanto outros estudiosos assinalam que é inspirado na Nicarágua e na família Somoza. O título que Hergé tinha originalmente pretendido para ele era Tintin e os bigodudos.

Argumento: Tintin e os seus amigos regressam novamente à república de San Theodoros. Eles acabam no meio da selva, colaborando com o general Alcázar para o ajudar a tomar o poder ao seu eterno rival, o general Tapioca. Entretanto, tentam libertar Castafiore e a sua comitiva, detidos sob falsas acusações de conspiração. O golpe de Estado do general Alcázar triunfará sem se disparar um tiro, mas a mudança de regime não vai aliviar os males deste protótipo de república das bananas, onde tudo permanecerá no mesma.

Comentário: Tinha passado um longo tempo desde o último álbum. O próprio Hergé o admitiu: não mais trabalhando por prazer, pouco lhe importava fazê-lo. Provavelmente, devido a essa enorme expectativa, a aventura não recebeu elogios na época. Hoje, analisando-o com alguma perspectiva histórica, podemos concluir que é excelente.

Combina perfeitamente, num magistral ritmo narrativo, elementos de acção com episódios humorísticos e tudo contextualizado num cenário muito detalhado. Neste álbum produz-se a maior mudança em Tintin: troca as suas calças típicas e largas por jeans, pratica yoga e aparece com um capacete da motocicleta onde se vê um emblema hippie. 

24. Tintin et l’Alph-Art

É aquela que teria sido a vigésima quarta e mais recente aventura da série de Tintin. Hergé trabalhou nela até à sua morte, e o álbum foi publicado postumamente (apesar de não estar completo). Fanny Remi, viúva do autor, decidiu que o álbum seria publicado inacabado, tal como ele o havia deixado. A edição de 1986 consistiu em dois blocos: um com o projecto gráfico tal como  Hergé o pretendeu, e outro com uma transcrição dos diálogos semelhante a um texto teatral. A edição de 2004 apresenta-se numa forma completamente diferente, onde as pranchas do autor são misturados com as transcrições de diálogo,  destacando-se graficamente alguns detalhes interessantes.

Argumento: O enredo original é centrado no mundo das galerias de arte. Termina com uma vinheta na qual os “maus” conduzem Tintin com uma arma apontada às costas. Pode parecer óbvio que Tintin se terá salvo, assim terminando a história. No entanto, vários dados sugerem que poderia não acontecer realmente assim: segundo o testemunho de pessoas próximas dele, Hergé terá sugerido que Tintin poderia vir a morrer nesta sua última aventura. Estes indícios parecem apontar para um final pouco comum ou nada usual.

Comentário: Na época da morte de Hergé, em 3 de Março de 1983, a aventura não era mais do que um apontamento: três pranchas desenhadas a lápis, quarenta e duas no estado de esboços, e alguns escritos adicionais com parte do argumento da nova aventura. Discutiu-se então sobre aquilo que fazer com os elementos que estavam disponíveis, sendo estudada a possibilidade de ser concluído o álbum por intermédio de colaboradores de Hergé. No entanto, dado o estado muito preliminar do trabalho (por exemplo, não havia um final), foi descartada tal hipótese porque as contribuições externas teriam de ser excessivamente significativas. Após vários anos de uma certa carência de iniciativas, todos os dados indicam que este novo álbum de Tintin teria sido um dos melhores: o positivismo do traço e o entusiasmo que demonstra indicam que Hergé tinha conseguido uma linha condutora consistente para a história.

Hergé, Tintin e a Medicina – dez

19 . Coke en Stock

A aventura começou a ser divulgada na revista Tintin em 1956. Foi publicado em álbum em 1958. É a primeira aventura de Tintin que integra, recuperando-as, um grande número de personagens de episódios anteriores como o general Alcazar, o emir do Khemed e Abdallah, J. M. Dawson, Allan, o Dr. Müller, Oliveira da Figueira, Bianca Castafiore e Serafín Lampión. Hergé foi rotulado como racista, tendo publicado em 1967 uma nova edição do álbum, corrigida, onde modificou a forma de expressão oral das vítimas do tráfico de escravos.

