José Vilhena – dois

Amanhã, sábado, 26 de Julho, será lançado o fac-simile da obra seleccionada entre a vastíssima produção de José Vilhena, Branca de Neve e os 700 Anões, de 1962.

Como tantas outras, foi devidamente arrecadada pela censura. Por óbvios motivos. Versão libérrima, e moderníssima, do clássico conto dos irmãos Grimm, colocou-lhe aí Vilhena o mais “subtil” do seu humor. Dedicando a sua criação à Mariazinha da Travessa da Cara, à Milú, à Fanny, à Alice Loira, à Odette, à Berta Bexigosa, à Micas das Escadinhas do Duque e a outras, não se esqueceu de lhes agradecer os indispensáveis conselhos técnicos para a perfeita ambientação da comovente história.

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Era uma vez uma menina muito boa (como o estimado leitor pode observar detalhadamente na página ao lado) e branca como o vigésimo que semanalmente compramos. – assim começa o relato, que se espraia por mais de 140 páginas de um livro de bolso, profusamente ilustrado com desenhos, vinhetas e fotografias.

Se tiveram ou não meninos e quantos foram, não se sabe ainda, pois o feliz enlace dura há uns escassos meses, mas é de presumir que, mais ano menos ano, comecem a aparecer e, se as poeiras radioactivas o permitirem, herdem dos seus pais as qualidades que os fizeram felizes neste mundo. – assim termina o conto, escusando-me eu de aqui lhe juntar o post-scriptum, por óbvios motivos que se prendem com a moral pública…

Prefiro, mais prosaicamente, reproduzir aqui o texto de apresentação que Rui Zink elaborou para Branca de Neve e os 700 Anões, divulgado no jornal Público na passada quarta-feira, 23 de Julho.

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José Vilhena – um

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Em Dezembro do passado ano, há cerca de seis meses, falei aqui de José Régio motivado por um pretexto que agora de algum modo se repete. Lembrei então o seu volume Jogo da Cabra Cega, apreendido pela censura da época, e logo a seguir o Fado. Este veio a propósito de ser divulgada pelo jornal Público, numa das suas interessantes e oportunas iniciativas culturais, uma edição fac-similada integrada numa colecção que contou com mais títulos de outros autores.
Agora, muito brevemente, numa outra série da responsabilidade do mesmo jornal, dedicada a obras apreendidas pela censura, vai surgir uma edição fac-similada do Jogo da Cabra Cega. Depois de títulos assinados por nomes como Natália Correia, Aquilino Ribeiro, José Cardoso Pires, Alves Redol, Henrique Galvão, Vergílio Ferreira, Soeiro Pereira Gomes, Miguel Torga, Mário Cesariny de Vasconcelos, Mário Soares e outros, eis que chega uma outra série, curta, que conta precisamente com José Régio, Ary dos Santos ou Álvaro Cunhal.

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Porém, o nome aparentemente mais surpreendente inserido nesta nova relação é o de José Vilhena, que ninguém se atreveria a colocar num rol de literatos ou intelectuais. Conhecido como humorista, ele escreveu, ilustrou, editou e chegou mesmo a distribuir dezenas de títulos da sua especialidade. Sobretudo, tornou-se conhecido, amado e odiado, pela seu natural espírito subversivo das boas normas intelectuais e morais do Estado Novo. Preso e solto, acusado e ilibado, ele voltou sempre a afrontar as consciências do tempo. Quem o conheça apenas pelas suas obras, já livres de peias porque produzidas após a Revolução de Abril, nomeadamente Gaiola Aberta, ignora as dezenas de livros (à volta de 70) que ele lançou a partir dos inícios dos anos 60. Tal atrevimento levou-o por diversas vezes à PIDE, como não podia deixar de ser, para logo reincidir…

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José Vilhena, que provavelmente deterá o recorde do número de obras apreendidas pela censura, merece amplamente estar representado nesta série. Vou dedicar-lhe três pequenos textos, sendo este o primeiro, seguindo-se os restantes amanhã e depois. É precisamente no sábado, 26 de Julho, que será lançado o fac-simile da obra seleccionada, Branca de Neve e os 700 Anões, de 1962.
Na próxima semana, a 31 de Julho, 1 e 2 de Agosto, será José Régio o aqui contemplado, a propósito de Jogo da Cabra Cega, a sair neste último dia.

