Crónicas radiofónicas – vinte e cinco – Cântico Negro

Miguel Torga tinha acabado de morrer nesses meados de Janeiro de 1995. Por isso, fica motivado o meu regresso a um tema poético incontornável que aliás nem sequer precisa de tais pretextos para se evidenciar.

José Régio, agora a propósito do seu Cântico Negro, é o conteúdo deste programa radiofónico lido originalmente aos microfones da Rádio Portalegre no final de Janeiro de 1995, há mais de um quarto de século.

Recordei memórias pessoais desses tempos, nomeadamente a iniciativa concretizada em Portalegre/Vila do Conde no ano anterior, quando as duas autarquias patrocinaram a edição digital do esgotadíssimo registo sonoro, num LP, em que José Régio diz poemas da sua autoria, entre os quais o referido Cântico Negro.

Outras interpretações sonoras, igualmente registadas, são aqui lembradas, como as de João Villaret, um clássico, de Ary dos Santos, uma raridade, e sobretudo a última conhecida, de Maria Bethânia. Esta consta de um CD, Nossos Momentos, contendo a memória de uma actuação ao vivo no Canecão, carismático palco do Rio de Janeiro, acontecida em 1982.

A escolha da fabulosa cantora brasileira significou de algum modo a consagração universal de um poema já famoso em Portugal, considerado por Eugénio Lisboa como um dos mais belos de toda a literatura nacional.

A audição da sentida interpretação de Cântico Negro por Maria Bethânia constitui o conteúdo essencial do programa que vos convido a escutar.

Crónicas radiofónicas – vinte e um – O Clube dos Poetas Vivos

O programa radiofónico hoje evocado corresponde ao dia 20 de Maio de 1990.

Estávamos, portanto, nas vésperas de mais um Dia de Portalegre. Por isso, foi-lhe dedicado.

Escolhi a regiana Toada de Portalegre. Como se tratou de uma comunicação sonora, privilegiei a sua declamação. Mas não escolhi o clássico registo ao vivo de João Villaret, no São Luís, preferindo-lhe uma outra versão, bem menos conhecida.

Encontrei-a num LP com Poesia de José Régio dita por Ary dos Santos. Este, para além de inspirado poeta, foi um excepcional declamador. Atrevo-me mesmo a dizer que, no caso da Toada, ele di-la melhor do que Villaret.  

No crescimento da mítica acácia que Régio acompanhou vi então, metaforicamente, o progresso de Portalegre, então uma promessa cumprida infelizmente mais tarde suspensa, até à regressão agora patente… Mas estas são outras crónicas.

Hoje O Clube dos Poetas Vivos traz-nos José Régio e José Carlos Ary dos Santos.

Convido-vos para os ouvirdes numa integral Toada de Portalegre

José Régio – Conto do Natal

Terá sido, provavelmente, o mais elaborado texto que José Régio criou para enriquecer a colaboração prestada ao jornal republicano portalegrense A Rabeca.

Foi no seu número 2114, relativo a 21 de Dezembro de 1960, portanto há sessenta anos. Ilustrou-o um desenho, litografado, de Raul Pinto.

De seguida, o autor publicou-o no volume Há Mais Mundos, divulgado dois anos depois, em 1962. Assim ficou comprovado o apreço que Régio dedicou àquela sua produção.

Conto do Natal é uma sublime parábola regiana, contida num texto de grande qualidade literária. Pareceu-me que, nesta quadra, à perene lembrança de Régio seria interessante e oportuno juntar também uma peça do seu génio criativo.
Aqui se recorda o Conto do Natal.

 CONTO DO NATAL

Decerto mal chegava a ser homem – um homem como os outros! – aquele estranho ser todavia com formas claramente humanas. Por vários aspectos, antes se diria parente dos bichos. Como o dos bichos, se apresentava coberto de pêlos o seu rude corpo gigantesco. De igual para igual brigavam pela conquista duma presa comum, ele e os bichos. Por uma natural solidariedade acamaradavam em certas horas de perigo: aquelas, por exemplo, em que as misteriosas forças da natureza igualmente ameaçam bichos e homens. Como os bichos se deitava a dormir na terra estreme, e qualquer chão ou pedra lhe servia de mesa para os brutos festins.

Nada, pois, senão essa rivalidade a que os obrigava a urgência de satisfazerem necessidades comuns, impedia que só amigos tivesse ele na variada classe das bestas: das bestas feras, das bestas mansas. Não as compreendia perfeitissimamente nos seus costumes e paixões, moléstias e até linguagem? Desde o espantoso rugir do leão, que assusta os próprios bosques, ao diamantino trilo das aves; desde o pungente, humorístico ronco do asno ao roçagante zoar confidencial dos insectos, – hábil conhecedor se fizera das suas várias e expressivas línguas, que na perfeição imitava. Afastar-se-ia muito dessa a sua própria? A verdade é que não só percebia os bichos, como deles se fazia perceber.

