Dois em um – II

O Professor Artur Anselmo de Oliveira Soares é um filólogo, investigador e professor com prestígio internacional. A sua competência linguística é amplamente reconhecida, tendo ocupado os mais elevados cargos académicos na área em que é uma incontestável autoridade.

Como tal, a sua aura dominou, no arranque, o encontro de militantes desta causa do bom e urgente combate. E estes encheram a vasta sala cercada de livros, como uma península-desafio de saber e cultura. Na mesa, para além do académico, estavam dois dos três governantes-sombra (o terceiro sobraria para dois depois), mais o editor da Gradiva, Guilherme Valente.

Artur Anselmo, cujas posições políticas têm justificado alguma reconhecida animosidade, falou daquilo que conhece como poucos, encantando-nos com argumentação assente na invulgar memória pessoal de mil e uma vivências.

A inteligente e culta ironia de Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira encheram depois a sala e justificaram, só por si, a enchente.

Guilherme Valente, numa posição algo diferente, porque comprometido com a edição, assume sempre uma coerência que admiro. Já o tinha encontrado, nos domínios de um universo algo diferente, o da Banda Desenhada, nomeadamente como esclarecido editor de uma notável obra dos quadradinhos lusos, Os 12 de Inglaterra, criação do desenhador Eduardo Teixeira Coelho, cujo centenário do nascimento temos vindo a comemorar.

Quanto a Nuno Pacheco, creio que confirmou ao vivo e em directo a qualidade revelada nos escritos: sólida cultura, conhecimento convicto e invulgar capacidade de comunicação. Devemos-lhe, todos os que acreditamos na pureza de uma língua agora ameaçada de inqualificável agressão, uma posição cimeira de esclarecida e autorizada coragem e dignidade. Bem haja!

Julgo oportuno aqui transcrever a apresentação da sua recente obra. Creio que esta súmula define com rigor o conteúdo do trabalho, constituindo mesmo um desafio à sua leitura:

O Acordo Ortográfico de 1990 nasceu de um perigoso casamento: o do medo com a mentira. O medo é de que no Brasil se ouça um grito do Ipiranga linguístico e a língua portuguesa, ali, passe a denominar-se «brasileiro». A mentira é a de que o português era a única língua com duas ortografias oficiais. Só que a miragem da «unificação» favorece quem defende o «brasileiro»; e a ortografia, por mais que se afiance o contrário, tende a ser plural nos idiomas mais difundidos no globo. Isto não impediu que no universo da língua portuguesa surgisse algo de que nenhuma outra língua precisou para sobreviver, singrar ou até expandir-se: um Acordo Ortográfico. Mas os seus arautos, ainda que não o saibam (ou não queiram saber), são já parte de um pequeno exército retrógrado, a lutar contra a evolução natural da escrita, porque esta passa pela fixação e reconhecimento das variantes ortográficas nacionais e não pela sua «unificação». Dito isto, o Acordo Ortográfico é um embuste. Meteu-nos num beco, mas esse beco tem saída. Assim haja coragem e vontade política para abandonar de vez esta quimera“.

No debate que se seguiu, com toda a sinceridade, apenas relevo a intervenção do cineasta António-Pedro Vasconcelos, simples, directa e informada por curiosos e oportunos casos práticos e vividos. Talvez seja injusto ou excessivamente rigoroso nesta apreciação, pessoalíssima, mas quase todos os restantes depoimentos me pareceram dispensáveis. Mesmo inúteis e até caricatos.

Creio que na própria mesa, pelas reacções que a “antologia ” de imagens a seguir documenta, o acolhimento terá sido idêntico.

Naquela assembleia, considero ter havido gente muito mais interessada em ser ouvida quando, ali, o fundamental era saber ouvir. A feira pública das vaidades ainda tem cultores… Aliás, estavam presentes autênticas personalidades que atestaram e valorizaram com o seu silêncio a validade dos discursos.

