APOIO PEDAGÓGICO III

Só é analfabeto quem quer…

Infelizmente, quando foi desencadeada a Campanha Nacional de Educação de Adultos, ainda não estava disponível a Cartilha Paternal. Teria sido uma excelente e oportuna proposta. Porém, nos actuais Cursos e Acções ditos de Formação Profissional, o seu uso talvez não seja de todo despropositado.

Por razões óbvias, não se defende o recurso à Cartilha Paternal por parte das criancinhas e seus respectivos educadores. Naturalmente, o destino que espera muitas delas, se as coisas não se alterarem para muito melhor na próxima geração, é previsível. As criancinhas de hoje arriscam-se a encontrar no seu futuro situações de marginalidade, riscos de desemprego e provável alojamento nas periferias. Oxalá esta tétrica previsão seja desmentida, e radicalmente.

Por outro lado, talvez seja mesmo dispensável toda e qualquer alfabetização prévia, uma vez que um bom currículo, constituído pela demonstração da aquisição de sólidas bases, como a de bem aplaudir o seu líder (de preferência na fila da frente), de bem colar cartazes à prova de chuva, de bem ser cavalgado pelos superiores e outras habilidades similares, um bom currículo dispensa livros únicos, manuais da especialidade e até, imagine-se, toda e qualquer cartilha, maternal, paternal, fraternal e outras do estilo.

Bem, é chegada a vez de travar conhecimento com as propostas pedagógicas de Pitum. Ao contrário de João de Deus, ele não precisa de gastar cerca de seis dezenas de páginas só com instruções de uso da Maternal, numa espécie de manual de posologia bem intencionado, mas indigesto e chato até dizer basta. No caso da Paternal está tudo ali, transparente, realista qb, directo, intuitivo, eficaz…

Revelam-se a seguir alguns conjuntos de páginas, com ambas as propostas para confronto, sem inúteis e supérfluos comentários.

 

Naturalmente, ressalva-se o facto de as reproduções das páginas da Cartilha Maternal serem fac-símiles da sua edição original, escriptas à antiga portugueza. No entanto, se fosse usado o actual achordo ortographico, o effeito não seria muito differente.

 

Portanto, as diversidades temáticas ficam patentes nestes exemplos. Apresentei o devido e atempado aviso prévio -recordo a propósito.

 

A “cúpula” da Cartilha Maternal é o celebérrimo Hino de Amor, que se recitava, noutros tempos, em tudo quanto era festinha escolar. João de Deus afirmou, nas Instruções com que fez religiosamente acompanhar as vinte e cinco Lições, mais a Nota, que uma cartilha sem alfabeto seria um escândalo, a evitar. Também, embora o não dissesse, um conjunto de prosas sem um poema seria igualmente reprovável. Daí o Hino de Amor. Pitum, coerente, subscreveu um outro amoroso poema, apenas ligeiramente mais periférico.

 

Sem mais comentários -já bastaram os que ficaram para trás!- aqui deixei uma séria proposta de estilo didáctico-pedagógico-cultural. De vez em quando é bom e útil que nos debrucemos sobre os campos mais sérios da actividade humana.

Na mesma linha, um dia destes debruçar-me-ei sobre horóscopos e previsões astrológicas. Fica prometido.

Com as minhas homenagens aos pedagogos João de Deus e Pitum, despeço-me com amizade.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Construção é o título duma canção, e de um álbum, de Chico Buarque. Datada de 1971 e escrita no exílio, constitui uma obra adulta do consagrado cantautor brasileiro. Ao reproduzi-la aqui, apenas procuro complementar musical e poeticamente o espírito, e também a letra, da Cartilha Paternal.  

APOIO PEDAGÓGICO II

Nem todos lemos pela mesma cartilha

João de Deus nasceu em São Bartolomeu de Messines, no Algarve, em 8 de Março de 1830. Cursou Direito em Coimbra e aí conviveu com notáveis homens de cultura do seu tempo, como Teófilo Braga e Antero do Quental.

Foi então que se manifestou e desenvolveu o seu pendor poético, embora não evitasse a vida boémia própria do meio.

Foi advogado, jornalista e político, sem grandes evidências, nunca abandonando o culto da poesia.

Uma das questões fundamentais que se discutia nas Cortes era se o livro de leitura oficial devia ser o poema épico Os Lusíadas, de Luís de Camões, ou o poema romântico Dom Jaime, de Tomás Ribeiro, o que dá conta do estado da instrução elementar em Portugal. Já nessa altura, imagine-se!

