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Depois da não concretização das promissoras intenções do presidente João Transmontano, também ficaria no plano das intenções uma oportuna e judiciosa sugestão de que eu próprio fui mensageiro, já nos primeiros anos deste milénio. A única neta de Benvindo Ceia, minha estimada prima, encarregou-me de transmitir à Câmara Municipal de Portalegre o declarado desejo íntimo do pintor de repousar na sua terra natal. Fi-lo, pessoal e repetidamente, junto do vereador do pelouro da Cultura, Luís Pargana, que nunca conseguiu encontrar ambiente autárquico favorável à concretização do projecto que incluiria a trasladação dos restos mortais de Benvindo Ceia para um mausoléu simples e digno, a erigir no nosso cemitério municipal, a realização em Portalegre (com eventual itinerância?) de uma grande exposição pictórica que incluiria quadros (alguns dos quais inéditos) e reproduções da restante obra distribuída um pouco por todo o País (continente e ilhas), a elaboração de um catálogo alusivo e a edição da obra O Silêncio das Paredes – A Descoberta de Benvindo Ceia (1870-1941), tese de mestrado em arte, património e restauro na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, da autoria de Maria Teresa Freire Bispo, técnica superior da Câmara Municipal de Lisboa.

irmã

É com uma citação deste trabalho, ainda inédito, que termino este brevíssimo ensaio biográfico sobre Benvindo Ceia, meu tio-avô, de quem guardo imagens de saudosa ternura:

busto bc“ …Tinha sido obra de Benvindo Ceia. Um homem praticamente desconhecido das histórias da arte e que aos poucos, mas rapidamente, me cativou, dirigindo-lhe a minha atenção quase total e uma perseguição ao gosto sherlockiano. Depressa me apercebi que, à semelhança daquelas paredes, outras existiam também silenciosas e que, ao contrário das dos Paços do Concelho, não estavam sequer escondidas.

Cada pintura que via, cada local que fui conhecendo e reconhecendo faziam emergir em mim uma surpresa, uma incompreensão pelo seu aparente anonimato, uma desafio que, dia a dia, construiu o imperativo de não me contentar com a simples admiração estética de não me amedrontar com uma tarefa que desconhecia ser possível concretizar, mas principalmente não me acomodar no tema inicial, por ser menos arriscado.

Decorrente dessa investigação, o propósito inicial alterou-se, ampliando o objecto do estudo. Do tratamento e abordagem estético-analítica de uma sala dos Paços do Concelho de Lisboa surge como pertinente o desenvolvimento da pesquisa em torno da figura do artista, compreendida através, e também, da percepção global da sua obra.

Foi assim que da tese Os Passos dos Paços do Concelho de Lisboa evoluí para a tese No Silêncio das Paredes. Estava ávida por saber quem tinha sido, de facto, Benvindo Ceia, o que tinha feito e porque permanecia nas franjas da história da arte. Alentejano de Portalegre, nascido em 1870, tinha vindo a falecer em Lisboa em 1941, aos 71 anos de idade. Com formação académica especializou-se em pintura decorativa mas rapidamente constatei que não tinha sido só e apenas um pintor decorativo o que espero demonstrar ao longo desta investigação.

Se me é permitido o desabafo, este trabalho foi e ainda é um dos mais gratificantes que alguma vez fiz, desenvolvido numa corrida desenfreada em igrejas, teatros, cafés, instituições públicas, galerias, museus, antiquários, arquivos e nas poucas colecções particulares. Posso afirmar hoje que recolhi grande parte do seu trabalho, que travei conhecimento com as diversas gramáticas plásticas, que percepcionei tanto quanto possível o seu carácter e a sua personalidade ecléctica.

