Noli me tangere

pascoalA inquietação de alguns portugueses cultos (colunistas, jornalistas ou comentadores) tem o mérito de transformar em fontes de significado, de partilha emocional e de efeito devastador a mercadoria impressa. Uma certa aristocracia intelectual alimentada na imprensa permite-se algum controlo sobre a moralidade do regime. E bem. A dúvida está em saber se o resultado dessa cruzada não conduzirá a outro tipo de autoritarismos e a uma «falsa consciência»: a de que todo o tipo de jornalismo, intérprete do carácter “programático” da liberdade de expressão, é absolutamente inatacável.

Nunca nutri demorada simpatia por João Soares. A comunicação social, desde os anos 80, foi pródiga em rumores que tornaram Soares uma personagem de O Silêncio dos Inocentes, remetida a um sonambulismo de que jamais pareceu libertar-se, senão para existir no limbo da rede social durante anos, como agora recorda o jornalista Pedro Guerreiro. De resto, se podemos pressentir uma ideia de progresso capaz de apontar o dedo à pestilência política, à burocracia, ao laxismo, comodismo e estultice institucional do Estado, aos privilégios dos magnatas e ao banditismo público-privado e político, devemo-lo ao bom jornalismo, independente, sério e severo. O que não podemos confundir com mercadoria impressa enraizada em fantasias de condomínio e patrulhas pessoais. O perigo passou para a eventualidade de um jornalismo que pretenda dominar a política ou exercer nela o seu poder e expandir-se como qualquer outro totalitarismo.

Alguém dizia que arrombar uma porta não é um acto de violência se o arrombador for um polícia ou um bombeiro. Não é inteiramente verdade: um polícia e um bombeiro podem fazer uso de violência no exercício dos seus cargos. Aqui tratava-se de escrutinar se o ministro da Cultura (e não o cidadão João Soares), para além do ímpeto da sua convicção e do orçamento de que era refém, poderia apresentar algum tipo de eficácia ou plano. Mas talvez tenha sido discutível a equipagem linguística usada contra Soares, no formato do insulto grosseiro, tão contíguo à bofetada. Teorizar sobre a putativa ameaça de agressão física de Soares aos dois colunistas do PÚBLICO sabe somente a ranço, ao mesmo com que o CDS-PP e o PSD maquilham a face de virgens ofendidas. É preferível ignorar.

Invocar o direito à liberdade de expressão, essa modalidade do “não me toques” da democracia de opinião, gera permanentemente uma colossal embrulhada: o culpado também é vítima e vice-versa. Foi nisso que Soares se baseou para invocar, enfim, esse mesmo direito. Precisamos de uma cultura que distinga o admissível do inadmissível, desde que aquilo que nos parece inadmissível não seja o meio de reforçarmos a intolerância e a surdez. Geralmente convivemos demasiado bem com as nossas ideias.

António Jacinto Pascoal
Professor

É a hora?

pascoalA decadência de um país começa na ameaça à língua e no seu movimento autofágico. Se a percepção da morte é o que decide o tipo de respostas às perguntas vitais, também a percepção da língua inspira o asseio que ela mesma reclama. O desastre do acordo ortográfico de 1990, com todas as suas incongruências e antagonismos, ao que parece, não terá sido suficiente para deplorar e atalhar ao erro de perspectiva dos linguistas da tribo do Sr. Casteleiro. O ventríloquo tem na mão os seus bonecos. O mesmo que diz aceitar correcções “ao conteúdo” somente após ratificação do AO. É uma pena que, para não variar, se persista no erro (e na chantagem), evitando admiti-lo. Mas pode ser que a arrogância saia cara ao país.

Não sei se, obcecados pela febre de modernidade ou de outro tipo de cegueira, dou conta de mais alguns usuários convictos de que é inútil recuar. Três ou quatro são os argumentos reclamados: crianças há a usar o AO90; seria uma irresponsabilidade grave redefinir livros; os graves problemas capitais na nação não são este. E o dilema aparente é entre manter um erro ou mudar-lhe a face, para que não se fale em abandoná-lo. A verdade é que outras gerações de crianças coabitarão com as falácias da língua e os livros insistirão em manter a aparência da sua própria instabilidade. Quanto à gravidade do assunto, é o costume: já vimos tanto que aceitamos a inevitabilidade. E este é o remate acertado do movimento da decadência.

A validade do acordo é tão tíbia que, nas escolas, frequentemente surgem debates enriquecedores, quanto joviais – um destes dias, alguém lembrou que a supressão do “p” em “óptico” origina duas palavras convergentes, posto que “ótico” era já o adjectivo relativo a ouvido ou orelha. Este conflito, cheio de contradições, levou-me a evitar a grafia do AO mal foi implementado, ainda que, por dever moral, me tenha sentido na obrigação de manter o sistema do país destapado, por mor do superior interesse do aluno. Lecciono Português e todas as provas de avaliação da minha lavra são encimadas com a seguinte nota: “O presente enunciado não respeita as normas do AO90, ainda que os alunos sejam obrigados a respeitá-las”. Não consigo deixar de correr na pista de fora.

