O povo de Hélder Pacheco

Hélder Pacheco é uma visita regular aqui no blog. Ainda no passado dia 14 de Dezembro de 2017 esteve cá a propósito de antigas memórias despertadas por mais um seu livro, em longa relação de que perdi a conta.

Quando rebusco nos meus papéis, nos velhos recortes de jornais por exemplo, dou frequentemente com ele. Aqui está um desses casos, em página do saudoso diário A Capital, com quase, quase, trinta anos. 30 de Janeiro de 1988. Fala de alguns dos primeiros livros do autor e revela curiosas declarações suas alusivas ao povo ali contido, nas preciosas recolhas de Hélder Pacheco.

Um dia destes, prometo, volto a este propósito.

Hélder Pacheco – Crónicas de Vida

Transcrevo parcialmente a seguir, de um artigo aqui publicado em 14 de Outubro de 2016 (Viseu 1973-1974 – um), os parágrafos que resumem o meu encontro e conhecimento com o professor Hélder Pacheco. Hoje, quase quatro décadas e meia depois, recordo ainda com incontornável emoção o cúmplice comportamento de um homem a quem devo boa parte da minha sobrevivência profissional.

Aos mais novos, os que sempre viveram na Democracia possível aqui instituída após Abril de 1974, será provavelmente difícil o entendimento das posições autoritárias e discriminatórias em curso no Portugal do Estado Novo. O doentio corporativismo praticado pela hierarquia escolar que encontrei em Viseu apenas foi quebrado pela visão progressista de um homem superior, coerente, avançado para o seu tempo e, sobretudo, para o clima vivido no seio do ensino de então.

Durante os seis meses anteriores a Abril de 1974 foi Hélder Pacheco, inspector e metodólogo, quem me defendeu das prepotências então reinantes na Escola Oliveira Salazar, permitindo as condições mínimas para a minha afirmação pessoal e profissional. A Revolução e as drásticas mudanças provocadas limitaram-se por isso a testemunhar o meu triunfo final, então já conquistado.

Fica assim sumariado o início de uma relação de amizade que nos levaria, e a outros, a aventuras pedagógicas, sociais e culturais antes impensáveis em domínios educativos. Como o ICAV, Iniciação à Comunicação AudioVisual, projecto inovador que se traduziu  numa saudável e prolongada relação com a Academia de Bordéus, sob a liderança de René la Borderie. Também já aqui deixei o testemunho do que foi esse contributo decisivo na formação de muitos professores e alunos.

A obra de Hélder Pacheco em muito ultrapassa tudo o que a Educação em Portugal lhe ficou devendo, pois o seu inquieto espírito de investigador e publicista têm-nos brindado com uma quantidade (e qualidade!) já impressionante de obras sobre o nosso património cultural, onde o Humanismo se mantém como tónica permanente de coerência pessoal. Por isso, registei com imenso agrado o destaque, mais um!, com que a nossa imprensa diária de qualidade há dias o lembrou.

Vale bem a pena ler a longa e significativa entrevista que o Público divulgou no passado dia 10. Por isso, com a devida vénia ao jornal, aqui fica a sua reprodução, antecedida da transcrição atrás aludida e de gratas imagens do arquivo pessoal, colhidas em Novembro de 1977 em Bordéus, na companhia, entre outras, de mais um comum amigo de excepção, infelizmente já desaparecido, o arquitecto e professor José Antunes da Silva.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Em 1970 decidi aceitar o convite, algo arriscado, de abandonar o meu seguro lugar no Ensino Primário pela aliciante aventura de ingressar no novel Ensino Preparatório. Dispunha das condições “técnicas” para tanto exigidas, atraía-me o facto de reencontrar e aprofundar a paixão pessoal e a vocação de sempre, as artes plásticas, assim como a possibilidade de refazer uma carreira profissional mais aliciante.

Depois, o programa da disciplina de Desenho, logo a seguir denominada e bem de Educação Visual, continha desafios incontornáveis como por exemplo a prática de iniciações à linguagem do Cinema e da Banda Desenhada.

Não me arrependi da drástica decisão tomada, que concedeu um total e acertado sentido à minha vida profissional. Mas, como consequência da mudança, impunha-se a (re)conquista da segurança na nova carreira, onde se colocava a necessidade de frequência de um estágio e a sujeição a um Exame de Estado.

Assim, após a obtenção das condições exigidas, concorri a tais provas públicas. Para o ano lectivo de 1973-74, fui colocado para o efeito em Viseu, depois do tempo cumprido na Escola Preparatória de Cristóvão Falcão, em Portalegre.

Cheguei à cidade de Viriato embrenhado nos meus melhores sonhos, carregado das melhores expectativas, para aprender e para provar o mérito pessoal, conquistando com isso a garantia de uma definitiva estabilidade profissional.

O que aconteceu, logo à partida, foi um pesadelo.