Desde o momento em que travei conhecimento com Benvindo Ceia, este tornou-se num companheiro inseparável que aprendi a respeitar e a admirar. Considero ser merecida a divulgação da sua obra, rompendo em definitivo com aquele silêncio das paredes, que cada vez mais é para mim impossível de suportar, simplesmente por ser justo o seu reconhecimento como artista plástico que sempre foi, circunstância, pelos vistos, emparedada, mas que doravante não poderá permanecer mais no anonimato.”  

estudos

Benvindo Ceia, o maior pintor portalegrense, mantém-se como um ilustre desconhecido para quase todos os seus conterrâneos.

Até quando?

 António Martinó de Azevedo Coutinho

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Por várias vezes A Rabeca fez sentir a incoerência e a apatia, quase sempre da parte das entidades públicas oficiais a quem competia assumir a realização final dessa homenagem, para a qual até já existiam elementos concretos em marcha.

Em finais de 1957, o Grupo de Artistas Portugueses organizou na Sociedade Nacional de Belas Artes uma outra grande exposição de Benvindo Ceia, onde figurou, em lugar de destaque, o busto da autoria do escultor Raúl Xavier, destinado a ser implantado em lugar público portalegrense. Por essa altura, escreveu sobre ele o crítico de arte Armando de Lucena, no Diário de Notícias de 8 de Janeiro de 1958:

A sua pintura é suave, harmoniosa e lírica e, por conseguinte, amena e repousante. Para a vermos e, com justiça, a classificarmos, teremos de recuar algumas décadas em que o tempo tinha menos valor do que hoje e a nossa sensibilidade mais vagar no julgamento das coisas. Benvindo Ceia foi um artista operoso: compondo e realizando as suas alegorias à maneira desses tempos, que, apesar de remotos, não deixaram esquecer o nome que tanto ilustrou.”

Benvindo Ceia recebeu algumas justas homenagens públicas na sua terra natal, Portalegre, embora se possa afirmar que pouco conhecidas e apreciadas continuam a sua figura e a sua obra, ainda que tenha sido o maior pintor portalegrense de todos os tempos.

A primeira homenagem recebeu-a em vida e bastante a contragosto. Com efeito, quando, em inícios de 1928, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Portalegre decidiu enriquecer a toponímia local com a inscrição do seu nome na antiga Rua do Cadafaz, Benvindo Ceia enviou uma mensagem de discordância pessoal, por telegrama onde solicitava ao presidente, Dr. Manuel Hermenegildo Lourinho, o abandono de tal proposta.

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Como se pode ler na acta da sessão de 13 de Março de 1928, o presidente informou os restantes membros da Comissão Administrativa de que lamentava não poder satisfazer a “intimação” do pintor, por achar justa e merecida a referida proposta, logo aprovada por unanimidade. E a Rua do Cadafaz, histórica artéria da cidade, ficou até hoje como Rua Benvindo Ceia, ilustre artista nascido em Portalegre, tal como está gravada no mármore branco da única das duas placas originais ainda existente.

Os jornais locais, Distrito e Rabeca, deram conta destes pormenores, assim como do cuidado da autarquia que executou obras na rua, na sua ligação aos Muros de Baixo, para a tornar mais digna do homenageado.

A segunda homenagem traduziu-se na inauguração do busto do artista portalegrense, concretizada em 25 de Maio de 1969, pela Câmara Municipal liderada pelo Prof. Manuel da Silva Mendes. Esta demonstração pública do apreço da cidade pelo seu mais credenciado pintor coroou toda a série de iniciativas, tardias ou sempre adiadas, que tinham sido geradas em Portalegre, como já vimos, desde meados da década de 40.

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O busto do artista, da autoria do escultor Raúl Xavier, ficou implantado no Jardim Público da Avenida da Liberdade. Destaque-se, por merecida, a emotiva intervenção então testemunhada pelo director d’A Rabeca, João Diogo Casaca, que tanto pugnara por aquela homenagem, tão justa quão tardia.

