1917 – há 100 anos – dezoito

O Distrito de Portalegre” publica, na sua edição de 15 de Abril, um texto patriótico a toda a largura da primeira página, assinado por Armando Neves. Sob o título “Em Combate” e o sub-título “O Nosso Dever”, o texto termina com os habituais vivas: “Viva a Pátria! Por Portugal! Viva a República! Vivam as Nações Aliadas!” Do seu conteúdo, destacam-se alguns excertos: “Segundo informações do Ministério da Guerra, o ministro sr. Norton de Matos recebeu na passada terça-feira um telegrama do general comandante do Corpo Expedicionário a França, comunicando-lhe que uma parte das forças portuguesas entrou já na grande luta ao lado das tropas inglesas, sendo, por todas as formas, merecidamente elogiada. O moral dos nossos homens, garantiu-o o general sr. Tamagnini, é excelente e sobremaneira animador. (…) Todos, absolutamente todos, têm a obrigação e o cumprimento inauferíveis de concorrerem para a Vitória. Não é só ao soldado impávido e destemido que vai humildemente sacrificar a sua vida pela Causa que nos é querida, que cumpre a defesa da Pátria. É também aos que cá ficam. Aos homens que estão isentos, pela idade, do serviço militar, aos velhos e também às mulheres e até mesmo às crianças. Todos têm a sua respectiva tarefa a executar; e ai daquele que a não executa! A defesa dum país reside dentro e fora dele. Todos me entendem, sem dúvida. (…) Sobre a incorporação do sacerdócio no exército, direi que nada há de mais justo e razoável. Para a frente é que é o caminho; o caminho da Honra e do Dever. Um padre é um cidadão como outro qualquer e, por isso mesmo, deve estar sujeito às leis militares”.

16 de Abril – “França. O tempo continua péssimo. Que coisa tão aborrecida com tal tempo. Ou chuva ou então muita neve e frio“.

4 de Abril – Postal de Portalegre, de Aurora, para J. M.: “Igualmente lhe desejo umas festas alegres e boa saúde para daqui a um ano as passar junto da sua filhinha. Já estou de férias. As da Benvinda começam amanhã, 5.ª feira“.

5 de Abril – Portalegre: “(no final) N. B. Os cartões que tenho recebido seus vêm todos bem fechados, mas com a marca da censura“.

Entre 16 e 19 de Abril de 1917, acontece na frente a 2.ª Batalha de Aisne, onde os alemães conseguiram deter o avanço francês.

17 de Abril – “França. Amanhã continuo com as minhas viagens circulatórias. Três vezes por semana tenho esta espiga, afora outros bicos de obra; o que me vale é eu ser bom andarilho e o tirocínio de Paulona. O tempo continua chuvoso e muito frio“.

18 de Abril – (com uma bela aguarela, original, publicada no anterior “capítulo”) “França. O Alferes Pereira, que tu conheces de casa da S.a D. Ema, passa o tempo a fazer bonecos. Hoje consegui apanhar um que te envio“.

18 de Abril – “França. Os rapazes durante o tempo que têm de estar na escola têm muitos intervalos para recreio e lanche, mas de todas as vezes que saem da escola, durante cinco minutos, fazem exercícios militares dirigidos pelo professor“.

8 de Abril – Postal de Portalegre para J. C., com carimbo de Censura: “Os seus a quem vejo quase todos os dias especialmente seu pai e a sua interessante filhinha estão de perfeita saúde. Desejo que volte depressa, pedindo-lhe que traga uma orelha de um alemão.  E. Alvarrão“.

Eleutério Mariano da Rosa Alvarrão (Elvas, 1866-Portalegre, 1931), vizinho de JCM na Rua da Mouraria, foi um conhecido e apreciado jornalista, caricaturista e autor dramático.

9 de Abril – Portalegre: “Como estava um pouco constipada retirei-me mais cedo que me doía bastante a cabeça. Logo que cheguei o Avozinho deu-me uma pastilha das bichas – metade logo e metade hoje de manhã – passado algum tempo tomei um calmante. (…) No sábado de Aleluia fomos comprar um cabritinho muito bonito, escolhido por mim, e que foi servido no jantar de Domingo, com a competente sobremesa“.

