É hoje, é hoje

helder_pachecoAcertando a crónica neste dia 24, até parecia mal, não ficava bem ignorar a véspera de Natal. Até porque, para mim que carrego às costas a infância portuense, o Natal continua a ser a época mágica do sonho, da esperança e da fantasia. Da celebração.

A época de todas as doçuras. Por dentro, nos anseios de Paz, de um país mais fraterno e dos desejos de felicidade formulados a quem se conhece (e, para sermos coerentes com o tempo, até a quem não se conhece). Por fora e por dentro, no que se vê e dá para ougar e, depois, se saboreia até à última garfada ou colherada: rabanadas com molho, aletria, doces de bolina e de chila, formigos e bolo-rei. Os clássicos do Burgo, sem fusões nem derivações pós-modernas. E doçuras só por fora. Só de ver: extasiar-se a gente com as luzes da cidade, na árvore grande, azul e branca, reflectindo-se no tanque da eira da Avenida. Luzes que abrilhantam os olhos e enchem a alma (ou chamem-lhe o que quiserem mas pelo que vejo em algumas casas nos afãs de montar a Árvore, regressar ao Presépio e esmerar-se na Consoada, no Natal a alma ainda existe).

Sem dar por isso saiu crónica pela Nomenklatura cultural em absoluto considerada pirosa. Ainda assim, carregando na provocação não deixarei de falar do Presépio. O Presépio é – como hei-de dizer? – um caso de limpeza interior: tirar as figuras das caixas, fabricar as montanhas, construir uma cidade de cenário, alinhar os reis-magos, os pastores e o povo da Jerusalém de cá e, com dedos parecendo pelica, colocar a Sagrada Família no interior da cabana são actos de sentimento, gestos de ternura. Autêntica purificação. E eu, que nem sei bem no que acredito, até penso nestas coisas. (Enfim, hoje deu-me para a nostalgia. De qualquer forma, a crentes e incréus e a toda a gente de boa-vontade desejo Bom Natal.)

HÉLDER PACHECO

Um Aristocrata na República

helder_pachecoTínhamos em comum a paixão pelo Porto. Arrebatada e assumida. E o republicanismo. Na crença de que o governo do país deve ser exercido por indivíduos responsáveis pela sua acção perante quem os elegeu. Na defesa do Bem-Comum e de mãos limpas (quantas vezes falámos disto nas caminhadas de fim de tarde, entre a Câmara e a Picaria, quando percebemos que nesta República sem republicanos muitas mãos estavam a ficar cada vez menos limpas). Um republicanismo de sabor jacobino (ou não fôssemos tripeiros) matizado pela aceitação das diferenças. Da pele à religião, segundo o princípio “Vive e Deixa Viver”.01-miguel-veiga

Orgulhosos portuenses, portanto. Oriundos de dois dos extractos sociais que construíram a cidade. O Miguel, da grande burguesia fozeira, a quem o toque francês materno concedia a aura cosmopolita que o distinguia. Eu, da média (a cair para a pequena) burguesia vitoriana, com antecedentes em lavradores durienses, sem pedigree que não fosse o trabalho.

Talvez por isso nos entendemos tão bem. E fomos cimentando uma amizade iniciada com a luta estupenda contra o primeiro projecto dos Molhes da Foz e aprofundada ao longo de quase catorze anos ao serviço da qualificação da nossa cidade bem-amada. Sem reticências, aí nos encontrámos. Aí o encontrei na verdadeira face da sua integridade.

Quero dizer, da rectidão e inteireza da política na mais pura acepção da palavra. Não fabricado segundo a cartilha das Jotas, mas formado na plena consciência do papel dos cidadãos no destino dos países. Um político servindo a causa pública sem aspirar ao poder. E um fruidor da arte de viver, com prazer e sensações. Um cavalheiro e um cultivador admirável da língua portuguesa. Miguel Veiga: meu amigo inesquecível e aristocrata na República. Na inteligência, no saber e na cultura.

