O DEVER E O DIREITO DA MEMÓRIA

Para além da regular e extensa série que aqui dediquei à presença do meu avô José Cândido na frente da Flandres da I Guerra Mundial, contam-se por algumas dezenas as crónicas soltas esparsas pelo Largo dos Correios sobre tal temática. E que vão continuar.

Tenho também aqui revelado uma natural tendência para confrontar o comportamento das minhas duas terras em Portugal: a Portalegre natal e a “adoptada” Peniche. Deixo de fora, nesta circunstância por óbvias razões, a Portalegre brasileira.

Ora Portalegre e Peniche assumiram, perante as agitadas efemérides do I Centenário da nossa participação na I Guerra Mundial e do Armistício, posições públicas comunitárias radicalmente distintas. Enquanto Portalegre dedicou ao acontecimento uma atenção que mereceu regulares e diversificadas programações, Peniche manifestou-se por uma discreta ausência.

Há, provavelmente, algumas atenuantes. Portalegre é cidade há quase quinhentos anos e é ainda considerada capital de distrito, nomenclatura esta que foi perdendo significado; Peniche é cidade há apenas trinta anos, numa promoção política a meu ver não inteiramente justificada pelo seu posterior comportamento comunitário. As tradições e práticas culturais de uma e outra estão, pois, claramente distantes…

Peniche carece de estruturas públicas de vocação cultural, básicas, como auditórios ou bibliotecas, existindo estas em Portalegre.

Também me parece consideravelmente mais íntimo o diálogo entre o poder local e o ensino superior politécnico praticado em Portalegre do que o patente em Peniche. Pelo menos, esta cooperação é ali bem mais evidente. E rentável.

Acresce uma circunstância que não pode nem deve ser escamoteada. O tenente-general Mário de Oliveira Cardoso, distinto militar que preside à Comissão Coordenadora da Evocação do Centenário da I Guerra Mundial, é um dedicado portalegrense, pelo que a sua influência no caso em apreço não pode nem deve ser ignorada.

Finalmente, uma distinção elementar tem de ser aqui recenseada: Portalegre foi sede de duas unidades militares chamadas ao activo combate na I Guerra Mundial. O Regimento de Infantaria 22 lutou na Europa, enquanto o Regimento de Artilharia de Montanha 5 se bateu em África.

Porém, tudo atrás se apaga perante uma realidade mais valiosa, a da vida humana. E tanto Portalegre como Peniche perderam alguns dos seus filhos na terrível chacina que foi aquela guerra. E os mortos, sobretudo os que tombaram ao serviço da Pátria, constituem um incontornável património de honra. Um património com premente valor comunitário, pois faz parte de uma herança próxima, quase familiar, com memórias, nomes e rostos que não podem ser apagados do nosso passado comum.

Tanto em Portalegre como em Peniche há lápides, públicas, que contêm os nomes dos cidadãos que prestaram o sacrifício supremo das suas vidas ao serviço de Portugal.

Enquanto em Portalegre eles foram devidamente lembrados e homenageados, Peniche deixou-os, ignorados, no mais ensurdecedor silêncio.

Uma terra sem memória tende para a morte e há alheamentos que nada pode justificar.

António Martinó de Azevedo Coutinho

O Armistício em selos

Os serviços filatélicos dos CTT associaram-se às comemorações nacionais do Armistício, facto histórico que teve repercussões em todo o mundo.

Com um selo, um bloco, um sobrescrito e uma pagela, incluindo necessariamente  a clássica “carimbadela” do primeiro dia de circulação, os responsáveis postais cumpriram a sua obrigação cívica e cultural.

As respectivas temáticas, devidamente explicadas na pagela, constituem um suplementar motivo de interesse.

A Grande Guerra por quem a viveu

O novo livro do historiador portalegrense, António Ventura, “A Grande Guerra por quem a viveu – 36 Testemunhos Portugueses” de Temas e Debates / Círculo de Leitores, acabou de ser colocado à venda nas livrarias.

Publicado no âmbito do Centenário da I Grande Guerra, o livro reúne 36 autores que são abordados com notas biográficas e excertos daquilo que escreveram sobre a sua experiência nas frentes de combate em que Portugal esteve envolvido.

