o A.B.C. da B.D. – 12 (fim)

ABC da BD

A ONOMATOPEIA

No seio da organização morfológica dos elementos da linguagem da BD pode atribuir-se à onomatopeia um lugar excepcional, na zona de intersecção entre texto e imagem. Tal aceitação significa que não se reconhecerá à onomatopeia visualizada dos quadradinhos uma predominância fonética nem uma caracterização exclusivamente imagística.

No contexto literário, a onomatopeia assume um papel foneticamente imitativo ou aproximativo, dada a impossibilidade de reprodução exacta dos sons ou ruídos naturais. De Gil Vicente a Guerra Junqueiro, de James Joyce a Norman Mailer, gerações de escritores, poetas e dramaturgos vêm usando onomatopeias nas suas obras. O próprio Régio, entre os seus poemas, criou um a que significativamente chamou… Onomatopeia!

Os historiógrafos da BD ainda não atingiram um consenso absoluto quanto à paternidade das primeiras onomatopeias surgidas nos quadradinhos, ainda que a maioria se incline para Tom Browne, o autor inglês da série Weary Willie and Tired Tim, criada em 1896. O que parece indiscutível é a certeza da profunda evolução sofrida pela onomatopeia desenhada, em confronto com a onomatopeia escrita. De início, elas não se distinguiam senão pela sua diferente implantação, pois formalmente eram idênticas. Hoje a situação é muito distinta e talvez não seja exagerado afirmar que a onomatopeia da BD constitui um dos elementos mais dinâmicos e influentes na narrativa, através da interacção conseguida pela sua forma e pela sua função.

As onomatopeias consistem em grafemas com valor gráfico que sugerem acusticamente ao leitor os ruídos produzidos no decorrer de uma acção, por objectos e instrumentos, veículos e animais. No caso destes últimos, há a ressalvar as excepções (muito generalizadas!) dos animais “humanizados” – Pato Donald, Gato Félix, etc. – que logicamente “falam” por intermédio de balões.

No actual estádio gráfico da BD, a onomatopeia só muito raramente surge inserida no espaço físico do balão. Com efeito, a sonoridade a que se reporta existe naturalmente livre no meio ambiente. Aliás, a crítica por vezes feita quanto à proliferação desenfreada das onomatopeias nos quadradinhos parece não levar em conta a correspondente poluição sonora no mundo moderno…

No contexto da BD, o grande valor plástico progressivamente adquirido pela onomatopeia conduziu à sua natural integração orgânica na composição icónica da vinheta, do mesmo modo que a sua inestimável função narrativa a tornou um indispensável agente de ligação na montagem de vinhetas sucessivas.

Tornou-se tecnicamente impossível apagá-la ou adaptá-la, como se procede quanto aos balões ou às legendas, na tradução de histórias importadas do estrangeiro.

É fácil constatar que uma grande parte dos grafemas onomatopaicos deriva directamente do idioma inglês, muito rico em substantivos e verbos fonossilábicos dotados de enorme expressividade acústica.

Como o carácter arbitrário dos códigos linguísticos conduz a variações fonéticas (gráficas e não só!) duma língua para outra, o resultado de tudo isto consiste no inevitável destaque de flamantes onomatopeias “ilegíveis” em português… Um motivo mais para alimentar as críticas dos puristas e os purismos dos críticos!

Afinal, toda esta aparente incoerência pode resolver-se com simplicidade. Basta considerar que o ruído, na BD, muito mais do que sonoro, é visual; basta aceitar, como consequência lógica do anterior princípio, que a onomatopeia lá figura muito mais para ser vista do que para ser lida!

A esta luz, e na linha de defesa do estatuto do leitor-criador do sentido, torna-se meramente simbólico o esforço de muitos estudiosos da BD que nos têm presenteado com (quase) intermináveis listas ordenadas de onomatopeias mais a respectiva e cuidada “tradução”.

Aos puristas da língua a quem esta réplica às suas inquietações possa chocar, lembrar-se-á que alguns gramáticos de renome consideram a onomatopeia fora do verdadeiro corpus linguístico, apenas a aceitando na sua fronteira.

Autêntico objecto de design gráfico, a moderna onomatopeia na BD faz um uso inteligente do lettering, manipulando tipo, tamanho, estilo, forma e cor das letras, num jogo fascinante de múltiplas funções e de combinatórias inesgotáveis, que o computador veio potenciar.

