EUSÉBIO – Crónicas de um reinado – 05

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A Bola – 25 de Julho de 1966  (parte quatro)

Fica hoje concluída, com a apresentação -separada- das ilustrações relativas a Eusébio, a integral descrição do exemplar de A Bola que conteve o relato e comentários do jogo Portugal-Coreia do Norte.

Não foi por mero acaso o facto de o “pantera negra” ter surgido numa dezena de fotografias. Arrumei-as aqui por ordem cronológica dos factos e não consoante a sua inserção no jornal, por me parecer mais interessante esta ordenação quase narrativa.

Sem comentários desnecessários, sobretudo por força das próprias legendas, elas aqui ficam. A única nota que se justifica diz respeito à terceira fotografia, que surgia na capa do jornal logo abaixo da aqui publicada em oitavo lugar. Quer isto dizer, recorrendo à legenda comum, que regista o momento do 1.º golo de Portugal e também o primeiro de Eusébio.

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EUSÉBIO – Crónicas de um reinado – 04

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A Bola – 25 de Julho de 1966 (parte três)

Fica hoje concluída a reprodução das páginas de A Bola que tem vindo a ser evocada, com o último conjunto. Faltará, conforme previsto, a reprodução em separado das fotografias onde figura Eusébio, o que será concretizado a seguir.

Não existe, no material hoje reproduzido, nada que mereça uma especial menção, pois torna-se redundante abordar a qualidade jornalística dos dois principais redactores intervenientes, Vítor Santos e Carlos Pinhão. A sua capacidade profissional, aliada a uma qualidade literária que era então timbre dos homens da imprensa, independentemente do seu género informativo, fizeram deles nomes incontornáveis na magnífica equipa que adornava aquele tri-semanário desportivo.

Aqui ficam as derradeiras 4 páginas, com vénia ao jornal e aos seus excelentes profissionais, onde gostaria de incluir os fotógrafos, cuja identidade ao tempo não era ainda considerada ao mesmo nível dos homens da escrita… Injustiças que hoje, assim o creio, já não se cometem.

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EUSÉBIO – Crónicas de um reinado – 03

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A Bola – 25 de Julho de 1966 (parte dois)

Publica-se hoje a reprodução de mais 4 páginas do exemplar de A Bola onde se relatou o “histórico” desafio que a nossa selecção disputou com a Coreia do Norte, numa eliminatória relativa ao Mundial de 1966.

O encontro teve em Eusébio a figura central, pois foi ele quem desequilibrou o resultado a nosso favor, quando quase tudo parecia perdido no escândalo dos três golos que tivemos de atraso.

Se, na capa do jornal, o título mais categórico explicava ter sido Eusébio “cardiologista” de 25 milhões de corações!, certamente aqui contabilizando todos os “cidadãos” do Império, as páginas hoje divulgadas contêm outras chamadas de atenção para o portentoso futebolista:

Eusébio candidato a outro prémio – certamente ligando o devido ao melhor marcador de golos ao relativo ao melhor futebolista do torneio;

Eusébio – 4 golos seguidos!;

Goleada – Eusébio na pista das mil libras;

Velada ameaça de Alf Ramsey (seleccionador inglês) – Pode acontecer a Eusébio o mesmo que a Pelé (uma lesão) no Portugal-Brasil…;

Diz o Sunday Express – “Personalidade” n.º 1 do torneio: Eusébio da Silva Ferreira.

Enfim, uma perfeita unanimidade.fumar

Como insólita curiosidade, hoje impensável, que dá conta dos hábitos e costumes desses tempos, destaca-se um bloco publicitário disfarçado de notícia, onde se revela um “prémio” atribuído aos elementos da comitiva.

Sem comentários.

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EUSÉBIO – Crónicas de um reinado – 02

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A Bola – 25 de Julho de 1966 (parte um)

 

O futebol em geral, a nossa selecção nacional em particular e Eusébio, muito em especial, como figura central do futebol e da selecção – eis o objectivo da recuperação de uma peça jornalística dos tempos heroicos em que figurámos no pódio mundial do pontapé-na-bola.

Como revisto, procedi à digitalização das páginas do histórico exemplar do tri-semanário A Bola que guarda a memória escrita e fotografada de um encontro de futebol onde Eusébio personificou a qualidade invulgar, o empenho levado ao sacrifício, o génio de excepção. Procurei diversas soluções entre as quais escolhi a que me pareceu mais adequada, embora imperfeita, em função dos recursos técnicos de que disponho.

