José Régio morreu há quarenta e oito anos

Há quarenta e oito anos hoje cumpridos, José Régio deixou-nos, terminando a sua peregrinação terrena.

Jamais se extinguirão os ecos da sua herança, que para sempre tocará os homens a quem a cultura não seja indiferente, tal a força da mensagem regiana.

22-regio-jl-f01Na prosa romanesca como na poesia, nos estudos literários como no desenho, no drama como no ensaio crítico, a rara sensibilidade do homem de cultura marca uma presença incontornável.

Nesta efeméride quero aqui deixar mais uma peça alusiva a José Régio, pouco conhecida. Trata-se da sua derradeira entrevista, testemunho reproduzido do JL n.º 630, de 7 a 20 de Dezembro de 1994.

Daqui a dois anos, passará a simbólica data de meio século sobre a morte de José Régio, merecendo tal oportunidade uma condigna comemoração.

22-regio-jl-f02 22-regio-jl-f03

TOADA DE PORTALEGRE – José Régio

23-toada-ricardo-ribeiro-2

MÚSICA
Teatro Municipal São Luiz, Lisboa, de 24 a 26 Novembro de 2015
Toada de Portalegre de José Régio

Inserido na comemoração do 5º Aniversário Fado Património da Humanidade
De quinta a sábado às 21h
Sala Luis Miguel Cintra
Duração: 1h15
Música original do compositor Rabih Abou-Khalil
Canto Ricardo Ribeiro
Percussão Jarrod Cagwin
Maestro Jan Wierzba
Coprodução: Orquestra Metropolitana de Lisboa, Museu do Fado e São Luiz Teatro Municipal
M/6
€11 a €22 (com descontos: €5 a €17,60)

23-ricardo-ribeiro-dn-23-julho-2015

Em várias entrevistas, o fadista Ricardo Ribeiro afirmou que o seu penúltimo álbum, “Largo da Memória” – que antecedeu o seu recente “Hoje É Assim, Amanhã Não Sei” -, foi muito influenciado pela “Toada de Portalegre”, de José Régio. Mas era uma influência subtil, escondida nas entrelinhas. Não se sabia na altura que um seu velho cúmplice, o consagrado alaudista libanês Rabih Abou-Khalil, andava em segredo a compor uma obra maior e com características sinfónicas, inspirada directamente nessa obra do escritor português. Agora é tempo de a revelar, com Ricardo Ribeiro e Rabih Abou-Khalil a serem acompanhados pela Orquestra Metropolitana de Lisboa em três concertos que decorrem no São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa, de 24 a 26 de Novembro. Os espectáculos – uma co-produção Metropolitana/São Luiz Teatro Municipal/Museu do Fado – estão integrados nas comemorações do quinto aniversário do Fado Património da Humanidade, em que também se inclui um concerto de Carlos do Carmo, dia 27 de Novembro, igualmente no São Luiz. O director artístico deste projecto, Pedro Amaral, conta como nasceu a ideia:

23-toada-publico-18-nov-16Quando desafiei Ricardo Ribeiro a fazer um projecto com a Orquestra Metropolitana de Lisboa e lhe perguntei se tinha algum sonho que, juntos, pudéssemos concretizar, a sua reação foi imediata: há muito que sonhava cantar a ‘Toada de Portalegre’, de José Régio, com música original do seu amigo e “mestre” Rabih Abou-Khalil. Fechou os olhos e começou a declamar o longo poema – “Em Portalegre, cidade / Do Alto Alentejo, cercada / De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros / Morei numa casa velha, velha grande tosca e bela / À qual quis como se fora / Feita para eu Morar nela…”

Conhecemos há anos o extraordinário cruzamento que o encontro destes dois músicos criou entre o fado e os ecos da tradição musical libanesa. A melodia rouca na língua de Camões, no admirável fraseado de Ricardo Ribeiro, mistura-se, numa sintonia surpreendente, com os arabescos melódicos e os ritmos compostos de Abou-Khalil. Quais contadores de histórias numa esplanada árabe, transportam-nos por fabulosas geografias, despertando no nosso imaginário viagens longínquas e oásis improváveis.

É este tapete voador que nos levará pelos versos de Régio, com toda a carga de imagens, de memórias e de sensações físicas que o poema admiravelmente desperta e que estes músicos, acompanhados pelo percussionista norte-americano Jarrod Cagwin e pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida por Jan Wierzba, nos farão descobrir”.jose-regio2

A longa colaboração entre Ricardo Ribeiro e Rabih Abou-Khalil, com efeito, já deu inúmeros frutos inesperados. Já tem história a relação musical criada nos últimos anos entre os dois. Neste encontro vamos conhecer uma peça original que o músico e compositor libanês Rabih Abou-Khalil escreveu para o fadista Ricardo Ribeiro.