Argumento: Nesta aventura, os nossos heróis vão viajar para o Khemed, um emirado árabe imaginário. O motivo inicial é o de esclarecer as razões de um golpe de Estado que ali aconteceu e na intenção de tentar libertar o emir, um seu velho conhecido. A história levará Tintin e o Capitão a bordo de um navio, o Ramona, onde descobrirão uma rede de tráfico de escravos em que está envolvido o malvado Roberto Rastapopoulos.

Comentário: Hergé começou uma de suas aventuras mais complicadas graças a um recorte de jornal e, até mesmo, embarcou com um colaborador num navio mercante para tirar fotos e fazer anotações. Coke en Stock tem sido criticado pelas suas estereotipias de africanos, tanto na aparência como no comportamento. Embora, obviamente, dotadas de bom coração, as personagens negras são retratadas como infantis e simplórias. No entanto, o álbum pretende fazer uma denúncia da escravatura que afecta os muçulmanos africanos em peregrinação a Meca.

 20. Tintin au Tibet

Começou a publicar-se na revista Tintin em 1958. Editada em álbum, em 1960, Hergé disse deste que é o seu favorito. A história foi escrita durante um período difícil de sua vida, quando ele estava a divorciar-se da primeira esposa e a iniciar um novo relacionamento sentimental.

Argumento: A história é diferente dos outros livros de Tintin, anteriores ou posteriores: não há inimigos e apenas integra um pequeno número de personagens. A história também é invulgarmente emotiva para Tintin: momentos de grande tensão emocional como a teimosa crença de Tintin na sobrevivência de Tchang depois de um acidente de avião nos Himalaias, a descoberta do urso de peluche na neve, o Capitão Haddock sacrificando-se para salvar Tintin, o regresso de Tharkey, o reencontro com Tchang e como o yeti perdeu o seu único amigo.

Comentário: É a mais espiritual e autobiográfica das obras de Hergé. Coincide com um momento de conflito interior do seu criador, como espécie de terapia psicanalítica nesses momentos. Tudo parece ser dominado pela cor branca de pureza em sintonia com a espiritualidade oriental. O álbum foi eleito como a melhor novela gráfica francesa de todos os tempos, num inquérito junto de profissionais, editores e críticos.

 21. Les Bijoux de la Castafiore

Pré-publicado na revista Tintin entre 4 de Julho de 1961 e 4 de Setembro de 1962, apareceu como álbum independente em 1963. É a mais “caseira” ou “doméstica” das histórias de Hergé. É contada com maestria como uma farsa.

Argumento: Esta aventura constitui um curioso divertimento que se demarca do habitual nos álbuns de Tintin: não há qualquer viagem nem acontecem grandes eventos ou mesmo actuam verdadeiros vilões. O protagonismo vai implicar uma mulher (Bianca Castafiore) aparecendo o restante como secundário em seu redor. A história é uma sucessão de erradas pistas e falsas aparições. Quando no fim é encontrada a esmeralda roubado tudo parece uma deliciosa desilusão: não houve maus nem conspirações.

Comentário: Parece o livro mais desconcertante da série. É uma autêntica anti-aventura protagonizada pelo mais aventureiro dos heróis de todos os tempo. Sem se sair de casa e depois de muitas vicissitudes, no final, nada acontece. Brilhante no argumento, amadurecida nos desenhos, divertida e animada como uma opereta, esta obra pode ser considerada como um clássico do século XX, que agrada mais aos adultos do que às crianças.

Hergé, Tintin e a Medicina – nove

16. Objectif Lune

Começado a ser publicado na revista Tintin em 1950 e o volume em álbum foi editado em língua francesa em 1953, três anos antes do lançamento do Sputnik, o primeiro satélite artificial, e quinze anos antes do primeiro pouso lunar tripulado.

Foi a terceira e última vez que Hergé desenhou uma aventura dividida em dois álbuns.

