1917 – Há cem anos – quarenta e cinco

14 de Outubro – “França. Hoje esteve um dia lindíssimo; como não tive serviço, fui dar um passeio, tendo-me encontrado com um professor meu conhecido; depois fui passar a tarde a um sítio onde vi coisas muito lindas e interessantes

Neste mesmo dia, o capitão José Cândido Martinó recebeu mais uma comunicação interna: “1.º B. I. n.º 22 Obser. Urgente Em campanha: Ao Sr. Chefe da Banda de Música da B. Por determinação superior deverá a Banda da digna regência de V.a Ex.a acompanhar uma Companhia do 3.º Batalhão (Inf. 34) que amanhã pelas 10 H. deve comparecer no Chateau de St. André (Witerness) para fazer a guarda de honra a S. Ex.a o Presidente da República. Pel’o Ajud. Luis Lello, Ten.”.

A 15 de Outubro de 1917, o Presidente da República Portuguesa, Dr. Bernardino Machado, sai do Sector Português, depois de ter visitado as sensíveis zonas da frente em Ferme du Bois e Fauquissart. José Cândido, pela terceira vez, acolhe-o em Witerness, à frente da sua banda. E depois comentará brevemente o sucedido.

15 de Outubro – “França. Fizemos hoje a guarda de honra da despedida. A nada temos faltado. A vida actualmente é um verdadeiro pavor. Admiro-me como certas famílias podem viver. (…) O tal músico Vieira ainda pertence ao efectivo? O tal coronel que aí está fica comandando o 22?

8 de Outubro – Portalegre: “Muito estimo que fizesse a sua jornada e mudança com muita saúde; eu vou passando bem. (…) Então o Papá já tem vidros na janela do seu quarto? Graças a Deus“.

9 de Outubro – Portalegre: “Como se dá com a sua nova habitação? O Papá está com sorte, anda sempre a encontrar-se com antigos amigos“, com carimbo de Censura.

16 de Outubro – “França. Fui hoje dar um passeio de automóvel. Comprei-te uma coisa bonita e boa que enviarei quando aí for algum músico de licença”.

17 de Outubro – (dois postais) “França. Estou muito bem na minha habitação“. [Nova mudança, provavelmente para local um pouco menos próximo da frente, talvez para os lados do Quartel General?]; “França. O Avozinho que veja se na estante das músicas lá está o ordinário – Continência à Bandeira – de Moraes. Julgo que está nas costas doutra – Le Depart. Também julgo que os ordinários estão todos juntos. Se lá estiver, mande já e registado“.

Ainda que sem data precisa, um manuscrito de José Cândido sobre uma folha com pauta musical deve reportar a estes tempos:

Bombo. Para ser bom é necessário ter grandes dimensões, e deve ter umas varinhas com torno em volta, que servem para tender a pele, e que devem operar com muita igualdade sobre toda a sua circunferência. Coloca-se sobre um cavalete. Em marcha é sustido por meio duma correia de suspensão com os respectivos colchetes que se engancham a uns anéis que tem o instrumento. Para tocar o bombo emprega-se uma baqueta grande; a cabeça desta deve estar coberta de pele. O golpe deve ser dado ao centro. Deve ser dado de cima para baixo, volvendo a mão à sua primitiva posição. Quando há golpes sucessivos devem alternar: de cima para baixo e vice-versa. Nunca se deve deixar a baqueta sobre a pele. O braço não se move; apenas o ante-braço. Para apagar o som em um golpe seco, coloca-se suavemente a mão esquerda sobre a pele inferior; mas apenas em seguida ao golpe“.

18 de Outubro – “França. Quando fizerem qualquer pergunta, esperem pela minha resposta. No dia 26 deves oferecer qualquer lembrança ao Avozinho. A gramática e corografia são difíceis de estudar?

12 de Outubro – Portalegre: “Por cá já principiou o tempo frio. Tenho um coelhinho branco e pequenino; gosto muito dele“.

Sem data, mas quase seguramente desta época, José Cândido guardará um relatório interno das operações militares…

1917 – Há cem anos – quarenta e quatro

8 de Outubro – “França. Hoje tem estado um tempo detestável, mas mesmo assim aproveitei para ir visitar um amigo que já não via há mais de 12 anos. Os que têm voltado de regresso de licença não lhes ficou vontade de lá voltarem“.

