Firmino Crespo – 4

CABEÇALHO FC

Ao iniciar aqui a curta série de artigos sobre Firmino Crespo não contava com a surpresa -agradável e oportuna surpresa- de ter entretanto encontrado, entre os meus inúmeros recortes de imprensa, mais um texto do saudoso professor sobre o seu amigo e colega.
Recolhido de Artes e Letras, suplemento cultural do Diário de Notícias, o artigo em questão terá sido redigido na mesma época da conferência transcrita no post anterior, Junho de 1970.
Trata, expressamente, da personalidade íntima de José Régio, incluindo a postura como professor, talvez um dos aspectos mais controversos da sua vida pública, uma vez que não é consensual o sentido de diversas opiniões expressas a tal propósito. Mas este particular não será aqui e agora abordado.
Firmino Crespo, com a inegável autoridade testemunhal, intelectual e moral que possui, dá-nos um outro retrato pessoal do Poeta, complementar daqueles que revelou noutras oportunidades.
Por isso, este contributo é mais uma peça que nos ajuda a compreender o Homem complexo, embora simples, que Régio foi, na intimidade, por vezes bem distinto, na vulgar aparência transmitida, do cidadão que Portalegre albergou nos seus muros durante mais de três décadas, muitas vezes o injustiçando…

Régio visto por Crespo

Curiosa é também a fotografia que acompanha o texto. Utilizei-a, ignorando esta fonte, no cartaz e no convite anunciadores das comemorações levadas a efeito em Portalegre, em Março de 2011, a propósito dos 75 anos da estreia da peça Sonho duma Véspera de Exame.cartaz e convite
O pequeno aluno, da capa e batina, que se encontra no lado esquerdo da fotografia, é o dr. Atanásio, ilustre jurista de Cascais, recentemente falecido, que esteve presente nessa festa de homenagem e evocação dum episódio muito significativo da presença de José Régio, cidadão, literato e professor, na cidade da Toada.
Como última nota sobre o texto a seguir transcrito, achei nele curiosa a lembrança dum regular serviço prestado por Régio à comunidade liceal, incluindo alunos que não leccionava, quando paciente e magistralmente os ensaiava na dicção de poemas para récitas escolares. Aconteceu-me a excepção, a de nunca ter aprendido com o mestre “a recitar bem, com simplicidade inteligente, a lírica camoniana“. Já aqui recordei esses momentos em que, traindo a sistemática confiança de Firmino Crespo e de Reis Pereira, atropelava sistematicamente (por genética falta de jeito!) os versos de Camões ou de qualquer outro poeta que me coubesse em sorte (ou azar?)…
De Artes e Letras n.º 801, ano XV, incluído no Diário de Notícias de 10 de Junho de 1970, aqui fica a integral transcrição do artigo José Régio, Professor, visto por um colega, de Firmino Crespo.

 JOSÉ RÉGIO
PROFESSOR, VISTO POR UM COLEGA

Toda a gente, no convívio diá­rio, costuma comportar-se de forma normal ou comum, em­bora diferenciações tempe­ramentais, mais ou menos acen­tuadas ou visíveis, marquem e distingam a personalidade de cada indivíduo. José Régio, na sua vida quotidiana, era como toda a gente. Ele próprio o diz num dos poemas das Encruzi­lhadas de Deus. Porém, certas atitudes ou impressões primei­ras davam dele uma ideia estra­nha, e errada, aos que preten­diam conhecê-lo pessoalmente ou ser-lhe apresentados. Como não cultivava a popularidade, não lhe agradavam grandes cír­culos à sua volta. Era simultaneamente uma forma de ti­midez ou de defesa da sua vida interior. Por isso tinha uma re­pugnância instintiva pelos exi­bicionistas ou certas formas de exibicionismo e de cabotinismo. Isto lhe valeu ou acarretou a antipatia dos que não encon­travam nele a aceitação ou con­vivência que pretendiam. Esta forma de orgulho ou intuição, como ele dizia, o levava a evitar esses tais (que ele intimamente suspeitava de insinceridade ou interesses), mesmo que tivesse de arrostar com o futuro res­sentimento ou opiniões depreciativas deles. Em geral não se enganava. O tal dom de psicó­logo ou de penetração dos pen­samentos alheios tinha-o em grau elevado e pode-se verifi­car na obra de ficção, como em certos capítulos do Príncipe com Orelhas de Burro ou nas novelas das Histórias de Mulhe­res, v. g. novela de O Vestido Cor de Fogo ou por todos os volumes de A Velha Casa.

Era, todavia, naturalmente cortês e de fina sensibilidade, pelo que se lhe tornavam penosas as pessoas fúteis, e ne­nhum apreço tinha por atitu­des subservientes. Um dia o vi irritado porque um antigo alu­no dele pensara em promover-lhe um jantar de homenagem. Discretamente fez constar que lhe desagradava a ideia. Por isso nunca aceitou condecorações, nunca desejou honrarias. Nas discussões, por vezes acaloradas, sobre temas de arte, de filoso­fia, de vida sociaL etc., ou na apreciação de pessoas, sabia manter uma força argumentadora e um sentido de justeza, ou de justiça, que enervava ou surpreendia o oponente ou os fanáticos de toda a espécie. Era contra todas as formas de fana­tismo estreito. Considerava a intolerância como um perigo ou mal nas relações humanas e so­ciais.

