Bicharada…

Dedica-se esta transcrição ao impoluto e corajoso presidente do Benfica e aos seus camaradas dirigentes, justicialistas por excelência, carregados de razão, autoridade e classe. Como está à vista!
Os benfiquistas, os autênticos, entre os quais conto com alguns amigos, nada têm a ver com a vergonhosa paródia zoológica em que aqueles (ir)responsáveis os meteram…

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Uma decisão para lamentar

O acordo ortográfico contribui para abolir as variantes cultas das palavras e as suas ligações etimológicas. A língua portuguesa torna-se mais pobre e distante das suas raízes, transformando-se num idioma de laboratório

A semana passada foi marcada pela rejeição, pelo parlamento, da proposta do PCP de abandono do acordo ortográfico. Trata-se de decisão que demonstra bem a insensibilidade dos nossos deputados, uma vez que, perante o desastre que está a ser a aplicação deste acordo, o parlamento prefere ignorar o que se está a passar, assistindo pacificamente à destruição total da língua portuguesa. Porque de facto, com este acordo ortográfico, o português europeu está a transformar-se num estranho dialecto, com regras escritas incompreensíveis, que se afastam da sua etimologia e das restantes línguas latinas. Com a agravante de nem sequer haver qualquer uniformização com os outros países de língua portuguesa que ou não aplicam o acordo ou do mesmo resulta que sigam regras diferentes, graças à pronúncia que utilizam.

Um bom exemplo disto resulta da recente tradução do livro da escritora argentina María Gainza, que em espanhol se chama “El nervio óptico”, mas que no português acordista se transforma em “O Nervo Ótico”. O problema é que sempre se utilizou na língua portuguesa a expressão “ótico” como relativa ao ouvido, reservando-se o termo “óptico” para a visão. Tal é o significado dos respectivos antecedentes gregos “otikos” e “optikos”. O acordo ortográfico aboliu esta distinção essencial, mas apenas no português de Portugal, continuando a distinção a existir no português do Brasil. Será que isto faz algum sentido?

E o mesmo sucede com outras palavras como “recepção”, “concepção”, que se conservam sem alterações na ortografia brasileira, mas que na portuguesa passam a “receção” e “conceção”, facilmente confundíveis com “recessão” e “concessão”. Qual a necessidade de abolir a grafia anterior se o que se consegue é criar uma ortografia que ainda mais se diferencia da dos outros países lusófonos?

Isto já para não falar da multiplicação dos erros de escrita que o acordo ortográfico causou, com a absurda directriz de querer abolir as consoantes mudas, estando muita gente a abolir consoantes que continuam a pronunciar–se. É assim que já se viu aparecer erros como “fato”, “ineto”, “corruto”, que demonstram bem a falta de critério na abolição das consoantes pretensamente mudas.

E por último deveria salientar-se o facto de o acordo ortográfico contribuir para levar à abolição das variantes cultas das palavras e às ligações etimológicas das mesmas. Assim, a expressão culta “ruptura”, mais próxima do latim, foi transformada em “rutura”, esquecendo-se que já existia a variante popular “rotura”. Fala-se em “ótico” para a visão, mas esquece-se que a medição da mesma continua a ser a “optometria”. E os egípcios, pelos vistos, passaram agora a viver no “Egito”, esquecendo-se que a palavra Egipto tem origem no deus Ptah que, que se saiba, ainda não passou a Tah. Com o acordo ortográfico, a língua portuguesa torna-se assim mais pobre e distante das suas raízes, transformando-se num idioma de laboratório.

Na banda desenhada “Spirou e Fantásio”, da autoria de Franquin, aparece um vilão chamado Zorglub que pretende criar uma ditadura alterando o cérebro das pessoas, o que as faz falar e escrever numa nova língua, a zorglíngua, em que todas as palavras surgem ao contrário. Esperava-se que um parlamento democrático, como o português, nos livrasse deste triste destino. Mas afinal, graças aos restantes partidos, com excepção do PCP, vai tudo continuar como dantes. Isto não foi uma decisão parlamentar, foi uma decisão para lamentar.

 

Luís Menezes Leitão, jornal i,  27 Fevereiro 2018

OBRIGADO, MEUS BENFEITORES!

Obrigado, Luís Menezes Leitão, pela preciosidade que redigiu. Obrigado, João Paiva Boléo, por tê-la enviado ao Florindo. Obrigado, Florindo, por teres comigo partilhado esse escrito, do melhor que tenho lido a tal propósito. Sobretudo porque, além do seu conteúdo arrasador quanto à absurda monstruosidade que é o acordo mortográfico e quanto à lamentável prestação cultural e cívica dos nossos parlamentares (com a digna excepção dos comunistas), me remeteu para um quase perdido arquivo da memória aos quadradinhos: Zorglub, uma das geniais criações de Franquin.

Vasculhei as antigas colecções e logo encontrei Z de Zorglub, editado pela Arcádia em 1980, a partir do original publicado três anos antes. Ao reler o álbum e ao recordar toda a sua artificiosa trama mais se reforçou em mim tanto a admiração pelo autor como a confirmação da validade da banda desenhada enquanto portadora de relevantes mensagens de futuro.

O disparate da lógica linguística é idêntico ao absurdo dos seus objectivos, em nada diferindo a zorglíngua da teoria agora proposta por Malaca Casteleiro e seus pares. A cretinice de ambas é tal e qual. E também me lembrei, outra vez, da sinistra novilìngua de Orwell. Está tudo ligado…

Luís Menezes Leitão desfaz a decisão parlamentar. Com efeito, aquilo é mesmo para lamentar.

Resta-nos confiar nos tribunais, aguardando que os juízes sejam mais cultos, mais inteligentes e mais sensatos que os deputados.

Que no respeito pela lei eles possam decidir em plena consciência, garantindo o futuro de uma componente fundamental da nossa cidadania – são os meus votos.

António Martinó de Azevedo Coutinho