Naturalmente, entre os cultores das letras, esta questão também era significativa, pelo que não surpreende que Júlio Dinis, por exemplo, tenha colocado a protagonista da sua obra A Morgadinha dos Canaviais a ensinar as criancinhas pobres através do Evangelho segundo São Lucas… Tambor um, pífaro outro, apetece comentar!

Por alguns amigos, foi então proposto a João de Deus, igualmente sensibilizado para a magna questão da alfabetização, que estudasse e sistematizasse um método de leitura dedicado às crianças. Ele aceitou o desafio e, em 1876, foi publicada a sua obra Cartilha Maternal.

 

O sucesso prático do sistema foi rápido e considerável, apesar de algumas críticas, fundamentadas, de apresentar certas carências científicas. Assim, em 1888, as Cortes adoptaram a Cartilha Maternal como método oficial de alfabetização e o seu autor foi nomeado Comissário Geral do Ensino da Leitura.

João de Deus foi homenageado ainda em vida, o que então era raro, tendo-se associado a tal o próprio rei D. Carlos. Quando morreu, em 1896, foi sepultado no Mosteiro dos Jerónimos, outra rara honraria, apenas reservada a um limitado escol de portugueses.

A Cartilha Maternal foi, ao tempo, um método revolucionário, até porque colmatou um verdadeiro deserto didáctico e pedagógico. Exige um clima de paciência e de ternura, próximo do familiar, daí a própria designação. Porém, não devemos iludir-nos com a aparente simplicidade do método, pois a sua prática implica um considerável esforço na fixação dos múltiplos valores fonéticos, das regras e das suas excepções.

Muitas das palavras originais perderam actualidade e nada dizem às crianças de gerações mais modernas, embora tal fenómeno possa constituir um estímulo à natural curiosidade infantil ou, em alternativa, implique uma necessária actualização.

Por outro lado, e esta é uma crítica que permanece, dada a importância reconhecida aos métodos analíticos, sintéticos, mistos e outros, além de ser considerado hoje como muito eficaz o denominado “das 28 palavras”, onde se retira partido do grande potencial da imagem, então como aceitar a Cartilha, que rejeita aquela e se limita a apresentar palavras a duas cores, cinzenta e negra?

A associação da leitura à escrita, mantendo ambas, diversas e complementares aprendizagens a par, parece ser hoje uma prática incontornável; também aqui a Cartilha cobrirá com eficácia apenas a primeira dessas funções.

Por mim, apaixonado pela banda desenhada, confesso nutrir uma certa relutância pela pesada uniformidade da Cartilha, praticamente sem ilustrações. Por outras palavras, nos tempos do cinema servido por riquíssimas tecnologias do audiovisual, é como se me propusessem o visonamento duma fita dos tempos do mudo e a preto e branco…

Tudo isto é ultrapassado na Cartilha Paternal ou Arte de Leitura para as periferias que Pitum nos propõe.

 

Ao trocar a ternura materna pelo realismo paterno, esta resolve o problema do clima paciente e íntimo implícito no relacionamento com os putativos alfabetizandos.

Por outro lado, estes são muito mais os marginalizados adultos dos bairros problemáticos e das periferias urbanas do que as inocentes criancinhas das escolas ou jardins infantis… Logo, também aqui não se suscitam dúvidas sobre o significado de eventuais palavras impróprias do léxico infantil.

Também não há “bonecos”, é certo, mas a riqueza das imagens implícitas nas palavras ou frases elementares é de tal forma sugestiva, que as dispensa sem qualquer prejuízo…

Em suma, entre o elaborado e respeitável tratado que o bem intencionado João de Deus me propõe e o desalinhado e provocatório desafio que Pitum me lança, fiz claramente a minha escolha pessoal.

É com esta que me proponho contagiar-vos. 

António Martinó de Azevedo Coutinho

APOIO PEDAGÓGICO I

Pitum

Conheci  Pitum entre finais dos anos 80 e princípios dos 90.

Foi através dum seu amigo, colega e sócio no atelier de arquitectura que partilhavam, sito numa praceta atrás das instalações do Ginásio Clube Português, entre o Largo do Rato e as Amoreiras, em Lisboa. Este comum amigo, já desaparecido, foi o arq.º José Antunes da Silva, notável pedagogo, antigo colaborador do professor Calvet de Magalhães, competente profissional, companheiro de jornada seguro e leal como poucos.

