Toponímia pós-moderna

helder_pachecoDevido à falta de Escola e de cultura política, este país sempre teve uma relação oportunista e circunstancial com a toponímia. Conforme as épocas e os interesses (ou a ignorância), mudavam-se os nomes. E o Porto não fugiu a isso.

Basta ver o sucedido com a Rua Direita (ou Central) da Foz, a do Correio, a do Pombal, a da Cancela Velha, etc. E, sobretudo, a Praça de Velasquez (com o argumento de que nada tinha a ver com o Burgo), mudada para Sá Carneiro (por mim, deveria ter praça ou avenida, mas não à custa das raízes tripeiras daquele artista genial). E para verem ao que chega o despautério, já apareceram na Câmara da Invicta propostas para se trocarem Regeneração, Entrequintas, Entrecampos (por serem pouco relevantes!) pelos nomes de pessoas que os proponentes pretendiam homenagear (e até os Clérigos e St.ª Catarina estiveram por um fio…). Uma tristeza! Diga-se, no entanto, que, nos últimos decénios, graças à qualidade dos respectivos presidentes e ao rigor das várias Comissões de Toponímia, o Burgo tem sido poupado ao toponimicídio de afronta à sua identidade (assim «Deus o conserve», Júlio Dinis dixit.)

Mas, para além do atentado administrativo à toponímia, existe a versão light e pós-moderna do mesmo. Começou com o rebaptizarem a centenária Praça da Ribeira como Praça do Cubo (sem desprimor para o meu querido Zé Rodrigues, que nada teve com isso). E avançou agora para outra reinvenção pernóstica: chamarem Rua das Galerias de Paris à Galeria de Paris. Só uma e específica (esteve para ser passagem coberta com ferro e vidro, como na Europa, mas, infelizmente, em 1903, faltou coragem para tal audácia modernista).

Assim, ó gentes do Google, não brinquem mais com a Galeria. Deixem-na ficar sem descendência nem irmãs. No singular. Não inventem asneiras.

HÉLDER PACHECO

Ciência Política

helder_pachecoTrago no bolso um canhenho onde anoto o que me vem de fora e de dentro, de inventar. É um registo de coisas passadas ou de inspirações futuras. E, como os meus espaços privilegiados de audição são os autocarros, eis a «pescaria» de uma viagem no 207: «Foste trabalhar? Não, fui passear. Sozinho? Não, o autocarro levava muita gente.» Depois, entoado por uma passageira: «Quem canta, seu mal espanta / As mágoas do coração / Já cansei minha garganta / As mágoas ainda cá estão.» E outras demonstrações do povo a falar. No seu melhor.

Mas o mais profundo estava para vir. E veio quando dois passageiros encetaram uma conversa sobre ciência política à moda de Lordelo. Dizia um: «Estes tipos só sabem dizer mal.» E o outro: «No Governo atiram-se à Oposição. Na Oposição atiram-se ao Governo.» E «Dizem cobras e lagartos uns dos outros, conforme estão em cima ou em baixo.» Ao saírem, nas Condominhas, concordaram «ninguém se entender» e «todos quererem mama.» E o que já não ouvi. Pus-me então a pensar onde tinha lido isto. Mais ou menos.

Procurei e encontrei. Em Ramalho, “As Farpas”, 1874. Assim: «As folhas ministeriais [leia-se, oficiais] diziam: “Vejam como o talento pulula e como a arte floresce sob a sábia administração de um governo rasgadamente civilizador e amante do fomento e da ordem. A oposição é uma besta!”. Os periódicos oposicionistas obtemperavam: “E todavia muito mais rica (…) seria a Vestimenta do vosso mui amado rei, se à frente dos negócios estivessem homens que falassem menos no fomento e na civilização e cuidassem mais na administração da riqueza pública. O governo é um burro!”»

Conclusão: como em Portugal a História se repete, os candidatos à carreira política deviam ser obrigados a ler “As Farpas”. Ou a andarem de autocarro. Para melhor serviram o país.

