Saborzinho achocolatado – treze (fim)

título geral

XIII – Um arquitecto de sonhos…

Pesquisa, investigação e, mesmo, reconstituição material, notícia colhida ou deduzida, colagens – todo esse apaixonante trabalho interdisciplinar, entre recordações de memória e convicções do presente, levou-me a conclusões -ou propostas- que aqui partilharei. Consegui recuperar um bom punhado das imagens originais e, por vezes, outras nem sequer imaginadas mas em estreita cumplicidade com aquelas. Creio que esta “achocalatada” empresa pode acrescentar novos dados, nomeadamente na revelação de dados que, ainda longe de encerrarem tal dossier, significarão um acréscimo de informação laboriosamente organizada, embora ainda parcelar, sobre a crónica de tempos, personalidades e meios de comunicação a seu modo fascinantes“.

Escrevi estas linhas na primeira destas crónicas, de relação já longa e hoje finda, sobre os propósitos pessoais que me conduziram à presente série, inspirada por um belo texto de Jorge Silva. Creio ter atingido, ainda que parcialmente, os objectivos enunciados, na recuperação de um capítulo essencial na história nacional da banda desenhada e, sobretudo, no realce, nunca excessivo, devido a essa notabilíssima figura de tais tempos que foi o arquitecto José Ângelo Cottinelli Telmo.

13 - cabeçalho ABCz 13 - ABC-zinho cabeçalho1

À História do Chocolate (SIC) procurei juntar os outros testemunhos, complementares, que o ABC-zinho divulgou nas suas páginas, sobretudo no âmbito da relação publicitária e promocional que aliou a empresa industrial e o jornal infantil: as bandas desenhadas, as trocas epistolares, as alusões soltas e os dois originais concursos. O denominador comum de todas estas iniciativas foi, de forma indiscutível, o director da publicação.

13 - capa um verdadeiraHenrique Marques Júnior (1881-1953), escritor, pedagogo, tradutor, autor de uma notável obra sobre a literatura infantil do seu tempo (Algumas achegas para uma bibliografia infantil, 1928), foi um dedicado e assíduo colaborador do ABC-zinho. No seu trabalho analítico e crítico, não hesitou em expressamente citar esta publicação, dela afirmando: “Se bem que este jornal não seja ainda a última palavra do género, é uma das cousas melhores que se publicam entre nós. Isto quanto à primitiva forma, porque actualmente fica muito a desejar“. Esta apreciação corresponde à saída de Cottinelli Telmo da direcção do ABC-zinho, razão principal do declínio e termo da sua fértil vida.

13 - pirilau capaSe atentarmos com alguma atenção na equipa que ele juntou e sabiamente coordenou ao longo da sua permanência como responsável editorial do jornal, aí registaremos a activa participação de algumas das mais significativas figuras da cultura artística e literária da época, como Augusto Pires de Lima, o citado Henrique Marques Júnior, Jaime Martins Barata, José de Oliveira Cosme, Fernanda de Castro, Raquel Roque Gameiro, Stuart Carvalhais, Alfredo Moraes, Rocha Vieira, Alice Rey Colaço, Olavo d’Eça Leal, Óskar, Emmérico Nunes, Silva Graça, Carlos Botelho, Ofélia Marques e outros. Além disso, foi responsável pelo “lançamento” de alguns novos valores, que mais tarde amplamente se confirmariam, como António Cristino, Amélia Pae da Vida ou António Cardoso Lopes.

Cottinelli Telmo (Tio Pirilau) foi, à nossa escala, uma espécie de reincarnação de 13 - Cottinelli 22Da Vinci, um génio quase enciclopédico que revelou a sua invulgaridade em diversas áreas da intervenção criativa. No jornalismo, escrito e desenhado, na imprensa em geral, na arquitectura, no cinema, na publicidade, na própria gestão empresarial, Cottinelli Telmo foi grande e deixou obra que perdurou ao longo das gerações. A sua criatividade, apoiada por uma assumida cultura humanista e pela irreprimível tendência para uma lúcida e realista intervenção social, fez escola. Apenas uma morte precoce lhe limitou tão polifacetada herança que poderia ter atingido ainda uma maior dimensão se o seu tempo de vida não tivesse sido brutalmente interrompido.

