Hergé, Tintin e a Medicina – dezassete

No quadro 10 descrevem-se os traumatismos sofridos por Tintin com  perda de consciência. Estes são muito variados, desde o clássico soco até um bastão de madeira, passando por bater contra uma árvore ou ser agredido com uma garrafa. Não há até falta de situações exóticas como uma maçã gigante ou um osso… A maioria das situações foi sofrida nas suas primeiras aventuras, como já ficou mencionado. Por duas vezes ele foi hospitalizado e por uma outra fingiu ter desmaiado para escapar de uma situação difícil.

Os episódios de perda de consciência sofridos pelo protagonista por causas não traumáticas estão recolhidos no quadro 11. Existem aqui várias causas: clorofórmio, gás narcótico, quase afogamento, disparos por arma de fogo, intoxicação por monóxido de carbono, estrangulamento, desidratação, hipoxia (baixo teor de oxigénio), acção da anti-gravidade e mesmo hipoglicemia por jejum prolongado. Nem sequer falta o momento “mágico” de ser raptado por extra-terrestres. Em quatro destas ocasiões ele foi hospitalizado, necessitando de cuidados médicos em outras tantas.

Nos quadros 12 e 13 mostram-se os episódios das aventuras de Tintin, com traumatismos sofridos pelas personagens habituais (boas e más) e pelas restantes, sendo Tintin excluído.

O quadro 14 expõe as situações de inconsciência não traumática sofridas pelas restantes personagens, com excepção de Tintin.

Às causas acontecidas com as personagens devem ser adicionados os desmaios sofridos por várias mulheres, especialmente por Bianca Castafiore.

Somando todas as causas de perda de consciência teremos no total 45 episódios por traumatismos afectando 64 personagens assim como 26 situações de confusão para o resto das causas ocorridas com 84 sujeitos. Trata-se de altas percentagens se tivermos em conta que o número aproximado de personagens listadas nas 24 aventuras foi de 325, o que indica que quatro em cada dez delas sofreram um qualquer desfalecimento.

Hergé, Tintin e a Medicina – dezasseis

  • Resultados

Há vários eventos relacionados com o mundo da medicina e da saúde nas aventuras de Tintin, que foram identificados e analisados em detalhe. Como se obtiveram várias centenas de registos (só de Tintin são 161!), foram separados por categorias para uma melhor compreensão, conforme se descreve a seguir. Ao contrário de anteriores trabalhos publicados foram abrangidas todas os personagens da série e não apenas Tintin e os seus companheiros próximos. Os dados foram obtidos através de uma análise descritiva geral e pela comparação de amostras independentes com as variáveis ​​categóricas. 

  • Doenças descritas ou aludidas

A seguir apresentam-se todos os quadros clínicos, sejam sintomas, sinais, síndromas ou doenças mencionadas nas aventuras de Tintin. No quadro 7 observa-se a patologia infecciosa descrita ou referida. No quadro 8 incluem-se as restantes doenças, não infecciosas.

* Doença imaginária presumivelmente causada por uma substância extraída de coca

  • Situações de perda de consciência. Traumatismos.

Sabe-se que golpes, socos, quedas, cabeçadas, porradas, pontapés, patadas e coices são utilizados como um dos principais recursos para produzir comicidade em vários meios de comunicação de massa, como cinema, circo, séries de televisão, desenhos animados e, sem dúvida, os quadradinhos. Isto acontece, especialmente quando estes meios são destinados a um público infanto-juvenil adolescente e revelam-se quase tão frequentes como o número de vinhetas, pelo que foram omitidos neste estudo.

Pela frequência com que o protagonista sofre tais acontecimentos, quis-se diferenciar Tintin do resto das personagens, como pode ser visto no quadro 9. Ele sofre aproximadamente o mesmo número de traumatismos severos (22 versus 26) que o resto das personagens. Um dado importante a ter em conta é que sete em cada dez destes  episódios ocorreram na primeira época das aventuras (historietas a preto e branco), o que dá a ideia de que a princípio Hergé recorria muito mais frequentemente a tais situações, certamente para provocar humor. À medida que  avançou temporariamente na banda desenhada a narração tornou-se mais amadurecida e esses episódios tornaram-se menos comuns.

