João de Azevedo Coutinho e Peniche – dezassete (final)

Não poderia contar com um mais perfeito final nesta fase de apresentação pública de uma pretensão que defendo com convicção, na certeza do seu inegável interesse de vária ordem para Peniche.

Jorge Russo é um amigo que admiro. Na situação de especialista de renome internacional na matéria em apreço o seu testemunho é significativo; na condição de natural de Peniche a sua opinião tem o peso suplementar de um perfeito conhecimento da realidade local.

A sua imediata aceitação do incondicional convite que lhe fiz honra-me.

O seu texto, dotado da autoridade e do conhecimento que detém, merece ser lido. E meditado.

Obrigado a Jorge Russo pela sua voluntária e valiosa cumplicidade.

Agora, Peniche que decida.

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Jorge Russo nasceu em 1969, em Peniche, é licenciado em História pela Universidade Aberta e mestrando em História Marítima na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e Escola Naval. É investigador associado no CINAV – Centro de Investigação Naval, da Marinha Portuguesa, e no IHC – Instituto de História Contemporânea da FCSH/UNL.

O seu principal interesse centra-se na História e Arqueologia dos navios a vapor em ferro e aço, especialmente em ambiente submerso de profundidade, enquanto mergulhador de circuito fechado, e em metodologias forenses de identificação de destroços e correlação destroço-navio.

Na História dedica-se principalmente ao estudo de temáticas marítimas e navais em torno dos dois grandes conflitos mundiais. Na Arqueologia dedica-se principalmente em torno das questões tecnológicas de propulsão além da vela, e na aplicação de metodologias de estabelecimento da relação destroço/navio como forma de identificação dos primeiros.

Ganhou as Jornadas do Mar nas edições de 2012, 2014 e 2016, em História na Categoria de Licenciados e Mestrados, e o prémio “Adopt-a-Wreck-Award” da Nautical Archaeology Society, em 2013 em nome próprio e em 2015 no Projeto do CINAV relativo à ação do U-35 ao largo de Sagres e Lagos durante a Grande Guerra, em coautoria com o Comandante Augusto Salgado.

Atualmente é cocoordenador daquele projeto “O U-35 no Algarve” e corresponsável científico do projeto em torno do navio de salvamento Patrão Lopes, no Bugio, em Lisboa, com Jorge Freire.

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Destroço é um substantivo masculino que, se referindo ao património cultural submerso, mais vulgarmente significa objeto afundado, a maioria das vezes correspondendo a um navio.

Esta é apenas uma das dimensões, provavelmente a de menor relevância, certamente se nos referirmos à relevância cultural.

Na tangibilidade, e do ponto de vista arqueológico e histórico, encerra e transcreve o testemunho dos Homens e do seu tempo, do ponto de vista antropológico não nos esqueçamos que o objeto se transfigura pela relação que o Homem estabelece com ele, numa relação de transformação cultural que é recíproca. Há inclusivamente autores (por exemplo Igor Kopytoff) que defendem que estes objetos, logo também os destroços, transportam biografias que desaguam em diferentes significados que se acumularam no conjunto do seu fabrico, uso e usufruto, a dimensão intangível.

Ora é esta última que gostaríamos de sublinhar. Na verdade, os destroços podem ser além de testemunhos culturais, excelentes oportunidades económicas.

Excelentes porque o seu usufruto é tendentemente uma atividade racional, responsável, sustentável, de baixo impacto ambiental, e que regista muitas vezes ramificações importantes quanto às atividades económicas que mobiliza ao seu redor, possuindo ainda a capacidade de combater a sazonalidade.

Estamos naturalmente a referir-nos ao sector de atividade económica do mergulho recreativo.

Se por um lado existem preocupações de pressão e carga deste sector sobre o património cultural submerso, e devem haver, nomeadamente aquele mais sensível, a verdade é que a própria UNESCO aconselha a sua fruição na CONVENÇÃO SOBRE A PROTECÇÃO DO PATRIMÓNIO CULTURAL SUBAQUÁTICO que Portugal ratificou prontamente.

