1917 – há cem anos – onze

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1917 (Fevereiro) – Os anos da Guerra, em França. Bilhetes de José Cândido Martinó para a filha Benvinda e respostas desta:

9 de Fevereiro: “Passo bem de saúde e estou optimamente instalado, não calculas. Desde a chegada a França que ainda não deixei de ver muita neve. Tudo isto deve ser lindíssimo na primavera“. Com carimbo: Censurado.

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Como nota relativa a esta mesma data de 9 de Fevereiro, transcreve-se  um excerto final de “Crónicas Musicais“, VIII parte do capítulo II – A origem da música militar, da autoria de José Cândido Martinó, artigo que virá a ser publicado em “O Distrito de Portalegre” n.º 2.848, de 18 de Janeiro de 1924: “… Antes de terminar, permitam-nos lembrar a grande vantagem de unificar o diapasão do instrumental das bandas da Guarda Republicana e Marinha; pois, enquanto aquelas estão afinadas no diapasão brilhante, estas o estão no normal; e substituir os pistons (cilindros) nos instrumentos de metal pelo sistema de rotação; a fim de evitar a repetição dum facto passado em França: Quando na manhã frigidíssima de 9 de Fevereiro de 1917 o batalhão de infantaria n.º 22 atravessou Aire-sur-la-Lys, a banda de música, devido à temperatura, ficou impossibilitada de tocar, em virtude dos pistons não funcionarem; prejudicando assim o desfile dos primeiros soldados do C. E. P. que, ao pisar terra estranha, deixaram de ouvir o hino da sua Pátria e saudar a Bandeira que, em 14 de Julho de 1919 juntamente com a de outras nações aliadas, baniu o eco da genial e inspiradíssima marcha militar de Franz Schubert que as bandas, à frente do exército prussiano, executaram ao passar sob o arco do Triunfo em 1871…“.

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12 de Fevereiro: “Continuo passando muito bem. O frio já não se faz sentir tanto e mesmo já me vou habituando a esta temperatura. É preciso que me escrevas muitas vezes, pois já há muito tempo que não recebo notícias tuas“.

13 de Fevereiro: “Por enquanto tudo vai correndo muito bem. Levanto-me e tomo o café, depois dou um passeio pelo parque e jardim do palácio; às 12 almoço, às 6 janto e às 10 tomo o chá. O resto do tempo passa-se a jogar o bilhar ou qualquer outro jogo, a passear, etc. O tempo tem melhorado bastante“.

11-2-placa14 de Fevereiro: “Continuo passando muito bem. (…) A vivenda fica no centro duma cidade muito bonita e duma aldeia que também não é feia. Amiudadas vezes aí vou passear com fato de cotim e sem luvas e vou passando muito bem com todo este frio. As frieiras não me apoquentam. As mulheres é que guiam os carros e fazem a barba. Os carros são muito diferentes dos nossos e os cavalos são muitíssimo grandes. (…) O tempo continua muito bonito“.

15 de Fevereiro: “A vida aqui é caríssima. Estamos pagando a uma cozinheira 5 fr. por dia; a 300 reis o fr. são 1.500 reis por dia. (…) Tudo muito mais caro que em Portugal. A única coisa barata são artigos de vestuário e chapéus para mulher. É natural que só para o fim do mês possa receber notícias tuas e da família“.11-4-postal-fev17b

16 de Fevereiro: “Durante a viagem em caminho de ferro que durou 3 noites e dois dias, fomos obsequiados pelos franceses com café e conhaque, pelos ingleses com chá, comida, doce e mantas para nos agasalharmos e um grupo de meninas inglesas ofereceram lenços aos oficiais e soldados. Enfim por enquanto tudo vai correndo o melhor possível. As saudades de te não ver é que cada vez são maiores. Vai guardando tudo que escrevo para mais tarde leres“.

17 de Fevereiro: “Continuo passando bem. Apareceu a chuva mas o frio já não se faz sentir tanto. Tivemos ontem às 2 horas da tarde a 1.ª revista. A banda já tem tocado várias vezes. Os donos do palácio gostam muito de música. Têm um gramofone com discos muito bons e lindíssimos; todas as noites há sessão de gramofone. É preciso que estudes muito para conseguires fazer um lindo exame: não esquecendo o trabalho no mapa. (…) Próximo da minha habitação há uma escola de meninas; todas falam francês“.