HÉLDER PACHECO

Sem tréguas

Ahelder_pachecos férias trouxeram-me a leitura de um delicioso estudo de História bem escrita do Prof. Aurélio de Oliveira sobre “As Revoltas do Porto em 1591-92”. Aludia à oposição da cidade a Filipe II, quando este repôs as fronteiras e alfândegas que tinha abolido, prejudicando a livre-circulação com Espanha.

Desconhecia tal contestação. Vai daí, pus-me a fazer o inventário das revoluções, revoltas e motins portuenses ao longo da História. Abreviadamente: contra o Bispo, 10 (originando 6 excomunhões ou interditos da cidade; por razões políticas, 8; contra Castela, 7; por causa dos impostos, 3; contra os franceses, 2; pelos preços do pão, 2; por motivos religiosos, 2; contra os fidalgos, 1; contra importações, 1. Total, 36. Não é mau. Falta, no entanto, o longo processo de contestação ao Terreiro do Paço, que só não deu motins porque, apesar de tudo, o Porto é mais sereno do que parece.

Tem aguentado provocações, esbulhos, ofensas e remoques dos marialvas na reserva. («Quando virá uma boa aragem que lave tantos miasmas?» Antero de Quental, Cartas). Para não falar da famigerada história do B.P.A., recordo o que estorcegaram da «revolta pelo Coliseu», do Centro Português  de Fotografia no Porto e, recentemente, da vinda dos Mirós para cá.

A respeito dos apetites devoradores dos centralistas, descobri que em 1844, morto e enterrado um dos melhores governos do país (com evidente influência portuense), o que se lhe seguiu era de tal quilate que a Associação Comercial do Porto nomeou «uma comissão especial encarregada de elaborar protestos contra medidas governamentais.»

Ideia magnífica! Daqui exorto a Excelentíssima Câmara tripeira a constituir uma comissão análoga para responder à medida contra tudo aquilo que ofenda, descrimine e atinja as razões e direitos do Burgo. Sem tréguas.

HÉLDER PACHECO

 

Da pouca vergonha

helder_pachecoEm 1975, Jacques Rigaud escrevia: «Quase dois séculos de democracia não impediram a política de constituir uma imensa impostura, a arte de conduzir os homens enganando-os.» Talvez por isso meu pai, republicano desde o 3 de Fevereiro de 27, pouco antes de morrer, em 1990, referindo-se ao que via, dizia que tudo isto lhe metia nojo. Lá tinha as suas razões.

Se fosse hoje, verificaria que a «imensa impostura» é global, vendo o descaramento, a falta de pudor e o oportunismo com que os mandantes europeus, sob a batuta alemã, procuraram assaltar a ONU, impondo Madama Kristalina, contra tudo e todas as regras!

Felizmente cilindraram a candidata com oito rejeições! E o meu habitual leitor, letrista e gazetilheiro, logo me enviou versos apropriados à desvergonha (troca Kristalina por Kristalisa, mas perdoa-se-lhe): «Batem forte, fortemente / Como quem acorda um morto / Quem será o indecente / Que tem um bater tão torto? / O Guterres lá foi ver / Deu logo para entender / Que era a D. Kristalisa / Que pela sombra desliza / Fazendo ao Guterres frente / Ora isto é indecente / Quando se passa rasteira / Quase ao fim da caminhada / Por mais que seja matreira / Porque assim não vale nada! A Senhora Kristalisa / Tropeçou talvez com medo / Porque apanhou uma lisa / Ficando a chuchar no dedo! / E o Guterres foi eleito (…) Quanto às Nações Unidas / Coitadas, andam despidas / Por tanta desunião. / Vão ser agora arrumadas / Isto é: vão ser mudadas / Com o Guterres a patrão!»

Embora haja quem ache, nos tempos que correm, o amor ao país (por muito que o critiquemos) cousa parola e bafienta, indígena da Vitória me confesso. Exultei com a derrota dos donos da Europa e ainda mais com a nomeação de um português para a ONU. Sabe-me bem quando esta beira de terra ganha alguma coisa.

