Memórias de José Lourenço Carvalho – 01

Por motivos familiares fiquei ligado a José Lourenço Carvalho, homem bom, professor competente e cidadão exemplar, que deixou uma aura de qualidade pessoal em Portalegre e por diversos motivos.

Servindo-me da sumária e interessante biografia que dele o amigo Aurélio Bentes colocou em Caras de Portalegre, a seguir reproduzida, destaco a riqueza do seu espólio, que nós (herdeiros materiais e sobretudo espirituais) estamos decididos a tratar devidamente, em sua justa homenagem.

Por exemplo, as colecções de bonecos etnográficos e de emblemas (alguns raros), as mais significativas, serão objecto -assim o pretendemos- de exposição pública itinerante depois de devidamente organizadas e tratadas, como merecem. Isso ainda vai levar, necessariamente, algum tempo.

Para já, e aludindo a outro tipo de recordações de José Lourenço Carvalho, há as fotografias de interesse colectivo, social e comunitário que juntou.

Aqui, regularmente, delas se dará conta, partilhando-as com os leitores, na expectativa de que estes lhes acrescentem uma mais valia em reconhecimento, identificação, eventual datação e outros contextos que as possam tornar memória viva da comunidade portalegrense e adequada documentação de uma época.

Hoje reproduzem-se duas fotografias, uma das quais já vi publicada por mais de uma vez, a datada de 1929. Figura, por exemplo, na interessante e bem documentada obra de Isilda Garraio Histórias da História – 125 anos da Escola Secundária de S. Lourenço em Portalegre. Este original está em mau estado, rasgado de alto a baixo e colado com evidentes falhas. Procurei retocá-lo o melhor que pude.

A outra fotografia -em bom estado- tem no verso, a lápis, a indicação Escola Industrial Portalegre 1927 e foi fixada, segundo tudo leva a crer, no pátio do antigo Liceu. O “corte” do grupo é do próprio original…

Aqui ficam, depois da sumária biografia que pedi “emprestada” ao amigo Aurélio Bentes.

 José Lourenço Carvalho

Filho de José Maria Carvalho e de Maria do Carmo Dias de Carvalho, nasceu em 15 de Março de 1915, na Rua 31 de Janeiro, em Portalegre. Faleceu no Hospital desta cidade em 18 de Janeiro de 2000. Era casado com Mariana da Conceição Boleta Ramalho Carvalho, ainda viva e quase centenária.
Com apenas 12 anos de idade, inicia-se na música e aos 19 anos constituía a Trupe Jazz “ Os Lisos”, onde tocava flauta e, mais tarde, acordeão, ao mesmo tempo que tirava o seu curso na Escola Industrial Fradesso da Silveira. Aos 24 anos emprega-se nesta Escola e pouco tempo depois é nomeado professor de Trabalhos Oficinais, lugar que ocupa até à sua aposentação, depois de 44 anos de serviço. Nesta altura foi alvo de grande homenagem por parte dos colegas, alunos e amigos que quiseram realçar as qualidades de bondade, saber, experiência e valor profissional, tendo-lhe sido oferecida uma peça de estanho com a inscrição “Um pouco a lembrar o muito que nos ensinou. Obrigado. A sua Escola. 21-06-1985“.
Pelos seus cursos técnico-profissionais de carpinteiro-marceneiro passaram dezenas de alunos que ainda hoje recordam com saudade o mestre que os preparou para a vida.
A sua habitação em Portalegre era um verdadeiro museu, onde tinha diversos móveis por ele executados nas horas livres, nomeadamente um contador de mogno estilo século XVIII, caixas de relógios, mesas e móveis para guardar as suas numerosas e diversificadas colecções: moedas, lápis de reclame, esferográficas, emblemas, calendários, etc.
A colecção de bonecos de madeira, com base etnográfica e folclórica, que produziu é de uma perfeição impressionante e rigorosa, sendo de realçar ainda o grande e artístico painel esculpido numa só peça de madeira que se encontra a decorar as paredes de uma casa bancária em Belmonte. Notabilizou-se em delicados trabalhos de restauro de móveis e, sobretudo, de peças de arte sacra.
A deliberação camarária para atribuir o seu nome a uma artéria da cidade é de 14 de Agosto de 1996.