José Régio, na sua imortal Toada de Portalegre, vai receber nesta excepcional cooperação uma surpreendente e inesperada homenagem.

O Café Alentejano, em Portalegre cidade…

15-cafe-alentejano-1

Acho notável a iniciativa de um homem sensível que foi capaz de perceber a importância dos cafés que resistem ao tempo. Estou interessado em conhecer a obra pelo ligeiro e oportuno sumário que o Público ontem divulgou.

15-al-8-cafes-publico-14-novembro-16-a 15-al-9-cafes-publico-14-novembro-16-b

Quando a Rota dos Cafés Históricos reúne apenas 23 exemplares de Norte a Sul do país, esse raro recenseamento dá conta de como tudo muda e depressa. É verdade. O autor cita, e bem, alguns homens de letras que fizeram de cafés lugares de memória. E vem lá Régio que, em Portalegre, está associado a três cafés, Central, Facha e Alentejano. Coloquei-os pela ordem decrescente da sua dimensão regiana, pela importância que assumiram na vida social do autor da Toada. Pois tanto o Central como o Facha, sede de tertúlias, diferentes e sucessivas, onde Régio de algum modo pontificou, alteraram radicalmente os seus interiores, hoje irreconhecíveis.

É precisamente o Alentejano, aquele que Régio mais raramente frequentou, de onde há notícia mais exacta pelo relato escrito de David Mourão-Ferreira sobre os belos bifes que ali saboreavam, é precisamente o Alentejano que se mantém quase idêntico a esses tempos distantes mais de meio século. É obra!

Em Portalegre o fenómeno é louvável. O Alentejano não é apenas um café mas um museu. Um museu vivo, que recupera memórias de gentes e de acontecimentos.

O Café Alentejano foi concebido pelo pintor e decorador Benvindo Ceia, o maior15-al-10-alentejano-0 artista de Portalegre, embora tenha sido depois ligeiramente alterado o projecto original. Ali passaram gerações uma boa parte dos seus tempos livres, tendo sucessivos gerentes procurado manter-lhe o atractivo comercial. A sua frequência foi diversa e os extractos sociais que ali se sucederam sempre respeitaram uma espécie de hierarquia económica que situava doutores e lavradores à esquerda de quem entra, com o operariado e os funcionários à direita, de algum modo invertendo a respectiva conotação política terminológica… Bem vistas as coisas, aquela sala era e é um café e não um parlamento.

Rebuscando os arquivos nem sequer foi difícil encontrar uma mais completa e interessante alusão ao Café Alentejano. Encontrei-a em A Cidade, uma revista que deixou saudades. Aqui a recordo, com um aceno de simpatia a Vítor Marques que não se limitou a gerir um café coimbrão. Ele fez muito mais do que isso: percebeu a dimensão daquilo que resiste ao tempo e às modas.

15-al-11-alentejano-1 15-al-12-alentejano-2 15-al-13-alentejano-3

 

Recado aos portalegrenses

Base Oitava: – Relações Turísticas. As Câmaras Municipais de Portalegre e Vila do Conde fomentarão o intercâmbio turístico entre ambos os Concelhos através das seguintes modalidades:
– Intercâmbio de materiais de divulgação turística, incluindo a atempada calendarização de actividades do sector: festas, romarias, exposições, manifestações artísticas, etc.;
– Apoio ao transporte das populações interessadas;
– Organização de programas de intercâmbio turístico;
– Fomento de condições privilegiadas de alojamento, restauração, visitas a museus e utilização de estruturas de lazer.

Solenemente assinado em 1994 pelas edilidades de Portalegre e de Vila do Conde, irmanadas pela comum e invulgar “partilha” de José Régio, o Protocolo de Geminação inclui, na sua Base Oitava, o fomento das relações turísticas.
É neste espírito que aqui se vem lembrar aos portalegrenses de boa vontade um magnífico pretexto para a visita a uma terra irmã admirável, aproveitando a oportunidade que a revista Evasões (suplemento do Diário de Notícias de 4 de Novembro) nos proporciona e propõe.

08-evasoes-dn-04-novembro-16-a 08-evasoes-dn-04-novembro-16-b 08-evasoes-dn-04-novembro-16-c 08-evasoes-dn-04-novembro-16-d