José Cândido usará bastantes palavras e até frases sublinhadas, o que aqui se reproduz. 

1917 – há cem anos – dez

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O trajecto até à zona de operações, na Flandres francesa, vai ser efectuado pelo caminho de ferro. O itinerário Brest, Morlaix, Saint Brieve, Rennes, Laval, Caen, Rouen, Amiens, Abbeville, Étaples, Boulogne-sur-Mer, Saint Omer, Aire-sur-la-Lys, num total de 853 quilómetros, cumpridos em 3 intermináveis dias, será efectuado no início desse gelado mês de Fevereiro de 1917, em pleno rigor de um inverno a que os portugueses não estavam minimamente habituados. Basta lembrar que as temperaturas verificadas durante a viagem atingiram os 20º negativos!

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O sector que é entregue ao C. E. P. localiza-se no Sul da Flandres, precisamente no vale do rio Lys, entre Armentière a La Bassée e Merville a Bethune, estendendo-se por uma longa frente, que oscilará entre uma dimensão máxima de 11 Km e uma mínima de 4 Km, de acordo com a evolução e as incidências da campanha militar em curso.

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Os futuros combatentes são acolhidos por uma Proclamação dirigida pelo Serviço da República ao Corpo Expedicionário Português, assinada pelo seu comandante, general Fernando Tamagnini. A “guerra psicológica” instalava-se…

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Outras publicações fundamentais esperavam os combatentes. Com o respectivo equipamento, um cartão anexo (S. S. 535. P.) intitulado “A Defeza contra o Gaz“, recomendando expressamente que seja guardado na caderneta: “Lembre-se que, com excepção das suas armas, não há nada mais importante que o seu Respirador e Capuz. Conserve-os, pois, em perfeita condição. A SEGURANÇA DA SUA VIDA PODERÁ DEPENDER D’ELLES.” Numa edição de Lisboa, Imprensa Nacional, 1916, já encimada pelo “endereço” Corpo Expedicionário Português – Quartel General, o volume “Notas sobre a Guerra de Trincheira” ostentava na capa, em caixa destacada, um claro aviso: “Publicação reservada. É expressamente proibido divulgar à imprensa ou a qualquer indivíduo estranho ao exército as informações contidas neste livro. Igualmente não é permitido levá-lo para as trincheiras, a fim de evitar a sua apreensão pelo inimigo. Finalmente, numa edição de “Army Printing and Stationery Services” (a mesma do cartão anti-gás), há ainda um caderno intitulado “Extratos das Ordens de Execução Permanente distribuídas aos Exércitos  Britânicos em França“, pelo General Sir Douglas Haig, datado de Grande Quartel General, 31 de Dezembro de 1916. É interessantíssimo o conteúdo desta brochura com 40 densas páginas recheadas da mais diversa informação sobre aeroplanos, disciplina, censura, higiene, reclamações, serviço postal, aboletamento, transportes, informações, relações com o inimigo, etc.10-4-gas

No dia 1 de Fevereiro de 1917, “O Distrito de Portalegre” divulga a realização de missas dedicadas aos expedicionários, todos os sábados em S. Tiago e todos os domingos na Sé Catedral, “endereçando fervorosas preces à excelsa padroeira dos portugueses, pedindo o seu amparo para os nossos bravos soldados que marcham para a guerra“.

Entre José Cândido e a sua filha Benvinda vai então iniciar-se uma longa troca epistolar, de que o episódio de Tancos fora um simples prelúdio. Quase sempre envolvendo postais ilustrados, estes constituirão um fascinante conjunto de diversos temas onde a guerra assume natural predominância. Para além dos enviados por si da “frente”, o pai fornecerá à filha algumas outras colecções de bilhetes ilustrados que esta lhe irá devolver, devidamente preenchidos, numa sequência que se vai prolongar por tempos de paz…

O espólio que integra a correspondência enviada de França está quase completo, com algumas centenas de postais (cerca de 500), pois jornadas houve em que José Cândido repartiu os seus registos (quase quotidianos) por dois, três, quatro e até cinco desses bilhetes! Quanto às cartas e postais enviados de Portalegre por Benvinda, já o balanço não se revelará tão exacto, pois por diversas vezes as incidências do conflito produziram estragos e extravios no património acumulado em França por José Cândido.

