Poemas de Anthero Monteiro – dez

POESIA AMmahommat e a montanha

Mohammad e a montanha

chamava-se também mohammad
seduzia-o a montanha
e conhecia bem aquele provérbio
por isso achou razoável que dividissem
responsabilidades ele e ela
percorreu todo o caminho
até ao sopé do annapurna
e ficou à espera que o maciço
fizesse a sua parte

esperou  toda uma semana
mas a serrania era preguiçosa
como um mastodonte
ou então não conseguia mexer-se
com aquele pesado manto de gelo
e as articulações adormecidas

ao oitavo dia mohammad
deu mais dois passos em frente
e fez ecoar a voz por toda a cordilheira
exigindo resposta
à sua aproximação

num derradeiro esforço a serrania
começou a liquefazer-se
estendeu-lhe uma rápida passadeira branca
e abraçou-o até o envolver por completo
como um amante que se quer para sempre

foi assim num rompante que a montanha
foi ter com mohammad
chamemos a isso arrebatamento
outros lhe chamarão alude ou avalancha

Anthero Monteiro

Poemas de Anthero Monteiro – oito

POESIA AM

LIQUIDAÇÃO

tocaram à campainha
pensou que era engano
mas era o homem do fraque
a exigir que liquidasse uma dívida antiga

foi buscar um cheque e a parker
mas equivocou-se na gaveta
e pegou num revólver

veio à porta e em vez da dívida
liquidou o homem do fraque

não que pretendesse atingir o homem
mas apenas o fraque que lhe pareceu impertinente

por isso fez-lhe apenas um furinho
mesmo em cima do pequeno bolso do lado esquerdo
onde devia estar um lencinho branco

Anthero Monteiro
(inédito)

Poemas de Anthero Monteiro – sete

POESIA AM

poema com camarinhas (corema album)

as mãos vazias sim e o relógio no pulso
a dar conta das horas perdidas
dos anos em cinza das pegadas alisadas
por dunas viajantes

cavalgo então no dorso de uma ali
por miramar senhor da pedra à vista e encontro
aquelas translúcidas camândulas
com que encho os bolsos e mato
a sede à saudade

voo então no bico das gaivinas
até mais além pertinho da infância
e pouso numa palmeira do adro da igreja à sombra
da qual aos domingos mulheres de negro vendiam
doces de gema níveos de açúcar e as mesmas bagas
minúsculas que trazíamos para casa
num cone de jornal

agora as mãos vazias  e tanto bolso roto incapaz
de suster a memória dos dias afogueados a lata dos doces
comida da ferrugem e das formigas e a boca sedenta
de frutos sumarentos exilados do mercado
e dos dias do senhor

de repente topo de novo
estas pequenas drupas rosadas
e que bem me sabem uhmm camarinhas
num poema de rosa alice

Anthero Monteiro,
Sete Vezes Sete Nuvens,
Porto, Egoiste, 2010

Poemas de Anthero Monteiro – seis

POESIA AM         

        SONETO com todos

neste primeiro verso tomo lanço
no segundo começo o devaneio
no terceiro prossigo  sem receio
no quarto prá segunda quadra avanço

no quinto é outra estrofe e eu vou de manso
no sexto continuo o meu passeio
no sétimo já estou mesmo no meio
no oitavo salto em frente sem descanso

no nono desço a escada para a base
no décimo até acho isto faceto
no undécimo é a derradeira fase

no décimo segundo outro terceto
no décimo terceiro já está quase
e agora fecho à chave o meu soneto

Anthero Monteiro
(inédito)

Poemas de Anthero Monteiro – quatro

       POESIA AM

        UM SINAL AO MENOS

de ti não quero muito apenas que perpasses
e deixes esse aroma que entontece
que fiques uns segundos sem disfarces
e quero ver depois o que acontece

mesmo que os olhos teus não olhem os meus tristes
pois é um olhar de deusa que me esquece
eu só quero saber que tu existes
e quero ver depois o que acontece

quero apenas saber por que é que este meu peito
mal assomas além logo estremece
por que é tão forte a força desse jeito
e quero ver depois o que acontece

quero também ouvir o eco do teu nome
que outro não há gracioso assim como esse
quero dizê-lo até saciar a fome
e quero ver depois o que acontece

é o que quero de ti que a deusas como vénus
só pode ser humílima esta prece
dá-me a sombra de ti ou um sinal ao menos
e quero ver depois o que acontece

Anthero Monteiro,
Canto de Encantos  e  Desencantos
Porto, Corpos Editora, 2.ª edição, 2005

Poemas de Anthero Monteiro – três

POESIA AM

                                                             

                                                      OBSESSÃO

 

sem ti                  nunca a manhã amanheceu
sem ti                  a tarde tarda a entardecer   
sem ti                  a noite é mais anoitecer
sem ti                  o que em mim vejo não sou eu

sem ti                  o dia adia o que era  meu
sem ti                  não tem sentido o que fizer
sem ti                  até o riso faz doer
sem ti                  senti que a vida emurcheceu                  

sem ti                  fiquei sem tino e sem destino
sem ti                  e sem timão tudo perdi
sem ti                  sem tibieza me abomino

sem ti                  sou todo insónia e frenesi   
sem ti                  a cada hora me arruíno
sem ti                  sem ti sem ti sem ti sem ti

Anthero Monteiro,
Desesperânsia, Corpos Editora, Porto