A selecção dos depoimentos obedeceu a duas preocupações principais: manter um certo equilíbrio entre autores consagrados, alguns dos quais ganharam créditos no panorama literário nacional, como Jaime Cortesão, Augusto Casimiro, André Brun e Carlos Selvagem, a par de outros que permaneceram praticamente esquecidos, e cuja bibliografia se limitou à obra que escreveram sobre a sua experiência de guerra. Procurámos contemplar as três frentes de combate -Europa, Angola e Moçambique-, com as suas especificidades. Privilegiámos a transmissão da experiência vivida, o medo e a coragem, o desespero e a esperança, o humor e o drama.

Sentimentos e sensações mescladas, numa experiência única vivida durante o maior drama que a humanidade conheceu até então, e que se julgava que jamais se repetiria, dada a sua dimensão apocalíptica. Vãs esperanças. Vinte anos depois, novo conflito iria eclodir, ainda mais sangrento e destruidor, como que a demonstrar que o Homem persiste em não aprender com os erros cometidos“.

Em declarações à Rádio Portalegre, António Ventura referiu que a maior dificuldade com que se deparou foi “a escolha dos testemunhos”, que “são numerosos”, uma vez que “ainda a guerra não tinha acabado e já começavam a aparecer livros escritos por portugueses que participaram no conflito”.

Doutor em História Contemporânea, Professor catedrático do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Académico de Número da Academia Portuguesa da História, António Ventura é autor de uma vasta bibliografia sobre História Contemporânea, com mais de 300 trabalhos publicados.

Colaborou em diversas publicações periódicas nacionais e estrangeiras, fez conferências e participou em congressos científicos em Espanha, França, Itália, Suíça, Estados Unidos da América, Canadá, Macau e China.

Parabéns ao amigo e companheiro de muitas e saudosas aventuras culturais portalegrenses, por mais esta obra.

1918 – Há Cem Anos – oitenta e nove

Em 1 de Agosto de 1918, José Cândido Martinó reentrara definitivamente em Portugal, no gozo da licença de campanha que lhe fora concedida.

A crónica sucessiva com a qual pretendi descrever a sua permanência no seio da guerra em curso foi por isso aqui interrompida, com o número 88 da ordem, no passado dia 10 de Agosto. Agora, três meses depois, há um novo e forte pretexto para um brevíssimo recomeço alusivo.

Como ocupara o capitão José Cândido Martinó este curto lapso temporal?

Sem músicos nem banda, a sua vida profissional esteve suspensa, até porque gozava a licença militar concedida. A preocupação pessoal que o absorve tem a ver com a educação da filhita Benvinda. Concluída em Portalegre a sua instrução primária, ele deseja conceder-lhe a melhor preparação académica possível. Assim, entre todos os estabelecimentos de ensino que consultara, e foram muitos, acaba por escolher o Colégio de Nossa Senhora da Rocha, em Lisboa.

José Cândido deslocara-se propositadamente à capital para avaliar a qualidade dessa escola, em cujo internato Benvinda será instalada.

De acordo com os regulamentos, no dia 5 de Setembro de 1918, o capitão músico foi considerado apresentado por ter terminado a licença de campanha de noventa e um dias que lhe tinha sido concedida.

A imprensa local fala entretanto dos concertos da Banda Euterpe e da Banda dos Bombeiros. Quanto à Banda do 22, essa não irá tão depressa retomar o seu lugar – assim se escrevera em A Plebe no dia 1 de Setembro…

Vai iniciar-se entre o pai e a filhita uma nova cadeia de comunicação, quase sempre por intermédio de postais ilustrados trazidos de França. Desta feita, ele está em Portalegre e ela em Lisboa.

A guerra jamais será tema para o diálogo. Aliás, para o militar, esse capítulo da sua vida nunca será evocado. Não me lembro, uma vez sequer, de o meu avô ter dado conta dessa sua experiência, mesmo quando me iniciava na leitura dos mapas de combate publicados nos jornais diários durante a II Guerra Mundial.

