Lauro António (1942-2022)

Morreu esta manhã em Lisboa, devido a um ataque cardíaco fulminante, o cineasta Lauro António.

Fui seu amigo, desde encontros havidos em Seia, no Cine Eco, e em Portalegre, aqui sobretudo a propósito de José Régio.

Nascido em Lisboa, a 18 de Agosto de 1942, Lauro António de Carvalho Torres Corado foi um homem ligado a Portalegre, por diversas e significativas razões. Quando o seu pai, o professor e pintor Lauro Corado (1908-1977), ali foi docente na Escola Industrial e Comercial, o jovem Lauro frequentou o Liceu, onde foi aluno de José Régio. Fora isso, pela mão do pai, conviveu estreitamente com o poeta da Toada. Nos oito anos de vida em Portalegre, começou a escrever sobretudo sobre cinema, que já o seduzia, nos jornais locais, A Rabeca e O Distrito de Portalegre.

Em 1958 foi para Lisboa, onde se formou em História. A sua profunda ligação ao cinema aprofundou-se e tornou-se o essencial da sua vida.

Entre mais de uma dezena de filmes que realizou, os mais reconhecidos foram as adaptações das obras literárias de Vergílio Ferreira “Manhã Submersa” (1980), que estreou no Festival de Cannes, e de José Régio “O Vestido Cor de Fogo” (1985).

Para televisão, dirigiu “Histórias de Mulheres“, “A Paródia“, “Novo Elucidário Madeirense“, “Cantando Espalharei“, “Conto de Natal“, “José Viana, 50 Anos de Carreira“, “Humberto Delgado: Obviamente, Demito-o!“, “Paisagem Sem Barcos” e “Mãe Genoveva“.

Nos anos 80 voltaria a Portalegre, para dirigir um Festival Internacional de Cinema, que não teve continuidade para além de três edições.

Foi então entrevistado pela revista A Cidade, a que eu estava ligado, com Aurélio Bentes e António Ventura, onde deixou um interessante e sentido testemunho das suas vivências portalegrenses.

Em Dezembro de 2009 aceitou um convite da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Portalegre, conjuntamente com Fernando J. B. Martinho, para aí participar numa evocação de José Régio. Estive então com ele, pela última vez, recordando a sua passagem pelo Liceu, onde fora colega de turma da minha mulher. Ofereci-lhe nessa altura uma fotografia, que aqui reproduzo, onde constam ambos, entre outros elementos da turma, na companhia dos professores Roberto Matos, Alberto Lomelino, Domingos Marcelo e… José Régio.

Lauro António voltaria ainda a Portalegre, em 2019, a propósito da evocação da morte deste literato, que fora, para além de professor, seu amigo.

Foi autor de cerca de 50 livros relacionados com cinema, como “Cinema e Censura em Portugal” e “O Cinema entre Nós“.

Em 2018, o cineasta recebeu o Prémio Carreira do Fantasporto, foi distinguido pela Academia Portuguesa de Cinema com um prémio Sophia de carreira e condecorado pelo Presidente da República com o grau de comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Lauro António estava actualmente ligado ao espaço cultural Casa das Imagens, que abriu em Setúbal, próximo do Fórum Luísa Todi e contíguo à biblioteca municipal, resultado de uma doação que fez à Câmara Municipal de cerca de 50 mil livros, filmes, fotografias, cartazes, documentos e objectos relacionados com cinema e imagem.

Saudando a memória grata de um amigo e homem de cultura, com dimensão nacional, daqui envio aos seus familiares um forte abraço de solidariedade.

CONTO DO NATAL – José Régio II

Homem, aquilo?! Que pais o poderiam ter gerado? Que monstruoso, híbrido amor haveria sido capaz de tal fruto? E como deveria ser velho, se já os bisavós afirmavam terem ouvido falar dele aos pais dos pais! Talvez dos tempos do Dilúvio. Talvez dos princípios do mundo. Ou de quando havia à face da terra (contava o sábio que vivia na sua caverna forrada de musgos) espantosos seres cuja espécie desaparecera no rolar dos séculos. Até ninguém estava muito longe de o considerar imortal.

