Luís Amaro e José Régio

Luís Amaro (1923-2018) integrou os quadros da Revista Colóquio/Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian. Assim, ele foi Secretário da Redacção (1971-1986), Director-Adjunto (1986-1989) e Consultor Editorial (1989-1996).

Desta Revista transcreve-se um texto esclarecedor quanto ao papel e valor do literato, em 2006, assim como da sua relação com José Régio: 

Luís Amaro, que é a discrição em pessoa, aceitou redigir para este site o texto que a seguir se apresenta e que constitui provavelmente o mais extenso e detalhado depoimento que alguma vez prestou sobre a sua vida e obra, singulares e quase prodigiosas construções de um autodidacta. Resta acrescentar que ao seu trabalho na Colóquio/Letras se deve o alto padrão editorial da revista, tanto do ponto de vista tipográfico quanto bibliográfico e que, para além da marca que imprimiu a todos os números da publicação enquanto nela trabalhou, assinou a edição de cartas de Afonso Lopes Vieira (n.º 5), Ribeiro Couto (n.º 9), José Régio (n.º 38), Manuel Mendes (n.º 94), David Mourão-Ferreira (n.º 145/6), e, em colaboração, cartas de M. Teixeira-Gomes (n.º 14) e Mário Beirão (n.º132/3); apresentou inéditos de José Régio (n.º 102), Mário de Sá-Carneiro; assinou, em colaboração, artigos sobre Álvaro Bordalo (n.º 93), António Botto (n.º 113/4) e Mário Beirão (n.º 117/8); ainda em colaboração, recenseou publicações nos n.ºs 117/8 e 131.

A Colóquio/Letras homenageou-o no n.º 108, de Março de 1989, e um grupo de amigos promoveu, em 2005, a edição do livro Para lá da Névoa, com depoimentos que testemunham do seu extraordinário percurso enquanto homem e intelectual.

1954 – Relacionamento – fundamental – com José Régio, cuja primeira carta (aliás um postal, como era uso na época) data de 15-4-1943, tinha eu 20 anos incompletos. Conheci o poeta, em Lisboa, na Portugália Editora onde, por meu intermédio, ele passaria a editar ou reeditar os seus livros, embora já em 43, convidado por João Gaspar Simões, publicasse lá a antologia Líricas Portuguesas – 1.ª série (que lhe trouxe um desaguisado com o velho amigo: este aguardava de Régio um estudo a abrir a antologia, não um prefácio só. O editor Raul Dias também ficou zangado – sem razão). 

1969 – Em Dezembro de 1969, morre José Régio, e vou, com minha mulher e colega, a Vila do Conde, participar no velório e funeral, representando igualmente a casa editora. 

1970 – «Duas cartas inéditas de Mário de Sá-Carneiro para Alfredo Guisado», em 23-4-1970; «Página quase de memórias, com três cartas de um poeta esquecido: Alfredo Pimenta» [evocação da Livraria Portugália dos anos 40], em 30-7-1970; «José Régio – a Obra e o Homem», compilação de «fortuna crítica», em 14-5-1970 e 25(28?)-5-1970; Antologia não-cronológica de «Poesia Portuguesa e Brasileira», em 30-4-1970 e seguintes: 1-Guerra Junqueiro; 2-Castro Alves; 3-Gomes Leal; […], Antero de Quental; João de Deus; […], Fernanda de Castro; […], António Botto; Armindo Rodrigues; Alfredo Pimenta; Afonso Duarte; Jaime Cortesão…

1970 – Revisão textual, com Alberto de Serpa, do livro póstumo de José Régio Música Ligeira, Portugália.

1976 – Revisão textual (sem o Autor, ausente em Moçambique), e «Esboço de bibliografia de José Régio», in: Eugénio Lisboa, José Régio. A Obra e o Homem, ed. da Arcádia; 2.ª ed., com o Autor, Publicações Dom Quixote, 1986. 