Hergé, Tintin e a Medicina – quinze

Recorda-se, sumariamente, o conteúdo abordado nesta série: uma tese de doutoramento em Medicina, concretizada em 2015 na Universidade Complutense de Madrid, cujo autor foi o dr. Guillermo Álvarez Calatayud, médico pediatra especialista em gastroenterologia e nutrição, que exerce no Hospital Universitário de Moncloa e no Hospital Materno Infantil Gregório Marañon, além de ser presidente da Sociedad Española de Probiótica y Prebiótica. Como orientador do trabalho da tese contou-se com o catedrático Prof. D. Andrés Bodas Pinedo.

O tema da investigação e tese final foi Hergé, Tintin e a Medicina.

Até agora, na presente abordagem foi dada particular ênfase à súmula bibliográfica dos álbuns de Hergé, seguida do estudo das três personagens principais, Tintin, Capitão Haddock e Milou, sempre respectivamente correlacionados com os episódios em causa. Para efeitos de uma melhor compreensão, aqueles álbuns foram distribuídos por três grupos, de acordo com o ano em que foram elaborados: álbuns a preto e branco (1929-1941), álbuns da “Idade de Ouro” (1942-1953) e álbuns do período final (1954-2004).

Finalmente, aludiu-se à galeria das personagens secundárias.

Para além do inegável interesse público das apreciações pessoais expendidas pelo autor do trabalho. deve anotar-se a subjectividade de algumas, que pessoalmente jamais subscreveria. Limitei-me à sua transcrição, traduzida do original em língua castelhana, sem nada omitir e sem emitir qualquer juízo de valor ou exprimir qualquer avaliação.

Segue-se a abordagem à componente essencial do trabalho do médico pediatra, precisamente a que contempla o seu domínio profissional de intervenção, portanto a Medicina vista através das aventuras de Tintin.

Uma vez que uma parte das próximas transcrições inclui quadros ou tabelas, tal material não é susceptível de  tradução, pelo que figura na sua forma original. Será útil entender minimamente o castelhano, pelo que se fornecem agora algumas pistas prévias.

Uma destas consiste na relação nominal dos álbuns e respectivas referências.

Outra nota significativa tem a ver com nomenclaturas individualizadas. De facto, alguns nomes de personagens são muitos distintos dos usados em língua portuguesa pelo que convém anotar as mais diferenciadas, evitando dúvidas ou escusadas confusões.

É o caso, entre outros de: Tornasol por Tournesol, Hernández e Fernández por Dupond e Dupont, ou Serafín Latón por Seraphin Lampion.

Pelo seu sentido e contexto serão descodificadas algumas putativas disparidades terminológicas, assim se espera…

Quanto aos termos científicos, relacionados com a Medicina propriamente dita, crê-se igualmente que não surgirão dificuldades insuperáveis.

Vai portanto prosseguir, com as devidas admiração e vénia, a transcrição parcelar da interessante obra de pesquisa assinada pelo dr. Guillermo Álvarez Calatayud, ilustre médico pediatra espanhol especialista em gastroenterologia e nutrição e apaixonado por banda desenhada, intitulada Hergé, Tintin e a Medicina.

Hergé, Tintin e a Medicina – catorze

Dr. J. W. Müller

É, como Roberto Rastapopoulos, um dos maiores opositores de Tintin. Aparece pela primeira vez em A Ilha Negra, onde faz de médico e director de um asilo psiquiátrico, mas na realidade dedica-se a liderar uma quadrilha internacional de falsificadores de moeda.
Em Ouro Negro, Müller deixou crescer a barba e actua como agente de companhia de petróleo Skoil, vendendo gasolina adulterada. Tintin encontra-o de novo em Carvão no Porão onde o médico se tornará general do exército do sheik.
Nestor É o mordomo do Capitão Haddock. Aparece pela primeira vez como mordomo do irmãos Loiseau, dois antiquários e criminosos. Quando o capitão Haddock se instala no castelo de Moulinsart contrata-o como seu mordomo, pois sempre o serviu bem. Embora muitas vezes seja repreendido pelo capitão, ele é fiel, ainda que tenha o defeito de ouvir conversas privadas através das paredes.