A quem segue e lê regularmente Nuno Pacheco, a obra Acordo Ortográfico – um Beco com saída não traz novidades de maior, excepto a grata recordação, devidamente organizada, de uma relevante antologia. Com efeito, à excepção de um texto, a obra nada tem de original. Porém, assim, ficam mais à mão artigos dispersos ao longo de anos. Relê-los assume muitas vezes o prazer original e, sobretudo, fortalecem a memória e a alma para novos combates que teremos ainda de enfrentar até à vitória final, vitória da língua – a nossa Pátria, segundo disse e bem Fernando Pessoa.

Resta-me destacar aquele que foi, para mim, o mais significativo -e inesperado- momento vivido na Buchholz: o reencontro com António Jacinto Pascoal. Colega e amigo de há muito, gratíssima herança de vivências comuns em Portalegre, indefectível militante da cultura e portanto da língua, distinto colaborador do Largo dos Correios, ele veio de propósito a Lisboa, apenas para partilhar a luta por esta causa, onde estamos unidos.

Só por revê-lo e abraçá-lo teria valido a pena.

Dois em um.

A força incómoda do passado

As pessoas convivem mal com o que não está na moda e insistem na busca de pequenos rituais e conquistas ilusórias, com que, pelo menos, tenham a vaga sensação de actualidade. O medo de ficar para trás e a atracção por uma falsa modernidade produzem verdadeiros tratados de oca intervenção estratégica (empresarial, desportiva, sociológica, cultural), tomados como imperativos à escala nacional e internacional, e tidos numa perspectiva de desígnio redentor titânico. O que se fez e continua a fazer à língua escrita é o exemplo de uma empresa que, embora assente em grupos de trabalho especializados, não se fez acompanhar do elementar princípio do contraditório, tendo sido criado um cenário de dominação e imposição quase absoluto, favorável à implementação do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90). O Euro 2004 (Futebol), organizado em Portugal, legitimou a construção e renovação de 10 estádios, alguns dos quais se tornaram uma fonte de prejuízos para as autarquias envolvidas, com encargos mensais astronómicos, tendo sido ponderada a demolição de um ou dois deles. Há facturas que ainda se pagam. No que toca à língua escrita, não se percebe o que fazer com ela. Foi isso mesmo que se passou nesta última sexta-feira: o Grupo de Trabalho para a Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico não reuniu consenso para a possibilidade de alterar ou aperfeiçoar o AO90.

No parecer sobre o Anteprojecto de Bases da Ortografia Unificada da Língua Portuguesa de 1989, elaborado pela Comissão Nacional da Língua Portuguesa (CNLP – com coordenação do Professor Vítor Manuel Aguiar e Silva), pode ler-se no ponto 1.4.3: «É duvidoso o efeito unificador de um acordo ortográfico, atendendo à maior relevância comparativa do léxico, da sintaxe e até da fonética; mais importante seria a integração desse acordo (mas não nos termos do Anteprojecto adiante criticados) numa política da língua, bem definida, institucionalizada e implementada em Portugal e em toda a comunidade dos países luso-falantes, e assente numa sua co-responsabilização em convénio ao mais alto nível». Em 1989 tinha-se uma noção muito clara da deriva a que este “acordo” nos poderia levar. Não teria sido muito mais sensata a coragem de evitar o pântano para o qual se encaminhou a língua portuguesa? Esse é o único consenso: a coisa está complicada e seja qual for a solução que surgir, ela será sempre a menos má e nunca uma boa solução. Seja como for, tratar-se-á de uma solução política, já que o afastamento da CNLP da esfera de decisão (recorde-se que Aguiar e Silva se demitiu do cargo daquele órgão de aconselhamento do governo) não deixa transparecer outro modo.

Alertava-se, em 1989, para os custos da implementação do AO90: «A entrada em vigor do Acordo provocaria uma recessão na compra de dicionários, enciclopédias e prontuários; a rectificação deste tipo de livros acarretaria um gasto de mais de cinclo milhões de contos, só em custo de composição e fotolitos; milhões de livros ficariam desactualizados (…)». Os custos, hoje, são outros. A revogação do “acordo” traria custos estrondosos, como se sabe. No entanto, muito recentemente, a Comissão de Educação da Câmara dos Deputados do Brasil aprovou um requerimento para discutir a revogação do Acordo Ortográfico. Ao que parece, os erros do passado somam-se às trapalhadas do presente.