Por isso foi um espanto, um alívio, uma decepção quando, certa manhã, apareceu morto. Bem verdade que, durante a noite, por acaso uma fria noite de Dezembro… – fria noite em que silenciosamente caíra, uma neve miudinha, em ténues flocos dançando’ no ar como levíssimas plumas de ave, pegando-se aos galhos secos das árvores, cobrindo tudo, aos poucos, do seu imaculado tapete fofo, – pois bem verdade que, durante essa noite, dera o monstro sinais duma agitação, extraordinária.

Parecera, até, haver querido aproximar-se mais que nunca dos aglomerados humanos circunvizinhos. Como, doutra forma, teriam dado pela sua morte logo no dia seguinte?

Lá nesses píncaros, desfiladeiros, moitas cerradas que eram seus domínios próprios, bem o seu cadáver teria tempo de se liquefazer ignorado; ou o teriam esfacelado as aves sinistras, roído as bestas-feras. Porém essa noite, pastores que velavam o tinham visto quase perto, com os grossos braços atirados ao ar, e gestos que bem poderiam ser de quem algo tem a dizer aos seus semelhantes. Quais seus semelhantes? Por isso os pastores haviam passado a noite na defensiva. Sabiam que bem poderia não ser ele menos perigoso para os seus rebanhos que os lobos famintos.

Não obstante, essa noite, – por acaso uma fria noite de Dezembro – os seus costumados uivos e gritos roucos nem eram gritos nem uivos. Melhor se diria tentarem modulações desconhecidas. Seria lamentar-se, aquilo? seria cantar, celebrar o quer que fosse?

Como que entoavam as suas vozes fragmentos de estranhos hinos selvagens!

Selvagens; mas porventura comovedores; e intercalados de puras manifestações de entusiasmo, de alegria, se não melancolia, (seria alegria? seria melancolia?) para as quais não havia nomenclatura, não havia qualificação, na pobre e rude linguagem dos sítios. Os mais sensíveis dos que, na fria noite de Dezembro, tinham ouvido tais vozes, chegaram a ficar impressionados. E um pastorzito que tocava flauta, e mais duma vez lhe fora pôr no alto das rochas qualquer animal morto, pensara, escutando-o: «Se eu soubesse tirar na flauta…» Hábil tocador, na sua flauta primitiva apanhava todas as árias que ouvia.’ Aliás tão simples quanto o podiam ser as daqueles povos. Mas até, por vezes, já na mesma flauta ensaiava outras que se não lembrava de ter ouvido em parte alguma, e talvez menos simples «quando eu for grande…» sonhava que, chegando à idade em que os homens fazem, tão bem quão possível o quer que nasceram para fazer, seria capaz de musicar na sua flauta… porventura numa flauta muito mais apurada… árias que já escutava não só com os ouvidos de fora! talvez antes com os de dentro. Esses fragmentos de cânticos, por exemplo, entreouvidos ao monstro naquela noite.

Por fim, o silêncio. Aí pela ante-manhã, o silêncio. Já nenhum grito; nenhum som de loa ou lástima. O grave e misterioso silêncio, reinando supremo; o frio que dá uma impressão de cortante pureza; a brancura incorruptível da neve nos píncaros da serra, no estendal dos plainos; a imensa, a majestosa placidez do firmamento aberto; já nem o roçar imperceptível dum último flocozinho de neve num galho nu, só muito longe, algures, num vago horizonte que tanto poderia ser ainda terra como já céu, uma claridade primeiro despontando como um arrepio de luz, com não seu quê de sobrenatural; depois colorindo-se, alastrando em matizes pela incerta imensidão.

Simplesmente o raiar dum novo dia, por certo.

E foi quando foram dar com ele morto. Quando já ia alto o sol dum maravilhoso dia.

Muito perto dos povoados. Claro que, tendo avistado o seu grande vulto estendido, ninguém se lhe acercara sem grandes cautelas. Não poderia ser aquela imobilidade uma cilada? Todos estavam armados para qualquer eventualidade, – os estadulhos em riste. Ninguém pudera esquecer aquele morticínio contado através das gerações, e sempre acrescentado de pormenores que se não sabia como haviam sido averiguados.

Mas foi um espanto, um alívio, – até uma decepção. Mais que tudo, um espanto!

Porque era inexplicável: Os gigantescos membros do monstro, que sempre tinham sido vistos, ou imaginados, cobertos de pêlos como os dos ursos, agora se apresentavam lisos e alvos, como talhados em mármore. Só os seus membros? Todo o seu corpo!