Quando me parecer oportuno voltarei ao ABC-zinho, numa apreciação global e aprofundada que certamente ainda mais salientará o inestimável papel que o jovem arquitecto, seu director e principal animador, nele desempenhou.

13 - sicSe, como diziam poetas, a obra nasce se o homem sonha ou o mundo avança sempre que o homem sonha, então um dos pioneiros e mais válidos jornais infanto-juvenis portugueses foi produto do sonho de um Homem.

Um sonho que ainda hoje nos motiva, nos impressiona, nos ocupa de forma pertinente e imperativa, sob a forma dessa publicação que ressurge do passado para fazer Futuro.

Com um saborzinho achocolatado…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Saborzinho achocolatado – doze

título geral

XII – O MISTÉRIO DAS CARTAS TROCADAS

O novo GRANDE CONCURSO DA SIC, anunciado no número 62 do ABC-zinho, em 26 de Novembro de 1923, mal tinha terminado o anterior, será não apenas o último como também, provavelmente, o mais criativo.

Agora, a proposta é quase insólita: o jornal publicará uma série de cartas, exactamente seis, trocadas entre vários membros de duas famílias, a propósito de um assunto em que aparecem os famosos chocolates da S.I.C. (estou a seguir à letra o regulamento, daqui esta adjectivação). As referidas cartas, ainda para mais complicar a questão, não serão divulgadas pela ordem das respectivas datas, nem sequer sendo indicado o parentesco que une os subscritores.

Reproduzo agora textualmente o parágrafo seguinte:

Deverão portanto os leitores (depois de ter sido publicada a última) fazer de Sherlock-Holmes e deduzir, pela leitura delas, o que foi a tragédia chocolástica e Sicquesca que se passou no meio das duas famílias cujos membros trocaram tal correspondência…

O Tio Pirilau, certamente o autor do regulamento, procurou a seguir animar os potenciais concorrentes, quando concluiu que “o caso parece mais difícil do que realmente é!”

E o texto constante da contracapa desse número 63 do ABC-zinho (3 de Dezembro de 1923), terminará com uma “patriótica” e “achocolatada” máxima incentivadora:

Estejam atentos, vão lendo as cartas com cuidado e verão como a S.I.C. e os seus famosos chocolates fazem parte tão integrante da vida duma nação!

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Recapitulo o contexto que envolve estes pormenores constantes de um simples jornal infanto-juvenil, com uma imensidade de leitores adultos. Ao tempo, os anos 20 do século XX, este tipo de publicações dispunha entre nós da tradição de conteúdos essencialmente moralistas (O Amigo da Infância, As Creanças, Jornal da Infância, o Supplemento Humoristico de O Seculo, O Gafanhoto, A Montanha para as Crianças…), dotados de meras ilustrações e de raras histórias aos quadradinhos. Cottinelli Telmo rompe com tudo isto, sobretudo com a infantilização patente no seu envolvimento. Sendo certo que se apoiou em alguma e seleccionada produção estrangeira, sobretudo inglesa e francesa, em muito a ultrapassou. A sua rara intuição, bem traduzida no nível afectivo e pedagógico, não isento de críticas pertinentes, da abundantíssima correspondência epistolar com os leitores, apenas dela encontrou paralelo na transbordante criatividade que punha em todas as múltiplas modalidades da sua intervenção jornalística.

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Infelizmente, não disponho da totalidade da meia dúzia de cartas, mas apenas de quatro delas. Ainda assim, sobretudo analisando a solução do respectivo concurso, divulgada no número 75 do ABC-zinho, é possível reconstituir o seu integral conteúdo.

