Conferência de Paz de Paris há cem anos

A Conferência de Paz de Paris foi aberta em 18 de Janeiro de 1919, há precisamente 100 anos, com a presença de 70 delegados representando 25 países, mas foi politicamente dominada pelos chamados “Quatro Grandes”, Estados Unidos, Reino Unido, França e Itália.

As principais decisões ficaram a cargo de Woodrow Wilson presidente americano, Lloyd George Primeiro Ministro do Reino Unido e Georges Clemenceau Primeiro Ministro da França.

Os pontos-chave da Conferência foram as condições que seriam estabelecidas aos países derrotados da I Guerra Mundial.

O presidente Wilson tinha por intuito impedir que a reunião se decidisse por um desmembramento do estado alemão, como era da vontade do Estado-Maior francês, e evitar se possível uma indemnização de guerra aos países vencedores. O Primeiro Ministro do Reino Unido, Lloyd George, que temia um fortalecimento da França na política continental em virtude da derrota alemã, também era contra o desmembramento da Alemanha.

Os ingleses viam na permanência da unificação alemã um ponto-chave como grande mercado comprador de seus produtos, e era também intuito dos ingleses conseguir na Conferência a anexação das colónias alemãs, no Pacífico e na África. Já o Primeiro Ministro George Clemenceau tinha um posicionamento de vingança, com exigências de indemnizações, o retorno da Alsácia-Lorena, e a criação de uma República Renana independente. O governo francês além disso tinha fortes intenções de conseguir a anexação de toda a margem esquerda do rio Reno.

O principal documento produzido pela Conferência foi o Tratado de Versalhes, assinado em 28 de Junho de 1919, que definia os termos da paz com as nações derrotadas.

A Conferência foi encerrada em 20 de Janeiro de 1920, mas os termos do Tratado de Versalhes, provocaram grande mal estar e ressentimento na Alemanha.

O objectivo central deste tratado foi fixar um novo mapa político da Europa e as indemnizações de guerra, assim como definir as condições de desmilitarização dos países vencidos, de forma a reduzir as suas forças militares.

O DEVER E O DIREITO DA MEMÓRIA

Para além da regular e extensa série que aqui dediquei à presença do meu avô José Cândido na frente da Flandres da I Guerra Mundial, contam-se por algumas dezenas as crónicas soltas esparsas pelo Largo dos Correios sobre tal temática. E que vão continuar.

Tenho também aqui revelado uma natural tendência para confrontar o comportamento das minhas duas terras em Portugal: a Portalegre natal e a “adoptada” Peniche. Deixo de fora, nesta circunstância por óbvias razões, a Portalegre brasileira.

Ora Portalegre e Peniche assumiram, perante as agitadas efemérides do I Centenário da nossa participação na I Guerra Mundial e do Armistício, posições públicas comunitárias radicalmente distintas. Enquanto Portalegre dedicou ao acontecimento uma atenção que mereceu regulares e diversificadas programações, Peniche manifestou-se por uma discreta ausência.

Há, provavelmente, algumas atenuantes. Portalegre é cidade há quase quinhentos anos e é ainda considerada capital de distrito, nomenclatura esta que foi perdendo significado; Peniche é cidade há apenas trinta anos, numa promoção política a meu ver não inteiramente justificada pelo seu posterior comportamento comunitário. As tradições e práticas culturais de uma e outra estão, pois, claramente distantes…

Peniche carece de estruturas públicas de vocação cultural, básicas, como auditórios ou bibliotecas, existindo estas em Portalegre.

Também me parece consideravelmente mais íntimo o diálogo entre o poder local e o ensino superior politécnico praticado em Portalegre do que o patente em Peniche. Pelo menos, esta cooperação é ali bem mais evidente. E rentável.

Acresce uma circunstância que não pode nem deve ser escamoteada. O tenente-general Mário de Oliveira Cardoso, distinto militar que preside à Comissão Coordenadora da Evocação do Centenário da I Guerra Mundial, é um dedicado portalegrense, pelo que a sua influência no caso em apreço não pode nem deve ser ignorada.

