Centro de Estudos Regianos – Vila do Conde

O Centro de Estudos Regianos, de Vila do Conde, acaba de ser distinguido com o reconhecimento oficial da sua utilidade pública.

A justíssima distinção vem premiar a intervenção que o organismo tem vindo a desempenhar quanto à preservação, estudo e divulgação da figura e da obra de José Régio.

Neste momento de júbilo, quando o CER recebe um forte incentivo público para a sua meritória acção cultural, daqui envio um sincero e respeitoso abraço de parabéns à Dr.ª Elisa Ferraz, presidente do município vila-condense, assim como às Dr.as Isabel Cadete Novais, Maria Luísa Aguiar, Manuela Laranjeira e Ivone Teixeira, almas da obra presente e futura ao serviço da causa regiana.

Também não posso nem devo esquecer Eugénio Lisboa e a gratíssima memória de João Francisco Marques, pelo seu inestimável serviço ao CER.

a Presença faz hoje anos

Cumprem-se hoje noventa e três anos sobre o lançamento, em Coimbra, do primeiro número da revista Presença, folha de arte e crítica.

Nesse distante dia 10 de Março de 1927, três intelectuais concretizaram assim um desígnio comum, o de disponibilizarem um suporte para albergar aquilo que consideravam uma literatura viva, livre, oposta ao academismo rotineiro que então imperava, substituindo-o pelo exercício da crítica e pela supremacia do individual sobre o colectivo, do criativo sobre o clássico, do intuitivo sobre o racional.

A revista tornou-se uma entusiástica defensora daquilo a que se viria a chamar o Segundo Modernismo, tendo ficado o Primeiro a cargo da extinta revista Orpheu. Aliás, alguns destes pioneiros juntar-se-iam aos homens da Presença.

Estes foram, no início, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca e José Régio. Ainda estudante universitário -tinha então 25 anos- Régio depressa se tornaria o mais influente membro da equipa responsável pela Presença. Com algumas alterações na sua direcção e nos quadros de colaboradores regulares, a revista duraria até 1940, tendo publicado 54 números.

Para além dos intelectuais já citados, muitas outras personalidades deixariam valiosa participação literária ou artística nas páginas da Presença. Entre estas, devem ser citadas Adolfo Casais Monteiro, Miguel Torga, Aquilino Ribeiro, Edmundo de Bettencourt, Carlos Queiroz, Guilherme de Castilho, José Bacelar, José Marinho, Delfim Santos, Saul Dias (irmão de Régio), Fausto José, Francisco Bugalho, Alberto de Serpa, Luís de Montalvor, Mário Saa, Raúl Leal, António Botto…

A publicação, ao contrário de outros títulos da época, conseguiu manter sempre uma notável independência ideológica, acolhendo as mais diversas tendências desde que respeitassem os valores da arte e da literatura. Por isso, despertou algumas polémicas, sobretudo motivadas pelos defensores do neo-realismo.

David Mourão-Ferreira, notável figura de pedagogo e intelectual, ao tempo secretário de Estado da Cultura, organizou em 1977 um interessante conjunto de iniciativas centradas em Portalegre e no Norte Alentejano, a propósito do cinquentenário da Presença. A motivação era óbvia, pois a região detinha -e detém- a memória da presença, ali, de alguns dos mais significativos presencistas: José Régio (Portalegre), Francisco Bugalho (Castelo de Vide), Branquinho da Fonseca (Marvão) e Mário Saa (Ervedal, Avis). A este propósito, relembra-se a posterior publicação da obra Casas de Escritores no Alentejo, de Secundino Cunha, uma obra de invulgar qualidade que abarca os cenários de vida de quase todos estes intelectuais e criadores.

A Presença continua a fazer jus aos seus propósitos de defesa da literatura viva. Ela própria é, e sempre será, uma presença bem desperta. E apta a despertar-nos.

Régio – uma evocação em Lisboa

A evocação da vida e obra de José Régio, a pretexto da recente passagem do cinquentenário da sua morte, tem vindo acontecer um pouco por todo o país.