Era o seu fundo humano de moralista, de homem sincera­mente religioso, de defensor de um conceito de superior hones­tidade, que se patenteia atra­vés da obra novelística e dra­mática (cfr. o «Aio» de O Prín­cipe com Orelhas de Burro, ou o «Profeta» de A Salvação do Mundo), excluindo desta re­ferência, agora, as polémicas es­critas a que ele alude no posfácio da última edição dos Poemas de Deus e do Diabo (1969). Quero apenas referir-me às conversas ou discussões tra­vadas à volta da mesa do Café Central, em Portalegre, em que um pequeno grupo de amigos, ou tertúlia, se juntava, geral­mente, à noite. Não eram frequentes, mas apresentavam as mais das vezes um carácter de esclarecimento de opiniões ou dúvidas sobre variados assun­tos. Se era intransigente em certos pontos fundamentais, nunca, porém, desgostava que lhe apresentassem argumentos diversos, opiniões sérias, pon­tos de vista opostos.

régio e alunos

Muitos supunham que o la­bor poético ou o tempo e ener­gias gastos a escrever livros prejudicariam o seu mister de pro­fessor e que, portanto, as aulas se haviam de ressentir, sacrificadas em proveito das outras formas de actividade intelectual-literária. Puro equívoco! Na personalidade de Régio um sentido apurado de honestidade e respeito pelas obrigações e va­lores morais e humanos fazia dele um professor modelar, en­riquecido pela cultura e por naturais dons pedagógicos. As suas aulas de Português e Fran­cês eram magistralmente boas. Todos os seus alunos ficaram a ter por ele sincera estima e respeito. Claro, há sempre a excepção de uns tantos a quem o mestre não classificou tão alto, nos exercícios ou chamadas, co­mo a vaidade pessoal ou a ciên­cia pleonástica calculavam. Es­se erro de perspectiva os tornou ressentidos, organizando o exíguo grupo de críticos depreciadores ou propagandistas dos sós defeitos do homem, do mestre e do escritor. Mas quem o conheceu bem, numa convivência de muitos anos, sabe quanta seriedade punha no seu ofício de professor, metódico e exigente. Exigente mas não mes­quinho ou calculista. Eles aí es­tão, os seus antigos alunos, pa­ra o confirmar. Um deles, que é hoje actor afamado do nosso teatro, ao seu mestre de Porta­legre deve a descoberta da sua vocação teatral. E na festa anual académica, em 10 de Ju­nho, era ele quem tomava con­ta dos ensaios de poesias de Camões. E os alunos, rapazes e raparigas, aprendiam a dizer bem, a recitar, com simplicida­de inteligente, a lírica camo­niana, bem mais difícil do que parecia aos iniciados.

Quem assistisse a um exame seu nas provas orais de Portu­guês ou Francês ficava impressionado pela maneira inteligen­te como conduzia o interroga­tório. Era logo notado que lhe interessava conhecer a capaci­dade de raciocínio do candida­to, a sua preparação, o seu real valor. Tudo feito calmamente, com um evidente sentido de equidade. Mas não acedia a in­terferências, estranhas, indo até ao ponto, às vezes, de serenar os escrúpulos dos colegas ou a impaciência dos pais, dizendo-lhes que a percentagem dos que não eram aprovados ficava aquém do que poderia ser na realidade. E tinha razão e ex­periência, porquanto alguns supunham-se com direitos inatos, ou sociais, a livre e garantida passagem didáctica. Régio opunha-se a essa forma de usura de classes privilegiadas. Na pri­meira novela que escreveu e pu­blicou, Davam Grandes Passeios aos Domingos (1941), há refe­rências a esse tipo de persona­gem. Releiam-na, e quando en­contrarem o Chico Paleiros ve­rifiquem se ele não é um digno representante desse tipo social!

Nele, era uma forma de intui­ção ver para além das aparên­cias, o que explica a fama de esquivo, orgulhoso, intratá­vel. E, no entanto, era gentilíssimo com as senhoras, natural conversador com gente de to­das as classes, apreciador de to­da a forma de trabalho sério, franco com os amigos, alegre nas horas de convívio (algumas vezes aceitámos convite para almoçaradas em casa ou festas de lavradores amigos) e nos lon­gos passeios ou excursões acadé­micas que se davam com o rei­tor, colegas e alunos do liceu, pela serra, vale da Ribeira de Nisa, região sempre pitoresca nos meses de Outono ou na Pri­mavera, o Poeta não era menos alegre que qualquer dos com­panheiros.

Firmino Crespo

Firmino Crespo – 3

CABEÇALHO FC

Como prometido, apresenta-se hoje o texto, integral, da conferência proferida pelo Dr. Firmino Crespo na Escola do Magistério Primário de Portalegre, sobre o seu colega e amigo José Régio. Foi transcrito de Mais Além, revista da Escola, e é ilustrado com gravuras daí retiradas.

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Lembro-me da emoção desencadeada, nesse serão do já distante 25 de Fevereiro de 1970, pelo reencontro do professor com alguns dos seus antigos alunos, como era o meu próprio caso.
Recorde-se o facto de José Régio ter morrido apenas há dois meses atrás (22 de Dezembro de 1969), quando esta oportuníssima iniciativa da Escola portalegrense foi concretizada, num clima ainda dominado por perda tão recente.
A homenagem prestada por Firmino Crespo a Régio, de grande qualidade literária e sentimental, prolongou-se assim na evocação dos tempos da docência e de vivência de ambos, em Portalegre, então justamente associadas ao acto. 

