Ó tempo, volta p´ra trás…

Houve um tempo, prolongado, em que os denominados mapas satíricos foram muito populares, sobretudo como instrumento político. Isso aconteceu em épocas de crise, de guerra e de permanente conflito diplomático, nomeadamente na Europa. O nosso continente foi quase sempre um torvelinho de interesses cruzados que se prestavam à crítica literária e gráfica. Os mapas satíricos procuraram explicar essas tensões de forma gráfica e estética, tendo atingido apreciável eficácia comunicacional.

São inúmeros os casos exemplares de mapas satíricos europeus. O que aqui hoje se recorda data de 1887, precisamente há 130 anos, e teve como título A Europa de hoje. Bismarck defendia um exército alemão poderoso, ingleses e italianos aliavam-se para manter o status quo no Mediterrâneo, abria uma conferência colonial em Londres, cavava-se febril tensão entre a França e a Alemanha por questões de espionagem e por aí fora…

Por cá sonhávamos com o mapa cor-de-rosa e fazíamos acordos com a China por causa de Macau, reinando D. Carlos que via nascer o malogrado herdeiro Luís Filipe…

Voltando ao curioso mapa satírico de 1887, célebre no seu tempo, constituiu uma separata do Nebelspälter, jornal suíço de expressão alemã em Zurique. O mais irónico de tudo é que tenho dado voltas à cabeça para descobrir diferenças significativas entre aquela Europa de há 130 anos e a de hoje.

Ainda não as consegui encontrar…

As imagens falam como gente

Tenho muito apreço pela escrita e pela literatura, mas a minha maior inclinação pende para a imagem e a sua capacidade comunicacional. A sábia associação entre ambas conduziu-me, desde sempre, ao fabuloso universo da banda desenhada. Aliás, dou aqui no blog conta muito explícita e frequente desta preferência.

A prática profissional proporcionou-me a permanente vivência das questões da expressão pela imagem, o que considero como um privilégio. Depois, alguns felizes acasos da vida permitiram-me um estreito e prolongado contacto com autênticos mestres desta área e basta-me entre estes citar dois, Calvet de Magalhães e René la Borderie, para exemplificar com rigor tão raras oportunidades de formação. Quer a partilha da pedagogia amplamente confirmada quer a própria possibilidade de investigação constituíram inesquecíveis e proveitosas experiências pessoais que me marcaram.

Sou por isso particularmente sensível a tudo quando diga respeito à utilização quotidiana das imagens, em particular das que os diversos meios de comunicação escolhem para efeito de ilustração, visando objectivos bastante distintos, por vezes manipuladores e quase inconfessáveis. Incluo aqui censuras, mutilações, distorções e manipulações das imagens, muito mais frequentes do que se possa pensar, sobretudo nas campos da publicidade e da política.

O caso que hoje abordo é recente e passou relativamente despercebido entre nós.

A Getty Images é uma organização dedicada a constituir-se como a fonte de conteúdos visuais mais confiável e apreciada do mundo, com mais de 200 milhões de activos disponíveis através de sites líderes da indústria da imagem internacional. A organização atende clientes criativos, empresariais e de meios de comunicação em quase 200 países e é o primeiro lugar onde as pessoas se dedicam a descobrir, comprar e compartilhar poderosos conteúdos dos melhores fotógrafos e criadores de vídeo de todo o mundo.

A Getty Images trabalha com mais de 200 mil colaboradores e centenas de parceiros de imagem para fornecer uma cobertura abrangente de todos os eventos de notícias, desportos e entretenimento, assim como o arquivo digital mais abrangente do universo da fotografia histórica.

Ora foi aqui que recentemente os órgãos de comunicação foram colher imagens ilustrativas de uma recente cimeira europeia onde Trump participou e teve oportunidade para conhecer e conferenciar com Putin.

Entre a profusão de imagens sequenciais de todas as sessões, algumas abrangeram certas figuras carismáticas da política mundial. Acontece que a Andalou Agency, organização oficial turca de informação, terá aproveitado uma dessas fotografias onde constavam, entre outras personagens, os presidentes Trump, Macron e Erdogan, assim como a primeira-ministra Merkel, para lhes “juntar” o presidente Putin. Ora esta situação nunca terá acontecido, pelo menos naquele local e naquele momento.

E o “acrescentado” Putin à cadeira vazia parece mesmo constituir a figura central das atenções protagonizadas por todo o grupo…

Como manipulação de imagem e de intenções está perfeita, apenas lhe faltando ser autêntica. Apenas!

Logo um site nacional lhe juntou, em alternativa, uma nova personagem, Marques Mendes.