Argumento: Tintim e o capitão reúnem-se com Tournesol que está trabalhando num centro de pesquisa atómica secreto no coração do maciço montanhoso de Zmylpathes. O professor foi contratado pelo governo sildavo para dirigir a construção de um foguetão atómico a bordo do qual será levada a cabo a primeira viagem tripulada à Lua. A partir daí toda a aventura se vai desenrolar na estação espacial e nas montanhas circundantes. Todos assistem à construção do foguetão, aos primeiros testes e participam na sua própria formação como astronautas. Ao mesmo tempo, eles lidam com um plano misterioso, aparentemente liderado pela vizinha Bordúria, que visa sabotar o projecto.

Finalmente, apesar das dificuldades, o foguetão está pronto e arranca para o seu destino. Aqui interrompe-se a narrativa, que vai continua no próximo volume On a marché sur la Lune.

Comentário: Apesar da criatividade incluindo generosas doses de imaginação, Hergé usou uma incrível quantidade de documentação técnica, que converte esta história na mais rigorosa da série.

Para isso contou com uma equipa de colaboradores que se documentaram em energia atómica, física espacial e astronomia. As explicações técnicas dadas tanto por Tournesol como pelo engenheiro Wolff são muito precisas e receberam na época comentários positivos por parte de técnicos da NASA. Hergé recorreu ao humor do capitão Hergé para evitar que os excessos de tecnicismo cansassem ​​os leitores.

17. On a marché sur la Lune

A aventura começou a publicar-se na revista Tintin em 1952. O álbum foi lançado em 1954, constituindo a continuação de Objectif Lune. O próprio autor considera esta história como o mais exótica de todas e é aquela em que o argumento foi criado com base na imaginação, antecipando-se ao seu tempo. O realismo destes dois livros que compõem a aventura lunar levou a revista Paris-Match a encarregar Hergé das ilustrações que explicaram a missão da Apolo XII.

Argumento: A história continua no preciso momento onde termina o álbum anterior. Depois de uma viagem não isenta de alguns sobressaltos, descem na Lua, na cratera Hipparchus, onde os nossos heróis montam os equipamentos e iniciam a pesquisa e exploração do terreno, entremeadas de episódios ocasionais. Forçados a regressar à Terra devido às insuficientes reservas de oxigénio para a tripulação, sofrem duas tentativas, por parte dos conspiradores de Bordúria, o coronel Jorgen e engenheiro Wolff, para sabotar o foguetão. O resultado é a morte de Jorgen num disparo da sua arma assim como o suicídio de Wolff, que sacrifica a própria vida lançando-se no espaço para que outros possam ter ar suficiente. O foguetão dirigiu-se para a Terra com falta de oxigénio, mas finalmente todos chegam em segurança e são salvos.

Comentário: Segundo uma sólida base científica, tal como a aventura anterior, talvez esta segunda parte mereça ser realçada pela abordagem de Hergé a questões pouco infantis como a morte e o suicídio, este retratado no inesquecível sacrifício do engenheiro Wolff. Muitos astronautas europeus declararam que a leitura dos álbuns daquela aventura lunar os levou a escolher a sua vocação. Como curiosidade a revista Tintin comemorava todos os anos o aniversário da chegada de Tintin à Lua, acontecida em 25 de Março de 1953.

18. L’Affaire Tournesol

A aventura apareceu pela primeira vez nas páginas da revista Tintin entre 22 de Dezembro de 1954 e 22 de Fevereiro de 1956. A primeira edição em álbum foi publicada em 1956.

Nesta história novamente se aborda a tensão e a rivalidade existentes entre Sildávia e a Bordúria, reflectindo a situação que existia entre os blocos comunista e capitalista na época.