Seraphín Lampión

É um agente de seguros, pai de numerosa família e sinónimo de aldrabão sem vergonha. Faz a sua primeira aparição no Dossier Tournesol, quando uma avaria no seu carro o obriga a pedir abrigo temporário no castelo de Moulinsart. As suas jovialidade e extroversão fá-lo-ão em breve ganhar familiaridade com o principal habitante do castelo, o capitão, que, no entanto, extremamente se irrita com a sua presença. Lampión tentará fazer um seguro do castelo, o que vai ser a desculpa para repetir as visitas, que rapidamente se farão sem qualquer alibi, sempre acompanhado pela sua numerosa família ou outras personagens.
Incansavelmente, conta anedotas de um tio chamado Anacleto. É radioamador, presidente do Clube do Volante e membro de um grupo carnavalesco.

Abdallah

É o filho único do emir governante do Khemed. É uma criança mimada pelo seu pai, que lhe chama “pequeno tesouro” e está sempre disposto a tolerar e desculpar as suas tropelias desde que não seja ele próprio a vítima. Hiperactivo e insuportável, nunca deixa de fazer partidas a todos os que se cruzam seu caminho, incluindo o próprio Tintin e, especialmente, o Capitão Haddock. Em Ouro Negro, Abdallah é sequestrado pelo Professor Smith (que na verdade é o malvado Dr. Müller) como parte de uma trama envolvendo o sheik Bab el-Ehr, adversário do emir, a companhia aérea Arabair e a petrolífera Skoil, que pretende expulsar Ben Kalish Ezab do poder.

Zorrino

É uma criança indígena Quechua vendedora de laranjas. Tintin salva-o de uma parelha de brutamontes, pelo que Zorrino o servirá a partir de então como guia, no episódio do Templo do Sol. Quando são capturados pelos Incas, Zorrino é perdoado, mas deve permanecer com os outros no templo para o resto dos seus dias.

Outras personagens

Seria impossível e distante do objectivo do trabalho aqui incluir uma lista mais ampla das personagens que ganharam algum destaque nas aventuras de Tintin, mas isso implica “deixar no tinteiro” figuras como o comerciante português Oliveira da Figueira, o piloto estónio Piotr Pst, o coronel sildavo Boris ou Sponsz, seu rival da Bordúria, ou o general Tapioca. É claro que todos os médicos que aparecem nas aventuras serão abordados com especial detalhe.
Apenas mais duas notas: a única personagem que existiu na vida real e também foi contemporâneo dos quadradinhos, foi Al Capone;  e o próprio Hergé se fez figurar por cinco vezes nas aventuras de Tintin.
Para citar dados quantitativos sobre o número de personagens que são nomeadas nas aventuras de Tintin, vemos que no trabalho em castelhano de Toni Costa, El Diccionario de Tintin (Barcelona, ​​Ed. Juventud, 1986), aparecem 120. Se consultarmos uma obra francesa mais ambiciosa, De Abdallah a Zorrino (Mazgovine C., Tournai, Ed. Casterman, 1992), a lista amplia-se para 325 figuras, embora aqui se incluam todas aquelas que apenas são escritas num simples cartão de visita, por exemplo.
Note-se que a percentagem de figuras femininas em ambos os casos ronda, apenas, escassos 5%.

Hergé, Tintin e a Medicina – treze

PERSONAGENS SECUNDÁRIAS

 Professor Tournesol

O Professor Tournesol surge na série das aventuras de Tintin como um modelo real, a viva imagem do professor e inventor Auguste Piccard, um amigo de Hergé. Esta é uma das principais personagens da banda desenhada, sendo talvez a quarta maior depois de Tintin, Milou e o Capitão Haddock. O recurso ao sábio distraído já tinha antecedentes nestas aventuras, por exemplo, com Philemón Ciclón, o egiptólogo, ou com o especialista em numismática e filatelia.