1917 – há 100 anos – dezoito

O Distrito de Portalegre” publica, na sua edição de 15 de Abril, um texto patriótico a toda a largura da primeira página, assinado por Armando Neves. Sob o título “Em Combate” e o sub-título “O Nosso Dever”, o texto termina com os habituais vivas: “Viva a Pátria! Por Portugal! Viva a República! Vivam as Nações Aliadas!” Do seu conteúdo, destacam-se alguns excertos: “Segundo informações do Ministério da Guerra, o ministro sr. Norton de Matos recebeu na passada terça-feira um telegrama do general comandante do Corpo Expedicionário a França, comunicando-lhe que uma parte das forças portuguesas entrou já na grande luta ao lado das tropas inglesas, sendo, por todas as formas, merecidamente elogiada. O moral dos nossos homens, garantiu-o o general sr. Tamagnini, é excelente e sobremaneira animador. (…) Todos, absolutamente todos, têm a obrigação e o cumprimento inauferíveis de concorrerem para a Vitória. Não é só ao soldado impávido e destemido que vai humildemente sacrificar a sua vida pela Causa que nos é querida, que cumpre a defesa da Pátria. É também aos que cá ficam. Aos homens que estão isentos, pela idade, do serviço militar, aos velhos e também às mulheres e até mesmo às crianças. Todos têm a sua respectiva tarefa a executar; e ai daquele que a não executa! A defesa dum país reside dentro e fora dele. Todos me entendem, sem dúvida. (…) Sobre a incorporação do sacerdócio no exército, direi que nada há de mais justo e razoável. Para a frente é que é o caminho; o caminho da Honra e do Dever. Um padre é um cidadão como outro qualquer e, por isso mesmo, deve estar sujeito às leis militares”.

16 de Abril – “França. O tempo continua péssimo. Que coisa tão aborrecida com tal tempo. Ou chuva ou então muita neve e frio“.

4 de Abril – Postal de Portalegre, de Aurora, para J. M.: “Igualmente lhe desejo umas festas alegres e boa saúde para daqui a um ano as passar junto da sua filhinha. Já estou de férias. As da Benvinda começam amanhã, 5.ª feira“.

5 de Abril – Portalegre: “(no final) N. B. Os cartões que tenho recebido seus vêm todos bem fechados, mas com a marca da censura“.

Entre 16 e 19 de Abril de 1917, acontece na frente a 2.ª Batalha de Aisne, onde os alemães conseguiram deter o avanço francês.

17 de Abril – “França. Amanhã continuo com as minhas viagens circulatórias. Três vezes por semana tenho esta espiga, afora outros bicos de obra; o que me vale é eu ser bom andarilho e o tirocínio de Paulona. O tempo continua chuvoso e muito frio“.

18 de Abril – (com uma bela aguarela, original, publicada no anterior “capítulo”) “França. O Alferes Pereira, que tu conheces de casa da S.a D. Ema, passa o tempo a fazer bonecos. Hoje consegui apanhar um que te envio“.

18 de Abril – “França. Os rapazes durante o tempo que têm de estar na escola têm muitos intervalos para recreio e lanche, mas de todas as vezes que saem da escola, durante cinco minutos, fazem exercícios militares dirigidos pelo professor“.

8 de Abril – Postal de Portalegre para J. C., com carimbo de Censura: “Os seus a quem vejo quase todos os dias especialmente seu pai e a sua interessante filhinha estão de perfeita saúde. Desejo que volte depressa, pedindo-lhe que traga uma orelha de um alemão.  E. Alvarrão“.

Eleutério Mariano da Rosa Alvarrão (Elvas, 1866-Portalegre, 1931), vizinho de JCM na Rua da Mouraria, foi um conhecido e apreciado jornalista, caricaturista e autor dramático.