9 de Outubro – (dois postais) “França. A mulherzita da casa onde estou, quando está frio, põe-me tijolos quentes no quarto para aquecer os pés.”; “França. A maioria das minhas perguntas desencontra-se com as vossas respostas, dando o resultado de fazer a mesma pergunta em 3 e 4 postais seguidos. (…) Um oficial que regressou de Portalegre falou-me muito de ti“.

O soldado impedido do cap. Martinó enviou-lhe um postal, de França, sem data, com muitos erros gramaticais: Meu capitão peço-lhe que eu já tive alta do hospital e agora estou na brigada e querem-me passar ao serviço e portanto peço ao meu capitão que se puder falar ao telefone para pedir ao senhor alferes Pereira para eu passar para a companhia do meu capitão. Seu impedido Joaquim Candeias n.º 734. Peço a vossa excelência este favor. Desculpe-me eu não ser como devo.

A verdade é que o pedido não teve acolhimento…

10 de Outubro – “França. Tive que me desfazer do Joaquim porque já não o podia aturar. Por um músico que hoje foi de licença, envio-te muitos bilhetes a fim de me escreveres todos os dias. A vida continua a encarecer muito? Já estás completamente boa?

Deste mesmo dia, 10 de Outubro de 1917, há uma comunicação interna: “C. E. P. 1.ª D. Q. G. 1.º B. I. N.º 489/2 Urgente: Ao Sr. Chefe da Banda de Música do 1.º B. I.  S. Ex. o Com.te de B. determina que a Banda de Música se apresente amanhã pelas 15 horas no Bat. de Inf. 34, a fim de acompanhar o mesmo Bat. em uma formatura para guarda de honra. Pelo 2.º Com., José L. P. de Faria, Cap Aju.te”.

11 de Outubro – “França. Hoje tivemos grande festa. Ainda não escapei a nada desde que cheguei a França. Encontrei-me com um colega que já não via há muitos anos e de quem sou muito amigo; servimos como aprendizes no mesmo regimento”.

Neste 11 de Outubro há mais uma comunicação interna: “1.º B. I. ao Snr. Chefe da Banda de Música  Aviso: Informo V.a Ex.a que as forças que constituem as guardas de honra para hoje devem comparecer com capacete de aço e equipamento de combate. Pel’o 2.º Comandante, José L. P. de Faria, Cap. Aju.te”.

Em Saint-Venant, no dia 11 de Outubro de 1917, o Presidente da República Portuguesa, Dr. Bernardino Machado, é recebido pelo Quartel General do Corpo Expedicionário Português. José Cândido, conforme a comunicação e ordem recebidas, testemunha e abrilhanta o acto com a sua banda. O invulgar acontecimento explica o frenesim das notas militares…

12 de Outubro – “França. Já estás completamente boa? O tempo tem estado horrível. É um grande aborrecimento. Amanhã temos festa igual à do dia 5”.

13 de Outubro – (dois postais) “França. Guarda as colecções que te mandei pelo tenente Maltez e escreve uns cartões que envio pelo músico Guanilho. (…) É natural que a demora seja muito menor que a calculada. Hoje houve grande festa: colocação de medalhas ao peito dos heróis. O dia estava horrível. Cheguei a casa molhadíssimo, apesar de ter regressado num automóvel”.

Mais uma comunicação interna, neste dia: “C. E. P. 1.ª D. Q. G. 1.º B. I. N.º 23 E Urgente  Em campanha: Ao Sr. Chefe da Banda, O Sr. Com.te determinou que a Banda de Música compareça neste Q. G. pelas 11 horas, a fim de acompanhar a bandeira para o local da revista. Pelo 2.º Com., José L. P. de Faria, Cap Aju.te”.

Acontece, neste 13 de Outubro de 1917, uma revista militar pelo Presidente da República Portuguesa, Dr. Bernardino Machado, no Chateau de Roquetoire. Novamente se verifica a presença da banda do 22. Para além de visitar as instalações militares, o Presidente contactou com uma ambulância, várias escolas de instrução e manutenção de conhecimentos de combate, passando mesmo a noite com as tropas portuguesas.

1917 – Há cem anos – quarenta e três

Pelo mês de Outubro de 1017, continua a troca de bilhetes e cartas entre o capitão José Cândido Martinó, na frente da Flandres, e a filha Benvinda, em Portalegre.

1 de Outubro – “França. Deverás alternar a fosfiodoglicina com o xarope iodotónico“.