Mas há, nesta matéria, uma solução e oportunidade imperdíveis há muito ensaiadas em todo o mundo e mais recentemente em Portugal: o afundamento de navios para fins lúdicos como o mergulho recreativo.

Por todo o mundo e Portugal não tem sido exceção, multiplicam-se os casos de enorme sucesso nesta ação. Os destroços afundados possuem uma orgulhosa história que honrosamente será perpetuada através dos milhares de visitantes que a conhecerão na oportunidade da sua visita em ambiente submerso, rapidamente se transformam num oásis de vida e biodiversidade, todos os estudos o indicam, são um vetor de enorme importância e capacidade de mobilização e dinamização económica, combatem a sazonalidade, e se geridos de forma ampla e telescópica ao invés de microscópica, são uma forma eficaz de combater a monocultura turística que tantas, demasiadas, vezes se apodera da orla costeira.

Podia juntar aqui esses exemplos, mas maçar-vos-ia pela extensão interminável.

 

Após este breve conjunto de argumentos, apetece perguntar a Peniche o que espera para acolher, numa primeira fase ouvindo mas com atenção, a ideia de afundar a Corveta João Coutinho.

Jorge Russo

Para que serve a rádio?

                                           Para que serve a rádio?

      Se Pedro Rolo Duarte aqui estivesse, com certeza diria a esta nova geração que fazer rádio é muito mais do que ter a ilusão de ser engraçado.

Tenho muito respeito pela inteligência e pela subtileza dos portugueses e pela sua original insensatez quanto a muitos assuntos. A verdade é que não necessito de invocar exemplos de brilhantismo nos mais variados domínios: seria uma lista entediante, somente para recriação patriótica. Mas não se dá conta da deriva em que a rádio vai e de como alastra a falta de respeito pela generalidade da população. A vitalidade da vergonha não tem vergonha. E porque é preciso falar dela, vamos a isso.

Há dias, o jornalista Sena Santos, na sua crónica diária “Um dia no mundo”, lembrava o director do diário italiano La Repubblica, Mario Calabresi, a propósito daquilo que compromete um jornal: “dar ao seu leitor qualquer coisa de necessário e funcional”. Pode parecer pouco, mas também o entretenimento inteligente é necessário. Rir é bom; ler e ouvir música é fundamental. E tudo isso é possível sem perder rigor. Tem-se falado em degradação da língua, com o novo Acordo Ortográfico, gerador de “mil estilos” em sacrifício do estilo hierático da língua. Todavia, esquece-se a responsabilidade dos órgãos de comunicação de iniciativa e gestão privadas, mas de competência pública significativa, no cumprimento de padrões mínimos de exigência profissional e de serviço público – porque é de públicos e de audiências que estamos a falar.

Pedro Rolo Duarte, um dos homens da rádio que lutavam contra a cultura do vazio e da boçalidade profissional no seu meio, acaba de falecer. Fazia, como muitos profissionais da RDP ou da TSF, uma prova de resistência, mantendo a fasquia elevada e afastada da tagarelice em que os programas generalistas e de propensão para o entretenimento caíram. É preciso recuar ao início da iniciativa privada para descortinar algumas virtudes da emissão radiofónica, mas nesse tempo pagava-se o custo de um certo dogmatismo: depois, veio a suprema civilização de massas, a democracia do palavreado e da imbecilidade.

O mau gosto nas emissoras de rádio não é inevitável. A sua persistência, porém, é um verdadeiro indicador de decadência sem brilho e de baixa exigência profissional e intelectual. A rádio está cheia de pseudo-humoristas sem graça e incapazes de perceber que, na maior parte do tempo em que se atropelam em frases entrecortadas e imperceptíveis, estão a falar e a rir entre si e para si: nada daquilo envolve o auditório. É como se os ouvintes estivessem fora do círculo de amigos que une o grupelho de gaiatos, os locutores, recrutados sabe-se lá por que critérios para além de ostensivas gargalhadas. Entregues a miúdos que intoxicam o silêncio com disparates e ruído, os programas de rádio levam-nos às lágrimas pela sua vulgaridade, cada vez mais próxima da de certos programas televisivos vespertinos. É uma turba de falsários incapazes de proferir uma frase complexa que seja e de ascender a qualquer coisa de asseado e de decente quanto a conteúdos. E nem a música, actualmente mais refém de playlists duvidosas e repetitivas, higieniza o cenário. A música agora é outra: a da subjugação aos ditames económicos, aos patrocínios, à sponsorização, ao branding e a quaisquer outras formas privadas ou públicas de financiamento dos custos da actividade de radiodifusão.

