Hélder Pacheco e o Porto

Há cerca de um ano e meio que Hélder Pacheco, meu amigo e meu mestre, não tinha lugar aqui no blog. É muito tempo…
Chegaram-me agora notícias suas e das habituais, isto é, da sua empenhada intervenção no social, sobretudo nas raízes populares. Congratulo-me com isso.
Mantenho com Hélder Pacheco uma amizade, naturalmente recíproca, que data do difícil, mas estimulante ano de 1973, vão passadas mais de quatro décadas e meia.
Sabê-lo operacional como sempre, preocupado com a vida comunitária e associativa do seu Porto natal, é reconfortante.
Com o abraço amigo de sempre, partilho por isso as recentes notícias a seu respeito, colhidas no jornal digital ETC e TAL.

 

“FUNDO MUNICIPAL DE APOIO AO ASSOCIATIVISMO POPULAR”
ATRIBUIU VERBAS A 24 PROJECTOS, COM ELOGIOS DO HISTORIADOR HÉLDER PACHECO E UNANIMIDADE DO EXECUTIVO

Está a surgir um novo tipo associativismo, que faz parte daquilo que considero ser o renascimento urbano desta cidade“. A afirmação é do historiador, professor e cronista Hélder Pacheco e foi dita na reunião de Câmara do passado dia 09 de Setembro, a propósito da atribuição das verbas aos 24 projectos vencedores do Fundo Municipal de Apoio ao Associativismo Popular, aprovadas por unanimidade.

O grande número de candidaturas ao Fundo e o alargado âmbito de actuação de cada uma das associações e colectividades a concurso – no campo social, desportivo, cultural ou de outro tipo – fazem prova do “renascimento urbano” que a cidade atravessa, defendeu Hélder Pacheco, que nesta manhã se deslocou à Câmara do Porto, na qualidade de presidente do júri do PopUP – Fundo Municipal de Apoio ao Associativismo Popular.

Está a emergir um novo tipo de associativismo de classe média. O associativismo cultural, de ocupação de tempos livres, em muitos aspectos jovem, e que não pretende substituir-se ao Estado Social, mas colmatar algumas brechas do Estado Social”, afirmou.

Algo que, acredita Hélder Pacheco, se reflectiu no número de candidaturas apresentadas ao Fundo, que chegou às 90. Dessas, foram admitidas inicialmente 32, tendo sido posteriormente aceite mais uma candidatura, após reclamação.

Face a estes números, o presidente do júri sugeriu que a autarquia deve continuar “a fazer um esforço”, ampliando os apoios atribuídos ao associativismo que, no seu entender, “é uma das grandes tradições da cidade” e que, no caso do Porto, está a emergir como resultado de renascimento urbano da cidade, reiterou.

Como exemplo, calculou que se todas as 90 candidaturas tivessem sido aprovadas, “um milhão de euros não chegava” e, caso tivessem recebido apoio os 33 projectos admitidos (oito ficaram de fora por ponderação inferior a 75% na grelha dos critérios de avaliação), o investimento ficaria pelos 680 mil euros.

O investigador observou ainda a capacidade da generalidade dos candidatos em instruir processos considerados complexos e também “o realismo” dos pedidos, para resolver situações concretas.

1 de Outubro de 2019
ETC e TAL jornal

 

O povo de Hélder Pacheco

Hélder Pacheco é uma visita regular aqui no blog. Ainda no passado dia 14 de Dezembro de 2017 esteve cá a propósito de antigas memórias despertadas por mais um seu livro, em longa relação de que perdi a conta.

Quando rebusco nos meus papéis, nos velhos recortes de jornais por exemplo, dou frequentemente com ele. Aqui está um desses casos, em página do saudoso diário A Capital, com quase, quase, trinta anos. 30 de Janeiro de 1988. Fala de alguns dos primeiros livros do autor e revela curiosas declarações suas alusivas ao povo ali contido, nas preciosas recolhas de Hélder Pacheco.

Um dia destes, prometo, volto a este propósito.