9 de Abril – Portalegre: “Como estava um pouco constipada retirei-me mais cedo que me doía bastante a cabeça. Logo que cheguei o Avozinho deu-me uma pastilha das bichas – metade logo e metade hoje de manhã – passado algum tempo tomei um calmante. (…) No sábado de Aleluia fomos comprar um cabritinho muito bonito, escolhido por mim, e que foi servido no jantar de Domingo, com a competente sobremesa“.

19 de Abril – (três  postais) “França. Antes de conhecer a França fazia uma ideia muito diferente de tudo isto. Cada vez me convenço mais da derrota da Alemanha, mas a França é uma nação liquidada. Não se vê um homem válido. Só a Inglaterra poderá salvar a raça francesa. Tudo isto está muito atrasado. Em frente da minha casa faleceu há pouco tempo uma criança de 18 meses. Tinha uma bronquite que a família curava com vinho, cerveja e cognac; quando estava quase morta é que vieram chamar o médico do regimento, pois por estas paragens não há médicos nem farmácias. Muito pouca civilização e humanidade; sobretudo muitíssima porcaria, não podes fazer ideia da higiene de tal gente. Esquecia-me de dizer que a pobre criança esteve cinco dias em casa, fazendo-lhe à porta a tal cruz com muitos raminhos de murta. (…) Ainda a propósito do tal passeio de automóvel com a filha do “maire”, qualquer criada de servir em Portugal teria sido mais delicada e correcta que a tal menina. É casada e tem o marido na guerra, mas apareceu toda decotada e muito bem posta apesar de estar muito frio. (…) O tenente Maltez já regressou e perdeu o medo; já está um pouco mais civilizado e menos bruto“.

e a fortaleza pariu um ratinho…

As últimas notícias, veiculadas pela comunicação social, são mais ou menos frustrantes em relação à expectativa criada, através de palavras armadas no ar, sem nada de projectos concretos, sobretudo datados e orçamentados.

O título do Diário de Notícias (18 de Abril) diz: Incubadora de startups e museu. Hotel é que não. Por sua vez, no mesmo dia de anteontem, anuncia o Público: Fortaleza de Peniche deverá ser um museu nacional da resistência. Proposta do grupo consultivo prevê a concessão de espaços para restaurante e cafetaria, mas não para uma pousada, como chegou a estar previsto ao abrigo do Programa Revive. Ponto final.

Por outras palavras, parece ter sido tem conta -exclusiva- o protesto do PCP e o lamento dos antigos presos políticos, reduzindo toda a riquíssima crónica da Fortaleza de Peniche ao seu capítulo de sinistra prisão do Estado Novo. Tudo o mais parece não ter sido considerado, o que significa um desprezo pela História e pela Cultura locais. Também a posição pública e unânime assumida pela autarquia penichense foi ignorada, pois nada foi superiormente respondido quanto ao seu próprio e fundamentado plano de recuperação.

De resto, o agora anunciado mergulha na imprecisão, pois é o ministro da Cultura que manifesta ser ainda prematuro garantir que tal projecto será integrado na respectiva Direcção-Geral. Outras suas declarações sobre o cálculo de verbas e de programas são confusas e, como se pode dizer em “esclarecedor” resumo, são apenas políticas…

O presidente da autarquia penichense lembra a sua própria promessa da ver anunciada alguma coisa (de jeito!) ainda em Abril (até 25, segundo garantiu) e cita o povo, ao misturar dinheiro e melões. Tem razão, porque pode daqui resultar uma grandessíssima dessas frutas cucurbitáceas…

Pobre comunidade penichense, que assiste impotente a mais um episódio da sua triste sina.

Velhos são os trapos mas os papéis não! – vinte e sete

Quando Cândido de Oliveira em 1935 publicou Football: – Técnica e Táctica, desde logo prometeu para breve um segundo volume no qual tencionava tratar das questões práticas do treino, desenvolvendo as teorias então expostas.

