1918 – Há Cem Anos – oitenta e quatro

1 de Julho – “França. Do meu requerimento, ainda nada. Hoje, para me distrair, fui dar um grande passeio de que muito gostei e assisti à inauguração de um Club e escola“.

2 de Julho – “França. Faz hoje 17 meses que cheguei a França pela 1.ª vez, e nunca me senti tão aborrecido e desanimado como actualmente. Ainda não chegou a solução ao meu requerimento“.

3 de Julho – “França. Continuo aguardando a solução do meu requerimento. Com tanta demora, vou perdendo um pouco a esperança de retirar“.

5 de Julho – “França. Já me vai dando bastante cuidado o não receber correspondência tua e de casa. Assim como recebo jornais, também poderia receber o resto, se me escrevessem. Estou aguardando ordens“.

6 de Julho – “França. Ainda não veio resposta ao meu requerimento. Já vai demorando bastante“.

7 de Julho – “França. Cada vez estranho mais o não receber correspondência tua. Hoje fui dar um grande passeio de automóvel. Ainda nada veio relativamente à minha retirada para Portugal“.

Estes regulares passeios de automóvel permitem, de certo modo, reconstituir os percursos do capitão José Cândido Martinó por terras francesas, sobretudo através dos postais ilustrados que ele sempre adquiria em todos os locais visitados. Pelas colecções que conservou é também possível conhecer um pouco da mentalidade social francesa patente nessa iconografia. Curiosamente, pelo confronto com a imagem nacional revelada por postais portalegrenses da mesma época, deduz-se uma notável semelhança, pois em ambas as sociedades urbanas se revela o particular gosto por uma certa pose colectiva.

Para memória futura…

8 de Julho – (dois postais) “França. Além de gerente de mess perpétuo também sou censor. Ontem à noite, quando estava desempenhando o meu ingrato papel de censor, fui obrigado a interromper tal servicinho, por 3 vezes, e os últimos vidros do meu quarto voaram.“;” Na ocasião em que procurava um pequeno abrigo, fui intimado a sair duma forma bastante singular. Nunca como desde que vim para França apreciei, nos devidos termos, o que é a boa camaradagem e o verdadeiro egoísmo!… Já quando da minha estada em Tancos, tinha tirado grandes ensinamentos; mas nunca como agora eu apreciei tal intimidade!…

Os sublinhados existem no original!

9 de Julho – “França. Hoje fiquei apenas com 2 músicos! Será conveniente que o Avozinho se informe com o Aspirante Pestana se eu já poderia passar a receber correspondência da minha família“.

10 de Julho – “França. Ainda nada de ordem para partir. Já vou estando outra vez bastante desanimado“.

Neste mesmo dia, em Portugal, é publicada a portaria que nomeia o novo comandante do C. E. P., o general alentejano Garcia Rosado.

11 de Julho – “França. Não compreendo a razão porque recebo jornais e não recebo correspondência tua ou de casa. Ainda não veio resposta ao meu requerimento. Requeri para remeterem para Portalegre as duas malas vazias e o arquivo“.

A prolongada ausência de notícias de casa, sobretudo da filha, agrava a angústia do pai…

A BD vista por Carlos Gonçalves – quarenta e seis

FERNANDO BENTO, UM CONTRIBUTO INESGOTÁVEL DE ARTE – II

OS SEUS TRABALHOS NA REVISTA “DIABRETE”

A grande reviravolta na sua vida artística dá-se a partir de 4 de Janeiro de 1941, quando se inicia como colaborador da revista “Diabrete” a partir do seu nº. 1, com a criação das suas personagens “”Béquinhas, Beiçudo e Barbaças”.

Depois é uma criação contínua nas páginas desta revista, onde se mantém durante uma década como desenhador de serviço, criando personagens e ocupando-se da parte gráfica da publicação, com principal incidência para as obras de Júlio Verne que passamos a destacar: “Dois Anos de Férias” (Diabrete nºs. 33/74); “Volta ao Mundo em 80 Dias” (Diabrete nºs. 75/100); “Miguel Strogoff” (Diabrete nºs. 101/138); “Robur, O Conquistador” (Diabrete nºs. 139/161); “Viagem ao Centro da Terra” (Diabrete nºs. 187/216); “Da Terra À Lua” (Diabrete nºs. 217/236); “À Roda da Lua” (Diabrete nºs. 237/256); “Um Herói de Quinze Anos” (Diabrete nºs. 257/311); “Cinco Semanas em Balão” (Diabrete nºs. 312/356); “Vinte Mil Léguas Submarinas” (Diabrete nºs. 415/357/415); “A Ilha Misteriosa” (Diabrete nºs. 416/510) e “Matias Sandorf” (Diabrete nºs. 512/644).