Com a proverbial pontualidade e rigor com que no jornal eram tratados todos os assuntos, incluindo naturalmente os concursos, a edição relativa a 25 de Fevereiro de 1924 fornecia a “chave” do enredo contido nas seis missivas. Ei-la:

 

A tragédia passada no seio das famílias Pinto e Peixoto, e de que se tirava a conclusão pela leitura das cartas publicadas no ZINHO, foi a seguinte:

Paulo escreveu a Pedro, pedindo-lhe para comprar uma caixa de bombons da S.I.C. que ele queria oferecer à mãe no dia dos anos. Quanto ao dinheiro, Pedro que fosse buscar à Rua do Alecrim o prémio que Paulo tinha ganho num concurso do ZINHO. O pai de Pedro lendo a carta de Pedro desconfia de qualquer coisa pouco correcta por parte do amigo de seu filho. Escreve ao pai de Paulo, etc. etc. – e desvenda-se o mistério. A mãe de Paulo envia a Pedro uma caixa de bombons, igual à que o filho lhe oferecera, por ele ter sabido guardar segredo e ter sido um tão precioso colaborador na obra de Paulo“.

E o Tio Pirilau conclui: “Aqui está, muito resumidamente, a tragédia… e o resultado deste concurso, outra tragédia para os que não ganharam!…

Sempre desabridamente irónico, este Tio Pirilau!

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Assim terminaria a ligação publicitária, e não só, entre o ABC-zinho e a SIC, que em muito ultrapassou, como ficou demonstrado, a fabulosa História do Chocolate, com os seus quadros arrancados à patriótica e crítica crónica de selectos episódios vividos nos monárquicos tempos…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Saborzinho achocolatado – onze

título geral

XI – O ROMANCE-NOVELA DA SIC

No dia 8 de Outubro de 1923, o ABC-zinho n.º 55 publicou uma longa carta do Tio Pirilau a propósito do grande concurso da SIC.

Mais uma vez, é interessantíssimo o teor desta missiva da autoria -como se sabe- de Cottinelli Telmo. Louve-se a aplicação revelada porque, ainda que tenha contado com dedicados colaboradores, no curto espaço de duas semanas e pouco, foi possível ler e classificar 264 romances!

O Tio Pirilau começa por comentar o facto de o número de concorrentes não ter atingido os 5 ou 6 milhares, cifra habitual em relação às charadas da secção Nesta Altura Toca e Pensar. E explica: é diferente “matar uma charada do tipo branco é galinha o põe” do trabalho de escrever um romance!

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Depois confessa, com a tal desconcertante naturalidade coloquial sempre usada, que “dois terços dos textos foram imediatamente postos de parte, ao primeiro golpe de vista; mas mesmo assim! Ah! meus amigos! Não desejamos repetir a experiência!” Após um louvor ao competente júri, deu conta do “irrevogável” (onde é que eu ouvi isto!?) resultado, seguido de alguns comentários.

O primeiro lugar, premiado com cem escudos, foi atribuído a Primos-entre-Si, pseudónimo de um (ou mais) concorrente obviamente adulto, dado o nível do discurso e do enredo.

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E o Tio Pirilau não deixa os leitores não premiados sem uma palavra. Que se lembrem, mesmo os que pensavam ter feito um impecável trabalho, que, embora muitos dos romances tivessem boas gramática e urdidura, tinham sido excluídos por “falta de relação do texto com as gravuras, falta de ambiente em relação às mesmas, episódios desligados quando a história devia ser uma só, falta de atenção para o objectivo principal: o reclame à S.I.C., etc., etc., etc.!

O comentário final, de tonalidade pedagógica, é outra nota de lógico realismo: “Como os leitores vão ver, Primos-entre-Si escrevem com gramática, não fazem estilo, evitam os lugares comuns e as palavras difíceis, cuidaram do reclame (do qual, de resto, a S.I.C. já não precisa!), não escreveram a mais nem a menos, e, sobretudo, urdiram de tal forma o seu romance, que cada capítulo é uma surpresa, um mistério que só no fim se desvenda e tem uma explicação tão fácil, que o melhor elogio que lhe pode fazer o júri é chamar-lhes: Maurice-Leblanc-zinhos!… São meninos? Não são! Deixá-lo! Este concurso foi até, nós o dissemos, um pretexto para interessar muitos dos Papás que já olham para o ZINHO mais do que por cima do ombro!