Minhas Senhoras e Senhores:  

Sejam as minhas primeiras palavras uma saudação à cidade que teve o privilégio de produzir ou de ver passar no seu termo três poetas que são honra da língua portu­guesa e glória das nossas letras: José Régio, Cristóvão Falcão e José Duro. Tão distantes no tempo e tão dife­rentes no estilo, deve-se à circunstância de Portalegre os ter albergado, por breve ou longo tempo, a razão de a ela para sempre ficarem associados. Num tratado de medicina greco-romana que se transmitiu à civilização ocidental assinala-se a importância que o ambiente geográfico pode ter no carácter ou na saúde humana, através da tríplice fór­mula – Dos ares, das águas e dos lugares. Ora neste com­plexo geográfico, em que se edificou e foi crescendo a ci­dade de Portalegre, poderíamos apontar alguns elementos explicativos do velho aforismo da medicina de Galeno e Hipócrates – a de que a natureza ambiente foi e é propícia à eclosão ou é estimulante de sensibilidades artísticas, lite­rárias, estéticas. Como exemplo desta interdependência da natureza geográfica e da arte ou expressão literária pode­mos apontar a obra de José Régio, observando-o especial­mente na veemência lírica a que ele chamou Toada de Por­talegre, que é uma homenagem-documento à cidade onde viveu grande parte da sua vida. Nenhum dos outros poe­tas que a Portalegre se ligam por forma mais carnal ex­primiu, em grau e realismo tão intensos de verdade poética como José Régio, o carácter dos ares, da terra, dos lugares desta formosa região do Alto Alentejo. E não só a paisa­gem externa, as manchas do panorama, os longes dos hori­zontes, a variedade de relevo, as mutações climáticas, a luz das horas diversas do tempo meteorológico, mas até o mun­do complexo do homem comum, dos recônditos sentimentos humanos. A originalidade desta paisagem humana e geo­gráfica ele a surpreendeu e anotou em traços rápidos e certeiros, na sua cor justa ou vigorosa realidade.

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Era José Régio uma natureza complexa, uma inteligên­cia profundamente penetrante do que fica além das apa­rências, transmitindo-nos mais que nenhum dos outros a variedade de aspectos do ser humano. Cristóvão Falcão (e eu não duvido que tenha sido ele o autor da écloga Crisfal e brevemente conto ampliar e publicar um meu estudo sobre a singularidade dessa écloga), Cristóvão Fal­cão é fundamentalmente um lírico, sentimental e bucólico, que transpôs o drama amoroso, pessoal?, da fase adoles­cente para a forma da poesia pastoril, género em voga no seu tempo. Mas ao desenvolver o seu caso dramático ele envolve-o e acrescenta-o de considerações de ordem moral e social, quando não é puramente um quadro descritivo. Perecebemos que na écloga se esboça uma movimentação, mas em forma de sonho, quando o personagem central se desloca, voando, da foz do Tejo ao vale de Lorvão. Aqui assistimos à cena mais dramática da écloga, talvez o ponto fulcral desta peça lírico-dramática quando uma agitada ar­gumentação de censuras se desencadeia entre Crisfal e Ma­ria junto à fonte do mosteiro (ests. 51-53). Tudo topogra­ficamente e psicologicamente certo, de uma realidade hu­mana fácil de compreender. O diálogo prolonga-se numa insistência própria de apaixonados orgulhosos, adaptando-se a expressão literária à variedade e gradual modificação dos sentimentos dos dois personagens. Os elementos com­ponentes do cenário são exactos, os necessários e os auten­ticamente reais, como a topografia do local descrito.

Longa que seja a écloga Crisfal (para cima de mil ver­sos setessilábicos), bela que seja a sua expressão poética, rica de notas humanas – opiniões, dúvidas, sentimentos de revolta, acusações, estados de resignação, solilóquios, lágri­mas, abraços, beijos, súbitos desabafos de inconformismo social e religioso, ela não chega a atingir a largueza e a potência de obra mais trabalhada e de experiência mais longa e profunda. Isso vamos encontrar, esse largo fôlego de expressão, na obra de José Régio, mesmo que tenhamos de nos limitar ao lado ou aspecto da sua produção poética. Assim, desde os «Poemas de Deus e do Diabo», livro que o revelou abruptamente (e escandalosamente) em 1925 à li­teratura portuguesa, até à publicação do «Cântico Suspen­so», em fins de 1968, como é rica e variada a obra do poe­ta! De facto, bastariam os sonetos do seu livro «Biografia» para o acreditar como grande poeta, da estirpe de Camões ou de Antero de Quental. Muitas vezes lhe ouvi dizer que se algum livro seu de versos ele sentia que lhe havia de sobreviver, era o da «Biografia». Editado pela primeira vez em 1929, não é ele uma exposição cronológica da sua vida como poderia depreender-se do título, mas uma série de momentos despegados da sua vida introspectiva e confron­tados com a realidade social. Abre o livro com o soneto Conto, à maneira de prefácio ou prelúdio de um pro­grama em que fica esboçada toda a longa viagem desse me­nino inexperiente que, sendo ele, também se poderá reco­nhecer em cada um de nós (Vai o menino só na estrada grande).

Nem sempre poderemos concordar com a opinião dos artistas-escritores ao julgarem a sua própria obra, mas te­nho de confessar que José Régio possuía um apurado sen­tido crítico ao fazer julgamentos de ordem literária e até de ordem moral. Todavia não aceito que os restantes livros seus sejam menos importantes ou significativos que a «Bio­grafia». Estou a lembrar-me das peças de teatro, da produção novelesca e até dos ensaios de crítica para não salientar o seu interesse de coleccionador de obras de arte popular. Sim, porque a Casa-Museu, que ele foi aumen­tando ao longo de muitos anos, também exigiu um dom superior de apreço pelo trabalho artístico alheio e uma vontade consciente de recolher e concentrar os elementos dispersos, e abandonados, num ambiente adequado para seu deleite e de todas as pessoas cultas.

