Nova carta aberta ao incorrigível Francisco Geraldes

 Caro Chico Geraldes

Servindo de intermediário, publiquei aqui há uns meses a carta aberta que um tipo avisado e inteligente te quis fazer chegar. Agora sou eu, em pessoa, que te quero abrir os olhos.

Acabaste de ter de sair do Sporting, emprestado ao Rio Ave, por causa da tua inclinação para as literaturas. Os grandes clubes não gostam de jogadores que pensem em mais do que seja dar pontapés ou cabeçadas na bola.

Mas não apreendeste a lição. Mal chegaste a Vila do Conde, em vez de estudar as tácticas locais, deu-te logo para ires ter com José Régio. Foste logo apanhado com o livro Sonho duma Véspera de Exame na mão. Não tens mesmo juízo nem conserto!

Bem sei que é verdade teres aí aprendido qualquer coisa, o suficiente para ajudares a transformar o sonho dos teus adversários benfiquistas no pesadelo duma véspera de tabela classificativa. Eu sei. Mas não te fies na sorte.

Régio não escreveu Confissão de um Homem Futebolista, Poemas do Árbitro e do Fiscal-de-linha, As Encruzilhadas do Treinador, Jogo do Offside ou Davam Grandes Passeios aos Estádios, nem sequer Os Avisos do Vídeo-Árbitro. Se alguém te garantir isso não acredites porque será gente perversa que te quer ver no Atlético de Rio de Moinhos, no Académico de Ribafria ou no Sport Lisboa e Alguidares de Baixo.

Olha, caro Chico Geraldes, deixa-te mas é de literatices e agarra-te ao esférico. Se fizeres isso, voltas ao Sporting em beleza e tens futuro assegurado, porque jeito não te falta.

José Régio, posso garantir-to, não vai ficar chateado. Já agora, fica sabendo que ele também escreveu sobre futebol, em 1951, no Capas Negras, um jornalzinho escolar do liceu de Portalegre onde dava aulas como professor de Português e de Francês, dando pelo nome de Dr. Reis Pereira.

Aqui te mando um recorte desse artigo e espero que, lendo-o, fiques curado de vez.

Um abraço amigo do

António

Como reagi ao sismo

Foi uma surpresa. Durante a minha matinal diligência rotineira recebi, incrédulo, a notícia. Durmo pouco mas quando durmo durmo mesmo – balbuciei em desculpa pela minha ignorância. Qual história, isto foi mesmo agora! – replicaram-me. Pensei melhor: descera pela escada para colocar o lixo nos contentores. Como chuviscava decidi regressar em busca de um protector boné. Creio que iria no elevador a essa precisa hora, 7:44 TMG, e dentro da gaiola não terei dado pelo abanão. Nesse breve regresso a casa nada notara de anormal…

E então informaram-me com rigorosa e diligente precisão, compensando a minha insegurança. De um prestimoso telemóvel logo digitalmente me leram que aquilo tinha sido um sismo com 4,3 de magnitude na escala de Richter, localizando-se o epicentro perto de Sobral de Monte Agraço, que até nem sequer fica muito longe de Peniche, ou então, se eu preferisse, o abanão tinha sido de intensidade III na escala de Mercalli modificada.

Em complemento da minha estupefacção, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera garantiu-me que nestas emergências os objectos suspensos baloiçam, a vibração é semelhante à provocada pela passagem de veículos pesados ou à sensação de pancada duma bola pesada nas paredes, os carros estacionados balançam, janelas, portas e loiças tremem, os vidros e loiças chocam ou tilintam e, na parte superior deste grau as paredes e as estruturas de madeira rangem. Fiquei vivamente impressionado…

Ao regressar a casa arquitectava já um texto para o blog que se chamaria Despedimento colectivo com justa causa. É melhor explicar as coisas antes que se pense ter eu ficado tão excessivamente abalado que já nem era capaz de raciocinar direito.

Tenho instalado em casa, na sala de estar onde por definição quase sempre estou, um sofisticado sistema de alarme sísmico. Está sobre uma vitrina onde guardo umas largas dezenas de souvenirs, recordações dispersas de milhentas idas pelo mundo fora. O sistema foi adquirido lá fora, creio que na Turquia, se a memória não me atraiçoa. São seis acrobatas que se conseguem equilibrar por meio de prodígios de paciência, formando uma espécie de vertical triângulo em mais do que precária instabilidade. Se alguém passa ao lado com alguma ligeireza, se abro a gaveta logo abaixo ou a porta envidraçada do móvel, logo o conjunto ruidosamente se desmorona. Trata-se do meu sistema anti-sísmico. Presumi que não teria funcionado tal como eu nada senti.

Continuei portanto a organizar mentalmente o texto explicativo. Deveria nele incluir um pedido de desculpas ao primeiro-ministro e ao ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, pelo meu involuntário contributo pessoal para o desmantelamento das suas estatísticas do desemprego, mas paciência… Os seis tipos não mereceriam outro destino pela sua manifesta incompetência.

Ao chegar a casa fui quase a correr confirmar a minha expectativa.

Os acrobatas estavam por terra…

António Tremuras