Argumento: A história começa com Tintin e o capitão de regresso ao castelo, quando são surpreendidos por uma estranha tempestade que provoca a quebra de espelhos e de vasos em todo o palácio. O fenómeno atmosférico resultara dos ensaios de um gerador de ultrassons desenvolvido por Tournesol, que desaparecerá alguns dias depois durante uma conferência na Suíça. Tintin e Haddock reúnem-se em Genebra para poderem seguir a pista de Tournesol, que sofre vários sequestros por parte de sildavos e borduros, sendo transferido para a cidade de Szohôd. Finalmente, com a ajuda de Bianca Castafiore, eles conseguem resgatar Tournesol, que decide destruir os planos de sua invenção para evitar que esta se transforme numa arma.

Comentário: Esta aventura foi escolhida por muitos tintinófilos como a obra-prima de Hergé. Não será a mais divertida, mas atinge uma especial perfeição pela riqueza do tema, pela rapidez dos encadeamentos narrativos, pela arte de enquadramento das imagens e dos diálogos, tudo contribuindo para tornar este álbum um marco entre os quadradinhos clássicos. Criada numa época de pleno amadurecimento do autor na companhia de colaboradores excepcionais nos Estúdios Hergé, a história lembra o genial Alfred Hitchcock

Hergé, Tintin e a Medicina – oito

13. Les Sept Boules de Cristal

Esta história foi publicada entre 1943 e 1944 no jornal Le Soir, mas foi em 1945 que se iria evidenciar, uma vez que a obra de Hergé foi cancelada devido a uma acusação de colaboracionismo (com os ocupantes alemães). A história continuaria, um ano depois, com O Templo do Sol. A figura de Rascar Capac foi inspirada numa múmia peruana autêntica que se encontra no Museu de Arte e História, em Bruxelas.

Argumento: A história narra a odisseia de sete arqueólogos da expedição Sanders-Hardmuth que regressam à Europa após dois anos no Peru e na Bolívia, onde encontraram o túmulo do rei Inca Rascar Capac. Em breve eles começarão a sofrer de uma doença estranha que os mergulha num sono profundo, acordando todos à mesma hora do dia, tremendamente sobressaltados, como se fossem torturados, até caírem de novo no seu sonho. Tudo aponta para que se trate da punição profetizada no próprio túmulo de Rascar Capac. Junto a todos os doentes foram encontrados restos de bolas de vidro com veneno no interior. Mais tarde, o Professor Tournesol foi sequestrado e Tintin e o Capitão seguirão uma trilha que os levará ao Peru.

Comentário: Trata-se de um álbum carregado com grande quantidade de mistério e aventura. Esta primeira parte da expedição “solar” parece imbuída de uma atmosfera particularmente perturbadora e angustiante. É dotada de um argumento perfeitamente doseado e com admirável atenção aos detalhes na definição das diferentes cenas. Foi realizado em estreita relação com o colaborador mais realista dos Estúdios Hergé, Edgar Pierre Jacobs, criador de Blake e Mortimer

14. Le Temple du Soleil

Apareceu pela primeira vez nas páginas da revista Tintin entre 26 de Setembro de 1946 e 22 de Abril de 1948. A primeira edição em álbum foi publicada em 1949. É a continuação da história anterior As Sete Bolas de Cristal.

Argumento: Tintin e o Capitão Haddock viajaram para o Peru em busca de Professor Tournesol que vão encontrar a bordo de um navio chamado Pachamanac com destino a esse país, mas não conseguem libertá-lo. Depois de muitas pesquisas, eles conseguem saber que Tournesol poderia estar retido numa pirâmide no meio da selva, último vestígio da civilização Inca, decidindo ir até lá.

Depois de atravessarem a Cordilheira dos Andes e a selva (na companhia de um jovem indígena chamado Zorrino, que lhes serve de guia), chegam ao local onde a pirâmide está situada. São feitos prisioneiros e descobrem que Tournesol vai ser sacrificado juntamente com eles próprios, para terem cometido sacrilégio com uma múmia sagrada. Finalmente, Tintin usa com astúcia um eclipse que ocorre naquele mesmo lugar para obter a libertação e o regresso de todos.