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Algumas páginas da novela «Davam Grandes Passeios aos Domingos», ou da colectânea de contos «Há Mais Mundos», ou dessa grandiosa construção do romance cíclico «A Velha Casa» podem incluir-se numa antologia de trechos que marcam um escritor como um clássico da literatura portuguesa e como um grande espírito preo­cupado com os problemas da existência humana. Em toda a obra de ficção podemos encontrar tipos ou personagens que são retratos de almas ou uma esmiuçada análise de caracteres psicológicos, complexa teia de pensamentos recônditos e desejos inconfessados que em grau diferente ou variável intensidade se distribuem, tumultuam, agitam, fremem pelo íntimo de cada um de nós, quantas vezes sem termos consciência exacta do que se passa nesses recessos obscuros da nossa vida interior. Ora esta análise intros­pectiva, ou melhor, prospecção que o romancista ou psicó­logo aplicava e conduzia às zonas longínquas e profundas da nossa vida subconsciente, era um impulso e uma inten­ção, isto é, tinha uma finalidade – a de um espírito ansioso por descobrir e revelar os desvãos sombrios de um ser que se convencionou chamar humano. Na alegoria do seu romance «O Príncipe com Orelhas de Burro», que lembra o estilo fantasista das novelas de cavalaria, foi o que ele pretendeu com a misteriosa descrição da floresta onde os reis da Traslândia se perdem logo nos primeiros capítulos, regressando com um mistério que resulta no nascimento do jovem príncipe Leonel.

O símile do espelho, ou da água do poço onde se con­templava a si mesmo, ele próprio representante da forma humana, aparece várias vezes nos seus versos, quase se tornando uma obsessão, como nesta quadra primeira do soneto Narciso:

Dentro de mim me quis eu ver. Tremia,
Dobrado em dois sobre o meu próprio poço…
Ah! que terrível face e que arcabouço
Este meu corpo lânguido escondia!

levou alguns crítico-humoristas a uma síntese depreciativa da temática do lirismo e personalidade de José Régio, mas sem fundamento sério, porque o símile era apenas um ele­mento metafórico dos muitos que o artista utilizava para exprimir a variegada forma do seu pensamento.

Outro soneto da «Biografia» exprime sob outra forma alegórica o mesmo complicado e obsediante pensamento do poeta – Libertação.

Esta luta irreprimível por um conhecimento, o mais completo possível, da natureza humana, uma forma de Absoluto, imanente ou transcendente, e sua expressão artís­tica, desenvolve-se ao longo de toda a obra de Régio. No teatro, porém, é dada com maior agudeza e amplidão espectacular, particularmente na peça «Jacob e o Anjo». Embora o início da representação surja numa atmosfera penumbrosa de pesadelo-sonho, imediatamente somos pos­tos em frente de um conflito, a luta dramática do Rei-humano e do Anjo-bobo, defendendo cada um as suas respectivas posições ou domínios. Através do trabalho artístico da representação nós sentimos o esforço tremendo, físico e mental, exigido ao actor para exprimir toda a verdade sobre-humana do personagem central. Peça difi­cílima de realização, de interpretação exigentíssima, como o devem ter sentido e reconhecido os que em Paris e em Lisboa, corajosamente tentaram no palco apresentá-la a um público de preparação cultural diversa.

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Parece-me, todavia, que o poeta já tinha aflorado essa luta dramática pela depuração mística do humano num poema das «Encruzilhadas de Deus», a quem pôs o signi­ficativo, mas humorístico título de O Papão. Veja­mo-la em toda a sua inteireza e evolução, porque nele há teatralidade, angústia, movimento que reflui para dentro do próprio poeta, como uma espécie de desfecho irónico. Esta duplicidade ontológica, ou antes, este desdobramento intencional de quem pensa e se analisa, sem perder a cons­ciência da sua identidade humana, é um dos elementos predilectos da temática de José Régio. Surge-nos logo no primeiro poema dos Poemas de Deus e do Diabo, podendo nós reconhecê-lo nos estranhos versos do Painel, no simbo­lismo da presença bilateral de personagens que o poeta designa por um Homem e por Alguém, «dois vultos des­medidos / que iam crescendo entre os meus risos e ge­midos, / Crescendo sempre, sempre e tanto, que, depois / Eu ficava esmagado entre eles dois

Com estas imagens de raiz bíblica, o seu drama espiri­tual, ou religioso, vai-se alargando, tomando variadíssimas maneiras de representação poética, sempre   obsessionado pelo problema metafísico ou místico da carne-espírito, do Bem e do Mal, do Vício e das Virtudes, do apelo de Deus e do Seu repentino abandono, um diálogo constante de humilhado e revoltado. Devia ser terrível atingir por vezes o nítido e profundo conhecimento das limitações da capa­cidade intelectiva humana, ao mesmo tempo que sentia as forças torrenciais de um apelo místico à Perfeição, uma sede inextinguível de Absoluto tranquilizador. Este drama metafísico-religioso tomou uma altissonante expressão heróica no poema Sarça Ardente, das Encruzilhadas, de que transcreve a estância 37:

Eh! não me venham, pois, pintar restrito,
Das restrições que são nossa pobreza,
Esse eterno, absoluto, uno, infinito,
Que é Perfeição, Verdade, Bem, Beleza…
Sobe, asa em chamas desgarrada…, grito
Disparado da boca muda e presa…!,
Vai! que para falar do meu Senhor,
O amor não tem mais que o próprio amor.