1977 – A convite de David Mourão-Ferreira, secretário de Estado da Cultura, «Subsídios para uma bibliografia do movimento presencista», in presença – publicação comemorativa do cinquentenário da fundação da «presença», p. 53-74. 

1993 – De colaboração com F. J. Vieira Pimentel, «Para uma bibliografia da presença», in: presença, ed. fac-similada, t. III, Lisboa, Contexto. 

1994 – Revisão textual de: José Régio, Crítica e Ensaio/1 e 2, Círculo de Leitores; apêndice bibliográfico no 2.º vol.

1994 – Revisão textual e Notas [com António Ventura], José Régio, Correspondência, Círculo de Leitores.

1994 – Revisão textual com José Alberto Reis Pereira, de: José Régio, Páginas do Diário Íntimo, Introdução de Eugénio Lisboa, Notas de José Alberto Reis Pereira, Círculo de Leitores.

2000 – Revisão textual de: José Régio, Contos e Novelas, Obra Completa, Introdução de Eugénio Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 

2001 – Revisão textual de: José Régio, Confissão dum Homem Religioso, 3.ª ed., Obra Completa, Prefácio de António Braz Teixeira, Introdução de Orlando Taipa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

2001 – Revisão textual de: José Régio, O Príncipe com Orelhas de Burro, 10.ª ed., Obra Completa, Introdução de Eugénio Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.

2001 – Revisão textual de: José Régio, Poesia I e II, Obra Completa, Introdução de José Augusto Seabra , Imprensa Nacional-Casa da Moeda. 

2002 — Revisão textual de: José Régio, Poemas de Deus e do Diabo, 12.ª ed., Vila Nova de Famalicão Ed. Quasi.

Estudos Regianos – Vila do Conde

Em 9 e 10 de Maio de 2017 realizou-se um congresso na Faculdade de Letras de Lisboa, com organização do Centro de Estudos Regianos e do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias daquela faculdade. Foi seu pretexto e tema mais um debate sobre a vida e morte da revista Presença, que contribuiu de forma decisiva para a renovação estética da arte e da literatura portuguesas no segundo quartel do século XX.     

90 anos depois, a revista onde José Régio pontificou foi lembrada com a elevação merecida. Agora, num prolongamento que guarda para o futuro o que foi esse congresso, publicando as intervenções ali apresentadas e discutidas, o Boletim Estudos Regianos número 24/25 (Junho /Dezembro de 2018) acaba de ser editado. Manifestando uma vez mais a oportuna gentileza com que me distinguem, as Dr.as Isabel Cadete Novais e Manuela Laranjeira, enviaram-me esse precioso exemplar, o que registo e vivamente agradeço.

É excelente o trabalho que, em permanência, é desenvolvido pelas estruturas regianas de Vila do Conde, com destaque para o seu Centro de Estudos, onde pontificaram mestres como Eugénio Lisboa ou João Francisco Marques.

Destaco para já, sem que isso signifique o mínimo desprezo pelo restante, rico e diversificado conteúdo do Boletim, as presenças portalegrenses de Maria José Maçãs, Fernando J. B. Martinho, Maria José d’Ascensão, Maria Filomena Barradas e Vanda Grácio Ribeiro.

Aliás, todas as comunicações agora partilhadas constituem um inestimável manancial de informações, críticas, comentários e apreciações sobre a vida e a obra de José Régio, numa oportunidade que antecipa um ano de expectativa, 2019, onde se vai comemorar o cinquentenário da sua morte.

João Semedo

Tive um único encontro pessoal com João Semedo. Foi em Portalegre, no serão do dia 30 de Março de 2011.

Por ter aceitado o convite para participar no sarau onde foi evocado o 75.º aniversário da estreia da peça Sonho duma Véspera de Exame, de José Régio, esteve presente no auditório da Escola Superior de Educação.

