From Scotland with Love – nove

Após o Loch Lomond, a nossa viagem foi decorrendo na normalidade compatível com a tão encantadora quanto perigosa estrada rural (?!) que serpenteia entre altas montanhas e tranquilas águas.

Após Fort William começou a ser avistado o comprido e estreito lago, onde talvez faltasse a beleza paisagística envolvente, como estávamos habituados, mas sentindo-se ali o clima de encanto e mistério que a lenda confere ao local.

Grande, profundo, escuro e pleno de água doce, o Loch Ness estende-se por 37 quilómetros a Sudeste de Inverness, a nossa meta final. Situado a apenas 16 metros acima do nível do mar, desce até este pelo rio com o mesmo nome.

O Ness é o segundo maior lago escocês, com 56 km2 de superfície, depois do Lomond. No entanto, devido à sua grande profundidade, é o maior em volume de todo o país. O seu ponto mais profundo tem 230 metros, o que faz com que contenha mais água doce do que todos os lagos da Inglaterra e do País de Gales combinados. Esta água é muito turva, por causa do alto teor de turfa nos solos circundantes, e bastante fria, devido principalmente à sua latitude e à sua profundidade. Confesso que não experimentei pessoalmente estes dados, mas confio cegamente na informação…

O Loch Ness é sobretudo conhecido por alegados avistamentos do ser criptozoológico conhecido como o Monstro do Lago Ness, também chamado carinhosamente “Nessie“.

Também tem direito a uma sinfonia, da autoria do compositor holandês Johan de Meij, da qual se apresenta um excerto com imagens locais.

É verdade que as evidências científicas para a existência deste monstro, descrito como um dragão marinho, são quase nulas, o que não impede que seja uma atracção turística de enorme ressonância, como tivemos ocasião de presenciar, ao vivo, pela incrível afluência de curiosos…

O litoral do lago é bastante pitoresco, com castelos bem conservados como o de Eilean Donan, ou em ruínas, como o de Urquhart, em Drumnadrochit.

A existência (ou não) do monstro continua, e continuará, a suscitar debate entre os cépticos e os crentes, e daí o mistério. É descrito como a tal espécie de serpente ou réptil marinho, semelhante ao plesiossauro pré-histórico.

Curiosamente, um programa num canal britânico a que assistimos em Inverness defendia a possibilidade de ele ser, afinal, um determinado tipo de tubarão, imagine-se!

A credenciada National Geographic dispõe de um interessante videograma sobre o tema, a seguir reproduzido, assim como um outro, mais ligeiro e curioso, da série Crer ou não Crer, sobre a lenda de Nessie.

Muito sumariamente, e por curiosidade, acrescente-se que o primeiro encontro original e testemunhado por várias pessoas aparece descrito na obra literária Vida de São Columbano (também conhecido como Saint Columba), um missionário irlandês que viveu entre 521 e 597  e se mudara para a Escócia.

O primeiro relato autenticado de avistamento oficial do monstro do Loch Ness data de 1880, testemunhado por um mergulhador profissional chamado Duncan MacDonald e acontecido debaixo de água.

No século XX – o relato seguinte é de 1923 – conta-se como Alfred Cruickshank avistou uma criatura com cerca de 3 metros de comprimento e dorso arqueado, mas o registo visual que iniciou a popularidade de Nessie data de 2 de Maio de 1933 e foi inserido no jornal local Inverness Courier, numa reportagem cheia de sensacionalismo. Na peça conta-se que um casal de hoteleiros viu um monstro aterrorizador a entrar e sair da água, como alguns golfinhos fazem.

Em 19 de Abril de 1934 foi fixada a mais famosa fotografia do monstro, pelo cirurgião R. K. Wilson, a qual circulou pela imprensa mundial como prova absoluta da existência real do monstro.

Décadas depois, em 1994, o jornalista Marmaduke Wetherell confessou ter falsificado tal fotografia, tendo decidido inventar o nome do Dr. Wilson como autor, para conferir mais credibilidade ao embuste.

Mas esta montagem não desiludiu os crentes…

Em 25 de Maio de 2007, Gordon Holmes, um técnico de laboratório, filmou um vídeo que diz ser de uma “criatura negra, com cerca de 45 pés de comprimento, movendo-se rapidamente na água“. O vídeo foi estudado por biólogos e sem dúvida trata-se realmente da filmagem fidedigna de um animal não identificado, cujas características físicas são mesmo semelhantes às de um plesiossauro.

Porém, ainda assim, esta filmagem não foi considerado como prova irrefutável da existência do monstro.

Nestes dez últimos anos nada aconteceu de relevante com Nessie.

Confesso que nenhum de nós teve agora a sorte, ou o azar, de o ver.

Chegámos, entretanto, a Inverness e era a véspera da corrida…