Noutras particularidades talvez de mais subtil quilate, de mais subida ordem, logravam, ainda, irmanar-se: De longe farejava, como eles, as ameaças e os perigos, as tempestades iminentes, as catástrofes distantes, as variações do tempo, a sucessão das estações, os fenómenos lá de Cima entre os astros. Como alguns deles se afundava em longas meditações sem objectos, por mera influência do clarão da lua ou dos silêncios do céu; porventura da simples névoa que flutua no horizonte. E noutras ocasiões se mostrava sujeito a furores, pavores, agitações. Amolecimentos, cujas causas não seriam entendidas dos homens, pois só o instinto primitivo, ainda virgem, nele agia e o perturbava.

Assim camarada das bestas, não poderiam senão ser mais difíceis as suas relações com os humanos. Haveria, sequer, o que se diz relações? Muito raras, muito incompletas; e por inesperados e fugidios encontros, por surpresa de parte a parte.

Aos outros homens, simultaneamente os assombrava, os apavorava, os humilhava, ou inspirava sentimentos obscuros talvez de curiosidade e ódio. Seria fácil perdoarem-lhe aquela aparência humana? a um monstro assim?

Não obstante, que homens eram esses, – aqueles com quem pudera haver tido, vir a ter, quaisquer fugidios contactos? Brutos pastores de inacessíveis pastos, criminosos foragidos a outros climas, vagabundos talvez semiloucos, ásperos caçadores da serra misteriosa. Menor, ainda, era qualquer sua possibilidade de convívio com os toscos habitantes das póvoas enterradas nos refegos da região bravia, toda eriçada de penhascos abruptos, sombrias florestas incomensuráveis.

Estariam todos estes, na verdade, tão longe como supunham do monstro coberto de pêlos?

Talvez por isso mesmo se sentiam profundamente vexados com apresentar ele o seu mesmo contorno humano. Ah, que o detestavam! E em sarcasmos se desafogavam, quando, certas noites, os ecos das encostas longamente repercutiam ora os seus uivos lúgubres, mais soturnos que os dos cães e lobos, ora sons que, vindos doutro ser, quase seriam tidos por musicais: quase lembrariam fragmentos dum entrecortado canto lamentoso. Algumas vezes, porém, lhes saíam contrafeitos os sarcasmos. Seria o pavor? Seria a superstição que lhos regelava na boca. Então chegavam a ficar súbito estarrecidos, ou não continuavam zombando senão por jactância, se ao alto da serra viam passar negra sobre o clarão da lua Nascente, ou surgir e quedar imóvel sob as estrelas, como de bronze, a gigantesca silhueta do bicho de forma igual à sua.

Não que ele os atacasse! Nunca atacara ninguém! Mas uma vez (viera isto contado de pais a filhos, de avós a netos) haviam organizado uma expedição para o capturarem. Matá-lo-iam? Contentar-se-iam com o mutilarem? Encerrá-lo-iam numa jaula de pedra, fechada a grossos varões de ferro, para, depois, se divertirem acirrando-o, como a uma fera impotente? Mas não derrubaria ele os muros? não torceria os mais grossos varões? Dizia-se que as suas mãos eram pesadas como a pata do leão, e terminavam em garras como as das aves de rapina. Decidiram que, podendo capturá-lo vivo, o trariam encadeado; depois o passeariam, carregado de ferros, pelas redondezas, – e assim os povos pusilânimes exultariam de se verem libertos daquele pesadelo do monstro. Porque lá que fosse ele capaz de abater paredes de rocha, ou estorcer varões de ferro, ou poder mais que uma dúzia de valentes (antigos salteadores, familiares do crime e da luta, caçadores das florestas nocturnas) não acreditavam os que partiram na expedição. Jovialmente partiram com os seus estadulhos eriçados de pregos, as suas facas de mato, as suas algemas primitivas. E até dois ou três dos mais novos, por escárnio ou precaução, levavam à roda do pescoço coleiras com picos acerados, como se põem à garganta dos cães, para os defenderem dos dentes dos lobos.

Bem certo que até nas regiões mais inóspitas, lá em brutas paragens, pulsa um ou outro coração mais brando. Já um ou outro coração mais brando ousara qualquer palavra compadecida em favor do monstro. No fim de contas, também era uma criatura de Deus! e não fora ele que se fizera assim como era, pois não? Ao menos o não mutilassem de modo a fazerem-no sofrer irremediavelmente o resto dos seus dias…
Pois aquela dúzia de afeitos, cépticos e galhofeiros que tão confiadamente partira, nunca mais ninguém vira voltar nenhum. O que deles, mais tarde, se encontrou, eram restos mortais já nem cadáveres, pois as feras e as aves sinistras (se não o próprio monstro!) lhes haviam esburgado os ossos. Dizia-se – era um boato, mas dizia-se – que alguém ouvira noites a fio, trazidos pelo vento, chegarem da serra gritos de socorro, estertores e gemidos de se porem os cabelos em pé. Era um boato. Porque se alguém os ouviu nunca directamente o declarou, talvez com pudor de confessar que ainda mais se encolhera nas suas tábuas e palhas.