Ali teve oportunidade para presenciar a homenagem concretizada a este propósito no seu tio, Artur Semedo, ao tempo aluno de Régio e principal intérprete da peça, estreada em 30 de Março de 1936, no antigo Teatro Portalegrense.

Foi escasso o tempo de contacto pessoal, ainda assim mais do suficiente para todos podermos ter percebido a discreta dimensão do homem superior que era João Semedo.

Prolonguei o diálogo com ele, à distância, por alguns meses. Depois, a doença obrigou-o a um natural afastamento, de onde ainda regressaria para retomar a sua luta de sempre por todos nós. Até ter perdido o combate. Mas deixa uma perene memória, na lembrança de alguém que se entregou até ao fim acreditando em ideais profundamente humanistas.

O que ficamos devendo a João Semedo é demasiado para que simples palavras de circunstância possam descrevê-lo.

Lembro-o na serena, lúcida e corajosa firmeza de quem pensou muito mais em todos nós do que em si próprio.

João Semedo é merecedor do nosso reconhecimento. Como homem, como profissional e como político ele foi uma mais excepcionais personalidades do seu e nosso tempo.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Régio Vivo – cinquenta anos depois – V (final…)

Quando um pequeno grupo -o Ventura, o Bentes e eu- comemorou em Portalegre os 15 anos da morte de Régio, percebemos que as coisas se faziam desde que houvesse uma determinação forte nesse sentido. Recordar hoje essa gesta de 1984 é lembrar a nossa teimosia, logo após o próprio presidente da Câmara na altura ter ridicularizado o projecto. Naturalmente, aquilo que se fez, e foi bastante, ressentiu-se da falta do apoio oficial, muito reduzido.

Duas das edições da época, modestas na forma ainda que muito ricas de conteúdo, apenas puderam ser concretizadas graças à compreensão encontrada fora de portas. O número especial de A Cidade – Revista Cultural de Portalegre (intitulada Presença de José Régio em Portalegre) foi subsidiado pelo Ministério da Cultura e pela Fundação Calouste Gulbenkian, enquanto José Régio – Escritos de Portalegre contou com o patrocínio do Instituto Português do Livro. Foi assim…

Hoje, a edilidade portalegrense tem oportunidade de resgatar as falhas de comportamento que outros assumiram no passado ainda recente, contribuindo de forma marcante para uma reedição, condigna, de ambas as obras.

O número especial de A Cidade tornou-se título de referência, sobretudo pela qualidade da colaboração de personalidades que, na sua maioria, entretanto faleceram. Uma reedição formalmente cuidada, com a necessária actualização, incluindo anotações e súmulas biográficas dos autores desaparecidos, constituirá uma inestimável valorização da memória de Régio.

Quanto aos Escritos de Portalegre, a sua reedição implicará a junção da colaboração de Régio no semanário Alto Alentejo -logo nos inícios da sua vinda para a cidade- aos artigos publicados em A Rabeca e noutros suportes dispersos. Tais escritos, não assinados pelo “clássico” pseudónimo, ainda não tinham sido “descobertos” e recolhidos em 1984.

Embora parecendo repetitiva, justifica-se a realização de Ciclos temáticos regianos de conferências ou colóquios por intermédio de conhecedores, estudiosos e/ou amigos pessoais de José Régio, portalegrenses ou afins. A relação possível é vasta: António Ventura, Fernando J. B. Martinho, Maria José Maçãs, Maria Ascensão, Aurélio Bentes, Florindo Madeira, António Martinó, Mário Freire, Augusto Costa Santos, Maria João Falcão, Francisco Vinte e Um Mendes, Lauro António…

Outra iniciativa local que se sugere consiste na organização de Exposições -de preferência com características itinerantes- dedicadas aos principais elementos integrantes da(s) Tertúlia(s) portalegrense(s) de José Régio:

  • João Tavares
  • Arsénio da Ressurreição
  • Feliciano Falcão
  • Firmino Crespo
  • (Manoel de Oliveira, António José Forte, David Mourão-Ferreira, Eugénio Lisboa, João Diogo Casaca, Lauro Corado, Renato Torres…)

