SE

SE

Com especial dedicatória a Rudyard Kipling,
autor imortal de If e Prémio Nobel da Literatura(1907) , e também a todos aqueles que ainda acreditam, apesar de tudo, que a cada Sexta Feira de Paixão, mesmo sendo dia 13, sucede sempre uma radiosa Ressurreição.

 

Se tu podes manter a serenidade, quando todos aqueles
Que estão ao pé de ti já há muito a perderam e criticam
A tua coerência a que chamam pessimismo.

Se sabes guardar, sem a revelares, alguma reserva de esperança
Onde todos a vão esquecendo e até privas com chefes e presidentes
Sem dobrares a espinha que tantos já curvaram mais a pança.
Se achas que revoluções a sério não se fazem todos os dias
E que a liberdade vale mais no coração do que nos textos;
Se com brandura ou fúria por igual respondes,
Sem aparentares bondade ingénua e desmedido orgulho,
Nem do sábio imitando ou do tonto copiando
Utopias loucas, dúvidas sistemáticas e sãos discernimentos.

Se o tempo e o espaço não fizeram de ti escravo nem senhor,
Se a razão do pensamento não transparece ainda em ti turvada
Nem pelo contrário, e por excesso, iluminada.

Se encaras a vitória ou a derrota (e até o empate)
Serenamente lúcido, vacilando q.b. e apenas isso,
Se confias nas listas de espera dos hospitais
Sem antes morreres ou desistires,
E se crês na justiça destes homens a seus iguais,
Na douta competência dos doutores
E dos construtores de estradas e de pontes,
Nos radares da polícia e na perícia dos nossos condutores
E ainda sobrevives.

Se pagas com um sorriso os impostos e as multas,
Se perdes tudo numa global falência
Mas voltas sem um pio ao princípio de todas as coisas
E logo crês que estás seguro e és livre e que acreditam em ti,
Apesar de nunca dispores do cartão certo
E com as quotas em dia (não te esqueças!),
Porque assim nem a boy chegas
Pois as cunhas são fascistas e mais do que provas e outras meças
Apenas conta a fidelidade e quanto mais cega melhor.

Se não acreditas nas receitas do milagre garantido
Pelas salas do chuto, mas também do copo, da bucha
E do fumo (por que não?) que todo o vício merece por igual ser tratado.
A Democracia não pode ter sempre as vistas curtas
Que por nós brandamente vela a Europa, aqui ao lado.
Se podes preencher cada minuto que o Big Brother te deixa livre
Com sessenta segundos de algum regresso à terra firme
E ainda podes respirar e pensar no resto da vida, a verdadeira,
Se então desprezas o próximo crédito e a próxima promoção
E vais ler o último livro de versos e vais ouvir a última canção. 

Se não desistes de lutar mesmo sendo um Dom Quixote, puro,
Embora em vez de doces miragens haja aqui Poder, e duro
(Quem se mete com o PS leva – J. Coelho assim jurou um dia).
Se ainda acreditas em valores antigos e lhes sopras a poeira ao léu
Então consegues distintamente ouvir: – Era uma vez…

Por isso, abençoadas sejam a tua loucura e a tua rebeldia,
Que o Portugal eterno, meu filho, será teu,
E tu serás ainda e sempre um Português!

Versão (ainda) pessoal e livre do poema If de Rudyard Kipling