A terceira homenagem, prestada pela Câmara Municipal de Portalegre que contava com o Dr. João Transmontano Miguéns como seu presidente, aconteceu a 7 de Dezembro de 1991, assinalando a passagem do 50.º aniversário da morte de Benvindo Ceia. Traduziu-se na implantação duma placa de bronze, alusiva, na base do monumento. Afinal, o principal significado da cerimónia e na inscrição foi a de que, apesar de tudo, Portalegre ainda tinha então memória colectiva, enquanto comunidade.

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Anunciou então o presidente a intenção de levar a cabo algumas iniciativas ligadas à perpetuação do nome e obra de Benvindo Ceia, como uma exposição pública, com edição de um catálogo digno da qualidade da obra, assim como uma extensão de tal homenagem à Casa do Alentejo, em Lisboa. Infelizmente, não se concretizou este desígnio.

De registar o facto de, em Dezembro de 1999, ter sido realizada na Galeria de Constância, em Lisboa, assim como na Casa Museu Vasco de Lima Couto, em Constância, uma exposição retrospectiva de desenhos de Benvindo Ceia, creio que a última mostra pública sobre a obra do artista até hoje realizada. Tal pretexto deve-se ao facto de Benvindo Ceia, a partir de 1906, ter estado intimamente ligado à Fábrica Constância, em Lisboa, mais conhecida pela Fábrica dos Marianos, por ter sido instalada na cerca de Nossa Senhora dos Remédios, Convento dos Marianos, em 1836. Esta empresa dedicava-se à cerâmica decorativa e à azulejaria.

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Juntamente com outros artistas plásticos e homens de letras, como Martinho da Fonseca, António do Couto, Pedro Guedes, Francisco Santos e Severo Portela, organizou em Lisboa importantes certames artísticos, de entre os quais a Exposição de Arte Catalã. Benvindo Ceia integrou o Conselho Superior de Arte.

Pintou várias telas destinadas aos pavilhões nacionais da Exposição de Sevilha em 1929, pelas quais foi distinguido com uma medalha de ouro. Também participou activamente na decoração de pavilhões na Exposição do Mundo Português, em Lisboa, tendo ainda elaborado esboços para o cartaz das comemorações centenárias de 1940.

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Convicto regionalista, pertenceu ao Grémio Alentejano, chegando a integrar o seu Conselho Regional.

Faleceu na capital, onde residia desde há muito, no dia 6 de Dezembro de 1941, aos 71 anos. Uma crise cardíaca fulminou-o, inesperadamente, quando trabalhava na decoração do ministério da Educação Nacional. A sucessiva morte dos pais, de alguns dos irmãos e, mais recentemente, da própria esposa, tinham abalado o seu coração. Ficou sepultado no cemitério do Alto de S. João, em Lisboa.

Desenhos

Benvindo Ceia, embora ausente desde muito cedo da sua terra natal, nunca a esqueceu e, sempre que tal se lhe proporcionava, vinha a Portalegre rever e abraçar os seus familiares e os muitos amigos que sempre aí manteve. A sua simpatia era manifesta e prodigalizou generosamente a mais sincera solidariedade ao serviço dos amigos e das causas quando para tal a sua consciência o impelia.

No princípio de 1943, foi realizada em Lisboa uma primeira exposição retrospectiva da obra do pintor, que reuniu cerca de duas centenas de trabalhos.

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Do significativo catálogo então editado consta um texto da Comissão Executiva da mostra, onde constava o seguinte excerto:

Benvindo Ceia viveu sempre numa obstinada modéstia, porém, os revérberos do seu talento destacam a sua personalidade na Arte Nacional. O retratista, o desenhador, o paisagista, e, sobretudo, o decorador estão exaltados numa larga obra honesta e brilhante. Coroavam nobremente estas faculdades um carácter íntegro e uma alma de dominante bondade. A admiração e a saudade levaram-nos, como intérpretes dos artistas e dos admiradores, a realizar esta exposição de homenagem, merecida em plena justiça.”