Nunca foi implantada uma lápide comemorativa da “presença” do Dr. José Maria dos Reis Pereira (José Régio) como professor de Português e Francês no Liceu Nacional de Portalegre, actual Escola Superior de Educação e Ciências Sociais do Instituto Politécnico de Portalegre, antigo palácio dos Acciaioli da Fonseca Coutinho. Por que não aproveitar para isso esta próxima oportunidade, que até coincide com os 90 anos da chegada do Dr. Reis Pereira ao Liceu!?

Finalmente, para já, aventa-se a oportunidade de implantação de um memorial simbólico em lembrança de José Régio – Davam Grandes Passeios aos Domingos. Sugestão temática: a versão em baixo relevo de uma janela aberta com Régio (a partir de uma curiosa fotografia), em conjunto a implantar urbanisticamente no Largo dos Correios (Dr. Frederico Laranjo), emblemático local da tertúlia regiana mais significativa, a do Café Central.

O Café Facha, ainda que transfigurado em relação à sua traça nos tempos da última tertúlia regiana em Portalegre, também justificaria a instalação de um local dedicado a José Régio, algo entre o que se situa na Brasileira do Chiado, em Lisboa, quanto a Fernando Pessoa e o que se pode apreciar no Diana Bar de Póvoa do Varzim… Isto para além da evocação à “histórica” fundação do Amicitia, grupo juvenil que viria a sofrer forte influência regiana. Está tudo ligado, na memória de pessoas, factos e lugares que têm sido alvo de um injusto e prolongado “apagão”…

Vai longo, embora nunca esgotado, o rol de sugestões ou, dirão alguns, de “provocações”.

Porém não o termino sem a referência a uma questão, embora marginal ao pretexto em causa, que me vem preocupando ao ponto de já a ter abordado por mais de uma vez neste blog. Trata-se da anunciada intenção da Sociedade Portuguesa de Autores, dinamizada pelo seu presidente José Jorge Letria, de compor, distribuir e explorar aquilo a que chama o Mapa dos Autores Portugueses. Insiste o ideólogo na repetida intenção de destacar apenas os locais de nascimento das largas dezenas de vultos nacionais já recenseados. Isto será um logro cultural uma vez que, com todo o respeito por Vila do Conde, Portalegre merece e justifica a sua inclusão, por tão óbvios motivos que me escuso de aqui os repetir. Se quem de direito, representando a “Presença de Régio em Portalegre” não actuar atempadamente, a Toada e os Grandes Passeios aos Domingos que o imortal autor por ali dava ficarão na lista dos injustos esquecimentos…

Como infelizmente vamos estando mais ou menos habituados. Mas não desisto de acreditar que um dia, em Portalegre, as coisas mudam…

António Martinó de Azevedo Coutinho

Régio Vivo – cinquenta anos depois – IV

Tenho sempre defendido, por óbvias razões, a importância de Portalegre como fundamental e decisivo contexto na vida e obra de José Régio. O natural reconhecimento desta realidade histórica confere, por isso, uma especial responsabilidade à cidade da Toada na preservação e no louvor das memórias regianas. E o presente pretexto insere-se nesta lógica elementar.

Por isso, para além da activa e leal cooperação com Vila do Conde, Portalegre deve ter a sua própria programação, autónoma, relativa ao cinquentenário da morte do literato, professor, humanista e pensador.

Assim, afigura-se oportuna a concretização, em 2019,  do projecto em curso Passos de Régio em Portalegre, compreendendo a edição do livro alusivo e de folhetos sumários, a identificação oficial dos “passos”, a sinalização pública do itinerário e a disponibilização da aplicação (app) criada para o efeito. Pela implicação pessoal no projecto, nada mais aqui acrescento.

