Eu, fumador, me confesso

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Para já, convém dizer que usei uma imagem chocante só para assustar, imagem e título incluído. Na realidade, não fumo, nunca fumei. Há uma excepção e essa serve de tema para a chocante imagem anexa, aqui ao lado.  Fumo, e logo um charuto dos que trouxe um dia de Cuba, sempre que o Sporting ganha o Campeonato Nacional de futebol. E como o meu clube tem para comigo o maior dos carinhos, poupa-me a saúde e concede-me raras e espaçadas oportunidades para me intoxicar. Ora isto é que se chama um amor retribuído.

[esclareço que nada fumei quando da recente conquista da Taça de Portugal; só valem os campeonatos nacionais; já agora rectifico a declaração acima porque onde se lê um charuto deve ler-se meio charuto; aquela gabarolice é excessiva e provocar-me-ia vómitos]

Toda esta conversa vem a propósito da recente decisão governamental de afixar imagens tenebrosas nos maços de tabaco, para assustar e desmotivar os consumidores. Na lista estão fotografias de caixões de crianças, pulmões cancerosos, dentes podres e membros mutilados.

cigarro

Não concordo com esta decisão porque a acho esteticamente de mau gosto e até porque os fumadores passarão a puxar do cigarro sem olhar sequer para o maço, por exemplo. E também discordo por incoerência. Para isto ser a sério, então deviam fazer afixar a imagem de bêbedos tombados por terra e vomitados nos rótulos de todas as garrafas de vinho, deviam afixar imagens de obesos em todas os pacotes de batatas fritas e fotografias de pés diabéticos em todos os refrigerantes.

Já agora, para a coerência ser total, no cabeçalho de cada portaria ou despacho ou lei ou decreto ou escrito do género no DR devia ser impresso um carimbo a vermelho, dizendo: Cuidado, o uso desta legislação faz mal à saúde, à educação, à bolsa, à segurança, enfim, a palavra final era conforme ao assunto versado no texto. Assim, sim.

Sinceramente, muito sinceramente, acho que não é com choques que lá vamos. Já nos bastaram os aplicados pela troika, ou não!?

Afinal, nisto do combate ao tabagismo, até temos o que me parece serem exemplos de bom gosto, talvez mais eficazes do que as imagens de terror agora proclamadas. Lembro apenas uma, que creio suficiente para se perceber a diferença.

antitabagismo

E resta-me aguardar uns milagres de Jesus, para dar conta dos charutos que me sobraram da tal agradável e saudosa ida a Cuba, ainda nos tempos de Fidel. O meu receio, agora e para o futuro, é tornar-me um fumador inveterado após tamanho jejum…

 António Nicot de Azevedo Coutinho

Explicação bíblica de Jesus

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Como acho que um blog deve prestar
Serviço Público, aqui vai a minha contribuição.

Uma breve e simplificada explicação aos Couratianos

São 6 milhões, mas maioritariamente incultos e de fraca memória, que não se lembram da data da sua fundação, andam baralhados e nem percebem bem o acontecimento bíblico com que se depararam.

O Jesus de hoje, como o de ontem, usou também uma barriga de aluguer (o Benfica), e fez-se homem (treinador de top), tendo à sua volta um Burro e uma Vaca (é indiferente e podem escolher entre o Luís Filipe Vieira e/ou o Rui Costa).

Também há um Diabo (que neste caso se chama Gabriel), não tenho a certeza se um Noé mas seguramente a sua Arca bem composta (Estádio da Luz).

Vou abreviar muitos acontecimentos e chego à paixão de Cristo…

E agora ressuscitou e foi para o Céu (o Sporting).

Acho que assim percebem.