Fora isto há muito. Sim, há tanto, que já ninguém sabia se era verdade: embora como verdade pura tivesse vindo contado de pais a filhos, de avós a netos. Assim, piedade para com o monstro, não a havia. Sobretudo depois de tal sucesso.

Ninguém parecia haver pensado que, no fim e ao cabo, dos outros partira, que não dele, a primeira intenção feroz; e que, se fora ele a trucidar aquela dúzia de aventureiros, por certo agira no que se chama legítima defesa. Se alguém o pensara, prudentemente encolhera a língua: Será de boa política afrontar um ódio público, uma opinião geral? Ou, então, era alguém cujos dizeres e juízos ninguém poderia tomar em conta, já anteriormente conhecidos por excêntricos. Só algum raro pastor mais jovem – e talvez não por caridade, mas por curiosidade – ia, às vezes, deixar sobre uma rocha um animal que lhe morrera de morte maligna.

Sabia que, atraído pelo cheiro, o monstro o viria buscar. E era, para ele, uma espécie de triunfo conseguir avistar, de longe, a forma peluda e gigantesca, movendo-se na semi-claridade do céu nocturno; ouvir o seu uivo repercutido nos ecos das encostas longínquas.

Homem, aquilo?! Que pais o poderiam ter gerado? Que monstruoso, híbrido amor haveria sido capaz de tal fruto? E como deveria ser velho, se já os bisavós afirmavam terem ouvido falar dele aos pais dos pais! Talvez dos tempos do Dilúvio. Talvez dos princípios do mundo. Ou de quando havia à face da terra (contava o sábio que vivia na sua caverna forrada de musgos) espantosos seres cuja espécie desaparecera no rolar dos séculos. Até ninguém estava muito longe de o considerar imortal.

Por isso foi um espanto, um alívio, uma decepção quando, certa manhã, apareceu morto. Bem verdade que, durante a noite, por acaso uma fria noite de Dezembro… – fria noite em que silenciosamente caíra, uma neve miudinha, em ténues flocos dançando no ar como levíssimas plumas de ave, pegando-se aos galhos secos das árvores, cobrindo tudo, aos poucos, do seu imaculado tapete fofo, – pois bem verdade que, durante essa noite, dera o monstro sinais duma agitação, extraordinária. Parecera, até, haver querido aproximar-se mais que nunca dos aglomerados humanos circunvizinhos. Como, doutra forma, teriam dado pela sua morte logo no dia seguinte? Lá nesses píncaros, desfiladeiros, moitas cerradas que eram seus domínios próprios, bem o seu cadáver teria tempo de se liquefazer ignorado; ou o teriam esfacelado as aves sinistras, roído as bestas-feras. Porém essa noite, pastores que velavam o tinham visto quase perto, com os grossos braços atirados ao ar, e gestos que bem poderiam ser de quem algo tem a dizer aos seus semelhantes. Quais seus semelhantes? Por isso os pastores haviam passado a noite na defensiva. Sabiam que bem poderia não ser ele menos perigoso para os seus rebanhos que os lobos famintos.

Não obstante, essa noite, – por acaso uma fria noite de Dezembro – os seus costumados uivos e gritos roucos nem eram gritos nem uivos. Melhor se diria tentarem modulações desconhecidas. Seria lamentar-se, aquilo? seria cantar, celebrar o quer que fosse? Como que entoavam as suas vozes fragmentos de estranhos hinos selvagens! Selvagens; mas porventura comovedores; e intercalados de puras manifestações de entusiasmo, de alegria, se não melancolia, (seria alegria? seria melancolia?) para as quais não havia nomenclatura, não havia qualificação, na pobre e rude linguagem dos sítios. Os mais sensíveis dos que, na fria noite de Dezembro, tinham ouvido tais vozes, chegaram a ficar impressionados. E um pastorzito que tocava flauta, e mais duma vez lhe fora pôr no alto das rochas qualquer animal morto, pensara, escutando-o: «Se eu soubesse tirar na flauta…» Hábil tocador, na sua flauta primitiva apanhava todas as árias que ouvia.’ Aliás tão simples quanto o podiam ser as daqueles povos. Mas até, por vezes, já na mesma flauta ensaiava outras que se não lembrava de ter ouvido em parte alguma, e talvez menos simples «quando eu for grande…» sonhava que, chegando à idade em que os homens fazem, tão bem quão possível o quer que nasceram para fazer, seria capaz de musicar na sua flauta… porventura numa flauta muito mais apurada… árias que já escutava não só com os ouvidos de fora! talvez antes com os de dentro. Esses fragmentos de cânticos, por exemplo, entreouvidos ao monstro naquela noite.