Não vai ser fácil sair do atoleiro em que estamos metidos. Mudar de estação de rádio, de dois em dois minutos, não será certamente a solução. Mas é tempo de perceber que boas emissões de rádio, que incluem conversa, debate, música, crónica, informação, documentário ou reportagem, não se fazem sem profissionais qualificados para as funções que desempenham e não apenas bem-humorados, ufanos de si mesmos e prontos a partir a louça. Porque uma rádio, para continuar com Calabresi, “deve desenvolver um papel fundamental para a democracia acrítica, deve proporcionar o luxo de um olhar amplo sobre o mundo, fornecer o mapa claro que nos permita orientarmo-nos no caos que é o mundo em que hoje vivemos”. Julia Cagé alerta para a fragilidade e vulnerabilidade dos meios de comunicação. Vivemos numa escala de erros, de que o mais recente é reconhecer no entretenimento um lugar cimeiro na hierarquia da comunicação radiofónica.

Se Pedro Rolo Duarte aqui estivesse, com certeza que apelaria a um mais apertado controlo de qualidade e diria a esta nova geração que fazer rádio é muito mais do que ter a ilusão de ser engraçado e ter um microfone aberto em frente à boca. É uma pena que uma série de emissoras de radiodifusão nacionais celebrem as manhãs dos portugueses com uma estupidez tão contentinha e serôdia e com o triunfo do banal. Ao menos a música. Que dias, estes dias da rádio.

                                                                                                  António Jacinto Pascoal
Professor

Europa e políticas educativas

Pondo de lado algum exagero, a realidade não anda longe deste cenário e de uma hegemónica visão ideológica da educação.

Há no género humano uma pulsão atávica para o domínio e controlo do outro. A Europa destapa-se quando, a pretexto de programas educativos – através dos quais se promove a parceria de professores de países distintos e se fomenta a inspiração nos alunos em mini-projects -, se justificam práticas ditas inovadoras, recorrendo a uma monitorização musculada, despudorada e directiva. A Comissão Europeia, que financia o “Impact-Project”, tem os seus cães de fila.

Aparentemente, as regras são simples: quem paga é a Comissão Europeia, logo tudo se baseia numa lógica de prestação de contas, em que os resultados deverão ser sujeitos a aferição. No meio de tudo isto, a Saxion University da Holanda e o seu financiamento não serão um mero pormenor. Como a matéria impositiva surge invariavelmente de cima para baixo, o ónus da produtividade recai sobre as estruturas intermédias, uns tipos holandeses de ar tedesco encarregados de garantir a eficiência do trabalho entre parceiros latinos (catalães e italianos), os muito esforçados turcos e aquela gente de quem se diz não ser capaz de governar-se nem deixar que a governem, os portugueses. Para além disso, há elementos arregimentados da Turquia e Catalunha, por vezes mais escrupulosos no cumprimento da sua missão do que os categóricos líderes.