Porém, destas intenções à sua concretização mediou um largo espaço temporal, nada mais nada menos do que uma dúzia de anos. Ainda assim, chegou em 1947 a anunciada obra, Segredos do Futebol.

Trata-se de uma obra ainda hoje muito interessante, sobretudo se atentarmos ter sido pensada e escrita há setenta anos. A frescura e profundidade dos conceitos expostos ainda nos causa admiração, embora provoque alguma nostalgia observar as imagens ilustrativas da época, todas de origem inglesa, ou não fosse essa a principal escola futebolística de mestre Cândido.

As fotografias, onde avulta a imagem do lendário treinador britânico James Hogan (1882-1974), merecem a dignidade de um autêntico arquivo histórico, assim como as ilustrações e os esquemas desenhados.

A obra tem um profundo sentido pedagógico e didáctico, dividindo-se em quatro partes: A Técnica do Ensino, Os Rudimentos do Futebol, O Treino dos Jogadores e A Táctica do Jogo.

A primeira parte é essencialmente dedicada à figura do treinador, salientando a importância da personalidade, do poder de insinuação, da paciência para ensinar, da boa disposição, do saber comandar e possuir boa capacidade de demonstração, terminando com a competência técnica.

A segunda parte diz sobretudo respeito à aprendizagem, virando-se agora para o praticante. Aborda diversas questões como: correr com e sem a bola, conduzir esta com o pé, chutar, dominar a bola e passá-la, jogar de cabeça, driblar, carregar, obstruir e desarmar, marcar, desmarcar e antecipar, lançar a bola em jogo e executar castigos (cantos, pontapés e grandes penalidades) e desenvolver espírito de cooperação com os restantes jogadores.

A seguir, na terceira parte, é o treino propriamente dito que ressalta como objectivo principal. Assim, aborda a aquisição e manutenção da forma física e o aperfeiçoamento técnico dos praticantes. Por isso, são considerados de forma distinta as suas diversas e específicas posições na equipa: o guarda-redes, o defesa, o médio e o avançado (extremo, interior e avançado-centro). Estas designações podem fazer-nos hoje sorrir, mas -lembra-se!- devem ser lidas segundo os conceitos desportivos da época…

O capítulo final é muito interessante, pelas generalidades que abarca. Aqui, Cândido de Oliveira dá vazão ao seu sentido jornalístico e sente-se muito à vontade na explanação do entendimento pessoal quanto a escolas e tipos de futebol, assim como a modernas concepções técnico-tácticas então em voga, como as escolas inglesa (passe largo) e escocesa (passe curto), a formação clássica (cinco avançados quase em linha, três médios com o central em apoio ao ataque e dois defesas em frente da rede) ou a formação em WM. Alguns exemplos são aqui detalhados, como a formação Arsenal, a austríaca, a Belenenses-Scopelli e outras.

Segue-se uma fundada crítica à formação WM, terminando o volume com o sub-capítulo que pessoalmente me parece entre todos o mais curioso, por diversas razões: Uma Experiência no Sporting – Quatro Avançados em Linha e um Interior-Médio de Ataque. As quase cinco dezenas da páginas finais da obra de Cândido de Oliveira são dedicadas a uma sua vivência desportiva então em curso, precisamente a direcção técnica da equipa do Sporting Clube de Portugal, que assegurou entre 1946 e 1949. Já vencera, com a inesquecível formação dos “cinco violinos“, a Taça de Portugal em 1946, e iria conquistar o Campeonato Nacional na época de 47/48, bem como essa Taça e ainda o campeonato do ano seguinte.

Por isso, escolhi este testemunho para seguidamente aqui reproduzir, concluindo este dossier. Pode por ele perceber-se como aquela incomparável equipa leonina se tornou mais apta à conquista de inúmeros troféus, com particular destaque para o maior e mais completo avançado-centro (ou ponta-de-lança, como hoje se diz!) do futebol nacional de todos os tempos: Fernando Peyroteo.

Ficou recordado Cândido de Oliveira, um norte alentejano a quem o futebol nacional e a Democracia muito ficaram a dever…