19 de Abril – (três  postais) “França. Antes de conhecer a França fazia uma ideia muito diferente de tudo isto. Cada vez me convenço mais da derrota da Alemanha, mas a França é uma nação liquidada. Não se vê um homem válido. Só a Inglaterra poderá salvar a raça francesa. Tudo isto está muito atrasado. Em frente da minha casa faleceu há pouco tempo uma criança de 18 meses. Tinha uma bronquite que a família curava com vinho, cerveja e cognac; quando estava quase morta é que vieram chamar o médico do regimento, pois por estas paragens não há médicos nem farmácias. Muito pouca civilização e humanidade; sobretudo muitíssima porcaria, não podes fazer ideia da higiene de tal gente. Esquecia-me de dizer que a pobre criança esteve cinco dias em casa, fazendo-lhe à porta a tal cruz com muitos raminhos de murta. (…) Ainda a propósito do tal passeio de automóvel com a filha do “maire”, qualquer criada de servir em Portugal teria sido mais delicada e correcta que a tal menina. É casada e tem o marido na guerra, mas apareceu toda decotada e muito bem posta apesar de estar muito frio. (…) O tenente Maltez já regressou e perdeu o medo; já está um pouco mais civilizado e menos bruto“.

1917 – há cem anos – dezassete

A data de 7 de Abril de 1917 está aposta na “Despedida” divulgada em “O Distrito de Portalegre” publicado no dia seguinte: “Júlio Augusto Meira Serra, sargento músico, estando há dois meses em Lisboa e tendo de partir dali para França, despede-se de sua família e amigos. Fá-lo por este meio, pelo motivo de já não poder vir a esta terra”.
Eram frequentes estas mensagens públicas, e publicadas, de despedida de militares expedicionários.

8 de Abril – “França. É hoje Domingo de Páscoa, dia de festa que eu passo muito longe de ti. Julgo estar resolvido que hoje haja uma grande revista. (…) Ontem, já depois de te ter escrito, vieram à nossa Mess um grupo de rapazes cantar às Aleluias, e a pedir os Ovos da Páscoa. Traziam matracas com que faziam muito barulho“.

28 de Março – Portalegre: “Está muitíssimo frio; mais frio do que no mês de Janeiro“.

… de Abril – Postal de Portalegre para J. C. (com carimbo: Censurado): “Aqui morreu o Caetano. Tinha libras por toda a casa. 2.300 libras no cofre. B. Brito“.
Caetano, aqui citado, é o “importante proprietário Caetano José Ribeiro, falecido ontem nesta cidade”, nota do “Obituário” publicado em “O Distrito de Portalegre” de 22 de Abril de 1917.

3 de Abril – Postal de Portalegre para J. C. M.: “Bastas vezes me recordo com saudade das pessoas que me têm dispensado a sua dedicação de que estou reconhecido. Todos os seus bem. A sua filhinha está muito bonita.  Rosado“.

4 de Abril – Postal de Portalegre para J. C. M.: “Queira V. Ex. receber muitos beijos da menina Benvinda que continua muito bem de saúde e satisfeita; vai bem nos seus estudos.  Maria Joana Dias Gonçalves“.
Maria Joana Dias Gonçalves é a professora de Benvinda, sendo muito conceituada na cidade de Portalegre pela sua reconhecida competência pedagógica.

30 de Março – Postal de Aurora, Portalegre: “Meu querido Padrinho. (…) A Benvinda está muito bonita mas muito traquina. Tudo quer saber. Está bastante adiantada e já sabe muitas coisas do 2.º grau. Ainda ontem ao deitar-se começou a conjugar verbos duma forma tal que eu fiquei completamente admirada. (…) Por aqui nada se tem passado de importante a não ser a morte do sr. Lourinho; fizeram-lhe um funeral imponente em que se incorporaram todas as Escolas e entre estas a Escola Normal com a sua nova bandeira que ficou muito bonita. Estimo as melhoras do Joaquim. Sua afilhada m.º amiga. Aurora M“.