Amores e humores taurinos

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Bruno Nogueira ameaçado pelos homens dos toiros

Bruno Nogueira desistiu de participar num espectáculo que decorreu no sábado, dia 12 de Julho, na praça de toiros de Montemor-o-Novo, depois de ter sido alvo de “ameaças” supostamente feitas por aficionados da “festa brava”.bruno nogueira

O humorista, publicamente denunciado pela Associação de Tradições e Cultura Tauromáquica (ATCT) como “um confesso e ativo anti-taurino”, foi substituído no “show” pelo seu colega Aldo Lima.

Segundo os organizadores do espectáculo, a Amazing Produções, Bruno Nogueira foi retirado do cartaz por estar a receber “ameaças anónimas e constantes” depois de a ATCT ter publicado um manifesto contra a presença do humorista naquele recinto.

Nesse documento, a ATCT referia que o humorista era um militante anti-touradas e que permitir a presença dele numa praça de toiros seria quase como autorizar uma conferência de Bin Laden nas bruno nogueira 2Torres Gémeas de Nova Iorque antes do atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001.

“Será que vamos oferecer ao humorista anti-taurino tempo de antena e recursos para que possa manifestar-se, na nossa própria casa, contra a actividade que defendemos?”, perguntava-se no documento da ATCT, que concluía assim: “Do que de nós depender, pirómanos não dão palestras em quartéis de bombeiros…”

Bruno Nogueira, que acabou por desistir do espectáculo, por “razões de segurança”, no dizer da Amazing Produções, ainda não comentou pessoalmente o assunto.

Sapo Notícias, em 15 de Julho de 2014

E você, já pleonasmou hoje?

CHARGE PLEONASMOE você, já pleonasmou hoje?

Todos os portugueses sofrem de pleonasmite, uma doença congénita para a qual não se conhecem nem vacinas nem antibióticos. Não tem cura, mas também não mata. Mas, quando não é controlada, chateia (e bastante) quem convive com o paciente.
O sintoma desta doença é a verbalização de pleonasmos (ou redundâncias) que, com o objectivo de reforçar uma ideia, acabam por lhe conferir um sentido quase sempre patético.
Definição confusa? Aqui vão quatro exemplos óbvios: “Subir para cima”, “descer para baixo”, “entrar para dentro” e “sair para fora”.
Já se reconhece como paciente de pleonasmite? Ou ainda está em fase de negação? Olhe que há muita gente que leva uma vida a pleonasmar sem se aperceber que pleonasma a toda a hora.
Vai dizer-me que nunca “recordou o passado”? Ou que nunca está atento aos “pequenos detalhes”? E que nunca partiu uma laranja em “metades iguais”? Ou que nunca deu os “sentidos pêsames” à “viúva do falecido”?
Atenção que o que estou a dizer não é apenas a minha “opinião pessoal”. Baseio-me em “factos reais” para lhe dar este “aviso prévio” de que esta “doença má” atinge “todos sem excepção”.
O contágio da pleonasmite ocorre em qualquer lado. Na rua, há lojas que o aliciam com “ofertas gratuitas”. E agências de viagens que anunciam férias em “cidades do mundo”. No local de trabalho, o seu chefe pede-lhe um “acabamento final” naquele projecto. Tudo para evitar “surpresas inesperadas” por parte do cliente. E quando tem uma discussão mais acesa com a sua cara metade, diga lá que às vezes não tem vontade de “gritar alto”: “Cala a boca!”?
O que vale é que depois fazem as pazes e vão ao cinema ver aquele filme que “estreia pela primeira vez” em Portugal.
E se pensa que por estar fechado em casa ficará a salvo da pleonasmite, tenho más notícias para si. Porque a televisão é, de “certeza absoluta”, a “principal protagonista” da propagação deste vírus.
Logo à noite, experimente ligar o telejornal e “verá com os seus próprios olhos” a pleonasmite em directo no pequeno ecrã. Um jornalista vai dizer que a floresta “arde em chamas”. Um treinador de futebol queixar-se-á dos “elos de ligação” entre a defesa e o ataque. Um “vereador da autarquia” dirá que gere bem o “erário público”. Um ministro anunciará o reforço das “relações bilaterais entre dois países”. E um qualquer “político da nação” vai pedir um “consenso geral” para sairmos juntos desta crise.
E por falar em crise! Quer apostar que a próxima manifestação vai juntar uma “multidão de pessoas”?
Ao contrário de outras doenças, a pleonasmite não causa “dores desconfortáveis” nem “hemorragias de sangue”. E por isso podemos “viver a vida” com um “sorriso nos lábios”. Porque um Português a pleonasmar, está nas suas sete quintas. Ou, em termos mais técnicos, no seu “habitat natural”.nuno abrantes ferreira
Mas como lhe disse no início, o descontrolo da pleonasmite pode ser chato para os que o rodeiam e nocivo para a sua reputação. Os outros podem vê-lo como um redundante que só diz banalidades. Por isso, tente cortar aqui e ali um e outro pleonasmo. Vai ver que não custa nada. E “já agora” siga o meu conselho: não “adie para depois” e comece ainda hoje a “encarar de frente” a pleonasmite!
Ou então esqueça este texto. Porque afinal de contas eu posso estar só “maluco da cabeça”.