Comentário: Num ritmo trepidante, a história recupera o espírito dos grandes relatos de aventuras; reflecte a humanidade das suas personagens principais, especialmente a do capitão; fornece um exotismo geográfico excepcional; e documenta-se com grande rigor histórico. As sequências narrativa e gráfica estão totalmente sincronizadas com gags nos momentos adequados e com o justo suspense. Em suma, trata-se de um hino a um mundo multicultural e mágico.

15. Tintin au Pays de l’Or Noir

Sem dúvida, este foi o álbum das aventuras de Tintin dotado do maior número de transformações sofridas ao longo do tempo. A edição inicial começou a publicar-se em Le Petit Vingtième em 25 de Setembro de 1939, imediatamente após a conclusão de O Ceptro d’Ottokar. A II Guerra Mundial provocou a interrupção dessa publicação em Le Petit Vingtième. Oito anos mais tarde, na revista Tintin, o artista decidiu terminar a história, retocando as pranchas originais e introduzindo elementos novos como o Capitão Haddock ou o castelo de Moulinsart, inexistentes em 1939. A terceira versão da história ocorreu no final dos anos sessenta, a pedido do editor inglês, Methuen, para dali serem removidas todas as referências à Palestina britânica e ao conflito árabe-israelita.

Argumento: Seguindo a pistas de estranhas explosões de gasolina, Tintin, Milou e os detectives  Dupont e Dupond chegam a um porto de um país fictício,  Khemed. Aprisionado e abandonado no deserto por duas vezes, Tintin ajuda a libertar o travesso Abdallah, filho do Emir Mohammed Ben Kalish Exab, que tinha sido raptado pelo Dr. Müller para forçar o seu pai a assinar um contrato com a empresa de petróleo que representava. Dupont e Dupond ingerem acidentalmente o produto que fazia explodir a gasolina, o que faz com que lhes cresça muito rapidamente o cabelo…

Comentário: Será porventura o volume que terá sofrido maior número de vicissitudes na história da banda desenhada, conhecendo-se nada menos do que três versões, muito diferentes umas de outras. Dos mais de trinta anos de revisões aplicadas à aventura resultam vários anacronismos baseados em eventos históricos com vencedores e vencidos. No final, e graças ao rigor documental, o resultado foi um álbum emocionante, com grandes sequências cómicas e episódios de mistério.

Hergé, Tintin e a Medicina – sete

10. L’Étoile mystérieuse

Foi esta a primeira aventura de Tintin lançada em álbum directamente a cores. Porém, como outros álbuns da série, tem duas versões, a primeira realizada em 1942 e a segunda em 1952. A versão inicial da história foi elaborada durante a Primeira Guerra Mundial, quando a Bélgica esteve sob a ocupação nazi. Em 1952 sofreu correcções para suavizar o argumento de tonalidades um tanto pró-nazis iniciais.

Argumento: Tintin vê uma estrela que parece estar cada vez mais perto da Terra. Num observatório, ele conhece o Professor Calis, que lhe diz prever o impacto do meteorito dentro de poucas horas contra o nosso planeta, causando o fim do mundo. Felizmente, os cientistas estavam errados nos cálculos e o meteorito passa ao largo, embora um fragmento tenha caído no Mar do Norte. Algumas análises revelam que o meteoritos contém um metal desconhecido com propriedades estranhas. Por isso foi organizada uma expedição com um grupo de cientistas de todo o mundo  para recuperar o fragmento que tinha caído no mar. Um homem de negócios sem escrúpulos fretou outra expedição que fará os impossíveis para evitar que os nossos amigos cheguem ao aerólito antes dos seus homens.

Comentário: Decididamente, a guerra fez Hergé mudar os seus hábitos de trabalho. A mudança das tiras ilustradas do álbum anterior aliada à escassez de papel disponível fez com que a partir de então as histórias adoptassem o modelo final de 62 páginas impressas em quadricromia (quatro cores).

Este álbum, surpreendentemente apocalíptico, pareceu conter uma abertura à esperança e à amizade numa época terrível para a sociedade europeia.