9 de Abril – “França. Ontem foi um dia de grande trabalho, até o almoço de festa teve de ser comido à pressa. Envio-te o “menu”; com este já lá deves ter três menus artísticos. Daqui para o futuro principiam as grandes maçadas. Pela nota que o Avozinho mandou da data dos postais que te tenho enviado, julgo que poucos se têm extraviado“.

31 de Março – Portalegre: “Ontem confessei-me e comunguei na igreja de S. Lourenço, na companhia da S.ra D. Ema“.

10 de Abril – (dois postais) “França.”; “ França. A correspondência que envio não é lançada na caixa do correio, é entregue na secretaria, donde é censurada, e depois segue para várias entidades onde é novamente censurada, para só então seguir o seu destino. (…) Ainda não vi o alferes Fino“.

O alferes Fino, bastante citado nesta correspondência, é única personalidade verdadeiramente digna de nota, pelo seu trágico destino. Com efeito, o então já tenente Afonso Fino Bento de Sousa morrerá em combate, no fatídico dia 9 de Abril de 1918, em La Lys. Está sepultado no cemitério militar de Richebourg, em Boulogne-sur-Mer, tendo sido condecorado a título póstumo pelo presidente Óscar Carmona, em 30 de Setembro de 1927, com o oficialato da Ordem Militar da Torre e Espada.
Os  alferes Correia, Santos Lima e Pereira (autor inspirado de desenhos e pinturas, desde Tancos à Flandres, de que se reproduz aqui um postal da sua autoria) assim como os tenentes José Faustino,  Maltês, Tavares e Luís Lello, os capitães Minde de Oliveira e José Faria, o veterinário militar Raposo, o médico militar Basso Marques, o coronel Adriano Trigo (qualificado comandante do 22), o soldado Joaquim Candeias (o desastrado impedido !) e tantos outros, serão apenas figuras que preenchem o cenário quotidiano da guerra, camaradas de armas e companheiros de desdita de José Cândido, sem qualquer significado ou intervenção especial para além do que fica expresso nas referências deste.

11 de Abril – “França. Como já te disse as povoações são muito próximas e muito semelhantes. Numa marcha que ontem fizemos, dumas 4 ou 5 léguas, atravessámos nada menos de 6 villages. Em geral as mulheres quando ouvem a música não vêm para a rua ou abrem a janela; espreitam com olhos de gente desconfiada. As crianças saltam para a rua ver as tropas mas sempre muito porcas; não lavam a cara, isto apesar de por aqui haver muita água. Até à idade de 15 a 18 anos tudo usa bibes“.

12 de Abril – “França. Em geral, nas marchas que temos feito, acontece muitas vezes durante uma ou mais horas cair neve. O horizonte que a nossa vista abrange, e que parece não ter limites, é completamente branco; isto juntamente com o cair da neve, dando também a cor branca ao céu, forma um conjunto dum efeito encantador”.

13 de Abril – “ França. No passeio militar de ontem, atravessámos mais 5 “villages”, mas já eram minhas conhecidas”.

14 de Abril – “ França. Fui ontem dar um passeio de automóvel a uma cidade lindíssima e que eu ainda não tinha visto. [A cidade é Saint-Omer, a norte, pois essa visita fica registada e datada numa colecção de postais] A demora foi muito curta, porque na nossa companhia – eu e mais dois oficiais – também ia a filha do maire, de maneira que pouco tive ocasião de ver e admirar, porque a tal menina estava com muita pressa e não havia tempo a perder. Fiquei deveras arreliado com o caso. Caso possa, tenciono lá voltar para então ver tudo à minha vontade”.

15 de Abril – “França. A dona da casa onde estou é tão miserável que, da roupa que se lhe entrega para mandar lavar, cobra uma percentagem para ela. Por  isto podes ajuizar da força de tal menina! “.

1917 – há cem anos – dezasseis

Findo o mês de Março de 1917, era possível fazer um balanço da correspondência trocada entre o capitão José Cândido Martinó, em França, e a sua filhita Benvinda, em Portalegre. De França: 30 postais, entre os quais (dia 3) um retrato; 11 são de tema infantil, 3 de costumes regionais franceses, 2 patrióticos e os restantes 13 de tipo romântico. Os dos dias 23 e 24 são particularmente curiosos: uma filha escreve ao pai, na Guerra! De Portalegre: quatro cartas e três postais, estes do tipo romântico.