Nessa mesma publicação, escreveu Arnaldo Ressano, ao tempo presidente da Direcção da Sociedade de Belas-Artes:

“… É pois na decoração que Mestre Benvindo Ceia atingiu a sua máxima eleição pictoral.

Com uma grande ciência da composição estética e do arranjo, tanto da forma como da cor e da luz, os seus trabalhos são verdadeiras obras-primas que se harmonizam primorosamente com o meio que os cerca, dando vida e expressão aos interiores das salas em que se encontram…

… Eis a traços largos o brilhante artista, cuja grande obra, infelizmente, não pode ser trazida aos nossos salões de exposição, por fazer parte integrante de edifícios em que foi executada…”

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Sentiu então Portalegre a justa e imperiosa necessidade de perpetuar a memória do seu ilustre filho, que outros já homenageavam, para além da já distante designação toponímica, de 1928. Algumas iniciativas bem intencionadas foram sendo formalizadas, porém nem todas coincidentes nos seus processos e objectivos.

Por exemplo, uma circular distribuída pela Sociedade União Operária em Abril de 1944 invocava o talento e a bondade de Benvindo Ceia como pretextos para perpetuar no bronze o valor do artista. Isso foi ironicamente comentado no semanário A Voz Portalegrense, na sua edição de 13 de Maio desse ano. Um outro jornal, muito combativo, logo pretendeu provar a justeza de ambos os pretextos e iniciou logo uma subscrição pública destinada a custear um monumento a erigir no Parque Miguel Bombarda, em homenagem a Benvindo Ceia. Este jornal foi A Rabeca. A polémica chegou a Lisboa, provocando um artigo de desagravo ao mérito do artista, da autoria do crítico de arte Martins dos Santos, em A Voz, de 23 de Maio de 1944.

A subscrição entretanto iniciada encontrou ecos, que ultrapassaram as fronteiras locais. Mas a iniciativa ia-se prolongando sem concretização…

portalegreEm 1948, por ocasião das festas organizadas em Setembro, os portalegrenses puderam admirar duas obras de Benvindo Ceia, incluindo um auto-retrato, numa grande exposição colectiva de arte, que contou com a participação de trabalhos de Abel santos, Arsénio da Ressurreição, Dordio Gomes, Francisco Xara, João Tavares, Rodrigues Neves, Miguel Barrias, Renato Torres e Ventura Porfírio. Terá sido, quase seguramente, a mais representativa mostra colectiva de artes plásticas realizada em Portalegre. Mas a homenagem continuava adiada…

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É vasta a sua obra, ainda que espalhada por todo o País. Pode, de entre ela, citar-se a mais conhecida e divulgada, como a decoração do Teatro-Circo de Braga, do Teatro Bernardim Ribeiro de Estremoz, do antigo Teatro Portalegrense, do Cine Royal e Cine Jardim, do Trindade e do Politeama, estes em Lisboa. Como curiosidade anote-se o facto de esta última intervenção ter sido feita de parceria com o seu antigo mestre Veloso Salgado, em 1930. Dispõe ainda de trabalhos diversos nos palácios de Queluz e Sintra, nas Casas do Alentejo (antigo Clube Magestic e Monumental) e do Algarve (sala de baile), assim como no Convento de Mafra.

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Para a sala dos Passos Perdidos, no Palácio de S. Bento (Assembleia da República), criou o painel intitulado Viriato. Tal pintura data de 1926.

Quadros da sua autoria decoraram alguns famosos e míticos cafés de Lisboa, como o Martinho, Chave de Ouro e Chique, assim como as pastelarias Garrett e Versailles.

bc alegoriaExecutou diversos trabalhos de arte sacra, sobretudo painéis de azulejos, em igrejas como São João, do Lumiar, Vila Franca do Campo, nos Açores, Ericeira, Penha de França (Lisboa) e S. Pedro de Valongo (Porto), para a qual pintou um retrato do patrono, o seu último quadro. Na Igreja do Lumiar, Benvindo Ceia renovou o tecto da capela do altar-mor, atingido por um incêndio em 1932.