A seguir se reproduzirá, mês a mês, a relação cronológica dos excertos considerados mais interessantes, sob os diversos e complementares pontos de vista desta relação epistolar entre um pai e uma filha preocupados com a dramática situação que vivem. Porque José Cândido permanentemente se procura manter informado sobre o que se passa em Portalegre e em Portugal, vai receber em França “O Século” e “A Plebe“, garantindo também as assinaturas das revistas e outras publicações de índole musical a que se tinha habituado, as quais continuarão a chegar à sua residência.

Na relação cronológica que se seguirá, procurou-se respeitar uma sequência tão rigorosa quanto foi possível, reproduzindo a ordem e o ritmo intercalares que teriam sido vividos por José Cândido, não só como emissor mas, também, como receptor de correspondência. Não se fará referência aos exemplares postais donde não conste qualquer conteúdo considerado relevante, à luz dos critérios seleccionados: relação pai/filha, nomeadamente sobre os estudos e a saúde, a vida quotidiana em Portalegre e em Portugal, comentários sobre a França, a Guerra, a Música, a política, as pessoas, os costumes e os factos.

Alguns apontamentos, datados, das “histórias” paralelas de Portalegre e suas gentes, da Guerra, do País e do Mundo pontuarão os registos epistolares.

1917- há cem anos – nove

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No seu número de 28 de Janeiro de 1917, “A Rabeca” ostenta na sua 1.ª página o artigo “Tropas Expedicionárias“, subscrito por Zé Côdea, onde se compara a frustrada despedida a uma bateria de Artilharia de Montanha que há meses fora para África com o eufórico e actual adeus aos militares de Infantaria 22 . No interior, com o título “Os nossos soldados“, uma pequena peça traz as últimas notícias: “De Lisboa – onde se acham a bordo, aguardando com ansiedade a hora da partida para as trincheiras francesas – temos recebido, quase todos os dias, notícias dalguns nossos amigos, briosos expedicionários. Da correspondência recebida ontem, destacamos o seguinte significativo bilhete: ‘À Redacção d’A Rabeca. Encontrando-me em Lisboa, pronto a marchar para a França, venho por este meio despedir-me, confiado de que em breve regressarei a Portugal, depois de ter cumprido o meu dever nos campos de batalha. Glória à nossa bandeira. Viva a Pátria de Camões. Viva o exército. Manuel da Cruz Serpa, músico de 2.ª classe de infantaria 22.’ Mais uma vez auguramos aos valentes soldados, nossos irmãos, uma boa sorte”.

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Começara a girar, para José Cândido e os seus camaradas, a roda da sorte.

09-no-barco-1O transporte do Corpo Expedicionário Português, tal como ficara previsto, vai realizar-se com partida de Lisboa, por via marítima, até Brest, na Bretanha.

Sete navios ingleses, sob as designações de código A, B, C, D, E, F, e G, mais dois portugueses, o Gil Eanes e o Pedro Nunes, asseguram a ligação inicial. Partem do porto de Lisboa do dia 30 de Janeiro e chegam ao seu destino a 2 de Fevereiro.09-no-barco-2

Dessa viagem guarda José Cândido duas fotografias e dois (elegantes) menus, em língua inglesa, da Ellerman’s City Line, relativos aos jantares a bordo do navio B (City of Benares) nos dias 26 e 27, enquanto nervosamente ainda aguardava a partida:

          26.1.17   Menu   Dinner:
 1                     Creme de poisson
2                      Fillets Fish, Maitre d’Hotel Sauce
3                      Ragout Ox Jail
4                      Roast Beef and Boiled Potatoes
                        Potatoes  Vegetables
5                      Souffle  Pudding
6                      Coffee