Começara o mês de Abril…

1 de Abril – “França. Fui ontem à tal revista, ficando conhecendo mais duas terriolas. Fui convidado pelo comandante do batalhão para almoçar. Na terra onde a revista teve lugar, há um costume muito patusco. No dia 27 faleceu um velhote, pois só no dia 31 lhe fizeram o enterro. Durante os dias 27 a 31 as pessoas conhecidas e amigas do falecido iam colocar à porta do morto molhos de palha com que formavam cruzes. Cada cruz representa um ano; como o morto tivesse 77 anos, fizeram 77 cruzes de palha. Depois do enterro, homens e mulheres foram para o estaminet embebedarem-se e folgar. Os sinos, durante os 5 dias, fizeram um barulho terrível”.

No dia 2 de Abril de 1917, a Câmara Municipal de Portalegre cedera, para serem incorporados na parada do Quartel de Infantaria 22, 410 m2 de terreno da cerca do Convento de S. Bernardo.

2 de Abril – “França. Hoje está um dia frigidíssimo, pois ontem à noite caiu um grande nevão. Ontem, 1 de Abril, tivemos festa na Mess, veio jantar connosco o Coronel Trigo, que é uma verdadeira joia; é muito bondoso. O ajudante, Capitão Faria, fez um Menu muito artístico que te envio para tu veres que, por enquanto, a campanha tem sido Gastronómica e Digestiva. Está a acabar; pois o que é bom dura pouco tempo. Os ingleses fazem a barba diariamente, mas estão uma ou mais semanas sem lavar a cara. Em França todas as casas têm um pátio onde fazem estrumeira. Há por cá muita porcaria“.

24 de Março – Portalegre: “Em França também há amêndoas? Por cá já vão aparecendo, brancas, azuis e cor de rosa“.

3 de Abril – “França. Fiquei deveras impressionado com a notícia do falecimento do teu amiguinho e Sr. Lourinho. Hás-de juntar o nome dele, nas tuas oraçõezinhas infantis; nunca esquecendo o da tua querida Mamãzinha. Quando hoje me levantei da cama, vi o mais formidável nevão que tenho presenciado. Não calculas o pesar que tenho de não poder mandar-te as amêndoas. Diz ao Avozinho que te compre aquilo de que mais gostares“.

O referido sr. Lourinho é António José Lourinho, ao tempo presidente da Câmara Municipal de Portalegre e senador pelo distrito, além de director de “A Plebe”, que morrera por doença, em Lisboa. O seu funeral, muito concorrido, tivera lugar em Portalegre no dia 25 de Março de 1917.

4 de Abril – “França. Ontem, depois do meio dia, apareceu o sol, mas – como já te disse – um sol muito diferente do nosso e principalmente o azul celeste; mas apesar disso o tempo continua frigidíssimo e bastante agreste“.

5 de Abril – (dois postais) “França.”; “ França. Os ingleses têm tal culto pelo hino nacional, que nem permitem que ninguém o assobie ou mesmo cante, a não ser em actos muito solenes. Não calculas a maneira marcial e imponente como os ingleses marcham, mesmo nas marchas de estrada e à vontade; nunca saem do seu lugar; cantam canções nacionais – mas nunca o hino – e assobiam. Não calculas o efeito do que seja um ou mais milhar de homens assobiando todos a mesma coisa. Quando vão à missa, entoam cânticos lindíssimos muito afinados e geralmente em oitavas. O conjunto de 5 ou 6 mil homens entoando um cântico é dum efeito surpreendente“.

6 de Abril – “França. O alferes Pereira, que tu conheces de casa da S.a D. Ema, e a quem já arranjaram pau e lança para a bandeira, de regresso… conta coisas interessantes e mirabolantes. Os tenentes Maltez e Faustino cada vez estão mais rabugentos. Na casa de jantar da nossa “Mess” há uma parte ocupada pelos piadistas, conhecida pelo Sol. O veterinário Raposo está sempre a chorar, que ganha muito pouco, que está para casar – porque os veterinários não morrem – pedindo a todos que lhe cedam a parte que lhes pertence dos artigos de menage para montar a casa à noiva. O Capitão Minde de Oliveira fez umas quadras muito bonitas para o Fado do Ganga e que dedicou ao tenente Faustino“.