 11. Le Secret de La Licorne

É a primeira parte de uma aventura que continuará no próximo álbum: O tesouro de Rackham, o Terrível. Foi publicada em continuação, a preto e branco, no jornal Le Soir entre 11 de Junho de 1942 e 14 de Janeiro de 1943, com uma breve interrupção. Também em 1943 surgiu a primeira edição em álbum colorido. Em Espanha, foi publicado pela primeira vez em 1957, na revista 3 Amigos.

Argumento: Depois de um mistério detectivesco na cidade de Bruxelas, com o castelo de Moulinsart em fundo, teremos pela primeira vez a oportunidade de conhecer o antepassado de Haddock, o Cavaleiro de Hadoque, com o qual reviveremos aventuras de piratas que nos levarão à história seguinte na busca de um tesouro.

Comentário: Hergé trata um tema ainda mais afastado da actualidade que o do álbum anterior. Numa Bélgica ocupada, onde a mais trivial das deslocações era impossível, o autor dedica-se a um tema mais romântico: a caça ao tesouro, pura literatura de evasão. Além disso destacam-se as paisagens urbanas e os interiores, transportando-nos magistralmente ao século XVII. Revela-se aqui uma excelente documentação sobre a marinha francesa além da intervenção de especialistas em maquetas. Enfim, este é um dos melhores trabalhos de Hergé.

12. Le Trésor de Rackham le Rouge

É a segunda e última parte de uma série que começou com Le Secret de La Licorne. Publicou-se nas páginas de Le Soir de 19 de Fevereiro a 23 de Setembro de 1943. A sua adaptação em álbum a cores surgiu em 1944.

Argumento: Novamente Tintin e o Capitão Haddock regressam a bordo de um navio, desta vez o Sirius. Os nossos heróis embarcam neste em busca do tesouro do pirata Rackham le Rouge. Após dias e dias de buscas sem sorte, esta vai sorrir-lhes, mesmo no final, quando o tesouro aparece na sua nova casa: o castelo de Moulinsart.

Comentário: Pode ser considerado o álbum “marinheiro” por excelência. Os desenhos são rigorosamente documentados e excepcionalmente estéticos. Para além disso o seu argumento parece estar totalmente equilibrado e distribuído ao longo das 62 páginas. Constitui um clássico à altura de romances como A Ilha do Tesouro ou Robinson Crusoé. Nesta aventura fará a sua aparição uma figura chave nas posteriores aventuras de Tintin: o Professor Tournesol.

Hergé, Tintin e a Medicina – seis

7. L’Ile Noire

Surgiu em Le Petit Vigtième entre Abril de 1937 e Junho de 1938, sendo publicada a preto e branco no final de 1938 e republicada a cores em 1943, sendo então reduzido a 62 o número de pranchas 62. Este foi o número de páginas que permaneceu em seguida. O álbum passou por uma revisão total em 1965 ao realizar-se a tradução para Inglês. A editora deste país, Methuen, apontou alguns erros a Hergé, que redesenhou integralmente o álbum, seguindo as correcções que seu colaborador Bob de Moor compilou na Inglaterra.

Argumento: Tintin é atacado por tripulantes de um avião em fuga, que aterrou na Inglaterra. Depois de recuperar no hospital, foi para a Inglaterra em busca dos seus atacantes e terminou no rasto de Doutor Müller, que o capturou. Tintin estava prestes a ser levado para um hospital psiquiátrico, mas escapou e recomeçou a sua busca, o que o levou até ao povoado escocês de Kitloch. Ali embarcou rumo a uma ilha próxima, onde se acreditava que habitaria um monstro. No entanto, trata-se  da base de um bando de falsificadores de dinheiro, que usava um gorila para afastar os curiosos com os seus rugidos amplificados.

Comentário: O argumento é bem construído e demonstra a experiência adquirida por Hergé no campo da narrativa, neste caso, uma pura aventura policial. A originalidade da história é essencialmente baseado na comparação de dois universos incompatíveis tidos como incompatíveis. O primeiro é o mundo das técnicas mais modernas e sofisticadas, que desempenham um papel fundamental no álbum; o segundo refere-se a mitos antigos: uma ilha misteriosa, um castelo em ruínas, um monstro.