          27.1.17       Menu    Lunch:
1                      Verimicelli  Soup
2                      Beef Steak   Mkidney  Pie
3                      Chilou   China
4                      Malay   Curry
                        Boiled Potatoes
5                      Cold Roast  Beef
6                      Ground  Riss   Pudding
                        Biscuits    Cheese    Coffee

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Tal espera ainda permitiria aos militares embarcados enviar e receber alguma correspondência. A José Cândido, sob o endereço de “chefe de música do 2.º Regimento de Infantaria da 1.ª Brigada Expedicionária a França” (ou do “Corpo Expedicionário Português, C. E. P.”), a bordo do Vapor B (City of Benares), Lisboa, chegarão pelo menos três postais, do seu camarada de armas Piedade Guerreiro, de D. Thomazia Alves e, o mais significativo, da sua filha Benvinda: “Recebi os seus postais ilustrados, e antes, outro postal e também uma carta. Foi grande a minha alegria por saber notícias suas. Envio-lhe um abraço e muitos beijos. Muitas felicidades. Viva Portugal e os Aliados e agora é para a frente“.

Datado de Lisboa, 29 de Janeiro, apenas resta um bilhete enviado para a filha por José Cândido: “É uma hora da tarde e acabo de ser informado que partimos hoje às 4 da tarde. Será desta? Ainda duvido, mas seria conveniente liquidar tal situação, que é tudo quanto há de mais enervante. Recebi o teu bilhete que estimei e agradeço“. 09-postal-fev17a

A viagem, arriscada e por isso escoltada, acaba por processar-se com inteira normalidade.

O próximo postal é já escrito a partir de Brest, a 2 de Fevereiro, e com o carimbo da Censura: “Depois duma viagem horrorosa fundeámos hoje de manhã nesta terra onde teremos um dia de demora (…) Saímos de Lisboa no dia 30 às 6 h 20 m da tarde“. No dia 5 de Fevereiro, escreve um bilhete ilustrado para o pai, com uma vista da cidade, igualmente datado de Brest e com o mesmo inevitável carimbo censório: “Desembarquei hoje com um bonito dia de sol francês. A cidade é lindíssima“. Também no mesmo dia 5 escreve à filha um postal similar: “O tempo continua muito frio, mas com bonito sol; não o nosso sol de Portugal. Julgo que só no dia 7 é que retiramos para Ruan“. 

1917 – há cem anos – oito

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Este é o teor, datado de 19 de Janeiro de 1917, da Ordem Regimental do17-cap Regimento de Infantaria 22, em Portalegre: “Determino e mando publicar 14.º – Formatura – Que todo o pessoal mobilizado do E. M.; do 2 R.I. e da 1.ª Companhia que consta da respectiva guia de marcha se ache formado hoje na parada do quartel pelas 17 horas, a fim de seguir ao seu destino. 15.º Comando – Que em virtude de marchar hoje para Lisboa a fim de assumir o comando do 2.º R.I. do C. E. P., entrego o comando do regimento ao Ex.mo Major Francisco Soares de Lacerda Machado.  Adriano Augusto Trigo, coronel.”

E assim relata a imprensa local o emotivo momento da despedida:

– Jornal “O Distrito de Portalegre” (21 de Janeiro): “Viva o Glorioso Exército Português! Magnífico, soberbo, o espectáculo presenciado na última sexta-feira, à saída da primeira companhia de infantaria 22, para Lisboa e que faz parte do primeiro corpo expedicionário a França. Milhares de pessoas aclamaram os valorosos soldados que caminhavam todos bem dispostos. Das janelas as senhoras cobriam-nos de flores e levantavam entusiásticos vivas. Durante o trajecto do quartel de S. Bernardo ao fundo da Rua de Elvas, o povo confraternizou com os soldados, soltando repetidos vivas. Magnífico, soberbo o espectáculo presenciado! Que sejam felizes os briosos militares e que regressem à sua querida Pátria cobertos de louros. Viva a Pátria! Viva o Exército! Vivam as Nações Aliadas!”

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Enquanto na capa ficava expresso o texto transcrito, duma página interior do mesmo jornal consta, entre outras, a seguinte curta mensagem: “Despedida. José Cândido Martinó, fazendo parte do Corpo Expedicionário Português,19-02-despedida despede-se por este meio das pessoas de suas relação e amizade”.

