parabéns a um quarteto de portistas amigos

No dia 8 de Maio de 2018, há mais de dois anos, coloquei aqui no blog um texto –melhor, um poema!- de saudação e parabéns a três amigos que são indefectíveis portistas: Hélder Pacheco, Anthero Monteiro e José Trindade. Hoje junto-lhes um outro, mais recente: Pedro Serafim.

Agora, neste novo pretexto de justo júbilo desportivo, não quero deixar de lhes endereçar um renovado abraço amigo de parabéns, reconhecendo sem favor que o seu clube mereceu inteiramente a conquista deste campeonato. Foi o único que lutou em coerência e permanência por esse objectivo, com ou sem pandemia.

Sirvo-me outra vez da inspirado obra de um deles, Anthero Monteiro, para daqui simbolicamente me congratular com o êxito desportivo do FCP. O poeta apoiou-se num ícone de outro poeta. O eterno Cântico Negro aparece aqui “transfigurado” com tal criatividade que até José Régio, seu imortal criador, provavelmente não se sentiria “ofendido” pela sábia e feliz adaptação. Quem sabe até se Régio, minhoto e como tal nortenho convicto, não poderia ter sido adepto ou simpatizante do grande clube da sua região!?

CÂNTICO AZUL E BRANCO

«Vem para aqui» – dizem-me alguns com olhos de carneiro mal morto,
 estendendo-me os braços, e seguros
 de que seria bom que eu os ouvisse
 quando me dizem pra sair do Porto.
 Eu olho-os com olhos de desprezo
 (há, nos meus olhos, um carvão aceso)
 e fico ao chão bem preso,
 e nunca vou para ali…

A minha glória é esta:
 ficar a olhar a azul imensidade!
 Não ir atrás de ninguém!
– Que eu amo o azul até à eternidade
 desde o dia em que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou para aí! Só vou pra onde
 haja azul, muito azul com listas brancas
 e se assim com firmeza meu gesto vos responde,
 por que me repetis: «vem para aqui»?
Prefiro à Luz a Rua Escura e à Madragoa
 o meu Bolhão e à Mouraria de Lisboa
 eu prefiro, carago, andar por aí à toa
 a ir para aí…

Se vim ao mundo, foi só pra gritar Porto! Porto! até ao infinito,
 e voltar a soltar o meu grito
 de boca escancarada!…
Tudo o mais que disser não vale nada.

Como, pois, sereis vós
 que me fareis promessas, convites e  ameaças,
 para me ver mudar as minhas convicções?…
 Corre, nas vossas veias, só o sangue  mourisco
 e vós amais o que não presta!
 Eu amo o Azul e Branco, o Risco,  a Festa,
 e o fogo que sai da goela dos Dragões…

Ide! tendes águias já com gripe,
 tendes árbitros fidelíssimos,
 nunca tendes sumaríssimos
 e tendes penáltis, Calabotes e largos prolongamentos.
 – Eu tenho a minha bandeira azul!
 Ergo-a bem alto  e desafio o Sul
 e, todo ufano, canto vitória  aos quatro ventos…

 O azul e o branco é que me guiam, mais  ninguém!
 Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
 mas eu, que ganho sempre a minha aposta,
 nasci do amor que há entre a vitória e o Pinto da Costa.

Ah, que ninguém me venha com tão más intenções!
 Eu sou apenas dos Dragões!
 Ninguém me diga: «Vem para aqui»!
A minha vida é o Porto onde feliz eu sou,
 A minha vida é o Porto onde a glória ancorou,
 A minha vida é o Porto onde a festa estoirou!
 Eu sei bem onde estou,
 eu sei bem pra onde vou,
 sei que não vou para aí!

Anthero Monteiro
 11/04/2011

Poemas de Anthero Monteiro – dez

POESIA AMmahommat e a montanha

Mohammad e a montanha

chamava-se também mohammad
seduzia-o a montanha
e conhecia bem aquele provérbio
por isso achou razoável que dividissem
responsabilidades ele e ela
percorreu todo o caminho
até ao sopé do annapurna
e ficou à espera que o maciço
fizesse a sua parte

esperou  toda uma semana
mas a serrania era preguiçosa
como um mastodonte
ou então não conseguia mexer-se
com aquele pesado manto de gelo
e as articulações adormecidas

ao oitavo dia mohammad
deu mais dois passos em frente
e fez ecoar a voz por toda a cordilheira
exigindo resposta
à sua aproximação

num derradeiro esforço a serrania
começou a liquefazer-se
estendeu-lhe uma rápida passadeira branca
e abraçou-o até o envolver por completo
como um amante que se quer para sempre

foi assim num rompante que a montanha
foi ter com mohammad
chamemos a isso arrebatamento
outros lhe chamarão alude ou avalancha

Anthero Monteiro

Poemas de Anthero Monteiro – oito

POESIA AM

LIQUIDAÇÃO

tocaram à campainha
pensou que era engano
mas era o homem do fraque
a exigir que liquidasse uma dívida antiga

foi buscar um cheque e a parker
mas equivocou-se na gaveta
e pegou num revólver

veio à porta e em vez da dívida
liquidou o homem do fraque

não que pretendesse atingir o homem
mas apenas o fraque que lhe pareceu impertinente

por isso fez-lhe apenas um furinho
mesmo em cima do pequeno bolso do lado esquerdo
onde devia estar um lencinho branco