Na sua estranha originalidade nem sempre a poesia de Régio foi sentida ou entendida como ele a apresentou nos primeiros livros. A esta se podia aplicar o sentido dos ver­sos de outro grande poeta português – «Mudam-se os tem­pos, mudam-se as vontades / Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o mundo é composto de mudança, / To­mando sempre novas qualidades», que Camões escreveu para marcar a inconstância das coisas da vida humana. Régio também o experimentou, mas não se amedrontou ou retraiu perante as inevitáveis alterações de gosto estético, características do fluir temperamental das gerações. Sere­namente tentou explicar-se através, sobretudo, de artigos ou ensaios de crítica literária, alguns dos quais são primo­rosas páginas de clareza e densidade do seu espírito crítico.

O livro «Fado» (1941) surgiu-lhe em parte como uma necessidade de esclarecer que não se pode marcar limites à força criadora do homem, ou melhor, que é livre a expres­são de temas de arte. Há no espírito humano tanto tesoiro desconhecido para descobrir e revelar, e para ser objecto de expressão artística, que seria fútil e estulto, negar essa possibilidade ou capacidade de expressão. Ora dar, em arte, maior relevo ao fenómeno social, às realidades da vida quotidiana, à chateza do viver rotineiro profissional, em ci­dades, vilas ou aldeias, ou focar ambientes sociais inferiores, sórdidos, viciados, primários, é afinal deslocar a incidência do olhar ou do interesse para um ponto ou campo diferentes de temas ou ainda não explorados atentamente, ou super­ficialmente vistos até agora. Régio sabia muito bem que pesa na nossa vida um certo número de fatalidades, de fados, a que mal podemos subtrair-nos: doenças, taras, misé­rias, aleijões morais ou físicos, sentimentos pervertidos, es­tados de loucura, etc. Pois isto também é apanágio do ho­mem de sempre e ele o quis exprimir artisticamente em verso, a que deu o título de Fado, mas que não se afasta da temática constante da sua obra multifacetada. E, de facto, não é uma fatalidade, embora climática ou geográfica, o vento soão que em certos dias do ano sopra nesta zona alentejana e cujas lufadas sentimos passar na longa Toada de Portalegre? Quem não o sentiu ao ler estas passagens doentias do poema?

Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras,
Do vento soão queimadas,
Lá vem o vento soão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão…

Todavia ele não se detém na série de sensações depres­sivas, no aspecto, horrível e lúgubre, da vida, porque tam­bém há na natureza, física e humana, momentos agradá­veis, alegria, beleza, equilíbrio saudável. Com que amorosa arte de ritmos e imagens ele nos fala da sua Vila do Conde, no romance que lhe dedica, cheio de saudosas lembranças da terra onde nasceu! Agora é outra aragem, mais fresca e saudável, a brisa marinha… Ventinho da beira-mar / Vento de Vila do Conde… / Que em sonhos sente assoprar… É toda uma aguarela de cores e manchas frescas, luminosas com pinheirais névoas, salinas, a espuma do areal, e bran­cas capelinhas a transfigurarem-se em aves ou pombas que por sua vez se transformam em pétalas de rosas:

Da banda de lá do rio.
As gaivotas a voar
Sobre Azurara se esfolham
Como um grande roseiral!

Também Portalegre lhe inspirou um poema, cheio de musicalidade e ternura, a que deu o nome de Canção de Portalegre. Ignoro se está publicada algures, mas como possuo uma cópia manuscrita, eis parte do que foi escrito por José Régio.

Não podia portanto, contentar-se com a suavidade lírica de um género poético menor como o bucolismo, que fez a glória de Cristóvão Falcão, nem lhe era aceitável como nota dominante nos seus temas poéticos a tristeza lúgubre, purulenta do «Fel» de José Duro. Havia sempre um mais além do aparente mundo convencional, havia mais mundos que o perturbavam. Ele o disse noutros livros como no a que deu o título magnânimo de «Mas Deus é Grande». Que sua­vidade rítmica e que simplicidade filial no quadro lírico dos versos inspirados por uma imagem de Nossa Senhora que ele adquirira e conservava ao cimo das escadas da sua re­sidência do Largo da Boavista!

E não menor elogio de todo o trabalho artístico superior nos versos do poema Fraternidade cujo tema é um Cristo, obra de anónimo escultor de recuados tempos que soube fixar no rosto agonizante do crucificado um último mo­mento de vida prestes a extinguir-se.

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Em 1961 publica um dos seus livros que tanto pelo tí­tulo – «Filho do Homem» -como pelo conteúdo parece marcar um rumo diferente em estilo e confidências (trata­das com respeitosa delicadeza) sobre temática erótica, a contrastar com a espiritualidade de telas de uma galeria de santos e santas. É de facto notável a delicadeza com que toca as águas turvas do erotismo ou o amoroso respeito com que contempla e elogia as figuras santificadas do agiológio cristão. Nesse livro, sob o heterónimo de João Bensaúde, quis o poeta assinalar em versos breves, airosos, entre amar­go e risonho, uma outra faceta do seu lirismo livre. Deu o nome de Cancioneiro de João Bensaúde a esta secção do livro a qual vai emparceirando com outras secções. Com­partimentadas, a secção do Cancioneiro alterna com a de O Amor e a Morte, assim como a dos Epitáfios alterna com a de O Polo Sumo. Nesta se incluem os elogios de santos e santas. Observemos do Polo Sumo as cinco quadras setes-silábicas «Em louvor de Santa Isabel, Rainha de Portugal».

O livro fecha com uma bela poesia: A Longa Lápide (à memória de João Bensaúde)  que é simultaneamente um epitáfio e uma visão retrospectiva da alma lírica de Alguém cuja vida decorre paralela à do autor. Veja­mo-la também na sua estranha beleza literária.