MUITO BARULHO PARA NADA

A proposta presente afigura-se de organização prévia bastante fácil. Basta procurar em colecções de revistas ou jornais de quadradinhos um conjunto de exemplos de uma -só uma!- qualquer onomatopeia que se escolha entre as mais frequentes – CLICK – CRACK – CRASH – GULP – SMACK – SNIFF – SPLASH – PLOW – ZING – ARGHH – DRRING – CRUNCH – PLIC – ZAAAAP – CROIING – PLOUF – SLAM – CRAAAC – BOUM – BROOOOOOM – BAOUM – ……. enfim, uma qualquer entre milhentas possíveis e disponíveis.

A escolha é aleatória, nem aí interessando série, personagem ou autor em que se possam encontrar.

Neste caso a pesquisa incidiu sobre uma das mais vulgares ou frequentes onomatopeias usadas na banda desenhada, BANG, simples até porque nem sequer usa qualquer das letras que o moderno “achordo ortographico” impingiu ao nosso normal alfabeto latino. Por mero acaso, duas das quatro arroladas até são da mesma autoria, nem se justificando identificá-la.

abc 12

A proposta será não apenas lê-las, mas descodificá-las, isto é, encontrar e justificar a sua verosimilhança. Por verosimilhança entenda-se o acordo possível entre fonética e sonoridade, entre representação e “original”, entre referência e referente.

Analisadas uma a uma, sem qualquer confronto colectivo, poderá aceitar-se, embora por vezes no limite da tolerância, que um tiro soe BANG, que um curto circuito devido à queda de um raio soe BANG, que um mina terrestre soe BANG, que um pontapé numa mesa soe BANG

Porém, se decidirmos acreditar que o estrépito de um tiro, o estampido de um curto circuito, o troar da explosão de uma mina terrestre ou o barulho de um pontapé numa mesa soem da mesmíssima maneira, então as coisas mudam totalmente de figura. Aquilo que isoladamente poderia aceitar-se parece agora ilógico e incompatível. BANG perdeu em sentido universalista o que ganhou em arbitrariedade…

Em boa verdade, somos levados a perceber que, nesta área do ruído “escrito” existe um espaço de interpretação pessoal entre a “leitura” da onomatopeia e o som real que ela pretende imitar.

E não existe qualquer incoerência nesta constatação. Entramos aqui num campo, quase “mágico” porque muito personalizado, que nos proporciona por exemplo a significação dos signos cinético (movimento) ou das metáforas visualizadas (emoções, sentimentos), outros recursos da riquíssima linguagem da banda desenhada. Será sempre do encontro entre a codificação aplicada pelo autor-emissor e a descodificação utlizada por cada um de nós, leitores-receptores, será sempre desse diálogo entre distintos reportórios que resultará a aquisição do sentido da mensagem.

A onomatopeia na BD, em vez de sonora, é visual; ela está lá muito mais para ser vista do que para ser lida.

 António Martinó de Azevedo Coutinho

Nota – Com mais este exemplo dos pretextos que o ICAV me inspirou nos domínios fascinantes dos quadradinhos, dou por finda a série.

 

o A.B.C. da B.D. – XI

ABC da BD

O VERBAL E O ICÓNICO (Generalidades)

Qualquer estudo sobre a Comunicação, por mais elementar, contém referências às grandes etapas cronológicas desta forma de relação humana.

Se no princípio era o verbo, juntámos-lhe hoje a imagem. Se à palavra dita se seguiu a palavra escrita, poderemos afirmar que dispomos agora da palavra ilustrada?

Tudo continua a depender da palavra ou será legítimo considerar a imagem como autónoma?

Eis-nos perante uma questão complexa que permite uma série de abordagens complementares. Uma, de natureza histórica, tratará de saber quais foram, ao longo dos tempos, as relações da escrita com a imagem. Outra, também possível, de natureza psico-fisiológica, consistirá em analisar o modo como funciona para o leitor todo o complexo sistema verbo-icónico que associa texto e imagem.

Quais são basicamente as relações entre o visível (a imagem) e o lisível (o texto)?