A mesma leviandade que permitiu este tipo de acordo é a que legitima todo e qualquer outro novo acordo, nos moldes que se pretenda e sob os critérios mais obscuros que se possa conceber – o terreno está preparado para a sementeira e a colheita garantida, já que muitas vozes responsáveis – professores dos departamentos de línguas, por exemplo – têm as almas reduzidas ao tamanho da capitulação. É penoso assistir ao desfile de lamúrias de quem dá o combate por perdido.

Acredito num ensino que, como alguém disse, seja um regresso à cultura e, portanto, seja um regresso à dignidade da língua, já que a estupidez, a incultura e a arrogância não são limitadas. Se o repúdio deste acordo é uma questão de ir à boleia dos palpites do Sr. Presidente da República, que não se hesite em levantar o polegar.

António Jacinto Pascoal
Professor

Crónica visual

Ronaldices

pascoalO discurso da arte é essencialmente silencioso. O discurso do futebol é, ao contrário, o do ruído. Se as apreciações apaixonadas e imbecis que se largam pudessem ser tratadas em comunidade restrita, para consumo interno, talvez não deixássemos uma impressão nacional tão desagradável aos outros povos. O problema é quando esta realidade incentiva um terrorismo retórico capaz de assustar as regras socioculturais.

Há esta questão: Ronaldo – metonímia da selecção nacional – presumir que o que diz é importante e, pior, o de lhe permitirem tal. A violência das suas palavras está muito mais na exploração e amplificação que delas fazem os media do que na simplicidade pueril que significam. Ronaldo é a criança mimada, o sujeito a quem não se recusa um capricho. Permita-se-lhe marcar o livre, tecer o comentário mais boçal (é bom lembrar que os islandeses terão razão para se sentirem ofendidos depois de terem ouvido a pérola “uma equipa com uma pequena mentalidade que nunca conseguirá nada”), não se lhe recuse o atrevimento de não cumprimentar adversários, perdoe-se-lhe todo o tipo de maneiras. Tudo isto tem vastíssimas consequências: as palavras de um símbolo prestam-se à expressão colectiva e podem ser tomadas como a expressão do pensamento nacional. É evidente que não de todo, mas, para evitar embaraços, é importante que seja vedada a área de intervenção social à tribo do futebol, à sua tagarelice desordeira, e à expressão involuntária dos estados emotivos – e nisto a imprensa tem abundante responsabilidade. É o mais inteligente em termos estratégicos e o mais apropriado para manter regras de convivência.

Na verdade, falamos sempre de um lugar e com a impressão de que o nosso sistema conceptual é o que vinga, porque estamos habituados a conviver com as nossas ideias, sem nos lembrarmos vivamente de que os outros têm as suas. Caímos até na ilusão do que o nosso mundo é o central (olhe-se o messianismo “cristiânico”) e que é a partir dele que se constrói o universo. É nesse sentido que o local do silêncio é a melhor homenagem à sensatez, porque é nele que prestamos profundo respeito por quem mais estimamos – nós mesmos. É possível apagar incêndios, mas não é fácil apagar palavras. Essas reacendem-se com vigor maior.

Na imprensa islandesa e a propósito dos “donos” da bola, os cartunistas não faltaram à chamada. Dois cartoons tiveram honras de maior expressão. Num deles (de Halldör), em que se vê Ronaldo em cuecas, com ar de miúdo inconsolável e irascível, lê-se: “Os islandeses já não precisam de se incomodar a odiar holandeses e ingleses por causa do desastre glaciar, uma vez que a opinião pública declarou uma guerra mundial a Cristiano Ronaldo. Qualquer apreciação positiva acerca dele proferida na web pelos actuais candidatos à presidência será vista como traição…”. Noutro (de Gunnar), em que Ronaldo surge acompanhado de Éder, pode ler-se o comentário do ponta-de-lança: “Que se passa com estes islandeses que celebram como vencedores quando empatam connosco e que depois nos vencem perdendo por um golo?”.

O humor e a ironia são a forma mais convincente de dessacralizar de forma exemplar as “regras de ouro” dos tagarelas. Temos, felizmente, uma corrente humorística, de que o Inimigo PÚBLICO faz parte, capaz desse recado. Para que a religião da boçalidade não se alongue, não pode o riso ser curto.

Ronaldo sabe marcar golos. Bem basta.

António Jacinto Pascoal

O culto do “gosto”

Numa daquelas coincidências que por vezes nos calham em sorte, no preciso dia em que aqui saudei a “ressurreição” de António Jacinto Pascoal fui brindado, poucas horas após, com mais um seu texto no Público. Tive assim a mais animadora  e pronta resposta à minha inquietação.
Os originais e reflectidos textos de AJP são uma lufada de ar fresco e de provocação que nos perturbam e enriquecem. Que eles nos abanem com alguma frequência – eis a saudável expressão de augúrio que merecem…
Aqui fica  mais um e, felizmente, a garantia de outros.
Obrigado, Pascoal!

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