A dicotomia passado/presente deu sempre azo a combates sustentados em chavões, na arena imprecisa da semântica. Para o comum opinante, quem se posiciona em função de fórmulas passadas ou habituais não se exime a ser tomado como um Tomás de Alencar (se presumirmos a sua colagem a certo romantismo serôdio, em contraposição com Carlos da Maia, símbolo do falhanço Regenerador) ou ao Velho do Restelo (se excluirmos tudo o que nele possa ser considerado razão, contenção, sensatez e, de algum modo, a tensão dilemática de Camões). É nesta relação dicotómica que, em parte, os defensores do “acordo” se amparam, procurando colar aos seus críticos a reacção passadista e saudosista: a bacoca «Querela dos Antigos e dos Modernos», como lhe chamou um dia António Guerreiro. Com alguma insídia, procuraram ultimamente insinuar que os anti-acordistas são, também, os novos analfabetos do século XXI. De alguma forma, esse é o argumento com que se acusa alguém de não estar dotado de ferramentas técnicas (o que, no campo laboral, é um pernicioso factor de desqualificação do trabalhador) e de não se encontrar apetrechado da última aplicação para telemóvel. Não é senão o raciocínio indigente de quem se deslumbra acriticamente com a novidade e parte de um pressuposto de argumentação estrepitosa, tendente à criação de ondas de choque de efeito provisório. Para usar dialecto ao mesmo nível, ao menos Alencar não foi para a cama com a irmã.

Na Prova Final de Português (9º ano, 2ªa fase), optou-se pela forma “espectadores”, com c (página 4). O nosso analfabetismo é a percepção destas incongruências. E somos, dizem, uma minoria.

António Jacinto Pascoal
Professor

Acordo ortográfico? Revogar, claro!

Acordo ortográfico? Revogar, claro!

Muito recentemente, em defesa do actual acordo ortográfico (AO90), Lúcia Vaz Pedro (LVP) deu uma pálida ideia da sustentação às alterações gráficas para a língua portuguesa. Para que conste, emaranhou-se numa teia de contradições, optando por um efeito de vitimização que não evitou o espectáculo menor de quem defende a todo o custo e sem qualquer brilho uma das piores opções tomadas ao nível da cultura portuguesa, na última década. O debate ocorreu na Feira do Livro de Lisboa, no decorrer da apresentação da obra Por Amor à Língua (editora Objectiva), de Manuel Matos Monteiro (autor de um notável trabalho de vigilância da Portuguesa língua), contando ainda com a participação do jornalista Nuno Pacheco, do Público – a moderação ficou a cargo de Ana Daniela Soares.

A vulnerabilidade deste acordo – que na verdade não o é ainda, uma vez que a sociedade científica brasileira não o ratificou até hoje – decorre da ideia simplista de que um sistema gráfico é a tradução de um sistema linguístico oral, conducente a um esquema de reprodução económica e simplificada da verbalização oral. Ora, basta pensar em como os ingleses convivem com dois sistemas que, como se sabe, muito pouco têm de comum, considerando a transcrição fonética.