Pode considerar-se o texto como um sistema de signos digitais e arbitrários, composto por unidades autónomas e contáveis. Por signos digitais e arbitrários deve entender-se sinais organizados segundo um código convencional que não tem, por princípio, nenhuma relação com o real. As unidades autónomas e contáveis do texto são as palavras, por sua vez compostas de letras e arrumadas em frases.

Quanto à imagem, ela é um sistema de signos analógicos e motivados, composta por um todo contínuo e global. Por signos analógicos e motivados deve entender-se sinais organizados segundo códigos que derivam de relações (perceptivas) com o real. Porque existem vários tipos de imagens (olfactivas, sonoras, gustativas, etc.), fica desde já implícito que a designação imagem se refere, no contexto deste volume, ao visível. O todo contínuo e global da imagem visual compõe-se, portanto, de traços, manchas e cores.

Associação porventura complexa de dois sistemas de signos tão distintos, a banda desenhada insere-se na linguagem verbo-icónica, feliz expressão proposta por René la Borderie hoje universalmente aceite.

Quanto às diferentes combinatórias possíveis entre o verbal e o icónico, ao nível mais profundo da organização das mensagens, será interessante conhecer um esquema. Este foi adaptado e simplificado, a partir de uma proposta do próprio René la Borderie, apresentada em Les Tentations de la Pedagogie Differé (capítulo de Aspects de la Communication Éducative, Casterman, 1979). Neste esquema associam-se os signos (verbal e icónico), as modalidades perceptivas implicadas, o tratamento sofrido, a natureza essencial da mensagem e as distintas combinatórias desta, ao nível do seu sentido:  

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1 – ICÓNICO – Diz-se de um signo que possui um certo grau de semelhança com aquilo que representa.
2 – TRATAMENTO CINÉTICO – Operação sobre a representação do movimento na imagem: utilização de planos, sequências, etc.
3 – TRATAMENTO ICÓNICO – Operação sobre os traços pertinentes e/ou as variáveis facultativas: acentuar ou ocultar os elementos mais susceptíveis de ser tomados em conta para a significação – utilização da cor, esquematizações, etc.
4 – TRATAMENTO DIEGÉTICO – Operação sobre as relações entre o tempo narrativo e o tempo narrado: utilização de elipses, flashbacks, montagens analíticas, etc.
5 – TRATAMENTO ESTOCÁSTICO – Operação sobre as possibilidades de recepção homogénea ou heterogénea num meio determinado: utilização de estilos, realismo, etc.
6 – Tendência para a monossemia (singular de sentidos ou sentido único): livro didáctico, sinalização de trânsito, etc.
7 – Tendência para a polissemia (plural de sentidos): poesia visual, banda desenhada, etc.

Não esgotando a análise das relações entre o verbal e o icónico, aqui ficam algumas pistas que permitirão um melhor conhecimento da banda desenhada, enquanto forma de Comunicação.

 SEMIOLOGIA VERSUS LINGUÍSTICA
OU AS DUAS FACES DA MESMA MOEDA

 A Banda Desenhada -já atrás isso ficou relatado- utiliza um sistema de comunicação em que as imagens podem assumir um papel linguístico, enquanto os textos podem desempenhar uma função icónica. Dito isto de outra forma, poderá afirmar-se que são passíveis de troca, pelo menos sob certas circunstâncias, os seus códigos significantes habituais.

Tarzanito é uma das paródias mais conseguidas quanto ao mito do homem-macaco, enquanto Tintin é… Tintin.

O sugestivo “diálogo” entre Tarzanito e o jovem negro é travado exclusivamente sob a forma icónica e gestual, através de balões-fala e balões-pensamento preenchidos com ideogramas e sinais diacríticos. No entanto, podemos atribuir a tais conteúdos um sentido pleno, apesar da total ausência de qualquer texto.

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No caso da grande vinheta da página de Tintin, esta encontra-se preenchida por uma significativa quantidade de texto pleno de informação, apto a fornecer resposta cabal aos desenvolvimentos da trama até aí relatada. O mais curioso da questão reside no facto de a totalidade do texto ser apresentado como imagens soltas de recortes de jornais diversos… Portanto, estes discursos verbais impressos e tornados imagem são assim devolvidos à sua vocação linguística essencial.

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Situações comunicativas destes géneros e de outros similares ou afins são muitos frequentes nas páginas das histórias que lemos. Muitas vezes, nem sequer nelas reparamos, dada a familiaridade e o sentido meramente recreativo com que lidamos com os quadradinhos.