Nuno Abrantes Ferreira
em P3, jornal Público, de 4 de Setembro de 2013

as redacções da ritinha – 19

mosquito

há muito tempo que não escrevo aqui nada porque não tenho tido quase nada para dizer desde que o meu tio emigrou para o nepal e ainda não encontrou o tal senhor neves e aqui na escola da reboleira tudo vai na mesma mas parece que o senhor ministro do crato ou lá de que terra é ele quer acabar com a nossa escola e nós já temos umas greves organizadas para quando ele cá vier fechar a porta à chave ora bem o que eu hoje quero aqui dizer é por causa dos exames porque o meu pai trouxe um jornal cá para casa com as provas escritas e com os resultados e com as opiniões que até dizem que tem sido tudo muito fácil até parece que os exames não foram inventados para reprovarem os alunos e isto agora já não é o que era diz o meu pai porque no tempo dele até reprovavam os meninos ricos que queriam ir para os liceus para serem doutores e tudo e não eram só os pobrezinhos que chumbavam diz ele que até os exames eram por isso mais democráticos e mais justos porque cortavam a torto e a direito com os olhos fechados como aquela estátua que está na vila à porta do tribunal e depois até disse queres ver eu guardei um exame do tempo do meu avô e vê lá se és capaz de o resolver se fores capaz até te dou aquele telemóvel que tu me pediste o ano passado pelo natal e eu gostava mesmo de ganhar o telemóvel por isso trago aqui o exame para ver se me ajudam a resolvê-lo para eu ganhar o telemóvel e diz o meu pai que aquele exame era feito para os meninos de há setenta anos acho que isso foi no tempo do dom afonso henriques ou lá próximo mas o que eu quero é o telemóvel por isso façam o favor de resolver isso como se fossem meninos de dez anos daqueles tempos da carochinha façam favor de me mandarem as respostas sem o meu pai dar por isso porque se descobre que eu fiz batota não me dá o telemóvel mas se não forem capazes também não faz mal paciência que eu prometo não dizer nada ao senhor ministro do crato porque ele até era capaz de passar a escrever os exames da agora à moda desses exames do tempo de dom afonso henriques e estragava tudo porque já não diziam que é tudo muito fácil e ritinhaentão aqui fica o exame todo completo com o ditado e o desenho e as instruções e tudo e mais um beijinho da 

ponto a ponto b ponto c ponto d ponto e ponto f ponto g ponto h ponto i

Vamos dar uma coça à Alemanha

Coloquei aqui este texto, qua achei delicioso, pelas 18 horas e picos, mal começou a 2.ª parte do encontro de futebol Alemanha-Portugal.

14 razões mais ou menos absurdas para
Portugal ganhar à Alemanha

Deixámos a táctica de lado e decidimos perceber por outras vias por que razão Portugal é claramente superior à Alemanha. Se não acredita, é só ler este texto.

Socorremo-nos de um dos maiores escritores argentinos para justificar as linhas que seguem. Disse então Jorge Luis Borges, que não era propriamente apreciador da modalidade em que 22 jogadores correm atrás de uma bola, o seguinte: “O futebol é popular porque a estupidez é popular”.
Sem ofensa para os amantes do futebol, aqui ficam, portanto, 14 razões incomuns (recheadas de ironia, mas inteiramente válidas, claro) para os portugueses derrotarem hoje os alemães.