Na mesma data, também “A Rabeca” publica, na sua 1.ª página, um texto intitulado “Expedição à França” que começa pela referência à partida das tropas de Portalegre e termina com três vivas: “Viva o nosso brioso exército! Viva a Independência da Pátria! Abaixo a Alemanha!” Numa página interior dessa edição, sob o título “Cumprimentos”, são destacadas as despedidas de alguns expedicionários: Júlio de Almeida e Silva, sub-chefe de música (“Despede-se de19-02-grupo todo o pessoal da redacção da Rabeca e de todos os rabequistas. Mil abraços a todos.”); Francisco de Almeida, músico (“Despede-se com saudade de todos os amigos, especialmente dos mamarrachos conhecidos”); João Baptista Pinto Vieira, Oásis, músico de 3.ª classe (“Despede-se”); Joaquim A. Casaca, músico (“Adeus a todos e até à volta. Viva a Pátria!”). E este texto “Cumprimentos”, integralmente dedicado a músicos (!), termina com uma nota da Redacção: “Agradecendo reconhecidos, fazemos votos sinceros para que em breve os possamos ver de volta e reunirmo-nos depois, numa ravacholada amiga. Tragam-nos de lá uma orelha de alemão, oh rapazes!

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É neste estilo quase brejeiro, pouco coerente com o drama que espera os militares portugueses na frente de combate, que Portalegre se despede dos seus.

António Martinó de Azevedo Coutinho

1917 – há cem anos – sete

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O Regimento de Infantaria 22, sediado no Mosteiro de São Bernardo em Portalegre, recebera no dia 29 de Dezembro de 1916 a visita do Coronel Gomes da Costa, futuro comandante da 1.ª Brigada do Corpo Expedicionário Português, em serviço de inspecção a esta unidade, que vai contribuir para o futuro contingente nacional com o Estado Maior e Menor do Regimento, um batalhão constituído pelas 1.ª, 5.ª, 6.ª e 9.ª companhias e ainda uma bateria de morteiros.

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O novo ano de 1917 começara com os preparativos bélicos finais. A 3 de Janeiro  procede-se à assinatura de uma convenção militar para a constituição do C. E. P. (Corpo Expedicionário Português), que vai ser incorporado na British Expeditionary Force, B. E. F.

E o primeiro embarque fica desde logo previsto para o dia 30 desse mesmo mês.

Em 17 de Janeiro são nomeados Comandante do C. E. P. o general Fernando Tamagnini de Abreu e Silva, que já comandara a Divisão de Instrução em Tancos, e Chefe do Estado Maior o major Roberto da Cunha Baptista.

No dia seguinte, pode ler-se na Ordem Regimental do Regimento de Infantaria 22, em Portalegre: “Determino e mando publicar 11.º / 3.º – Que em meu nome, em nome dos Srs. Oficiais e de todos os graduados e praças que sob o meu comando vão partir para a França no cumprimento do seu dever, apresentam as nossas mais afectuosas despedidas a todos os camaradas, graduados e praças deste Regimento, assegurando-lhes que todos nós vamos animados do maior desejo de honrar a Pátria e de levantar o prestígio do Exército Português a que todos nos honramos de pertencer.  Adriano Augusto Trigo, coronel.

Nessa mesma data, é divulgada publicamente uma “Proclamação da Comissão Executiva da Câmara Municipal de Portalegre ao Povo”, impressa na Tip. Leonardo, desta cidade.

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Manuel Maria, pai de José Cândido, e Aurora, irmã deste, regressam a Portalegre, para tomarem conta da jovem Benvinda. A comadre Rita, segunda mulher de Manuel Maria, também irá passar dilatados períodos na cidade alentejana, assim se garantindo o melhor acompanhamento possível de Benvinda, durante a forçada ausência do seu pai.

