Milou e os outros

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Aqui há dias, na vidraça de um estabelecimento comercial da “ilha”, dei com um curioso anúncio, publicitando a venda de cachorros fox terrier recentemente nascidos, LOP, com vacinas e isentos de parasitas. Confesso que nem sequer sabia que LOP significa que o Clube Português de Canicultura emite a respeito de
um animal o documento onde atesta que este pertence a uma determinada raça reconhecida como tal. Portanto, com identidade devidamente registada e comprovada, os cachorros publicitados pertencerão de facto à família  fox terrier.milou7

O mais curioso do anúncio, em si mesmo vulgar, é o seu enquadramento ilustrativo, onde se faz apelo ao mais famoso fox terrier da História da Humanidade canina, o célebre Milou.

Não pretendo, nem lá perto, fazer-me eco publicitário do negócio, mas não posso deixar sem um comentário o inegável bom gosto e o sentido de oportunidade do responsável pela organização gráfica do folheto e pelo seu conteúdo como mensagem.

Nascido no mesmo dia que Tintin, 10 de Janeiro de 1929, Milou vai a caminho dos 88 anos. Duvido que estes seus “primos” durem tanto tempo pois apenas com muita sorte atingirão um quarto dessa idade. Mas faço votos de que sejam igualmente fortes, fiéis, inteligentes, teimosos, persistentes, activos, afectuosos e amigos dos seus futuros donos.

Milou tem uma inteligência a toda a prova e, apesar de uma ou outra intervenção menos feliz e até de uma ou outra hesitação comprometedora, está incondicionalmente ao lado de Tintin, protegendo-o. Hergé, o criador, disse a este propósito: Para mim, Tintin é o herói, Dom Quixote. Precisava de um Sancho Pança, e esse era o Milou.

milou8De um pormenor estou seguro: cada um destes “primos” será incapaz de dialogar com o seu dono, tal como ele faz, em permanência. Em todas as suas aventuras, evocadas no cartaz agora em apreço, Milou esteve sempre ao lado de Tintin e foi, mais do que companheiro, um confidente.

Acho portanto que falta aqui um aviso, o de que fox terrier chamado Milou há só um e mais nenhum. O resto, com todo o respeito, é imitação.

Poesia Matemática

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Millôr Viola Fernandes nasceu no Rio de Janeiro em 16 de Agosto de 1923 e foi um original e criativo desenhador, humorista, dramaturgo, escritor, poeta, tradutor e jornalista brasileiro.

Num auto-Currículo publicado por Millôr quando da sua estreia no jornal “O Dia“, Rio de Janeiro, escreveu:

Millôr Fernandes nasceu. Todo o seu aprendizado, desde a mais remota infância. Só aos 13 anos de idade, partindo de onde estava. E também mais tarde, já homem formado. No jornalismo e nas artes gráficas, especialmente. Sempre, porém, recusou-se, ou como se diz por aí. Contudo, no campo teatral, tanto então quanto agora. Sem a menor sombra de dúvida. Em todos seus livros publicados vê-se a mesma tendência. Nunca, porém diante de reprimidos. De 78 a 89, Janeiro a Fevereiro. De frente ou de perfil, como percebeu assim que terminou seu curso secundário. Quando o conheceu em Lisboa, o ditador Salazar, o que não significa absolutamente nada. Um dia, depois de um longo programa de televisão, foi exactamente o contrário. Amigos e mesmo pessoas remotamente interessadas – sem temor nenhum. Onde e como, mas talvez, talvez – Millôr, porém, nunca. Isso para não falar em termos públicos. Mas, ao ser premiado, disse logo bem alto – e realmente não falou em vão. Entre todos os tradutores brasileiros. Como ninguém ignora. De resto, sempre, até o Dia a Dia”.

Durante quase uma década, de Setembro de 1964 a Abril de 1974, Millôr Fernandes, humorista carioca, foi o grande artífice da relação cultural Brasil-Portugal. Nas quartas-feiras, e sempre na página 17, ele publicou uma página semanal de textos e desenhos humorísticos no vespertino português de maior audiência naquele período, o Diário Popular, num total de quase 500 números. Chamava-se O Pif-Paf, que Millôr escrevia e desenhava, não necessariamente por essa ordem, e fazia o leitor rir e pensar, não necessariamente por essa ordem.

O Pif-Paf tinha começado por ser uma secção na revista brasileira O Cruzeiro, produzida por Millôr, sob o pseudónimo de Emmanuel Vão Gôgo, juntamente com o ilustrador Péricles Maranhão, entre 1945 e 1963 (a partir de 1955, Millôr assumiu sozinho a produção).

Millôr foi demitido pela direcção d’O Cruzeiro num editorial de primeira página em Outubro de 1963, após 25 anos na revista.