Em 1 de Outubro, a Ordem da 1.ª Brigada de Infantaria da 1.ª Divisão determina que, até novas instruções, a banda de música tocará no Quartel General todas as 5.as feiras e domingos, das 14 às 16 horas.

2 de Outubro – “França. Manda dizer se já estás completamente restabelecida. (…) Pelas prendas, podes avaliar um pouco por onde tenho andado. O tempo continua magnífico“.

3 de Outubro – (dois postais) “França. O Avozinho há-de comprar e enviar-me, logo que haja à venda, uma agenda de algibeira – Edição Gonçalves, para 1918 (capa de oleado preto). (…) Já dão 20 dias de licença e com mais algumas vantagens, mas ainda não tomei uma resolução definitiva acerca de tal assunto. O tenente Maltez ainda não chegou.” “França. A tal agenda encontra-se à venda no Tiago Morgado. Ontem partiu para aí um músico de licença, mas não levou nada. O tempo, que  tem estado lindíssimo, apareceu hoje muito invernoso”.

22 de Setembro – Portalegre: “O Papá tem-se divertido muito em França; quase todos os dias grandes passeios, concertos e muitas coisas mais. Já sei que está mais gordo; eu também, segundo dizem, bastante crescida. (…) O tempo tem estado muito quente; as feiras estiveram muito animadas“.

26 de Setembro – Portalegre: “O tempo continua bom, mas muito quente.”, visado pela Censura.

4 de Outubro – “França. Tive ordem para música mas como o tempo estava mau ficou sem efeito e aproveitei a ocasião para passear. (…) Não entreguem nada a um músico que aí foi de licença para casar“.

5 de Outubro – “França. Hoje houve uma grande festa. Fiquei conhecendo mais uma village. Há sete anos estavas tu em Gião. Escrevi hoje ao Chambel e ao Cap. Piedade a quem também agradeci os parabéns que me enviou a propósito do teu exame“.

“No dia 5, comemorando o aniversário da República, o general Tamagnini passou em revista as Forças Portuguesas da retaguarda, havendo grande entusiasmo e assistindo vários oficiais ingleses” assim se relatou em História da Guerra Europeia.

29 de Setembro – Portalegre: “Na 5.ª feira passada estive em casa do Sr. Tenente Maltês, a despedir-me; dei-lhe um abraço e muitos beijos para ele os entregar aí ao Papá; creio que ele cumprirá o meu pedido. (…) Não tornei a sentir dores nas pernas e nos braços“.

6 de Outubro – “França. O tempo tem estado bastante mal. Ainda não vi o tenente Maltez. É natural que amanhã ou depois eu me encontre com ele“.

7 de Outubro – “França. Chegou hoje o tenente Maltez e deu cumprimento ao teu pedido, que eu muito agradeço. Como hoje choveu bastante, não houve música e aproveitei o tempo para dar um passeio de automóvel para assim melhor entreter o tempo“.

Na edição de 7 de Outubro do jornal “O Distrito de Portalegre”, o músico militar J. Vieira (Oádis) assina um artigo publicado na 1.ª página, intitulado “França. Rouen”, onde descreve a impressão causada por esta grande cidade francesa, próxima de Paris. E termina: “Oh, a França, o país da crença, da arte, da liberdade, do amor...” O estilo do texto e alguns tempos verbais usados revelam que o autor já não se encontra na Guerra…

1917 – Há cem anos – quarenta e dois

Recordemos as estrofes hoje praticamente “abandonadas”, por óbvias razões logísticas que se prendem à extensão das interpretações públicas do Hino Nacional. 

Desfralda a invicta bandeira
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu!
Beija o solo teu jucundo
O Oceano a rugir de amor;
E o teu braço vencedor
Deu mundos novos ao mundo!
Às armas! etc.

Saudai o sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco duma afronta
O sinal do ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra os injúrios da sorte.
Às armas! etc.

Continuara, entretanto, o intercâmbio epistolar entre pai e filha.

25 de Setembro – “França. Recebi hoje os jornais e uma carta do Capitão Piedade. Fiquei surpreendido com o desastre de Lisboa. Escrevi hoje ao pai do menino Alfredo. Pobre Gueifão, tão bom rapaz e morrer duma maneira tão estúpida!…Com a história da maldita greve, parece-me que nos desapareceu muita correspondência“.