António Coutinho

O idiota lusófono

O arquitecto Lúcio Dantas é um amigo nordestino a quem a causa dalúcio dantas ligação entre as Portalegre’s portuguesa e brasileira muito deve. O seu papel na recepção e  no desvelado acompanhamento da primeira embaixada portalegrense portuguesa a Natal e Portalegre RN, quando dirigia a Secretaria de Estado do Turismo do Rio Grande Norte, foi decisivo nessa aproximação, depois sedimentada por visitas oficiais e pessoais à nossa terra.

Sempre que me desloquei a Natal e Portalegre RN contei com a sualucio dantas actuante dedicação. De há algum tempo é assídua e interveniente a sua presença, através de mensagens e do envio de interessante participação em páginas portuguesas. De um desses últimos envios, porque o  achei particularmente oportuno e curioso, aqui reproduzo o essencial da sua partilha de um artigo da revista brasileira SuperInteressante.

Esta publicação mensal, que dispõe de uma versão on line, faz jus ao seu título, pois apresenta em geral um conteúdo de curiosidades culturais e científicas, divulgadas de forma simples, acessível e imparcial. Publica-se desde 1987 e pertence à conceituada Editora Abril.

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O artigo em questão, datado de Julho deste ano, intitula-se Idiota à brasileira mas podia perfeitamente chamar-se Idiota à portuguesa. Foi redigido pelo jornalista e publicitário Adriano Silva, que dirigiu a revista entre 2000 e 2005.

Com um abraço amigo a Lúcio Dantas, aqui reproduzo o magnífico pretexto que me proporcionou para, na pena inspirada de Adriano Silva, retratar uma “fauna” que também por aqui faz carreira. Porque, para o bem e para o mal, somos irmãos!…idiota 3

 NOTA – O texto é reproduzido, como originariamente, em português do Brasil. O respeito pelas diferenças que nos aproximam e reciprocamente nos enriquecem apenas não é entendido pelos sequazes do Acordo Ortográfico.

 Idiota à brasileira

Ele não faz trabalhos domésticos. Não tem gosto nem respeito por trabalhos manuais. Se puder, atrapalha quem pega no pesado. Trata-se de uma tradição lusitana, ibérica, reproduzida aqui na colônia desde os tempos em que os negros carregavam em barris, nos ombros, a toilete dos seus proprietários, e eram chamados de “tigres” – porque os excrementos lhes caíam sobre as costas, formando listras. O Perfeito Idiota Brasileiro, ou PIB, também não ajuda em casa.

Influência da mamãe, que nunca deixou que ele participasse das tarefas – nem mesmo pôr ou tirar uma mesa, nem mesmo arrumar a própria cama. Ele atira suas coisas pela casa, no chão, em qualquer lugar, e as deixa lá, pelo caminho. Não é com ele. Ele foi criado irresponsável e inconsequente. É o tipo de cara que pede um copo d’água deitado no sofá. E não faz nenhuma questão de mudar. O PIB é especialista em não fazer, em fazer de conta, em empurrar com a barriga, em se fazer de morto. Ele sabe que alguém fará por ele. Então ele se desenvolveu um sujeito preguiçoso. Folgado. Que se escora nos outros, não reconhece obrigações e adora levar vantagem. Esse é o seu esporte predileto – transformar quem o cerca em seus otários particulares.

O tempo do Perfeito Idiota Brasileiro vale mais que o das demais pessoas. É a mãe que fura a fila de carros no colégio dos filhos. É a moça que estaciona em vaga para deficientes no shopping. É o casal que atrasa uma hora para um jantar com amigos. As regras só valem para os outros. O PIB não aceita restrições. Para ele, só privilégios e prerrogativas. Um direito divino – porque ele é melhor que os outros. É um adepto do vale-tudo social, do cada um por si e do seja o que Deus quiser. Só tem olhos para o próprio umbigo e os únicos interesses válidos são os seus.