Procurei salvaguardar a legilibilidade possível acima da estética, a fim de que os interessados possam reler essas crónicas, as peças de reportagem, os documentos transpostos a quente para o papel. Reler isso, na relativa frieza que as décadas entretanto passadas permite, mantém ainda inegável frescura. É história autêntica, páginas de uma crónica que em muito ultrapassa o futebol e o próprio desporto para se inserir num mais amplo contexto sócio-político, em função -sobretudo- da actuação do nosso Governo de então, onde as questões coloniais desempenhavam um relevante lugar. E onde a posição de Eusébio -realce-se o fenómeno- constituía uma imagem de marca do aparente respeito oficial pela igualdade racial e pelos direitos dos povos africanos que então controlávamos. Moçambicano embora, mas sobretudo português, o grande atleta ultramarino fora nacionalizado e transformado em modelo exemplar das benesses do Império.

Algumas vezes, naquilo em que as entrelinhas conseguiam ultrapassar a apertada visão censória praticada sobre todos os órgãos de comunicação, vislumbrava-se uma pequena janela (logo a seguir fechada) sobre uma realidade coberta de disfarces. Enfim, regressemos ao agora essencial.

Apresentam-se hoje as quatro primeiras páginas, e depois, em dois outros idênticos “pacotes”, as restantes. Finalmente, para completar a reprodução de A Bola de 25 de Julho de 1966, dedicarei especial atenção à reprodução das gravuras com interesse, procurando melhorá-las na sua qualidade.

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EUSÉBIO – Crónicas de um reinado – 01

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01 – UMA “AMEAÇA” CHAMADA COREIA DO NORTE

A grande sensação do Campeonato do Mundo. Portugal na hora da glória – e já vamos.. na Coreia do Norte. Assim rezava o título de caixa alta com que A Bola – Jornal de todos os Desportos (a “Bíblia“, como alguns lhe chamavam) encimava a capa da sua edição de 21 de Julho de 1966, onde louvava a “lição” que tínhamos acabado de aplicar ao Brasil, segundo crónica de Vítor Santos. Carlos Pinhão, por seu lado, dizia: Que equipa de Portugal! A terrível vingança da ‘bola quadrada’. E, sobre Eusébio, acrescentaria então este jornalista: Eusébio virou o esperado ‘show’. (…) Guardamos para o fim, Eusébio, que, como prevíramos quando da sua economia frente à Bulgária, guardou para o Brasil, e para Pelé, toda a exibição dos seus múltiplos talentos de um fora de série. (…) Para Eusébio, no entanto, o público fez sempre excepção e com justiça, pois o moçambicano, metido em brios, constituiu um festival à parte, a justificar até uma tarifa especial nos bilhetes dos jogos em que este tome parte, daqui por diante.

Aliás, a imprensa internacional afinava pelo mesmo diapasão: Daily Express: Um super-show de Eusébio, o grande. (…) O Brasil não conseguiu dominar o brilhante Eusébio. The Guardian: Simões, Torres e Eusébio são os três mosqueteiros dos tempos modernos, nunca vi um jogador com um remate como Eusébio. Sun: Quando Eusébio, o mais notável avançado deste campeonato até agora, marcou o segundo golo, compreendeu-se que o Brasil estava perdido. A cinco minutos do fim, a execução ficou completa com o golo relâmpago de Eusébio. Daily Sketch: Disse na última semana que Eusébio estava a desafiar Pelé para o título de melhor jogador do Mundo. Julgo que Eusébio roubou o título, ontem à noite. Daily Mirror: Eusébio, a cobra que marcou dois grandes golos e criou o terceiro. L’Equipe: O Brasil depositou toda a sua confiança em Pelé, mas Portugal teve Eusébio. (…) Simões, Eusébio e Torres foram os melhores jogadores em campo.

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Arrumado o Brasil por 3-1, tendo vencido o Grupo C, vinham aí os quartos de final, que colocavam no nosso caminho a Coreia do Norte, segunda classificada no Grupo D, após a sua surpreendente vitória sobre a Itália.