Entre os papéis manuscritos por J. C. M. existe a letra do “Fado do Estaminet“, com a indicação “Música do Ganga“. O texto é algo “pornográfico”, começando por “Esta agora tem piada; Camarada; O nosso Faustino, o Zé; Arranjou de namorada; Uma velha desdentada…”, com uma nota final sugerindo “Ó Zé Faustino;  Toma-me tino…”.

7 de Abril – “França. Tenho notado que em França não há faixa de terreno, por muito pequena que seja, que não esteja cultivada, pois tudo trabalha nos serviços agrícolas; velhos, mulheres e crianças, e até os próprios soldados quando no gozo de qualquer pequena licença. Tudo isto é muito povoado, não se encontrando casas isoladas como em Portugal, principalmente no Alentejo, mas sim povoações muito próximas umas das outras. Pedi ao tenente Maltez para mandar imprimir 100 envelopes e o idiota fez a encomenda de 1.000; anda esparvoado de todo, principalmente depois que viu o resultado da 1.ª experiência, e como no dia 9… ninguém o atura“.

1917 – há 100 anos – quinze

22 de Março – “França. Melhorei muito; não calculas o quanto estava mal alojado. Estou juntamente com o Comandante e o médico. (…) A villa onde estou alojado faz-me lembrar muito a Quinta Branca. [O local onde J. C. vai permanecer algum tempo é Enquin-les-Mines, justificado tanto por um bilhete que mais tarde receberá da sua actual “hospedeira” como pela datação de uma poesia] (…) Quase todos os oficiais cortaram o bigode; é moda mas por enquanto não segui tal moda. É regulamentar fazer a barba todos os dias. As dúzias de ovos nesta terra constam de 13 ovos. O Joaquim já está bom“.

13 de Março – Portalegre: “Já estou de posse do seu lindo retrato; nem o Papá poderá fazer ideia de quanto fiquei contente quando o recebi. Está muito parecido, muito bonito e até mais gordo do que estava quando retirou daqui; todos são da minha opinião“.

23 de Março – “França. A tua carta estava muito bem escrita e com letra bonita. Gostei muito. (…) Às 5.as feiras não há escola. Ainda hoje não nevou mas está muito frio“.

24 de  Março – “França. Quando desembarcámos em França fomos a um cine e o director da orquestra para nos ser agradável tocou o Hino da Carta que teve de ser ouvido de pé e agradecido. Ainda lá não era conhecido o nosso Hino – A Portuguesa. Comprei há dias um álbum com os Hinos de todas as Nações; no de Portugal ainda figura o de D. Fernando!… Bandeiras portuguesas é coisa rara. Amanhã há uma grande festa militar, aonde vou com a banda. (…) Quando estou na cama, os passarinhos vêm para o beiral da janela do meu quarto cantar“.

25 de Março – “França. Desejo que tenhas uma Páscoa muito feliz, desejando que a de 918 a possa passar na tua companhia“.

26 de Março – “França. A festa militar foi muito brilhante. A Banda do 22 agradou muito. No fim da festa as bandas reunidas executaram os Hinos debaixo da minha direcção. No meio da festa apareceram pairando sobre a nossa cabeça uns 20 ou 30 aeroplanos. (…) Quando chego à janela do meu quarto, lembro-me muito de Gião, quando ali fui passar a Páscoa contigo. Mando-te o “menu” dum dos muitos banquetes que por cá temos tido. Hoje há um grande almoço em que tomam parte vários oficiais ingleses e o chefe de E. M. da 1.ª D“.

27 de Março – “França. Não sei se já te disse que as casas em França são muitíssimo confortáveis, todos os compartimentos têm fogão. Os quartos de dormir têm belíssimas camas e tudo muito bem disposto. As cozinhas parecem salas de visitas. Em geral há pouca pobreza. (…) Em as francesas vendo dois ou mais irmãos muito parecidos, estranham tal facto, porque é para elas grande admiração que em Portugal os filhos sejam todos do mesmo pai!“.