Mas vale a pena, pelo menos de vez em quando, parar um pouco, reler e reflectir. A BD e os seus criadores agradecem…

 António Martinó de Azevedo Coutinho

 

o A.B.C. da B.D. – X

ABC da BD

Toda e qualquer narrativa servida pelos suportes verbo-icónicos, audiovisuais e multimédia implica a montagem. Esta traduz-se nas operações pelas quais se define e concretiza a maneira de articular espaços e tempos significativos para assim conferir à narração da história o ritmo e efeitos pretendidos.

Se no cinema (vídeo ou DVD) e na informática (powerpoint, por exemplo) estas operações se exercem a posteriori sobre o material já colhido (ou construído), se na televisão (em directo) decorrem em simultâneo com a captação das imagens e do som, pode dizer-se que na banda desenhada a montagem é globalmente concebida a priori, no próprio acto complexo da criação da história.

Portanto, os esquemas morfológico e sintáctico da linguagem BD englobam planos/ângulos/enquadramentos e equilíbrios articulados, paralelamente, entre esta participação icónica e a componente verbal/sonora/simbólica traduzida em legendas, balões ou onomatopeias. Estes elementos participam tanto da organização interna de cada vinheta (morfologia) quanto da articulação entre as vinhetas consecutivas (sintaxe), à semelhança do que acontece com as imagens do cinema e da televisão. Por outras palavras, pode dizer-se que funcionam simultaneamente como sistema (significante) e como natureza (significado).

A organização interna de cada vinheta, a sua articulação na página e, finalmente, na história completa, normalmente em função do álbum a que dará origem, todo esse processo exige uma lógica baseada na integralidade.

Por isso, as posteriores intervenções soltas não previstas originariamente podem desarticular todo o processo, ou, no mínimo, prejudicar o seu equilíbrio.

 AS MONSTRUOSIDADES VULGARES

Parafraseando José Régio, poder-se-á afirmar que o universo dos quadradinhos também apresenta as suas monstruosidades vulgares, pequenas “transgressões” à normalidade criativa e gráfica que constitui, felizmente, a regra geral.

Escolhemos hoje um exemplo, talvez extremo, de uma espécie de “atentado” não muito vulgar, o de estropiar a obra alheia, em cópias (!?) de mau gosto estético, literário e, sobretudo, ético.

Num período já tardio de O Mosquito, pelos anos 50, surgiram nas suas páginas algumas adaptações de obras literárias clássicas de autores nacionais de nomeada, como Alexandre Herculano e Eça de Queirós, devidas à criatividade de um dos maiores desenhadores portugueses de sempre, Eduardo Teixeira Coelho.

Foi o caso de A Torre de D. Ramires, conto de Eça incluído na sua obra A Ilustre Casa de Ramires. Quase um quarto de século mais tarde, o Jornal do Cuto reeditou muitas dessas histórias, entre as quais a referida. Ainda depois, uma outra revista infanto-juvenil de BD, O Falcão, recuperaria a banda desenhada em causa, ainda que disfarçada com outras “roupagens”.

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Atente-se, desde já, às capas que respectivamente assinalam as distintas publicações, com a do Jornal do Cuto respeitando a ilustração original e apenas lhe alterando o colorido, enquanto a de O Falcão consiste numa sua versão livre, “anarquia” plenamente confirmada no próprio título…

Sem comentários, por supérfluos, aqui se deixam cinco pares de vinhetas, respectivamente seleccionadas do Jornal do Cuto (C) e de O Falcão (F), a fim de que possam ser apreciadas as tropelias de toda a ordem cometidas sobre os textos e as imagens, até na “invenção” dos balões que Eduardo Teixeira Coelho nunca usou nas adaptações da obra literária de Eça de Queirós…

10 b 10 c 10 d 10 e 10 f

René la Borderie e o ICAV – XIII (fim)

RENECABEÇALHO

O ICAV desfez-se e todos os sonhos projectados também.

Terminei assim a última crónica onde procurei recordar, e disso deixar uma cronologia básica, as aventuras e desventuras do ICAV. Creio que, em verdade simples e honesta, devo rectificar aquele termo.

O ICAV, tecnicamente, desfez-se enquanto projecto oficial, organizado e promissor. O ministério da Educação que o suportava era composto por homens. Como hoje.

