Um Arquitecto do Futuro

Há mais de quatro anos e meio publiquei neste blog um texto intitulado Um Arquitecto do Futuro, complementado pelo magnífico artigo do professor Viriato Soromenho-Maques que dispunha daquele título, por mim “usurpado” na ocasião. Foi em 30 de Abril de 2013 e recordo agora a sua premente actualidade, no pretexto que nos é concedido pela justíssima, embora tardia, homenagem pública agora atribuída a Gonçalo Ribeiro Telles.
Aqui deixo, repetido, o meu modesto mas sentido preito de gratidão a um grande português.

 UM ARQUITECTO DO FUTURO

Há semanas, o arq.º Gonçalo Ribeiro Telles recebeu a mais importante distinção internacional no campo da arquitectura paisagista, o Prémio Sir Geoffrey Jellicoe, considerado o Nobel desta área.

A vida e obra do arq.º Ribeiro Telles constituem uma permanente lição de qualidade e de coerência. Desde a sua formação no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, tornou-se assistente nessa escola e, mais tarde, professor catedrático na Universidade de Évora, onde criou as licenciaturas em Arquitectura Paisagista e Engenharia Biofísica.

Membro da Juventude Agrária e Rural Católica, aí se iniciou nos domínios da política, militância depois reforçando no Centro Nacional de Cultura. Apoiou a candidatura presidencial de Humberto Delgado em 1958.

A quando das trágicas cheias na Grande Lisboa, em 1967, denunciou publica e corajosamente as políticas de solos e de urbanização que então provocaram centenas de mortos.

Depois de ter contribuído para a fundação do Movimento de Convergência Monárquica, em 1971, logo após a Revolução de Abril integrou o novo Partido Popular Democrático, que ajudou a criar. Foi subsecretário de Estado do Ambiente nos três primeiros Governos Provisórios e secretário de Estado dessa pasta no I Governo Constitucional. Cumpriu depois três legislaturas na Assembleia da República, como deputado monárquico.

Voltando ao Governo, o VIII Constitucional, como ministro de Estado e da Qualidade de Vida, teve uma acção preponderante, ao criar as zonas protegidas da Reserva Agrícola Nacional e da Reserva Ecológica Nacional, lançando também as bases para os Plano Directores Municipais. Mais tarde, fundou o Movimento do Partido da Terra, do qual é presidente honorário, desde 2007.

São notáveis algumas das suas obras, nas quais avultam os jardins da Fundação Calouste Gulbenkian (em parceria com António Viana Barreto) e o Corredor Verde de Monsanto, há pouco concluído.

Entre as diversas distinções recebidas, conta-se a Grã-Cruz da Ordem de Cristo, atribuída em 1994.

 

Quando um dia se fizer a história audiovisual de Portalegre, isto é, se um dia se pretender avaliar com rigor e com isenção o que foi a gesta de iniciativas destinada a dotar aquela cidade da oportunidade de se tornar a capital nacional desta modalidade comunicativa, se tal acontecer talvez se possa entender o que foi o Ambiente – Encontros Internacionais e Imagem e Som do Norte Alentejano.

Iniciativa do presidente da Região de Turismo de São Mamede, António José Ceia da Silva, produziu em Portalegre sete edições internacionais, entre 1998 e 2007, e integrou uma organização federativa –Ecomove– com estruturas similares da Alemanha, Eslováquia, Rússia, Japão e República Checa, tendo participado em conjunto em Festivais ambientais em Berlim (Alemanha, 2001 e 2003), Joanesburgo (África do Sul, 2002) e Aichi (Japão, 2005). Aí fomos dignos “embaixadores” de Portalegre.

Remando contra a maré da indiferença na sua própria terra, onde poucas mas seguras alianças conseguiu (a Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Portalegre e quase todas as escolas do Ensino Básico e Secundário do Distrito, entre estas), o Festival  assumiu a organização de diversas actividades culturais e recreativas, como concursos, ciclos conferências, exposições, cursos de formação, projecções e debates. Também homenageou figuras nacionais de relevo nos domínios ambiental e comunicacional, entre as quais se contou o arq.º Gonçalo Ribeiro Telles.

Foi em 2003, durante o 6.º Festival. Lembro-me das dificuldades que encontrámos em convencê-lo a aceitar aquela sincera, embora modesta, distinção na sua digna genuinidade, que lhe queríamos atribuir, numa lista que já tinha contado com outras notáveis personalidades como Correia da Cunha, João Evangelista, Almeida Fernandes ou Hélder Mendes. Só quando lhe revelámos que o seu colega e biógrafo arq. Fernando Pessoa, um amigo pessoal de sempre, tinha gostosamente aceitado proferir a “oração de sapiência” do acto, ele decidiu responder positivamente ao nosso convite.