Todo o seu corpo era agora liso, branco, proporcionado, perfeito como o duma estátua; – diria quem já houvesse admirado pelas estátuas. Pois não se julgara dever ter ele ‘focinho de bicho? orelhas e ventas de bicho? sanguíneos olhos de bicho? Não era assim que o representava quem, por temível acaso, alguma vez lhe passara mais perto? E nada disso! As feições do seu rosto eram não só correctas mas delicadas, – duma delicadeza bem rara em feições de homem. Um toque de infantilidade apontava na sua boca de sinuosas linhas, semidescerrada como para qualquer palavra ainda não dita. Os seus olhos grandes, claros, sobre quais só a morte espalhara leve uma névoa brilhante como um esmalte fino, olhavam fixos para onde rompera no céu aquela facha sobrenatural. E uma expressão de inefável serenidade, aliada a uma dignidade imponente e simples, resplandecia nesse rosto afinal verdadeiramente belo: como se, antes de morrer, tivera ele qualquer extraordinária Visão; ou recebera qualquer extraordinário Recado.

Bravos e rudes eram os que, tendo-o lobrigado estendido nas rochas, primeiro se lhe haviam aproximado: Brutos pastores de inacessíveis pastos, criminosos foragidos a outros climas, vagabundos talvez semiloucos, ásperos caçadores da serra misteriosa…

Pois até estes ficaram tolhidos, – ao mesmo tempo ali como estarrecidos e profundamente embaraçados pelo inesperado espectáculo da formosura do monstro.

Ora entre tais, ousara ir o pasto rito da flauta. E esse era o mais agitado! Ninguém lhe dava ouvidos. Agora o jeito para a música, mostrava pouco senso na maior parte do que dizia, muitas vezes dizendo coisas que poucos se davam ao trabalho de procurar entender – Dizia ele essa manhã que, durante a noite, fora visitado por Alguém que não chegara a ver, pela mesma razão que nos não deixa à gente ver o sol. Mas parecera-lhe que tinha asas! Maiores do que as das águias! E falara. Ele é que estava estonteado do clarão, estremunhado do sono, (fora pela madrugada) apavorado de tudo aquilo, e certamente não entendera, não sabia se chegara a entender… Em todo o caso, não seria capaz de repetir, tão esquisitas eram as coisas que afinal nem saberia dizer se chegara a ouvir…

Nenhum dos companheiros aparentou dar crédito a estes ditos sem nexo. As notícias do resto do mundo não chegavam aquelas póvoas ocultas nos refegos da serra ignota.

Os dias, as noites, as estações, os anos, quase só eram aí assinalados pelos fenómenos da natureza. Mas entre os habitantes dessas póvoas, nem todos ficaram inteiramente indiferentes ao que repetia o pastorzito da flauta. Parece que também outros, posto calando-se, haviam sentido que algo sucedera de pouco usual no decorrer daquela noite. Por acanhamento se calaram; ou por íntimas razões só deles conhecidas. E o tempo foi passando. Quem quiser saber a continuação da história ao pastorzito da flauta, espere que algum poeta qualquer dia lha conte. Quanto à história do monstro, não esqueceu. Até lhe haviam dado sepultura no seio da terra, e o lugar lá estava marcado com uma alta rocha que levara dias a ser arrastada. Um engenhoso dos sítios – quem sabe se também este não recebera Recado natal noite? – bem pretendera talhar nessa rocha uma figuração do ex-monstro sepulto. Na verdade era homem de engenho. Por isso mesmo nem ele entendia como, desta vez, lhe parecia fugir a mão para coisa diferente do que ele pretendia. A figura ficou muito imperfeita: Quase só tinha um tronco alongado, enterrado no chão, com dois grossos braços abertos.

 José Régio

CONTO DO NATAL – José Régio I

Terá sido, provavelmente, o mais elaborado texto que José Régio criou para enriquecer a colaboração prestada ao jornal republicano portalegrense A Rabeca.

Foi no seu número 2114, relativo a 21 de Dezembro de 1960, portanto há sessenta e um anos. Ilustrou-o um desenho, litografado, de Raul Pinto.

De seguida, o autor publicou-o no volume Há Mais Mundos, divulgado dois anos depois, em 1962. Assim ficou comprovado o apreço que Régio dedicou àquela sua produção.