Finalmente, uma distinção elementar tem de ser aqui recenseada: Portalegre foi sede de duas unidades militares chamadas ao activo combate na I Guerra Mundial. O Regimento de Infantaria 22 lutou na Europa, enquanto o Regimento de Artilharia de Montanha 5 se bateu em África.

Porém, tudo atrás se apaga perante uma realidade mais valiosa, a da vida humana. E tanto Portalegre como Peniche perderam alguns dos seus filhos na terrível chacina que foi aquela guerra. E os mortos, sobretudo os que tombaram ao serviço da Pátria, constituem um incontornável património de honra. Um património com premente valor comunitário, pois faz parte de uma herança próxima, quase familiar, com memórias, nomes e rostos que não podem ser apagados do nosso passado comum.

Tanto em Portalegre como em Peniche há lápides, públicas, que contêm os nomes dos cidadãos que prestaram o sacrifício supremo das suas vidas ao serviço de Portugal.

Enquanto em Portalegre eles foram devidamente lembrados e homenageados, Peniche deixou-os, ignorados, no mais ensurdecedor silêncio.

Uma terra sem memória tende para a morte e há alheamentos que nada pode justificar.

António Martinó de Azevedo Coutinho

O Armistício em selos

Os serviços filatélicos dos CTT associaram-se às comemorações nacionais do Armistício, facto histórico que teve repercussões em todo o mundo.

Com um selo, um bloco, um sobrescrito e uma pagela, incluindo necessariamente  a clássica “carimbadela” do primeiro dia de circulação, os responsáveis postais cumpriram a sua obrigação cívica e cultural.

As respectivas temáticas, devidamente explicadas na pagela, constituem um suplementar motivo de interesse.

A Grande Guerra por quem a viveu

O novo livro do historiador portalegrense, António Ventura, “A Grande Guerra por quem a viveu – 36 Testemunhos Portugueses” de Temas e Debates / Círculo de Leitores, acabou de ser colocado à venda nas livrarias.

Publicado no âmbito do Centenário da I Grande Guerra, o livro reúne 36 autores que são abordados com notas biográficas e excertos daquilo que escreveram sobre a sua experiência nas frentes de combate em que Portugal esteve envolvido.

A selecção dos depoimentos obedeceu a duas preocupações principais: manter um certo equilíbrio entre autores consagrados, alguns dos quais ganharam créditos no panorama literário nacional, como Jaime Cortesão, Augusto Casimiro, André Brun e Carlos Selvagem, a par de outros que permaneceram praticamente esquecidos, e cuja bibliografia se limitou à obra que escreveram sobre a sua experiência de guerra. Procurámos contemplar as três frentes de combate -Europa, Angola e Moçambique-, com as suas especificidades. Privilegiámos a transmissão da experiência vivida, o medo e a coragem, o desespero e a esperança, o humor e o drama.

Sentimentos e sensações mescladas, numa experiência única vivida durante o maior drama que a humanidade conheceu até então, e que se julgava que jamais se repetiria, dada a sua dimensão apocalíptica. Vãs esperanças. Vinte anos depois, novo conflito iria eclodir, ainda mais sangrento e destruidor, como que a demonstrar que o Homem persiste em não aprender com os erros cometidos“.

Em declarações à Rádio Portalegre, António Ventura referiu que a maior dificuldade com que se deparou foi “a escolha dos testemunhos”, que “são numerosos”, uma vez que “ainda a guerra não tinha acabado e já começavam a aparecer livros escritos por portugueses que participaram no conflito”.

Doutor em História Contemporânea, Professor catedrático do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Académico de Número da Academia Portuguesa da História, António Ventura é autor de uma vasta bibliografia sobre História Contemporânea, com mais de 300 trabalhos publicados.

Colaborou em diversas publicações periódicas nacionais e estrangeiras, fez conferências e participou em congressos científicos em Espanha, França, Itália, Suíça, Estados Unidos da América, Canadá, Macau e China.

Parabéns ao amigo e companheiro de muitas e saudosas aventuras culturais portalegrenses, por mais esta obra.