TOADA DE PORTALEGRE – José Régio por Ricardo Ribeiro

Há cerca de um ano, em 26 e 28 de Novembro de 2016, coloquei neste blog duas notas sobre um espectáculo musical que decorria em Lisboa.

Foi no Teatro Municipal São Luiz, de 24 a 26 Novembro de 2016, que se ouviu a Toada de Portalegre de José Régio, evento inserido na comemoração do 5º Aniversário do Fado como Património da Humanidade. Assim, na Sala Luis Miguel Cintra, com música original do compositor Rabih Abou-Khalil, canto por Ricardo Ribeiro e percussão de Jarrod Cagwin, a Orquestra Metropolitana de Lisboa foi dirigida pelo maestro Jan Wierzba numa original interpretação da imortal obra poética de José Régio.

Não pude deslocar-me por essa altura a Lisboa, como gostaria, pelo que fiquei aguardando, em vão, uma natural edição discográfica do concerto. Acontece que a RTP 2 retransmitiu mais tarde um seu registo, facto que não foi do meu conhecimento. Felizmente, alguém mais atento teve a generosidade de aproveitar o universalista instrumento cultural que é o Youtube para divulgar tal gravação.

É possível, assim, aqui partilhar o invulgar evento que concretizou um anunciado sonho de Ricardo Ribeiro, uma autêntica e bem vincada personalidade do canto nacional.

Valeu a pena esperar tanto tempo para podermos agora desfrutar daquela que jugo ser a mais original interpretação do magistral poema de José Régio. Da clássica e hoje histórica declamação de Villaret, curiosamente também no mesmo São Luiz nos anos 70, chega-se hoje ao inspirado canto de Ricardo Ribeiro, que certamente o autor gostaria de ouvir…

Sem mais, nos próximos e encantados setenta minutos, aqui ficam os sons “arábicos” de uma canção invulgar, por onde perpassa a saudade imensa da terra distante e do seu imortal poeta…

Presença de Régio em Lisboa

Há 16 anos, em 2001, a Imprensa Nacional/Casa da Moeda e a Câmara Municipal de Vila do Conde patrocinaram a edição do volume da autoria de Isabel Cadete Novais intitulado José Régio – Itinerário Fotobiográfico. Profusamente ilustrado, como o próprio título sugere, contém cerca de três centenas e meia de reproduções de fotografias e documentos.

Uma cronologia abreviada, outra comparada e a bibliografia activa, incluindo colaboração regiana dispersa, constituem o essencial dessa obra de referência, precioso manancial de informações sobre a vida e a produção de José Régio.

Agora, uma década e meia após tão oportuna como valiosa edição, surge José Régio – Percursos e Discursos de uma Vida, que constitui uma sua reformulação.

Este novo Itinerário Fotobiográfico revela-nos um trabalho ainda mais perfeito e eficaz, quer em termos de conteúdo quer, sobretudo, nos aspectos formais. Segue um modelo de que considero marcante a hoje histórica edição da revista Colóquio Letras, da Fundação Gulbenkian, dedicada a David Mourão-Ferreira. Esse grosso volume de 500 páginas, Infinito Pessoal, publicado em Julho-Dezembro de 1997, era tão rico nos textos como em ilustrações, nas fotografias e na variada documentação em encartes fac-similados. Uma completíssima bibliogafia activa do escritor completava esse notável trabalho.

Mantendo a linha da edição original, a autora do Itinerário Fotobiográfico de José Régio trouxe-lhe agora uma mais-valia, tanto no belo prefácio, original, assinado por Miguel Real, como na recordação do escrito por Eugénio Lisboa em 2001, O Mundo de Régio. Manteve a Cronologia Abreviada bem como o enquadramento do contexto nacional e internacional do ano de nascimento do poeta. Depois, ao longo da obra, faz desfilar pelos nossos olhos e espírito as imagens de Régio e do seu progressivo envolvimento humano, social, cultural, epistolar e até “paisagístico”, num relato onde o texto, sumário e explícito q.b., se entrelaça à documentação, muito variada e de rara qualidade e oportunidade interventiva.

Com toda a compreensão pelo trabalho, certamente doloroso e “cirúrgico” a que a autora teve de se entregar na sua missão de “seleccionadora”, devo apontar aquela que me parece uma falha: a omissão da fotografia constante da primeira edição, onde José Régio se encontra de braço dado, entre Florindo Madeira e Ernesto de Oliveira, nos anos 60. A falta de qualquer referência ao seu antigo aluno, o jurista e cineasta Ernesto de Oliveira, autor do “clássico” documentário Os Habitantes de Aquela Casa afigura-se-me injusta. Também referiria o eventual interesse de uma outra, menos conhecida, com Régio num passeio pelos arredores de Portalegre, em companhia dos amigos Padre João Saraiva Diogo e Dr. João Tavares, seu colega no Liceu, com quem teve brilhante e repetida cooperação na elaboração de artísticas tapeçarias locais. Numa desejável terceira edição, talvez a ilustre autora queira levar esta modesta e bem intencionada “crítica” em consideração… É que tanto Ernesto de Oliveira como João Tavares são figuras absolutamente incontornáveis no “percurso e discurso” de José Régio em Portalegre.