Francisco de Oliveira Gueifão Marques, o jovem portalegrense em causa, era amanuense da administração do Concelho de Portalegre e professor de ensino livre. Foi morto a tiro no dia 10 de Setembro de 1917, em Lisboa, quando aí se encontrava frequentando a escola de oficiais milicianos. O seu presumível assassino, Armando da Cruz Azevedo, seria libertado pouco depois, por não ter culpa formada, segundo a imprensa da época, ficando o insólito crime sem uma explicação plausível…

26 de Setembro – “França. Tudo muitíssimo atrasado. Vamos ver se isto agora se regularizará. Muito estimei saber que já estás quase restabelecida“.

13 de Setembro – Portalegre: “Recebi ontem 3 postais seus que muito me alegraram; já há muitos dias que eu não recebia notícias do meu querido Papá; os carteiros não recebiam nem entregavam correspondência; nem mesmo vinham os jornais de Lisboa. Tudo em greve há mais de uma dúzia de dias“.

19 de Setembro – Portalegre: “O Sr. Tenente Maltês chegou ontem à noite“,  num postal visado pela Censura.

O balanço postal de Setembro de 1917 acusa: de França, 16 postais, dos quais 13 são do género romântico, 1 de tipo religioso e 2 com bandeiras; de Portalegre: seis cartas e cinco postais dos correios.

Uma semana depois do apelo dos músicos, “A Rabeca” de 30 de Setembro dá notícias a propósito: “Madrinhas de Guerra. Acedendo ao convite que fizemos no último número, escreve-nos a sr.ª D. Adriana Everalda Tavares Testa, rua do Mártir, n.º 26, oferecendo-se para madrinha de guerra do sr. Joaquim José de Carvalho, músico de 1.ª classe do C. E. P. em França. Do “front” escreve-nos também o sr. João António Dias, nosso prezado amigo e conterrâneo, pedindo madrinha de guerra.

1917 – Há cem anos – quarenta e um

Trata-se de uma curiosa coincidência, abrangendo seis precisos meses, o acontecido em França entre 24 de Março e 24 de Setembro de 1917.  Na primeira dessas datas, o capitão José Cândido Martinó, num dos seus postais para a filhita Benvinda, dava conta de uma insólita situação acontecida numa sessão cinematográfica, logo após o desembarque em França, onde o director da orquestra local pretendeu ser simpático aos olhos dos recém-chegados militares. Fez então interpretar o monárquico Hino da Carta, em vez do republicano Hino Nacional. Em conclusão, ainda não éramos reconhecidos como uma Nação que já tinha atingido maioridade política. Anos após a Implantação da República, permanecíamos quase desconhecidos no seio da Europa dita culta…

Aliás, uns dias antes, como confirmação, o capitão adquirira um caderno com música impressa: “Hymnes & Chants Nationaux” transcritos por Edouard Jouve, editado por Paul Beuscher, Paris, em 1915 (!?). Datado pela mão de José Cândido de Coyecques, 17 de Março de 1917, continha à margem da capa, também manuscrita, uma nota: Hino da Carta Constitucional, e a respectiva letra. Na página onde está o Hymne Portugais, à margem, a lápis, uma interrogação: D. Fernando ?

O caderno contém os hinos de França, Rússia, Grécia, Áustria, Argentina, Alemanha, Bélgica, Holanda, Sérvia, Inglaterra, Sião, Estados Unidos da América, Dinamarca, Noruega, Suécia, Itália, México, Roménia, Espanha, Egipto, Suíça, Brasil, Portugal, Vaticano, Japão, Montenegro, Pérsia, Turquia e China. Agora, a 24 de Setembro de 1917, um outro caderno impresso (Librairie Hachette & C.ie, Paris, 1916) com músicas: “Hymnes et Chants Nationaux des Alliés” (França, Rússia, Inglaterra, Japão, Bélgica, Sérvia, Montenegro, Itália, Roménia e Portugal), datado de Aire por José Cândido, incluía o Himne National Portugais (La Portugaise), com tradução francesa de Félix Castanier e arranjo musical do Ad. Gauwin. Desta vez, constava finalmente a “correcção”!

Para além do estilo épico e revolucionário do nosso Hino, nascido em revolta contra o ultimato inglês, também dessa “atmosfera” comungam outras canções nacionais, aqui e ali adoçadas pela inspiração divina.

Assim acontece com La Marseillase francesa, com o God Save the King inglês, com La Brabançonnne belga e o italiano Fratelli O Italia, cujas melodias e letras são a seguir reproduzidas a partir do citado caderno.