Se é certo que não tem comparação possível a qualidade dos responsáveis de então com a dos actuais, debatiam-se aqueles no entanto com dificuldades e limitações. Provavelmente, na sua pragmática avaliação, ainda que reconhecendo -como aconteceu- os inegáveis méritos dessa operação pedagógica, contrapunha-se-lhes a complexidade da sua generalização. E isto é, também, inegável. Provavelmente, a decisão assumida, embora dolorosa, foi realista.

O ICAV desfez-se mas não todos os sonhos projectados – está feita a imperiosa correcção.

Se os sonhos projectados -o que faz pular e avançar o mundo como nos ensinou o poeta, que por acaso também foi professor- se tais sonhos tivessem sido desfeitos, então eu não seria impelido a evocar, como evoquei, a grata memória de René la Borderie, quando soube da sua morte física. Sobrou-lhe a alma. E a obra.

Se os sonhos projectados tivessem sido desfeitos, então eu já teria esquecido gente invulgar que, como ele, também já nos deixou, como Pierre Dumont, José Antunes da Silva, Rosinda Vieira, Conceição Mendes “Concas“…

icav final

Se os sonhos projectados tivessem sido desfeitos, então eu não acalentaria, como acalento, a reencontrada amizade gerada no seio do ICAV, com gente igualmente invulgar, como Hélder Pacheco ou Anthero Monteiro, por exemplo…

Se os sonhos projectados tivessem sido desfeitos, então eu não seria impelido a lembrar e mesmo a reconstituir, aqui e agora, fascinantes experiências vividas na prática do ICAV, como o ABC da BD ou o diaporama Azul e Amarelo igual a Verde

Se os sonhos projectados tivessem sido desfeitos, então eu não estaria a homenagear o vulto e a marca, gigantescos, que a activa presença tutelar de René la Borderie significou para tantos e tantos anónimos cidadãos, por todo o mundo, como nós, os que aqui vivemos as fascinantes e provocatórias propostas com que nos desafiou. Com que nos desafiou e com que nos fez crescer em responsabilidade e tolerância para connosco e para com os outros.

 rene final

A Comunicação é um universo que nos tolhe e que nos liberta. A dimensão com que ela nos toca depende daquilo que sobre ela pensamos, daquilo que sobre ela decidimos, em passividade como em reactividade. Os nossos direitos de plena cidadania são contaminados, para o Bem como para o Mal, pela Comunicação.

Interrogá-la e, sobretudo, interrogarmo-nos a seu propósito faz parte da cultura democrática do nosso tempo. E esta foi a lição, imensamente simples, tremendamente complexa, que René la Borderie nos legou.

Paz à sua alma, sábia e generosa.

António Martinó de Azevedo Coutinho

René la Borderie e o ICAV – XII

RENECABEÇALHO

(continuação)

18 de Março de 1986 – Nova proposta, n.º 248, para alargamento da Operação ICAV, com passagem de 25 para 32 professores, com 2 coordenadores nacionais. A Directora de Serviços, Dr.ª Aura Goulão, aceitou a primeira componente da proposta e adiou, novamente, a segunda…

Junho de 1986 – número 8 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEB

12 - d

8 e 9 de Julho de 1986 – Faro – Acção de sensibilização ICAV para orientadores pedagógicos, no Centro de Apoio Pedagógico

1986/88 – Pela primeira vez, é aprovada para um período de dois anos lectivos a Operação ICAV, sendo a experiência alargada a 32 professores.

21 a 23 de Outubro de 1986 – Encontro Nacional de Experimentadores ICAV – Praia Grande

Dezembro de 1986 – número 9 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEB

Março de 1987 – número 10 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEB

2 a 4 de Junho de 1987 – (Praia Grande) Encontro Nacional ICAV

12 - a

Julho de 1987 – número 11 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEBS (com um “dossier” alusivo ao diaporama Azul e Amarelo igual a Verde, inspirado pela prática ICAV e premiado com a Medalha de Ouro da Fedération Internationale de l’Art Photographique, no Festival de Portalegre)

1987/88 – No início deste ano lectivo, o senhor Director-Geral do Ensino Básico e Secundário declara que a Operação ICAV passará a funcionar, não já como Experiência, mas integrada nas actividades normais da DGEBS.