Pela minha parte, não quis ficar atrás e posso garantir que naqueles momento e lugar estava efectivamente sentada na cadeira a dupla Tintin-Milou. Aqui fica a prova, devidamente documentada, porque o fotógrafo estava lá.

A imagem fala como gente.

Se alguém dela duvidar, aconselha-se um pedido de confirmação junto dos presidentes Trump e Erdogan porque, como é sabido, estes dizem sempre a verdade e só a verdade.

O iceberg alentejano

Quando há dias o jornal Público trouxe a notícia de um gigantesco iceberg que se tinha desprendido na Antárctida, o meu primeiro pensamento consistiu numa surda maldição dirigida a Trump e a todos os que ainda não perceberam o que se está a passar. O comportamento irresponsável e criminoso desta gente não leva em linha de conta os sucessivos e dramáticos avisos que os mais prudentes têm vindo a lançar, desesperados, na tentativa de suspender e corrigir as práticas anti-ecológicas que vêm provocando cataclismos ditos naturais, como é o caso presente.

Mas confesso que emendei o meu raciocínio quando li a versão on line daquela mesmíssima notícia. Ora antes do mais, aqui fica a sua reprodução, “ligeiramente” diferente da constante do jornal.

Anda à deriva um icebergue do tamanho de Portalegre
Imagine um bloco de gelo a flutuar na Antárctida
com o dobro do tamanho do Luxemburgo.

Mais do dobro do tamanho de Luxemburgo. Um quinto dos quilómetros quadrados da Bélgica. Um quarto do tamanho do País de Gales. É assim o icebergue que navega por águas frias com, aproximadamente, o tamanho do Algarve.
Um bloco de gelo com quase seis mil quilómetros quadrados que se soltou de uma plataforma de gelo, a sul do continente americano. Estamos a falar de um icebergue com o dobro do tamanho da área metropolitana de Lisboa. Ou o equivalente ao distrito de Portalegre. 


Uma fenda separou a plataforma Larsen C de um icebergue, recém-nascido, com o tamanho de 800 mil campos de futebol. A gigantesca massa está no top 10 dos maiores blocos de gelo flutuantes vistos pelo homem. O maior tinha quase o dobro do tamanho, com onze quilómetros quadrados, segundo o Guardian. 
Apenas 10% dos icebergues são visíveis. Ou seja, quem avistar o bloco gélido só verá uma pequena percentagem de um objecto flutuante que deverá ganhar o nome de A68.
O desprendimento de uma área gelada superior à do território de países como o Brunei ou Cabo Verde foi confirmado nesta quarta-feira por cientistas, através de imagens recolhidas por satélite.
A separação do icebergue, porém, não vai afectar o nível do mar, porque o gelo que já se desprendeu já estava no oceano, se bem que alguns cientistas receiem que possa acelerar a desestabilização da Larsen C.
Segundo a Agência Espacial Europeia (AEE), o icebergue será um dos maiores da Antárctida, com 1155 quilómetros cúbicos de gelo, equivalente à água necessária para encher 462 milhões de piscinas olímpicas.

PÚBLICO on line
12 de Julho de 2017, 19:30

Fiquei a pensar, sobretudo, na primeira linha do título, onde se anuncia que o iceberg à deriva tem o tamanho de Portalegre, distrito, como se pode confirmar pelo miolo do texto e pela gravura ilustrativa. A partir de então, embora não tivesse obtido a confirmação oficial, passei a acreditar num oportuno golpe publicitário da Entidade Regional de Turismo alentejana.

Estou mesmo a ver a continuação da iniciativa, com o próximo envio de um pastor de São Mamede para bordo do bloco flutuante e o desfraldar de uma larga tira com a inscrição: Em Portalegre é mais fresquinho!

Posso mesmo admitir que quando o iceberg estiver mais derretido será fraccionado em blocos menores depois transportados para locais seleccionados da região, onde ficarão expostos até à sua passagem ao estado líquido, logo depois devidamente engarrafado e vendido como recordação turística. Genial!

Trump que se lixe, embora -à cautela- seja conveniente devolvê-lo à prática do Acordo de Paris.

Entretanto, viva o iceberg patrocinado pelo distrito de Portalegre!

 

Carta aberta ao intelectual Francisco Geraldes

Caro Chico Geraldes

Há um gajo das literaturas que escreveu um dia que não deve o sapateiro passar além das chinelas. Tu foste contratado para dares pontapés ou cabeçadas na bola e não para leres nos intervalos e antes ou depois dos desafios. Assim, estás a fornecer um mau exemplo aos mais jovens.

Enfim, ainda se lesses a Bola ou o Record vá que não vá… Mas leres Saramago, antes do jogo com o Valência, é o máximo! E logo o Ensaio sobre a Cegueira! És mesmo ceguinho… Por que não frequentas apenas cartilhas pedagógicas e outros bons textos como eu faço?