Na sua primeira aventura Tournesol aparece como um cientista surdo que disponibiliza a uma expedição científica um submarino em forma de tubarão. O recurso à surdez concede ao autor a oportunidade de o apresentar em vários gags pelo que parece lógico supor que decidiu mantê-lo assim, como uma das personagens estáveis da série. É um homem honesto e bonacheirão. Com o dinheiro ganho com a venda do submarino ao governo compra o castelo de Moulinsart para o capitão Haddock, como compensação por este tê-lo deixado testar o aparelho na expedição Unicórnio.

Os papéis que desempenha nas histórias são os mais variados, que vão desde o pretexto da distracção em alguns gags pela sua surdez ou outras excentricidades, até ser quem resolve um problema cientifico ou desenvolve um dispositivo que vai ter algum utilidade no enredo. Muitas vezes a aventura gira mesmo em torno dele.

Na dupla aventura lunar desenvolve a tecnologia que permite realizar a viagem para a Lua. Esta história constitui uma excepção ao carácter de Tournesol e da ciência em geral, pois refere que a sua especialidade é a Astronáutica, funcionando em instalações de alta tecnologia rodeado por uma grande equipa de cientistas, para o que usa um aparelho auditivo. Começa então a ouvir pelo que as confusões típicas da sua surdez não têm mais lugar e a sua actividade como cientista desenvolve-se como normal.

Uma característica típica do Professor Tournesol é a de usar um pêndulo e praticar a radiestesia.

Dupond e Dupont

Trata-se de uma dupla de agentes da polícia secreta idênticos na aparência e no vestuário, cuja única diferença é a forma do bigode. Em traduções para o castelhano não parece haver um critério seguro para atribuir o nome Hernández ou Fernández ao que tem o bigode mais caído ou mais ondulado, pelo que os seus nomes mudam indiferentemente de álbum para álbum e, por vezes, até dentro do mesmo. No entanto, este não é um detalhe muito importante porque eles sempre aparecem juntos e não parecem ter personalidades muito diferentes.

O vínculo que os une nunca é muito claro; não parecem ser irmãos porque têm apelidos diferentes. Em algumas aventuras é sugerido que vivem juntos; eles chamam-se um ao outro “amigo” ou “colega”. As outras personagens consideram-nos como “os inseparáveis”, “os polícias” ou simplesmente “os Dupondt’s”. Hergé, provavelmente, apenas teve a intenção de caricaturar um certo tipo de funcionários, em tudo idênticos aos seus colegas.

São duas personagens dotadas de personalidades bastante distraídas e não muito lúcidas, que resultam incompetentes quanto às missões que lhes são atribuídas. O seu papel nas histórias é geralmente secundária, provocando certos gags, fornecendo alguma informação útil a Tintin, que os introduzirá numa aventura ou os faz chegar como reforços quando esta quase está concluída. As confusões mais habituais em que caem estão relacionadas com o seu estremo cuidado em quererem passar despercebidos usando um disfarce que julgam típico do lugar, mas que na realidade é ridículo. Normalmente também costumam confundir-se com o que estão investigando, ainda que possivelmente a sua característica mais marcante seja a de que, quando um deles diz algo, o outro repete-o mudando apenas as palavras, dizendo desta forma o contrário ou algo sem sentido…

A sua primeira aparição aconteceu na história Os Cigarros do Faraó, o quarto álbum da série, em que procuram prender Tintin por suposto tráfico de drogas. Note-se que nesta aventura mostram um enorme engenho e coragem ao conseguirem salvar a vida de Tintin, condenado à morte por fuzilamento, assim como a de Milou, prestes a ser sacrificado a uma divindade hindu para ofender uma vaca sagrada.

Mesmo quando os seus disfarces são eficazes, tal faceta é completamente anulada pela personalidade confusa revelada em outras situações.

Hergé, Tintin e a Medicina – doze

As personagens principais

TINTIN

Tintin é um jovem, loiro, de altura mediana e tem uma mecha de cabelo muito particular e única. A sua idade é difícil de determinar; não é propriamente um adolescente, mas também não é um adulto. Como muitas vezes acontece com as personagens de quadradinhos, Tintin pouco mudou ao longo dos anos. De 1929 a 1983 manteve a sua aparência jovem e o próprio vestuário variou pouco, apenas a cor das meias ou da camisa. Só na último das suas aventuras completas publicada mudará as suas calças largas, à golf,  por jeans, mais à moda.