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Na página 16 (contracapa) desse número publicou-se o primeiro capítulo do romance (ou novela?) vencedor Os Bombons Desaparecidos, sendo os restantes divulgados nas semanas seguintes.

E, acompanhando o derradeiro capítulo, patente no número 62 do ABC-zinho, em 26 de Novembro de 1923, foi logo anunciado, a seguir, outro GRANDE CONCURSO DA SIC!

É o que saberemos a seguir…

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Saborzinho achocolatado – dez

título geral

X – Nesta altura, toca a pensar…

Escrevi no último “capítulo” desta série de crónicas que a dupla página do número 44 do ABC-zinho contendo a “fábrica para fazer bombons” tinha sido uma das primeiras notícias ali surgidas, sobre a SIC, após o termo da História do Chocolate.

Com efeito, houve uma outra, intercalada dois números antes, que dava conta do início de um concurso sobre os bombons da SIC. Quer dizer, a nova fase publicitária à marca assumia assim novos contornos.

Lembremos, previamente, que os concursos eram um ponto forte da publicação, praticamente desde o seu início. Com prémios curiosos, inclusivamente em dinheiro, tinham bastante receptividade, que até pode ser avaliada pelo conteúdo da correspondência abundantemente disponível nas páginas do jornalinho, por vezes espalhada em diversas páginas sucessivas ou intercaladas. Até esse momento, estávamos então em meados de 1923, já se tinham efectuado diversos tipos de concursos, como o de charadas em texto e/ou imagem (da secção Nesta altura toca a pensar), um sobre bichos que tinham sido objecto de folhas de construções para armar e um outro sobre rabiscos, muito curioso, proposto a partir de traços sem sentido aparente que os concorrentes tinham de prolongar para lhes conferir sentido e forma coerentes…

Pensados a partir da imaginação criadora de Cottinelli Telmo, estes desafios tinham-se tornado tradição no ABC-zinho. Agora, ele vai fazer incidir sobre a publicidade à SIC um novo modelo, bastante arrojado.

10 a

É assim, neste contexto, que a contracapa do número 42 do ABC-zinho, relativo a 2 de Julho de 1923, vai apresentar aos assinantes e leitores do jornal (já era semanário) um original desafio. Um negrinho (o preto Vicente!?) aponta o título do novo Concurso Quem quer(e) provar os chocolates da SIC?

Ao lado surgia uma ilustração solta (a primeira), seguida do texto explicativo, antecedendo a tradicional pé-de-página já “clássico”, como na História do Chocolate:

 

“Em que consiste este concurso? Nisto, simplesmente: Fazer uma história para as ilustrações que vamos publicar. Damos hoje a primeira ilustração e durante dois meses publicaremos ainda outras – ao todo 8 ilustrações. O leitor pequeno ou grande – vai olhando para elas, e à medida que forem saindo vai arquitectando o seu romance! Trata-se de uma coisa muito grande, que dê muita maçada? Não! A cada desenho corresponderão 20 ou 30 linhas de letra corrida em papel almaço vulgar.

O que é preciso é que a história tenha uma sequência fácil e verosímil e sobretudo que envolva no seu enredo um reclame aos apetitosos bombons da S.I.C.!…

Depois daremos mais explicações e falaremos dos prémios. Vão pensando!…

NÃO MANDEM NADA POR ENQUANTO! AGUARDEM INSTRUÇÕES!”

 

Estava lançada a provocação!

É interessante notar o cuidado de que se rodeia o texto explicativo, com sugestões dirigidas aos leitores pequenos e grandes. Com efeito, sabe-se por diversas fontes -as fotografias publicadas e o nível de certa correspondência- que existem muitos leitores adultos do ABC-zinho.

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Ainda que eu não disponha da colecção completa das ilustrações, é possível conhecê-las quase na totalidade (falta apenas a n.º 2), graças à sua repetição, a quando da divulgação da história (ou romance). As ilustrações são de origem inglesa, no estilo daquelas que, como gravuras de contos ou novelas, serão publicadas na série seguinte do jornal.