No decurso dos meses de Setembro e Outubro de 1918, embora ainda por lá permanecendo outros, regressam de França mais alguns dos músicos da Banda do 22 que aí tinham ficado. Disso nos dá conta A Rabeca de 3 de Novembro, numa curta nota: “De França. Encontram-se já em Portalegre, vindos de França, os hábeis músicos de infantaria 22 srs. B. Guanilho, A. Guanilho, J. Casaca e M. Oliveira, que faziam parte do C. E. P. As nossas saudações”.

Finalmente, a 11 de Novembro de 1918, procede-se à solene assinatura do Armistício que conclui a Grande Guerra, com a derrota da Alemanha.

É grande o regozijo de que dá conta a imprensa, nacional, regional ou local, traduzindo a natural alegria e o profundo alívio que a boa nova causa, ainda que já esperada em função do rumo dos últimos meses do conflito. Em Portalegre são inúmeras e coincidentes as manifestações públicas e, obviamente, também os seus jornais as relatam.

Na véspera desse dia, A Plebe escreve “Vitória” antecedendo o principal texto de capa, que termina com um apelo profético: “… Há feridas a sangrar, nesta linda terra portuguesa, que forçoso é cicatrizar, e há lágrimas dolorosas a enxugar! Compenetremo-nos todos, mas já, dessa necessidade, para que haja paz e concórdia cá dentro. Viva a Liberdade! Viva a República!

E destaque-se o título, a toda a largura da sua primeira página, constante da edição de 17 de Novembro do mesmo jornal: “Paz e Glória!” No final da curta dúzia de linhas lê-se: “Honra a Bernardino Machado, Afonso Costa e António José d’Almeida, os três grandes portugueses que, numa visão clara de patriotas apaixonados, conduziram a Pátria para a Vitória! Vivam os Aliados! Viva a República! ” Significativamente, nem uma palavra sequer sobre Sidónio Pais, que ocupava então a Presidência…

O Distrito de Portalegre divide a sua primeira página da edição deste mesmo dia entre a Paz e a recordação da morte, há precisamente 3 anos, do seu antigo Director, Leonardo Augusto. Sob o título “A Paz Bendita” ostenta o sub-título “Festejos por ela em Portalegre – As aspirações de todo o verdadeiro patriota neste momento – Ao lado da paz internacional, importa colocar sem demora a interna – Desprezo aos desordeiros – Só dentro da ordem e do respeito pelas ideias de cada um se pode caminhar”, onde fica definido o conteúdo do longo texto que se prolongará pela página seguinte.

Linha similar segue A Rabeca, em 24 do mesmo mês, quando salienta o papel e as palavras do Presidente da República, a abrir o artigo: “Vitória!… Vitória!… Vivam os Aliados! Viva Portugal!… ‘Nesta hora solene, um grande pensamento deve preocupar-nos: honrarmos a memória dos que verteram o seu sangue pela Pátria e pela Humanidade, norteando firmemente a nossa conduta pelos altos ideais por que eles se sacrificaram’ São as palavras com que o Sr. Presidente da República Portuguesa exprimiu o seu pensamento. Após a notícia da queda do imperialismo, num autógrafo destinado ao Século e que aquele jornal publicou…”

A vida política nacional viverá um período de turbulência, a que não escapa o presidente da República. Em 5 de Dezembro de 1918, durante a cerimónia da condecoração dos sobreviventes do NRP Augusto de Castilho, Sidónio Pais sofreu um primeiro atentado, do qual conseguiu escapar ileso. O mesmo não aconteceu dias depois, na Estação do Rossio, onde em 14 de Dezembro de 1918 foi morto a tiro por José Júlio da Costa, ex-sargento do exército e militante republicano. Sidónio Pais acaba por falecer na Sala do Banco do Hospital de São José, em Lisboa.

Quanto a Portalegre, a nota citadina mais significativa relaciona-se com uma proposta do vereador da Câmara Municipal Dr. Laureano Sardinha que, a 21 de Dezembro de 1918, cria o Museu Municipal, cujas primeiras instalações se vão situar no Convento de S. Bernardo, até 1961.

Falta um último pretexto, ou episódio, para encerrar esta extensa crónica.

A efeméride vai acontecer em Junho do próximo ano.

António Martinó de Azevedo Coutinho