Dezembro de 1987 – número 12 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEBS

Março de 1988 – número 13 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEBS

12 - c

3 a 5 de Maio de 1987 – Praia Grande – Encontro Nacional ICAV, onde os experimentadores elaboraram um relatório sugerindo a possível e desejável estrutura de integração do ICAV na DGEBS, conforme intenção declarada pelo seu máximo responsável. Este relatório, na íntegra, foi publicado como separata, autónoma, ao n.º 14 da revista IC.

Junho de 1988 – número 14 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEBS + uma separata.

12 - e

26 de Junho de 1988 – Num despacho do Secretário de Estado da Reforma Educativa, o ICAV deixou de ser “Experiência Pedagógica” e foi institucionalizado no âmbito dos projectos da DGEBS, designadamente no contexto da formação contínua de professores.

13 de Fevereiro de 1989 – Proposta do Gabinete ICAV para uma cadeira semestral de Comunicação Educativa – Educação para a Comunicação na Escola Superior de Educação de Portalegre.

Julho de 1989 – número 15 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEBS. É aqui 12 - fapresentada uma súmula do trabalho realizado ao nível dos diversos sectores, incluindo participação no Diaporama 89 – 4.º Festival Internacional de Diaporama de Portalegre, através de uma comunicação proferida pelo coordenador nacional José Antunes da Silva. Juntam-se os textos das comunicações de Antunes da Silva, António Martinó, Carlos Capucho e Manuel Vilas-Boas. Igualmente se refere a abertura do presidente da Comissão Instaladora da Escola Superior de Educação de Portalegre para a eventual criação aí de uma cadeira, em regime de opção, sob os auspícios do ICAV. Finalmente, integra este número um cuidado índice de todos os IC publicados.

12 - b

Janeiro de 1990 – número 16 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEBS (o último). Começa com um notável e premonitório texto/editorial subscrito por José Antunes da Silva, de título Quem manda, manda bem. Termina assim:
Como disse René la Borderie, a relação com o saber faz-se sempre através dos modos de comunicação do saber. Os problemas da Educação e do Ensino/Aprendizagem são, antes de mais nada, problemas de Comunicação. Tanto bastaria para se entender a necessidade de definir uma área na escola e na formação de professores, especificamente dedicada à Comunicação: à Educação para a Comunicação – ao ICAV. E tanto bastou. Mas não podemos ficar por aí. Despachos anteriores apontaram para a generalização do ICAV. O ‘Despacho ICAV’ orienta-o para a formação contínua e a perspectivação da Reforma em curso. Mas ainda lá não estamos. É preciso esclarecer o que supúnhamos estar esclarecido; é preciso vencer o que devia estar vencido. É preciso divulgar, sensibilizar, investigar, formar. E é preciso confia em que quem manda… continue as boas tradições“.

Quem mandou, mandou bem. Isto é, à portuguesa. [este comentário, final, é da minha responsabilidade]

O ICAV desfez-se e todos os sonhos projectados também.

António Martinó de Azevedo Coutinho 

René la Borderie e o ICAV – XI

RENECABEÇALHO

(continuação)

11 de Agosto de 1982 – Um despacho da DGEB, sobre proposta n.º 539, mantém os 28 experimentadores do ano anterior, os quais solicitaram uma avaliação oficial do projecto, a qual foi cometida ao Núcleo de Avaliação da DSPRE. O relatório final desta avaliação oficial e autónoma termina assim:
A incidência da Operação ICAV na Escola e na Formação de Professores ficou verificada de uma forma positiva, sendo agora necessário que a divulgação e a expansão do ICAV constitua assunto sobre o qual de devem debruçar experimentadores e Organismos a cuja competência diz respeito o possível alargamento e/ou integração curricular desta Experiência“.11 - b

1982/83 – País – Experimentação ICAV com 28 turmas

Abril de 1983 – Encontro Nacional de experimentadores ICAV – Praia Grande

19 de Julho de 1983 – Um despacho desta data determina que a designação Experiência ICAV seja substituída por Operação ICAV, embora continue inserida no capítulo Inovação Educacional. No entanto, a “confusão” oficial entre as designações permanecerá…

21 de Julho de 1983 – Um despacho da DGEB sobre proposta n.º 682 cria uma estrutura autónoma para a Experiência ICAV, com 1 Coordenador Nacional, 1 Coordenador regional por cada sector e experimentadores, sendo dotada de um órgão de ligação interna e divulgação externa, a revista IC.