Um dos momentos protagonizados por LVP (para além do neologismo «analfabetização» e de uma farta dose de auto-elogio) foi o da convocar uma menina da plateia e pedir-lhe que escrevesse uma palavra: tratava-se do vocábulo «óptimo», que a menina grafou como entretanto lhe ensinaram: «ótimo»; de seguida, encaminhou a menina, fazendo-a ler aquela palavra, com articulação do «p». E conseguiu. Isto significa apenas que a geração mais recente de alunos não foi treinada para uma leitura pela qual se tomasse consciência da não articulação de certas consoantes. Lembremos que o AO90 entrou em vigor no sistema de ensino Português no ano lectivo de 2011/12. Nada de estranhar, portanto. Impor-se-ia, num cúmulo de perversão, pedir-se a um aluno mais velho que escrevesse a mesma palavra, de acordo com aquilo que lhe foi ensinado e que estava em vigor antes de 2011. Provavelmente, entraria em cena a consoante “p”. Baseada na falsa ideia de que uma escrita “fonológica” é mais natural, LVP quis criar o maior obstáculo a que uma reversão do AO90 pudesse (e possa) ter lugar, liquidando-a de vez. E como? Partindo do pressuposto de que uma reversão seria um atentado e uma irresponsabilidade perante uma quantidade inaudita de alunos que fazem parte do sistema vigente, de pais a quem não seria fácil justificar alterações e de professores acostumados a ameaçar novidades. E por isso, num processo argumentativo falacioso (ad misericordiam), usou (o exemplo d)a menina, que melhor desencoraja a transgressão e reversão, e de forma mais célere impõe a cultura da acomodação: a sociedade precisa (de) que os seus filhos se sintam seguros no mundo do pragmatismo, mesmo quando esquecem as origens. Mas «a menina de LVP», longe de qualquer disputa linguística, e caso fosse acordado, escreveria «conosco» se assim lho doutrinassem, ou «oje» e «umanidade», fosse a regra da não articulação oral levada ao seu limite e ensinada nas escolas. Os alunos aprendem o que lhes ensinam – nada de novo, mais uma vez.

O que este acordo pretendia, se pudesse ser acordo (pelo que presumo não ser senão reforma), era, em especial, homogeneizar (uniformizar) a grafia do Português de Portugal e do Brasil (o que se depreende da nota introdutória ao Novo Acordo Ortográfico de João Malaca Casteleiro), sem desprimor pelos outros países lusófonos e lusógrafos (passo o neologismo): tarefa impossível e inglória. Nessa matéria, os falantes brasileiros arriscam-se a ser mais oralmente etimológicos do que os falantes portugueses (entenda-se, nascidos e versados na variante linguística de Portugal), uma vez que poucas serão as consoantes ditas “mudas” que lhes escapam – dirão, para mal do AO90, «recepção» ou «acepção». Resultado: em vez de homogeneizar, o AO90 estabeleceu uma série incontável de divergências lexicais. Ou seja, falhou.

E também falhou, porque estabeleceu um sem número de arbitrariedades, nos casos das sequências consonânticas, em favor das regras facultativas de pronúncia (os casos de caracterização/caraterização ou sumptuoso/suntuoso); e falhou, porque preteriu as pronúncias cultas, ainda que circunscritas, aos vulgarismos orais (ceptro/cetro); e falhou, porque fez tábua rasa da etimologia nas palavras cognatas (egiptólogo/ egípcio/egito); e falhou, porque lançou a aporia pelo fenómeno da redução vocálica (recepção/ receção/[receção], com o som articulatório do segundo «e» no valor fonético de «e» mudo, ou vogal fechada), decorrente do efeito da leitura. E falhou por minudências, como a da rasura do acento na paroxítona de excepção «pára», que converge para a preposição homónima, ou com o adjectivo «óptico», transposto a «ótico», confundível com o que é relativo ao ouvido. E falhou, porque se quis afirmar por decreto, desacoplando-se da génese linguística, de raiz maioritariamente latina. Falhou em toda a linha.

A degradação e a vulgaridade da língua é um fenómeno que este AO90 veio acentuar. Ao contrário do que pensa LVP, a língua não é o que dela fazem os falantes, mas o que os falantes se permitem fazer, em consonância com uma série de regras, plasmadas no sistema gráfico – e, a errar, que o façamos dentro de uma ordem estabelecida. Caso contrário, o «idioma» das sms e de outros sistemas de escrita para comunicação rápida e espontânea passará a deter o estatuto de competência técnica e linguística. Só que isso seria contribuir para a mortal iliteracia a que agora ficámos um pouco mais expostos.