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No número 49 do ABC-zinho (20 de Agosto de 1923), ao mesmo tempo que é publicada a ilustração n.º 8, a última, surge um regulamento e a lista dos prémios, em dinheiro, num total de 4 contos de réis. As regras limitam-se a repetir o que já se sabia desde a primeira indicação sumária: pegar nos Zinhos 42 a 49 e estendê-los por ordem sobre uma mesa; os desenhos representam cenas diversas que não têm entre si, à primeira vista, nenhuma ligação entre si; então é puxar pelo caco, pela imaginação, e arquitectar uma história de forma que as ilustrações passem a relacionar-se com o texto escrito, não esquecendo no enredo uma alusão aos bombons da SIC, que sejam a origem ou base da história…

10 d

Os números seguintes do ABC-zinho contêm apelos à participação e é marcada a data de 20 de Setembro de 1923 para o limite da entrega dos romances.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

Saborzinho achocolatado – nove

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IX – O recomeço “civil” da SIC

Cottinelli Telmo não foi, apenas, o director do ABC-zinho e um dos seus criativos colaboradores gráficos. Também construiu os próprios argumentos para as suas ilustrações, fossem bandas desenhadas de página (prancha) única ou de continuação, e igualmente gravuras soltas ou “cartoons”, capas e cabeçalhos. Mas foi para além disto, que já seria muito.

9a - retratoCoordenou correctamente uma excelente equipa, onde pontificaram alguns dos nomes sonantes da época quer no domínio plástico, quer no literário, como tenciono detalhar numa futura abordagem global ao jornal. Escreveu contos e romances de aventuras que outros ilustraram. Idealizou e transformou em projectos executáveis, com tesoura e cola, construções de armar, originais, algumas com movimento, articuladas, e até jogáveis. Organizou concursos, de grande aceitação pública e muito participados, onde a criatividade era nota dominante. Elaborou e distribuiu suplementos, que funcionavam como divulgação e publicidade ao próprio jornal. Cuidou ainda da promoção deste através de original publicidade inserida nas suas páginas, por vezes integrando o conteúdo de capas, ilustrações, bandas desenhadas ou contos. Fez cinema, ainda que esta faceta não interviesse directamente no ABC-zinho, descontando a sua historieta A Grande Fita Americana – Aventuras de 1.ª ordem superiores às do “Pirilau”, que tinha criado no ABC (sem final) e que posteriormente Carlos Botelho redesenharia no ABC-zinho sobre o argumento original…

Para além de tudo isto, ainda se ultrapassou na tarefa que pessoalmente considero a mais relevante e uma das mais originais facetas da sua enciclopédica actividade, a de criar e manter no jornal uma secção permanente destinada ao diálogo personalizado com os assinantes e leitores, jovens e adultos (que também os tinha e muitos!), do ABC-zinho.

9b

Sob o pseudónimo Tio Pirilau (inspirado no herói da sua primeira historieta), ele alimentou durante anos uma troca de correspondência fluente e coloquial, cheia de humor e de sensatez, não isenta de críticas, verdadeiro compêndio de pedagogia prática e de escrita epistolar digna de uma antologia.

Por vezes, o chocolate SIC foi também abordado nesta troca de correspondência, assim confirmando não apenas a validade promocional da publicidade contida nos quadros históricos, como o papel significativo que tal conteúdo atingiu no conjunto do jornal, quase valendo como uma autêntica narrativa, portanto sequencial.

Há na crónica da banda desenhada nacional uma considerável intervenção de pedagogos profissionais, entre os quais poderão ser destacados, como positivos exemplos, Calvet de Magalhães, Maria Alberta Menéres ou Lauro Corado, mas ninguém, como Cottinelli Telmo -ele próprio professor de desenho no Liceu Passos Manuel- foi capaz de atingir semelhantes níveis de comunicabilidade e eficácia no diálogo com os receptores da mensagem contida num jornal infanto-juvenil.