Aliás, o Hino Imperial Russo, obviamente de antes da Revolução, diz Deus guarde o nosso Czar, o Hino Nacional Japonês começa pela prece Que o soberano reine mil anos, e os sérvios cantam Deus da justiça salva-nos enquanto os romenos proclamam Viva o Rei na paz e na honra

1917 – Há cem anos – quarenta

Em 9 de Setembro de 1917, mais um “Quadro de Honra” é divulgado pelo jornal portalegrense “A Plebe”, dele constando, para além de diversos feridos em combate, o nome do soldado n.º 530 da 5.ª Companhia, Francisco da Silva, “falecido nas trincheiras em 21-8-917”.

Em 14 de Setembro, verificou-se mais um raid alemão contra o sub-sector esquerdo de Ferme du Bois e sub-sector direito de Neuve Chapelle, zonas portuguesas com tropas portalegrenses.

14 de Setembro – “França. Passas melhor da tosse? Partiu hoje para aí o Maltez. Leva uma caixa de lata cheia de “souvenirs” e algumas colecções de bilhetes postais. Os dias que concedem de licença são poucos – 15 dias. Na viagem gasta-se metade e não me sinto com coragem de nova despedida. Tenciono visitar Paris, Londres e parte da Itália; isto no caso de pedir a licença e ma concederem“.

15 de Setembro – “França. E tu estás melhor? Pela leitura dos jornais vejo que a greve dos Correios continua, a que se juntou também o pessoal dos Caminhos de Ferro. Cada vez menos juízo. (…) Como não sabia da retirada do Maltez, nada pude comprar para te mandar“.

16 de Setembro – “França. Continuo sem receber notícias tuas, o que bastante lamento. A tal greve veio em muito má ocasião. Hoje também tivemos concerto”.

17 de Setembro – “França. Desejo bastante que já estejas restabelecida. Como a greve não tem carácter permanente, tem-se recebido alguma correspondência. Quando me escreveres, podes fazê-lo nos bilhetes que enviei pelo Maltez; são muito bonitos , mas eu guardo-os. A feira está muito animada?

18 de Setembro – “França. Continuo a não receber notícias tuas, isto apesar de receber correspondência de Lisboa e do Porto; naturalmente em Portalegre estão mais renitentes na greve; tiveram alguma birra e custa-lhes a passar!… Faz amanhã 8 meses que eu parti de Portalegre“.

19 de Setembro – “França. Estimo que já estejas restabelecida. Pelo que vejo os grevistas de Portalegre são mais renitentes. Brevemente mudo de lugar. (…) Já lá vão 8 meses que te disse adeus! O tenente Maltez contou-te coisas bonitas da guerra?

Em 22 de Setembro, saiu do 2.º sub-sector de Ferme du Bois o Regimento de Infantaria 22, a quem é concedida uma curta estadia para repouso, em Marthes, na retaguarda.

Na sua edição de 23 de Setembro de 1917, “A Rabeca” publica diversas notas de França, donde se salienta: “Pedem madrinhas de guerra os músicos expedicionários: de 1.ª classe, Joaquim José de Carvalho e Francisco Baía; de 2.ª, Viriato Silvério Rocha; de 3.ª, Joaquim António Casaca, Francisco de Almeida, Júlio Augusto Meira Serra e Aníbal Gonçalves Aranha. Todos de infantaria 22 do C. E. P. – S. P. C. 4. França, para onde deve ser dirigida correspondência. Estes nossos amigos e briosos militares que, também por intermédio do nosso jornal, se recomendam às suas famílias e amigos, agradecem desde já o deferimento do seu pedido”.

Existe um caderno impresso (Librairie Hachette & C.ie, Paris), datado de Aire a 24 de Setembro (manuscrito por José Cândido Martinó), com músicas: “Hymnes et Chants Nationaux des Alliés” (França, Rússia, Inglaterra, Japão, Bélgica, Sérvia, Montenegro, Itália, Roménia e Portugal). A brochura inclui o Himne National Portugais (La Portugaise), com tradução francesa de Félix Castanier e arranjo musical do Ad. Gauwin,  onde constam mais duas estrofes originais, agora “esquecidas”, para além da primeira, a única que hoje se canta.

1917. Há cem anos – trinta e nove

23 de Agosto – Postal de S. Nicolau, visado pela Censura: Eu graças a Deus estou mais gordinha e com melhor cor. (…) Saudades da família de S. Nicolau. Muitos beijinhos da sua discípula muito amiga Maria de Vries“.