1. Há que dar uma coça na austeridade
É verdade que a troika é um grupo formado pela Comissão Europeia, pelo Banco Central Europeu e pelo Fundo Monetário Internacional, ou seja, nenhum dos organismos é alemão. Contudo, a grande cara da austeridade é claramente Angela Merkel, a chanceler alemã. O que nos leva à segunda razão.

2. Angela Merkel vai ao jogo e Passos Coelho não

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Angela Merkel não irá festejar hoje (esperam os portugueses) Na tribuna de honra do Arena Fonte Nova, em Salvador, estará a chanceler alemã a vibrar, pelo que os portugueses têm aqui o momento ideal para lhe dar um desgosto. Melhor ainda é o facto de o primeiro-ministro português não ir ao jogo (tal como Cavaco Silva), não fosse desmotivar algum jogador.

3. Ronaldo sabe bem o que é marcar golos a alemães
Ok, na verdade Cristiano Ronaldo nunca marcou um golo à Alemanha ao serviço da selecção portuguesa (no Mundial-2006, no Euro-2008 e no Euro-2012). Contudo, já marcou a alemães, nomeadamente ao titular da baliza alemã, Manuel Neuer, do Bayern Munique. Só aí, ao serviço do Real Madrid, foram quatro, mas o total de Ronaldo perante os alemães ascende a 10 golos em 13 jogos (Estugarda, Schalke 04, Borussia Dortmund e Bayern Munique). Nada mau.

4. Ronaldo é o melhor marcador dos Mundiais, à frente de dois alemães
Com 15 golos em Mundiais, Ronaldo é o melhor marcador de sempre da história dos Mundiais, à frente dos alemães Miroslav Klose (que está neste Mundial no Brasil) e Gerrd Muller (que já se retirou), com 14 golos. Bom, na realidade este Ronaldo não é o Cristiano, mas sim o brasileiro Luís Nazário de Lima, o ‘Fénomeno’ (o verdadeiro, como disse José Mourinho). Mas o que interessa é que vai à frente dos alemães.

5. Os alemães já tiveram felicidade suficiente para um dia
A boa notícia do dia de hoje veio da Alemanha: o ex-piloto de Fórmula 1 Michael Schumacher acordou do coma. Depois de seis meses no hospital, já foi para casa. Ficamos todos muito felizes. Por isso os alemães já não precisam de mais vitórias hoje.

6. Se um camelo diz que Portugal vai ganhar, então é porque vai mesmo

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Depois disto ninguém tem dúvidas: Portugal vai ganhar Lembra-se do polvo Paul, que ficou famoso pelas suas previsões no Mundial-2010? Pois bem, agora já não há polvo, mas há um camelo. Chama-se Shaheen e tem sido utilizado por um jornal do Dubai, Gulf News, para prever os resultados. Até agora, ainda não terá falhado nenhuma previsão. E diz que Portugal vai ganhar.

7. Afinal temos avançados que fazem golos
Diz-se que Portugal não tem grandes avançados, mas o registo de golos na selecção de Hélder Postiga e Hugo Almeida nem está mau: 46. Só Éder ainda não conseguiu marcar, mas ainda só leva sete internacionalizações, pelo que vai mais do que a tempo. E depois temos um tipo chamado Ronaldo, que já fez 49 golos pela selecção.

8. Temos um seleccionador que não mete a mão no nariz a meio dos jogos
É verdade que Paulo Bento tem aquele penteado que se sabe (que agora está muito melhor, atenção), mas dá 10-0 em classe ao seu homólogo Joachim Low. Isto porque o seleccionador alemão já foi apanhado várias vezes em jogos… a tirar macacos do nariz. Algum decoro, senhor Low, por favor.

9. Hugo Almeida tem um bigode espectacular

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Cortar o bigode, eu? Só se ganharmos o Mundial Não há coincidências, meus amigos. Em 1985, Portugal qualificou-se para o Mundial devido a um golaço de Carlos Manuel frente à Alemanha, precisamente. E o que é que Carlos Manuel (assim como a maioria dos jogadores de então da selecção) tinha? Um bigode, pois claro. E Hugo Almeida voltou a mostrar o seu poder de fogo perante a Irlanda, agora que tem bigode. Coincidência? Nada disso.