Restaurou inúmeras pinturas decorativas na Câmara Municipal de Lisboa.

Por todo o País executou diversas obras de decoração em residências particulares, como aconteceu com salas do Clube da Regaleira e do Casino de Sintra, em Portalegre, com o Palácio Barahona. Também existem notícias de trabalhos particulares de Benvindo Ceia em Faro, no Porto, em Nisa, Lisboa e Cruz Quebrada, todos assinalados por um estilo artístico de cunho pessoal muito vincado.

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Aqui, na sua terra natal, projectou a Creche João Baptista Rolo (no topo do Jardim Operário, junto à Robinson), a casa do professor Júlio Cassola, a sede da Cooperativa Operária, a organização urbanística do Parque Miguel Bombarda, as antigas sede e quartel da Corporação dos Bombeiros Voluntários, junto à Sé Catedral e, a pedido de João Diogo Casaca, o traçado geral do Café Alentejano.

Também aqui elaborou diversos cartazes, como o das festas realizadas em Portalegre no ano de 1901, a quando da inauguração da iluminação eléctrica da cidade.

Ilustrou algumas obras literárias, nomeadamente romances de cariz histórico, como Inês de Castro (1900) e Padeira de Aljubarrota (1901), da autoria de Faustino da Fonseca.

Colaborou com o jornal A Rabeca e são da sua autoria a capa de O Semeador e uma conhecida vinheta alegórica à cidade de Portalegre, para o Álbum Alentejano.

No Museu Municipal podem admirar-se dois magníficos retratos a óleo, de George Wheelhouse Robinson e de António José Lourinho, por ele executados. Também se lhe conhecia o retrato de Manuel Rosado, barbeiro seu amigo, assim como diversos quadros sobre Portalegre, como Frente dum Lagar, Sé, Trecho do Governo Civil, Trecho de Portalegre, etc.

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Em Lisboa, dispunha de estúdio pessoal, na rua Passos Manuel, 85, onde também residia, e foi desenhador do quadro do ministério das Obras Públicas, Direcção-Geral dos Edifícios Monumentos Nacionais, e do diário O Século

Participou em numerosas exposições, sobretudo nas promovidas pela Sociedade Nacional das Belas Artes (em 1905, 1913, 1914, 1915, 1918 e 1920), de que foi director, em 1936. Numa dessas mostras revelou um óleo, uma natureza morta intitulada Frutos, que levou os responsáveis culturais da época a conseguir que o estado o adquirisse, para valorizar o museu de Coimbra. Também está representado no Museu de Arte Contemporânea.

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Benvindo António Ceia, pintor de arte, faleceu em Lisboa, onde desde há muito residia, no dia 6 de Dezembro de 1941, aos 71 anos.
Cumpre-se portanto hoje mais uma efeméride da morte daquele que foi o maior pintor portalegrense. Ilustre desconhecido, poucos por cá sabem quem foi ou o que fez, e apenas alguns conhecem que, por aqui, existem sinais dispersos da sua arte.
Não pretendo deixar no blog uma biografia formal de Benvindo Ceia, meu tio-avô. Mas quero lembrar a seu propósito alguns dados esquecidos ou ignorados, assim contribuindo na medida do possível para iluminar as trevas do desprezo e da injustiça, que são entre nós práticas de normalidade.

cabeçalhoBenvindo António Ceia nasceu em Portalegre, a 22 de Novembro de 1870, na casa dos seus pais, Praça do Príncipe Real -hoje Praça da República- n.º 68. Foi filho de Silvestre Ceia, conceituado chefe de guarda-livros na Fábrica Robinson e íntimo da família inglesa, e de Maria José Ceia, doméstica.

corroBenvindo foi o mais velho de vários irmãos, de entre os quais particularmente se distinguiram Manuel Maria, um dos sócios fundadores da prestimosa Cooperativa Operária de Portalegre e destacado elemento no meio associativo local, assim como Francisco António, comandante dos Bombeiros Robinson, privativos da Fábrica, onde foi chefe dos escritórios.