Por fim, o silêncio. Aí pela ante-manhã, o silêncio. Já nenhum grito; nenhum som de loa ou lástima. O grave e misterioso silêncio, reinando supremo; o frio que dá uma impressão de cortante pureza; a brancura incorruptível da neve nos píncaros da serra, no estendal dos plainos; a imensa, a majestosa placidez do firmamento aberto; já nem o roçar imperceptível dum último flocozinho de neve num galho nu, só muito longe, algures, num vago horizonte que tanto poderia ser ainda terra como já céu, uma claridade primeiro despontando como um arrepio de luz, com não seu quê de sobrenatural; depois colorindo-se, alastrando em matizes pela incerta imensidão. Simplesmente o raiar dum novo dia, por certo.

E foi quando foram dar com ele morto. Quando já ia alto o sol dum maravilhoso dia. Muito perto dos povoados. Claro que, tendo avistado o seu grande vulto estendido, ninguém se lhe acercara sem grandes cautelas. Não poderia ser aquela imobilidade uma cilada? Todos estavam armados para qualquer eventualidade, – os estadulhos em riste. Ninguém pudera esquecer aquele morticínio contado através das gerações, e sempre acrescentado de pormenores que se não sabia como haviam sido averiguados. Mas foi um espanto, um alívio, – até uma decepção. Mais que tudo, um espanto! Porque era inexplicável: Os gigantescos membros do monstro, que sempre tinham sido vistos, ou imaginados, cobertos de pêlos como os dos ursos, agora se apresentavam lisos e alvos, como talhados em mármore. Só os seus membros? Todo o seu corpo! Todo o seu corpo era agora liso, branco, proporcionado, perfeito como o duma estátua; – diria quem já houvesse admirado pelas estátuas. Pois não se julgara dever ter ele focinho de bicho? orelhas e ventas de bicho? sanguíneos olhos de bicho? Não era assim que o representava quem, por temível acaso, alguma vez lhe passara mais perto? E nada disso! As feições do seu rosto eram não só correctas mas delicadas, – duma delicadeza bem rara em feições de homem. Um toque de infantilidade apontava na sua boca de sinuosas linhas, semidescerrada como para qualquer palavra ainda não dita. Os seus olhos grandes, claros, sobre quais só a morte espalhara leve uma névoa brilhante como um esmalte fino, olhavam fixos para onde rompera no céu aquela facha sobrenatural. E uma expressão de inefável serenidade, aliada a uma dignidade imponente e simples, resplandecia nesse rosto afinal verdadeiramente belo: como se, antes de morrer, tivera ele qualquer extraordinária Visão; ou recebera qualquer extraordinário Recado.

Bravos e rudes eram os que, tendo-o lobrigado estendido nas rochas, primeiro se lhe haviam aproximado: Brutos pastores de inacessíveis pastos, criminosos foragidos a outros climas, vagabundos talvez semiloucos, ásperos caçadores da serra misteriosa… Pois até estes ficaram tolhidos, – ao mesmo tempo ali como estarrecidos e profundamente embaraçados pelo inesperado espectáculo da formosura do monstro.

Ora entre tais, ousara ir o pasto rito da flauta. E esse era o mais agitado! Ninguém lhe dava ouvidos. Agora o jeito para a música, mostrava pouco senso na maior parte do que dizia, muitas vezes dizendo coisas que poucos se davam ao trabalho de procurar entender – Dizia ele essa manhã que, durante a noite, fora visitado por Alguém que não chegara a ver, pela mesma razão que nos não deixa à gente ver o sol. Mas parecera-lhe que tinha asas! Maiores do que as das águias! E falara. Ele é que estava estonteado do clarão, estremunhado do sono, (fora pela madrugada) apavorado de tudo aquilo, e certamente não entendera, não sabia se chegara a entender… Em todo o caso, não seria capaz de repetir, tão esquisitas eram as coisas que afinal nem saberia dizer se chegara a ouvir…

Nenhum dos companheiros aparentou dar crédito a estes ditos sem nexo. As notícias do resto do mundo não chegavam aquelas póvoas ocultas nos refegos da serra ignota. Os dias, as noites, as estações, os anos, quase só eram aí assinalados pelos fenómenos da natureza. Mas entre os habitantes dessas póvoas, nem todos ficaram inteiramente indiferentes ao que repetia o pastorzito da flauta. Parece que também outros, posto calando-se, haviam sentido que algo sucedera de pouco usual no decorrer daquela noite. Por acanhamento se calaram; ou por íntimas razões só deles conhecidas. E o tempo foi passando. Quem quiser saber a continuação da história ao pastorzito da flauta, espere que algum poeta qualquer dia lha conte. Quanto à história do monstro, não esqueceu. Até lhe haviam dado sepultura no seio da terra, e o lugar lá estava marcado com uma alta rocha que levara dias a ser arrastada. Um engenhoso dos sítios – quem sabe se também este não recebera Recado natal noite? – bem pretendera talhar nessa rocha uma figuração do ex-monstro sepulto. Na verdade era homem de engenho. Por isso mesmo nem ele entendia como, desta vez, lhe parecia fugir a mão para coisa diferente do que ele pretendia. A figura ficou muito imperfeita: Quase só tinha um tronco alongado, enterrado no chão, com dois grossos braços abertos.