Anthero Monteiro
(inédito)

Poemas de Anthero Monteiro – sete

POESIA AM

poema com camarinhas (corema album)

as mãos vazias sim e o relógio no pulso
a dar conta das horas perdidas
dos anos em cinza das pegadas alisadas
por dunas viajantes

cavalgo então no dorso de uma ali
por miramar senhor da pedra à vista e encontro
aquelas translúcidas camândulas
com que encho os bolsos e mato
a sede à saudade

voo então no bico das gaivinas
até mais além pertinho da infância
e pouso numa palmeira do adro da igreja à sombra
da qual aos domingos mulheres de negro vendiam
doces de gema níveos de açúcar e as mesmas bagas
minúsculas que trazíamos para casa
num cone de jornal

agora as mãos vazias  e tanto bolso roto incapaz
de suster a memória dos dias afogueados a lata dos doces
comida da ferrugem e das formigas e a boca sedenta
de frutos sumarentos exilados do mercado
e dos dias do senhor

de repente topo de novo
estas pequenas drupas rosadas
e que bem me sabem uhmm camarinhas
num poema de rosa alice

Anthero Monteiro,
Sete Vezes Sete Nuvens,
Porto, Egoiste, 2010

Poemas de Anthero Monteiro – seis

POESIA AM         

        SONETO com todos

neste primeiro verso tomo lanço
no segundo começo o devaneio
no terceiro prossigo  sem receio
no quarto prá segunda quadra avanço

no quinto é outra estrofe e eu vou de manso
no sexto continuo o meu passeio
no sétimo já estou mesmo no meio
no oitavo salto em frente sem descanso

no nono desço a escada para a base
no décimo até acho isto faceto
no undécimo é a derradeira fase

no décimo segundo outro terceto
no décimo terceiro já está quase
e agora fecho à chave o meu soneto

Anthero Monteiro
(inédito)

Poemas de Anthero Monteiro – quatro

       POESIA AM

        UM SINAL AO MENOS

de ti não quero muito apenas que perpasses
e deixes esse aroma que entontece
que fiques uns segundos sem disfarces
e quero ver depois o que acontece

mesmo que os olhos teus não olhem os meus tristes
pois é um olhar de deusa que me esquece
eu só quero saber que tu existes
e quero ver depois o que acontece

quero apenas saber por que é que este meu peito
mal assomas além logo estremece
por que é tão forte a força desse jeito
e quero ver depois o que acontece

quero também ouvir o eco do teu nome
que outro não há gracioso assim como esse
quero dizê-lo até saciar a fome
e quero ver depois o que acontece

é o que quero de ti que a deusas como vénus
só pode ser humílima esta prece
dá-me a sombra de ti ou um sinal ao menos
e quero ver depois o que acontece

Anthero Monteiro,
Canto de Encantos  e  Desencantos
Porto, Corpos Editora, 2.ª edição, 2005

Poemas de Anthero Monteiro – três

POESIA AM

                                                             

                                                      OBSESSÃO

 

sem ti                  nunca a manhã amanheceu
sem ti                  a tarde tarda a entardecer   
sem ti                  a noite é mais anoitecer
sem ti                  o que em mim vejo não sou eu

sem ti                  o dia adia o que era  meu
sem ti                  não tem sentido o que fizer
sem ti                  até o riso faz doer
sem ti                  senti que a vida emurcheceu                  

sem ti                  fiquei sem tino e sem destino
sem ti                  e sem timão tudo perdi
sem ti                  sem tibieza me abomino

sem ti                  sou todo insónia e frenesi   
sem ti                  a cada hora me arruíno
sem ti                  sem ti sem ti sem ti sem ti

Anthero Monteiro,
Desesperânsia, Corpos Editora, Porto

Poemas de Anthero Monteiro – dois

POESIA AM                 

                                                            o golo

hoje o número nove conseguiu finalmente
que a bola tivesse emocionado
as redes da baliza adversária
foi com a mão mas não importa
porque o árbitro tinha-se ausentado
ou pelo menos não deu conta

o avançado ajoelhou na relva
colocou as mãos em prece
e lançou um olhar grato e penetrante
em direção aos céus

deus também não estava lá
ou então era aquela pequena nuvem
que acabou por se dissolver
sobre o estádio num aguaceiro
não previsto pelos serviços
meteorológicos

 Anthero Monteiro
(inédito)

Poemas de Anthero Monteiro – um

POESIA AM

CILADA

sentado à mesa sob as árvores de verão
pergunto-me se também elas já terão almoçado
pois que tanto trabalham para mim

sem almoço está o pardal
que chega sempre à hora exata
e ali fica estátua da espera
reclamando os meus sobejos

deixo-o à estaca um longo minuto
porque a minha sobremesa
é a sua companhia

e quando lhe atiro um pedaço de comiseração
o gesto multiplica-o
em cinco fotocópias

e enquanto disputam a mísera iguaria
fecho à pressa o meu caderno
e apanho-os a todos
na esparrela do poema

Anthero Monteiro
Porches, 7 de Setembro 2007
(inédito)