O plano de trabalho insere-se num tipo de discurso inscrito na ordem das recentes pedagogias, pouco originais, diga-se, do multilinguismo, da profissionalização e da internacionalização, fórmulas sagradas da nova ordem educativa. Muito barulho por nada, diria o dramaturgo inglês. Afinal de contas, isto não passa de uma habilidade linguística para produzir a ficção de que o ensino escapa ao método fabril de produção de aprendizagens, que os professores, pela aparência de um empenho desmesurado, se tornam mais eficientes e competentes (a isto chama-se profissionalização) e que urge ouvir as criancinhas cantar em três ou mais línguas. A Europa quer-se multicultural e multilinguista e a sua ideia de progresso passa por inscrever nas novas gerações a ideia de que os cidadãos podem rasurar nacionalismos e identidades nacionais, alegando que o seu lugar de pertença não é já o país, mas um vasto continente, assente nos valores do respeito e da tolerância. Mais línguas, mais oportunidades. Pondo de lado algum exagero, a realidade não anda longe deste cenário e de uma hegemónica visão ideológica da educação.

O que pouco se discute é que o plano europeu se constrói sob a égide de orientações à margem de discussão paritária, que os valores da Europa assentam numa igualdade forjada após décadas de colonialismo e de um actual neocolonialismo económico, que a superioridade moral europeia e o seu projecto são todos os dias postos à prova com a Frontex, com a complexidade de integração de refugiados, com os múltiplos muros construídos e forjados na ideologia proteccionista de Schengen e com os ideários neofascistas em ascensão, que a língua de trabalhos, ao jeito da diglossia, é uma língua de dominação (agora em paradoxal “Brexit”) da pax anglo-saxónica que ainda se impõe, e que de pouco adianta expor alunos a línguas várias, caso não seja introduzida uma componente antropológica e sociológica no ensino, mesmo sob feições elementares. Vivemos um momento de circuitos culturais, sem completa consciência do que nos manieta.

Isto acontece porque somos complacentes e mantemos um profundo sentido de obediência. Ainda não aprendemos a reagir ao insulto do poder e da autoridade. E a Europa, atavicamente, aí está para nos ler a cartilha.

                                                                                                  António Jacinto Pascoal
                                                                                                                           Professor

Perfil dos alunos – a carroça à frente dos bois

O documento de referência “Perfil dos alunos para o Para o Século XXI/Perfil dos alunos à saída da Escolaridade Obrigatória” estreia com a pretensão de um título pomposo, evocativo de todas as tentativas – de resto, goradas – de credenciar a área da Educação, desacreditada a partir dos anos 1990 e, em especial, mais recentemente em legislatura do Partido Socialista, por mão da ex-Ministra Maria de Lurdes Rodrigues. O título do documento, além de pomposo, rasa o parolo, para empregar um vulgarismo, reproduzindo todas as tentativas pretéritas falhadas para inovar, mantendo a fórmula do bom embrulho a ocultar a vacuidade – novas antenas continuam a difundir as velhas asneiras, diria Brecht. Considerar-se-ão, porventura, o “Perfil dos alunos à entrada na Escolaridade Obrigatória”, o “Perfil dos alunos durante a Escolaridade Obrigatória”, o “Perfil dos alunos no contexto dos valores e da disciplina nas escolas” e, em especial, o “Perfil, progressão e valorização laboral dos professores no Sistema Educativo”?

Serve-se ainda o documento do clássico esquema de prefácio impoluto, a que pretende emprestar uma roupagem humanista e ética, ao estilo do espírito da lei geral ou dos princípios orientadores da Constituição da República – também isso não é novo e, em geral, em bom modo de prática política, serve para levantar aquela nuvem de poeira que embota a vista. Para um discurso que busca, a todo o custo, enfatizar o carácter não padronizado do “perfil dos alunos” (“não visa qualquer tentativa uniformizadora”; “com necessária flexibilização”; “condições de equilíbrio”; não se adopta uma fórmula única”; “recusa de receitas ou da rigidez”), as marcas da linguagem argumentativa impositiva usadas por Guilherme Martins são demasiado notórias: 4 recorrências à locução “abriga a”, 2 recorrências à locução dos complexos verbais com obrigatoriedade (“dever + infinitivo”); 3 recorrências à locução “ter de”. Ficamos esclarecidos.

Os autores, dez, reputados em várias áreas do conhecimento, outorgam ao documento a sua validade, facto que não invalida elevada dose de relatividade – que outros dez (sem falar em consultores) forjariam documento afim ou díspar?