Uma potencial organização, creio que nunca mais concretizada após o Festival local dinamizado por Lauro António pelos finais dos anos 80, diz respeito a um Ciclo de cinema, incluindo apresentação e debate, com filmes inspirados em obras de Régio:

  • O meu Caso – Manoel de Oliveira
  • O Vestido Cor de Fogo – Lauro António
  • Benilde ou a Virgem-Mãe – Manoel de Oliveira
  • O Príncipe com Orelhas de Burro – António de Macedo
  • O Quinto Império – Manoel de Oliveira

Um outro evento, próximo, corresponderia à organização de um Ciclo de cinema, incluindo apresentação e debate, com documentários associados à vida e obra de Régio:

  • Os Habitantes de Aquela Casa – Ernesto de Oliveira
  • As Pinturas do meu Irmão Júlio – Manoel de Oliveira

Complementarmente, restaria a organização de mais um Ciclo de cinema, incluindo apresentação e debate, com documentários inspirados na biografia e episódios da vida e de Régio, incluindo alusões à obra:

  • Histórias de Portalegre – José Hermano Saraiva (RTP)
  • Toada de Portalegre – José Hermano Saraiva (RTP)
  • Régio, o Elogio da Leitura – Isabel Baía (RTP)
  • José Régio, a Escrita da Casa – Armando Cortez (RTP)
  • Régio, de Vila do Conde a Portalegre – RTP
  • A Glória de Fazer Cinema em Portugal – Manuel Mozos

Sem a pretensão de ter esgotado as listas, certamente mais amplas, a organização destes Ciclos de Cinema, sem as exigências do Teatro (que aqui nem será considerado), poderiam trazer ao grande público -como às escolas- uma considerável mais valia, traduzida num mais perfeito conhecimento da enorme dimensão da figura de José Régio, assim como da importância da sua obra.

Duas edições originais em DVD, distintas mas ambas próprias de Portalegre, dispõem de uma potencial vocação para amplificar tais desígnios.

Uma destas implicará a edição, em DVD, do documentário Os Habitantes de Aquela Casa, de Ernesto de Oliveira, complementado com apreciações críticas (Lauro António e outros) e com depoimento sobre o autor, prestado por Florindo Madeira, seu amigo íntimo.

O Dr. Ernesto de Oliveira, castelovidense natural da freguesia de Póvoa e Meadas, é um dos ilustres desconhecidos cuja memória merece e aguarda uma homenagem que tem demorado, injustamente. Não é este o tempo, nem o lugar, para devidamente evocar a personalidade e a obra de Ernesto de Oliveira, projectadas em distintas áreas que vão de pioneiras iniciativas nos domínios da divulgação jurídica até à lúcida paixão pelo Cinema. Castelo de Vide e Portalegre, que com Lisboa partilharam a sua vida, têm para com ele uma dívida a cumprir. Até quando? O pretexto aqui sugerido pode constituir o início desta reparação cívica.

A outra edição, igualmente em DVD, é relativa ao invulgar espectáculo Toada de Portalegre, realizado no Teatro Municipal de São Luiz, em Lisboa, com canto de Ricardo Ribeiro e música de Rabih Abou-Khalil, interpretada pelo Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo maestro Jan Wierzba. Já disponível no canal YouTube, o registo da notável apresentação merece uma cuidada edição videográfica, com complementos que expliquem e enriqueçam a iniciativa.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Régio Vivo – cinquenta anos depois – III

Não se esgotam nas sugestões aqui deixadas as possibilidades que uma empenhada aliança entre as autarquias portalegrense e vilacondense poderá desencadear.

Apesar de ser desejável uma medalha “oficial” promovida pela INCM, nada impede a edição de mais uma medalha metálica original, especialmente cunhada, alusiva à efeméride dos 50 anos da morte de José Régio. Isso mesmo aconteceu em 1984, por sinal dotada de certa originalidade.