Hélder Pacheco – Crónicas de Vida

Transcrevo parcialmente a seguir, de um artigo aqui publicado em 14 de Outubro de 2016 (Viseu 1973-1974 – um), os parágrafos que resumem o meu encontro e conhecimento com o professor Hélder Pacheco. Hoje, quase quatro décadas e meia depois, recordo ainda com incontornável emoção o cúmplice comportamento de um homem a quem devo boa parte da minha sobrevivência profissional.

Aos mais novos, os que sempre viveram na Democracia possível aqui instituída após Abril de 1974, será provavelmente difícil o entendimento das posições autoritárias e discriminatórias em curso no Portugal do Estado Novo. O doentio corporativismo praticado pela hierarquia escolar que encontrei em Viseu apenas foi quebrado pela visão progressista de um homem superior, coerente, avançado para o seu tempo e, sobretudo, para o clima vivido no seio do ensino de então.

Durante os seis meses anteriores a Abril de 1974 foi Hélder Pacheco, inspector e metodólogo, quem me defendeu das prepotências então reinantes na Escola Oliveira Salazar, permitindo as condições mínimas para a minha afirmação pessoal e profissional. A Revolução e as drásticas mudanças provocadas limitaram-se por isso a testemunhar o meu triunfo final, então já conquistado.

Fica assim sumariado o início de uma relação de amizade que nos levaria, e a outros, a aventuras pedagógicas, sociais e culturais antes impensáveis em domínios educativos. Como o ICAV, Iniciação à Comunicação AudioVisual, projecto inovador que se traduziu  numa saudável e prolongada relação com a Academia de Bordéus, sob a liderança de René la Borderie. Também já aqui deixei o testemunho do que foi esse contributo decisivo na formação de muitos professores e alunos.

A obra de Hélder Pacheco em muito ultrapassa tudo o que a Educação em Portugal lhe ficou devendo, pois o seu inquieto espírito de investigador e publicista têm-nos brindado com uma quantidade (e qualidade!) já impressionante de obras sobre o nosso património cultural, onde o Humanismo se mantém como tónica permanente de coerência pessoal. Por isso, registei com imenso agrado o destaque, mais um!, com que a nossa imprensa diária de qualidade há dias o lembrou.

Vale bem a pena ler a longa e significativa entrevista que o Público divulgou no passado dia 10. Por isso, com a devida vénia ao jornal, aqui fica a sua reprodução, antecedida da transcrição atrás aludida e de gratas imagens do arquivo pessoal, colhidas em Novembro de 1977 em Bordéus, na companhia, entre outras, de mais um comum amigo de excepção, infelizmente já desaparecido, o arquitecto e professor José Antunes da Silva.

António Martinó de Azevedo Coutinho

Em 1970 decidi aceitar o convite, algo arriscado, de abandonar o meu seguro lugar no Ensino Primário pela aliciante aventura de ingressar no novel Ensino Preparatório. Dispunha das condições “técnicas” para tanto exigidas, atraía-me o facto de reencontrar e aprofundar a paixão pessoal e a vocação de sempre, as artes plásticas, assim como a possibilidade de refazer uma carreira profissional mais aliciante.

Depois, o programa da disciplina de Desenho, logo a seguir denominada e bem de Educação Visual, continha desafios incontornáveis como por exemplo a prática de iniciações à linguagem do Cinema e da Banda Desenhada.

Não me arrependi da drástica decisão tomada, que concedeu um total e acertado sentido à minha vida profissional. Mas, como consequência da mudança, impunha-se a (re)conquista da segurança na nova carreira, onde se colocava a necessidade de frequência de um estágio e a sujeição a um Exame de Estado.

Assim, após a obtenção das condições exigidas, concorri a tais provas públicas. Para o ano lectivo de 1973-74, fui colocado para o efeito em Viseu, depois do tempo cumprido na Escola Preparatória de Cristóvão Falcão, em Portalegre.

Cheguei à cidade de Viriato embrenhado nos meus melhores sonhos, carregado das melhores expectativas, para aprender e para provar o mérito pessoal, conquistando com isso a garantia de uma definitiva estabilidade profissional.