Embora, espalhado por toda a sua obra poética, o tema do Amor e da Morte seja uma constante perceptível, nota­mos todavia que se torna demasiado insistente à medida que a idade avança. No seu último livro de versos – Cân­tico Suspenso – ao lado de muita coisa bela, estranha e vária, adivinha-se uma nota de resignada expectativa, pe­rante o fim que ele pressentiu melhor que ninguém com aquela agudeza de sentidos premonitórios a que ele dava o nome de intuição. Nunca me esqueço do sentimento de melancolia que a leitura do poema O Moço Jardineiro produziu em mim. Ele que orgulhosamente enfrentara os ridículos humanos, as pieguices vulgares, expondo-as na sua poesia de teor satírico (leia-se o poema Havia na Cidade ou o Baile), parecia-me ter agora entrado numa estranha tristeza depressiva de quem está prestes a terminar a sua peregrinação terrena, ou ter mergulhado naquela penumbra do dia, ou da vida, que ele descreve no poema do mesmo livro – Penumbra.

Recordo como um dos melhores momentos da minha vida o tê-lo encontrado e com ele ter convivido largamente nesta mesma cidade que ficou agarrada na sua obra em belas páginas descritivas. E também não posso ocultar a afeição dispendida pela sua casa-museu a que nós, os seus amigos e companheiros às vezes nos referíamos com ino­fensivo gracejo, chamando-lhe Museu Régio-nal. Pois tam­bém ele é um poema – religioso e de arte – feito pela sua persistência, com afecto e até sacrifícios monetários. Ser­vindo o seu instinto de homem superior e de fino gosto e inteligência, legou-nos para benefício e prazer espiritual o que o Município em boa hora decidiu adquirir e con­servar.

A todos muito obrigado por me terem escutado e me terem proporcionado a oportunidade de falar, relembrar um dos meus bons colegas e companheiro, a que dedico um afecto muito particular e uma total admiração.

Firmino Crespo

Firmino Crespo – 2

CABEÇALHO FC

A Capital foi um jornal, primeiro vespertino e depois matutino, que se publicou entre nós, de 21 de Fevereiro de 1968 a 30 de Julho de 2005.
Pelas suas páginas passaram jornalistas de qualidade e ficou conhecido pela atenção prestada a diversos temas como, por exemplo, a banda desenhada e a cultura em geral. O seu suplemento semanal dedicado à cultura na edição das quartas-feiras, Literatura & Arte, atingiu um apreciável nível.

capital

Aí, no dia 11 de Janeiro de 1970, foi publicado um artigo algo intimista de Firmino Crespo sobre o quotidiano do seu amigo e colega Reis Pereira (José Régio).
Intitulado José Régio – O poeta na sua humanidade, o texto revela alguns pormenores sobre a vida, em Portalegre, do autor da Toada. A própria fotografia que, como gravura, ilustra o texto representa um momento do quotidiano pessoal do literato, surpreendido no acto, nele frequente, do acender do seu cigarro antes  laboriosamente manufacturado.
Ao partilhar este precioso documento, pela mão diligente e atenta do João Fevereiro Mendes (obrigado, amigo!), tenho consciência da disponibilidade pública de mais um contributo para um melhor conhecimento da riquíssima personalidade de José Régio, assim como do valor da amizade e da rara vocação literária de Firmino Crespo.

Jornal

 JOSÉ RÉGIO  –  O POETA NA SUA HUMANIDADE

Os acasos da profissão de­ram comigo em Portalegre, ano de 1940. Portalegre era então uma cidade provinciana, branca e estreita, no dizer de um escritor inglês lusófilo, C. D. Ley, tranquila e agradável, meio adormecida nos relevos meridionais da serra do mes­mo nome. José Régio era lá professor do liceu. Aqui nos encontrámos como colegas, mas a camaradagem que desse encontro profissional se estabeleceu viria a reforçar-se em amizade através de con­versações várias e na deambu­lação pelos arredores pitorescos da cidade, passeios que por vezes se alongavam e estendiam a sítios e povoações desta zona do Alto Alentejo. Ele gostava destas deambulações ocasionais, curtas ou prolongadas, e muito do que observava veio a fixar-se na sua obra novelesca.

Dois ou três companheiros mais comparticipavam às vezes  nestas  excursões  em  que sempre aprendíamos alguma coisa de novo. A serenidade doirada de certas tardes de Outono ou os prenúncios serôdios de uma Primavera flo­rida convidavam a estas deambulações por velhas azinhagas, caminhos primitivos ou por sinuosas e imprevisíveis vere­das que rematavam às vezes na cancela de horta rústica, ou no portão de quinta senho­rial donde cães de guarda sal­tavam raivosos. Outras vezes estacávamos num barrocal gra­nítico que se debruçava sobre um vale de terras férteis agri­cultadas, ou era miradouro, pa­ra extensas tapadas de olivei­ras ou sobreiros, às vezes her­dades ponteadas de esgalhadas azinheiras ou montados.

Muitos desses sítios ficaram assinalados na nossa imaginária carta topográfica por designações que eram reminiscências de leituras comuns, mas sempre resultantes da particular atmosfera emocional que desses locais rústicos se evolava. Um era o «Poço-de-Jacob» pela calma sensação que rodeava um poço de bordas de granito e seu tanque adjacente, protegidos pela vizinhança de velhos sobreiros e pelo silêncio envolvente que nos fazia calar a todos e perder a noção do tempo. José Régio amava esta solidão ocasional. Outro era um compac­to conjunto de oliveiras seculares, musgosas e robustas, que pela atmosfera bíblica nos lembrava o «Jardim-das-Oliveiras».