Todos aqueles de quem iria depender, a orientadora do estágio, o inspector da zona e o próprio director da escola, foram unânimes na sua mensagem de “boas-vindas”: eu era um simples intruso, alguém desprovido do grau de “doutor” em Belas Artes como eles, um incauto e inculto professor primário que se atrevia a tentar abrir uma brecha na sua fortaleza de inexpugnável qualidade. Portanto, além e acima da lei, absurda, que permitira tal desplante, ali estariam eles, vigilantes, para a corrigir. Estava pois explicitamente traçada a minha sentença, mesmo antes de me ser permitida qualquer defesa.

Quando muitos anos mais tarde, tive em Portalegre ocasião de longamente discutir este episódio com o saudoso Professor Veiga Simão, ao tempo ministro e autor da reforma educativa que permitira a “revolução” chamada Ensino Preparatório, ele sorriu e disse-me que tivera conhecimento de muitos casos semelhantes ao meu. E garantiu-me que nunca se arrependera das inovadoras decisões legislativas  assumidas a tal propósito, porque entre os melhores profissionais com que então contou estavam precisamente os professores oriundos do Ensino Primário.

Mas em Viseu foram necessários o ânimo e o apoio com que a minha mulher nunca me faltou, o encorajamento dos amigos e a íntima convicção de ser preciso lutar contra tudo e contra todos para sobreviver e, se possível, me impor.

Impunha-se, pois, que não desistisse de acreditar em mim.

Encontrei um solitário mas poderoso aliado no professor metodólogo dos estágios do Norte que com regular frequência visitava a Escola Preparatória de Oliveira Salazar, assim se denominava -quase premonitoriamente- o estabelecimento de Viseu onde fui (mal) acolhido. O professor Hélder Pacheco, do Porto, constituiu o único mas bastante suporte local da minha resistência. Devo-lhe daí uma cumplicidade que se transformaria na sólida amizade de hoje e para sempre.

 

Saber viver

Não acho que ser pobre seja uma escola para a vida. Uma aprendizagem de carácter. E que, para enrijar o corpo (e a alma), seja, no primeiro caso, necessário levar porrada de criar bicho e, no segundo, passar dificuldades e comer o pão que o diabo amassou. Viver mal não é caminho para coisa nenhuma e, por isso, considero indigna a aceitação da normalidade de dois milhões de portugueses no limiar da pobreza! Posto isto, obliquo noutra direcção.

Para dizer que, não obstante, em país onde (pelos vistos) a miséria bate às portas, se estragam recursos, se desperdiça comida e gasta, em inúmeras situações, o que não se tem. Como repontava o meu saudoso amigo Melo: «Quem só tem dinheiro para carapau não devia comer lagosta». Há sítios onde, no final das refeições, causa repulsa ver o que sobrou. O que se deita fora. E há famílias (não tenho nada com a vida delas) onde os meninos são treinados não para viverem como cidadãos, mas para serem consumidores, esbanjadores ou predadores. A velha máxima dos tempos atrasados de que tudo o que se punha no prato era para comer foi para o caixote do lixo, com o desperdício. (Agora atenuado porque já há quem leve os restos).

Vem esta arenga a propósito de uma carta que me facultaram. Escrita em 1946 (no pós-Guerra, anos desgraçados para muita gente) por uma avó ao neto, do Bairro das Eirinhas, lugar de pobres e remediados. Revela algo que está a faltar: comedimento e atitude. Se quiserem, princípios. Ou saber viver.

Advertia então a avó: «O Fernandinho fica prevenido de quando não puder ou quizer cá vir comer, avisar de véspera para evitar despesas inuteis. O mesmo fará, quando precisar de vir, para [eu] saber com que se deve contar. Lucia». A isto chamo eu educação. Mas estou a ficar reaccionário –  afinal vivemos numa época moderna!

HÉLDER PACHECO

Prolongar a vida

Andamos preocupados com o envelhecimento. Uns porque, com tantos idosos, quem vai descontar para a Segurança Social? Outros obcecados em manter a forma e ficarem como novos. E há quem não saiba como preencher o tempo que foi ampliando. E os que só falam de doenças. (Como vai, está bem de saúde?) E os que se tornam forretas por desconhecerem até onde os dias esticam. E os transformados em esbanjadores e quem cá ficar que se amanhe. Etc.

Uma revista publicou o estudo sobre “Como viver até aos 100 anos”, mostrando na capa um ancião de 95 anos saltando acrobaticamente para a piscina. E adiantava perspectivas sobre o aumento da longevidade através de várias técnicas (transfusões de sangue, cremes de rejuvenescimento, manipulação de genes e mais novidades). E de actividades (jejuns intermitentes, meditação, andar e correr, restringir calorias, combater o «stress», deitar cedo. E por aí fora).