Conto do Natal é uma sublime parábola regiana, contida num texto de grande qualidade literária. Pareceu-me que, nesta quadra, à perene lembrança de Régio, em mais uma efeméride da sua morte, seria interessante e oportuno juntar também uma peça do seu génio criativo.

Aqui se recorda o Conto do Natal, em duas partes dada a sua extensão, hoje e amanhã.

CONTO DO NATAL

Decerto mal chegava a ser homem – um homem como os outros! – aquele estranho ser todavia com formas claramente humanas. Por vários aspectos, antes se diria parente dos bichos. Como o dos bichos, se apresentava coberto de pêlos o seu rude corpo gigantesco. De igual para igual brigavam pela conquista duma presa comum, ele e os bichos. Por uma natural solidariedade acamaradavam em certas horas de perigo: aquelas, por exemplo, em que as misteriosas forças da natureza igualmente ameaçam bichos e homens. Como os bichos se deitava a dormir na terra estreme, e qualquer chão ou pedra lhe servia de mesa para os brutos festins.

Nada, pois, senão essa rivalidade a que os obrigava a urgência de satisfazerem necessidades comuns, impedia que só amigos tivesse ele na variada classe das bestas: das bestas feras, das bestas mansas. Não as compreendia perfeitissimamente nos seus costumes e paixões, moléstias e até linguagem? Desde o espantoso rugir do leão, que assusta os próprios bosques, ao diamantino trilo das aves; desde o pungente, humorístico ronco do asno ao roçagante zoar confidencial dos insectos, – hábil conhecedor se fizera das suas várias e expressivas línguas, que na perfeição imitava. Afastar-se-ia muito dessa a sua própria? A verdade é que não só percebia os bichos, como deles se fazia perceber.

Noutras particularidades talvez de mais subtil quilate, de mais subida ordem, logravam, ainda, irmanar-se: De longe farejava, como eles, as ameaças e os perigos, as tempestades iminentes, as catástrofes distantes, as variações do tempo, a sucessão das estações, os fenómenos lá de Cima entre os astros. Como alguns deles se afundava em longas meditações sem objectos, por mera influência do clarão da lua ou dos silêncios do céu; porventura da simples névoa que flutua no horizonte. E noutras ocasiões se mostrava sujeito a furores, pavores, agitações. Amolecimentos, cujas causas não seriam entendidas dos homens, pois só o instinto primitivo, ainda virgem, nele agia e o perturbava.

Assim camarada das bestas, não poderiam senão ser mais difíceis as suas relações com os humanos. Haveria, sequer, o que se diz relações? Muito raras, muito incompletas; e por inesperados e fugidios encontros, por surpresa de parte a parte.

os outros homens, simultaneamente os assombrava, os apavorava, os humilhava, ou inspirava sentimentos obscuros talvez de curiosidade e ódio. Seria fácil perdoarem-lhe aquela aparência humana? a um monstro assim?

Não obstante, que homens eram esses, – aqueles com quem pudera haver tido, vir a ter, quaisquer fugidios contactos? Brutos pastores de inacessíveis pastos, criminosos foragidos a outros climas, vagabundos talvez semiloucos, ásperos caçadores da serra misteriosa. Menor, ainda, era qualquer sua possibilidade de convívio com os toscos habitantes das póvoas enterradas nos refegos da região bravia, toda eriçada de penhascos abruptos, sombrias florestas incomensuráveis. Estariam todos estes, na verdade, tão longe como supunham do monstro coberto de pêlos?

Talvez por isso mesmo se sentiam profundamente vexados com apresentar ele o seu mesmo contorno humano. Ah, que o detestavam! E em sarcasmos se desafogavam, quando, certas noites, os ecos das encostas longamente repercutiam ora os seus uivos lúgubres, mais soturnos que os dos cães e lobos, ora sons que, vindos doutro ser, quase seriam tidos por musicais: quase lembrariam fragmentos dum entrecortado canto lamentoso. Algumas vezes, porém, lhes saíam contrafeitos os sarcasmos. Seria o pavor? Seria a superstição que lhos regelava na boca. Então chegavam a ficar súbito estarrecidos, ou não continuavam zombando senão por jactância, se ao alto da serra viam passar negra sobre o clarão da lua Nascente, ou surgir e quedar imóvel sob as estrelas, como de bronze, a gigantesca silhueta do bicho de forma igual à sua.