8. Le Sceptre d’Ottokar

O conteúdo deste álbum foi originalmente divulgado entre 4 de Agosto de 1938 e 10 de Agosto de 1939 em Le Petit Vingtième. Nesta aventura é introduzido pela primeira vez a personagem Castafiore. É muito provável que a Bordúria seja uma versão da Alemanha nazis e a Syldavia da Áustria. São numerosas as referências que aparecem e sugerem a comparação: as aeronaves, os uniformes, as tácticas para tomar o poder, etc.

Argumento: Müstler quer anexar a Syldavia à Bordúria. Para conseguir isso, ele quer que o rei não empunhe o ceptro de Ottokar IV durante a Parada do Dia de São Wladimiro, porque isso -segundo a tradição- significaria perder o trono.  Roubando o ceptro, “roubariam” a monarquia e poderiam anexá-la. Tintin, acompanhando um professor, viaja para Syldavia e descobre a conspiração. Então, avisa o rei e evita a anexação.

Comentário: Provavelmente, o que melhor caracteriza este álbum, é o facto de este está preenchido por magníficos desenhos. A história começa como muitas outras aventuras de Tintin: depois de um acto aparentemente vulgar fica-se envolvido progressivamente num tema poderoso cujo significado não se vai plenamente entender até ao final. Além da “invenção” dos dois países que terão continuidade em histórias futuras, a grande dama Bianca Castafiore aparece pela primeira vez em cena.

 9. Le Crabe aux Pinces d’Or

Hergé criou esta história durante a ocupação alemã da Bélgica. O jornal Le Petit Vingtième, que tinha sido publicado as aventuras de Tintin desde 1929, foi encerrado pelos ocupantes. Hergé rapidamente encontrou trabalho no jornal Le Soir, cuja circulação era ainda maior, mantendo uma linha editorial claramente colaboracionista (o que viria a causar muitos problemas a Hergé depois do fim da guerra). Esta história interrompeu a que estava a publicado em Le Petit Vingième, Au Pays de l’Or Noir, por causa das suas implicações políticas. Le Crabe aux Pinces d’Or foi publicado pela primeira vez em 17 de Outubro de 1940, no suplemento semanal do Le Soir. Devido à escassez de papel, o suplemento cessou a publicação em 23 de Setembro de 1941, passando a publicar-se como uma tira diária em Le Soir, ao ritmo de três ou quatro vinhetas de cada vez. Nesse mesmo ano foi publicado integralmente, sendo o último álbum de Tintin a preto e branco. A reedição em 1943 apresenta cortes significativos no argumento, em relação ao original, para ajustá-lo ao modelo de 64 páginas, em comparação com as 130 da edição original.

Argumento: Na história, Tintin vai até ao cargueiro Karaboudjan, onde é capturado por um bando de criminosos que utilizava latas de conserva de caranguejo para o tráfico de ópio. Tintin consegue escapar do camarote em que o tinham trancado, e encontra o capitão do navio, Haddock, completamente embriagado e vítima das maquinações da tripulação. Tintin e o Capitão conseguem escapar do navio e, por fim, acabam estatelados numa avioneta em pleno deserto do Sahara, onde são salvos por um tenente da Legião Estrangeira. Eles acabam em Marrocos onde, com a ajuda de Dupont e Dupont, descobrem o chefe dos contrabandistas e detêm toda o bando.

Comentário: Destaca-se a primeira aparição do álbum do Capitão Haddock, com muitas das suas características essenciais: o gosto por álcool (embora visto aqui com alguns tons dramáticos, ao contrário do que vai acontecer mais tarde) e o seu gosto pelos insultos bizarros. Também se produziu aqui um ponto de viragem na obra de Hergé, que se viu brutalmente obrigado a transformar as suas condições de trabalho com a ocupação alemã da Bélgica.