O lançamento da obra em Lisboa, no passado dia 6, teve um digno envolvimento. Apresentada pelo consagrado regiano que é o Professor Doutor Fernando J. B. Martinho, aconteceu na Escola Secundária Pedro Nunes, de firmadas tradições pedagógica e cultural. Os jovens que encheram o espaço do colóquio, na biblioteca da escola, tiveram certamente um inesquecível contacto com a vida e obra de um dos mais notáveis vultos da nossa cultura contemporânea. Foi pena que, pela imposição dos horários escolares e pelas dificuldades técnicas da projecção, não tivesse havido tempo ou condições para nos ter sido proporcionado o integral testemunho da Dr.ª Isabel Novais, através do qual poderíamos ter “recapitulado” a presença e a voz do saudoso professor liceal que foi o Dr. José Maria dos Reis Pereira…

Para além de professores da Escola Pedro Nunes, nomeadamente a sua presidente do Conselho Directivo, e outras personalidades presentes, encontrámo-nos ali  quatro “lagóias”, incluindo o Fernando Martinho: Florindo Madeira, “Tito” Costa Santos e eu próprio. José Régio continua a dispor de um justo e muito especial poder de atracção junto daqueles que com ele conviveram.

A notável sessão teve como complemento a disponibilidade da magnífica e oportuna exposição O que foi a presença? Uma leitura a 90 anos de distância, patente na Sala Nónio da escola.

Realização do Centro de Estudos Regianos de Vila do Conde, a mostra dispôs do competente trabalho de concepção, pesquisa e selecção bibliográfica e iconográfica de Ana Isabel Turíbio, Isabel Cadete Novais e Manuela Laranjeira, com a colaboração de Carlos Pontes.

Em 16 grandes painéis verticais podemos tomar contacto com uma completa retrospectiva das manifestações artísticas ocorridas entre nós na primeira metade do século XX, assim como com o enquadramento da revista, suas origens, desenvolvimento, evolução e termo.

A forma didáctica da sua organização sequencial é bem conseguida, revelando páginas antológicas da revista, tais como depoimentos, textos críticos, manuscritos, provas tipográficas e ainda fotografias dos protagonistas e de locais, pinturas, capas, ilustrações, enfim uma panóplia de informação criteriosamente preparada para uma fácil e lógica apreensão. O catálogo, elaborado com bom gosto e eficácia, constitui um magnífico prolongamento da exposição.

Uma nota que registo com particular agrado: o facto de tanto na obra literária como no catálogo ter sido explicitamente destacado o desprezo das autoras pelo “moderno” acordo ortográfico. Se alguma outra prova de qualidade fizesse falta, esta lúcida e inteligente determinação seria bastante.

Foi portanto um momento de alto nível, o vivido em Lisboa, com uma próxima reedição prevista para Portalegre, no dia 16 do corrente.

Espero que os nossos conterrâneos possam aproveitar plenamente esta oportunidade para melhor conhecerem o invulgar património que José Régio significa, nesta sua partilha entre Vila do Conde e Portalegre, com passagem por Coimbra e pelo Porto, em densas e úteis vida e obra agora evocadas.

Com o relativo distanciamento de António Ventura de Portalegre e o prolongado estado de “coma” do Centro de Estudos Regianos local, a chama de Régio está ali confinada a Maria José Maçãs e seus mais próximos colaboradores.

Que este próximo reencontro que a embaixada e a mensagem vilacondenses vão proporcionar na cidade onde Régio mais viveu, sofreu e criou possa constituir um renovado incentivo para que a memória do poeta da imortal Toada possa ali “ressuscitar”.

É que em 2019, já amanhã, passarão 50 anos sobre a morte física de José Régio. Convém pensar nisso com tempo…

                                                                          António Martinó de Azevedo Coutinho

Régio no Alentejano

Café Alentejano acolhe tertúlia inspirada em José Régio

O Café Alentejano acolhe, dia três de Novembro, pelas 16h30, uma Tertúlia com o tema “A obra de José Régio – uma não escolha para professores”.

Organizada pela Câmara Municipal de Portalegre e com a moderação de Adriano Bailadeira, do Teatro do Convento, a tertúlia inspira-se nos tempos áureos, em que José Régio e alguns amigos se juntavam, por vezes, neste célebre café de Portalegre.

José Maria dos Reis Pereira (José Régio) chegou a Portalegre em 1929, para ocupar vaga de professor efectivo do Liceu de Portalegre. Primeiro alugando um quarto na Pensão 21, depois passando para um seu anexo, aqui permaneceu durante 33 anos até à sua reforma.

O silêncio e algum isolamento permitiram-lhe a actividade da escrita (ensaios, crítica, teatro, poesia…). Por oposição à “literatice” reinante, defendia uma “literatura viva”, capaz de fazer pensar, relacionar, enfim, criar um espírito crítico de cidadania. Por estas razões, a análise da obra de Régio é aconselhada nos programas oficiais de Português mas poucas vezes é seleccionada para estudo pelos professores.

A entrada é livre e aberta a todos que queiram participar.