 José Régio

nos cinquenta e um anos da morte de José Régio

Ocorre hoje mais um aniversário da morte de José Régio. São cinquenta e um anos que já nos separam da desaparição física do Homem. Para além da incontornável memória, sobra dele, e é uma herança imensa, a sua Obra.

Jamais o esqueço, jamais o poderia esquecer neste meu diário pouco íntimo que é o Largo dos Correios. Hoje evoco um texto que no passado já aqui recordei. Vale a pena repeti-lo.

Trata-se de um artigo escolhido entre os que ele escreveu para o saudoso semanário portalegrense A Rabeca. Foi originalmente publicado em 22 de Dezembro de 1948, quase profeticamente vinte e um precisos anos antes da sua morte.

Nesse número de Natal do semanário, Sobre uma Palavra de Jesus teve natural destaque de capa, impressa numa forte tonalidade de azul, com gravura de Renato Torres e cercadura de Herculano Curvelo, ambas talhadas em madeira como era usual na tipografia da época. Eis três personalidades unidas num mesmo belo projecto natalício.  

Crónicas radiofónicas – catorze – A esferográfica

Diverti-me imenso com este programa de hoje. Deixando Régio e procurando outro tema, fui ter a… Régio.

Nada digo sobre o caminho percorrido, antes convidando o leitor/ouvinte para o encontrar…

Ao que parece, foi em 1945 que a primeira caneta esferográfica americana terá sido posta no mercado, em produção autorizada pelo seu inventor, o húngaro Lazlo Biró. A novidade nem sequer era barata -custaria 12,95 dólares por unidade- mas rendeu uma pequena fortuna ao fabricante.

Tal instrumento de escrita, hoje banalizado, representou uma enorme inovação técnica e ofereceu imensas vantagens práticas.

Quando penso em esferográficas, que naturalmente uso, penso também em José Régio. Todos nós, os gaiatos portalegrenses que o aturávamos nos bancos do velho Liceu, sabíamos haver três coisas que Régio nunca usaria: gabardinas, cigarros feitos e… esferográficas!

Quanto a privilegiado instrumento de escrita, era-lhe particularmente grata a caneta de aparo. Sobre a sua mesa de trabalho, no pequeno compartimento da varanda mais a acácia, em Portalegre, ainda hoje lá se encontra o tinteiro, o estojo-suporte das canetas e ainda o mata-borrão usado.

Naturalmente, em alternativa, também se servia das canetas de tinta permanente.

Pelos finais da vida, tinha trocado Portalegre por Vila do Conde e apenas voltava à cidade alentejana para aí acompanhar, por longos períodos, as complicadas e morosas obras de adaptação da sua velha morada a casa-museu.

Trocou então os cafés-tertúlias de Portalegre pelo Diana-Bar, na Póvoa de Varzim, e aí escreveu algumas das suas incontáveis cartas.

Uma, para o seu amigo Flávio Gonçalves, em 15 de Julho de 1968, dizia isto a abrir:

Meu caro amigo
Este papel de Vila do Conde parte realmente do Diana-Bar da Póvoa.
De aí a esferográfica, – impossível trazer tinteiro de latão e pena de pato para o Diana-Bar…

Uns meses depois, em 20 de Janeiro de 1969, Régio escrevia a um outro amigo, Álvaro Salema. E começava assim a missiva:

Meu Querido Amigo:
Desculpe-me a esferográfica: Escrevo-lhe estas linhas de um bar da Póvoa, onde a esferográfica tem de ser o meu instrumento de trabalho…

José Régio assumia assim, a contragosto, que transformara a esferográfica no seu “instrumento de trabalho”. E desculpava-se por isso…

Este programa construído com pretexto na esferográfica e com tonalidades regianas foi emitido pelo Fonte Nova – Rádio Clube de Portalegre num Domingo, 18 de Março de 1990. Hoje, um sábado, mais de trinta anos depois, ainda escreve e por isso aqui volta…

Eduardo Lourenço (1923-2020)

Morreu aos 97 anos o filósofo e ensaísta Eduardo Lourenço

O ensaísta Eduardo Lourenço, Prémio Camões e Prémio Pessoa, morreu hoje, aos 97 anos, deixando uma vasta obra de “grande originalidade”, e a imagem do homem que permitia “a única reflexão inteligente sobre a política nacional”.