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José Cândido, urgentemente, consegue obter, também no dia 18, um exemplar da “Carta de sentença e formal de partilhas extraída dos autos de inventário orfanológico a que se procedeu por morte de Silvestre da Cruz Ceia, casado, proprietário, morador que foi nesta cidade, passada a favor da menor Benvinda Ceia Martinó”, assim assegurando em definitivo a legitimação dos bens envolvidos, precisamente os constantes no documento similar datado de 3 de Fevereiro de 1912.

Estava-se precisamente na véspera da partida das tropas de Portalegre para Lisboa, primeira etapa da ida para França.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Verdun – o centenário de um massacre

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A Batalha de Verdun foi uma das principais batalhas da Primeira Guerra Mundial, na Frente Ocidental. Colocou frente-a-frente o exército alemão e as tropas francesas, de 21 de Fevereiro a 18 de Dezembro de 1916, num terreno cheio de elevações a Norte da cidade de Verdun-sur-Meuse, nordeste de França.

De acordo com estimativas iniciais, teriam morrido 714 321 homens, 377 231 do lado francês e 337 000 do lado alemão. Por cada mês de batalha, em média, teriam ocorrido 70 000 baixas. Foi a batalha mais longa, e uma das mais devastadoras em termos de baixas, da Primeira Guerra Mundial e da história militar. Estimativas actuais estimam que o número de baixas é de 976 000, quase um milhão…

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A Batalha de Verdun – também conhecida como ‘’A Máquina de Trituração de Verdun’’ – tornou-se um símbolo da determinação francesa para controlar e manter o terreno e fazer frente ao inimigo a qualquer custo. Contudo, era claro que o Alto Comando francês foi apanhado de surpresa pelo assalto de Fevereiro de 1916. Com o passar do tempo, Verdun tornou-se uma batalha de atrito na qual a artilharia teve um papel fundamental. A utilização intensiva de camiões para reabastecimento das tropas e de material nas linhas da frente foi um factor muito significativo que ajudou a equilibrar as forças entre os dois exércitos. Além disso, durante o Verão de 1916, um novo caminho-de-ferro com as vias de tamanho padrão acabou de ser construída substituindo o tráfego da antiquada “Voie Sacrée” e da ferrovia “Chemin de fer meusien“.

O Comando alemão tinha escolhido Verdun como um alvo estratégico em vez de Belfort, pois o caminho-de-ferro que atravessava Verdun em tempo de paz há muito que tinha sido interrompido. Uma linha que vinha de Sul até Verdun tinha sido cortada quando os alemães ocuparam Saint-Mihiel em 1914, enquanto a outra, em direcção a Oeste de Verdun para Paris, estava sob observação alemã e fogo de artilharia em Aubreville. Assim, no início, os estrategas alemães olharam para Verdun tal como ela era: uma saliência com três falhas, sem uma linha de caminho-de-ferro padronizada e, deste modo, uma oportunidade de preparar um assalto que derrubasse o Exército francês. O que eles não previram foi que, após passada a surpresa, a logística francesa iria melhorar e tirar-lhes a vantagem inicial.

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A Batalha de Verdun popularizou a frase do general Robert Nivelle: “Eles não passarão“, cujo texto francês original é: “Vous ne les laisserez pas passer, mes camarades“, registada na Ordem do Dia de Nivelle de 23 de Junho de 1916.

Verdun permaneceu um símbolo da determinação francesa durante anos. Na Batalha de Dien Bien Phu, 1953–54, o general Christian de Castries chamou a atenção para a situação que era “semelhante a Verdun“. A analogia não era de todo correcta pois as forças francesas cercadas em Dien Bien Phu tinham que ser totalmente reabastecidas por via aérea, numa faixa de terreno pouco segura, ao alcance da artilharia Viet Minh. Em contrapartida, as forças francesas em Verdun eram reabastecidas por estrada e caminho-de-ferro que ficavam para além do alcance do fogo da artilharia alemã.

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A 22 de Setembro de 1984, o Chanceler alemão Helmut Kohl (cujo pai tinha combatido perto de Verdun, na Primeira Guerra) e o Presidente francês François Mitterrand (que tinha sido feito prisioneiro na Segunda Guerra Mundial), reuniram-se no cemitério de Douaumont, de mãos dadas durante alguns minutos, à chuva, num gesto simbólico de reconciliação franco-alemã.