Ele é extremamente inteligente e espirituoso, tem muito mais força física do que aparenta, possui uma incrível facilidade para usar idiomas e sabe conduzir todos os tipos de veículos, incluindo aviões e tanques de guerra. É também um bom atirador. É uma pessoa íntegra que nunca aceita qualquer tipo de chantagem. É muito sensível perante a injustiça e capaz de sacrificar-se para ajudar os mais fracos. Um sacerdote lama dirá dele que tem o “coração puro”.

Um de seus melhores amigos é Tchang (para além do Capitão Haddock e de Milou), um adolescente chinês que conhece na sua quinta aventura, reforçando uma amizade que vai durar toda a vida. Este realmente é um alter-ego de Hergé, já que Tchang é baseado num autêntico amigo do autor, também dele separado por várias razões.

Tintin sempre aparece com o mesmo nome, que não tem necessariamente de ser o seu apelido (caso contrário não receberia correio para “Sr. Tintin”). Ao contrário de outras personagens da série, o leitor nunca conhecerá o seu nome completo (como acontece, por exemplo, com o malvado Roberto Rastapopoulos).

Capitão Archibald Haddock

Depois de sua aparição inicial, Haddock foi ganhando crescente protagonismo ao longo dos álbuns.

Na verdade, a riqueza de recursos desta personagem pode ser comparada com a de figuras próprias da novelística: uma de suas características é agir como um contraponto ao Tintin, sobretudo nos momentos em que este se torna “demasiado idealista.” Como curiosidade, os leitores não saberão o significado do apelido desta personagem até ao último álbum completo de Hergé. Este nome do marinheiro surgiu numa conversa que o autor teve com a sua esposa, em que esta mencionou que “haddock” significava um “triste peixe inglês”.

O capitão é descendente de um outro famoso homem do mar, o Cavaleiro Hadoque, marinheiro ao serviço do rei da França e grande inimigo do pirata Rackham le Rouge.

Geralmente assume uma vocação de burguês rural, ao invés se comportar como homem da alta sociedade europeia, especialmente após a descoberta do tesouro dos seus antepassados ​​e o sua estabilização no castelo de Moulinsart.

Além de alcoolismo, a que vamos nos referir mais tarde, é a sua linguagem que  tornou famosa esta personagem, sobretudo pelas exclamações proferidas em momentos de raiva, verdadeiros insultos que também têm sido objecto de estudo, para além das suas características de comicidade.

Milou

É um cão fox-terrier de pelo duro e branco, cujo nome se deve ao da primeira namorada de Hergé, quando tinha 18 anos. No entanto, é um macho. Dono e cão são tão inseparáveis ​​que durante muitos anos a série sobre as peripécias do intrépido repórter se intitulou As Aventuras de Tintin e Milou. Nos primeiros álbuns da série, Milou desempenha um papel central, porque é a única companhia do seu dono. Ambos mantêm verdadeiras conversas, onde o cão agora ocupa o lugar de confidente e do objector.

Ao contrário do seu dono, Milou é caracterizado por ter os pés firmemente assentes no chão; não está obcecado com a missão a cumprir, sendo a sua principal aspiração a tranquilidade, o que o leva muitas vezes a desconfiar das iniciativas de Tintin, chegando mesmo a criticar algumas destas, como quando considerou como uma “carnificina” a matança desenfreada de animais que ele levou a cabo na sua aventura Tintin no Congo.

Apesar de ser indeciso, por vezes, Milou liberta-se das suas hesitações quando se trata de resgatar Tintin, para o que recorre às suas criatividade e coragem. No entanto, às vezes é-lhe permitido vacilar entre um osso encontrado na estrada e o seu propósito fundamental de proteger o seu dono. O cão e o capitão são personagens da mesma ordem de grandeza, que equilibram com alegria aquilo que Tintin pode ter de excessivamente sábio ou virtuoso. Possivelmente é por esta razão que o papel de Milou ficou visivelmente diminuído após o aparecimento de Capitão Haddock na série.