Professor, filósofo, escritor, crítico literário, ensaísta, interventor cívico, várias vezes galardoado e distinguido, Eduardo Lourenço foi um dos pensadores mais proeminentes da cultura portuguesa, sempre solicitado, mas que considerava não justificado o interesse das pessoas por ele: “Porque estou saindo. Eu nunca ocupei palco”, explicou, numa entrevista ao jornal Público, em 2017.

Hoje saiu de cena, mas deixa a marca da “grande originalidade” do seu pensamento – de acordo com a página a si dedicada, do Centro Nacional de Cultura –, e a imagem do ensaísta que permitia “a única reflexão inteligente sobre a política nacional”, como o definiu o poeta Herberto Helder, numa carta de 1978.

Outras definições o caracterizam, como a do ensaísta Eduardo Prado Coelho, que o considerava alguém para quem “a aventura do conhecimento e a aventura da vida se confundem permanentemente”, ou a de Fernando Namora, que, em 1986, escreveu que Eduardo Lourenço era “um dos espíritos mais sagazes, de uma fulgurância estonteadora, que o ensaísmo português alguma vez produziu”.

Apaixonado pela literatura, referia-se aos livros como “filhos” e dizia que “estar-se sem livros é já ter morrido”.

Mas foi sobretudo sobre a poesia, mais do que a prosa, que incidiram os seus ensaios, de Luís de Camões a Miguel Torga, passando por Fernando Pessoa.

Eduardo Lourenço Faria nasceu em 23 de Maio de 1923, em S. Pedro do Rio Seco, no concelho de Almeida, na Beira Baixa, mas só foi registado no dia 29 desse mês.

Esteve “seis dias sem tempo” e assim ficou sempre, “fora do tempo”, afirmou numa entrevista à revista Prelo.

O mais velho de sete irmãos, e filho de um militar do exército, frequentou a escola primária da aldeia onde nasceu e matriculou-se, posteriormente, no Colégio Militar, em Lisboa, onde concluiu o curso em 1940.

Inscreveu-se na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, de que desistiu, para prestar provas, mais tarde, em Ciências Histórico-Filosóficas, na Faculdade de Letras da mesma instituição.

Era um “dos melhores em Filosofia, não porque repetisse as aulas como um papagaio, mas por ter revelado um arguto espírito crítico e uma ideia já autónoma”, segundo a descrição, à revista Prelo, que dele fez o escritor e pedagogo Mário Braga, ex-editor da Vértice.

Eduardo Lourenço concluiu a licenciatura em 1946, com uma tese sobre “O Sentido da dialéctica no idealismo absoluto“.

No ano seguinte, passou a leccionar como assistente e colaborador do professor Joaquim de Carvalho e, em 1949, com apenas 26 anos, reuniu parte da sua tese de licenciatura no primeiro volume de uma obra intitulada “Heterodoxia”, “um dos mais nobres e perturbantes discursos ensaísticos de toda a nossa história literária”, como a classificou o professor e ensaísta Eugénio Lisboa.

Antes disso, em 1944, Eduardo Lourenço começara a colaborar com a revista Vértice, publicação em que se estreou com o poema “Aceitação”, um prelúdio de “Heterodoxia”.

E foi com “Crónicas Heterodoxas” que colaborou também com o Diário de Coimbra, publicação histórica da cidade onde conviveu com o escritor Vergílio Ferreira e onde viria a ser associado a uma determinada forma de existencialismo, influenciado por filósofos como Heidegger, Nietzsche, Husserl, Kierkegaard e Sartre, e pela leitura de escritores como Dostoievsky, Kafka e Camus.

Homem de esquerda, mas com uma visão crítica dessa corrente, o ensaísta nunca se deixou enfeudar em qualquer escola de pensamento.

Em 1949, partiu para França, a convite do reitor da Faculdade de Letras da Universidade de Bordéus, com uma bolsa de estágio da Fundação Fulbright.

Em 1953, iniciou uma carreira académica, tendo leccionado em diversas universidades europeias e americanas, designadamente, nas de Hamburgo e Heidelberg, na Alemanha, Montpellier, Grenoble e Nice, em França, e na da Baía, no Brasil, entre outras.

Casou-se com Annie Salamon, em Dinard, em 1954, e, a partir de 1960, passou a viver em França.

Cinco anos mais tarde, em 1965, fixou residência em Vence, na região dos Alpes Marítimos, no sudeste francês, mas manteve sempre ligação ao país de origem, refletindo sobre a sociedade portuguesa.

Como é que um homem nascido em S. Pedro do Rio Seco pode ser outra coisa que não português?”, disse o ensaísta, em 1986, ao Jornal de Letras, Artes e Ideias.

Dois anos mais tarde, por ocasião da edição da Assírio & Alvim, que reuniu os dois volumes de “Heterodoxia”, Eduardo Lourenço concedeu uma entrevista à revista do Expresso, na qual assumiu – em resposta à pergunta “Qual é a sua cidade?” – que S. Pedro do Rio Seco era a sua “Paris-Texas”, numa alusão ao filme de Wim Wenders.