Outra iniciativa, interessante, com inegável cunho artístico e pedagógico, seria a edição de uma colecção de postais ilustrados subordinados à temática Retratos de José Régio, da autoria de pintores e desenhadores, ao longo de décadas. Haveria aqui um vasto campo de selecção, quer em quantidade quer em qualidade e até interesse cronológico.

Quando das comemorações, em 2009, dos 80 anos da chegada a Portalegre e dos 40 da morte, foi estabelecido um promissor contacto pessoal com o grande industrial campomaiorense Rui Nabeiro. Do encontro resultou a generosa aceitação, por parte deste, de algumas iniciativas patrocinadas e concretizadas pela Delta Cafés.

Infelizmente, dada a limitada visão dos seus colaboradores, encarregados de operacionalizar o projecto, tudo acabaria por se resumir à edição de uma limitada colecção de saquetas de açúcar, ilustradas com reproduções de trabalhos de alunos da Escola Básica 2,3 José Régio, de Portalegre, alusivos ao seu patrono, além de citações da Toada.

Restou, valendo a pena retomar a proposta, a edição de uma outra série de saquetas de açúcar Delta, com ilustrações de temática regiana (fotos, máximas, peças dos museus, poemas, desenhos, capas de livros, etc.) para eventualmente coleccionar como cromos em cadernetas especiais, a distribuir nas escolas de Portalegre e Vila do Conde (eventualmente, no Norte Alentejano e, depois, em todo o País) e também, comercialmente, nos cafés.

Para além destas saquetas, ficou então por concretizar a edição de chávenas especiais da série Delta Régio (!?), coleccionáveis como peças de arte, alusivas aos cafés de Régio: Central e Facha de Portalegre, Palladium do Porto e Diana-Bar de Póvoa de Varzim.

Régio, não o esqueçamos, definiu-se como um conversador dotado da especial vocação para as mesas de café…

Um outro projecto, talvez mais ambicioso e de mais difícil (mas possível) concretização, seria a cuidada edição de uma colecção de cromos, em carteiras mais a respectiva caderneta, cobrindo as facetas mais significativas da vida e obra de José Régio, com fotografias pessoais e de locais carismáticos, reproduções de capas de livros, desenhos, programas, enfim, toda uma diversidade, devidamente organizada em capítulos, que divulgasse com qualidade e dignidade compatíveis as vivências regianas.

Sou um apaixonado pela BD. No entanto, reconheço que José Régio não detém uma biografia adequada a um tratamento condigno com as características icónico-narrativas próprias dos quadradinhos. Nunca me atreveria, pois, a tal proposta.

Em termos de moderna comunicação universal, impõe-se, de há muito, a organização, montagem e permanente actualização de uma página oficial na Internet dedicada a José Régio, suas personalidade, vida, obra, terras (Vila do Conde e Portalegre), casas-museu, etc., dotada dos graus máximos de qualidade, rigor e exigência.

Finalmente, last but not least, nesta (ambiciosa!?) relação de “provocações” ressalta outra, quase óbvia e nada original: a organização conjunta, por parte de ambas as autarquias regianas, de um novo Congresso José Régio. Para se tornar mais fácil, poderia ser Nacional, sem as exigências e os custos da internacionalização. Ainda assim, suficientemente rico de perspectivas. Corrijo: bastante rico de perspectivas.

Com sessões a distribuir pelos belos auditórios públicos que ambas as cidades possuem, todos os interessados poderiam beneficiar dos autorizados testemunhos dos convidados, mais tarde reunidos em volume que perpetuasse tal herança cultural. Que convidados? Eis uma relação nominal, provavelmente incompleta, que de memória aqui fica esboçada: António Ventura, Eduardo Lourenço, Eugénio Lisboa, Fernando J. B. Martinho, Isabel Cadete Novais, Lauro António, Manuela Laranjeira, Maria Ascensão, Maria José Maçãs, Miguel Real, Válter Hugo Mãe…

As reticências significam as limitações pessoais em ampliar a lista.

António Martinó de Azevedo Coutinho