O que aconteceu, logo à partida, foi um pesadelo.

Todos aqueles de quem iria depender, a orientadora do estágio, o inspector da zona e o próprio director da escola, foram unânimes na sua mensagem de “boas-vindas”: eu era um simples intruso, alguém desprovido do grau de “doutor” em Belas Artes como eles, um incauto e inculto professor primário que se atrevia a tentar abrir uma brecha na sua fortaleza de inexpugnável qualidade. Portanto, além e acima da lei, absurda, que permitira tal desplante, ali estariam eles, vigilantes, para a corrigir. Estava pois explicitamente traçada a minha sentença, mesmo antes de me ser permitida qualquer defesa.

Quando muitos anos mais tarde, tive em Portalegre ocasião de longamente discutir este episódio com o saudoso Professor Veiga Simão, ao tempo ministro e autor da reforma educativa que permitira a “revolução” chamada Ensino Preparatório, ele sorriu e disse-me que tivera conhecimento de muitos casos semelhantes ao meu. E garantiu-me que nunca se arrependera das inovadoras decisões legislativas  assumidas a tal propósito, porque entre os melhores profissionais com que então contou estavam precisamente os professores oriundos do Ensino Primário.

Mas em Viseu foram necessários o ânimo e o apoio com que a minha mulher nunca me faltou, o encorajamento dos amigos e a íntima convicção de ser preciso lutar contra tudo e contra todos para sobreviver e, se possível, me impor.

Impunha-se, pois, que não desistisse de acreditar em mim.

Encontrei um solitário mas poderoso aliado no professor metodólogo dos estágios do Norte que com regular frequência visitava a Escola Preparatória de Oliveira Salazar, assim se denominava -quase premonitoriamente- o estabelecimento de Viseu onde fui (mal) acolhido. O professor Hélder Pacheco, do Porto, constituiu o único mas bastante suporte local da minha resistência. Devo-lhe daí uma cumplicidade que se transformaria na sólida amizade de hoje e para sempre.

 

Saber viver

Não acho que ser pobre seja uma escola para a vida. Uma aprendizagem de carácter. E que, para enrijar o corpo (e a alma), seja, no primeiro caso, necessário levar porrada de criar bicho e, no segundo, passar dificuldades e comer o pão que o diabo amassou. Viver mal não é caminho para coisa nenhuma e, por isso, considero indigna a aceitação da normalidade de dois milhões de portugueses no limiar da pobreza! Posto isto, obliquo noutra direcção.

Para dizer que, não obstante, em país onde (pelos vistos) a miséria bate às portas, se estragam recursos, se desperdiça comida e gasta, em inúmeras situações, o que não se tem. Como repontava o meu saudoso amigo Melo: «Quem só tem dinheiro para carapau não devia comer lagosta». Há sítios onde, no final das refeições, causa repulsa ver o que sobrou. O que se deita fora. E há famílias (não tenho nada com a vida delas) onde os meninos são treinados não para viverem como cidadãos, mas para serem consumidores, esbanjadores ou predadores. A velha máxima dos tempos atrasados de que tudo o que se punha no prato era para comer foi para o caixote do lixo, com o desperdício. (Agora atenuado porque já há quem leve os restos).

Vem esta arenga a propósito de uma carta que me facultaram. Escrita em 1946 (no pós-Guerra, anos desgraçados para muita gente) por uma avó ao neto, do Bairro das Eirinhas, lugar de pobres e remediados. Revela algo que está a faltar: comedimento e atitude. Se quiserem, princípios. Ou saber viver.

Advertia então a avó: «O Fernandinho fica prevenido de quando não puder ou quizer cá vir comer, avisar de véspera para evitar despesas inuteis. O mesmo fará, quando precisar de vir, para [eu] saber com que se deve contar. Lucia». A isto chamo eu educação. Mas estou a ficar reaccionário –  afinal vivemos numa época moderna!