Para mais és reincidente. Ainda há uns meses, quando acabou o jogo da tua malta contra o Boavista, regressaste a casa no metropolitano, como qualquer gajo do povo,  e até foste fotografado a ler. A ler!!!???

Dessa vez, ao que parece, até lias o livro de um tipo coreano a criticar a Coreia do Norte, imagine-se. Não sabes que isso é muito perigoso?

Segue o meu conselho: trata mas é de comprar um Mercedes, Ferrari,  Porsche, Maserati ou Jaguar como fazem os teus colegas e regressa em beleza a casa sem te entregares a esse péssimo vício da leitura. E ouve os clássicos, como os teus companheiros do banco, Ágata, Tony Carreira, Emanuel, José Malhoa, Quim Barreiros…

Bem fizeram o Bruno mais o Jesus que te obrigaram a devolver os livros enviados pela Fundação Saramago. Tentações do diabo… E foi justo o castigo, embora me pareça muito brando, de seres obrigado a empunhar em público um esférico em vez de um livro, de teres à disposição um maço de jornais desportivos em vez dessas porcarias da literatura, que só servem para embrutecer o espírito. Vai por mim!

E trata mas é de ver e ouvir as minhas palestras na televisão e de leres os meus mails, para aprenderes alguma coisa de jeito.

Recebe um amistoso pontapé nas canelas do teu

Gedro Puerra

VAMOS DESAPARECER TODOS DO MAPA ou APOCALYPSE NOW

VAMOS DESAPARECER TODOS DO MAPA
ou APOCALYPSE NOW (parte II)

Confesso que nem por estar avisado e precavido neste tétrico assunto me preparara psicologicamente para tão depressa voltar ao assunto. Penitencio-me por isso mas declaro a minha total inocência.

Até posso passar por bruxo, como o tal “general” guineense, dilecto conselheiro e protector desportivo, mas nada disso, repudio veementemente tal insinuação.

Deixei aqui há dias a sugestão de que alguém viria profeticamente anunciar uma meteórica colisão com o nosso planeta e não é que aconteceu mesmo tal previsão!?

Por mim até sei disso, em teoria, desde que o “profeta” Hergé o declarou, em A Estrela Misteriosa, pelos distantes anos quarenta do passado século, quando foi prevista a catastrófica e fatal aproximação de um meteorito.

Agora é a credenciada NASA que confirma a suposição, a sério. Reproduzo o aviso oficial há escassos dias divulgado.

Houston, não temos um problema, temos uma oportunidade”. A Agência Espacial dos Estados Unidos prepara-se para desviar um asteróide que se aproxima da Terra. Não que venha em rota de colisão, vai apenas passar relativamente “perto”, a cerca de 11 milhões de quilómetros de distância, mas a NASA encara-o como o momento perfeito para testar a sua tecnologia de desvio de satélites, caso algum dia venha a ser realmente necessário utilizá-la. 

É um passo crítico para demonstrar que podemos proteger o nosso planeta de um impacto futuro de asteróides”, disse à BBC Andy Cheng, do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, Maryland (EUA), que também participa do projecto .

O alvo será um asteróide chamado Didymos (“gémeo” em grego), que conta com um sistema binário: o Didymos A, com aproximadamente 780 metros de comprimento, e o Didymos B, um corpo menor que o envolve, com 160 metros. O Didymos deverá passar aos tais 11 milhões de quilómetros de distância, em Outubro de 2022 e mais tarde em 2024.

A missão da NASA chama-se DART, a sigla em inglês de Redireccionamento do Asteróide Duplo, e a ideia é bater no asteróide a uma velocidade de 6 km por segundo (“nove vezes mais rápido que uma bala”, diz a Agência) para o levar a mudar a sua órbita, como podemos ver no filme a seguir.

Esta animação mostra como o Teste de Redireccionamento do Asteróide Duplo da NASA (DART) escolhe o alvo e atinge o elemento menor (à esquerda) do asteróide binário Didymos, demonstrando como um impacto cinético poderá redireccionar um asteróide, como parte do programa de defesa planetária da agência.

Tenho a convicção de que, para não nos assustar, a NASA declara que o tal asteróide vai passar a 11 milhões de quilómetros da Terra. Faz-me lembrar, ao contrário, aqueles relatadores desportivos que gritam ter roçado o poste da baliza uma bola que passou a uns cinco ou seis metros…

Por aqui me fico por hoje.

Para tranquilidade dos leitores, guardo para mim o pressentimento que me assalta sobre o próximo cataclismo cósmico. Não quero ser acusado de desestabilização da opinião pública.

Já nos basta, e sobra, o caso de Tancos…

António Gonçalves de Bandarra