Com óbvio destaque para Vila do Conde e Portalegre, que por razões de sobejo conhecidas são as terras por excelência do literato, onde nasceu e morreu, a primeira, onde viveu e produziu a maior e mais significativa parte da obra, a segunda, a verdade é que também Porto, Coimbra e Lisboa, outras cidades ligadas a Régio, têm cumprido programações interessantes.

Foi o caso do evento na passada terça-feira concretizado na Sala do Arquivo Histórico -adequado “cenário”- da Câmara Municipal de Lisboa. A evocação regiana -iniciativa da Associação Portuguesa de Escritores- foi coordenada por Luís Machado e contou com a participação de José Manuel Mendes, consagrado literato e presidente da direcção da instituição, e de Fernando J. B. Martinho, ilustre académico e regiano portalegrense.

Para além das excelentes intervenções destes membros da mesa que dirigiu o evento, o mote previamente sugerido revelou-se bastante adequado aos objectivos da homenagem evocativa. Com efeito, aconteceram momentos de rara emoção e profundo significado.

Enquanto Luís Machado disse com sentida naturalidade o Cântico Negro, José Manuel Mendes assentou as suas palavras na Balada de Coimbra. Quanto a Fernando Martinho, é sempre um raro encanto ouvi-lo acerca do estreito convívio que por muitos anos travou com Régio, em Portalegre. Também soaram na sala as estrofes da Toada e alguns sonetos dos mais conhecidos entre a produção regiana, a par de obras menos citadas e nem por isso de menor interesse, bem pelo contrário. A prosa romanesca foi menos lembrada, e a dramaturgia ou o ensaio, a crítica assim como os textos cívicos e políticos tiveram lugar mais discreto. Como aliás seria lógico e natural dadas as características de evocação.

Creio que o modelo expressa e previamente apresentado –Traga um texto de Régio e leia-o connosco– funcionou na perfeição. O apoio da Antena 1 e do Município da capital justificaram-se em absoluto. O auditório, que preencheu os lugares disponíveis, manifestou totais interesse e agrado.

Pessoalmente, enfrentando os rigores de um dia imprevisível, a distância e algum cansaço, acho que tudo valeu a pena. Conviver com o Fernando, um velho e firme amigo de há uns bons 75 anos, é sempre a garantia de momentos de gratas lembranças, onde a comum “militância” no incontornável Amicitia é ponto de reencontro. Houve outra interessante e oportuna “coincidência”, porque tinha levado comigo um exemplar ainda sobrante do número especial de A Cidade – Revista Cultural de Portalegre dedicado aos 15 anos da morte de José Régio, em 1984.

Acontece que, entre a variada e qualificada colaboração dessa “antologia” hoje clássica devida ao labor da equipa onde apenas “secretariei” António Ventura e Aurélio Bentes, se contam textos de mim próprio, de Fernando Martinho e de José Manuel Mendes. Este, trinta e cinco anos depois, nem sequer tinha visto o volume!

Ficou por isso encantado com a oferta que lhe pude fazer.

A participação pessoal no evento foi distinta de todas as demais, muito menos “literária”, muito mais “vulgar” e personalizada.  O texto de Régio que levei comigo e que li foi o do original da carta dirigida ao seu irmão Júlio, em Évora, pedindo-lhe apoio para o jovem de 16 anos que, por finais de 1955, ali começaria a frequentar a Escola do Magistério Primário. Revelei assim o lado humano, generoso e solidário, do excepcional criador.

Pelo que recebi e pelo que dei -repito- bem valeu a pena.

E, quanto à imensa dívida de gratidão que tenho por José Régio, paguei apenas uns simbólicos juros…

Evocação de José Régio em Coimbra

Evocação de José Régio em Coimbra

O cinquentenário da morte de José Régio vai ser evocado, até Dezembro de 2020, com a reedição de 15 obras do escritor, entre outras iniciativas, foi em 27 de Setembro do ano passado anunciado em Coimbra.

Trata-se de um projecto que resulta da cooperação entre o Ministério da Cultura, aquelas direcções regionais, as câmaras municipais e o Centro de Estudos Regianos e da Universidade de Coimbra (UC).