Esta decisão foi aprovada, nesta data, pela Secretaria de Estado, contendo a proposta de “que o tipo de trabalho até agora realizado como Experiência ICAV -classes com alunos e trabalho colectivo de auto-formação de professores- passe a constituir actividade normal, a generalizar gradualmente ao ritmo da formação de novos quadros e segundo estrutura adiante explicitada“.

1983/85 – Autorizado o funcionamento da Experiência ICAV com 25 professores.

11 - a

 11 a 13 de Outubro de 1983 – Encontro Nacional de experimentadores ICAV – Praia Grande

Janeiro de 1984 – número 1 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEB

24 de Fevereiro de 1984 – Lisboa – Seminário para futuros experimentadores ICAV, na Escola Francisco de Arruda

Abril de 1984 – número 2 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEB

Julho de 1984 – número 3 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEB

11 - d

4 de Outubro de 1984 – Apesar dos pareceres positivos e da intenção de generalizar a Operação ICAV, foi negado novo alargamento e apenas autorizado o seu funcionamento nas condições do ano anterior, sobre proposta n.º 311 e já mesmo em cima do começo das aulas…

Novembro de 1984 – número 4 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEB

8 de Novembro de 1984 – Lisboa – Conferência de René la Borderie, sobre Novas Tecnologias e Educação, na inauguração das novas instalações do Instituto Francês em Lisboa, Avenida Luís Bivar (texto no n.º 5 de IC e debate no n.º 6)

Janeiro de 1985 – número 5 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEB

Março de 1985 – É proposto o funcionamento da Experiência para 48 professores (cerca de um novo para cada um dos existentes), organizados em 5 Sectores e com 2 Coordenadores nacionais.

O parecer da Directora de Serviços da DSPRE concordou com a proposta, isto é, com o alargamento progressivo da Experiência, embora negando a nomeação de outro Coordenador. No entanto, tudo ficou na mesma…

11 - c

16 a 18 de Abril de 1985 – Encontro Nacional de Experimentadores ICAV – Praia Grande

Maio de 1985 – número 6 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEB

25 de Junho de 1985 – Apesar dos pareceres extremamente favoráveis da DAP e da DSPRE apostos à proposta n.º 162, o Despacho desta data confirma o funcionamento da Operação ICAV nos termos anteriores.

5 a 7 de Novembro de 1985 – Encontro Nacional ICAV – Praia Grande

9 de Dezembro de 1985 – Lisboa – Acção de sensibilização ICAV para orientadores pedagógicos, no Centro de Apoio Pedagógico

11 - e

Janeiro de 1986 – número 7 da revista IC – Gabinete ICAV – DGEB

 (a continuar)

o A.B.C. da B.D. – oito

 

ABC da BD

O BALÃO

Fundamental elemento da linguagem da BD, o balão tem como finalidade integrar graficamente o texto dos diálogos (ou monólogos) e o pensamento das personagens na estrutura icónica dos quadradinhos. Assessoriamente, pode desempenhar outras funções.

Não constituindo uma “invenção” pura da BD (recordemos a filactera medieval), parece correcto afirmar-se que o balão representa uma magnífica adopção (e adaptação), sem embargo do reconhecimento da existência de bandas desenhadas de grande qualidade, onde ele foi radicalmente ignorado (ou desprezado?!).

Encontramos cinco partes componentes, distintas, num balão, cujas potenciais combinatórias são quase infinitas e proporcionam a cada autor –e sobretudo aos leitores– um excelente exercício de criatividade: linha envolvente, forma, conteúdo, cor e apêndice.

Balão esquema

Se o conteúdo e o apêndice do balão constituem as suas partes fundamentais, ou substantivas, a linha envolvente, a forma e a cor do fundo adjectivam-no ou caracterizam-no em pormenor. O reconhecimento das distintas partes componentes do balão bem como das suas funções resulta, naturalmente, da análise e do confronto entre os múltiplos espécimes constantes do abundante material posto à disposição dos leitores.