Outras   vezes,   já   fatigados da  longa  caminhada,  parávamos numa próxima ou já conhecida taberna aldeã, à beira da estrada de Alegrete ou da serra de S. Mamede, ou dos Fortios, e petiscávamos qual­quer coisa que estivesse nas posses de tal tipo de estabelecimento rural.

Régio em ambiente rústico

Embora franzino de corpo, a resistência física de Régio igualava a nossa nestas alongadas passeatas e não raro voltava carregado, sobraçando um prato antigo ou um cris­to popular que por acaso ad­quirira em casa ou casebre aldeio. A sua robustez mental contrastava com a baixa estatura e debilidade física. Esta primeira impressão visual que a muitos desconcer­tava, ou afastava, tinha com­pensações posteriores, quando, vencida a sua natural reserva ou timidez, nos considerasse companheiro ou amigo e ad­mitisse na intimidade da sua casa do Largo da Boavista.

Esta, pouco a pouco, foi-se  transformando  num estranho museu para cujas aquisi­ções algumas vezes fui com­parsa. Estou agora a lembrar-me de um episódio singular. Num dia feriado de Dezem­bro, talvez dia 8, Régio apareceu-me ao almoço um tan­to preocupado. Éramos comensais da «Pensão 21», da Dona Rosalina, figura curiosa da vida portalegrense e gran­de admiradora do dr. Reis (era assim que ela o tratava). Respeitei o seu estado apreen­sivo, que ele, após bebermos o rotineiro café, me explicou. Notícias tristes da família: alguém falecera. Sentia-se abatido e propunha-me, para desanuviar a grande mágoa, um passeio para os lados da es­trada de Arronches.

Estava frio, mas um sol res­plandecente aquecia a paisagem e instigava a uma deambulação ao ar livre. Deixadas as velhas ruas da cidade, tomámos pela estrada que leva a Arronches e Elvas. Vários assuntos vieram à conversa, admirámos mais uma vez os imponentes eucaliptos que ele incluiu na novela «Davam Gran­des Passeios aos Domingos», o relevo das lombas de extensas herdades, vales a tingirem-se das primeiras relvas, velhas azinheiras esparsas por encos­tas e alongadas colinas. Autên­tico Alentejo. Numa curva do caminho, após uma hora de caminhada, surgiu-nos um grupo de casitas humildes, pare­des de granito musguento e telha-vã. À soleira de uma por­ta uma velhinha saboreava, só, a quentura do sol. Era um re­canto abrigado. Saudámo-la e Régio, por desfastio, perguntou-lhe se tinha algum prato antigo, velho, que quisesse vender. Era o instinto do colec­cionador de antiguidades que despertava. A velhota tartamu­deou uma explicação evasiva qualquer, mas sempre se er­gueu e penetrou na casinha térrea e limpa e trouxe de lá um prato a que ela dava pouco valor. Muito antigo. Já era da avó dela. Régio tomou o prato, de desenhos no rebordo, cor azul desbotado e laivos cor de vinho, remirou-o lentamente… tornou a remirá-lo. Cena de expectativa para mim e para a dona do velho objec­to. Iniciação para mim no mundo dos antiquários. Após breves instantes perguntou se o queria vender e quanto que­ria pelo prato. Nova pausa. A velhota não sabia avaliar o preço de um velho caco da sua paupérrima cantareira doméstica. Até que Régio se aventurou e propõe-lhe um preço moderado inicial, ten­tando chegar a um acordo. No­va situação embaraçosa. Com um sorriso ingénuo, a boa da velhota acabou por aceitar o preço oferecido, que Régio logo ali pagou com uma moeda de prata. Tomou o prato e prosseguimos o passeio. O ar acabrunhado desvaneceu-se pouco a pouco e Régio foi-me explicando as razões e valor da compra. Tratava-se de um autêntico prato-de-aranhões, muito apreciado por coleccio­nadores e amadores de antigui­dades. Tinha esta peça de ce­râmica antiga uma falha no rebordo. Calculo que deverá figurar ainda na colecção da Casa-Museu de Portalegre,

Estes passeios campestres ti­nham geralmente a intenção de contrabalançar o sedentarismo do escritor, respirar o puro ar dos campos e enriquecer as suas observações de artista e da homem. Conversava naturalmente com toda a gente e não raro revelava um temperamento bem humorado e de­licado nos curiosos diálogos com gente rústica, cuja nobre­za de maneiras respeitadoras ele muito apreciava.

Certa vez, um nosso amigo do café insistiu connosco para irmos ver umas coisas antigas que havia na sua propriedade agrícola, perto de Nisa – covas abertas em rochas graníticas e um velhíssimo pote de barro que o caseiro desenterrara. Oferecia-nos este. Aceite o convite, lá fomos matar a curiosidade. Lá estavam umas tantas aberturas em diferentes rochas, que arqueologicamente deviam ser velhas sepulturas, e lá vimos o pote, grande traste de barro, de alongado bojo assimétrico, bocal estreito e fundo partido. Fracos arqueólogos, decidimos classificá-lo de romano ou pré-romano e após várias peripécias conseguimos acomodá-lo no automóvel-táxi e trazê-lo. Ficou instalado logo à entrada da casa, perante a incredulidade de alguns sobre a velhice de tal peça mutilada, ou para gáudio de outros, o que muito divertia o bom hu­mor do novo dono.

Firmino Crespo

Firmino Crespo – 1

CABEÇALHO FC

O Dr. Firmino Crespo é um dos principais responsáveis por eu gostar de ler e de escrever. Naturalmente, antes de o ter como excelente professor de Português durante toda a minha passagem pelo Liceu de Portalegre, já tivera, como mestre das primeiras letras, o professor Jaime Belém, competente profissional na arte de ensinar. E, para ser justo, devo acrescentar os “trabalhos de casa”, protagonizados pela minha mãe e pelo meu avô, que criaram em permanência, pelo exemplo e pela disponibilidade, o ambiente propício ao meu estreito contacto pessoal com os livros.