Revelando desde tenra idade uma acentuada inclinação e habilidade para o desenho, resolveu o pai matriculá-lo na Escola Industrial Fradesso da Silveira, após a conclusão da instrução primária. Benvindo Ceia terminou os seus estudos em Portalegre frequentando o Liceu Central.

bc irmãos ceiaVerificando-se então a confirmação e o pleno desabrochar da sua vocação para a pintura artística, rumou o jovem para Lisboa, onde se matriculou na Escola Superior de Belas Artes. Aí teve como professores, entre outros, os insignes mestres Simões de Almeida (Tio), Ferreira Chaves, Silva Porto e Veloso Salgado.

Atraído pela pintura histórica, terminou o curso com o quadro Cristo sobre as ondas, logo integrado no Museu da Escola, por ter constituído uma verdadeira revelação.

No entanto, a sua inclinação por esta modalidade pictórica alterou-se, após as viagens de estudo que efectuou por Espanha, França, Bélgica e Holanda. Então, as suas predilecções concentraram-se na decoração ornamental, certamente mais de acordo com a própria e pessoalíssima maneira de pintar, praticando um estilo onde sobressaíam as tonalidades claras, os esbatidos suaves e as formas vaporizadas. Na sua paleta de pintor ressaltavam os tons rosa e alaranjados claros, adornando as figuras com tons que lhes esbatiam gestos e trajos, muito ao gosto ornamental dos finais do século, sendo os conjuntos valorizados pela evidente qualidade técnica no desenho e na composição. Seria precisamente nesta modalidade ornamental que o artista mais vincaria a sua personalidade e o seu talento.

bc retrato 2Benvindo Ceia, portanto, dedicou o melhor do seu intenso labor artístico à pintura decorativa, que chegou a dominar por completo, tornando-se um verdadeiro mestre, por todos reconhecido. Todavia, nunca abandonou outros géneros e técnicas de expressão plástica, como a pintura a óleo, a aguarela, o pastel, o guacho e o próprio desenho de ilustração, deixando-nos paisagens e retratos que nada desmerecem no confronto com a sua produção decorativa.

Seguindo a escola e o gosto ornamentais em voga no final do século XIX, o artista conferiu-lhe um toque da sua inegável qualidade técnica tanto no desenho como na pintura. Com grande domínio da composição estética e do arranjo, tanto na forma como na cor e na iluminação, os seus trabalhos nesta área são autênticas obras-primas que se harmonizam perfeitamente com o ambiente em que se integram, conferindo vida e expressão aos interiores onde encontram. A revista Occidente, em meados de 1913, a propósito da redecoração da sala da Comissão de Estética, na Câmara Municipal de Lisboa, publica uma das primeiras críticas divulgadas sobre o artista:

“… o seu estilo é o clássico modernizado e o assunto baseia-se na história das grandes viagens marítimas dos portugueses.

As paredes são encrinadas pela pintura dum grande friso em que entram as naus e caravelas entrelaçadas por louros e palmas.

No tecto, que é rectangular, vê-se uma larga faixa com pilastras ornadas de grinaldas de flores dando ao seu conjunto a forma de escudos intercalados por aquelas, e aos ângulos remata com fortes-dragões que sintetizam a bravura dos nossos homens do mar.

Esta faixa, nos seus dois lados maiores, têm ao centro os emblemas da Ciência e Arte representadas por mulheres e respectivos atributos.

Ao centro de tecto e fechado por uma moldura de louros, palmas e carvalho, estão pintadas a imitar tecido, as armas da cidade de Lisboa encimadas por uma vigorosa cabeça de mulher…

… Depois do referido trabalho estar concluído foi devidamente apreciado pela Comissão de Estética que deu o seu parecer à Câmara muitíssimo agradável para o artista…”