Passando por reaccionário face à previsão do mundo moderno, direi ter conhecido precursores destes métodos de remoçamento activo: D. Ana Soares (79 anos, modista) percorreu anos a fio a cidade a pé levando obra às clientes; Joaquim Pinto (85 anos, 50 de jornaleiro em Azevedo e Valbom); Rosa Mendonça (82 anos), operária e, depois, estafeta através do Porto; António Pereira (77 anos, com 50 de serralheiro); João Azevedo (81 anos, pedreiro aos 12 e, depois, encadernador); Laura das Neves (79 anos, analfabeta), banheira no Esteiro antes dos 14 e, depois, esmaltadeira; Rosa Machado (81 anos), tecedeira mais de 50 (reformada com 165$00). E poderia juntar muitos mais.

Enfim, estes são os meus atletas preferidos. Conjugam na perfeição o verbo vencer. Não têm P.T., nem frequentaram ginásios, mas venceram a adversidade e prolongaram a vida. Anónimos. Sem direito a saltos em revistas.

HÉLDER PACHECO

É hoje, é hoje

helder_pachecoAcertando a crónica neste dia 24, até parecia mal, não ficava bem ignorar a véspera de Natal. Até porque, para mim que carrego às costas a infância portuense, o Natal continua a ser a época mágica do sonho, da esperança e da fantasia. Da celebração.

A época de todas as doçuras. Por dentro, nos anseios de Paz, de um país mais fraterno e dos desejos de felicidade formulados a quem se conhece (e, para sermos coerentes com o tempo, até a quem não se conhece). Por fora e por dentro, no que se vê e dá para ougar e, depois, se saboreia até à última garfada ou colherada: rabanadas com molho, aletria, doces de bolina e de chila, formigos e bolo-rei. Os clássicos do Burgo, sem fusões nem derivações pós-modernas. E doçuras só por fora. Só de ver: extasiar-se a gente com as luzes da cidade, na árvore grande, azul e branca, reflectindo-se no tanque da eira da Avenida. Luzes que abrilhantam os olhos e enchem a alma (ou chamem-lhe o que quiserem mas pelo que vejo em algumas casas nos afãs de montar a Árvore, regressar ao Presépio e esmerar-se na Consoada, no Natal a alma ainda existe).

Sem dar por isso saiu crónica pela Nomenklatura cultural em absoluto considerada pirosa. Ainda assim, carregando na provocação não deixarei de falar do Presépio. O Presépio é – como hei-de dizer? – um caso de limpeza interior: tirar as figuras das caixas, fabricar as montanhas, construir uma cidade de cenário, alinhar os reis-magos, os pastores e o povo da Jerusalém de cá e, com dedos parecendo pelica, colocar a Sagrada Família no interior da cabana são actos de sentimento, gestos de ternura. Autêntica purificação. E eu, que nem sei bem no que acredito, até penso nestas coisas. (Enfim, hoje deu-me para a nostalgia. De qualquer forma, a crentes e incréus e a toda a gente de boa-vontade desejo Bom Natal.)

HÉLDER PACHECO

Um Aristocrata na República

helder_pachecoTínhamos em comum a paixão pelo Porto. Arrebatada e assumida. E o republicanismo. Na crença de que o governo do país deve ser exercido por indivíduos responsáveis pela sua acção perante quem os elegeu. Na defesa do Bem-Comum e de mãos limpas (quantas vezes falámos disto nas caminhadas de fim de tarde, entre a Câmara e a Picaria, quando percebemos que nesta República sem republicanos muitas mãos estavam a ficar cada vez menos limpas). Um republicanismo de sabor jacobino (ou não fôssemos tripeiros) matizado pela aceitação das diferenças. Da pele à religião, segundo o princípio “Vive e Deixa Viver”.01-miguel-veiga

Orgulhosos portuenses, portanto. Oriundos de dois dos extractos sociais que construíram a cidade. O Miguel, da grande burguesia fozeira, a quem o toque francês materno concedia a aura cosmopolita que o distinguia. Eu, da média (a cair para a pequena) burguesia vitoriana, com antecedentes em lavradores durienses, sem pedigree que não fosse o trabalho.

Talvez por isso nos entendemos tão bem. E fomos cimentando uma amizade iniciada com a luta estupenda contra o primeiro projecto dos Molhes da Foz e aprofundada ao longo de quase catorze anos ao serviço da qualificação da nossa cidade bem-amada. Sem reticências, aí nos encontrámos. Aí o encontrei na verdadeira face da sua integridade.

Quero dizer, da rectidão e inteireza da política na mais pura acepção da palavra. Não fabricado segundo a cartilha das Jotas, mas formado na plena consciência do papel dos cidadãos no destino dos países. Um político servindo a causa pública sem aspirar ao poder. E um fruidor da arte de viver, com prazer e sensações. Um cavalheiro e um cultivador admirável da língua portuguesa. Miguel Veiga: meu amigo inesquecível e aristocrata na República. Na inteligência, no saber e na cultura.

HÉLDER PACHECO