28 de Março – “França. Quando regressei da revista trazia agarradas às botas, grevas e calções mais de dois quilos de lama. O primor das casas em França concentra-se no rés do chão. As janelas não têm portas de madeira e não há receio dos gatunos. Nas terras que tenho visto, duas bastante importantes principalmente uma delas, ainda não vi mulheres bonitas. Em Portugal há mulheres muito mais formosas que em França. Manda dizer se algum dos bilhetes que te tenho escrito tem sido censurado. Tenho tido o maior cuidado no que escrevo. Os franceses são muito interesseiros e económicos“.

A resposta de Benvinda sobre a ausência, visível, de Censura tranquilizará o pai. A partir de então o discurso deste irá, pouco a pouco, soltar-se…

21 de Março – Portalegre: “Todo o meu desejo é que o meu Papá tenha muita saúde e seja muito feliz; é isto que eu peço a N. Senhora, muito esperançada que Ela o livrará de perigos. O tempo tem estado muito invernoso; só há quatro dias é que melhorou“.

21 de Março – Postal do tenente-coronel Lacerda Machado, antigo comandante, de Portalegre para J. C. M. : “Meu prezado Amigo. Muito apreciei as suas notícias. Sai das suas preocupações artísticas para, nas partituras culinárias, fazer a harmonia entre a receita e o custo horripilante dos pitéus. Uma rapsódia em que entre frango, coelho e bacalhau, custa o preço dum prédio na Avenida! Apre! Lembranças do seu amigo  L. Machado“.

30 de Março – “França. Fui ontem dar um passeio de carro a uma cidade muito bonita, com o tenente Maltez e o médico do regimento. [Com alguma probabilidade, esta cidade será Fruges, um pouco a sudoeste?] Quase todos os dias temos serviço. Amanhã vamos a uma revista numa terra que ainda não conheço. No domingo há uma grande formatura de regimento“.

22 de Março – Portalegre: “Não foi só em França que caiu neve, também por cá caiu bastante“.

Nevara em Portalegre…

1917 – há 100 anos – catorze

14 de Março – “França. Ontem, depois da revista, houve exercício e quando chegámos tocou a música no pátio das escolas. A petizada dos dois sexos formou com os professores à frente e prestou toda a atenção ao que se executou, tendo gostado muito da música popular portuguesa“.

15 de Março – “ França. Com os bilhetes que te mandei de Tancos, com os que daqui já tenho remetido e com aqueles que ainda espero mandar, hás-de coleccioná-los para fazer um álbum, que não deverá ficar feio e que tu apreciarás daqui a alguns anos, e muito principalmente se tos puder explicar”.

8 de Março – Portalegre: “Também anteontem vi na Ilustração Portuguesa uma fotografia onde estava a Música do 22, o Papá lá estava entre eles, que eu conheci muito bem. Na terça feira estive, junto com o Avozinho e outros oficiais em casa do Sr. Alferes Fino, na ocasião em que ele ia partir para França; dei-lhe muitos beijos para ele entregar ao meu bom Papá. (…) O tempo tem estado muito invernoso“.

16 de Março – “França. A correspondência gasta 7 a 8 dias da França para Portugal. De lá para cá gastará o mesmo tempo. Diz ao Avozinho que guarde a Ilustração Portuguesa que publica a fotografia da Banda do 22. (…) Ainda cá não chegou o Alferes Fino. (…) Não quero que falte nada em casa; se o dinheiro não chegou manda dizer“.

17 de Março – “França. A secretaria do regimento está instalada no gabinete do professor da escola. Geralmente, ao serão, reunimo-nos na secretaria onde o professor aparece algumas vezes. Como é muito bonzinho  e gosta muito da pinga, oferecemos-lhe vinho, mas a certa altura fica como um órgão e principia então a dizer coisas muito interessantes e engraçadíssimas. É natural que brevemente tenhamos que sair. [Neste dia, J. C. desloca-se à vizinha vila de Coyecques]”.

No dia 18 de Março, o general Tamagnini, comandante em chefe do C. E. P., sai de Paris para o sector da frente de batalha, onde as nossas tropas se encontram ao lado dos Aliados.