Assinale-se que, quanto ao material e comentários aqui proximamente patentes, já não disponho do inestimável apoio contido nas excelentes obras que tenho consultado e referido. Portanto, ficam justificadas as óbvias limitações a que me arriscarei em troca da vantagem de, eventualmente, fornecer dados até agora inéditos, fundamentais para um melhor conhecimento desta época da banda desenhada nacional e para mais um mais perfeito entendimento da obra do invulgar e polifacetado criativo que foi José Ângelo Cottinelli Telmo.

Uma das primeiras notícias que surgiu no ABC-zinho sobre a SIC, logo após o encerramento do magistral “capítulo” tecido em torno da história pátria, foi uma ilustração intitulada COMO SÃO FEITOS OS BONBONS DA S.I.C., inserida numa dupla página do jornal n.º 44, em 16 de Julho de 1923.

9c

Na realidade, parcialmente explicada na legenda da ilustração, trata-se de uma referência alheia, aos caramelos de luxo Mackintosh’s (a própria ilustração exibe tal designação!), assinada pelo desenhador britânico William Heath Robinson (1872-1944). Este texto, claramente com assinatura (embora invisível)  de Cottinelli, comenta ironicamente a sequência desenhada segundo o inconfundível estilo narrativo da época.

9d

O trabalho original fora uma encomenda da industrial Harold Mackintosh, que gastou 25 000 libras numa intensa campanha publicitária ao seu gostoso produto, inserida em cinco dos maiores diários ingleses, entre Outubro de 1921 e Março de 1922. Esta “máquina para fazer bombons” foi precisamente o primeiro anúncio a ser divulgado…

9e

Acrescente-se que já no número 20 do ABC-zinho (21 de Agosto de 1922), um outro desenho de Robinson revelara uma “máquina para enxugar roupa“. O estilo “non-sense” do artista é desconcertante, caricaturando a era da máquina através de invenções complexas traduzidas em resultados absurdamente elementares, que o público olhava com respeitosa solenidade.

Como tudo isto deve ter sido grato a Cottinelli Telmo!…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Saborzinho achocolatado – oito

título geral

VIII – Um final para recomeçar

 

Aproximamo-nos do final da série História do Chocolate, provavelmente, no termo do contrato relativo à modalidade criada pelo génio de Cottinelli Telmo, na relação com a própria crónica da nossa monarquia. Mas não será glorioso o final da histórica exposição…

O reinado de D. José, que já tinha servido de mote para os dois quadros anteriores -o terramoto de 1755 e a expulsão dos Jesuítas- vai continuar como inspiração do próximo, patente no n.º 38 do ABC-zinho, relativo a 28 de Maio de 1923. Então, foi o atentado contra o rei o pretexto para a doce publicidade.

8 a chocolate

Sob um desenho ao seu estilo habitual, recuperado dos sombreados antecedentes, o autor escreve na legenda a versão pessoal dos factos:

Lembram-se do atentado de que foi vítima D. José I? Parece que os Távoras o que queriam era o carregamento de bombons da SIC que ele levava na sege…”

Esta implicação dos Távoras era uma certa explicação oficial, quase indiscutível nesta época. Consultando o Compêndio de História de Portugal, da autoria de Arsénio Augusto Torres de Mascarenhas, aprovado oficialmente para uso dos alunos dos liceus, composto pela Imprensa Nacional de Lisboa, em 1920, encontramos esta relação como indiscutível: “Sem dúvida, nas relações ilícitas que, segundo todas as probabilidades, o rei entretinha com D. Teresa de Távora, casada com o sobrinho dela, Luís Bernardo de Távora, se encontra uma das poderosas causas de se ter ligado à desgraçada conjuração regicida a mesma família dos Távoras“. As teses que hoje se debatem, sobre a eventual responsabilidade do duque de Aveiro, dos jesuítas ou até do próprio marquès de Pombal, não eram abordadas por esses anos vinte…

O exemplar 39, de 11 de Junho de 1923, passa a D. Maria I. Num “cartoon” que se torna difícil atribuir em pleno rigor à autoria de Cottinelli Telmo, dado o seu duvidoso traçado, a rainha mostra a coroa e o ceptro com os quais seria capaz de governar o Mundo inteiro. O “scetro”, como nos esclarece a legenda (para além de a própria imagem já o mostrar), é um “pausinho” de chocolate da SIC!