Do conteúdo não há a dizer muito, senão que se baseia, sensivelmente, na verdade do amigo banana: conclui-se que é necessário implicar uma série de valores (são referidos 5 itens, a que se cola o epíteto “elementos e características éticas”) naquilo que é a consecução de competências-chave (10) e que estas garantirão a idílica apropriação da vida, “nas dimensões do belo, da verdade, do bem, do justo e do sustentável, no final dos 12 anos de escolaridade obrigatória”. Ora, este plano de intenções não estará já subjacente àquilo que a escola, na sua missão de cidadania, pressupõe? Donde a novidade, então?

Garantem-nos os subscritores do documento, teimando, que o mundo ou a vida se acham em constante e rápida mudança e que os paradigmas educacionais têm de se lhe adaptar – como se se acabasse de descobrir o ovo de Colombo. Na realidade, o mundo muda, mas a mudança, se tomada pelos princípios dos valores enumerados e pelas dimensões a que justamente se interligam, é mínima. O que muda, não sendo os imutáveis valores por que se regem as sociedades, é o modo como nos apropriamos dos conhecimentos – muda a técnica, por meio da tecnologia, e sobretudo mudam os meios. Creio que esta deve ser a maior preocupação dos agentes que teorizam o ensino. De resto, parece quase risível que se afirme que a adopção deste perfil do aluno seja imperiosa “para que todos possam ser incluídos” (p. 8), como se a exclusão fosse parcialmente tolerável fora dele. Nessa mesma “carta de princípios” delira-se, quando se idealiza uma “revolução numa qualquer área do saber”, esquecendo que as revoluções respeitam planos mínimos e surgem, quase sempre, em contextos de adversidade, oportunidade e acaso.

Não creio ser este o caso de um documento suscitar polémica – pelo contrário, podemos estar todos de acordo. Aliás, parece mesmo ter sido forjado para uma concordância geral, e, se for o que se pretende ouvir, muito bem, concordamos. Mas, agora a sério, e a sua utilidade?

 António Jacinto Pascoal
Professor

 

Noli me tangere

pascoalA inquietação de alguns portugueses cultos (colunistas, jornalistas ou comentadores) tem o mérito de transformar em fontes de significado, de partilha emocional e de efeito devastador a mercadoria impressa. Uma certa aristocracia intelectual alimentada na imprensa permite-se algum controlo sobre a moralidade do regime. E bem. A dúvida está em saber se o resultado dessa cruzada não conduzirá a outro tipo de autoritarismos e a uma «falsa consciência»: a de que todo o tipo de jornalismo, intérprete do carácter “programático” da liberdade de expressão, é absolutamente inatacável.

Nunca nutri demorada simpatia por João Soares. A comunicação social, desde os anos 80, foi pródiga em rumores que tornaram Soares uma personagem de O Silêncio dos Inocentes, remetida a um sonambulismo de que jamais pareceu libertar-se, senão para existir no limbo da rede social durante anos, como agora recorda o jornalista Pedro Guerreiro. De resto, se podemos pressentir uma ideia de progresso capaz de apontar o dedo à pestilência política, à burocracia, ao laxismo, comodismo e estultice institucional do Estado, aos privilégios dos magnatas e ao banditismo público-privado e político, devemo-lo ao bom jornalismo, independente, sério e severo. O que não podemos confundir com mercadoria impressa enraizada em fantasias de condomínio e patrulhas pessoais. O perigo passou para a eventualidade de um jornalismo que pretenda dominar a política ou exercer nela o seu poder e expandir-se como qualquer outro totalitarismo.