Firmino de Deus Crespo, natural de Idanha-a-Nova, Castelo Branco, foi professor de Português (1.º Grupo) no Liceu de Portalegre, entre 1938 e 1953, portanto durante 15 anos lectivos. Tendo aí chegado depois de Régio, e tendo saído antes deste, Firmino Crespo depressa se tornaria, embora discretamente, um dos seus mais íntimos amigos e também companheiro certo na tertúlia do Café Central e em grandes passeios aos Domingos (se bem calhou, até noutros dias da semana!).

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Culto, competente e seguro, criando e inspirando confiança nos alunos pelo estilo calmo e quase paternal, soube o Dr. Firmino Crespo transformar as suas aulas em momentos de autêntica aprendizagem e de saudável convívio pessoal. É muito frequente, quando antigos alunos recordam as suas experiências discentes, citarem o professor Firmino como um dos que mais os marcaram pela positiva. Pessoalmente, se lhe juntar Roberto Matos e Albino Honório de Freitas (este por diverso motivo), constituiria assim o pódio dos meus eleitos.

Casou, já tarde, com uma senhora de nacionalidade inglesa, com quem ainda viveu em Portalegre, no Largo dos Silveiros. Depois, sairam para Setúbal, em cujo Liceu foi professor de Português, Latim e Grego. Esteve ainda o Dr. Firmino Crespo alguns anos em comissão de serviço por esta altura, como Leitor de Português na Universidade de Liverpool (1954-1962). Terminou a carreira docente no Liceu de Gil Vicente, Lisboa, em 1976.

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Aquilo que quando o conhecemos ainda ignorávamos sobre ele foi o facto de ser um apreciado homem de letras, com obra já publicada e, sobretudo, a publicar. Os seus trabalhos de tradução, prefaciação e anotação das célebres e clássicas Centúrias de Curas Médicas, da autoria do médico setecentista luso hebreu João Rodrigues de Castelo Branco (Amato Lusitano), em quatro volumes, constituem uma obra de grande vulto, como tal reconhecido tanto nos meios literários como nos científicos.

novoOutros temas constituiriam preocupação literária de Firmino Crespo, como a poesia trovadoresca e lírica nacional, tendo abordado sobretudo Cristóvão Falcão, Sá de Miranda, André de Resende e também Camões. Curiosamente, entre a sua obra publicada, encontramos um trabalho conjunto com José Régio: Três Momentos na Lírica Portuguesa: Tradição Lírica Trovadoresca, Cristóvão Falcão (Atlântida Editora, Coimbra, 1970). Já o seu camarada de letras e amigo morrera…

A sua terra natal, Idanha-a-Nova, foi pretexto para a elaboração duma cuidada monografia descritiva e histórica, por parte de Firmino Crespo. Também o Cancioneiro da vizinha Senhora do Almortão foi estudado, prefaciado, anotado e publicado por sua iniciativa.

Em 1970, foi divulgado o estudo José Régio: Traços da sua Personalidade Humana, igualmente da sua autoria.

Tem colaboração dispersa por muitos jornais e revistas, entre os quais O Distrito de Portalegre e A Rabeca.

Não pode portanto estranhar-se o facto, por justíssimo, de a autarquia de Idanha-a-Nova ter decidido atribuir o seu nome a uma moderna artéria da vila.

A última e saudosa oportunidade de o ter encontrado, ao vivo, foi no dia 25 de Fevereiro de 1970, quando ele proferiu uma notável conferência sobre José Régio, em iniciativa promovida pela Escola do Magistério Primário de Portalegre. Aí recordámos os bons momentos protagonizados na nossa vida liceal, sobretudo quando ele e o poeta da Toada regularmente me seleccionavam para dizer poesia nos frequentes saraus culturais daquele estabelecimento de ensino.  Acrescente-se que quase sempre os deixava decepcionados com a minha sistemática falta de jeito para a declamação. Mas eles, generosamente, sempre me iam concedendo novas oportunidades. Com raro sucesso, no entanto…

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Foi o meu amigo João Fevereiro Mendes que há dias me recordou, com emoção, o professor comum, que nos marcou. Abordou então um artigo de jornal em que Firmino Crespo falou de José Régio. Como eu o desconhecesse, ele teve a gentileza de me oferecer o precioso exemplar.

Trata-se de mais um contributo para um melhor conhecimento do homem e do literato, vindo de quem com este privava, por dentro. Senti, por isso, a necessidade e urgência da sua partilha. O interesse do documento é óbvio, sobretudo para quem conheceu ambos os amigos, mas não só.

Portanto, em próximos posts, darei a conhecer o artigo José Régio – o poeta na sua humanidade, publicado em Literatura & Arte, suplemento das quartas-feiras do antigo jornal A Capital, de 21 de Janeiro de 1970, seguido do texto da conferência proferida por Firmino Crespo na Escola do Magistério Primário de Portalegre, no dia 25 de Fevereiro do mesmo ano, retirado da revista Mais Além, órgão deste estabelecimento de ensino.

Ao João Fevereiro Mendes, grato pela oportunidade que me concede de mais este serviço cultural -também de homenagem à memória de dois velhos professores do Liceu de Portalegre- deixo aqui o registo da sua nomeação como correspondente do Largo dos Correios/Fonte do Rosário, juntando o seu nome ao do Florindo Madeira.

António Martinó de Azevedo Coutinho