Não parece muito convincente esta tirada publicitária. A Boa Senhora Gorda, como é crismada no próprio anúncio, revelou-se incapaz de governar o seu pequeno reino, quanto mais o Mundo inteiro…

Com o número 40 concluiu-se esta série e com um ligeiro retrocesso cronológico, regressando o derradeiro quadro a… D. José!

Num regresso indiscutível a Cottinelli Telmo, eis o Marquês (?) perante a estátua equestre do seu rei, no momento da inauguração. E a legenda não deixa lugar a dúvidas: “… hesitaram se deviam pôr no medalhão a careta do Marquês de Pombal ou a marca da S.I.C. tais foram os benefícios dos chocolates da dita!…

8 b chocolate

Quando o arquitecto Eugénio dos Santos reconstruiu a praça, após o terramoto, logo determinou que o centro da mesma seria ocupado por um monumento a D. José. O alicerce para o pedestal da estátua foi logo instalado, mas a encomenda da estátua apenas seria concretizada em 1770. O escolhido foi o escultor Joaquim Machado de Castro e a estátua seria inaugurada em 1775, vinte anos após a catástrofe. Na frente do pedestal estão as armas do reino e um medalhão de bronze com a imagem do marquês de Pombal. Curiosamente, a quando da sua caída em desgraça, essa imagem foi retirada, apenas sendo reposta em 1833.

Portanto, a “proposta” constante da legenda parece quase uma metáfora…

E assim terminou, sem honra nem glória, um projecto que mereceria outro destino, pelo menos outro final, mais nivelado com a invulgar qualidade que revelou na sua globalidade.

João Paiva Boléo e Carlos Bandeiras Pinheiro, na sua obra já citada, lembram judiciosamente a promessa previamente inserida na revista ABC (“mãe” do ABC-zinho), de que a sua publicidade daria nas vistas pelo seu ineditismo, tendo como objectivo apetecer o objecto visado. E garantia, judiciosamente, que o público infantil era o mais exigente e entusiasta.

Não resta a mínima dúvida de que a temática escolhida por Cottinelli Telmo, a desconcertante criatividade com que a tratou, a inteligência e a cultura de que deu sobejas provas, a capacidade comunicatica que amplamente revelou e uma invulgar originalidade tornaram a História do Chocolate num caso exemplar no seio do panorama das revistas infanto-juvenis e, mesmo, da imprensa em geral.

Porém, não se esgotou aqui a intervenção de Cottinelli Telmo nem do ABC-zinho na sua relação publicitária com a Sociedade Industrial de Chocolates – S.I.C.

 

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

Saborzinho achocolatado – sete

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VII – Algumas doses de um amargo chocolate

 

Regressamos à nossa História de Portugal, perdão!, à nossa História do Chocolate precisamente quando empobrece o seu tradicional cabeçalho e quando regressa Emmérico Nunes. Coincidência? Talvez não.

Estamos a 15 de Janeiro de 1923, com o número 30 do ABC-zinho, em que se festeja a Restauração.

Um popular, burguês ou fidalgo, tanto faz, saúda a recuperação da Independência, com a bandeira da SIC ao ombro. E a legenda é compatível: “1640! Restauração! Restauração! Restauremos as forças perdidas, tomando chocolatinho da SIC, o melhor chocolate para creanças“.

7 gravura 1

Emmérico Nunes despedir-se-á da série no quadro seguinte, ainda subordinado à temática da Restauração. Agora é Matias de Albuquerque, o vencedor da decisiva Batalha de Montijo, que é citado. Aí, em plena luta, ele terá dito a um adversário espanhol:

Se queres que te não mate

Nem com esta espada te pique

Come um pau de chocolate

Mas há de ser do da S.I.C.