HÉLDER PACHECO

Prolongar a vida

Andamos preocupados com o envelhecimento. Uns porque, com tantos idosos, quem vai descontar para a Segurança Social? Outros obcecados em manter a forma e ficarem como novos. E há quem não saiba como preencher o tempo que foi ampliando. E os que só falam de doenças. (Como vai, está bem de saúde?) E os que se tornam forretas por desconhecerem até onde os dias esticam. E os transformados em esbanjadores e quem cá ficar que se amanhe. Etc.

Uma revista publicou o estudo sobre “Como viver até aos 100 anos”, mostrando na capa um ancião de 95 anos saltando acrobaticamente para a piscina. E adiantava perspectivas sobre o aumento da longevidade através de várias técnicas (transfusões de sangue, cremes de rejuvenescimento, manipulação de genes e mais novidades). E de actividades (jejuns intermitentes, meditação, andar e correr, restringir calorias, combater o «stress», deitar cedo. E por aí fora).

Passando por reaccionário face à previsão do mundo moderno, direi ter conhecido precursores destes métodos de remoçamento activo: D. Ana Soares (79 anos, modista) percorreu anos a fio a cidade a pé levando obra às clientes; Joaquim Pinto (85 anos, 50 de jornaleiro em Azevedo e Valbom); Rosa Mendonça (82 anos), operária e, depois, estafeta através do Porto; António Pereira (77 anos, com 50 de serralheiro); João Azevedo (81 anos, pedreiro aos 12 e, depois, encadernador); Laura das Neves (79 anos, analfabeta), banheira no Esteiro antes dos 14 e, depois, esmaltadeira; Rosa Machado (81 anos), tecedeira mais de 50 (reformada com 165$00). E poderia juntar muitos mais.

Enfim, estes são os meus atletas preferidos. Conjugam na perfeição o verbo vencer. Não têm P.T., nem frequentaram ginásios, mas venceram a adversidade e prolongaram a vida. Anónimos. Sem direito a saltos em revistas.

HÉLDER PACHECO

É hoje, é hoje

helder_pachecoAcertando a crónica neste dia 24, até parecia mal, não ficava bem ignorar a véspera de Natal. Até porque, para mim que carrego às costas a infância portuense, o Natal continua a ser a época mágica do sonho, da esperança e da fantasia. Da celebração.

A época de todas as doçuras. Por dentro, nos anseios de Paz, de um país mais fraterno e dos desejos de felicidade formulados a quem se conhece (e, para sermos coerentes com o tempo, até a quem não se conhece). Por fora e por dentro, no que se vê e dá para ougar e, depois, se saboreia até à última garfada ou colherada: rabanadas com molho, aletria, doces de bolina e de chila, formigos e bolo-rei. Os clássicos do Burgo, sem fusões nem derivações pós-modernas. E doçuras só por fora. Só de ver: extasiar-se a gente com as luzes da cidade, na árvore grande, azul e branca, reflectindo-se no tanque da eira da Avenida. Luzes que abrilhantam os olhos e enchem a alma (ou chamem-lhe o que quiserem mas pelo que vejo em algumas casas nos afãs de montar a Árvore, regressar ao Presépio e esmerar-se na Consoada, no Natal a alma ainda existe).

Sem dar por isso saiu crónica pela Nomenklatura cultural em absoluto considerada pirosa. Ainda assim, carregando na provocação não deixarei de falar do Presépio. O Presépio é – como hei-de dizer? – um caso de limpeza interior: tirar as figuras das caixas, fabricar as montanhas, construir uma cidade de cenário, alinhar os reis-magos, os pastores e o povo da Jerusalém de cá e, com dedos parecendo pelica, colocar a Sagrada Família no interior da cabana são actos de sentimento, gestos de ternura. Autêntica purificação. E eu, que nem sei bem no que acredito, até penso nestas coisas. (Enfim, hoje deu-me para a nostalgia. De qualquer forma, a crentes e incréus e a toda a gente de boa-vontade desejo Bom Natal.)

HÉLDER PACHECO