A Rabeca em França” dá título a uma coluna no jornal portalegrense nesse mesmo 18 de Março: “Temos recebido muitas cartas e postais dos nossos prezados compatriotas, a que não temos dado publicidade por absoluta falta de espaço. A seguir publicamos uma dessas cartas e nos próximos números continuaremos a publicação das demais cartas. ‘França, 3/3.º/917. Meus caros amigos. Estimo que estejam bons. Eu e todos os rapazes amigos vamos de perfeita saúde. Francesas muitas, boas e muito amáveis. Novidades nenhumas lhes posso dar, porque a D. Censura não deixa. E por aí, há muitas?(*) … Coto’

Da Redacção – (*) Por aqui há muitas, mas… cá e lá, más fadas há; o que, trocado por miúdos, quer dizer que a comadre Censura também não nos deixa piar, porque… Etc.

18 de Março – “França. Continuo bem e tudo vai decorrendo o melhor possível, apesar dos meus artistas continuarem a dar-me que fazer. Ontem houve uma pequena festa a fim de solenizar o nascimento dum menino do tenente Maltez. Tenho notado que as mulheres francesas, mesmo de condição humilde, são ilustradas e sobretudo muito inteligentes; com uma palavra acompanhada dum simples gesto compreendem aquilo que para a maioria das mulheres portuguesas seria necessário gastar centenas de palavras. As crianças são muito bem educadas. O Joaquim tem estado doente, devido às vacinas; desanima como qualquer. O meu sub-chefe desmaiou quando foi vacinado. Hás de dizer à D. Ema que o alferes Pereira já tem pau novo e lanças para a bandeira. Hoje também tivemos festa, no nosso acantonamento, feita em honra da nossa bandeira“.

19 de Março – “França. Ontem, quando nos íamos sentar à mesa para o jantar, ouvi grande algazarra na rua; cheguei à janela e pareceu-me estar vendo o desfile duma mascarada. Uns doze ou quinze pares com umas toiletes e chapéus muito estapafúrdios encaminhavam-se para a Mairie. À frente caminhava a noiva dando o braço a um velhote que por procuração representava um soldado que se encontra nas trincheiras. Na Mairie ainda não tinham a papelada em ordem, de maneira que os noivos e convidados vieram para o nosso estaminet e abancaram a uma mesa ao lado da nossa e desatou tudo a beber cerveja e fazer brindes até que os vieram chamar, já noite cerrada, para realizarem o acto civil, que teve lugar na escola, onde o professor já os esperava com uma grande grossura“.

20 de Março – “França. Foi ontem o 1.º dia de vento que tive em França“.

21 de Março – (dois postais) “França. Cheguei bem apesar de ter apanhado bastante neve. No dia de Primavera fiquei na Villa das flores”; “França. Há três dias que tem havido um grande temporal; chuva, vento e frio não têm faltado. (…) O Joaquim piorou; tem estado muito mal com a tal vacina. O alferes Fino ainda não apareceu, apesar de já terem chegado muitos oficiais para o regimento“.

Banda da Armada em Portalegre

CONCERTO PELA BANDA DA ARMADA
dirigida pelo Capitão-Tenente Coelho Gonçalves

Iniciativa inserida no âmbito da Evocação dos 100 anos da I Grande Guerra (com actividades programadas em Portalegre no período compreendido de Março a Novembro de 2017).

Organização: Câmara Municipal de Portalegre e Comissão Coordenadora das Evocações do Centenário da I Guerra Mundial.

Domingo, 2 de Abril de 2017, pelas 21h00, no Centro de Artes do Espectáculo, Portalegre

1917 – há 100 anos – treze

1917 (Março) – Os anos da Guerra, em França. Bilhetes de José Cândido Martinó para a filha Benvinda e respostas desta:

1 de Março – “França. Ontem fui às compras com o nosso impedido pois até ao dia 10 sou o director do rancho dos oficiais que estão juntamente comigo. Hás-de dizer à S.a D. Ema que o Sr. Alferes Pereira perdeu o pau e a lança da bandeira do Regimento” [Obviamente, as tropas continuam ainda na zona de concentração, em Aire-sur-la-Lys e proximidades].