O PIB é o parâmetro de tudo. Quanto mais alguém for diferente dele, mais errado esse alguém estará. Ele tem preconceito contra pretos, pardos, pobres, nordestinos, baixos, gordos, gente do interior, gente que mora longe. E ele é sexista para caramba. Mesma lógica: quem não é da sua tribo, do seu quintal, é torto. E às vezes até quem é da tribo entra na moenda dos seus pré-julgamentos e da sua maledicência. A discriminação também é um jeito de você se tornar externo, e oposto, a um padrão que reconhece em si, mas de que não gosta. É quando o narigudo se insurge contra narizes grandes. O PIB adora isso.

O PIB anda de metrô. Em Paris. Ou em Manhattan. Até em Buenos Aires ele encara. Aqui, nem a pau. Melhor uma hora de trânsito e R$ 25 de estacionamento do que 15 minutos com a galera do vagão. É que o Perfeito Idiota tem um medo bizarro de parecer pobre. E o modo mais direto de não parecer pobre é evitar ambientes em que ele possa ser confundido com um despossuído qualquer. Daí a fobia do PIB por qualquer forma de transporte coletivo.

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Outro modo de nunca parecer pobre é pagar caro. O PIB adora pagar caro. Faz questão. Não apenas porque, para ele, caro é sinônimo de bom. Mas, principalmente, porque caro é sinônimo de “cheguei lá” e “eu posso”. O sujeito acha que reclamar dos preços, ou discuti-los, ou pechinchar, ou buscar ofertas, é coisa de pobre. E exibe marcas como penduricalhos numa árvore de natal. É assim que se mostra para os outros. Se pudesse, deixaria as etiquetas presas ao que veste e carrega. O PIB compra para se afirmar. Essa é a sua religião. E ele não se importa em ficar no vermelho – preocupação com ter as contas em dia, afinal, é coisa de pobre.

O PIB também é cleptomaníaco. Sua obsessão por ter, e sua mania de locupletação material, lhe fazem roubar roupão de hotel e garrafinha de bebida do avião e amostra grátis de perfume em loja de departamento. Ele pega qualquer produto que esteja sendo ofertado numa degustação no supermercado. Mesmo que não goste daquilo. O PIB gosta de pagar caro, mas ama uma boca-livre.

E o PIB detesta ler. Então este texto é inútil, já que dificilmente chegará às mãos de um Perfeito Idiota Brasileiro legítimo, certo? Errado. Qualquer um de nós corre o risco de se comportar assim. O Perfeito Idiota é muito mais um software do que um hardware, muito mais um sistema ético do que um determinado grupo de pessoas. Um sistema ético que, infelizmente, virou a cara do Brasil. Ele está na atitude da magistrada que bloqueou, no bairro do Humaitá, no Rio, um trecho de calçada em frente à sua casa, para poder manobrar o carro. Ele está no uso descarado dos acostamentos nas estradas. E está, principalmente, na luz amarela do semáforo. No Brasil, ela é um sinal para avançar, que ainda dá tempo – enquanto no Japão, por exemplo, é um sinal para parar, que não dá mais tempo. Nada traduz melhor nossa sanha por avançar sobre o outro, sobre o espaço do outro, sobre o tempo do outro.

arar no amarelo significaria oferecer a sua contribuição individual em nome da coletividade. E isso o PIB prefere morrer antes de fazer.

Na verdade, basta um teste simples para identificar outras atitudes que definem o PIB: liste as coisas que você teria que fazer se saísse do Brasil hoje para morar em Berlim ou em Toronto ou em Sidney. Lavar a própria roupa, arrumar a própria casa. Usar o transporte público. Respeitar a faixa de pedestres, tanto a pé quanto atrás de um volante. Esperar a sua vez. Compreender que as leis são feitas para todos, inclusive para você. Aceitar que todos os cidadãos têm os mesmos direitos e os mesmo deveres – não há cidadãos de primeira classe e excluídos. Não oferecer mimos que possam ser confundidos com propina. Não manter um caixa dois que lhe permita burlar o fisco. Entender que a coisa pública é de todos – e não uma terra de ninguém à sua disposição para fincar o garfo. Ser honesto, ser justo, não atrasar mais do que gostaria que atrasassem com você. Se algum desses códigos sociais lhe parecer alienígena em algum momento, cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus do PIB. Reaja, porque enquanto não erradicarmos esse mal nunca vamos ser uma sociedade para valer.

