Poemas de Anthero Monteiro – dois

POESIA AM                 

                                                            o golo

hoje o número nove conseguiu finalmente
que a bola tivesse emocionado
as redes da baliza adversária
foi com a mão mas não importa
porque o árbitro tinha-se ausentado
ou pelo menos não deu conta

o avançado ajoelhou na relva
colocou as mãos em prece
e lançou um olhar grato e penetrante
em direção aos céus

deus também não estava lá
ou então era aquela pequena nuvem
que acabou por se dissolver
sobre o estádio num aguaceiro
não previsto pelos serviços
meteorológicos

 Anthero Monteiro
(inédito)

Poemas de Anthero Monteiro – um

POESIA AM

CILADA

sentado à mesa sob as árvores de verão
pergunto-me se também elas já terão almoçado
pois que tanto trabalham para mim

sem almoço está o pardal
que chega sempre à hora exata
e ali fica estátua da espera
reclamando os meus sobejos

deixo-o à estaca um longo minuto
porque a minha sobremesa
é a sua companhia

e quando lhe atiro um pedaço de comiseração
o gesto multiplica-o
em cinco fotocópias

e enquanto disputam a mísera iguaria
fecho à pressa o meu caderno
e apanho-os a todos
na esparrela do poema

Anthero Monteiro
Porches, 7 de Setembro 2007
(inédito)

Como a Primavera, regressa a Poesia…

Entre os princípios de 2014 e de 2015 divulguei aqui, com regularidade, poemas da autoria de dois amigos, Anthero Monteiro e João Barbosa. São ambos colegas, professores, ainda que de áreas do saber distintas da minha. Encontrámo-nos e tornámo-nos amigos em diversas épocas e em diferentes pretextos comuns.

O que os une, para além da qualidade pessoal e profissional, é a sua inclinação cultural, militantes que são na criatividade e no activo serviço da poesia.

Quis a sorte, minha e igualmente de quem aprecia a sua obra, de poder novamente contar aqui com eles.

Para o Largo dos Correios esta oportunidade é uma bênção, porque se liberta da monotonia quase exclusivista que lhe concedo. Para os leitores fiéis é um alívio, pela possibilidade de apreciarem a diferença que a qualidade significa.

Com regularidade, durante as próximas semanas, aqui serão apresentados novos poemas de Anthero Monteiro e de João Barbosa. A sua generosidade, que vivamente lhes agradeço com um forte e sincero abraço ainda que virtual, vai traduzir-se na distinta partilha de poesia.

Pedi ao amigo Anthero Monteiro uma mão cheia de criações da sua lavra, o que ele fez quase na volta do correio. Dali retirei uma meia dúzia já aqui anteriormente publicada e sobraram umas dezenas de poesias, algumas recolhidas de obras editadas e outras ainda inéditas, em texto solto.

Quanto a João Barbosa, enviou-me a sua última e recente edição, Como a Noite e o Dia. Aqui, o caso é diferente, porque os poemas dispõem de ilustrações próprias, de Geandra Lipa, e funcionam em pares, os constantes das páginas lado a lado, em diálogo. Portanto, adoptei aqui a solução, técnica, de os digitalizar, apresentando-os como explicitamente foi previsto pelo autor, aos pares e com as respectivas ilustrações.

Como são precisamente duas dezenas os poemas de João Barbosa, publicá-los-ei portanto durante 10 semanas, que compensarei com outras tantas, no total de 20, quanto aos de Anthero Monteiro, porque divulgados unitariamente.

E até daqui a dias, renovando uma época mais poética cá pelo Largo dos Correios.

POESIA AM POESIA JB

Anthero de Ouro

anthero 1

anthero

Hoje, dia da Vila de S. Paio de Oleiros (24.º aniversário), ANTHERO MONTEIRO foi distinguido, entre outros, com a MEDALHA DE OURO DE MÉRITO da mesma vila – Grau máximo, na categoria de dirigente Associativo no activo.

Agradece à Assembleia de Freguesia, à Junta e ao Grupo de trabalho que criou a iniciativa e reparte os méritos com a restante direção da Biblioteca Pública, com a os demais corpos gerentes e com todos os associados, leitores, usuários e colaboradores, sem os quais tal distinção não teria sentido.

Parabéns à excelente organização e à criatividade demonstrada.

A minha gratidão, que quase me retirou as palavras adequadas a um acto de tanto simbolismo, no dia de aniversário da minha terra, que eu amo, até porque fui, há 24 anos, o porta-voz da CESPOVILA – Comissão para a Elevação de S. Paio de Oleiros a Vila.

 Anthero Monteiro

Recolhi ontem estas palavras da página do meu amigo Anthero Monteiro, companheiro de tantas aventuras, pedagógicas e não apenas, que nos tornaram para sempre irmãos em muitas coisas da vida.