Doze obras estavam pois adaptadas à banda desenhada em mais de 500 páginas e capas. Mais tarde começa a adaptar obras infantis para a revista e a contar as vidas de figuras históricas portuguesas, destacando os seus feitos de forma inesquecível. Ao mesmo tempo criava várias personagens, “Zuca”, “Zé Quitolas”,”Bicudo e Bochechas”, etc., todas elas em paralelo com as suas actividades profissionais. E ainda desenhava as “Mil e Uma Noites”…    

A SUA PRODUÇÃO NA REVISTA “CAVALEIRO ANDANTE”

Mas seria no “Cavaleiro Andante” que o seu apogeu se verifica, devido às grandes obras que viria a criar para as páginas da publicação. Algumas serão sempre inesquecíveis, tais como “Quintino Durward”, “Beau Geste”, talvez a mais significativa, “O Anel da Rainha de Sabá” e “A Ilha do Tesouro”. Nesta publicação as adaptações da obra de Júlio Verne continua a encantá-lo, pois “Uma Cidade Flutuante” (Cavaleiro Andante nº. 253/289), irá divertir os leitores.

Outra adaptação de interesse será a das aventuras de “Emílio e os Detectives”, seguindo-se os lindos quadros que nos deixou nas páginas da “Cavaleiro Andante” evocando “Os Lusíadas” de Camões na comemoração do dia do poeta. Algumas das suas obras viriam a ser mais tarde publicadas em álbum: “34 Macacos e Eu”, Diabruras da Prima Zuca”, “A Ilha do Tesouro” (uma edição pelas Iniciativas Editoriais e outra pela Asa), “Um Campeão Chamado Joaquim Agostinho”, “As Mil e Uma Noites”, “Beau Geste”, “O Anel da Rainha de Sabá”, “Com a Espada e Com a Pena”, “O Regresso à Ilha do Tesouro”, “Béquinhas, Beiçudo e Barbaças”, etc..                    

OUTRAS PUBLICAÇÕES COM TRABALHOS DO DESENHADOR

Sempre que nos debruçamos sobre a vida de qualquer desenhador português e perante a vasta produção de cada um deles, sem esquecer que quase todos não puderam exercer em pleno a sua vocação a nível profissional, pois era necessário ter em paralelo um emprego fixo, perguntamos como era possível dedicar tanto tempo à banda desenhada, sem prejuízo de outras tarefas e da sua vida particular.

Mas na verdade assim acontecia e além das duas revistas principais em que Fernando Bento colaboraria de que já falámos, há outras onde o artista deixaria a sua arte indelével. A primeira será a “República – Secção Infantil”, suplemento infantil do jornal “A República” entre 1938 a 1939, “Pim-Pam-Pum”, suplemento infantil do jornal “O Século”, onde colaborou de 1941 a 1959, “Norte Infantil”, suplemento infantil do jornal “Diário do Norte”, com trabalhos seus de 1951/1952, revista “Mundo de Aventuras” em 1980, “Quadradinhos – Suplemento infantil do jornal “A Capital”, de 1980/1982, etc.. Depois há vários trabalhos esporádicos seus espalhados pelo “Bip-Bip”, “Nau Catrineta”, “O Pajem” (suplemento infantil do “Cavaleiro Andante”), livros infantis e outros, etc..

Estava pois cumprida uma missão inesquecível de um artista, que durante mais de 40 anos nos deixou ter acesso a obras excepcionais que nos acompanharam nos nossos períodos lúdicos.
                                                                                                             Carlos Gonçalves

seis = meia dúzia

Largo dos Correios, seis anos de vida, hoje cumpridos.

Nesta construção, laboriosa e longa, mantendo a possível coerência.
De Portalegre a Peniche, da montanha ao mar, mantendo a interioridade.
Do presente ao futuro, mantendo o passado.
Um dia de cada vez, até ao próximo, mantendo a esperança.

Acreditando na amizade e no amor.
E na saudade…