O balão-texto participa dos códigos figurativo e linguístico, “transformando” a escrita em som. O seu lugar é o resultado de um compromisso tácito com o desenho e não encontra justificação a partir de um ponto de vista exclusivamente realístico. Assim, se por um lado o balão possibilita e facilita a narração, por outro ele pode ser sentido como um verdadeiro atentado ao equilíbrio estético da imagem. Este fenómeno torna-se particularmente nítido na obra de alguns autores consagrados que sacrificam a fluidez da narração à composição da vinheta, como Harold Foster ou Alex Raymond.

A característica fundamental das falas inscritas nos balões é o emprego sistemático do discurso directo, por meio do qual as personagens falam por si mesmas, com autenticidade. Quanto aos pensamentos inseridos nos balões, o fenómeno reveste-se de uma certa originalidade, geradora de “cumplicidades” e por vezes injustamente desprezada. Trata-se de uma informação fornecida em exclusivo ao leitor, através de uma subtil intromissão do narrador (ou autor!?) dentro da personagem, intromissão “metafísica” capaz de ler e revelar o próprio pensamento dos heróis.

Justifica-se, ainda, uma referência ao lettering dos textos, onde a utilização do tipo “script” (manuscrito) permite uma personalização das falas, demasiado impessoais quando servidas pelos vulgares caracteres tipográficos empregados durante muito tempo. Também as variações no estilo, no tamanho, na espessura e noutras características de cada tipo de letra utilizado permitem um jogo narrativo muito eficaz, que alguns autores manipulam com grande dose de originalidade, como é o caso de Uderzo, na série (original) Astérix.

Nota – O exemplo hoje aqui trazido traduz com rigor uma realidade balão sobeque, por vezes, a mim próprio escapa. A aparente “frescura” das propostas revela a permanente actualidade da banda desenhada -sobretudo da “clássica”- e não constitui portanto qualquer mérito pessoal. É que o caso de hoje remete metaforicamente para a canção Sobe, sobe, balão sobe, que Manuela Bravo cantou no Festival Eurovisão da Canção de 1979. Estes trabalhos sobre a banda desenhada eram praticados em ambiente escolar, no âmbito curricular da Educação Visual e sob a égide da Operação ICAV -não o esqueçamos- nos princípios da década de 80. Já foi há uma geração atrás…

SOFRE, SOFRE, BALÃO SOFRE!

O exemplar n.º 5 (Ano 2) da revista Tintin, relativo a 28 de Junho de 1969, publicou mais uma página (ou prancha) da aventura Tintin no Tibet, do belga Hergé. A situação é a seguinte, como aliás se depreende do respectivo contexto: numa aldeia tibetana, o jornalista pede uma informação aos habitantes, quando soa um grito. O capitão Haddock, que provara um punhado de vegetais a secar ao sol, sentira a boa e a língua em brasa, em virtude do picante…

vinheta a

A edição n.º 1160 (Ano XV) da revista O Mosquito, publicada no dia 5 de Agosto de 1950, revelou mais uma página da aventura de Cuto, da autoria do espanhol Jesús Blasco, intitulada A Ilha dos Homens Mortos. Aí, segundo se lê, o jovem herói era acompanhado por dois amigos, Floch e Tolo. Este, entretanto perdido dos seus camaradas, foi surpreendido num recanto dos subterrâneos por um misterioso homem sem rosto…. Desesperadamente, Tolo tenta gritar por socorro, chamando em vão pelo seu amigo Floch…

 vinheta b

 Estes dois balões, quando postos em confronto, fornecem-nos material de trabalho susceptível de conduzir ao entendimento claro do papel atribuído por cada autor ao instrumento comunicativo que habilmente foi por ele manipulado.

balão aDesde os apêndices –indicativos da voz “em off” de Haddock ou da fala de Tolo, bem presente e “agarrado” dentro do enquadramento–, às cores –o “fogo” do balão-chama ou o branco do balão “congelado”–, às formas –a “chama” estilizada ou obalão b “bloco de gelo” derretendo-se–, às linhas envolventes –as “labaredas” irradiantes ou as “estalactites” pendentes– e aos conteúdos –o grito estridente ou o apelo sufocado–, tudo é formalmente comparável e muito rico em sugestões aptas a uma exploração linguística bastante aprofundada.

Balões - confronto

Exemplos deste género abundam no universo dos quadradinhos e dão para entender a infindável variedade dos pretextos aí contidos, na pesquisa e discussão dos “segredos” de uma linguagem verbo-icónica riquíssima de insuspeitas combinatórias.

 António Martinó de Azevedo Coutinho