Uma pausa de mês e meio, correspondente a uma ausência de quadros nos números 32 e 33 do jornal, tem como seguimento o regresso de Cottinelli à criação do cartoon dedicado a um tristonho Afonso VI, no seu real desterro, onde a única coisa que lhe vale serão os bombons da SIC, tal como ele próprio confidencia…

Porém, acontece neste interregno um raro fenómeno, o da intromissão de um quadro “apócrifo”, ainda que encimado pelo título genérico História do Chocolate, na contracapa do n.º 33, em 5 de Março de 1923.

7 gravura 2

Ladeando o desenho de um pequeno negro, da autoria de Emmérico Nunes, com as tradicionais estereotipias raciais gráficas -carapinha negra, lábios grossos, brincos nas orelhas, pés descalços e ar ausente-, um texto alusivo ao Concurso de Bichos, em marcha, destaca entre os prémios as caixas de bombons SIC. O texto, cuja “pedagógica” leitura se recomenda, usa outra estereotipia, o “falar à preto”. Tal graça, alguns anos depois usada por Hergé no seu Tintin no Congo (e também em Carvão no Porão), acarretaria a este autor o gravíssimo labéu de racista. Como se sabe (já tratei o caso noutro “blog“), esta acusação prolongou-se, recentemente, muito depois da morte do “pai” de Tintin.

Na época, e no colonialista ambiente reinante entre nós, tudo isto era naturalíssimo. Aliás, as páginas do ABC-zinho revelam-no abundantemente.

Finalmente, para completar a abordagem ao insólito quadro, fixemo-nos num aviso ali evidente: “Brevemente: Nova  série destes anúncios.

Os três quadros seguintes (de uma nova série?), tal como acontecera com o relativo ao Infante D. Henrique deixam algumas dúvidas sobre a sua autoria, pelas mesmas razões gráficas, de estilo, nada conformes com a tradicional “linha clara” de Cottinelli Telmo.

Na ausência de dados seguros sobre a questão, utltrapassemo-la.

7 gravura 3

O quadro do número 35 do ABC-zinho, em 16 de Abril de 1923, revela-nos um aspecto escabroso do libertino comportamento de D. João V, o Magnânimo, que nenhum manual didáctico da especialidade inclui. Viciado em sexo e nadando em ouro e esmeraldas vindos do Brasil, o monarca escolhera como sua amante favorita uma religiosa do Mosteiro de São Dinis, em Odivelas. A célebre Madre Paula (Paula Teresa da Silva e Almeida) deu-lhe vários filhos e recebeu incontáveis riquezas. Reza a escandalosa crónica desses amores que a freira acolhia o seu real amante com docinhos. É este “delicioso” pormenor que terá inspirado a legenda do quadro alusivo:

D. João V escreveu à Madre Paula aconselhando-lhe os CHOCOLATES e BOMBONS da SIC como sendo os melhores“.

Cottinelli Telmo poderá não ter desenhado o “cartoon”, mas escreveu-lhe, seguramente, o argumento!

A continuação da História do Chocolate revelará mais algumas doses de humor negro.

7 gravura 4

É o caso do quadro relativo ao terramoto de 1755, no n.º 36 do ABC-zinho, em 30 de Abril de 1923.

Um anjinho sobrevoa um solar, intacto, com placas publicitárias SIC no telhado onde avulta uma alta e fumegante chaminé, entre escuras ruínas envolventes. A legenda, quase redundante, completa a óbvia mensagem:

Dizem que ao menino e ao borracho põe Nosso Senhor a mão por baixo! Pois em 1755, durante o reinado de D. José I, quando foi do terramoto, tudo veio abaixo menos a fábrica dos riquíssimos chocolates da SIC o melhor chocolate para creanças“.

No número seguinte, eis outra cruel alusão, servida por um sombrio desenho. A legenda diz tudo, sem merecimento de qualquer comentário:

(O Marquez de Pombal expulsou os jesuítas, no reinado de D. José)
O jesuíta: – Ó sr. Marquez deixa-me levar esta recordaçãozinha?…

A “recordaçãozinha” é uma lata de cacau SIC…

 

António Martinó de Azevedo Coutinho