2 de Março – “França. Fui ontem vacinar-me contra a varíola e febre tifóide. É obrigatória a vacinação“.

3 de Março – (com a fotografia de J. C. fardado) “França. Só ontem, já bastante tarde, é que me mandaram as fotografias. Eu mando-te hoje uma, que me parece não terem ficado más. O frio voltou outra vez“.

4 de Março – “França. O frio tornou a voltar, mas não tanto como no princípio. Hoje tenho tido muito que fazer, além das compras que tive de ir fazer para a nossa comida“.

6 de Março – “França. Ontem não pude escrever pois já retirámos do tal palácio. Ontem caiu um grande nevão: estava tudo coberto de neve. Diz ao Avozinho que me mande os jornais de Portalegre. Ontem recebi um e dois ou três Séculos“.

7 de Março -“França. Continuo passando bem, apesar de ligeiramente incomodado com a vacina. A terra onde agora estamos é muito feia. [O R.I. 22, com o R.I. 21 e o R.I. 34, deve ter-se deslocado de Aire, provavelmente para mais próximo do futuro Q. G. da 1.ª Divisão, a instalar em Thérouanne ?] O frio voltou. No quarto onde durmo, ponho um lençol impermeável sobre a cama e pela manhã aparece cheio de cacimba e poças de água. (…) O modelo de edifícios escolares é muito semelhante aos de Portugal. (…) Um frango custou 8 francos e a carne de porco fresca custa cada quilo 5 francos. Enfim, haja saúde porque dinheiro não falta. O Joaquim continua a ser meu impedido“.

8 de Março – “França. Recebi hoje dois postais com as datas de 27 e 28 do mês passado e dois Séculos. (…) No meu actual quarto, esplendidamente mobilado, entra a claridade por meio duma telha de vidro, que também serve para renovar o ar, pois é móvel“.

8 de Março – “França. Recebi ontem carta do Dr. Sampaio e um bilhete do Sr. Garção. Durante a noite de ontem caiu um grande nevão, que continua ainda à hora em que te estou escrevendo. No alojamento onde, com outros soldados, dorme o meu impedido, ao acordarem pela manhã têm de pentear o cabelo por estar empastado de gelo, e também despejar os bonets que ficam voltados para cima pois estão cheios de neve gelada“.

9 de Março – “França. Ontem fui novamente vacinado. (…) Agora estou muito mal instalado. A gente da casa é muito pobre. A mulher tem o marido na guerra. (…) Já por mais duma vez lhes tenho enviado alguma comida que sobra das nossas refeições. Se aí abrirem alguma subscrição a favor dos capelães que partirão para aqui diz ao Avozinho que quero que tu contribuas com 2.500 Reis. Na lista ou relação deverá figurar o teu nome todo. Da mesma forma deverás contribuir para qualquer subscrição a favor dos mobilizados ou suas famílias“.

10 de Março – “França. Ontem recebi alguns Séculos. Alguns dias atrás também recebi três Séculos e a Plebe para eu ler a despedida do Alferes Correia. (…) Parece-me que há esperança de voltar para o Chateau onde já estive. A correspondência expedida para mim é isenta de franquia. A nova direcção é: E. P. C. 8 – C. E. P.”.

4 de Março – Portalegre: “Continuo a pedir a N. Senhora a saúde do meu bom Papá. O Avozinho manda sempre os jornais e espera resposta às suas cartas“.

12 de Março – “França. Ontem fui, com a Banda, tomar parte numa festa que fizeram num dos nossos Batalhões à nossa Bandeira. A casa do ensaio fica muito próxima das duas escolas de maneira que nos intervalos das aulas a petizada dos dois sexos enche-me a casa do ensaio“.

13 de Março – “França. Vamos mudar outra vez de localidade, para melhor. (…) Fui reconduzido como director da messe. Como o meu actual quarto é tudo quanto há de mais detestável, passo o dia e parte da noite no Estaminet onde instalámos a nossa Mess, de maneira que a dona da casa onde vou dormir disse ao Joaquim – que já fala muito bem o francês -: o seu patrão é muito bom oficial mas mais chefe de família porque passa o tempo todo no Estaminet! Hoje temos revista, comparecendo todos com capacete de aço“.