Procurarei, futuramente, comprovar como este AO90 criou já debilidades ao nível da leitura e como, com boa probabilidade, contribuirá para alterar a fonética do Português europeu, no plano da erosão vocálica. Perante a quantidade de imprecisões e, sejamos francos, de falhas, é tempo de confessar que nos enganámos e que o que é inadmissível deve poder ter um retorno: o do regresso à Cultura. A língua não é uma noite fechada, sobre a qual interesses de alguns linguistas se determinam, mas uma aurora e um começo, sempre um começo renovado em sua legítima defesa, enquanto organismo perseguido e francamente fustigado pela indigência de muitos usuários.

António Jacinto Pascoal
Professor

Já está: a tecnologia venceu o campeonato!

Já está: a tecnologia venceu o campeonato!

Que a tecnologia está a mudar comportamentos humanos não é novo. Nem que, mudando-os, valores e ética sofram também a sua bordoada. E também não deve haver novidade no facto de as emoções, inseparáveis da racionalidade, serem determinadas por estímulos cada vez mais complexos e virtuais, senão inefáveis. O que me parece actual é o servilismo à pequena máquina, a extrema capitulação do ser perante a técnica. Já não temos alegrias sem a sensação de que a alegria é um dever, uma imposição social. E só nos divertimos de facto com mediações, como se emprestássemos às nossas emoções a necessidade de se legitimarem através de evidências técnicas. Com o telemóvel, provamos aos outros e a nós mesmos que fizemos parte de um evento e que a nossa boa-disposição terá sido credível.

No intervalo do jogo de consagração do Sport Lisboa e Benfica, vimos as atletas da equipa feminina do mesmo clube sancionarem o seu feito de telemóvel erguido, quem sabe reconhecendo que a evidência visual é a única forma de ocupar o vazio da sensação de se não existir fora das redes sociais. Também os jogadores do SLB, substituindo a espontaneidade de uma alegria genuína que não busca a sua marca imediata (há uns tempos, os jogadores acenavam aos adeptos, gritavam e erguiam os braços vitoriosos), cederam a uma exibição contida e ao registo da sua própria emoção, temperada em telemóveis que os faziam ser parte da festa, quando nenhum deles deveria ter dúvidas disso. Que filmavam eles? A sua própria alegria? A sua comoção? A prova de que ninguém lhes rouba o seu espaço na festa? O presente que, naquele momento, é pensado já como futuro?

Quando alguns jornalistas inquiriram adeptos sobre as emoções vividas, à parte as expressões bárbaras do costume, uma ideia pareceu sobrepor-se: «já estamos a pensar no 38º!». Mal ou bem, a realidade do presente é vivida não em função do êxtase imediato mas do registo (da imagem) e do egocentrismo insaciável de futuro – não é possível estarmos num só lugar, porque algo nos reclama noutro em simultâneo. Há sempre uma série de solicitações a negar-nos a fruição do presente e a barrar-nos o direito ao usufruto do tempo: “notificações”, “histórias” de Instagram como prova de vida, tweets. Nos intervalos de tudo isto, temos a encenação da alegria, auto-registada para que conste. Uma meta-alegria, isto é, a alegria sobre a alegria, a emoção a debruçar-se sobre ela mesma.

É dessa esfusiante alegria que vive um dos mais pobres espectáculos à escala mundial: o Eurovision. Chega a ser penoso assistir àquele espectáculo de boçalidade colectiva, sem a sensação de que temos de ser gratos por nos esmagarem com a generosidade de tanto sorriso aberto. Mario Benedetti, o poeta uruguaio, escreveu há muitos anos um belíssimo poema («Defensa de la alegría») em que, entre outros, se podem ler estes versos: «defender la alegría como un destino/defenderla del fuego y de los bombeiros/ (…) de la obligación de estar alegres». Registemos a alegria. Não há outra forma de provar o que sentimos.