O tema da Europa, e do lugar de Portugal na Europa, é recorrente na obra do autor, e “O Labirinto da Saudade”, de 1978, o seu trabalho mais celebrado, é o exemplo de “um discurso crítico sobre as imagens que de nós próprios temos forjado”, nas palavras do próprio autor.

Em 1988, o então professor jubilado da Universidade de Nice recebeu o Prémio Europeu de Ensaio Charles Veillon, pelo conjunto da obra, e, um ano depois, assumiu o cargo de conselheiro cultural junto da embaixada de Portugal em Roma, onde permaneceu até 1991.

Vários prémios se sucederam, com destaque para o Prémio Camões, em 1996, e o Prémio Pessoa, em 2011.

Recebeu também os prémios António Sérgio (1992), D. Dinis (1996), Vergílio Ferreira (2001), Universidade de Lisboa (2012), Jacinto do Prado Coelho (em 1986 e em 2013) e Vasco Graça Moura (2016), entre outros.

Em 1999, foi nomeado administrador não executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

Além da filosofia, da literatura, da música e da pintura, áreas em que se aventurou, através de obras como “Tempo da Música, Música do Tempo” (2012), e dos quadros de Vieira da Silva, nas artes plásticas, com “Espelho Imaginário”, de 1981, a intervenção cívica também atraiu este pensador, que aderiu à União de Esquerda para a Democracia Socialista (UEDS), em 1978, liderada por António Lopes Cardoso, que contou com nomes como os de César de Oliveira e Francisco Pessegueiro, e com o apoio de personalidades como Maria de Lourdes Pintasilgo.

Em 1980 Eduardo Lourenço apoiou a recandidatura de Ramalho Eanes à Presidência da República e, em 1985, integrou a candidatura de Maria de Lurdes Pintasilgo, na primeira volta das Presidenciais, e de Mário Soares, na segunda.

Em 1980/1981, o autor de “Os Militares e o Poder” participou no filme “Gestos e Fragmentos“, de Alberto Seixas Santos, ensaio sobre o papel dos militares no 25 de Abril de 1974, à luz do golpe do 25 de Novembro de 1975.

Entre condecorações e distinções, Eduardo Lourenço recebeu as ordens de Grande Oficial de Santiago e Espada (1981), a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (1992), a Grã-Cruz da Ordem de Santiago e Espada (2003) e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (2014).

França distinguiu-o com a Ordem Nacional de Mérito (1996), a Ordem das Artes e das Letras (2000) e a Legião de Honra (2002), e em 2008 recebeu a medalha de Mérito Cultural do Governo Português e a Ordem de Mérito Civil de Espanha.

Doutorado Honoris Causa pelas Universidades do Rio de Janeiro, de Bolonha, de Coimbra e pela Nova de Lisboa, tomou posse, a 07 de Abril de 2016, como Conselheiro de Estado, designado pelo actual Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Nesse mesmo ano, venceu o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a Divulgação do Património Cultural, ex-aequo com o cartoonista francês Jean Plantureux, conhecido como Plantu.

Em 2018, foi protagonista e narrador da sua própria história, num filme de Miguel Gonçalves Mendes, que teve antestreia a 23 de Maio, dia em que Eduardo Lourenço completou 95 anos.

Intitulado “O Labirinto da Saudade”, o filme adapta a obra homónima de Eduardo Lourenço e traça uma viagem através da cabeça do pensador português, constituindo-se como uma “homenagem em vida” do realizador ao ensaísta.

Nesse mesmo ano, a propósito da polémica em torno de um possível “Museu das Descobertas” em Lisboa, devido sobretudo ao nome e ao programa, que foram classificados como “neo-coloniais“, o ensaísta deixou bem clara a sua oposição ao que chamou de “crucificação” do país pelo seu passado colonizador, quando não houve maldade na génese e o mal feito já não podia ser reparado.

Acho extraordinário, num momento em que a Europa é quase toda ela democrática, que, de facto, um país com menos problemas graves e de difícil resolução no mundo seja objecto desta espécie de penitência pública”, lamentou.

Exactamente um ano mais tarde, Eduardo Lourenço cumpriu uma das suas derradeiras aparições públicas, numa homenagem em que o primeiro-ministro, António Costa, sublinhou a “sabedoria ilimitada” do ensaísta, e defendeu a celebração da data, “como um dia de festa da cultura portuguesa“.

Marcelo Rebelo de Sousa celebrou igualmente os 96 anos de Eduardo Lourenço, com uma mensagem na página da Presidência, e a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa instalou uma estátua sua, em bronze, da autoria de Leonel Moura, nos jardins da sua sede em Lisboa.

Nesse dia, o autor de “Fernando, Rei da Nossa Baviera” falou sobre o papel de Portugal na história, associando-o a uma “vontade de não abdicar do sonho“, uma “vontade um pouco louca“.