10. Já olharam bem para Raul Meireles?

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É possível que os alemães venham a ter pesadelos à noite com este homem A senhora Meireles que nos perdoe, porque na realidade Raul Meireles é um rapaz encantador (é mesmo), mas tem um ar meio peculiar. Portanto, é aconselhável aos alemães não o irritarem. Porque depois tudo pode acontecer. Pensem bem: vão num beco escuro, à noite, sozinhos. Querem mesmo meter-se com Raul Meireles?

11. O árbitro é sérvio
Na realidade o registo português com Milorad Mazic não é lá grande coisa. O árbitro de 41 anos apitou o Benfica na Turquia, perante o Fenerbahçe, e os benfiquistas perderam. Apitou o Sporting de Braga, perante o Manchester United, e os bracarenses perderam. Apitou o Nacional da Madeira, na recepção ao Birmingham… e houve um empate (menos mal). Contudo, todos sabemos as grandes alegrias que os sérvios têm dado ultimamente ao Benfica, pelo que há altas probabilidades (ou então não) deste sérvio também dar uma ajudinha aos portugueses.

12. Portugal já derrotou a Alemanha três vezes
Não estamos aqui a pedir propriamente um feito utópico (do género espetar quatro na Espanha… ah, espera, Portugal também já fez isso), estamos a pedir algo que já foi feito. Três vezes. A 23 de Fevereiro de 1983, num amigável, por 1-0; a 16 de Outubro de 1985, na qualificação para o Mundial, por 1-0 (o tal golo de Carlos Manuel); e a 20 de Junho de 2000, no Europeu, por 3-0, com um hat trick de Sérgio Conceição (e a jogar com os suplentes…). Por outro lado, Portugal já perdeu nove vezes com a Alemanha, e empatou outras cinco, mas isso não interessa nada.

13. Neymar e Messi já marcaram
No final do Mundial será eleito o craque da Copa. E, para o trono, há três candidatos: o brasileiro Neymar, o argentino Messi e o português Ronaldo. Neymar já bisou, Messi marcou e levou a Argentina às costas e agora Ronaldo… Ronaldo vai brilhar hoje.

14. Ninguém gosta dos alemães
Isto é um facto e há estudos científicos sobre isto (não há nada): ninguém gosta dos alemães. São sisudos, têm a mania que mandam na Europa e, pior do que isso, ganham sempre tudo. Foi o ex-internacional inglês Gary Lineker que celebrizou aquela que é provavelmente a frase mais famosa sobre a selecção alemã, em 1990, quando a Inglaterra perdeu a meia-final do Mundial nos penáltis perante a Alemanha. “O futebol é um jogo simples. Vinte e dois homens correm atrás de uma bola durante 90 minutos e, no fim, os alemães ganham sempre”. Contudo, a frase já tinha sido utilizada antes, pelo inglês Pete Davies, da seguinte forma: “Campo rectangular, bola redonda, não se pode usar as mãos. Ao fim de 90 minutos, ganham os alemães, os outros revoltam-se e os ingleses encolhem os ombros, dizendo que a verdadeira guerra foi ganha por eles em 1945″. Aos ingleses já Portugal ganhou de forma épica, por isso já só falta mesmo a Alemanha.

Mariana Cabral
Expresso on line, Segunda feira, 16 de Junho de 2014

 

Agente 327 – I

327 cabeçalho

James Bond, o agente secreto 007, é um dos mitos do nosso tempo. Figura da ficção romanesca é levada, por vezes, muito a sério. Surgiu em livros de bolso, por meados do século passado, devido à inspiração de um autor, Ian Fleming. Daí ao cinema, à televisão, aos videojogos e aos quadradinhos foi um passo.

As características pessoais e técnicas do super-espião, os seus sofisticados equipamentos de deslocação, de controlo ou de morte, tudo produzido pela mais alta tecnologia, o enquadramento legal da organização “oficial” a que pertence, o MI-6, os seus super-adversários e as suas poderosas organizações, as suas apaixonadas amantes, as super-belas bond-girls, até mesmo os genéricos ou as bandas sonoras dos seus filmes, os seus requintes e extravagâncias (vodka martini batida, não mexida!), etc., etc., etc., tudo isso junto e muito mais fizeram da figura do agente secreto 007 algo de transcendente, invulgarmente transcendente.

01 - 007

O universo jamesbondiano tem sido explorado ao mais alto nível, em estudos universitários, teses de doutoramento, exigentes currículos escolares. Volumes, ensaios sérios e levados a sério, uma imensidão de artigos dispersos por revistas e jornais continuam a ser-lhe dedicados. Um dia, quando perguntaram ao presidente John F. Kennedy qual era o seu herói preferido, ele não hesitou: – James Bond!