HÉLDER PACHECO

Toponímia pós-moderna

helder_pachecoDevido à falta de Escola e de cultura política, este país sempre teve uma relação oportunista e circunstancial com a toponímia. Conforme as épocas e os interesses (ou a ignorância), mudavam-se os nomes. E o Porto não fugiu a isso.

Basta ver o sucedido com a Rua Direita (ou Central) da Foz, a do Correio, a do Pombal, a da Cancela Velha, etc. E, sobretudo, a Praça de Velasquez (com o argumento de que nada tinha a ver com o Burgo), mudada para Sá Carneiro (por mim, deveria ter praça ou avenida, mas não à custa das raízes tripeiras daquele artista genial). E para verem ao que chega o despautério, já apareceram na Câmara da Invicta propostas para se trocarem Regeneração, Entrequintas, Entrecampos (por serem pouco relevantes!) pelos nomes de pessoas que os proponentes pretendiam homenagear (e até os Clérigos e St.ª Catarina estiveram por um fio…). Uma tristeza! Diga-se, no entanto, que, nos últimos decénios, graças à qualidade dos respectivos presidentes e ao rigor das várias Comissões de Toponímia, o Burgo tem sido poupado ao toponimicídio de afronta à sua identidade (assim «Deus o conserve», Júlio Dinis dixit.)

Mas, para além do atentado administrativo à toponímia, existe a versão light e pós-moderna do mesmo. Começou com o rebaptizarem a centenária Praça da Ribeira como Praça do Cubo (sem desprimor para o meu querido Zé Rodrigues, que nada teve com isso). E avançou agora para outra reinvenção pernóstica: chamarem Rua das Galerias de Paris à Galeria de Paris. Só uma e específica (esteve para ser passagem coberta com ferro e vidro, como na Europa, mas, infelizmente, em 1903, faltou coragem para tal audácia modernista).

Assim, ó gentes do Google, não brinquem mais com a Galeria. Deixem-na ficar sem descendência nem irmãs. No singular. Não inventem asneiras.

HÉLDER PACHECO

Ciência Política

helder_pachecoTrago no bolso um canhenho onde anoto o que me vem de fora e de dentro, de inventar. É um registo de coisas passadas ou de inspirações futuras. E, como os meus espaços privilegiados de audição são os autocarros, eis a «pescaria» de uma viagem no 207: «Foste trabalhar? Não, fui passear. Sozinho? Não, o autocarro levava muita gente.» Depois, entoado por uma passageira: «Quem canta, seu mal espanta / As mágoas do coração / Já cansei minha garganta / As mágoas ainda cá estão.» E outras demonstrações do povo a falar. No seu melhor.

Mas o mais profundo estava para vir. E veio quando dois passageiros encetaram uma conversa sobre ciência política à moda de Lordelo. Dizia um: «Estes tipos só sabem dizer mal.» E o outro: «No Governo atiram-se à Oposição. Na Oposição atiram-se ao Governo.» E «Dizem cobras e lagartos uns dos outros, conforme estão em cima ou em baixo.» Ao saírem, nas Condominhas, concordaram «ninguém se entender» e «todos quererem mama.» E o que já não ouvi. Pus-me então a pensar onde tinha lido isto. Mais ou menos.

Procurei e encontrei. Em Ramalho, “As Farpas”, 1874. Assim: «As folhas ministeriais [leia-se, oficiais] diziam: “Vejam como o talento pulula e como a arte floresce sob a sábia administração de um governo rasgadamente civilizador e amante do fomento e da ordem. A oposição é uma besta!”. Os periódicos oposicionistas obtemperavam: “E todavia muito mais rica (…) seria a Vestimenta do vosso mui amado rei, se à frente dos negócios estivessem homens que falassem menos no fomento e na civilização e cuidassem mais na administração da riqueza pública. O governo é um burro!”»

Conclusão: como em Portugal a História se repete, os candidatos à carreira política deviam ser obrigados a ler “As Farpas”. Ou a andarem de autocarro. Para melhor serviram o país.