1 de Setembro – “França. Muito estimo a continuação das tuas melhoras. Recebi hoje o teu apreciado bilhete de 23-8, ainda escrito em S. Nicolau. (…) O tempo continua bastante invernoso“.

2 de Setembro – “França. Muito desejo que já estejas restabelecida. Recebi carta do Dr. Abreu a quem mandaram mudar de ares para o Mação! (…) Hoje também tive concerto que agradou muito. Fui convidado pelo comandante para jantar“.

3 de Setembro – “França. Fui hoje dar um passeio à cidade onde várias vezes tenho ido e em tão boa hora que me encontrei com o meu melhor amigo (oficial) que tive em Abrantes [Béthune, Merville ou Estaires?]; fiquei muito satisfeito com tão feliz encontro. Todos os dias estou vendo velhos amigos e conhecidos. A feira este ano tem estado animada e divertida? (…) Parece-me que tem havido grande roubalheira nos bilhetes que te tenho enviado. São bons!…

Nas Ordens dos dias 3, 4, 8, 12 e 17 deste mês de Setembro de 1917 são determinadas intervenções da banda de música no campo de instrução, no campo de Vieille Chapelle e junto ao Quartel General.

4 de Setembro – “França. Muito desejarei que ao receberes este bilhete já estejas completamente restabelecida. Ontem e hoje estiveram uns dias lindíssimos“.

27 de Agosto – Portalegre: “Com respeito à minha tosse, muito poucas vezes me apoquenta; tende a desaparecer completamente. (…) No dia 19 também, eu, o Avozinho e a Aurorinha o felicitámos pelo seu aniversário“.

6 de Setembro – “França. Se as noites estiverem frias, não te demores até tarde na feira, mesmo por causa da poeira que faz muito mal à garganta e aos olhos“.

7 de Setembro – “França. Já estás completamente restabelecida? Hoje vieram-me buscar de automóvel para ir jantar com uns amigos. Passei uma tarde bastante agradável. Ontem tivemos concerto, mas a certa altura teve de ser interrompido em virtude duma grande trovoada, e formidável carga de água. (…) Tens continuado a trabalhar no mapa? Como vamos a respeito de música e entoação? “.

8 de Setembro – “França. Espero que já estejas restabelecida. Faz amanhã um ano que fomos dar um passeio a Castelo de Vide. Recebi hoje carta do Dr. Sampaio em que me fala de ti. Diz ao Avozinho para comprar no Oliveira, em frente da antiga farmácia Matos, dois pares de liras oxidadas e que mas remeta. Se não houver em Portalegre que mande vir de Lisboa “.

Com data de 2 de Setembro, chegará à posse do capitão José Cândido Martinó o Ofício da Sopa Económica de Portalegre n.º 36 – “À Banda de Infantaria n.º 22 França. A Direcção da Sopa Económica para os pobres, desta cidade, vem agradecer, muito penhorada,  a generosa oferta que os componentes dessa Banda se dignaram enviar-lhe. Aproveita ainda esta direcção apresentar-lhes o testemunho da sua mais viva simpatia, pois é bem para frisar que, embora sofrendo os horrores da guerra, não esquecem os nossos compatriotas, aqueles a quem a mesma guerra acarreta a miséria do lar. Por último, vem a mesma direcção saudar todos os que, em terras distantes, tão valentemente têm defendido e levantado o nome da nossa querida Pátria! Saúde e fraternidade, Portalegre, 2 de Setembro de 1917. Pelo Presidente da Direcção, O Tesoureiro, Júlio Fernandes“.

A Banda do 22, mesmo longe e sempre em risco, não esquecia as funções culturais e altruístas, sobretudo lembrando a sua Portalegre distante…

4 de Setembro – Portalegre: “A minha tosse, durante todo o dia, já desapareceu completamente; de noite apenas uma vez ou outra, mas sem violência. Pelo motivo de todos os empregados do Correio estarem em greve, já há 4 dias não lhe escrevi; no Correio não distribuíam nem aceitavam correspondência“.

5 de Setembro – Portalegre: “Foi ontem o primeiro dia que principiaram a aceitar correspondência no Correio Geral“.

6 de Setembro – Portalegre: Eu vou passando melhor dos meus incómodos; isto é nada. Demorei-me 17 dias em casa da Sr. D. Ema“. Postal visado pela Censura…