A presença de Ribeiro Telles em Portalegre não constituiu uma mera passagem de circunstância. A sua adesão à iniciativa foi total e muito significativa. Na tarde do dia 16 de Novembro de 2003, nas instalações do Museu da Tapeçaria, onde estava patente uma exposição sobre a sua obra técnica de arquitectura paisagística, com maquetas, desenhos, estudos e fotografias, Gonçalo Ribeiro Telles encantou e inquietou todos os presentes com uma dissertação baseada no tema “É preciso salvar o interior em nome do País”. Aí foi convicto e convincente, acusando, denunciando, criticando, propondo e exigindo medidas de salvação ambiental. Como sempre…

Esta breve evocação, para situar a verdadeira e actual dimensão deste lúcido e combativo cidadão, será completada com um recente e notável texto que Viriato Soromenho-Marques (outro nome do Festival Ambiente!) publicou no Diário de Notícias do passado dia  16 de Abril. Um arquitecto do futuro (título que “roubei” para esta crónica) é a seguir reproduzido, com a devida vénia para com o jornal e o autor, mais um renovado abraço de admiração para este.

É a mais adequada forma de prolongar a justa homenagem a essa invulgar figura de “português de grei e de lei” que é Gonçalo Ribeiro Telles.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

 Um arquitecto do futuro

A atribuição do maior prémio internacional da arquitectura paisagista a Gonçalo Ribeiro Telles é um raio de luz nestes tempos de sombra. Trata-se de um grande cidadão, que antes e depois do 25 de Abril contribuiu para civilizar o País nos valores da compreensão e do respeito pela paisagem, pelos adequados usos do solo, pela integração do ambiente em todas as áreas de intervenção do Estado e da sociedade civil. Contra a resistência de interesses particulares e visões mesquinhas, a sua acção integra, para além de iniciativas no domínio da conservação da natureza, as leis sobre a Reserva Agrícola Nacional (RAN), a Reserva Ecológica Nacional (REN), diferentes projectos de lei sobre baldios e florestação, assim como a coautoria da Lei de Bases do Ambiente. Ribeiro Telles representa também a influência marcante que a universidade pode e deve desempenhar na definição de boas políticas públicas, fundadas no conhecimento e na procura do bem comum. Mais do que nunca o ensinamento e o exemplo de Ribeiro Telles se erguem na sua inteira validade e no seu verdadeiro vigor. Passámos o tempo em que a nossa pátria era um lugar natal, que julgávamos seguro e garantido. Hoje, não é só o nosso futuro como indivíduos que está colocado na linha de mira de uma catástrofe histórica. Hoje, é o próprio país que está em causa. Mais do que nunca, o apelo do arquitecto para uma nação capaz de se erguer a partir das suas próprias forças, num esclarecido regressar à terra (incluindo a “terra líquida” que é o mar), mostra a sua plena validade. Para podermos merecer o futuro.

Viriato Soromenho-Marques
Professor universitário
in Diário de Notícias, 16 de Abril de 2013

pavana para uma gaivota defunta

uma gaivota voava voava asas de vento coração de mar
entretanto a areia torna-se pedra de onde brota a centelha transformada em carne viva

confusa entre canções talvez fosse aí que te perdeste
a liberdade é assim ou devia ter sido na voz dos poetas
que a cantam e tu acreditaste neles
quando fechaste as asas para atravessares a limpidez dos céus
a pique
e paraste no asfalto
onde os sonhos fazem parte do passado
e tu afinal até procuravas o futuro
não mais podes acreditar na poesia
porque ela proclama os impossíveis
perto é um lugar que não existe
e felicidade uma ilusão que nunca se atinge
jonathan livingston seagull é uma treta
mas tu até dispensas o trabalho de aprender
porque já não há lições grátis
asas de morte olhos cerrados coração parado
só se vive uma vez em cada vida
e de cada vez
o céu fica mesmo ali em cima
o mar nem sequer é longe
e tu ficaste no meio de nada

para sempre

Portalegre

Saudando a Presidente reeleita, pela coragem e determinação reveladas, assim como o Vereador da CDU, pela sua persistência e lucidez, realço o maior apreço pela condição lagóia que os une, manifestando total solidariedade para com a rejeição claramente manifestada pelos portalegrenses, meus conterrâneos, quanto à demagogia representada pelos candidatos estrangeiros.

Notícias rápidas de Inverness

Depois da breve recuperação da prova de manhã partimos para o Norte da Escócia. Só agora, no regresso, posso dar conta muito breve do acontecido. Foi uma prova com traçado normal, subidas e descidas não muito  acentuadas e planos, corrida com frio suportável e alguns momentos de chuva por vezes forte, enfim, o tempo normal para estes sítios nesta altura do ano. Eram um pouco mais de 3.000 participantes e eu fiquei no lugar 1.564, número 700 entre os homens e em 7 na minha categoria de +70. Fiz o tempo de  1h 8m 24s, menos 10 minutos que o meu habitual mais recente. Enfim, no meio da tabela… Não deixei os pergaminhos do Peniche a Correr por mãos alheias e os meus “treinadores” estão de parabéns. No regresso, daqui a dois ou três dias, acrescento mais pormenores sobre esta autêntica festa do Desporto.