Ao Anthero, de quem tenho aqui partilhado maravilhas da sua criação poética, envio um virtual mas sincero e fraterno abraço de parabéns, na certeza do justíssimo merecimento que os conterrâneos publicamente lhe demonstraram.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Dia Mundial da Criança

            Para o Dia Mundial da Criança:

lafont

FORMIGA NO POEMA

Uma formiga atrevida
sem pedir qualquer licença
e satisfeita da vida
que certamente compensa
diligente despachada
pequenina como um trema
viu a porta escancarada
e irrompeu no meu poema

Percorreu toda a largura
fez depois o comprimento
não sei se andava à procura
de algo para o seu sustento
inverteu a sua rota
espreitou num canto em cima
equilibrou-se num jota
saltitou de rima em rima

Dependurou-se na trave
do T da palavra estrondo
entrou no A de uma ave
depois num O bem redondo
Coçou então a barriga
apenas com uma garra
Quem procurava a formiga?
Porventura era a cigarra? 

Palmilhou a folha toda
esquadrinhou toda a escrita
andou por aqui à roda
numa insistente visita
numa atitude indiscreta
a dizer daqui não saio
e para este poeta
não olhou nem de soslaio

Achando aquilo bizarro
perdi então a cabeça
Já a formiga tem catarro?
Sai-me daqui já depressa!
Não te quero aqui assim!
Será que tu não me ligas?
Vou chamar o pangolim,
de alcunha o Papa-Formigas!

Senti cá um formigueiro
que ao vê-la ao alto da estrofe
co dedo médio certeiro
dei-lhe assim em cheio plof
Foi tal o meu piparote
com tal força e com tal arte
que andou voando a galope
lá muito acima de Marte

Você que assistiu à cena
e viu que isto não é sonho
e que agora está com pena
daquele insecto enfadonho
tenha calminha serene
que encontra a sua formiga
nalguma fábula antiga
em casa de La Fontaine

Anthero Monteiro
(inédito)

Poemas de Anthero Monteiro – 50

anthero cabeçalho

foto am

PRECE ATEIA

dos arremedos do amor
livrai-me senhor

não dos teus olhos vívidos libertos
modelares no espelho destes meus
que eu troco pelos olhos que há nos céus
e luzem na amplidão dos meus desertos

da rotina do amor
livrai-me senhor

não dessa boca túmida faminta
não do veneno bom da tua língua
que engana a minha sede a minha míngua
que a mim só ama quem sempre me minta

das verdades do amor
livrai-me senhor

não dessa voz que tanto me maltrata
como a voz das sirenes fez a ulisses
como se a minha rouquidão punisses
com argêntea e suavíssima chibata

das delícias do amor
livrai-me senhor

não dessa fronte limpa que deslumbra
e beijo grato até por existires
não dessa aura não desse arco-íris
do qual desfruto ao menos a penumbra

dos acenos do amor
livrai-me senhor

mas não das tuas mãos frescas purinhas
que me estrangulam saborosamente
que estraçalham meu coração doente
só com o gesto de tocar as minhas

dessa palavra
amor
livrai-me senhor

porque de amor de amor eu não preciso enfim
nem dos seus desencantos que hão de vir
do que eu preciso mesmo é de sentir
agora que te tenho ao pé de mim 

Anthero Monteiro (inédito)
Espinho, 9 de Setembro de 1998

 

Poemas de Anthero Monteiro – 49

anthero cabeçalho

braços

      POEMA DOS BRAÇOS INÚTEIS

agora só tenho braços para cruzar
perante o irremediável
ou segurar esta ânsia de chão
que me comprime a nuca

souberam guardar tesouros imperecíveis
velar o sorriso por dentro do teu sono
e a nebulosa que te faz sonhar
julgaram preservar dos cardos
a seda do teu suave existir
empreenderam mil lances de aventura
detiveram o emurchecer das tardes
e pelas noites turvas solitárias
ansiaram a enseada do teu peito

foram escrínios de algum sibarita
lianas trepadeiras e gavinhas
apetecidos tentáculos

deles voaram aves peregrinas
como dos bolsos dos ilusionistas
fizeram brotar fontes em lugares
secretos do teu corpo ou da tua alma
ambos donos do mesmo lago
ambos perdidos na mesma água
esbracejámos na aflição do prazer
para mais depressa soçobrarmos

de que servem agora
os braços e estas mãos e estes dedos
e quem foi donos deles e sonhou
de ti ser dono ao menos uma tarde
uma efémera tarde como quando
julguei possuir o mar e a eternidade
só por ter nos meus braços os teus braços?

o mar que me cuspiu nos olhos míopes
não quer ser possuído mas possuir-me
e a eternidade lenta e paciente
já me exige o meu corpo mutilado
dos braços
dos abraços
e de ti 

Anthero Monteiro
in Desesperânsia