Em Maio de 1964 lançou O Pif-Paf, uma publicação satírica e pioneira na imprensa alternativa brasileira que durou apenas três meses e oito números apesar da sua popularidade, uma existência abreviada pela censura da ditadura militar, que manda fechar a revista. O primeiro número de O Pif-Paf no Diário Popular foi publicado apenas um mês depois, a 30 de Setembro de 1964 – anunciado na primeira página do jornal:

Não deixe de ler hoje na 17.ª página a famosa secção humorística PIF-PAF (Cada exemplar é um número e cada número é exemplar) de Millôr Fernandes (Um escritor sem estilo)

Numa entrevista à revista Cadernos de Literatura Brasileira em Julho de 2003, Millôr Fernandes contou que o convite do Diário Popular o salvou – é verdade que entre 1964 e 1967 praticamente só escreveu teatro, entre peças originais, traduções e adaptações, no Brasil. “Eu tenho a maior simpatia por Portugal. Até porque eles me salvaram a vida. Depois de 1964, quando saí d’O Cruzeiro, fiquei na miséria, devendo dinheiro, ainda que eticamente me sentisse aliviado. Um dia, chego aqui, e vocês não vão acreditar, tinha uma cartinha por baixo da porta. Abri, era de Portugal, do Diário Popular. Estavam me oferecendo fazer uma colaboração e ganhar o equivalente a mil dólares por mês. O Diário era o jornal mais lido do país, vendia 180 mil por dia. Pedi 5.000, acabei fechando por 3.000 dólares. Aí eu peguei a prancheta, fiquei até de madrugada, mandei três desenhos para lá. Uma semana depois, chegam aqui 2.000 dólares; na semana seguinte, mais 2.000 dólares e, na outra, mais 2.000. Mandaram 6.000 dólares. Salvaram a minha vida naquele momento”.

Diz-se que Salazar terá uma vez comentado a página de Millôr no Diário Popular com um dos seus assessores, dizendo: “Este tem piada, pena que escreva tão mal o português”.

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O último número de O Pif-Paf no Diário Popular foi publicado a 24 de Abril de 1974 – véspera da revolução que derrubou o regime ditatorial em Portugal. Quem sabe o que aconteceu? Resta a especulação. “Pode ter sido uma questão contabilística”, sugere o escritor português Ferreira Fernandes. “Ele ganharia aquilo que merecia ganhar? Não. Mas provavelmente pensou-se que era muito e deixou-se cair.” E também porque, numa altura em que as redacções dos jornais se tornam ultra-politizadas e são dominadas pela esquerda, a geopolítica milloriana não seria propriamente prezada. “Ele é anti-americano, como é anti-comunista, goza com a União Soviética e com a China”, resume Ferreira Fernandes. “Pronto, chego à conclusão: há crimes do 25 de Abril. Temos aí um” – conclui.04 millor velho

Nos seus mais de 70 anos de carreira Millôr Fernandes produziu de forma prolífica e diversificada, ganhando fama pelas suas colunas de humor gráfico em publicações brasileiras, confrontando constantemente a censura do país. Dono de um estilo considerado singular, foi visto como figura desbravadora no panorama cultural brasileiro.

Com a saúde muito fragilizada, sobretudo após ter sofrido um acidente vascular cerebral nos começos de 2011, morreu no Rio de Janeiro em 27 de Março de 2012, aos 88 anos de idade.

O poema a seguir transcrito dá bem conta da originalidade de Millôr. Poesia Matemática, trabalho divulgado sob pseudónimo, tem-se prestada por isso à falsa atribuição de diversas autorias.

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                                                        Poesia Matemática

Às folhas tantas
do livro matemático
um Quociente apaixonou-se
um dia
doidamente
por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
e viu-a do ápice à base
uma figura ímpar;
olhos rombóides, boca trapezóide,
corpo rectangular, seios esferóides.
Fez de sua uma vida
paralela à dela
até que se encontraram
no infinito.
“Quem és tu?”, indagou ele
em ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
(o que em aritmética corresponde
a almas irmãs)
primos entre si.
E assim se amaram
ao quadrado da velocidade da luz
numa sexta potenciação
traçando
ao sabor do momento
e da paixão
rectas, curvas, círculos e linhas sinoidais
nos jardins da quarta dimensão.
Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclidianas
e os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas e pitagóricas.
E enfim resolveram se casar
constituir um lar,
mais que um lar,
uma perpendicular.
Convidaram para padrinhos
o Poliedro e a Bissectriz.
E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro
sonhando com uma felicidade
integral e diferencial.
E se casaram e tiveram uma secante e três cones
muito engraçadinhos.
E foram felizes
até aquele dia
em que tudo vira afinal
monotonia.
Foi então que surgiu
o Máximo Divisor Comum
frequentador de círculos concêntricos,
viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
uma grandeza absoluta
e reduziu-a a um denominador comum.
Ele, Quociente, percebeu
que com ela não formava mais um todo,
uma unidade.
Era o triângulo,
tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era uma fracção,
a mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade
e tudo que era espúrio passou a ser
moralidade
como aliás em qualquer
sociedade. 

Emmanuel Vão Gôgo (Millôr Fernandes)

Poema extraído do livro “Tempo e Contratempo“, Edições O Cruzeiro – Rio de Janeiro, 1954, publicado com o pseudónimo de Emmanuel Vão Gogo.