HÉLDER PACHECO

Sem tréguas

Ahelder_pachecos férias trouxeram-me a leitura de um delicioso estudo de História bem escrita do Prof. Aurélio de Oliveira sobre “As Revoltas do Porto em 1591-92”. Aludia à oposição da cidade a Filipe II, quando este repôs as fronteiras e alfândegas que tinha abolido, prejudicando a livre-circulação com Espanha.

Desconhecia tal contestação. Vai daí, pus-me a fazer o inventário das revoluções, revoltas e motins portuenses ao longo da História. Abreviadamente: contra o Bispo, 10 (originando 6 excomunhões ou interditos da cidade; por razões políticas, 8; contra Castela, 7; por causa dos impostos, 3; contra os franceses, 2; pelos preços do pão, 2; por motivos religiosos, 2; contra os fidalgos, 1; contra importações, 1. Total, 36. Não é mau. Falta, no entanto, o longo processo de contestação ao Terreiro do Paço, que só não deu motins porque, apesar de tudo, o Porto é mais sereno do que parece.

Tem aguentado provocações, esbulhos, ofensas e remoques dos marialvas na reserva. («Quando virá uma boa aragem que lave tantos miasmas?» Antero de Quental, Cartas). Para não falar da famigerada história do B.P.A., recordo o que estorcegaram da «revolta pelo Coliseu», do Centro Português  de Fotografia no Porto e, recentemente, da vinda dos Mirós para cá.

A respeito dos apetites devoradores dos centralistas, descobri que em 1844, morto e enterrado um dos melhores governos do país (com evidente influência portuense), o que se lhe seguiu era de tal quilate que a Associação Comercial do Porto nomeou «uma comissão especial encarregada de elaborar protestos contra medidas governamentais.»

Ideia magnífica! Daqui exorto a Excelentíssima Câmara tripeira a constituir uma comissão análoga para responder à medida contra tudo aquilo que ofenda, descrimine e atinja as razões e direitos do Burgo. Sem tréguas.

HÉLDER PACHECO

 

Da pouca vergonha

helder_pachecoEm 1975, Jacques Rigaud escrevia: «Quase dois séculos de democracia não impediram a política de constituir uma imensa impostura, a arte de conduzir os homens enganando-os.» Talvez por isso meu pai, republicano desde o 3 de Fevereiro de 27, pouco antes de morrer, em 1990, referindo-se ao que via, dizia que tudo isto lhe metia nojo. Lá tinha as suas razões.

Se fosse hoje, verificaria que a «imensa impostura» é global, vendo o descaramento, a falta de pudor e o oportunismo com que os mandantes europeus, sob a batuta alemã, procuraram assaltar a ONU, impondo Madama Kristalina, contra tudo e todas as regras!

Felizmente cilindraram a candidata com oito rejeições! E o meu habitual leitor, letrista e gazetilheiro, logo me enviou versos apropriados à desvergonha (troca Kristalina por Kristalisa, mas perdoa-se-lhe): «Batem forte, fortemente / Como quem acorda um morto / Quem será o indecente / Que tem um bater tão torto? / O Guterres lá foi ver / Deu logo para entender / Que era a D. Kristalisa / Que pela sombra desliza / Fazendo ao Guterres frente / Ora isto é indecente / Quando se passa rasteira / Quase ao fim da caminhada / Por mais que seja matreira / Porque assim não vale nada! A Senhora Kristalisa / Tropeçou talvez com medo / Porque apanhou uma lisa / Ficando a chuchar no dedo! / E o Guterres foi eleito (…) Quanto às Nações Unidas / Coitadas, andam despidas / Por tanta desunião. / Vão ser agora arrumadas / Isto é: vão ser mudadas / Com o Guterres a patrão!»

Embora haja quem ache, nos tempos que correm, o amor ao país (por muito que o critiquemos) cousa parola e bafienta, indígena da Vitória me confesso. Exultei com a derrota dos donos da Europa e ainda mais com a nomeação de um português para a ONU. Sabe-me bem quando esta beira de terra ganha alguma coisa.

HÉLDER PACHECO