Era a Coreia do Norte um enigma, como país (ainda hoje o é!) e como equipa de futebol, em 1966. Portugal fez sensação… mas a Coreia fez “escândalo” – assim proclamava um título de A Bola. E o próximo encontro era classificado de “esquisito“… (…) O nosso próximo adversário: estranha e enigmática Coreia do Norte… (…) Na equipa que venceu os “profissionalíssimos” italianos, há militares, um cantor e um dentista. (…) “Tomba-gigantes”, mete filmes a preparação dos coreanos. (…) O coreano mais alto mede 1,75 m, o mais baixo 1,59 m.

Um rico prémio. 30 contos – vale a vitória sobre a Coreia. Eis a expectativa criada para um encontro que ninguém teria previsto no início desse Campeonato do Mundo.

O que foi o épico desafio de futebol lembrou-o, e de forma exemplar, o canal TVI 24, no serão do passado dia 8. A activa, inteligente e profissional presença do notável homem da Rádio que é Fernando Correia, assim como as dos próprios intervenientes Hilário e José Augusto, também do então suplente José Carlos, transformaram a recordação fílmica desse desafio de 1966 numa espécie de novidade quase absoluta. Pareceu por vezes que nada sabíamos do que tinha efectivamente acontecido e que uma imensa expectativa nos tomava, do inicial descalabro do 0-3 à redentora recuperação do 5-3, com quatro golos seguidos da autoria de Eusébio.

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O programa foi concebido para recordar e homenagear Eusébio e creio que tal objectivo foi plenamente atingido, porventura ultrapassado. Viu-se ali tanto da grandeza como da humildade e sofrimento do “rei”, lembrou-se ali a fundamental importância de um homem, ainda que o futebol seja, e é, um desporto colectivo.

Muitos anos depois, pudemos reviver isso mesmo através do similar exemplo de Cristiano Ronaldo, no recente “tira-teimas” com a Suécia. É esta a sina dos futebolistas e dos homens invulgares, raros em cada geração.

Voltemos à Coreia do Norte, finalmente vergada à determinação de uma equipa nacional ferida no seu orgulho, funcionando como uma orquestra que executou uma autêntica ode sinfónica ao futebol, sob a batuta de um genial maestro.

Provavelmente, ainda que seja impossível garantir tal epíteto, foi o jogo do dia 23 de Julho de 1966, em Liverpool, onde se defrontaram Portugal e a Coreia do Norte, aquele onde a invulgaridade de Eusébio marcou a diferença, aquele onde o excepcional futebolista deixou uma marca irrepetível de excepção. Lembro-me muito bem da emoção com que então vi a transmissão televisiva, em directo. Guardei na minha colecção o exemplar de A Bola n.º 3066, Ano XXII, de segunda-feira, dia 25 de Julho de 1966, que traduziu, pelas penas brilhantes de Vítor Santos e sobretudo de Carlos Pinhão, o relato e os comentários desse momento único no historial do nosso futebol.coreia 2

São doze páginas de grande formato, em papel já um pouco amarelecido pelo tempo, onde se guarda a memória das emoções de então. Apesar da relativa dificuldade técnica, irei proceder à sua integral digitalização, procurando recuperar sobretudo as imagens relativas a Eusébio, reproduzindo o trabalho neste blog, quando conseguir completá-lo de forma satisfatória.

Tenho a certeza de que, assim, serão satisfeitos tanto a curiosidade como o interesse de quem aprecie o futebol em geral, o historial da nossa selecção e, sobretudo, Eusébio da Silva Ferreira.

António Martinó de Azevedo Coutinho

 

NOTA – O videograma seguinte é um raro e oportuno documento audiovisual. Creio ser o único registo do histórico desafio de 23 de Julho de 1966 dotado de cor original, uma vez que o filme que habitualmente é apresentado é a preto e branco. Embora sumário, revela-nos Eusébio na glória dos golos e no drama do sofrimento, pela duríssima carga que sofreu antes do seu 4.º e decisivo golo desse encontro, que significou a viragem no insólito resultado.  Esta preciosidade deve-se a um anónimo coleccionador de coisas do desporto, de origem arménia, nascido no Irão e fixado nos Estados Unidos desde 1985, mais concretamente na Califórnia, onde trabalha em engenharia. No seu interessante e bem documentado blog, Soccer Nostalgia (desde Maio de 2011), está patente o documentário que hoje aqui se partilha.