Já então Pitum era uma figura pública consagrada. A sua intervenção n’A Visita da Cornélia, juntamente com Lira, tinha revelado invulgar criatividade. Quem conte mais de cinquenta anos lembra-se bem do concurso televisivo, na RTP 1, que foi vedeta em 1977, com Raul Solnado protagonizando um dos seus maiores sucessos públicos. As segundas feiras desse ano, entre Junho e Setembro, prendiam o país inteiro aos televisores. Quem não se lembra das revelações acontecidas nesses memoráveis serões? Fernando Assis Pacheco, Gonçalo Lucena, Pitum Keil do Amaral e Maria Lira, José Fanha, Hugo Maia de Loureiro, Rui Guedes e Concha, Tozé Martinho e Tareka, Carlos Fragateiro, eu sei lá!

Alguns destes ainda hoje estão em planos de destaque no nosso mundo do espectáculo e da cultura. Outros, como Pitum, desapareceram das ribaltas da fama, regressando pouco a pouco ao seu normal quotidiano.

O arq.º Francisco Pires Keil do Amaral, Pitum, teve como pais duas notáveis personalidades, Francisco Keil do Amaral, também arquitecto, e a pintora Maria Keil, recentemente falecida. Bisneto de Alfredo Keil, autor da música d’A Portuguesa, Pitum nasceu em 1935 e está ligado à velha casa de família, em Canas de Senhorim, desde bem cedo assistindo às práticas humanistas, cívicas e republicanas que o pai nunca dispensou. Lidou na infância e juventude com alguns dos mais notáveis vultos da cultura nacional desse tempo, Aquilino Ribeiro, Abel Manta, Irene Lisboa, Manuel Mendes, Bento de Jesus Caraça, Fernando Lopes Graça e outros, convivas na sua casa beirã.

Como podemos admirar-nos de que, em tais contextos, nele se tenha instalado um espírito criativo, permanentemente inquieto e interventivo?

Perdi por aquelas alturas o contacto com Pitum e procurei agora recuperá-lo. A sua vida profissional está ligada a diversas actividades no domínio da reabilitação das aldeias históricas beirãs, creio que sobretudo Castelo Mendo,  a muitos outros projectos comunitários e privados, à participação em congressos, à colaboração em revistas da especialidade, etc.

Mas continuou intensa a intervenção de Pitum e Lira em diversas áreas culturais e cívicas, na sequência dum período de voluntária cooperação em Moçambique (inícios da década de 80), onde deixaram obra, amigos, saudades e a fundação de uma associação cultural –Casa Velha-, e onde voltariam recentemente, em 2009, com um abraço sob a forma de peça teatral…

 

Possui no Algarve, em Alporchinos, uma casa que adaptou, considerada em manuais da arte como um raro exemplo de reinterpretação da arquitectura popular regional e do moderno. Em Canas de Senhorim, à residência solarenga familiar –As Casas do Visconde– foi concedida, pelo casal, uma animação própria, dotada dum site alusivo. São inúmeras as suas iniciativas pessoais na tertúlia ali instalada, mas também na ACERT, Associação Cultural e Recreativa de Tondela, assim como na Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, em Lisboa, e em muitos outros locais.

Pitum é autor de algumas obras, como O Zbiriguidófilo e outras Histórias (infantil, 1991) ou Subsídios para o Conhecimento da Ilha da Madeira, coligidos no Elucidário Madeirense e ilustrados por Pitum, em 1969. Ilustrou ainda, entre outras, as obras Aqui havia uma Casa (1955), de Ilse Losa, e Uma Mão cheia de Nada e Outra de Coisa Nenhuma (1995), de Irene Lisboa. Compilou, elaborando também as respectivas Introdução e Notas, o volume Keil de Amaral – Humor de Arquitecto (2010), obra dedicada ao pai.

 

E a que propósito vem agora Pitum, sobretudo associado ao título geral Apoio Pedagógico?

Certo dia, no atelier, ele ofereceu-me um exemplar, autêntico protótipo, de uma outra sua obra, não comercializada, quase “subversiva”, irónica qb, cheia de humor inteligente e crítico, bem adequado aos tempos que então corriam, 1989, a qual não perdeu hoje nem acutilância nem actualidade. Trata-se da Cartilha Paternal, versão moderna da clássica Cartilha Maternal, que João de Deus editou em 1876.

Está explicada a razão de ser, pedagógica, desta apresentação, lembrança dum homem que, embora de passagem, enriqueceu a minha vida. 

António Martinó de Azevedo Coutinho