Alguém dizia que arrombar uma porta não é um acto de violência se o arrombador for um polícia ou um bombeiro. Não é inteiramente verdade: um polícia e um bombeiro podem fazer uso de violência no exercício dos seus cargos. Aqui tratava-se de escrutinar se o ministro da Cultura (e não o cidadão João Soares), para além do ímpeto da sua convicção e do orçamento de que era refém, poderia apresentar algum tipo de eficácia ou plano. Mas talvez tenha sido discutível a equipagem linguística usada contra Soares, no formato do insulto grosseiro, tão contíguo à bofetada. Teorizar sobre a putativa ameaça de agressão física de Soares aos dois colunistas do PÚBLICO sabe somente a ranço, ao mesmo com que o CDS-PP e o PSD maquilham a face de virgens ofendidas. É preferível ignorar.

Invocar o direito à liberdade de expressão, essa modalidade do “não me toques” da democracia de opinião, gera permanentemente uma colossal embrulhada: o culpado também é vítima e vice-versa. Foi nisso que Soares se baseou para invocar, enfim, esse mesmo direito. Precisamos de uma cultura que distinga o admissível do inadmissível, desde que aquilo que nos parece inadmissível não seja o meio de reforçarmos a intolerância e a surdez. Geralmente convivemos demasiado bem com as nossas ideias.

António Jacinto Pascoal
Professor

É a hora?

pascoalA decadência de um país começa na ameaça à língua e no seu movimento autofágico. Se a percepção da morte é o que decide o tipo de respostas às perguntas vitais, também a percepção da língua inspira o asseio que ela mesma reclama. O desastre do acordo ortográfico de 1990, com todas as suas incongruências e antagonismos, ao que parece, não terá sido suficiente para deplorar e atalhar ao erro de perspectiva dos linguistas da tribo do Sr. Casteleiro. O ventríloquo tem na mão os seus bonecos. O mesmo que diz aceitar correcções “ao conteúdo” somente após ratificação do AO. É uma pena que, para não variar, se persista no erro (e na chantagem), evitando admiti-lo. Mas pode ser que a arrogância saia cara ao país.

Não sei se, obcecados pela febre de modernidade ou de outro tipo de cegueira, dou conta de mais alguns usuários convictos de que é inútil recuar. Três ou quatro são os argumentos reclamados: crianças há a usar o AO90; seria uma irresponsabilidade grave redefinir livros; os graves problemas capitais na nação não são este. E o dilema aparente é entre manter um erro ou mudar-lhe a face, para que não se fale em abandoná-lo. A verdade é que outras gerações de crianças coabitarão com as falácias da língua e os livros insistirão em manter a aparência da sua própria instabilidade. Quanto à gravidade do assunto, é o costume: já vimos tanto que aceitamos a inevitabilidade. E este é o remate acertado do movimento da decadência.

A validade do acordo é tão tíbia que, nas escolas, frequentemente surgem debates enriquecedores, quanto joviais – um destes dias, alguém lembrou que a supressão do “p” em “óptico” origina duas palavras convergentes, posto que “ótico” era já o adjectivo relativo a ouvido ou orelha. Este conflito, cheio de contradições, levou-me a evitar a grafia do AO mal foi implementado, ainda que, por dever moral, me tenha sentido na obrigação de manter o sistema do país destapado, por mor do superior interesse do aluno. Lecciono Português e todas as provas de avaliação da minha lavra são encimadas com a seguinte nota: “O presente enunciado não respeita as normas do AO90, ainda que os alunos sejam obrigados a respeitá-las”. Não consigo deixar de correr na pista de fora.

A mesma leviandade que permitiu este tipo de acordo é a que legitima todo e qualquer outro novo acordo, nos moldes que se pretenda e sob os critérios mais obscuros que se possa conceber – o terreno está preparado para a sementeira e a colheita garantida, já que muitas vozes responsáveis – professores dos departamentos de línguas, por exemplo – têm as almas reduzidas ao tamanho da capitulação. É penoso assistir ao desfile de lamúrias de quem dá o combate por perdido.

Acredito num ensino que, como alguém disse, seja um regresso à cultura e, portanto, seja um regresso à dignidade da língua, já que a estupidez, a incultura e a arrogância não são limitadas. Se o repúdio deste acordo é uma questão de ir à boleia dos palpites do Sr. Presidente da República, que não se hesite em levantar o polegar.

António Jacinto Pascoal
Professor