James Bond na banda desenhada é, apenas, um capítulo deste universo plurifacetado. São inúmeras as adaptações em quadradinhos, quer de histórias de Fleming, quer de puras ficções sem a mínima relação com uma fidelidade mínima às origens. As nossas revistas, em páginas, ou os jornais, em tiras, fizeram do 007 um proveitoso e largo consumo.

Algumas iniciativas interessantes foram entre nós realizadas a propósito do universo 007 desenhado, como o oportuno aproveitamento da conjunção sete de sete de sete (7 de Julho de 2007) para a realização de um salão de banda desenhada, cartoons e caricaturas, na Amadora, subordinado ao tema 007 Ordem para Humorar. Incluiu trabalhos de autores de sete países, incluindo01 - 327 Portugal.

O comissário do evento, Osvaldo de Sousa, escreveu oportunamente a tal propósito: Optamos por ser irreverentes e não comemorar as sete virtudes, nem as sete maravilhas, apenas um herói que tem ordem para matar em nome de Sua Majestade“. Ora é precisamente esta inspiração que procurarei agora prolongar um pouco.

Passo a explicar.

Entre as minhas recensões de BD, à margem das colecções propriamente ditas, encontram-se algumas curiosas e inteligentes paródias ao mito James Bond.

Uma destas consiste numa criação de origem holandesa, série da qual foram publicadas entre nós (que eu conheça) quatro aventuras: Dossier Círculo das Bruxas (22 páginas), Dossier Subaquático (22 páginas), Dossier Forte Cristóforo (44 páginas) e Dossier …[?, sem tradução do flamengo] (44 páginas). O autor, holandês, é Martin Lodewijk (Martinus Spyridon Johannes Lodewijk, nascido em Roterdão no ano de 1939), praticamente desconhecido em Portugal, apesar de ter sido galardoado com o grau de Cavaleiro da Ordem de Orange-Nassau, em 2011, pela sua obra de banda desenhada.

01 - capas

Das histórias de Lodewijk aqui divulgadas, as três primeiras atrás citadas (2+1) foram publicadas em dois álbuns, por Amigos do Livro, Editores, em 1981. Estes surgem com alguma frequência disponíveis no mercado de usados da especialidade.

01 - autor e figuraO mesmo não se passa com a quarta das histórias, cujo título nem sequer foi traduzido do original holandês, onde se chama Dossier Stemkwadrater, termo que não consegui descodificar, embora nele surja a palavra voz (stem), que até faz sentido na narrativa… Ora esta foi publicada em sucessivos fascículos de quatro páginas no antigo semanário Observador, no início do segundo semestre de 1972, quase uma década antes das outras aventuras.

O Observador, semanário surgido nos princípios de 1971 e dirigido por Artur Anselmo e José Martins, trouxe uma certa lufada de ar fresco ao bafiento ambiente nacional da época, mas não teve grande êxito editorial.  01 - observ

Daquela história nele publicada, iniciativa pioneira entre nós, nunca li qualquer referência, o que a torna praticamente inédita, mais de quarenta anos após tão restrita divulgação.

O contexto, as personagens, as constantes referências e a tonalidade global destas histórias constituem uma inteligente e saudável paródia aos mitos de James Bond.

O agente 327, dos serviços secretos holandeses, luta pelo lema “Justiça e Paz Mundial“, na Europa e no resto do mundo, usando disfarces “criativos”, e  revela-se frequentemente desastrado, causando sérios problemas aos seus superiores. Franzino e um pouco cobardolas, no entanto bem humorado, consegue apesar de tudo ter sucesso nas suas missões, graças a uma razoável dose de inconsciência e sobretudo de muita sorte à mistura. O seu nome de baptismo é Hendrik Ijzerbroot.

01 - observador

01 - grupoFrequentemente surgem nas suas aventuras ficcionais pitadas de eventos históricos autênticos e até personagens famosas da vida real. O resto é uma delirante narrativa, que por vezes poderia mesmo causar inveja ao próprio James Bond.

Criada por Martin Lodewijk em 1966, embora com um hiato entre 1983 e 2000, já terão sido publicadas na Holanda cerca de três dezenas de álbuns desta personagem.