António Jacinto Pascoal
Professor

Humor em tempos de paz

Há largos meses que o Largo dos Correios não recebia a valiosa participação de António Jacinto Pascoal, estimado colega e qualificado amigo pessoal, poeta, contista e ensaísta de reconhecido mérito.
Foi com júbilo que há dias dele me chegaram três artigos para partilhar com os leitores do blog. Aqui fica hoje o primeiro destes, com brevidade seguido pelos restantes. E fico, ficamos todos, na expectativa dos próximos.
Um abraço de admiração, reconhecimento e amizade ao António Jacinto Pascoal.

 

Humor em tempos de paz

De repente (já faz uns aninhos), a comunicação social promoveu uma série de comediantes, preenchendo um vazio deixado por humoristas clássicos, de que Herman José ainda é reminiscência incontornável. Há para todos os gostos: infelizmente, em muitos casos, de uma pobreza confrangedora. Ser humorista implica delicadeza, inspiração, conhecimento, humildade e uma sobredose de inteligência, sobretudo emocional. O riso, alguém o disse, é uma força cósmica que tudo e todos move.

Em tempos de folguedo, haverá quem não resista a jogar as cartas todas do baralho e se procure exceder – porque o humor, entenda-se, sobrevive num formato de pacotilha, seguindo as leis competitivas do mercado. Os comediantes, sejam eles quais forem, procurarão inevitavelmente anular a concorrência, mesmo que entendam a urgência de manter uma certa unanimidade quanto à preservação da sua estranha estirpe profissional. De alguma forma, convém-lhes um proteccionismo corporativista de classe, ainda que reivindiquem o seu estatuto marginal.

Acontece que o humor perdeu, em Portugal, a marginalidade: ele tem tempo de antena, é convidado para debates, pulula em inúmeros talk-shows, gravita em torno dos grandes circuitos televisivos e radiofónicos: é um humor oficializado na democracia dos mass media, ao serviço dos grandes grupos de difusão de informação e entretenimento, e não já um grito de subversão. De alguma forma, a indignação que dele emana não deixa de ser refém de uma inevitável previsibilidade – todos sabemos para o que estamos (“silêncio, vamos rir”). O humor, no caso de Ricardo Araújo Pereira, nasce mesmo no centro da legitimidade do espaço da democracia mais mediática. Mas não deixa de ter o mérito de ser altamente sofisticado, servido por bons meios técnicos, pronto a servir, à la carte, para um riso que já não é chavão, mas, é necessário dizê-lo, não deixa de ser um riso amestrado (quando aquilo que o riso deve ser, na sua essência, se prende com o efeito de surpresa). Rimos de quê? Do poder, do rei humilhado, do desconcerto do mundo (daquele que Rabelais dizia “às avessas”?). E há limites ao humor?

Em tempos (dei conta dela no início dos anos 1990), numa entrevista imperdível, John Cleese, o comediante do mítico grupo inglês a que as recentes gerações de comediantes nacionais foram roubar os esquemas, os efeitos e o estilo, dizia que o humor tem limites. Que não é possível rir de tudo. Talvez não seja necessário enumerar factos que produzem uma gravitas tal que tudo exclui: o holocausto (há comédias sobre o assunto, mas nunca é a matriz essencial que se caustica), certa intimidade de natureza radical, alguma espiritualidade, para a qual o riso é um acessório ridículo. Cleese chegou a implicar aí elementos de natureza sexual, invocando o facto de o riso ser, em certos contextos, uma grosseria fútil. Naturalmente, a sociedade mudou, o humor também e o riso acompanhou os tempos, face às forças inibidoras – geralmente, factores tidos num plano hierático e conservador. Actualmente, poder-se-ia dizer, o riso parece poder estar em todo o lado. Mas essa banalização torna-o fácil, infértil e estulto. E nada há de mais constrangedor do que um humorista a forçar o humor – é a tragédia de um homem ridículo.