Não que ele os atacasse! Nunca atacara ninguém! Mas uma vez (viera isto contado de pais a filhos, de avós a netos) haviam organizado uma expedição para o capturarem. Matá-lo-iam? Contentar-se-iam com o mutilarem? Encerrá-lo-iam numa jaula de pedra, fechada a grossos varões de ferro, para, depois, se divertirem acirrando-o, como a uma fera impotente? Mas não derrubaria ele os muros? Não torceria os mais grossos varões? Dizia-se que as suas mãos eram pesadas como a pata do leão, e terminavam em garras como as das aves de rapina. Decidiram que, podendo capturá-lo vivo, o trariam encadeado; depois o passeariam, carregado de ferros, pelas redondezas, – e assim os povos pusilânimes exultariam de se verem libertos daquele pesadelo do monstro. Porque lá que fosse ele capaz de abater paredes de rocha, ou estorcer varões de ferro, ou poder mais que uma dúzia de valentes (antigos salteadores, familiares do crime e da luta, caçadores das florestas nocturnas) não acreditavam os que partiram na expedição. Jovialmente partiram com os seus estadulhos eriçados de pregos, as suas facas de mato, as suas algemas primitivas. E até dois ou três dos mais novos, por escárnio ou precaução, levavam à roda do pescoço coleiras com picos acerados, como se põem à garganta dos cães, para os defenderem dos dentes dos lobos.

Bem certo que até nas regiões mais inóspitas, lá em brutas paragens, pulsa um ou outro coração mais brando. Já um ou outro coração mais brando ousara qualquer palavra compadecida em favor do monstro. No fim de contas, também era uma criatura de Deus! e não fora ele que se fizera assim como era, pois não? Ao menos o não mutilassem de modo a fazerem-no sofrer irremediavelmente o resto dos seus dias…
Pois aquela dúzia de afeitos, cépticos e galhofeiros que tão confiadamente partira, nunca mais ninguém vira voltar nenhum. O que deles, mais tarde, se encontrou, eram restos mortais já nem cadáveres, pois as feras e as aves sinistras (se não o próprio monstro!) lhes haviam esburgado os ossos. Dizia-se – era um boato, mas dizia-se – que alguém ouvira noites a fio, trazidos pelo vento, chegarem da serra gritos de socorro, estertores e gemidos de se porem os cabelos em pé. Era um boato. Porque se alguém os ouviu nunca directamente o declarou, talvez com pudor de confessar que ainda mais se encolhera nas suas tábuas e palhas.

Fora isto há muito. Sim, há tanto, que já ninguém sabia se era verdade: embora como verdade pura tivesse vindo contado de pais a filhos, de avós a netos. Assim, piedade para com o monstro, não a havia. Sobretudo depois de tal sucesso.

Ninguém parecia haver pensado que, no fim e ao cabo, dos outros partira, que não dele, a primeira intenção feroz; e que, se fora ele a trucidar aquela dúzia de aventureiros, por certo agira no que se chama legítima defesa. Se alguém o pensara, prudentemente encolhera a língua: Será de boa política afrontar um ódio público, uma opinião geral? Ou, então, era alguém cujos dizeres e juízos ninguém poderia tomar em conta, já anteriormente conhecidos por excêntricos. Só algum raro pastor mais jovem – e talvez não por caridade, mas por curiosidade – ia, às vezes, deixar sobre uma rocha um animal que lhe morrera de morte maligna.

Sabia que, atraído pelo cheiro, o monstro o viria buscar. E era, para ele, uma espécie de triunfo conseguir avistar, de longe, a forma peluda e gigantesca, movendo-se na semi-claridade do céu nocturno; ouvir o seu uivo repercutido nos ecos das encostas longínquas.

 (conclui amanhã)

José Régio – 120 anos

José Régio nasceu em Vila do Conde no dia 17 de Setembro de 1901. Faria hoje 120 anos.

Para o recordar, simbolicamente, foi escolhida uma das mais brilhantes interpretações de um dos seus mais conhecidos poemas: Cântico Negro.

Este poema foi escrito nos tempos de estudante em Coimbra e foi publicado no seu primeiro livro,  Poemas de Deus e do Diabo, de 1926.