Portugal viajou uma viagem por conta própria, um sonho, e esse sonho não tem fim e não terá fim“, disse Eduardo Lourenço. “Os portugueses atreveram-se tanto quanto podiam, talvez, e esse atrevimento é aquele que ficará realmente na história de nós“.

Quando fez 95 anos, Eduardo Lourenço confessou, em entrevista à Lusa, que era “difícil assumir” o aniversário, porque sabia que era “o princípio do fim“, mas que não o encarava “como uma coisa trágica“, porque “todos estamos confrontados com essa exigência“.

A tragédia já é, em si, nós não podermos escapar àquilo que nos espera, seria uma injustiça para todas as outras pessoas, que eram os nossos e que já morreram, que nós não fossemos capazes de suportar aquilo que eles suportaram quando chegou o fim deles“, afirmou. “É ir para a morte como se todos aqueles que nos conheceram e nós amámos estivessem connosco”.

MadreMedia / Lusa

No momento da morte de Eduardo Lourenço, quero aqui e agora recordá-lo no seu texto publicado no Largo dos Correios, no dia 24 de Dezembro de 2019, quase há um ano. Foi no artigo José Régio – 50 anos depois… III.

Eduardo Lourenço nasceu em 1923 numa pequena aldeia da Beira Interior e licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, na Universidade de Coimbra em 1946. Tornou-se assistente da Faculdade de Letras entre 1947 e 1953, colaborando com Joaquim de Carvalho. É nesse período que publicou o seu primeiro livro, Heterodoxia (1949), onde reuniu uma parte da sua tese de licenciatura, O Sentido da Dialéctica no Idealismo Absoluto. Colaborou também no Diário de Coimbra, publicando as Crónicas Heterodoxas.

Em 1949 realizou um estágio na Universidade de Bordéus 2, com uma bolsa do Programa Fulbright. Leitor de Cultura Portuguesa entre 1953 e 1955 nas universidades de Hamburgo e Heidelberg, exerceu a mesma actividade na Universidade de venceu o Prémio Camões em 1966.

O notável texto de Eduardo Lourenço sobre José Régio hoje reproduzido foi escrito pelo autor há precisamente cinquenta anos, hoje mesmo cumpridos, na sua residência em Nice, França.

Entre nós foi publicado na página Artes e Letras do jornal Diário de Notícias.

Montpellier de 1956 a 1958. Após um ano passado na Universidade Federal da Bahia, como professor convidado de Filosofia, passou a viver em França em 1960.

Fixou residência em Vence, em 1965. Foi leitor na Universidade de Grenoble de 1960 a 1965 e maître assistant na Universidade de Nice até 1987, passando a maître de conferences em 1986. Tornou-se professor jubilado em Nice em 1988.

Em 1989, assumiu funções como conselheiro cultural junto da Embaixada Portuguesa em Roma, até 1991. Desde 1999 ocupou o cargo de administrador (não executivo) da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Tomou posse a 7 de Abril de 2016 como Conselheiro de Estado, designado pelo Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Entre muitas outras condecorações e alto mérito, venceu o Prémio Camões em 1966.

O notável texto de Eduardo Lourenço sobre José Régio hoje reproduzido foi escrito pelo autor há precisamente cinquenta anos, hoje mesmo cumpridos, na sua residência em Nice, França.

Entre nós foi publicado na página Artes e Letras do jornal Diário de Notícias.

Crónicas radiofónicas – treze – Davam grandes passeios aos Domingos – Passeios

Finda hoje a reprodução da série regiana dedicada a Davam grandes passeios aos Domingos. A novela inspirou os programas radiofónicos que em 1990, há trinta anos, foram emitidos pelo Fonte Nova – Rádio Clube de Portalegre. Este foi para o ar num Domingo, em 11 de Março desse ano já distante.

O tema dominante do quinto e último programa alusivo foi precisamente o dos passeios, passeios de que José Régio era assíduo e entusiasta participante. Quem conheça Portalegre reencontra-se facilmente com a descrição dos passeios que Rosa Maria dava ou, sobretudo, sonhava dar, maravilhada pelas soberbas panorâmicas da cidade, da Penha e das estradas vistas a partir da casa, na Estrada da Serra, dos seus tios. Tudo nascera afinal, naquela ficção novelesca, a partir de uma simples e quase anónima estampa.

Na realidade, as descrições regianas partem da própria experiência do autor, apaixonado pelos belos arredores da cidade alentejana que adoptara.

Belos passeios que tem Portalegre para dar aos Domingos! – esta é uma frase quase mágica que serve de “mote” e de título à novela dos anos 40…

Vale bem a pena reler a preciosidade literária que é esta criação de José Régio.

O programa a seguir “recapitulado” que lhe possa servir de modesto mas empenhado “aperitivo”!