Ricardo Araújo Pereira é um óptimo humorista, alguém inspirado pelos deuses da comédia. O mundo seria muito mais triste sem ele. A aparência de um profissional e executivo do riso, porém, como agora de si constrói o estilizado retrato acabado, no seu novo programa televisivo, embota-lhe a alma – sugere que o humor começa e acaba na sua pessoa. E a desfaçatez com que caustica indivíduos, na fragilidade dos seus depoimentos, em comissões parlamentares de inquérito da ARtv, confere a parte do seu trabalho uma boa dose de espectáculo grotesco, escusado e de mau-gosto, em que o humor sai diminuído e ferido de morte. Qual é a gente que não sabe estar? A visada, a que visa, ou a que, assistindo, ressuscita o riso medieval do escárnio? Antigamente, em tempos de ditadura, o humor poderia considerar-se um exercício de coragem. Agora, há que ter coragem para assumir a liberdade da liberdade. Há que ter cuidado na escrita do guião, para não confundir humor com carnaval. Fora isto, tudo bem.

António Jacinto Pascoal
Professor

Um novo livro de António Jacinto Pascoal

O António Jacinto Rebelo Pascoal é um colega e amigo de há anos, colaborador deste blog, onde assinou algumas dezenas de textos.

O primeiro destes –Ninguém se entende no ensino do Português– tem a data de 17 de Setembro de 2012, ainda eu vivia em Portalegre.

Aliás, registe-se, o conto que dá nome ao seu recente livro –Os joelhos do meu pai– foi também aqui publicado em 23 de Maio de 2015.

Apesar do tempo e do espaço que nos separam, mantenho a mesma admiração de sempre pelo Jacinto Pascoal, apenas lamentando o empobrecimento que a sua ausência tem provocado no blog. Paciência, tenho -temos!- de esperar pela sua disponibilidade…

Hoje, partilhando natural alegria pelas suas recentes obras, nomeadamente por esta que agora se divulga, relembro o que aqui escrevi antecedendo a sua inicial colaboração no Largo dos Correios.

 

Conheci o António Jacinto Rebelo Pascoal em 2009, a quando das comemorações relacionadas com os 80 anos da chegada de José Régio a Portalegre. Nas reuniões de trabalho acontecidas na ESEP, ele co-representava a sua escola, precisamente a José Régio, ali ao Ribeiro do Baco.

Depois, na realização prática da programação organizada, a sua escola revelou o magnífico trabalho da equipa onde ele se integrara. O conhecimento então iniciado prolongou-se no aprofundamento pessoal que ganhei das múltiplas capacidades de um docente profundamente implicado com a sua profissão e de um homem de cultura comprometido com intensas vivências, que já vinham de longe.

Natural de Coimbra, onde nasceu em 1967, mestre em Literaturas e Culturas Africanas e da Diáspora, é autor de vasta obra publicada (e premiada) nos domínios da poesia, ficção e ensaio. Representado em diversas antologias, nacionais e estrangeiras, foi galardoado com diversos prémios como o da Associação Académica de Coimbra e o Guerra Junqueiro (este de âmbito nacional e por duas vezes).

Além de tradutor, organizou e anotou antologias colectivas. É autor de uma obra poética já significativa, onde avultam Os Dias Reunidos (1998), A Contratempo (2000), Terceiro Livro (2003), As Palavras da Tribo (2005), Cello Concerto (2006), Pátria ou Amor (2011)…

Os seus ensaios visam autores e obras da lusofonia, mas deve também aí destacar-se a temática regiana, em Régio e os lugares da autognose – ilha e labirinto, Em Torno da Expressão Poética de José Régio, trabalho publicado na Revista da Associação de Professores de Português, n.º 39-40, Lisboa, 2011.

Tenho acompanhado de perto uma recente faceta interventiva de António Jacinto Pascoal, como regular colunista no jornal Público, sobre temática educacional, onde as preocupações socioculturais do autor bem como a sua qualidade literária estão sempre presentes. Ao desafiá-lo para me permitir transcrever tais crónicas no Largo dos Correios, tive como resposta uma imediata e fraterna abertura que me sensibilizou.

Portanto, com a regularidade que ao autor apetecer, este blog ficará enriquecido com uma participação de qualidade, onde os leitores ganharão novos motivos de interesse cultural.

Aqui fica o primeiro texto.

(António Martinó de Azevedo Coutinho – 17 Setembro 2012)