HÉLDER PACHECO

Afinal enganei-me

helder_pachecoNuma frase à nossa moda, o escritor brasileiro Érico Veríssimo escreveu: «Os portuenses não cultivam o salamaleque, não costumam dançar minuetos.» Na medida das minhas posses, pratico o menos possível tais danças de salão. Nessa tal condição, não me custa dar a mão à palmatória. Dizer que não fui justo e evitar o pecado da ingratidão. De «Ser cão que não conhece o dono» (salvo seja).

Reconheço, portanto, que me enganei quando, em crónica de 6.8.16, evocando S. Tomé e o seu «ver para crer», dizia só acreditar que os quadros de Miró viessem para o Porto se os visse aqui fixados (expostos não me chega). E que, para isso, teria de acontecer milagre superior ao de Ourique. Afinal, apesar de um imperialista ter bolsado enormidades contra a vinda dos Mirós «que no Porto teriam pouco público» (segundo me contaram, pois não li a alarvidade), vieram. E ainda bem.

Desta vez «os esbanjadores de Lisboa» (Torga dixit) não conseguiram impor a sua fúria monopolista. Não conseguiram acrescentar mais um trunfo ao seu estômago devorista dos recursos do país. Não conseguiram abarbatar um património essencial à repartição da cultura pelas províncias. Exulto com isso.

Foi engano ou os ventos da História bufam noutro sentido, favorável a um conceito digno de uma democracia decente – repartida, justa e mais igual na sua integridade? Estarei sonhando e os Mirós ficam mesmo? Se assim for, louvo os responsáveis pelo gesto. Dou o braço a torcer. Estamos tão pouco habituados a ver o Terreiro do Paço ser magnânimo que até custa a acreditar.

Peço, pois, desculpa aos senhores que mandam nisto, mas têm de compreender o seguinte: já Sá de Miranda (1487-1558) dizia «não me temo de Castela / donde inda guerra não soa / mas temo-me de Lisboa / que ao cheiro desta canela / o reino nos despovoa.»

HÉLDER PACHECO

Honra aos Clérigos

helder_pachecoPelos anos 80, subi à Torre dos Clérigos em sistema artesanal. Na entrada, estava a porteira, mulher simples, muitas vezes rodeada pelos filhos. Esportulávamos 5 escudos e ela passava os bilhetes do acesso. E subia-se.

Subia-se pela negridão. Pisando papéis, pontas de cigarros e outras coisas. Tropeçando nos degraus, acendendo isqueiros para alumiar. Além da vista sobre a cidade, a Torre prestava-se para quase tudo – próprio e impróprio – e ia dando uns cobres, não muitos, à Irmandade.

Em 2012, frequentei o Arquivo dos Clérigos. E mais os esconsos do Hospital dos ditos, salas e salões, quartos e enfermarias. A sede da Venerável Irmandade de N.ª S.ª da Misericórdia dos Clérigos Pobres da Cidade do Porto e a sua Igreja. Percorrê-la era um exercício melancólico entre o terror (com ossários à vista e buracos no chão), o espanto (pela incúria e desolação), o desânimo (pela percepção do valor do espólio acumulado ao longo de séculos) e a repugnância (pelo lixo, os ratos, excrementos de pombas e vestígios de uma presença extinta). O absurdo de um património a caminho da perdição.

No ano da graça de 2016, a Irmandade dos Clérigos recebeu o Prémio Vilalba, da Fundação Gulbenkian, distinguindo a reabilitação da Igreja, Hospital e Torre. Numa operação arquitectónica e de restauro exemplar, a cidade reconquistou o seu ícone, convertido em pólo de actividade cultural e económica.

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Só uma ideia dos visitantes: 1922 – 3 108; 1979 – 28 720; 1991 – 62 253; 2011 – 131 539. Em Julho de 2015 atingiu 1 milhão e, este ano, chega aos 2 milhões, passando de 3 para 11 empregos. Isto significa talento de bem fazer, categoria para converter o abandono em esplendor, sabedoria para ultrapassar as dificuldades e ganhar o futuro. A obra dos Clérigos honra o Porto e é exemplo para o país.

HÉLDER PACHECO