O programa de evocação dos 50 anos do falecimento do escritor, que nasceu em Vila do Conde, estudou em Coimbra e viveu em Portalegre, envolve o Ministério da Cultura, as direcções regionais de Cultura do Norte, do Centro e do Alentejo, as câmaras daquelas três cidades, a Universidade de Coimbra, o Centro de Estudos Regianos (de Vila do Conde), e integra diversas outras iniciativas, “de cariz nacional e local”.

Exposições, espectáculos, conferências e actividades de rua e com envolvimento da comunidade educativa são algumas das iniciativas do programa que, até Dezembro de 2020, faz a evocação da vida e obra do romancista, novelista, contista, poeta, dramaturgo, ensaísta, cronista, crítico, memorialista e historiador da literatura, oportunamente revelado, em Coimbra, durante uma conferência de imprensa.

Percorrendo “terras de afeição” de Régio, “o vasto e multifacetado” programa pretende “evocar a memória e ampliar o reconhecimento desta figura ímpar da cultura portuguesa”, sublinhou a directora regional de Cultura do Centro, Susana Menezes.

Entre as iniciativas promovidas pela UC, para preservar a memória do autor, destaque para a exposição temática documental, em 2020, para visitar a figura de Régio, essencialmente a partir do espólio à guarda da Biblioteca Geral da Universidade, referiu o vice-reitor Delfim Leão.

Mas “a evocação [do homem, escritor e ensaísta] não se esgota naquilo que já existe”, estando, o Centro de Literatura Portuguesa (Faculdade de Letras de Coimbra) a organizar uma Jornada Regiana, para visitar, “recolocar, dar uma centralidade renovada ao autor”, que tem estado afastado dos interesses dos leitores, acrescentou o vice-reitor da UC.

José Régio é património do País, mas também de Coimbra, sustentou a vereadora da Câmara de Coimbra Carina Gomes, salientando que o programa evocativo do homenageado, organizado pelo município, se apoia essencialmente na sua ligação à cidade.

Um espectáculo de canção de Coimbra, em Maio de 2020, na Baixa histórica da cidade, durante o qual será interpretado o “Fado português”, com letra de José Régio, que foi gravado por Amália Rodrigues em 1965 e por Dulce Pontes em 1996, é uma das iniciativas agendadas.

“Fado português” partilha dos “traços marcantes” da poesia de Régio, evidenciando “uma faceta trágica e expressionista que, por momentos, atinge algum paroxismo. O sujeito lírico revela-se sensível à tragédia de tipos sociais e humanos afligidos por uma chaga moral, um fado, e que não vislumbram nem encontram qualquer oportunidade social de se realizarem”.

Uma visita guiada a espaços exteriores que evocam, em Coimbra, o escritor, o professor e o homem dedicado às artes, e que “deixou um legado inigualável”, é outro dos projectos integrados no programa promovido pela Câmara de Coimbra, para homenagear este nome de “grande importância para a literatura em Portugal”.

Régio “traduz o ambiente pleno de mudanças e revoltas, marcando o segundo modernismo português, espelhado na revista Presença” (publicação da qual foi editor e diretor).

Das 15 obras a reeditar, genericamente não disponíveis no mercado (a não ser em alfarrabistas ou fundos bibliográficos), constam, designadamente, “Há mais mundos” (Grande Prémio da Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores, 1963), “Confissão de um homem religioso” e “Textos políticos”, “O Príncipe com orelhas de burro”, “Três ensaios sobre arte” e “50 Poemas”.

“Biografia de José Régio”, de Eugénio Lisboa, e das antologias “Páginas escolhidas da Presença” e “Pensamento de José Régio sobre arte, literatura e religião” são também outras edições agora anunciadas.

As obras são reeditadas pelos municípios de Vila do Conde, de Coimbra e de Portalegre (cinco títulos cada um), em parceria com a editora Opera Omnia (detentora da maior parte dos direitos sobra a obra de Régio).

Nome literário de José Maria dos Reis Pereira, José Régio nasceu (1901) e morreu (1969) em Vila do Conde. Licenciou-se em Coimbra, em Filologia Românica, com a tese “As correntes e as individualidades na Moderna Poesia Portuguesa”, trabalho no qual foi feita, pela primeira vez, a apologia dos poetas da revista Orpheu.

Foi professor em Portalegre durante mais de 30 anos.