Adriano Silva

Parábola do filho pródigo

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Nova parábola do filho pródigo (Lusitânia, 23.08.14)

Jesus continuou em nova parábola:

A tribo rival, a dos Leónidas, tinha vários filhos.

Um deles, de nome Naniscus, dissera em já distante dia ao seu pai: “Quero a minha parte do contrato”. E foi para uma região distante, a pérfida Albion, e lá desperdiçou os seus bens, depois quase vivendo na ociosidade.

Então, Naniscus começou a ter saudades da casa paterna.

O pai, Brunus Quercus, aproveitou oportunidade favorável, quando outro filho, Rojus, quis também partir. E então, trocou ambos, assim recuperando o que perdera.

Chegando Naniscus junto ao pai, disse-lhe: “Pai, pequei contra a família e contra ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus gladiadores”.

Mas o pai disse ao treinador dos gladiadores, Marcus Silvius: “Depressa! Traz o melhor equipamento e vistam nele. Coloquem-lhe o número 77, que só o Tintin usou, e calçado novo em seus pés. Tragam também aqueles tipos das terras selvagens da Arouquência e desafiem-nos para o combate. Vamos fazer um torneio e comemorar. Pois este meu filho, Naniscus, estava fugido e voltou à família; estava perdido e foi achado”. E começaram a festejar. Comiam enquanto pelejavam, por verdes terras de Alvalaxis.

Enquanto isso, o filho mais velho, berbere de nome Slimanus, estava fora. Quando se aproximou da casa, ouviu palmas e assobios.

Ao aperceber-se do que se passava, disse ao pai, Brunus Quercus: “Olha! todo este tempo tenho trabalhado como um escravo ao teu serviço e nunca desobedeci às tuas ordens. Mas tu nunca me deste nem um cabrito, pelo Ramadão, para eu festejar com os meus amigos. Mas, quando volta para casa esse fugitivo, matas o novilho gordo para ele!

Respondeu-lhe o pai: “Meu filho, tu tens estado sempre comigo, e este teu irmão estava morto e voltou à família, estava perdido e foi achado”.

Por esta altura, fazia Naniscus grossa asneira, quando roubou ao irmão Adrianus um prato de lentilhas e logo sofregamente comeu mas vomitou para fora o que comera, assim desperdiçando sacrilegamente o alimento. Filho pródigo que se assume esbanjador permanece…

Não se conteve Marcus Silvius e chamou-o, expulsando-o do torneio contra os de Arouquência. E estes vencidos foram, mas já se tinha esgotado o tempo da peleja, quando Manelius entrou finalmente na sua rija fortaleza, após Tanakus ter esbarrado com estrondo em forte poste da vertical defesa adversa.

E assim terminou em beleza a rija festa que coroou o regresso de Naniscus, apesar de este, talvez turvado pela ingratidão, quase tudo ter feito para a ensombrar.

 

E assim concluiu Jesus a sua parábola:

Cuidado é preciso usar e bastante, porque a tribo rival aqui nos visita, em Lux, no nosso reino da Aquila, e muito em breve. Posso desconfiar de que Slimanus, descontente com o desigual tratamento que Brunus a Naniscus terá concedido, se prepare também para desertar do reino dos Leónidas, seguindo Rojus. Mesmo assim, se Naniscus tiver recuperado da sua indigestão do guloso e desperdiçado manjar, pode para nós ser perigoso adversário e é preciso usar de toda a atenção e manha.

Por isso, e em verdade vos digo, a parábola do filho pródigo deve ser levada a sério. Assim está escrito nos testamentos e quem sou eu, pobre mortal, para os desmentir?