CARTA ABERTA, SEM SÊ-LO, AO MEU CONDISCÍPULO JOAQUIM

Caro Joaquim

Estou numa permanente dívida de gratidão, todos os dias acrescida, para contigo. Já parece o nosso défice orçamental sem fim à vista…

Meu velho companheiro dos bancos da saudosa escola no Largo da Sé, em Portalegre, não te limitas a ler os meus textos, quando isso só por si já deveria merecer o minha estima, porque escrevo e publico precisamente para ser lido. Caso contrário, entretinha-me com um diário íntimo, guardado a sete chaves.

Mas vais mais longe e tornaste-te o comentador -quase oficial- dos meus escritos. Isto não significa necessariamente o teu acordo, porque pensas pela própria cabeça e não pela minha. Como convém. Por outro lado, sobretudo na recensão que faço pela imprensa que leio, nem sempre escolho e reproduzo aquilo que é do meu agrado, seleccionando por vezes o que me choca e de que discordo. É importante -assim o penso e pratico- confrontarmo-nos com o provocatório. O exercício da liberdade também passa por aí.

Voltando aos teus comentários, acho com absoluta sinceridade que valorizam imenso o meu labor. A forma sumária e judiciosa com que pontuas o que exibo, quer pessoal quer alheio, representa uma apreciável mais-valia, uma opinião que concede colorido e amplia a percepção, por vezes apenas individualizada, dos conceitos expostos. Aperfeiçoa-se assim a cadeia comunicacional, sendo-me fornecido um retorno que afina os meus próprios critérios. Sou inclinado por natureza à especulação, pelo que a tua tendência mais técnica e rigorosa me é particularmente útil.

Obrigado, Joaquim.

Também leio o que escreves no teu, e nosso, Luar de Janeiro. Apenas não sou dado à réplica. Quero hoje abrir uma excepção, grata na memória dos tempos vividos em conjunto.

Há dias, numa alusão a facto determinante no nosso passado enquanto Nação -a Restauração- tu lembravas o que muitos já esqueceram ou -ainda pior- que nunca souberam. Citaste de memória um texto da nossa comum escolaridade, quando a História era filtrada por critérios hoje contestados pelos politicamente correctos. Enfim, creio que aquela prudente dose de nacionalismo nunca nos radicalizou e, no mínimo, criou-nos um sentimento de orgulho pelo passado, alimentando um estatuto identitário que nos ligava à Pátria.

Procurei nos meus arquivos os nossos livros desses tempos. Entre os milhares de exemplares que conservo nem sempre é fácil encontrar o que se busca e falharam-me os livros de leitura das 3.ª e 4.ª classes. Mas descobri o nosso manual de História, denominado Sumário…

Lá está, como bem dizias e pela ordem certa: o dia e a hora, os conjurados, o local e a acção com as personagens, a duquesa e o secretário, por fim a aclamação. Uma perfeita reconstituição que a nossa memória guardou, ainda que “seriamente” perturbada -segundo alguns modernos pedagogos- pelos excessos das datas das descobertas, dos nautas e dos sítios, dos rios mais os afluentes das margens esquerda e direita, das linhas de caminho-de-ferro (ainda havia comboios e circulavam!) com estações e apeadeiros, até mesmo das preposições e dos advérbios por rigorosa e obrigatória ordem alfabética…

Sobrevivemos, Joaquim, para dar razão e testemunho dos dias passados com malta de pé descalço e barriga muitas vezes vazia, sob o atento e protector olhar da senhora Sofia.

Obrigado, Joaquim, e que me comentes por alguns tempos ainda, aqueles que a nossa capacidade de escrita conseguir manter. Aqui somos diferentes, porque tu, tecnologicamente (eu entendo!) te deixaste converter às novas doutrinas ortográficas, enquanto eu me mantive e manterei fiel ao que sempre pratiquei.

Mas não será por aqui que nos vamos desentender. Escreve como quiseres mas continua a comentar os meus escritos, por favor. Preciso da tua crítica, como preciso de ti e da tua amizade certa.

Um abraço forte e amigo, como há setenta e tal anos, do

António